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ela prefere as uvas verdes HISTÓRIAS DE PERDAS E ENCONTROS


Jader Pires

ela prefere as uvas verdes HISTÓRIAS DE PERDAS E ENCONTROS

São Paulo

2014


Copyright © 2014 Jader Pires Copyright © 2014 Editora Empíreo Capa – Mateus Valadares Projeto Gráfico – Rafael Acatauassú Revisão – Matheus Perez

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Pires, Jader Ela prefere as uvas verdes : histórias de perdas e encontros / Jader Pires -- São Paulo : Empíreo, 2014. isbn 978-85-67191-02-7 1. Contos brasileiros I. Título.

14 – 00922

cdd –869.93

Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Literatura brasileira 869.93

2014 Todos os direitos desta edição reservados à e di t or a e m p í r e o Rua Tagipuru, 197, cj. 5 01156-000 – São Paulo – SP Telefone (11) 3368 8111 www.editoraempireo.com.br contato@editoraempireo.com.br


Para Rose e Jadir, meu princ铆pio. E para Lilian, meu n贸.


A mulher do médico abriu a janela, olhou para a rua, lá estavam todos, sentados no chão, pacientemente esperando, o cão das lágrimas foi o único que levantou a cabeça, deu-lhe aviso o subtil ouvido. O céu, outra vez coberto, começava a escurecer, a noite vinha chegando. – José Saramago, Ensaio sobre a cegueira


ÍNDICE Filho do carnaval 11

“O grande Henrique Pedroso está de volta!” 25

Tô chegando, amor 39

Não dava para olhar 49

A dor que menos importa 59

Ela era ela e eu era eu 69

Chafurdando na lama 79

Saudades da rosquinha 89

Fortuna 103

A única verdade 117

Geraldo 127

Amores à distância 137

O último conto 149


FILHO DO C ARNAVAL


A assepsia do corredor lhe dava um desconforto emocional inapropriado pro momento. Não que tivesse medo de hospitais ou coisa parecida, apenas não conseguia aceitar que a sorte é testada a todo momento e não só naquela ocasião que o lançava completamente na mais profunda das teorias dos jogos. O médico havia explicado que era algo raro, que não conhecia nem meia dúzia de casos iguais mas que, por sorte, seria reversível para o bem.


Era, aparentemente, uma gestação saudável, todos os exames indicavam uma gravidez sem nenhum problema, todo o período acompanhado de perto por uma equipe competente de médicos, graças ao excelente plano de saúde da mulher. Era o primeiro filho do casal, os dois excitados com a vinda de uma criança que selaria um companheirismo considerado por eles como fora dos padrões. Um filho. Planejaram tudo desde o começo, comemoraram a ideia bem-sucedida de gerá-lo em fevereiro. “Um filho do carnaval”, eles sempre diziam, rindo. O enxoval foi todo composto para abraçar essa brasilidade pensada. Era tudo uma farra, desde as roupinhas até a cor do quartinho e do cartão de convite para o chá de bebê. Compraram inclusive um disco com músicas do Chico, rearranjadas como canções de ninar. “É o meu guri”, ele vivia dizendo no trabalho. Nas épocas de desejo, não se sabe se por real vontade ou pura mazela do circo montado em torno disso, ela sempre pedia comidas bem brasileiras. Em um desses surtos degustativos, queria porque queria comer umbu, uma fruta do sertão nordestino que ela descobriu lendo em algum livro e que chamou sua atenção pela árvore de copa larga que sempre lhe pareceu oferecer uma sombra cheia de aconchego. Mas quem pensaria em Brasil numa hora dessas? Na primeira semana do oitavo mês ela começou a sentir dores cada vez mais fortes, pinçadas cada vez mais incô-

