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O peru de Natal e outros contos de Mário de Andrade Adaptação em quadrinhos: Francisco Vilachã

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Francisco Vilachã

MANUAL DO PROFESSOR DIGITAL – PNLD 2018 LITERÁRIO


O livro O peru de Natal e outros contos de Mário de Andrade, ao unir artes plásticas e literatura, nos dá uma degustação da obra de Mário de Andrade e convida os alunos a um provável primeiro contato com ela. Ao final da leitura, espera-se que os leitores sintam-se inspirados a conhecer outros clássicos ou mesmo a versão original dos contos lidos, para que obtenham uma formação literária mais consistente. Embora esta adaptação tenha sido especialmente pensada para histórias em quadrinhos, a essência narrativa de Mário de Andrade foi totalmente preservada e ganhou a companhia de uma linguagem visual que respeitou as histórias e as escolhas artísticas do autor. O conto que abre o livro, “O peru de Natal”, é narrado por Juca, personagem que, após a morte do pai, decide não mais se render às repressões ditadas pela família, normalmente relacionadas à contenção e à desigual divisão dos prazeres ou, no caso, do peru. A ceia de Natal é justamente o episódio escolhido por Juca para romper com o comedimento familiar anterior já que, segundo sua ideia, o peru não mais seria dividido com todos os parentes. Naquele ano, a mãe, a tia e os irmãos, que sempre se contentaram com as sobras do que nem mais poderia ser chamado de peru, seriam os únicos convidados a deliciar-se com ele. Ao longo do conto, fica perceptível que a ideia fixa de Juca em defesa do peru de Natal pouco tem a ver com a ceia e muito com seu desejo de revigorar os laços de amor desse núcleo familiar, rompendo com a figura autoritária do pai ainda presente mesmo após a morte. O conto “O peru de Natal” se inicia com um rastro melancólico deixado pela morte do pai de Juca, mas sofre uma reviravolta quando a fama de louco do moço permite aos outros familiares também gozarem a exceção da felicidade. É interessante o fato de “Será o Benedito!” ser o conto a sucedê-lo, pois sua trama tem início com a alegria peralta de Benedito, o “negrinho” da fazenda, e termina imerso no remorso do narrador-personagem. Benedito é presença marcante na viagem do narrador para a fazenda. De início tímido, acaba conquistando o visitante e sendo conquistado pelas histórias da cidade. Ao final da estada do narrador, o menino da fazenda pede para acompanhá-lo na viagem de volta, no entanto é dissuadido pelo visitante – que antes o convencera das atrações urbanas –, mas ao ouvir o pedido passa a discorrer sobre os males da tuberculose e a iminente morte na cidade. Benedito desiste da viagem e morre dias depois, num acidente com um cavalo. O encontro com Benedito dá lugar ao encontro com o amor da infância em “Vestida de preto”. O conto retoma a figura do protagonista Juca, que narra o amor e a rejeição da prima Maria, dueto antagônico que o seguiu dos cinco aos vinte cinco anos de idade. Há alguns empecilhos para a consumação dessa paixão: na primeira infância, a tia velha, que descobre o namorico dos primos; na adolescência, as dificuldades de Juca na escola, que envergonham Maria; já próximo à vida adulta, a constatação de que a família burguesa de Maria jamais aceitaria um namorado “pobretão” como ele. Percebendo que jamais teria lugar nos planos de vida de Maria, Juca encosta os lábios na capa de um livro, sente o gosto do papelão e substitui o amor pela prima pelo amor aos estudos. Enquanto isso, Maria segue namorando todo mundo, ou melhor, os rapazes com condição financeira almejada por seus pais. Anos depois, os primos se reencontram na fase adulta e Juca se divide entre o desejo por Maria e 2

FGV Editora

Para conhecer a obra e os autores


a imagem intocável que cultivara dela. Por fim, com um verso de Castro Alves – “Boa noite, Maria, eu vou-me embora” – despede-se do amor de infância, que enfim se torna apenas uma história para contar. O conto “Caim, Caim e o resto” pode parecer mais distante da temática dos outros três contos, no entanto, continua a fazer um recorte das diversas tragédias e alegrias que marcam a vida. O título do conto retoma a história bíblica de Caim e Abel, os dois filhos de Eva. Tomado de ciúmes, Caim arma uma emboscada e mata Abel. Outro personagem citado no início do conto é Belazarte, que dialoga com a figura folclórica de Malazarte, aquele para quem tudo sempre acaba dando certo. Belazarte surge na obra de Mário de Andrade no livro Os contos de Belazarte; a inversão de seu nome também abarca a inversão da sina. Nesse conto, por exemplo, Belazarte narra uma tragédia entre os irmãos Aldo e Tino, que se passa na Lapa, um bairro periférico de São Paulo naquela época.

