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Contos Poesia Crítica Artes

ano 1, nº 1


Editorial Por que Lara?

Poesia traduzida Soneto 138 de Shakespeare Poema de Byron Paráfrase da paráfrase de Yeats a poema de Ronsard

Poesia original Convite para uma festa Davi e o gigante Aurora Ato I Reading the Malatimadhava Poema Autoreferencial Belo Horizonte São Sebastião Floricultura E quando escuto chamarem meu nome Te esqueci quando transformei teu nome em palavra #curtacontos

Contos Brainstorm Memória Sobre Espelhos e Tangos

Resenha McTeague - Uma História de São Francisco

Ensaio Modernização e Alienação: O Centenário 1914-2014

Mini-Conto Injeção Letal

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Revista Lara | ano 1, nº 1

Editorial O Romance dos Três Reinos começa com a mesma frase que termina. A última frase do livro ilegível de Joyce é também o começo da primeira. Quem sabe o primeiro número dessa revista não seja também o último? Ou será que Lara já foi escrita e estamos apenas a reeditá-la, apesar dessa edição ser a primeira. Afinal, como dizia o sábio de estagira, as mesmas coisas foram inventadas e reinventadas ao longo do tempo várias e várias vezes. Nossos críticos dizem que estamos a reinventar a roda. Afinal, revistas literárias não nascem, morrem. A resposta está na própria pergunta, afinal na literatura todo fim é também um começo, da mesma forma que todo começo é também um fim. Será que os fins justificam os meios? Não pretendemos polemizar, afinal nosso caráter revolucionário está em não sermos revolucionários. Nossa maior inovação é admitir que não inovamos nada que já não tenha sido inovado. Afinal, o que é inovar? Inovar é esquecer, disse um Borges esquecido do Eclesiastes, livro que nos dá a motivação maior para a publicação desta revista. Nem os olhos dos leitores se cansam de ler nem seus ouvidos se cansam de ouvir. Outras revistas disseram que seu propósito era a refundação ou reinterpretação da literatura, mas a nós basta conseguir, ao cabo, contribuir com uma frase que seja no grande jogo de Whitman. Seguiremos como regra não possuirmos regras. E é exatamente por observarmos a regra acima que não a observamos. Mas afinal de que lado estamos? Nossa resposta é uma fita de Moebius. Onde um lado é todos os lados, não há que se falar em lado algum. Moebismo? Será que criamos um novo movimento literário? Para tanto, basta esquecer o passado. Com aqueles que se juntarem a nós, formaremos 4


o exército de um homem só, uma estática literária que, por permanecer imóvel, está se movendo em relação a todos os movimentos. Voilá! Descobrimos que nosso primum mobile não se move. Talvez por isso aqui haja espaço para tudo. Afinal, a poesia clássica de Ulisses, não é mais que uma transformação topológica do pop Odisseu. Distorção que não deixa de ser uma forma de movimento, capaz de compreender ninguém como alguém, ou shames como choice. Será que devemos ter vergonha da nossa escolha? Será a opção pelo universalismo uma ausência de opção? Respondemos que não. O que estava partido mostraremos inteiro. Assim, em meio a um caos de poemas, resenhas, ensaios, traduções, contos e miscelaneas de miscelaneas, esperamos uma ordem. Que ordem será esta? É fato, não sabemos. Sabemos apenas que sua âncora é a desordem. Violamos a segunda lei da termodinâmica ou por violá-la não a violamos. O perspicaz leitor perceberá que nossa empreitada é de todo inútil. A esse gênio do saber, dedicamos não só essa obra, como todas aquelas que não escrevemos. Agradecidos e humildes, reverenciamos aquele que reconheceu em nós o artista que então não éramos. Um aviso aos navegantes: como Pessoa, nossa pátria não é só a língua portuguesa. Talvez por isso, não tenhamos pátria alguma. Bruno Oliveira

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Revista Lara | ano 1, nº 1

Por que Lara? O L é de letra, o átomo primordial com o qual pretendemos criar uma ordem a partir do caos. Ao mesmo tempo é também onde começa a literatura, lugar imaginário no qual todas as potencialidades da palavra, conjunto caótico de letras, se realizam. Letra que precede o verbo, mas ao mesmo tempo o cria. Criação a partir da Atração, força verbal que une letras em palavras, assim como leitores e livros. Portanto, o A é Atração que surge depois da letra, mas a suplanta e supera. Sem ela a letra nada seria, mas se letras atraídas são palavras, palavras atraídas são Revistas ou Livros. Logo o R é Revista, somatório de insignificantes significados. Reiteração de letras atraídas revisadas que surgem da atração, mas também atraem e distraem. E se uma revista pode ser um lar, que seja feminina como Lara, para que sua dupla atração, nos levante e nos atraía, de forma que no fim todos sigamos a Lei que Lara nos impõe. E como um cavalo, retornamos a primeira casa, que agora contém em si insignificantes ressignificados, tornando esse texto passível de ser lido em apenas uma letra. Bruno Oliveira

