Material Digital do Professor | Ilegais

Page 1

MATERIAL DIGITAL DO PROFESSOR

ILEGAIS Luiz Antonio Aguiar

Editora do Brasil

Ilustrações de Fabio Maciel

Elaborado por: Maria Schtine Viana, doutoranda no Departamento de Estudos Portugueses da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Portugal. Mestre em Filosofia pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) e Bacharel em Letras (Português/Francês) pela FFLCH-USP. Estudou Artes Cênicas e atuou como atriz em várias companhias teatrais. É autora de livros de literatura, didáticos e destinados à formação de professores. Algumas de suas obras foram aprovadas em programas governamentais, como PNLD e PNBE, e receberam o Selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).


Sumário Carta ao professor e à professora............................. 3 Propostas de atividades I.......................................... 4 Pré-leitura............................................................................. 4 Leitura................................................................................... 5 Pós-leitura............................................................................. 8

Propostas de atividades II....................................... 13 Gêneros textuais ................................................................ 13 Criação de jornal escolar.................................................... 16

Aprofundamento..................................................... 18 Gêneros literários: a diferença entre conto, romance e novela ................................................................................. 19 Os elementos estruturantes da obra literária.................... 22 Gêneros do discurso.......................................................... 28 Tipologia textual................................................................. 30

Referências complementares.................................. 33 Sugestões de artigos científicos........................................ 33 Sugestões de filmes............................................................ 34 Sugestões de músicas........................................................ 35 Sugestões de reportagens................................................. 36 Sugestões de sites.............................................................. 36

Bibliografia comentada........................................... 37


Carta ao professor e à professora A presença de crianças e jovens protagonistas em narrativas destinadas ao leitor em formação já era comum na produção literária do século XIX. Basta pensar em obras como Oliver Twist (1837), do inglês Charles Dickens, ou As aventuras de Tom Sawyer (1876), do norte-americano Mark Twain. Entretanto, foi ao longo do século XX que essa tendência se acentuou e, na atualidade, são inúmeras as obras destinadas a leitores de todas as idades cujos protagonistas são crianças e jovens. Quem trabalha com jovens, como vocês, professor e professora, sabe que são bem recebidos pelos estudantes os personagens com os quais eles possam se identificar. Para isso, é importante que o leitor sinta aproximação com o universo de referência e suas esferas de ação. Além disso, esse leitor em formação espera que os protagonistas sejam capazes de transformar as circunstâncias indesejáveis em que se encontram e superar as provas que terão de enfrentar ao longo da narrativa. A obra Ilegais, de Luiz Antonio Aguiar, apresenta ao leitor um amplo leque para que essa identificação ocorra, já que o protagonista, Jair, tem que enfrentar desafios tanto no âmbito familiar, ao lidar com a separação dos pais, quanto na vida pessoal, ao lutar pelo sonho de ser jogador de futebol profissional. Além disso, há os conflitos e as alegrias que envolvem sua relação com a namorada, Elvira. Ainda que o grande conflito da ação seja a decisão de ir ou não ilegalmente para os Estados Unidos, todos esses fatos cotidianos também são importantes e poderão estimular ainda mais o envolvimento dos jovens na história. O livro também pode ser um bom ponto de partida para estimular os estudantes a se autoconhecer, identificar seus pontos fortes e fracos e refletir continuamente sobre o próprio desenvolvimento, suas metas, seus projetos de vida. Neste Manual, apresentaremos informações sobre literatura e gêneros do discurso, bem como um conjunto de atividades para subsidiar seu trabalho. Entretanto, reiteramos que são apenas sugestões, pois somente sua prática educativa cotidiana poderá determinar que caminhos deverão ser seguidos. Maria Schtine Viana


Propostas de atividades I Pré-leitura Ambientada em um mundo que poderia ser real, a obra Ilegais aborda questões que exploram o sonho e a realidade. Como os estudantes do Ensino Médio, geralmente, estão prestes a atingir a maioridade, questões como a busca do primeiro emprego e a necessidade de encontrar formas de se sustentar ou continuar os estudos são recorrentes. Nessa idade, também se pode ter a ilusão de que vale a pena migrar, mesmo que de maneira ilegal, na busca por melhores condições de vida. É por isso que a obra Ilegais pode ser uma excelente ferramenta para provocar neles reflexões sobre seus projetos de vida. Antes do início da leitura, proponha uma roda de conversa sobre a importância de traçar um projeto de vida na juventude. Converse com os estudantes sobre os planos deles com relação ao futuro. Pretendem continuar os estudos? Pensam em fazer uma graduação ou uma formação profissionalizante? Estimule-os a fazer perguntas a si mesmos considerando suas vocações (O que sabem fazer?), desejos (O que querem fazer?) e dificuldades (Quais são os impedimentos e como resolvê-los?). Também é importante ajudá-los a pensar nas pessoas com quem poderão contar ao estabelecer as metas para um projeto de vida. Os pais, os tios ou os amigos mais velhos, que já passaram por essa situação, podem ser consultados nesses momentos de indecisão em um período tão importante da vida. As desilusões sempre estão no campo das possibilidades, por isso a importância do apoio das pessoas que amamos. Depois dessa conversa inicial, apresente o livro à turma. Faça um levantamento das expectativas dos estudantes sobre o enredo com base no título e na leitura do texto de quarta capa. Em seguida, pergunte se eles sabem definir “migração” (processo de deslocamento populacional por um espaço geográfico) e deixe que tentem listar alguns dos tipos de migração que podem ocorrer: migração interna (dentro de um mesmo país), migração externa (de um país para outro), migração forçada e migração ilegal. Esses conceitos serão explorados na atividade seguinte, mas, antes de mergulharem na narrativa, é importante que os estudantes entendam que há vários tipos de migração. Acolha os comentários e as hipóteses da turma. Caso algum estudante tenha lido outras obras de Luiz Antonio Aguiar, estimule-o a partilhar o enredo desses livros. 4


Esse conteúdo contempla as seguintes habilidades descritas na BNCC para o componente curricular Língua Portuguesa e Linguagens e suas Tecnologias: EM13LGG101, EM13LGG602 e EM13LP01.

Leitura Durante o processo de leitura da obra, é possível introduzir alguns assuntos para que os estudantes compreendam o enredo de forma mais abrangente e contextualizada. Na história, o narrador intercala reportagens publicadas em 2017 e 2018 no jornal Folha de S.Paulo. Nessas notícias, há informações que podem ser um bom ponto de partida para discutir mais a fundo conceitos como migração e imigração ilegal. Veja a seguir algumas informações que podem ser discutidas com a turma ao longo dos dias determinados para a leitura da obra Ilegais. Com isso esperamos auxiliá-lo a exercitar, de forma sistemática, a leitura crítica, criativa e propositiva da obra.

A complexidade do processo migratório Comece a discussão retomando o assunto referente aos processos migratórios e aprofunde um pouco mais a definição desse conceito. A migração ocorre quando há deslocamento de pessoas de determinada cidade, estado ou país para outra localização geográfica. Assim, migrações internas são aquelas que ocorrem dentro das fronteiras de um mesmo país; migrações externas, ou internacionais, são aquelas em que há mudança de residência para outro país, também designadas como “emigrações”. Esse deslocamento pode ocorrer de forma definitiva ou temporária, voluntária ou forçada, individual ou em grandes fluxos. Os motivos que incitam a migração são vários: guerras, desastres naturais, perseguição social, religiosa, política e ideológica, conflitos étnicos, estudo, trabalho, saúde, desejo de melhorar a situação social e financeira etc. As migrações, independentemente das classificações e dos motivos, tiveram um papel importante na organização espacial dos países como os conhecemos na atualidade, além de influenciar as relações sociais e culturais de um lugar. Na história do Brasil, há muitos exemplos de migrações internas e externas que ajudaram a moldar o país. Cabe ressaltar, durante essas conversas com os estudantes, que o processo migratório é complexo e tem sofrido profundas alterações ao longo da história. Se, por um lado, a chegada dos europeus às Américas iniciou uma grande onda migratória do antigo para o novo continente, redesenhando o mundo no século XVI, por outro, 5


Guillaume Pinon/NurPhoto/Getty Images

catástrofes naturais, guerras e conflitos entre nações foram responsáveis por diversas ondas migratórias ao longo da história mais remota e mais recente. Você pode citar alguns exemplos de migrações significativas que ocorreram no último século para que eles possam compreender como esse processo, tema de estudo dos livros de História e Geografia, afetou e ainda afeta a vida de várias pessoas. Exemplos: Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que envolveu diversos países e etnias; o terremoto que destruiu o Haiti em 2010 e incitou uma onda migratória de haitianos para o Brasil; a guerra civil da Síria, que causou uma migração maciça dessa população para outros países da Europa e do mundo a partir de 2011, entre tantos outros.