Romancista, poeta, musicólogo, folclorista, funcionário público e fiel correspondente de cartas, Mário de Andrade foi uma das personalidades mais instigantes do Brasil. Influenciou a literatura nacional e deixou que a história brasileira influenciasse profundamente sua obra. A complexidade e a multiplicidade do artista ficaram eternizadas nos versos: “Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta, / mas um dia afinal eu toparei comigo...” (Andrade, 1955, p. 221). Participou ativamente da Semana de Arte Moderna, evento que motivou artistas paulistanos a se articularem a favor de uma renovação nas artes brasileiras, defendendo o Modernismo como o direito à pesquisa estética de acordo com a realidade do país e não com os ditames europeus. Nesse mesmo ano de 1922, lançou o livro Pauliceia desvairada, considerado a primeira obra de poesia modernista do Brasil. Na década de 1920, não só Mário de Andrade, mas Oswald de Andrade e outros modernistas forjaram conclusões a respeito do que o movimento significou, inclusive enxergando suas limitações e o projeto da classe cafeeira dominante responsável por financiá-lo. Nessa fase, Mário se interessa principalmente por temas nacionais, utilizando dados da etnografia e do folclore para uma pesquisa que daria origem a algumas de suas obras, entre elas, Macunaíma, livro de 1928, que costura lendas e elementos da cultura popular para narrar a épica de um “herói sem nenhum caráter”. Na década de 1930, época em que os contos desta HQ foram lançados, o autor se dedicou a um acerto de contas com o papel do intelectual no quadro social brasileiro e, consequentemente, com a representação das tensões do momento, como afirma a crítica literária Ivone Daré Rabello: O autor parecia concluir que, para superar a consciência de inferioridade determinante na cultura nacional, a imaginação de nossos intelectuais se distanciara da realidade brasileira, e os prognósticos deles agora se mostravam falsos e fantasiosos. Os novos modos de reprodução do atraso não haviam trazido o “salto para o futuro”; a combinatória de atraso e progresso constituía nossa forma de pertencimento ao sistema capitalista ocidental, com novos ajustes históricos, em que não se entreviam perspectivas para a conquista de direitos efetivos dos cidadãos [...] (ANDRADE, 2015, p. 121).

Mário de Andrade faleceu de enfarte em 1945, enquanto completava o projeto de um novo volume de contos intitulado Contos novos.

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Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

Mário de Andrade


Nasceu no verão do Rio de Janeiro, um cenário oposto ao da Pauliceia desvairada de Mário de Andrade. Mudou-se para a cidade de São Paulo e iniciou a carreira nos quadrinhos, mas logo passou a se dedicar somente à ilustração de livros didáticos, ofício no qual permaneceu por duas décadas. As adaptações de clássicos da literatura para o formato de HQ foram justamente as responsáveis por seu retorno ao universo quadrinista. Para adaptar os textos originais para histórias em quadrinhos, Vilachã trabalhou com grande emoção, que se traduziu graficamente na estilização e na escolha da paleta de cores. Essas cores caracterizaram os personagens em primeiro plano. Na HQ “Caim, Caim e o Resto” de Mário de Andrade, procurou, com os meio tons e cores mais fortes, realçar um certo ar de tensão constante e também a violência implícita.

Sobre os gêneros As histórias em quadrinhos têm muito a oferecer como objeto de estudo em sala de aula. Primeiramente, pelo interesse que naturalmente provocam nos alunos, etapa inicial para a interação almejada por qualquer proposta pedagógica. Depois, devido à riqueza de seu texto, alcançada pelo amplo uso de linguagem verbal e não verbal e dos aspectos composicionais que incentivam a prática intertextual da interpretação, tão valorizada no Ensino Médio. As adaptações de obras da literatura para o formato HQ, por sua vez, acrescentam um valor pedagógico à obra, pois constituem uma oportunidade para o professor trabalhar a retextualização: o processo de transformação de um gênero textual em outro. Com este livro, por exemplo, o professor tem a oportunidade de trabalhar o gênero história em quadrinhos e, se julgar interessante, retomar o gênero original da obra: o conto.