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modas. Mesmo com toda a calmaria dos médicos, não havia como sua mulher ignorar esses pequenos talhos imaginários na região estomacal. Correram pro hospital no começo da noite e em pouco mais de uma hora ele estava lá, em pé naquele corredor exemplar quanto à limpeza e à solidão. Lá, parado e em pé para não se contaminar com tamanha higiene, seus pensamentos flutuavam cambaleantes pelo desequilíbrio desleal que carregava o ar do hospital. Todas as vitórias de uma década de funcionamento não venceriam, jamais, uma morte que acontece em um lugar como esse. Não adianta botar em números, estampar nas propagandas. É ali que pessoas morrem e perdem, de um jeito ou de outro. Não naquele dia. O enigma truncado só seria resolvido abrindo a barriga de sua esposa. Um parto às pressas, quase feito sem querer, já que o que eles estavam procurando era a causa das dores. O sofrimento físico não era para menos quando a equipe médica descobriu que o feto tinha ganhado vida na cavidade abdominal da mãe. De tão incomum, nenhum dos profissionais conseguiu conceber a ideia de que aquele poderia ser um caso de gestação fora do útero. Acontece, literalmente, um caso em um milhão. O filho deles cresceu entre as alças do intestino da mãe, depois de uma manobra desastrada da fecundação, na qual o óvulo deveria percorrer o caminho pelas trompas,

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mas fazendo o caminho contrário, atravessou o abdômen e se alojou do lado de fora de útero. Daí vem a raridade do acontecimento. O normal é a gravidez não se desenvolver. Só que, para esse evento, o óvulo foi parar no único ponto específico em que poderia receber oxigênio e nutrientes. Um tiro certeiro do acaso. Exatamente aquilo que todos poderiam chamar de milagre. E assim foi. A cesariana de emergência confirmou a surpresa e salvou, enrolada no intestino e esmagada embaixo do fígado da mãe, uma criança saudável. Mesmo prematura, todos os órgãos funcionavam perfeitamente e a criança sobreviveu sem grandes problemas, apenas com uma mínima deformidade no pezinho direito, dada a posição dentro da barriga da mãe. Nada que não pudesse ser consertado durante a vida. O asseio dos corredores já não tomavam sua atenção enquanto o doutor explicava, com todos os pormenores técnicos, como foi o procedimento cirúrgico, como mãe e filho estavam, o que deveria ser feito dali em diante. Orgulhoso de ter participado daquele êxito, o médico deixou escapar: “É um milagre da medicina, amigo”. Ele haveria de ouvir isso muitas vezes. Logo pela manhã, amigos e familiares começaram a chegar e a história começou a ser repetida inúmeras vezes. Perguntavam sobre a mãe e a criança, ben-

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diziam os médicos, louvavam e riam e se abraçavam e levavam-no de um canto a outro enquanto ele tentava botar a cabeça no lugar e abstrair da frustração que estava sentindo. Queria que tudo tivesse dado certo, que pudesse não ter passado por aqueles momentos tétricos; que, em vez de ligações na madrugada, tivesse distribuído charutos ou cigarros, que estivesse bêbado de uísque, tão exaltado quanto os irmãos e colegas que chegavam. Era para ser uma celebração plena e não aquele cuspe aliviado, aquela sensação de que estava feliz não por si mesmo, mas porque algo maior havia acontecido. Estava cansado demais e já esboçava uma simpatia terrosa que se fez perceber. Precisava dormir. Enquanto todos construíam o mito do milagre, ele se recostava no sofá do corredor do hospital para botar o sono em dia. Menos de duas horas foram o suficiente para que ele acordasse de saudades e carregando consigo outro homem. Já não era mais o espectro do que havia sido. Saltou convidativo e foi cumprimentar os que ainda estavam lá, os que deixaram seus afazeres para prestar ajudas e participar de um grande acontecimento da história. Afinal, não é todo dia que nasce aquele que veio único entre um milhão de iguais. Eles estavam presenciando o milagre e, como presente, foram os primeiros a saber o nome da criança.