Refugiados sírios chegam à praia, em 2016. Todos os dias, vários barcos de migrantes chegam à ilha de Lesbos, na Grécia.

Entretanto, não foram apenas os desastres naturais ou causados pelo ser humano que definiram a migração na atualidade. A globalização também trouxe uma alteração sem precedentes, transformando os diversos perfis migratórios ao redor do mundo. Muitas empresas multinacionais, por exemplo, estimulam seus jovens profissionais, altamente qualificados, a deixar o país de origem, geralmente desenvolvido, para trabalhar e residir em países em desenvolvimento, onde as oportunidades profissionais são promissoras. Diversos trabalhadores também podem morar no estado/país onde trabalham durante a semana e voltar para o estado/país de origem nos fins de semana. Jovens podem escolher estudar no exterior de forma temporária ou permanente ou até tentar a vida em outro país em busca de novas oportunidades. Portanto, é impossível aplicar uma regra geral para um quadro tão complexo. 6


Esse conteúdo contempla as seguintes habilidades descritas na BNCC para o componente

curricular

Língua

Portuguesa e Linguagens e suas Tecnologias: EM13LP45 e EM13LGG302.

Migrantes de Honduras tentando chegar aos Estados Unidos pela fronteira com o México, em 2018.

7

REUTERS/Kim Kyung Hoon/Reuters/Fotoarena

A migração também pode ser considerada uma fase de transição para a cidadania. Isso ocorre quando um imigrante legalizado recebe um visto de residência provisório, como trabalhador ou estudante. Esse documento é renovado anualmente e, após determinado prazo, conforme as regras de cada país, lhe é concedida a cidadania. Mas essa não é a situação dos imigrantes ilegais: eles não têm visto, sua situação no novo país tende a ser precária exatamente devido a essa ilegalidade, e os entraves que enfrentam durante o deslocamento são enormes. Vários deles nem sequer conseguem chegar ao destino. Infelizmente, ainda que façam parte da comunidade nacional onde escolheram viver, e muitos reconheçam que o imigrante indocumentado, que tenha decidido residir permanentemente em determinado território, deva ser reconhecido como residente, a situação varia de um país para outro. No caso dos Estados Unidos, a imigração tem provocado diversas controvérsias e polêmicas, sobretudo nas últimas décadas. Por ser um país economicamente desenvolvido e apresentar uma ampla possibilidade de trabalhos que não exigem alta qualificação profissional, os EUA atraem imigrantes do mundo inteiro. Nesse caso, é indiscutível a participação dos imigrantes para o desenvolvimento econômico, pois trata-se de uma mão de obra abundante, eficaz e mal remunerada – sobretudo porque os imigrantes que vivem na ilegalidade acabam sendo obrigados a se submeter a condições precárias de trabalho. Portanto o debate sobre a imigração ilegal não é simples e está sempre envolto em controvérsias. A obra Ilegais pode ser um bom ponto de partida para a discussão de aspectos apresentados neste item e nos paratextos destinados aos estudantes. Além disso, podem-se trabalhar com a turma as reportagens usadas na obra e os artigos acadêmicos indicados na seção Referências complementares.


Pós-leitura Identificação e opinião Após a leitura da obra Ilegais, promova um debate sobre a postura de cada jovem retratado na narrativa e pergunte se alguém, de alguma forma, identifica-se com algum deles e por quê. A postura de cada estudante pode ser variável em relação aos diferentes assuntos explorados pela obra, como imigração ilegal, perspectiva de trabalho, relacionamentos, violência etc. Aproveite para introduzir também a questão do desemprego da mãe de Jair, do sentimento de depreciação e desânimo que a toma e do drama da relação dela com o pai do protagonista, provavelmente influenciado pelas condições emocionais e mentais resultantes da falta de perspectiva profissional. Essa contextualização é importante para que os estudantes compreendam as ansiedades, as inseguranças e as decisões do protagonista, Jair. Pergunte se conhecem pessoas que passaram por situação semelhante e como a superaram. Esse é um momento para explorar a opinião dos estudantes e os sentimentos que a narrativa evocou em cada um deles, além de ser uma boa oportunidade para estabelecer paralelos entre a ficção e a realidade. Reitere que não há respostas certas ou erradas e que todos têm o direito de expressar e defender suas ideias.

O narrador, os personagens, o enredo, o espaço, o tempo e a linguagem As atividades a seguir foram elaboradas tendo em vista a análise de pontos específicos da obra Ilegais. Antes de propô-las, sugerimos que você leia a discussão teórica sobre o gênero novela e os elementos estruturantes do gênero literário, apresentados na seção Aprofundamento. Essas atividades podem ser feitas individualmente ou em grupo, oralmente ou por escrito. O objetivo é que os estudantes sejam incentivados a explorar a narrativa mais a fundo, compreendendo os elementos que ajudaram a construir a totalidade da obra.

O narrador É aquele que narra os fatos, descreve o ambiente e os personagens. Apresente 1. aos estudantes os diferentes narradores que aparecem em Ilegais e peça que os identifiquem. a) Narrador-personagem – Em primeira pessoa, relata os fatos de acordo com o seu ponto de vista. 8


b) Narrador onisciente – Em terceira pessoa, não participa da ação, mas revela o que os personagens pensam e sentem. Com a definição estabelecida, peça aos estudantes que selecionem dois 2. trechos diferentes, exemplificando e/ou explicando cada tipo de narrador. Abaixo, apresentamos duas opções para ajudá-lo nesse processo. a) “Um tipo sorridente, mas sem exageros. Parecendo gente boa, pelo menos foi o que Jair achou, assim de cara” (p. 10). Narrador onisciente. Ele sabe o que acontece, conhece as características físicas e os pensamentos dos personagens. b) “Uma hora... podia ser agora... Acho que eu ia me sentir melhor... se não estivesse escondendo nada... da Elvira... logo dela” (p. 34). Narrador-personagem. Neste caso, o personagem assume a posição de narrador para expor seu pensamento.

Os personagens e o enredo Peça aos estudantes que analisem outros aspectos da narrativa, como perso 1. nagens e enredo, com base nas seguintes questões: a) Como você descreveria Jair, o protagonista da obra Ilegais? Resposta possível: Jovem de 17 anos, empenhado em realizar seu sonho de tornar-se um jogador de futebol profissional. Namora Elvira e sempre apoia os pais, que estão separados, e torce para que eles voltem a viver juntos. Decide embarcar como imigrante ilegal para os Estados Unidos quando seus sonhos de se tornar um jogador profissional são frustrados. Tem forte senso moral e ético, pois, ao perceber que terá de cometer um crime para conseguir o dinheiro necessário para a viagem, desiste da ideia. No desfecho da obra, ao enfrentar Fred, demonstra sua fidelidade ao amigo Rildo, a quem consegue salvar graças à sua atitude corajosa.

b) Que personagens da narrativa são significativos para a trajetória de Jair, influenciando o projeto de vida do protagonista direta ou indiretamente? Resposta possível: Elvira: namorada de Jair, apoia o jovem como jogador na seleção de futsal do Clube Saracunas. Bastante intuitiva, percebe que Jair esconde dela alguma coisa. Quando descobre os planos do namorado quanto à viagem ilegal, além de não concordar com o projeto, mostra-lhe dados reais sobre o triste fim dos que embarcaram nessa aventura. Ela chega a romper o namoro quando ele anuncia estar decidido a viajar ilegalmente. Rildo: melhor amigo de Jair. Os rapazes se conhecem desde a infância.