O gênero conto Segundo a professora Nádia Batella Gotlib, os contos mais antigos devem ter surgido no Egito, por volta de 4000 anos antes de Cristo. De tão longínqua, enumerar as fases da evolução dessa narrativa seria, segundo ela, percorrer nossa própria história. Contudo, é no século XIV que o conto sofre uma transformação importante em sua trajetória. Antes transmitido oralmente, passa a ter registro escrito, fazendo com que um novíssimo desafio se apresente ao contador: elaborar um texto artístico sem perder o tom da narrativa oral e, consequentemente, o interesse daquele que recebe a história, antes ouvinte agora leitor. O conto pode ser caracterizado por seu movimento, como narrativa, através dos tempos. As transformações que sofreu na trajetória foram exclusivamente de técnica, não de estrutura. Ele permanece, portanto, com a mesma disposição: é um texto narrativo centrado em um relato de um acontecimento real ou fictício. Muitas vezes, em meio ao dilema do gênero conto, temos a tendência de classificá-lo “na régua”: o conto é pequeno, em comparação à novela, que é média, e ao romance, que é grande. Gotlib e diversos outros autores e teóricos – entre eles Júlio Cortázar, Machado de Assis e Norman Friedman – nos alertam, porém, que a estrutura do conto é, sim, curta, mas não por causa de uma convenção métrica, mas pela condensação da narrativa que, longe de ser em vão, tem um objetivo claro: provocar impacto no leitor. Os contadores dos primeiros contos narravam com gestos, entonação, silêncio, feições. O contista que tem apenas a escrita como registro também precisa se valer de técnicas. Com esse objetivo, a seleção minuciosa das palavras faz parte de uma engenhosa construção que, se bem elaborada, deterá o leitor até o fim. 4

Marina Vilachã

Francisco Vilachã


O gênero HQ Não foi sem resistência que as histórias em quadrinhos se inseriram no contexto escolar. Com o tempo, no entanto, as HQs começaram a ser valorizadas principalmente pela interação autor-leitor que proporcionam. Foi assim que as adaptações literárias começaram a ocupar espaço como incentivadoras da formação de leitores. A sedução imediata que esse formato acarreta, entretanto, torna-se também responsável pela desconfiança que gera: por ser tão natural, a leitura de um livro HQ consegue também ser reflexiva? Na introdução de Para ler o livro ilustrado, Sophie Van der Linden esclarece a questão: Os leitores entretidos em uma página por um detalhe específico, atentos aos efeitos da diagramação, surpresos pela ousadia de uma representação ou encantados por uma inesperada relação texto/ imagem descobrem nesses momentos uma dimensão suplementar à história. Ao passo que outros há muito tempo já consideram o livro ilustrado um tipo de obra cujas amplitude de criação e habilidade dos autores e ilustradores apelam para ferramentas que permitem apreciar ao máximo seu funcionamento (LINDEN, 2011, p. 7).

É nesse ponto que não só os livros ilustrados apresentam um aspecto paradoxal, pois é convencionado que se destinam aos mais jovens (ou seja, aos menos experientes em leitura) e, no entanto, só podem ser lidos como uma única forma de expressão, o que exige uma competência leitora apurada. De imediato, as HQs evocam duas linguagens: o texto e a imagem. Os desavisados podem pensar que as imagens ali dispostas são uma tradução simultânea da narrativa. No entanto, elas funcionam muito mais como coautoras, propondo uma significação articulada e conjunta com o texto. Por isso, ler uma HQ não se resume a ler um texto e seguir imagens. Abrange apreciar o formato; analisar as mudanças de cores, quadros e linhas; familiarizar-se com a linguagem gráfica e seus códigos; associar representações; escolher a ordem e o tempo de leitura; tornar-se, enfim, protagonista da prática leitora. O documento Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (2006) comenta a premente necessidade de modificar as concepções anteriores de linguagem, cultura e conhecimento:

Um leque de gêneros Comentada a intenção deste livro de apresentar contos de Mário de Andrade adaptados para o formato HQ, o que favorece a fruição dos alunos entre os dois gêneros, é importante também destacar os trechos de obras de Mário de Andrade que dividem o final de um conto e o início do outro, conectando-os por meio de temáticas compartilhadas. É o caso do trecho do romance Macunaíma, do poema “Dedicatória”, da carta a Carlos Drummond de Andrade, da crônica “Macobeba” e do poema “Quando eu morrer....”. 5

Francisco Vilachã

Como vimos no caso dos blogs, a linguagem do computador e da internet é permeada por imagens e sons que interagem com o texto escrito alfabético. Essa inter-relação de texto verbal, visual e sonoro problematiza os conceitos tradicionais de que uma imagem serve apenas de paráfrase ou complemento a um texto escrito, sendo, portanto, essencialmente desnecessária para a compreensão do texto escrito. Em páginas da Web, é na própria inter-relação entre imagem e texto escrito que se baseia a comunicação. Essa inter-relação produz mensagens ou significados que não estão presentes apenas no texto escrito ou no texto visual (p. 105).


Novamente, é importante frisar que a essência narrativa de Mário de Andrade foi totalmente preservada nesta adaptação para o formato HQ, o que muito contribui para a formação leitora dos alunos. O documento Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (2006) aborda especificamente a apropriação do letramento literário por meio da experiência estética e sua fruição: Estamos entendendo por experiência literária o contato efetivo com o texto. Só assim será possível experimentar a sensação de estranhamento que a elaboração peculiar do texto literário, pelo uso incomum de linguagem, consegue produzir no leitor, o qual, por sua vez, estimulado, contribui com sua própria visão de mundo para a fruição estética. A experiência construída a partir dessa troca de significados possibilita, pois, a ampliação de horizontes, o questionamento do já dado, o encontro da sensibilidade, a reflexão, enfim, um tipo de conhecimento diferente do científico, já que objetivamente não pode ser medido. O prazer estético é, então, compreendido aqui como conhecimento, participação, fruição (p. 55).

A leitura da obra: sugestões e possibilidades Inicialmente, promova um momento em sala de aula para que os alunos investiguem o livro como objeto artístico e observem todos os elementos verbais e visuais que o compõem. Instrua-os a folhear o livro e localizar informações básicas, como título da obra, nome do autor e do ilustrador/adaptador, nome da editora que o publicou, texto de quarta capa, entre outros elementos textuais e gráficos que julgar pertinentes. Em seguida, peça a eles que encontrem, no livro, textos que não estão no formato HQ e incentive essa busca com perguntas: “Quais são esses textos?”; “A quais gêneros eles pertencem?”; “Vocês conhecem algum deles?”. É importante que os alunos identifiquem o trecho do romance Macunaíma, o poema “Dedicatória”, a carta a Carlos Drummond de Andrade, a crônica “Macobeba” e o poema “Quando eu morrer...”. Verifique se eles compreendem que todos os textos do livro são de Mário de Andrade. Caso julgue interessante, aproveite para comentar aspectos da biografia do autor.

Se considerar importante, comente o trabalho de adaptação literária da obra e os gêneros conto e HQ. Explique aos alunos que quatro contos de Mário de Andrade foram adaptados para o formato de histórias em quadrinhos. Converse com eles investigando se têm o hábito de ler HQs e, se julgar necessário, relembre alguns componentes importantes para a interpretação desse gênero, que combina imagens e texto, descritos a seguir.

Francisco Vilachã

ƒƒ Nos quadrinhos, os diálogos são escritos dentro de balões, que podem apresentar diferentes formatos e conter palavras, sinais, desenhos ou grafemas que correspondem a uma ideia, sonhos ou pensamentos.

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Francisco Vilachã

ƒƒ As legendas são elementos frequentes nos quadrinhos e apresentam a voz do narrador, ou seja, uma voz exterior que descreve um fato importante de forma impessoal. Em geral, as legendas estão dentro de um quadro ou retângulo, mas sua posição pode variar.