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“Vai se chamar Aquiles”, disse, botando todo o ar que podia dentro do peito. Aquele que acabara de nascer era um herói, um resistente, meio humano e meio divino. Seu filho era um bravo, batalhador, cheio das qualidades que superavam de longe o pequeno defeito no pé direito. Tão logo pudesse, botando seus planos de volta aos trilhos, iria para Bahia com o fedelho e sua mulher, a fim de molhá-lo no mar ao som de Dorival Caymmi. Sua mulher ia adorar a ideia. Parecia que tinha absorvido toda a felicidade do mundo pelos poros. Cada sorriso o acometia um contentamento bobo, um orgulho com toda a razão de ser para aquele momento. Ao entrar no banheiro para lavar o rosto, chorou enquanto gargalhava. As semanas que se seguiram tiveram o mesmo tom de histeria coletiva. Já havia aparecido na televisão e nos jornais para contar a história do milagre da medicina que involuntariamente acabou sendo a base de sua nova família. Pessoas o paravam na rua de casa, mandavam boas vibrações, diziam para ele ficar com Deus. Em casa, o pequeno Aquiles representava toda a confiança da humanidade. Era ele a afirmação de que pode-se, sim, muito mais. Uma afirmação que chorava bastante e cagava uma pastinha de tom verde-escuro. O pai virou um babão. Queria aprender cada

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minúcia da mecânica de se cuidar de um filho e estudava cada microexpressão ou movimento do garoto para ter, de bate-pronto, a melhor solução em qualquer circunstância. Nem de longe seu filho seria um fardo, mas o oposto disso. Não mimado, não cuidado em demasia, só uma sinergia trabalhada para ultrapassar a relação progenitor e fruto. A curiosidade passou de pai para filho. O pequeno Aquiles descobriu rápido como andar, com poucos meses passados do primeiro aniversário. Os primeiros passos foram dados de mãos dadas com o pai. Ao se levantar e perceber que estava indo para frente, o menino apressou uma marcha burra na direção da janela. Queria ver a claridade lá de fora. Mais tarde no tempo, se encantou com a textura da grama, com reflexo colorido das bolas de sabão que seu pai magicamente fazia brotar de um pedaço torto de metal fino. Aos sete nasceu o irmão, um bebezão de três quilos e meio e com a cara da mãe. Veio ao mundo de parto normal e assim que entrou em casa carregado no colo, virou fascínio instantâneo do milagroso primogênito. O pequeno Aquiles era todo dengo com a nova figura do lar, tomava sustos divertidíssimos com os movimentos bruscos do irmão mais

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novo. Não havia ciúme ou dúvidas por parte de Aquiles, só uma vontade inerente de passar o máximo de tempo junto com o recente agregado. Chegava da escola e ia direto pro quarto dos pais. Encantava-se com o reflexo da luz do sol na parede, refletida pelos penduricalhos que dançavam incansáveis sobre o berço do segundo filho. Certa vez, o pai despertou de um cochilo de minutos no sofá e não deu pela presença de Aquiles. Caçando pela casa, chamando seu nome, foi encontrá-lo dormindo todo dobrado dentro do leito cercado do irmãozinho. A cena deu uma bela foto que, emoldurada e pendurada na sala, renderia deliciosos momentos contemplativos aos pais. Era lindo demais de se ver. A mãe perdeu as contas das tantas vezes que chegou em casa e foi de meias até o batente da porta para ver os três garotões brincando no quarto das crianças, fazendo cabaninhas com o lençol, só um foco de luz da lanterna pendurada por um pedaço de barbante enquanto eles gargalhavam, contavam histórias pro caçula, faziam minúsculas batalhas com brinquedos ou apenas praticavam uma competição para ver quem falava por último. Mais ainda, certo dia ela pegou o menor profundamente intrigado com as formas do jovem Aquiles por trás da cortina branca. O menino novo passava as mãozinhas suaves no rosto do irmão mais velho, olhava com

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olhos novos a recém-descoberta translucidez da matéria. Naquele dia, ela chorou de felicidade e contou tudo pro marido que, só de escutar, também se deixou levar pelas lágrimas. “Somos dois tontos”, ela disse no meio do abraço. Por conta da leve deformidade ao nascer, Aquiles não chegava a mancar, mas tinha o caminhar pontuado, sempre com o lado direito andando na ponta do pé. “É para ficar mais pertinho do céu”, dizia a mãe sempre que o pegava para acarinhar daquele jeito cheio de beijos e com um cafuné que o garoto sempre adorava. Lá pelos dezesseis anos, ficou horas enchendo os ouvidos do pai com perguntas sobre a cirurgia que faria no calcanhar, e este lhe contava todos os detalhes, prometendo sucesso em todo o procedimento. Afinal, estava falando do milagre da medicina. O que seria um cortezinho no pé daquele que veio ao mundo permeado de incertezas bem maiores e mais complexas? Uma cicatriz de quatro dedos e uma quantidade absurda de histórias. O pai de Aquiles ensinou a maioria delas, para quando alguém perguntasse sobre a marca evidente perto do tornozelo. Não por vergonha, mas porque era legal aguçar a criatividade e a curiosidade alheia. Falava de uma aventura de skate, de uma tentativa infrutífera de escalar um muro de quinze metros, gesticulava para explicar a luta que travou com um nin-