9


É ele quem apresenta Fred e o primo Delaney ao amigo. Durante toda a trama, tenta convencer Jair a viajar ilegalmente para os EUA. Delaney: jovem que vive em Juiz de Fora, Minas Gerais. É primo de Rildo, com quem costuma passar férias no Rio de Janeiro. Ingênuo, acredita na proposta de Fred e acaba sendo vítima fatal do “Coiote”, que assassina covardemente o rapaz. Ao deixar um pedaço do adesivo com a cena do filme King Kong no carro, lança uma pista de que fora assassinado e uma prova para a polícia condenar Fred. Fred: também chamado de “Coiote”. No primeiro encontro com os rapazes, age de maneira dissimulada e engana tanto Rildo como Delaney com suas promessas, na tentativa de conseguir levá-los ilegalmente para os EUA. Seus argumentos sobre a precariedade das oportunidades de trabalho e as incertezas quanto ao futuro reverberam na mente de Jair, sobretudo quando não é contratado como jogador de um clube profissional. Cria e-mails falsos, como se fosse Rildo que os estivesse escrevendo, e dessa maneira continua a enganar os jovens. Pejota: pai de Jair. Corretor de imóveis que vive um momento difícil, pois, com a crise, as vendas caíram muito. Está separado de Marina, mãe do protagonista, mas dorme com frequência no sofá do apartamento da ex-mulher. Apesar de perceber que o filho está agindo de forma estranha, não procura saber o que se passa. Talvez por estar preocupado demais com a falta de dinheiro e sua relação com a ex-esposa. Marina: mãe de Jair. Jornalista desempregada, vive uma crise profissional e matrimonial durante a história. Pressente que há algo de errado com o filho, mas não consegue decifrar exatamente que se passa com ele. Só se dá conta dos planos do jovem no final da trama, quando ele escapa pela porta levando uma mochila com alguns pertences, a despeito dos argumentos dela para demovê-lo da ideia de viajar como clandestino para os EUA. Gomes: treinador do Saracunas, time em que Jair joga futsal. Apesar de apoiá-lo no início do campeonato, não faz nada para impedir que o “olheiro”, seu amigo, escolha Vadico no lugar dele para jogar em um time de futebol profissional. Dessa maneira, indiretamente, contribui para que Jair decida seguir o plano de Rildo e levar adiante a ideia de migrar ilegalmente.

O espaço A narrativa transcorre em diferentes espaços. Solicite que os estudantes fa 2. çam uma breve descrição desses locais. 10


Resposta possível: A história transcorre na cidade do Rio de Janeiro. Grande parte da narrativa se passa no apartamento onde Jair mora com a mãe, Marina, e que o pai, Pejota, frequenta diariamente. Há também os episódios que ocorrem nos clubes onde Jair joga futsal e disputa o campeonato. Algumas cenas ocorrem na rua, como as conversas entre Rildo e Jair e a passagem em que Jair enfrenta Fred. A cena final, na qual Jair se reconcilia com Elvira, também se passa na rua. Os lugares imaginários, Texas e Nova York, de onde supostamente Delaney manda informações para o primo, também são importantes, ainda que essas mensagens tenham sido inventadas por Fred.

O tempo Outro elemento muito importante para uma narrativa é sua temporalidade. 3. Peça aos estudantes que identifiquem o ano em que se passa a história, quanto tempo transcorre entre seu começo e desfecho etc. Resposta possível: A história se passa em agosto de 2017, algo que pode ser inferido pela reportagem do jornal Folha de S.Paulo intitulada “Pesadelo americano”, que Elvira lê para Jair, tentando dissuadi-lo da ideia de imigrar como ilegal. Na página 17, ao se despedir dos jovens, Fred avisa que entrará em contato em um mês, pois assim Rildo e Jair teriam tempo de pensar e conseguir o dinheiro para fazer a viagem. Portanto, toda a intriga transcorre em cerca de 30 dias.

Linguagem Para criar um ambiente fictício que possa ser facilmente tido como real, é 4. muito importante que a linguagem utilizada reflita o ambiente e a situação dos personagens da trama. Em Ilegais, o narrador utilizou a linguagem figurada em diferentes situações, um tipo de linguagem em que se usam palavras ou expressões para exprimir uma ideia ou sentimento por meio de termos diferentes daqueles usados pela linguagem literal. Por exemplo: “A dor respingava. Era o que mais acontecia naquela casa ultimamente. Dor respingando” (p. 37). Solicite aos estudantes que identifiquem outras situações em que essas expressões foram usadas no texto e as reescrevam em linguagem literal. Depois, em uma roda de conversa, ajude-os a perceber como a linguagem figurada é ferramenta importante para uma composição literária.

11


Listamos alguns exemplos abaixo: a) “Caca da mosca do cavalo do bandido!” (p. 49). Essa expressão foi usada por Marina ao dizer como se sentia por estar desempregada. A frase significa que ela estava se sentindo péssima, diminuída, com baixa-autoestima. b) “[...] ah, aquela areia vazando pela garganta quando a situação complicava...!” (p. 54). Refere-se a Jair quando se sente em conflito sobre que decisão tomar com relação à possibilidade de migrar ilegalmente e não conseguir falar com os pais sobre o assunto. A frase poderia ser substituída por: Jair não conseguia falar com seus pais sobre suas indecisões e problemas, estava com sede, mas a água não descia bem pela garganta.

Outro tipo de linguagem usada pelo autor para criar sua ficção são os ditos 5. populares, com sua grande expressividade. Apresente a seguinte expressão retirada do texto: “Como é o ditado? Pouca farinha, meu pirão primeiro...?” (p. 53). Marina usa esse dito popular para dizer que, quando a situação está difícil, as pessoas cuidam primeiro dos seus próprios interesses. Peça aos estudantes que pesquisem outras expressões e ditados populares explorando a internet ou conversando com pessoas mais velhas conhecidas ou da família. Além de transcrever as expressões, eles devem descobrir o que significam. Seguem algumas sugestões para que você possa explorá-las em sala de aula: a) “Meter os pés pelas mãos”. Significado: confundir-se, atrapalhar-se na “Mexer em casa de marimbondo”. Significado: provocar, com palavras ou atos, situação ou reação desagradável, insuportável, perigosa etc. b) “Chover no molhado”. Significado: insistir em qualquer coisa já muito batida ou na tentativa de resolver situação já resolvida. Esse conteúdo contempla as seguintes habilidades descritas na BNCC para o componente curricular Língua Portuguesa e Linguagens e suas Tec­nologias: EM13LP07, EM13LP48, EM13LP51,

EM13LGG401,

EM13LP48

EM13LP49.

12

e

Fabio Maciel

execução de uma tarefa.


Propostas de atividades II Gêneros textuais Ilegais é uma obra do gênero literário novela, assunto que trataremos na seção Aprofundamento. Entretanto, o narrador utiliza reportagens e notícias reais para dar mais veracidade à sua história, por isso apresentaremos características específicas de alguns desses gêneros textuais, acompanhadas por sugestões de atividades. Antes de explorá-las, sugerimos que você leia ainda a discussão teórica, também apresentada na seção Aprofundamento.

Análise dos gêneros textuais jornalísticos Há no livro Ilegais trechos extraídos de reportagens, que poderão ser usados como estímulo para trabalhar o gênero jornalístico. O gênero textual entrevista, por sua vez, é mencionado na obra quando a mãe de Jair conta para o ex-marido sua experiência em uma entrevista de emprego. Antes de dar início a essas atividades, explique aos estudantes que o jornal é uma publicação periódica, ou seja, um novo exemplar é publicado de tempos em tempos. Geralmente são impressos em papel-jornal, de custo baixo, mas hoje em dia são publicados também em formato eletrônico. Existem jornais que são lidos no mundo todo ou de circulação mais restrita, lidos por pessoas de um país, estado, município. Há também aqueles destinados a um grupo específico, como o jornal de um clube, de uma igreja, de uma escola. Depois da leitura do livro, mostre aos estudantes as definições apresentadas a seguir, ajudando-os a identificar três tipos de texto que podem integrar um jornal: notícia, reportagem e entrevista. Com o objetivo de trabalhar a capacidade de observação da turma, providencie pelo menos um exemplo de cada tipo de texto, organize os estudantes em grupos e distribua um texto para cada grupo. Peça que os integrantes de cada grupo manuseiem esses materiais, observando as características dos três gêneros textuais: formato, linguagem, propósito etc. Cada grupo deve, ao final, produzir um relatório de uma a duas páginas com suas observações. Para finalizar a atividade, em uma roda de conversa, peça que os grupos apresentem suas conclusões aos colegas.

Notícia Trata-se de um texto informativo, com o objetivo de noticiar um fato ou acontecimento. Podemos perfeitamente identificar características narrativas no 13


gênero notícia, pois apresenta-se um fato que ocorreu em determinados momento e lugar envolvendo certas pessoas. As características do lugar e dos envolvidos são descritas com o objetivo de fornecer o máximo de informações ao leitor sobre a situação e/ou satisfazer sua curiosidade acerca de determinado assunto. Outro aspecto importante é a atualidade. Como os leitores desse tipo de gênero textual pretendem obter informações relevantes sobre algo no presente ou no passado recente, a notícia não é um gênero que perdura por muito tempo, a não ser como registro histórico. Ao escrever uma notícia, deve-se ter em conta que ela é redigida baseada em um fato real. Considerar se as seguintes perguntas foram respondidas durante a redação de uma notícia pode ajudar nesse processo: Quem? O quê? Quando? Onde? Como? Por quê?