Francisco Vilachã

ƒƒ Assim como na linguagem oral, os quadrinhos não contam apenas com o texto da mensagem, mas com gestos e expressões que também dizem muito sobre o que está sendo narrado. O leitor de HQs, portanto, deve estar atento não somente à comunicação verbal escrita, mas ao código da comunicação não verbal. As imagens, portanto, tornam-se verdadeiras narradoras da história. Essa função fica clara no quadrinho a seguir, no qual a fala do personagem é seguida da narração imagética [ASSIS e MARINHO, 2016, p. 122].

Esta HQ possibilita diversos caminhos de leitura. Os alunos podem optar por ler os trechos da obra original de Mário de Andrade primeiro. Podem escolher a ordem de leitura de cada HQ ou mesmo dividir a leitura de cada conto narrado e as impressões sobre ele. Como mediador dessa prática leitora, cabe a você escolher de que modo deve evoluir. O importante é que, ao final desse processo, a turma tenha uma noção da organização da HQ e das escolhas feitas com base na obra original do autor. É possível que algumas palavras ou expressões – por exemplo, “Será o Benedito?” – sejam desconhecidas dos alunos. Aproveite o recurso imagético da HQ e incentive-os 7


a, na primeira leitura, não procurar o significado delas, mas tentar inferir os sentidos pelo contexto. Instrua-os a escrever esses termos no caderno e informe que, ao final, tais anotações serão retomadas e possíveis dúvidas, sanadas coletivamente. Após a leitura do livro, estimule-os a retomar as narrativas das quatro HQs e procurar reconhecer situações retratadas com as quais se identifiquem de alguma maneira. Algumas perguntas podem auxiliar a aprofundar esse debate: “Vocês também já tiveram um amor quando eram mais novos?”; “Como é a relação de vocês com os parentes?”; “Como é o Natal na casa de vocês?”. É importante não pressionar alunos que não se sintam à vontade para falar. Após essa conversa, aproveite para destacar que leitores da atualidade ainda se identificam com as temáticas levantadas por Mário de Andrade na década de 1930. Esse valor de uma obra que sobrevive aos tempos deve ser ressaltado em sala de aula para os alunos compreenderem que o cânone literário não é ruim, pois há uma razão para assim ser definido, como ressalta o documento Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (2006): Ainda relativamente à seleção dos textos, é importante lembrar que o cânone não é em si negativo: significa que uma obra, na sua trajetória, de quando surgiu até o momento contemporâneo de leitura, foi reiteradamente legitimada como elemento expressivo da sua época. O cânone não é estático, ele incorpora ou exclui obras em decorrência de algumas variáveis, sendo talvez a mais importante aquela dos estudos críticos, em especial os estudos acadêmicos. Ele é importante para formar uma tradição segundo a visão de determinado momento histórico (em perspectiva) (p. 75).

Francisco Vilachã

Por fim, caso julgue interessante, evidencie as escolhas das cores, formatos e técnicas das ilustrações que compõem a HQ, as quais procuram se aproximar das influências artísticas presentes na obra de Mário de Andrade; entre elas, o Expressionismo, que tanto instigou a obra modernista do autor. Mário de Andrade recebeu grande influência das artes plásticas do Expressionismo alemão, que usavam a cor para causar certo desconforto e estranhamento. Nas obras do Expressionismo alemão, as cores não costumavam corresponder à realidade, buscavam autonomia de significado no espaço interno do quadro. As figuras deformadas também eram recorrentes nessa escola. Mesmo em sua obra literária, Mário trabalha com a deformação e a estética do feio em diversos momentos, principalmente na criação de seu famoso herói, Macunaíma. Assim como o autor, Anita Malfatti, companheira de Modernismo, foi profundamente influenciada pelo Expressionismo alemão, o que é perceptível em obras como A boba, O homem amarelo e até mesmo no retrato Mario de Andrade I. Trazer imagens de algumas dessas obras para a sala de aula pode ser interessante para que os alunos façam comparações com as ilustrações do livro. Assim como nas obras de Anita, as ilustrações da HQ foram elaboradas com uma paleta de cores que fogem do naturalismo, acompanhadas por um grafismo estilizado.