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Revista Lara | ano 1, nº 1

Poesia traduzida

da série dos Will Sonnets (p.ex. o 135). No soneto 138 o tema da mentira é surpreendentemente abordado: Tradução, texto e notas de Matheus de Souza o que era aspecto bastante para a impossibilidade amorosa se transO tema da mentira (comumente dita como “en- forma na causa de existência desgano” em nossa língua) relacionado ao amor é fre- te amor, versando sobre a relação quente na lírica amorosa. Citando exemplos do entre dois enamorados que meninabalável Camões: “Interesse enganoso, amor fingido, tem um ao outro e que, posto que / Fizeram desditosa a formosura”, no soneto Tomava mentem, mais se amam. Daliana por vingança; “Vendo o triste pastor que com enganos / Assim lhe era negada a sua pastora”, no so- Tal relação fundada na mentira neto Sete anos de pastor Jacob servia; ou, para não nos não possui outra natureza que estendermos em demasia, “De Amor não vi senão bre- não a de tornar a convivência ves enganos”, no soneto Erros meus, má Fortuna, Amor mais aceitável, pois o amor ainda ardente. é amor mesmo que alicerçado no

SONETO 138 DE SHAKESPEARE

engano, ao contrário do conceiNo entanto, a lírica renascentista via como uma im- to da época que colocava um e possibilidade que o amor pudesse conviver com a outro como contrários. Eu lírico mentira e, ao mesmo tempo, gerasse um saldo positivo, por ilusório que fosse. A ilusão não é benéfica; antes, citando Camões uma vez mais, “Qualquer grande esperança é grande engano.” E não sendo benéfica, e a amada sendo inalcançável, o fim do amante é a dor, a pungência que lhe afeta a carne e rouba e arrouba os sentidos e o mais que se peça. Em Shakespeare, essa dimensão adquire um aspecto inusitado. Seus sonetos são, evidentemente, expressão de seu tempo, expressão da temática e visão racionalista da época, que se utilizava do amor impossível (nem sempre impossível) como um lastro para o pensamento racional em cima dessa instância humana (e não como fonte de vassalagem, como queriam os trovadores [pra simplificar a discussão, é claro]). Mas no caso shakespeariano em específico, são manifestações que adquirem um sabor ocasional das mais variadas origens, desde os sonetos com fundo de cotejamento, geralmente ao Lorde de Southampton (1573-1624), até aqueles sonetos com nítidas conotações sexuais, como seria o caso 8


e amada querem o amor, pois as exigências físicas o impõem (o eu lírico é mais velho que a amada [“And wherefore say not I that I am old?”]), e tal desejo não é invalidado se para sua realização o embuste tomar o lugar das vias de fato, pois o que resta no final é o sentimento e a imagem (talvez principalmente a imagem) que esse amor vai causar um ao outro: “And in our faults by lies we flatter’d be.”

da resignação tácita até o questionamento desesperador, e, entre um extremo e outro, o “world’s false subtleties” é deduzido diretamente da necessidade de se ostentar uma imagem para que o amor verdadeiro não seja zombado, conforme diz o soneto 71: “Lest the wise world should look into your moan, / And mock you with me after I am gone.”

Mas uma postura assim não é a postura total dos Sonetos. O soneto 138 se encontra na chamada série de sonetos à Dark Lady (127-154), uma possível mulher de “fácil acesso” que teria despertado o amor de Shakespeare e, posteriormente, de Southampton, Esta mensagem, de que a única gerando com isso um embate entre ambos que se forma de se relevar as faltas um pode chamar de verdadeira “querela diplomática”, do outro, e em decorrência acei- dadas as relações de mecenato que os unem. tar o amor, somente se dá por meio da mentira, não parece ter O soneto anterior, o 137, logo posterior à série se apagado de todo hoje em dia, acalorada dos Will Sonnets, começa questionando: visto que o clima do soneto vai “Thou blind fool, Love, what dost thou to mine eyes, / That they behold, and see not what they see?” Há uma nota raivosa nestes versos, onde o eu lírico não consegue compreender a deturpação do mundo, vendo que sua amada, aparentemente pura, é, na verdade, “the bay where all men ride”: ou seja, uma mulher mundana. Esse clima de engano profundo é fechado no final do soneto, com: “In things right true my heart and eyes have erred, / And to this false plague are they now transferred.” As razões de uma relação amorosa (“several plot”) fundada nas mentiras, assim sendo, ficam notoriamente explicitadas. Já o soneto posterior, 139, sai da placidez e resignação que amortecem a expressão geral do 138, dizendo: “O! call not me to justify the wrong / That thy unkindness lays upon my heart”; posteriormente também: “Wound me not with thine eye, but with thy tongue: / (...) / Tell me thou lov’st elsewhere (...)”. O desespero retorna, o autoflagelamento igualmente, e, no final, o saldo reduz-se ao débito renascentista, onde, em verdade, o amor não pode se apascentar na mentira. Mas esta lição, que parece ser também 9