Reportagem ou informação jornalística É um gênero textual jornalístico de caráter dissertativo-expositivo. A reportagem visa informar e apresentar ao leitor os fatos de maneira clara, com linguagem direta, mais profunda, o que difere da notícia. Por isso não precisa necessariamente estar relacionada a um fato momentâneo. Em geral, aborda um tema relacionado a um fenômeno social de interesse comum e não um fato isolado. A reportagem pode reunir vários componentes do gênero jornalístico, como levantamento de dados e entrevistas com especialistas no assunto tratado. Geralmente é assinada pelo jornalista-repórter, pois apresenta os fatos sob uma perspectiva pessoal. Nesse sentido, também difere da notícia. Além disso, na reportagem o redator pode se valer de outros textos, como informações retiradas de livros e ensaios científicos, para fundamentar e/ou defender seu ponto de vista.

Entrevista Gênero textual fundamentalmente dialogal, consiste em um conjunto de perguntas feitas pelo entrevistador ao entrevistado a fim de obter informações potencialmente interessantes para os leitores do texto. A entrevista pode ser profissional, como citada no livro Ilegais, ou ter um objetivo científico – por exemplo, pode ser feita com um grupo de pessoas que usaram determinado medicamento a fim de mensurar sua eficácia. Pode ainda ter caráter jornalístico. Nesse caso, é utilizada para recolher informações relevantes e atuais sobre determinado tema para veicular em um jornal ou revista, por exemplo. Geralmente, envolve aspectos dissertativo-expositivos, sobretudo quando se trata de entrevista concedida à imprensa ou entrevista jornalística. Mas 14


pode também envolver aspectos narrativos, como na entrevista de emprego, ou aspectos descritivos, como na entrevista médica. A entrevista pode ser feita presencialmente ou por meio tecnológico (telefone ou videochamada, por exemplo). Também pode ser realizada em etapas, com o envio das perguntas por e-mail, que serão respondidas por escrito pelo entrevistado num prazo combinado. Antes de iniciar uma entrevista, mesmo que presencial, o entrevistador deve preparar um roteiro flexível com as perguntas que deseja fazer ao entrevistado, pois uma pergunta pode ser modificada, omitida ou substituída de acordo com o andamento da conversa. O método mais prático para registrar as respostas é gravar a entrevista em áudio ou vídeo. Quando é feita de forma oral, o conteúdo (perguntas e respostas) deve ser transcrito para ser publicado. Ao publicar a entrevista, deve-se ter o cuidado de escrever um título e um texto de abertura que apresente o entrevistado e a contextualize. De acordo com Nilson Lage (2001, p. 37), a entrevista jornalística impressa tem as seguintes especificidades: A entrevista pode ser tratada como notícia. Neste caso, o procedimento é o mesmo de quando se faz o resumo noticioso de um documento: selecionam-se as proposições mais relevantes dentre aquelas das respostas, ordenam-se da mais relevante para a menos relevante e transcrevem-se nessa ordem, intercalando as informações ambientais (quem, que, quando, onde, por que, para que, circunstâncias eventuais) e procurando alternar discurso direto e indireto. Podem-se substituir palavras e expressões, desde que não estejam entre aspas, mantendo o sentido da fala do entrevistado. O lead da entrevista (primeiro parágrafo de uma notícia em jornalismo impresso) será, evidentemente, a proposição julgada mais relevante. Esse conteúdo contempla as seguintes habilidades descritas na BNCC para o componente curricular Língua Portuguesa e Linguagens e suas Tecnologias: EM13LP02,

EM13LP07,

EM13LP35,

EM13LP37,

EM13LGG402.

15

EM13LP33,

EM13LP44

e


Criação de jornal escolar As atividades anteriores sobre gêneros textuais jornalísticos foram um aquecimento para o projeto que será desenvolvido nesta atividade de criação de um jornal escolar. Depois de manusear diversos tipos de notícias/reportagens/entrevistas de diferentes jornais e observar as características desses gêneros jornalísticos, os estudantes se sentirão mais estimulados e preparados para criar um jornal escolar. Antes de iniciar o projeto, é importante explicar a eles que os jornalistas geralmente se reúnem antes da edição de um jornal para definir o que será tratado nas diferentes seções: quais serão as notícias, se haverá uma seção de entrevistas, que assuntos merecem uma reportagem e qual deles será abordado nas seções de esportes, política, lazer, cotidiano etc. Nessas conversas são definidas as pautas, ou seja, assuntos, temas, ideias. De acordo com Nilson Lage (2001, p. 15), há duas denominações possíveis para uma pauta: a) o planejamento de uma edição ou parte da edição (nas redações estruturadas por editorias – de cidade, política, economia etc.), com a listagem dos fatos a serem cobertos no noticiário e dos assuntos a serem abordados em reportagens, além de eventuais indicações logísticas e técnicas: ângulo de interesse, dimensão pretendida da matéria, recursos disponíveis para o trabalho, sugestões de fontes etc. b) cada um dos itens desse planejamento, quando atribuído a um repórter. Ele dirá: “a minha pauta”, quer a tenha recebido como tarefa, quer a tenha proposto. Também é importante explorar o formato jornalístico. Por isso, organize a turma em grupos e oriente os estudantes para que analisem diferentes tipos de jornais, prestando atenção à organização dos textos, ao tratamento gráfico e às fotos e ilustrações usadas nas várias seções. Instrua-os a anotar as informações mais relevantes e eventuais ideias que tiverem durante essa análise.

Criação, redação, diagramação Passo a passo 1. Apresente aos estudantes o projeto, cujo objetivo é a criação de um jornal escolar. 16


Devem-se definir nessa primeira conversa: yy o título do jornal e a periodicidade; yy o público-alvo (O jornal vai circular por toda a escola ou só entre estudantes do Ensino Médio? Circulará apenas na escola ou também na comunidade onde a escola está localizada?); yy o formato (Será digital ou impresso?). Estabeleça que, nessa primeira edição, os temas serão inspirados na obra Ilegais, podendo incluir reportagem sobre migrantes ou imigrantes que vivam na cidade e/ou entrevista com familiares de algum estudante que tenham vindo para o Brasil como imigrantes etc. Além disso, liste os recursos necessários: o espaço para a criação da redação e o material, como computadores, máquinas fotográficas, impressora etc. 2. Organize os estudantes em equipes: alguns podem ser repórteres-redatores ou entrevistadores, outros, fotógrafos e ilustradores, uma equipe poderá se encarregar da diagramação e outra da revisão. 3. Dada a natureza específica da mensagem escrita e das características próprias do gênero jornalístico, explique-lhes que, antes de escrever sobre algo, é necessário pesquisar e explorar o tema ou assunto para saber com clareza do que se trata e a quem o texto se destina. Retome os diferentes tipos de texto jornalístico explorados nas atividades anteriores e reitere que uma entrevista é diferente de uma reportagem, que, por sua vez, difere da notícia. Veja, a seguir, algumas etapas que podem ser usadas para facilitar o processo de redação. yy Refletir sobre o que se quer escrever. yy No caso de uma reportagem, ler textos sobre o assunto em livros, revistas ou sites em busca de inspiração e informações, mas também pensar em exemplos concretos da vida cotidiana, que poderão ser usados para exemplificar uma ideia. yy Elencar as ideias do que se quer escrever, organizando o que deverá entrar na introdução, no desenvolvimento e na conclusão. Rever as partes de cada gênero textual, se necessário. yy Ao iniciar a escrita propriamente dita, a princípio devem-se empregar frases curtas, uma por ideia principal, evitando o uso de frases subordinadas, que deixam o texto muito complexo. yy Concluída a escrita da primeira versão, o próprio autor deve fazer uma revisão, verificando se o texto está coerente, se há repetições que podem ser eliminadas, se está claro e as frases bem construídas. 17


4. Pelo menos duas revisões de cada texto devem ser feitas pela equipe de revisão de texto do jornal – uma antes de diagramá-lo e outra após a diagramação. A revisão de textos, além de fazer parte da prática de produção de textos, envolve também (e principalmente) a análise linguística, uma vez que a proposta é retomar o próprio texto ou o do colega, analisá-lo e reescrevê-lo se necessário. Isso despertará a atenção do estudante quanto aos recursos expressivos da língua (fonológicos, lexicais, gramaticais, textuais, discursivos ou semióticos). 5. A equipe de iconografia deve trabalhar com os repórteres-redatores ou entrevistadores a fim de obter/produzir as fotografias e ilustrações para cada texto. Por exemplo, durante uma entrevista, é interessante tirar algumas fotografias do entrevistado. 6. Finalizada a primeira revisão de todas as matérias e entrevistas, o texto deverá então ser diagramado pela equipe de diagramação, responsável por organizar texto e imagens para montar um jornal com visual atrativo e que facilite a leitura. Para tanto, podem ser usados programas simples de edição de texto e de imagens. 7. Você pode fazer com a turma uma última revisão na tela do computador antes da impressão. 8. Depois de impresso o jornal, os estudantes devem se organizar a fim de distribuí-lo para o público-alvo definido na primeira etapa. Esse conteúdo contempla as seguintes habilidades descritas na BNCC para os componentes curriculares Língua Portuguesa, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e Linguagens e suas Tecnologias: EM13LP35, EM13LP37, EM13LP33, EM13CHS106, EM13LP13, EM13LP14, EM13LP44 e EM13LGG701.