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Sugestões de atividades Apresentamos a seguir algumas propostas de atividades com base no livro. Estas atividades são apenas sugestões de abordagem e podem ser modificadas ou adaptadas conforme as necessidades dos alunos, os recursos da escola e o planejamento pedagógico. O momento e o modo de aplicação de cada proposta também devem ficar a seu critério. Além de questões diretas, há também sugestões de atividades interdisciplinares com Arte e História. No conto “O peru de Natal”, Juca parece sentir-se salvaguardado pela “fama de louco”. Como essa fama 1. beneficiou o personagem? E de que modo essa fama, na ceia de Natal, chegou também a beneficiar a família dele? Espera-se que os alunos concluam que a “fama de louco” de Juca o libertou do modo de ser obediente e reprimido imposto pelo ambiente familiar. A suposta loucura, portanto, significou para ele a superação da moral parental. Em certo momento da narrativa, o próprio personagem chega a assumi-la: “Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar”. No momento em que Juca propõe a audácia de um peru somente para o núcleo familiar, e não para toda a “parentada”, sua loucura já estabelecida ajuda a mãe, a tia e os irmãos a aderirem à ideia sem culpa, ou melhor, com a justificativa de uma culpa destinada apenas à conhecida loucura de Juca.

Na página 19, o narrador afirma: “Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um mila 2. gre digno do Natal de um deus”. Formule hipóteses sobre a ironia que essa afirmação apresenta. Embora a resposta seja pessoal, mostre aos alunos que, ao falar “um deus”, Juca provavelmente se refere a ele mesmo, aquele que fez esse Natal milagroso acontecer. Para que a ironia seja compreendida, também é importante relacionar a frase com a história bíblica do milagre da multiplicação de pães e peixes, realizado por Jesus. No “milagre” de Juca há uma inversão responsável pelo humor da frase: ele também repartiu (multiplicou) o peru, mas não para que muitas pessoas (a “parentada”) comessem um pouco, e sim para que as poucas pessoas de sua família, ao menos uma vez, tivessem a chance de comer muito e bem.

Nas páginas 22 e 23, Juca narra a luta que se inicia entre o peru de Natal e a lembrança de seu pai. Explique 3. de que modo as ilustrações que acompanham o texto auxiliam na compreensão dessa situação. Espera-se que os alunos entendam que, conforme Juca narra a derrota do peru, o vulto de seu pai vai au mentando, progressivamente, a ponto de sufocá-lo. Pode ser interessante, nesse momento, fazer uma observação sobre a relação entre o texto e a imagem, na maioria das vezes com um objetivo de colaboração, para criar um sentido comum. Em situações como essa, o texto e a imagem constroem um discurso único. Você pode, inclusive, pedir aos alunos que encontrem outras situações nas quais essa relação de colaboração é estabelecida; um exemplo é na página 24, quando Juca enfim consegue fazer o peru ocupar o lugar principal da festa e a imagem dele, por fim, aparece ao pé da página, grandiosa e em primeiro plano.

A expressão idiomática “Será o Benedito!” é evocada não somente no título do conto, mas em diversos 4. momentos dessa narrativa. Ao longo da história, no entanto, ela assume diferentes naturezas: começa a ser dita em uma situação de entusiasmo que progride para melancolia. Descreva as situações nas quais ela aparece e a função que desempenha em cada uma delas. Na página 31, a expressão aparece pela primeira vez e demonstra o espanto de Benedito em ver que o narrador-personagem não sabia nem ao menos prender as rédeas do cavalo. A segunda aparição da

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expressão ocorre na página 32, quando o personagem conta que ela era marcante na fala de Benedito. A terceira aparição acontece na mesma página, quando Benedito descobre o mal da tuberculose na cidade e se espanta novamente ou, até mesmo, se decepciona. A última aparição da expressão é no último quadrinho da HQ quando o narrador descobre que seu amigo da fazenda faleceu – e não pelas mentiras que contara da cidade, mas por um acidente na fazenda. “Será o Benedito!”, nessa situação, compreende o espanto com a notícia e a consequente culpa com o acontecido. Aproveite a leitura do conto “Será o Benedito!” para explicar aos alunos que a paixão de Mário de Andrade pela etnografia – método utilizado pela Antropologia na coleta de dados – influenciou sua obra literária. Não só ele, mas diversos artistas modernistas, como a pintora Tarsila do Amaral e o poeta Oswald de Andrade, partiam da compreensão de que, para melhor entender o Brasil, o artista deveria fazer uso da pesquisa de campo e conhecer, por exemplo, o povo caipira, seus costumes e falares. A conversa e a amizade travada entre o narrador e Benedito têm, portanto, muita semelhança com a biografia de Mário de Andrade e seu método de criação. Assim como o narrador é influenciado pelo moço da fazenda, o autor deixou-se influenciar, diversas vezes, pelas lendas, histórias, folclores e vocábulos do povo brasileiro.