Revista Lara | ano 1, nº 1

a lição do amor das personagens Antônio e Cleópatra na peça homônima (existem muitos pontos de ligação entre as duas obras; no entanto, o espaço é exíguo), apenas se revela em seu verdadeiro rigor depois do desencontro fundamental que diferencia a ilusão amorosa da descrença e martírio: e esta talvez seja a linha mestra que rege os sonetos 137, 138 e 139. O presente soneto aparece também na coletânea de vinte poemas intitulada The Passionate Pilgrim, publicada em 1599 por William Jaggard e aparentemente pirateada, ainda que estampe “By W. Shakespeare” em seu frontispício.Três poemas líricos de Love’s Labours Lost e o soneto 144 são exemplos de poemas que também aparecem na coletânea. As diferenças entre a versão deste soneto aqui traduzido no Passionate Pilgrim e a versão original, seja a editada pelos scholars, seja o In-Quarto de 1609, são substanciais. E serão indicadas nas notas correspondentes. A edição utilizada foi a da Arden Third Series, editada por Katherine Duncan-Jones. Consultei as traduções de Oscar Mendes, Jorge Wanderley,Vasco Graça Moura, Ivo Barroso, Rodrigo Suzuki Cintra e Thereza Christina Motta. Me esforcei em manter todos os trocadilhos ao longo do texto e que foram indicados nas notas abaixo. Resta ao leitor pesar em que medida consegui, tendo em vista que a estratégia mais comum foi a das expressões como “de verdade” ou “gozamos na”, ou o confiar numa “leitura desatenta” ou em ecos parciais de correspondência. Se bem que, na verdade... cada trocadilho é um caso, cada um deles possui uma base diferente, seja a da leitura homofônica (made-maid), seja a da ambiguidade de uma palavra (lie), seja a da referência (false speaking tongue)... O tradutor dificilmente consegue um trocadilho de mesma raiz, no que busca por outros que consigam corresponder e compensar a perda original. É o que o leitor verá; espero.

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Notas ao soneto: [1] Trocadilho com “made of truth”, podendo significar também “maid of truth”, isto é, virgem de verdade. Trocadilho muito usado na primeira parte de Romeu e Julieta (1º até metade metade do 3º ato). [2] No The Passionate Pilgrim, a expressão “though I know she lies” está entre parênteses. [3] Sobre a ideia deste verso, cf. Antônio e Cleópatra, ato I, cena V: “(...) My salad days, / When I was green in judgement, cold in blood, / To say as I said then!”. [4] Sobre os “world’s false subtleties”, ler o soneto 66, que lista alguns deles. No The Passionate Pilgrim, “Vnskilful” no lugar de “Unlearned” e “forgeries” no lugar de “subtleties”. [6] No The Passionate Pilgrim, “I” no lugar de “she” e “yeares” no lugar de “days”; o término do verso também é diferente: exprime dois pontos no lugar da vírgula do original. [7] “her false-speaking tongue”: há uma referência ao mito edênico, acerca da persuasão da serpente para com Eva e desta para com Adão. Por isso os termos “false” e “tongue” são fundamentais. Alguns citam também como fonte de referência para este verso e o anterior, Provérbios 1:1-4. Neste verso e no próximo o The Passionate Pilgrim possui mudança radical: “I smiling, credite her false speaking tounge, / Outfacing faults in loue, with loues ill rest.” [9] No The Passionate Pilgrim, o verso está como: “But wherefore sayes my loue that she is young?”. [10] No The Passionate Pilgrim, a interrogação do final fora suprimida. [11] No The Passionate Pilgrim, “in a soothing toung” no lugar de “in seeming trust”. [12] Verso de sentido em verdade obscuro. Literalmente, quer dizer: “E os amantes mais velhos, amam não para ter os anos contados.” No The Passionate Pilgrim, em decorrência da palavra “age” ser grafada com a inicial maiúscula, a expressão fica um pouco mais clara. [13] Há um trocadilho que passa desapercebido pela maioria dos leitores: o trocadilho com”lie”, significando tanto mentir quanto dormir. Sobre outra utilização deste termo, mas com os sentidos de deitar-jazer, cf. Hamlet, ato V, cena I, entre as falas “I think it be thine, indeed; for thou liest in’t” de Hamlet e “’Tis a quick lie, sir; ‘twill away gain, from me to you” do Primeiro Coveiro. Literalmente, o fecho de ouro quer dizer: “Por esta razão eu durmo [ou minto] com ela, e ela comigo, / E em nossas faltas nós seremos lisonjeiros.” NoThe Passionate Pilgrim ele apresenta consideráveis mudanças: “Therefore I’le lye with Loue, and loue with me, / Since that our faultes in louve thus smother’d be.” [14] Sobre as implicações acerca do termo “imagem”, ler o que disse na introdução. O hipérbato, na tradução, conduz ao mesmo sentido do original, mas de forma mais arrevesada em decorrência do privilégio à conotação sexual do verso anterior.