Aprofundamento Acreditamos que as obras criadas especialmente para serem lidas por crianças e jovens devem ter a mesma qualidade de uma criação artística destinada aos leitores adultos. Por isso, nos itens seguintes, apresentaremos algumas reflexões que são imprescindíveis para analisar uma obra literária, independentemente do leitor à qual se destina, por meio de exemplos retirados da novela Ilegais para exemplificar a discussão teórica. Esses aspectos podem ser compartilhados com os estudantes antes ou ao longo da realização das atividades propostas neste manual. Dessa maneira, pretendemos contribuir para uma maior compreensão dinâmica das convenções literárias relacionadas à obra. 18


Gêneros literários: a diferença entre conto, romance e novela Se considerarmos a literatura como um sistema, podemos dizer que se trata de um sistema estável, regido por leis de funcionamento, mas com variações históricas. De maneira geral, uma obra literária pode ser estudada do ponto de vista diacrônico, ou seja, com base na história dos movimentos literários; mas também pode ser pensada com base nas qualidades intrínsecas da obra, o que seria um estudo sincrônico. Há ainda a possibilidade de analisar uma obra levando em conta esses dois aspectos de maneira integrada. Por exemplo, a obra Ilegais é considerada uma novela e, para compreender isso, podem-se analisar as características desse gênero presentes na narrativa. Entretanto, pode-se também fazer um levantamento histórico da evolução do gênero ao longo do tempo, para depois especificar com que tipo de novela essa obra dialoga. O que determina o gênero novela não é apenas o fato de a narrativa ser mais longa que um conto ou mais curta que um romance. É a estrutura, a maneira pela qual os elementos são enredados que possibilita ao estudioso fazer essa classificação. O conto é um relato geralmente breve, oral ou escrito, de uma história de ficção. A brevidade é por certo uma importante característica do gênero conto, por isso, há poucos personagens nesse tipo de narrativa. O tempo em que se passa a ação também costuma ser curto, e os espaços onde a história acontece são reduzidos. Os contos são considerados monotípicos, ou seja, o mesmo personagem atua na mesma esfera de ação, pois é praticamente impossível apresentar intrigas secundárias e muitos personagens com densidade em poucas páginas. Por sua vez, o romance como conhecemos na atualidade é um gênero relativamente jovem, pois se consolidou com a formação da burguesia, ou seja, no século XIX, quando alguns teóricos entenderam que a nomenclatura “gênero épico” era insuficiente para dar conta de toda uma produção romanesca, que pouco tinha em comum com o poema épico. Assim, a denominação do gênero passou a apresentar as alternativas épico, quando diz respeito à origem histórica, e narrativo, para acompanhar a evolução da criação literária. O fato de no Brasil a palavra novela ser usada para designar a telenovela, uma série de episódios de ficção, com enredo romântico, veiculados pela televisão em forma de capítulos, pode confundir esse gênero midiático com o conceito literário de novela. Ainda que comumente se use o termo novela para designar o gênero narrativo mais longo que o conto e mais curto que o romance, há outras características 19


que devem ser consideradas nessa classificação. Na novela, diferente do que ocorre no romance, não há grandes descrições dos personagens ou dos locais onde se passa a ação. Dá-se prioridade à narração, à ação e aos diálogos. A novela apresenta uma trama geralmente complicada, com mais personagens do que o conto. Mas o elemento essencial é que há um encadeamento de ações baseadas em um conflito central que aponta para um final que se espera ser surpreendente. Portanto, uma das características centrais é que vários enredos vão sendo desenvolvidos no decorrer da narrativa, mas há uma conexão entre eles. Essa característica pode ser observada na obra Ilegais. O tema central é a dúvida de Jair quanto a migrar ou não ilegalmente para os Estados Unidos. Em torno desse conflito giram todas as outras tramas: as discussões com o amigo Rildo, que decide partir como fizera o primo; as brigas com a namorada, Elvira, que não apoia seu desejo de imigrar; a decepção com o futebol, já que decide partir para os EUA ao se ver preterido injustamente na contratação pelo clube profissional. Em certa medida, até os conflitos afetivos e problemas profissionais dos pais giram em torno desse tema central, pois Jair se sente na obrigação de ajudá-los financeiramente. De acordo com o crítico literário russo B. Eihenbaum, a novela é construída com base em uma contradição, um erro ou um contraste. Além disso, tudo em uma novela de intriga progride com intensidade até alcançar o desfecho. Por sua vez, no romance, é preponderante a capacidade técnica de afrouxar a ação “para combinar e soldar os elementos heterogêneos, a habilidade para desenvolver e ligar episódios, para criar centros de interesse diferentes, para conduzir intrigas paralelas etc.” (CHKLOVSKI et al., 1989, p. 76). Todos esses recursos determinam que o final do romance seja enfraquecido, pois o ponto culminante da ação deve encontrar-se antes do fim. Em contrapartida, a novela tende a ter um final surpreendente. É exatamente isso que se verifica na obra Ilegais. O suspense em torno da verdadeira identidade e das intenções de Fred e de sabermos se Jair vai ou não embarcar na aventura, com uma reviravolta inesperada, mantém a narrativa nesse clima até as páginas finais.

Os diferentes tipos de novela O teórico russo V. Chklovski, em seu artigo “A construção da novela e do romance”, sintetiza bem a peculiaridade deste gênero (CHKLOVSKI et al., 1989, p. 50): “Geralmente, a novela é uma combinação das construções em caracol e em patamares, e, além disso, complicadas por diversos desenvolvimentos”. Há vários tipos de novela. As novelas podem ser um conjunto de contos entrelaçados entre si, como é o caso da obra As mil e uma noites. Em geral, nesse tipo de texto, os contos são estruturados para retardar a execução de alguém. 20


Os contos não são apenas relacionados uns aos outros, há uma conexão entre todos eles, resultando em um texto coeso. Existem também novelas compostas de contos de enquadramento, em que a narração tem um fim em si mesmo, mas que não são protagonizadas pelo mesmo personagem, como é o caso de Decamerão, do italiano Giovani Boccaccio (1313-1375). Já as chamadas novela-anedotas geralmente são protagonizadas pelo mesmo herói e têm um caráter acabado. Essas novelas costumam terminar quando o herói apresenta uma solução para um enigma. Um personagem bastante recorrente como protagonista desse tipo de novela, sobretudo na Região Sudeste do Brasil, é Pedro Malasartes, um malandro, dotado de muita malícia, que consegue sair-se bem das situações mais inusitadas. Outra categoria possível seria a composição por enfiamento. “Neste caso, várias novelas, cada uma formando um todo, sucedem-se e são reunidas por uma personagem comum.” (CHKLOVSKI et al., 1989, p. 65). Há dois tipos de enfiamento. No primeiro, o herói assume um papel neutro e as aventuras lhe sucedem sem que busque por elas. É o caso das histórias de aventura, como A ilha do tesouro, do autor escocês Robert Louis Stevenson. Já no segundo tipo de composição por enfiamento, há uma tentativa de ligar a ação ao agente da aventura. É o caso do marinheiro Simbad, protagonista de uma série de histórias com origem no Oriente Médio. É a paixão do personagem por viajar e ver o mundo que determina as viagens e aventuras por ele vivenciadas, e não fatores externos. De acordo com a professora norte-americana Mary Doyle Springer, um elemento importante na caracterização da novela contemporânea é a importância do personagem no que tange às ações que pratica durante a narrativa. Nesse sentido, enumera a seguinte tipologia: 1. a simples revelação dos personagens; 2. a apresentação dos personagens em situação de aprendizagem e amadurecimento; 3. o personagem também está em processo de aprendizagem, mas se beneficia desse amadurecimento. Nesse subgênero, o personagem pode ter que enfrentar uma revelação que contribuirá para o seu amadurecimento. No caso da obra Ilegais, podemos situá-la nessa terceira categorização, pois acompanhamos o processo de amadurecimento do protagonista Jair em diferentes setores da vida: sentimental, familiar e profissional. Vários episódios contribuíram para isso: a revelação de que o “olheiro” escolheu Vadico não por jogar melhor que ele, mas devido a uma negociação escusa, e a revelação final de que Fred, que prometera levá-lo na companhia do 21