Os contos “O peru de Natal” e “Vestida de preto” foram escritos na década de 1930 e fizeram parte do vo 5. lume Contos novos, projeto interrompido pela morte de Mário de Andrade, mas que foi lançado posteriormente. Em Contos novos, episódios singulares são articulados em conjunto, fazendo com que as derrotas de Juca deixem um rastro de narrativa comum. Na HQ, as imagens também apresentam essa ligação entre os dois contos. Como isso acontece? No conto “O peru de Natal”, página 10, o narrador fala sobre o amor de infância pela prima, que contribuiu para sua fama de louco. Nesse momento, as mesmas crianças da HQ “Vestida de preto” aparecem no quadrinho, como em um flashback. Portanto, não só a história se repete, mas também os traços das ilustrações.

No conto “Vestida de preto” há um momento em que fica clara a transferência do amor de Juca pela prima 6. para o amor pelos estudos. Que atitude de Juca marca esse momento? A atitude de Juca que marca esse momento é o beijo na capa de um livro: “Fui abraçando os livros de mansinho, acariciei-os junto ao rosto, pousei a minha boca numa capa feia” (p. 45).

Os contos escritos por Mário de Andrade e narrados pelo personagem Belazarte – “Belazarte me contou” (p. 7. 58) – dialogam abertamente com a figura folclórica de Malazarte. Pesquise informações sobre esse personagem e, com base em suas descobertas, trace hipóteses sobre a razão de o autor mudar o nome Malazarte para Belazarte. Pedro Malazarte tornou-se personagem conhecido da cultura portuguesa e, por herança, da cultura bra sileira. Ele representava um exemplo de esperteza, inteligência e criatividade, mas não se sentia nem um pouco culpado em mentir para enganar as pessoas em proveito próprio. Embora a resposta seja pessoal, espera-se que os alunos percebam que Mário de Andrade troca o prefixo mal pelo antônimo bem. Daí em diante, algumas hipóteses podem ser formuladas. A mais aceita é que o autor pretendia, com a inversão do nome, também inverter o poder de Malazarte, que sempre se safava das situações por meio da mentira. Com essa alteração, portanto, Mário também evidenciou muitas atitudes primitivas e antiéticas desse personagem, que não mais se esquivaria dos problemas, ao contrário, passaria a narrar a realidade brasileira e suas tragédias. Não por acaso, os contos de Belazarte escolhem a periferia de São Paulo como cenário. Segundo Rabello, dessa maneira o autor “[...] focalizava a realidade social da periferia paulistana, com seu cortejo de infelicidades e pobreza, ausência de direitos e formas arcaicas de subordinação (apud ANDRADE, 2015, p. 120).

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Sugestão interdisciplinar: Arte (teatro) O nascimento do conto antecede o da escrita. A adaptação da narrativa oral para o registro escrito só foi possível por meio de uma técnica que privilegia a construção concisa da história em favor da unidade de efeito. É importante que os alunos entrem em contato com essa trajetória para que compreendam as diversas características que, ao se assemelharem, formam o gênero conto, como afirma a professora Nádia Gotlib: [...] o que faz o conto – seja ele de acontecimento ou de atmosfera, de moral ou de terror – é o modo pelo qual a história é contada. E o que torna cada elemento seu importante no papel que desempenha nesse modo de o conto ser. Como bem formulou o contista Horacio Quiroga, ao alertar para alguns “truques” do contista: “Em literatura a ordem dos fatores altera profundamente o produto” (GOTLIB, 2006, p. 17).