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ja que tentara entrar em sua casa ou de quando quase entrou para o Cirque du Soleil. Quando inventava uma nova epopeia pueril, corria para contar ao pai que ria e incitava outras conversas, já que o filho estava naquela fase de começar um caminho que, mais tarde, deixaria seu velho cheio de orgulho. Aquiles tinha um fraco pelas mulheres. Ainda no colégio, abusava do nome forte. Seu porte atlético e juvenil, somado a sua postura de garoto sempre original e criativa, davam a ele toda a popularidade da escola. Não foi difícil fazer a matemática e entender que as menininhas da sala olhavam de modo diferente para ele, riam mais efusivas quando ele era o autor das graças descabidas que todo moleque faz nessa idade. Rapidamente ele conseguia colocar em prática todas as sentimentalidades apropriadas para colecionar nomes em sua lista mental de conquistas. Conversava tudo de forma natural em casa, com o pai. Mesmo com dois filhos e aquela amabilidade sempre bem dividida, ele gostava muito de estar com o Aquiles, de fazer valer aquele tal milagre de mais de uma década. Sempre aberto, compartilhava com o filho mais velho suas malandragens de solteiro, contava e recontava a bela história de como se apaixonou pela mamãe, de quando fumou o primeiro baseado e como fez para contar para o avô do abelhudo Aquiles que bateu o carro quando ainda não

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tinha permissão para dirigir. O menino guardava os detalhes na cabeça, imaginava as cenas enquanto os olhos, preguiçosos, fitavam o teto ou os detalhes na cadeira da cozinha. Foi perto das onze da noite que o telefone tocou. Era um daqueles sábados terrivelmente quentes de janeiro. O pai não estava dormindo quando apareceu em seu celular: “Aquiles”. Ainda era cedo para buscar o adolescente da festa que estava, no prédio do amigo. Uma voz forte fez o velho pai arrumar a postura no sofá e perguntar quem estava falando. Tudo foi explicado de um jeito muito maluco. A caminho do hospital, sua cabeça funcionava de trás para frente, montando memórias do garoto forte e mulherengo que virava um menino curioso e que diminuía de tamanho até se transformar em um feito ímpar da medicina. As palavras lhe chegavam ocas. Não conseguiu encaixar a série minúscula de acontecimentos. Dança, amigos, bebida, suor, três no carro, o impacto, a ambulância, as paradas cardíacas em sequência e o óbito dado logo nos primeiros minutos do dia seguinte. Não conseguia se encaixar em um mundo onde seu filho, o mais velho, o milagre da medicina, estivesse morto. Do lado de fora, de frente para a porta automática do pronto-socorro, botou as mãos no joelho e ficou tentando enfiar uma quantidade suficiente de ar dentro dos pul-

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mões. Um dos amigos de seu filho parou na sua frente com toda a maturidade que sua idade permitia e disse: “O Aquiles não queria ir. Disse que, se o pai dele soubesse, ia brigar muito com ele”. O pai pôs-se a chorar desavergonhadamente. Não pela tragédia que tirara, há pouco, sua obra milagrosa, mas pela tristeza de imaginar seu pequeno, o maior amor da sua vida, com medo do pai. Um único médico chegou para contar sobre o acidente. Explicou o funcionamento do corpo e do cérebro, a inevitabilidade do acontecido, que um traumatismo com aquela intensidade era completamente impossível de se reverter. “Nem um milagre conseguiria salvar seu filho, senhor”.

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Primeiro conto do livro "Ela prefere as uvas verdes". Para conquistar os leitores, os autores de contos precisam dominar a ciência da estru...

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