amigo Rildo para os Estados Unidos, era na verdade um criminoso e assassino cruel, por exemplo. Para o estudioso de narratologia e professor português Carlos Reis, o tempo na novela é representado quase sempre de forma linear, sem desvios bruscos e anacronismos, acompanhando a simplicidade da ação. Esse aspecto também é verificável na novela Ilegais. Toda a trama transcorre dentro de um período de um mês e mantém-se a linearidade da ação, que começa com o primeiro contato de Jair com Fred e termina com a morte do vilão. O gênero novela também é marcado por reviravoltas na narrativa. Uma série de acontecimentos vão determinando as ações do protagonista – isto é, a ação tende a ser mais importante que a narração. As ações são concentradas em torno de um personagem, de maneira que as ações dos demais contribuam para um desfecho único. Na novela Ilegais, todas as ações estão diretamente relacionadas ao protagonista, Jair. Durante a leitura da novela, é possível notar como uma série de acontecimentos vai conduzindo as mudanças na vida do jovem. O sonho de ser jogador é interrompido, e isso o leva a pensar na hipótese de acompanhar o amigo Rildo em uma aventura desastrosa. Entretanto, outros elementos alteram totalmente os rumos da trama. É exatamente o uso desses recursos por um escritor talentoso como Luiz Antonio Aguiar que contribui para que Ilegais seja uma narrativa do gênero novela, marcada por muitas reviravoltas e suspense.

Os elementos estruturantes da obra literária As operações provenientes da invenção literária, desde as ideias até a elaboração da matéria literária, seja um conto, seja uma novela, seja um romance, obedecem a certos recursos estruturais, ao estilo de cada autor, à maneira de compor sua obra. A seguir, apresentaremos alguns elementos que podem ser usados como base teórica para o trabalho analítico, a ser feito na atividade pós-leitura da seção Propostas de atividades I. Dessa maneira, esperamos auxiliá-lo a exercitar, de forma sistemática, a leitura crítica, criativa e propositiva da obra com a turma.

O narrador Basicamente podemos ter quatro tipos de narradores, descritos a seguir. O narrador primordial, que se transformou no contador de estórias, alguém que não se apresenta como autor, não 22


inventou os fatos narrados, mas presenciou-os ou soube deles por alguém, guardou-os na memória e os conta para outros. O narrador onisciente, alguém que se apresenta como autor, assume-se como testemunho de seu tempo e transfigura a realidade vivida em literatura, para comunicá-la aos outros. O narrador confessional ou intimista, um eu-autor que registra experiências pessoais para comunicá-las aos outros. O narrador dialético, uma versão mais recente de narrador, que começa a ganhar espaço nas narrativas atuais; trata-se de uma voz que se dirige continuamente a um tu, a uma 2a pessoa, que permanece sempre silenciosa. Extremamente rico em sua complexidade, devido ao espaço que abre à reflexão do leitor, esse narrador dialético tem se tornado cada vez mais frequente na literatura infantojuvenil. (COELHO, 1993, p. 65-66).

Os personagens De modo geral, o personagem central, ou protagonista, é uma pessoa de quem o ficcionista narra as aventuras e desventuras. Entretanto, há contos/novelas/romances em que animais, cidades, cortiços, famílias, grupos sociais, entre outros, assumem a função de personagens. Essa concepção de personagem é relativamente recente e foi ganhando forma de acordo com a própria função do personagem para as diferentes culturas em vários períodos. Portanto, o conceito de personagem é bastante amplo, e a caracterização também é abrangente. Por isso, a seguir, apresentamos a reflexão de alguns pensadores sobre os tipos de personagens para que você possa apresentar à turma algumas dessas ideias ou outras que achar relevantes durante a análise da obra.

Os personagens na narrativa moderna O romancista e crítico francês François Mauriac defende que a fonte de escrita do ficcionista é a memória, pois é dela que se extraem os elementos da invenção, e isso confere acentuada ambiguidade aos personagens, pois não correspondem às pessoas vivas, mas são inspirados nelas. Ele propõe uma classificação de personagens levando em conta o grau de afastamento em relação ao ponto de partida na realidade. 1. Cópia fiel de pessoas reais, que não constituem propriamente criações, mas reproduções, muito comum em livros de literatura juvenil. 23


2. Inventados com base em um trabalho especial sobre a realidade. Tomando o desejo de ser fiel ao real como um dos elementos básicos para a criação do personagem, podemos admitir que há uma oscilação entre dois polos de ideias: transposição fiel de modelos e invenção totalmente imaginária. E é essa combinação variável que define o trabalho de cada narrador ficcional. É possível, então, dizer que a natureza do personagem depende em parte da concepção que preside a obra, mas sobretudo das intenções do escritor. O escritor e crítico inglês E. M. Forster, por sua vez, estabelece uma distinção pitoresca entre o personagem de ficção (Homo fictus) e seres humanos reais (Homo sapiens). O Homo fictus é e não é equivalente ao Homo sapiens, pois vive segundo as mesmas linhas de ação e sensibilidade, porém numa proporção e avaliação diferentes. Quando estabelecidas as características do personagem fictício, surge um problema que Forster aborda: o personagem deve dar a impressão de que é como um ser vivo; para tanto, deve lembrar um ser vivo, isto é, manter relações com a realidade do mundo. E um personagem só nos parece real quando o romancista, novelista ou contista parece saber tudo a seu respeito. É como se o personagem fosse inteiramente explicável, e isso lhe daria uma originalidade maior que a vida real. Forster apresenta também os conceitos de personagens planos (concebidos com base em uma única ideia) e personagens redondos (mais complexos, pois apresentam várias qualidades e tendências que surpreendem o leitor). Portanto, em geral, o personagem plano não altera seu comportamento no decurso da narrativa, motivo pelo qual nenhum ato ou nenhuma reação de sua parte pode surpreender o leitor. É, portanto, desprovido de profundidade psicológica e dramática, exibindo um comportamento convencional e estereotipado, sem crescimento pessoal. Em contrapartida, os personagens redondos, ou esféricos, são personalidades complexas, cujo procedimento é uma interrogação; ninguém sabe ao certo como pensam e agem. São geralmente personagens principais, protagonistas, visto que a narrativa se desenvolve sobre eles e com base neles mais concretamente. O leitor, por meio das paixões vivenciadas por eles e de suas qualidades e defeitos, percebe-os como seres humanos que poderiam encontrar na realidade social. Geralmente, os personagens centrais de uma narrativa são redondos. Exemplos desse tipo na obra Ilegais seriam Jair, seus pais e Elvira. Temos também Fred, que nas páginas finais do livro assume o papel de antagonista. O personagem plano não se transforma, não evolui, desconhece as mudanças íntimas (afetivas, psicológicas, ideológicas) que fariam dele um personagem esférico e individualizado. São geralmente personagens de apoio, secundários, menos relevantes à narrativa. Na obra Ilegais, o detetive que interroga Jair no hospital pode ser um bom exemplo desse modelo. 24


O tempo na narrativa Para determinar o tempo na narrativa, é preciso considerar não apenas quanto tempo durou certo acontecimento, o que seria algo do âmbito do tempo cronológico, mas também o tempo psicológico, geralmente pontuado pelo fluxo de pensamento dos personagens. Esse tempo não linear é também chamado de circunstancial, pois é medido pela intensidade dos sentimentos e das emoções, podendo dilatar ou encurtar o tempo cronológico. Cada autor tem sua maneira peculiar de trabalhar o tempo. Mas há alguns procedimentos metodológicos. Ao resumir um episódio ocorrido no passado de um personagem para justificar um comportamento atual, por exemplo, em poucas páginas o narrador pode apresentar fatos passados que demoraram horas, dias, meses ou anos para acontecer. Dessa maneira, acelera-se o tempo. Por exemplo, em Ilegais, a entrevista de trabalho que Marina teve com um empregador não é descrita, mas retomada quando ela conta o fato para Jotapê por telefone. Dessa maneira, o tempo não só é acelerado como também possibilita que o pai de Jair vá ao apartamento dela consolá-la, e o narrador pode nos dar mais informações sobre a relação afetiva que eles mantêm, ainda que estejam separados.