Para que os alunos se conscientizem dos elementos que regem o “modo de o conto ser” desde o passado, convide-os a retomar o conto “Vestida de preto” e a observarem como o narrador é representado na HQ: um homem que conta uma história aos amigos, revivendo assim os primeiros contistas, de quando o gênero pertencia apenas à oralidade. Após essa análise, convide-os a também serem contistas aproveitando, assim como na HQ, não apenas o texto verbal, mas os gestos, as expressões, a entonação etc. Você pode organizar a turma em quatro grupos. Cada grupo deve ler um conto original deste livro e preparar uma apresentação oral da narrativa para o resto da turma. Explique a eles que apenas um aluno do grupo deve contar a história. Os outros podem trabalhar na adaptação do roteiro, na direção, nos efeitos sonoros etc. É importante que a turma tenha noção da voz solitária do narrador e, principalmente, da construção da narrativa, tendo em vista os efeitos que pode causar. Para incentivar a participação de todos, não imponha limites ao formato de contação do conto. Você pode, inclusive, incentivá-los a abraçar formatos que fazem parte do cotidiano deles. A apresentação pode ser gravada e apresentada à turma, posteriormente. Por fim, reúna os grupos para uma reflexão acerca das diferenças que notaram entre o conto escrito e o conto narrado oralmente. Algumas questões podem ajudar a turma nessa análise: ƒƒ Que efeitos vocês tiveram de criar para narrar oralmente o conto? ƒƒ A história teve de ser estendida ou comprimida? ƒƒ Vocês conseguem indicar efeitos textuais utilizados no conto? ƒƒ Vocês conseguem indicar efeitos gráficos que tiveram de ser transformados em gestos, entonação da voz ou outros? ƒƒ Ao transpor o conto escrito para a narração oral, vocês pensaram no efeito que gostariam de causar nos ouvintes? Pensaram em estratégias para que esse efeito fosse alcançado? Caso sinta a necessidade, conclua a atividade com a teoria exposta no texto anterior “O gênero conto”. Essa é, também, uma boa oportunidade de incentivar a turma a se aventurar pelos contos originais de Mário de Andrade, passeando assim pelos diversos gêneros e formatos de uma só narrativa.

Sugestão interdisciplinar: História O título do segundo conto do livro é “Será o Benedito!”, expressão muito usual na época em que o conto foi lançado. Sugira aos alunos que pesquisem em livros e sites e descubram a origem dessa expressão. Você pode 11


também pedir a eles que pesquisem outras expressões que tenham relação histórica ou mitológica, como: “Agora Inês é morta!” ou “Esse é um trabalho hercúleo”. É possível distribuir algumas expressões entre os alunos para que produzam uma apresentação oral e breve sobre o que pesquisaram. Se julgar adequado, convide o professor de História para participar da atividade. A versão histórica mais aceita para essa expressão é a de que ela se originou de uma pergunta – Mas será o Benedito? – feita por alguém curioso em saber quem Getúlio Vargas escolheria como interventor do estado de Minas Gerais. Como Vargas demorava muito para nomear um interventor, a demora gerou inquietação entre os inimigos políticos de um dos candidatos ao posto, cujo nome era Benedito Valadares. De fato, em 12 de dezembro de 1933, o Benedito foi nomeado ao cargo. Caso julgue interessante e com o auxílio do professor de História, procure inserir os alunos no contexto histórico do Brasil da década de 1920 – quando a obra de Mário de Andrade era expoente do Modernismo e a sociedade cafeeira dominava as relações políticas do país –, e na década de 1930, principalmente na fase da ditadura getulista. Dessa maneira, é possível traçar uma comparação entre a situação política e social do Brasil e a obra do autor, que, em 1922, carregava o otimismo de um novo projeto de sociedade e arte e, na década de 1930, já apontava o olhar para a realidade do país com um viés despido do otimismo de outrora.

Referências bibliográficas ANDRADE, Mário de. Poesias completas. São Paulo: Martins Editora, 1955. ______. Contos novos. São Paulo: Nova Fronteira, 2015. ASSIS, Lúcia Maria de; MARINHO, Elyssa Soares. História em quadrinhos: um gênero para a sala de aula. São Paulo: Edgard Blücher, 2016. BRASIL. SEB. Orientações Curriculares para o Ensino Médio – Linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília: MEC, 2006. GOTLIB, Nádia Batella. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 2006. (Série Princípios). LINDEN, Sophie Van der. Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

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Manual do Professor - O Peru de Natal e outros contos de Mário de Andrade  
Manual do Professor - O Peru de Natal e outros contos de Mário de Andrade