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When my love swears that she is made of truth, I do believe her, though I know she lies, That she might think me some untutor’d youth Unlearned in the world’s false subtleties. Thus vainly thinking that she thinks me young, Although she knows my days are past the best, Simply I credit her false speaking tongue; On both sides thus is simple truth suppress’d. But wherefore says she not she is unjust? And wherefore say not I that I am old? O, love’s best habit is in seeming trust, And age in love loves not to have years told: Therefore I lie with her and she with me, And in our faults by lies we flatter’d be. Quando me diz ser pura de verdade, Creio nela, sabendo que ela mente E talvez crê em minha ingenuidade, Das vilezas mundanas inocente. E se penso que pensa que sou moço, Por mais que meu melhor já tenha ido, Tomo sua língua como algo enganoso; E assim o que é verdade é suprimido. Mas por que ela diz que ela é injusta? Por que da minha idade nada digo? É comum que a paixão se mostre justa, E o amor antigo não diz quanto é antigo: Por isso nós gozamos na mentira A imagem que a lisonja nos infira.

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POEMA DE LORD BYRON Tradução e texto de Matheus de Souza

Escrito em 1814, é um dos poemas mais famosos de Byron. Não há muito o que ser dito. Especulações numa vida tão especulada e especulativa como a do Byron são sempre um perigo. Traduzi o verso de oito sílabas de Byron para um de dez, sem muitos prejuízos, a meu ver (o verso de oito sílabas praticamente inexistiu em nossa poesia romântica). Na primeira estrofe, “optei” por repetir a palavra “noite” no lugar das rimas A do poema. Nem tanto por opção estilística. Não conseguiria, satisfatoriamente, tantas rimas em “-oite”, no final das contas. O texto utilizado foi o disponível no poets.org. I. She walks in beauty, like the night Of cloudless climes and starry skies; And all that’s best of dark and bright Meet in her aspect and her eyes: Thus mellowed to that tender light Which heaven to gaudy day denies.

I. Bela quando ela anda, como a noite A céu aberto e as noites estreladas. Bela assim como a sombra e a luz da noite À luz de seu rosto são encontradas, São assim delicadas como a noite Ao dia a sua luz é rejeitada.

II. One shade the more, one ray the less, Had half impaired the nameless grace Which waves in every raven tress, Or softly lightens o’er her face; Where thoughts serenely sweet express How pure, how dear their dwelling place.

II. Com uma sombra a mais e um raio a menos E em parte a graça anônima se afeta, Ondeia em cada cacho teu moreno, Reluz na face, de forma discreta, Em que sereno dorme o pensamento Puro em sua morada predileta.

III. And on that cheek, and o’er that brow, So soft, so calm, yet eloquent, The smiles that win, the tints that glow, But tell of days in goodness spent, A mind at peace with all below, A heart whose love is innocent!

III. E nesta sobrancelha, e nesta face, Tão leve, tão calmo e tão eloquente, O riso e a cor, como se triunfassem, Dissessem da bondade agora ausente, Consciência que já se apaziguasse, Coração cujo amor foi inocente!

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Revista LARA, Ano I, N. 1  

O L é de letra, o átomo primordial com o qual pretendemos criar uma ordem a partir do caos. Ao mesmo tempo é também onde começa a literatura...

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