O espaço na narrativa Normalmente é em determinado espaço narrativo que os personagens se movimentam e protagonizam os eventos que nele acontecem. Assim como o tempo, o espaço tem suas peculiaridades. Na configuração do espaço narrativo, ele pode ser descritivo ou ilustrativo. Descritos a seguir, três aspectos podem ser observados quando da análise do espaço nas obras literárias. 1. Espaço social: é aquele tipo de espaço que pode ser descrito com clareza. Pode-se referir a ambientes tanto internos como externos que são ocupados e transpostos pelos personagens ao longo da narrativa. Na obra Ilegais, por exemplo, muitos eventos ocorrem na casa de Jair, um espaço mais intimista, onde o protagonista acompanha os problemas matrimoniais dos pais e vivencia reflexões mais profundas sobre sua vida e suas decisões. O encontro com Fred, Delaney e Rildo acontece geralmente na rua ou em um bar à beira-mar, ou seja, em espaços externos. Pode-se ampliar esse conceito e pensar que muitas pessoas dos países periféricos, ou emergentes, veem os países da Europa ou os EUA como espaços idealizados, não só quando pensam na formação intelectual mas também na busca por melhores condições de vida. 25


lazyllama / Shutterstock.com

No que diz respeito ao espaço, a novela também tem peculiaridades. De acordo com o francês Franck Evrard, escritor e teórico da literatura, geralmente os espaços onde ocorre a narrativa podem ser esquematizados ou simbólicos. Um elemento destacado por esse autor é o fato de os personagens se encontrarem em lugares públicos, que dispensam uma caracterização pormenorizada, tão comum nos romances. No caso da obra Ilegais, vários episódios acontecem em lugares públicos, como ruas, bares e ginásios. Ele destaca ainda a função simbólica dos lugares, aspecto também presente na obra. Ao frustrar-se por ver seu sonho de tornar-se jogador profissional cair por terra após uma negociação fraudulenta, Jair decide migrar para os Estados Unidos, ainda que saiba dos problemas e perigos que enfrentará. Neste caso, podemos pensar na visão que os jovens têm dos Estados Unidos, sobretudo de Nova York, um local abstrato e idealizado. Ainda que as viagens sejam frustradas, o ideário de partir em busca de um sonho que parece estar em outro lugar está presente. 2. Espaço psicológico: também chamado de espaço interior. Diz respeito aos pensamentos dos personagens e dos fatos que ocorrem na memória deles. Por exemplo, o encontro de Marina com um amigo em um bar é retomado por Jair por meio da memória, ainda que esse encontro tenha sido presenciado por Nova York, cidade dos sonhos de alguns dos ele no passado em um ampersonagens de Ilegais. biente físico. 3. Espaços imaginários: são aqueles imaginados pelo escritor quando o lugar tem tanta importância na concepção da obra como os personagens. Neste caso, eles estão em sintonia com esse espaço imaginado e só podem agir de determinada forma exatamente porque fazem parte dele. É o caso do País das Maravilhas, visitado por Alice na obra do britânico Lewis Carroll.

O enredo Grosso modo, pode-se dizer que literatura é a arte de enredar; e o enredo impõe uma relação de causalidade. 26


A sequência de atos praticados pelos personagens da narrativa constitui a ação. Portanto, o enredo é a soma de gestos e atos dos personagens em determinado espaço durante certo tempo. Uma das condições básicas para manter o interesse do leitor é a verossimilhança, ou seja, ele deve acreditar que naquele espaço e naquele tempo a ação é possível e verossímil. Isso não significa, claro, que a ação deve reproduzir literalmente ocorrências da vida real, pois aí não estaríamos falando de ficção. O importante é que a ação seja fiel à verossimilhança interna à própria obra.

A linguagem Esse é certamente o ponto alto da discussão sobre literatura. A linguagem usada pelo ficcionista pode ser realista ou metafórica. Qualquer narrativa de ficção formula as próprias leis sob as quais se desenvolve, cabendo ao leitor aceitá-las ou não. Isso quer dizer que, ao iniciar o contato com qualquer obra de ficção, o leitor deve aceitar as normas estabelecidas pelo ficcionista para que haja a chamada suspensão da descrença. O ficcionista inventa um mundo com base na observação, na memória e/ou na imaginação e convida o leitor a adentrar esse mundo.

A efabulação A efabulação, do verbo efabular, que já contém em seu bojo a palavra fábula, do latim fabula(ae) (conversa, boato, narração alegórica, relato), é o recurso básico para a construção de qualquer narrativa. É da efabulação que decorre o ritmo da ação, estabelecendo uma estrutura que pode ser linear (com começo, meio e fim) ou fragmentada. A primeira é mais comumente usada nas produções para crianças e jovens. Como vimos, na produção literária contemporânea, de maneira geral, a estrutura linear tradicional vem sendo desconstruída, tornando-se mais fragmentada. O desenvolvimento da fábula é conduzido pela atuação dos personagens, ligados entre si por interesses comuns ou laços parentais. A maneira pela qual os personagens se relacionam em dados momento e espaço constitui situações que podem ser harmônicas ou conflitantes. Em Ilegais, por exemplo, Jair recebe todo o apoio da namorada, Elvira, em seu projeto de vida: ser jogador profissional. Mas o casal entra em conflito quando ele decide viajar para os Estados Unidos de maneira ilegal, deixando tudo para trás. É a efabulação também que determina outros recursos a serem usados pelo ficcionista, como a quantidade de peripécias que o personagem viverá, se usará ou não a analepse (contar um fato do passado para explicar algo ocorrido no presente) etc. 27


Na novela Ilegais, a narrativa conta com várias peripécias, diferentes situações pelas quais Jair deve passar para crescer como personagem e completar seu arco narrativo: ele se empenha como jogador, mas tem seus sonhos interrompidos por uma negociação fraudulenta; acompanha a crise conjugal dos pais com maturidade; elabora um plano para roubar uma moto e conseguir o dinheiro para viajar, mas não o executa Até mesmo no clímax/desfecho da narrativa, uma peripécia nos é apresentada por meio da figura de Rildo. Nas páginas finais do livro, o narrador constrói a narrativa de maneira a nos fazer crer que Rildo morre durante um tiroteio com os policiais, que também foram identificados como os assassinos de Fred. É só no capítulo seguinte que iremos descobrir que Rildo está, na verdade, vivo.

Gêneros do discurso Entender a língua como forma de interação social é compreendê-la como uma atividade que envolve sujeitos historicamente situados, os quais não estão apenas transmitindo mensagens uns aos outros, mas agindo uns sobre os outros. Nessa perspectiva, a identificação dos componentes pessoal e social e a extensão do conhecimento partilhado são dados importantes para determinar os papéis dos interlocutores em uma situação comunicativa. Assim, a escolha dos tópicos discursivos dependerá de aspectos físicos e temporais compartilhados entre os participantes da interação comunicativa. Por meio da linguagem (verbal e não verbal), os seres humanos se comunicam, têm acesso à informação, expressam e defendem pontos de vista, partilham ou constroem conhecimentos, enfim, interagem com diferentes interlocutores e com o mundo circundante usando vários tipos de discurso. Não é possível haver uma rigidez na categorização dos discursos, pois, como mencionado anteriormente, tais questões são bastante variáveis. Como bem explica o linguista francês Dominique Maingueneau (2001, p. 59): Essas categorias variam em função do uso que se faz: as categorias de que dispõem um leitor que procura um livro em uma livraria não são as do livreiro, as dos críticos literários dos jornais, nem as dos teóricos da literatura [...]. Tais categorias correspondem às necessidades da vida cotidiana e o analista do discurso não pode ignorá-las. De acordo com a proposta sociointeracionista, a língua deve ser ensinada tendo em vista o discurso e a enunciação. As práticas fundadas em tal abordagem 28


defendem o ensino da língua por meio de diferentes gêneros textuais, pois acredita-se que eles cumprem finalidades diversas na sociedade, e conhecê-los bem contribui para uma formação cidadã. Essa nova concepção aponta para um modelo de ensino que não deve se basear apenas no estudo das normas do falar/escrever corretamente ou no código linguístico em si. É preciso levar os estudantes a perceber que, por meio da linguagem, atua-se em sociedade, como sujeitos ativos que participam do processo enunciativo. Isso porque o sujeito comunicante não é aquele ser passivo que apenas se submete a um sistema de códigos ou que imita modelos considerados corretos e adequados. Por isso, é fundamental entender como os gêneros do discurso são vistos pelos estudiosos e quais são as implicações dessas abordagens na sala de aula. Cada gênero tem características próprias, forma, estilo e conteúdo que se encaixam nos diferentes propósitos que temos em mente em dado contexto, ou seja, na esfera social de interlocução. De acordo com o filósofo e teórico da cultura russa Mikhail Bakhtin, é verificável a transformação dos gêneros. Isso ocorre porque, como as atividades diárias provocam situações singulares de interação, novos gêneros emergem das práticas sociais. Portanto, os gêneros desaparecem ou modificam-se de acordo com o desenvolvimento da tecnologia ou em consequência das adaptações decorrentes das demandas sociais: A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo. (BAKHTIN, 2010, p. 262). Nesta abordagem, as atividades de leitura e produção de texto devem ser vistas como verdadeiras práticas de interação verbal por meio das quais o sujeito constrói sentidos, influenciado por seus conhecimentos e dos seus interlocutores. E é no texto e no discurso que a língua se realiza, já que depende da efetiva troca entre falante/escritor e ouvinte/leitor. O linguista e professor brasileiro José Luiz Fiorin, em seu livro Linguagem e ideologia (1998), defende a ideia de que a linguagem é não só uma instituição social mas também o veículo das ideologias e o instrumento de medição tanto entre os seres humanos e a natureza quanto entre os seres humanos entre si. Por isso, é importante verificar como a linguagem veicula determinada ideologia. 29


Há um sistema que rege as relações estabelecidas entre um conjunto de elementos linguísticos. É esse sistema que possibilita a seleção de determinados elementos para figurarem de maneira apropriada em uma cadeia semântica. Nesse sistema, os elementos linguísticos não se combinam aleatoriamente. Há um conjunto de regras que determinam a posição de um artigo dentro da oração, por exemplo. O discurso, por sua vez, é a combinação de elementos linguísticos utilizados pelo falante para exprimir seu pensamento. Nesse contexto, a fala seria a exteriorização fisiológica do discurso. De acordo com Luiz Antônio Marcuschi, linguista e professor brasileiro, os gêneros do discurso são produtos culturais, construídos pelo ser humano ao longo de sua história. A criação dos gêneros antecede a invenção da escrita e teve início nas culturas essencialmente orais. Esse fenômeno teria ocorrido em três etapas. Na primeira, povos de culturas primordialmente orais desenvolveram um conjunto de gêneros; numa segunda etapa, com a invenção da escrita alfabética, os gêneros foram ampliados, além dos orais, passando a ser usados também na modalidade escrita. Numa terceira fase, a partir do século XV, com a expansão dos gêneros devido ao desenvolvimento da imprensa e a outros avanços tecnológicos, ocorreu maior diversificação textual, englobando as modalidades oral e escrita. Para Marcuschi, dessa forma, desloca-se a atenção do código linguístico para o funcionamento da língua, ou seja, para a análise de textos e discursos considerados como planos da enunciação. Só dessa forma se pode “observar o que fazem os falantes com/na/da língua e, principalmente, como se dão conta de que estão fazendo uma determinada coisa com a língua” (MARCUSCHI, 2008, p. 64). Os gêneros são, portanto, o objeto de ensino-aprendizagem na atualidade, por isso é necessário compreender bem os conceitos tratados nessa concepção. Portanto, os educadores não podem desconsiderar o fato de que, ao chegar ao Ensino Médio, os estudantes já convivem com uma ampla variedade textual presente no mundo. Não se pode negar a eles um espaço para o aperfeiçoamento desses saberes que eles já têm sobre a função social da língua e da escrita devido à diversidade de gêneros textuais que circulam socialmente.

Tipologia textual Muitas vezes a tipologia textual é confundida com gênero textual. Todavia, quando falamos em gêneros textuais, não estamos nos detendo nos textos literários, mas sim incluindo todos os formatos que os textos da língua podem tomar, inclusive os literários, contanto que consigam comunicar algo. Os textos, orais ou escritos, que produzimos quando nos comunicamos têm um conjunto 30


de características que determinarão sua tipologia. Algumas dessas características são: o assunto, quem está falando, para quem se está falando, a finalidade, ou se o texto é mais narrativo, instrucional, argumentativo etc. Portanto, estamos usando constantemente diferentes tipos de textos quando nos comunicamos, escolhendo, ainda que inconscientemente, o que melhor se adapta a determinada situação comunicativa com base no que queremos transmitir e no efeito que queremos provocar em nosso interlocutor. Assim, as diferentes tipologias textuais são: narração, dissertação, descrição, injunção ou instrucional, predição e dialogal ou conversacional.

Narração Modalidade em que se conta um fato, fictício ou não, que ocorreu em determinados tempo e lugar, envolvendo certas pessoas ou personagens. Refere-se a objetos do mundo real. Há uma relação de anterioridade e posteridade nesse tipo de gênero. O tempo predominante é o passado. Estamos sempre ouvindo ou contando narrações, como histórias infantis, acontecimentos diários ou piadas do cotidiano. É o tipo predominante nos gêneros conto, fábula, crônica, romance, novela, depoimento, piada, relato, poema narrativo, história em quadrinhos, letra musical etc.

Descrição Retrata com palavras lugares, pessoas, animais ou objetos. Os verbos de ligação são os mais utilizados, pois ligam os seres ou as coisas às características, adjetivando-os. As sensações ou sentimentos também podem ser descritos. É um texto que se incorpora facilmente aos diversos gêneros.

Dissertação Desenvolve ou explica um assunto, discorre sobre ele por meio de uma argumentação lógica, coerente e coesa. Pode ter caráter expositivo ou argumentativo, de acordo com o objetivo do autor. No tipo expositivo, expõem-se ideias sobre determinado assunto, um saber já construído, legitimado ou teorizado. Já no tipo argumentativo, o autor defende seu ponto de vista por meio de uma progressão lógica de ideias, geralmente usando linguagem denotativa. Predomina em sermão, manifesto, crítica etc. Por meio de uma dissertação, apresentam-se informações e reflexões para explicitar, analisar e avaliar objetivamente textos literários e expositivos, matérias de revistas e de jornais e artigos científicos. 31


Fabio Maciel

Injunção ou instrucional Indica como realizar uma ação. Utiliza linguagem objetiva e simples. Os verbos são, na maioria, empregados no modo imperativo; porém, nota-se também o uso do infinitivo e do futuro do presente do modo indicativo. Exemplos: manuais e instruções para montagem ou uso de aparelhos e instrumentos; textos com regras de comportamento; receitas etc.

Predição Caracterizado por antecipar aquilo que supostamente vai ocorrer, levando o interlocutor a crer em algo com base em conhecimentos científicos, hipóteses ou indícios, como nas previsões meteorológicas.

Dialogal ou conversacional Caracteriza-se pelo diálogo entre os interlocutores. Predomina nos gêneros entrevista, conversa telefônica e chat, por exemplo. Cabe lembrar que um gênero textual pode conter mais de um tipo textual. Uma reportagem, por exemplo, apresenta em sua composição o texto dissertativo-expositivo, mas também pode ter elementos dialogais se o jornalista usar trechos de uma entrevista para compor a matéria. 32


Referências complementares A BNCC da área de Linguagens e suas Tecnologias no Ensino Médio preconiza que sejam trabalhados cinco campos de atuação social. As sugestões e atividades a seguir têm como objetivo central trabalhar cada um destes eixos: campo da vida pessoal, campo das práticas de estudo e pesquisa, campo jornalístico-midiático, campo de atuação na vida pública e campo artístico-literário.

Sugestões de artigos científicos Os artigos científicos indicados a seguir podem ser lidos para ampliar seus conhecimentos sobre a migração e também sugeridos para os estudantes. Assim, eles terão uma visão mais ampla de todos os problemas que envolvem a migração. Com essas leituras, será trabalhado o campo das práticas de estudo. yy ASSIS, Gláucia de Oliveira. A fronteira México-Estados Unidos: entre o sonho e o pesadelo – As experiências de e/imigrantes em viagens não autorizadas no mundo global. Cadernos Pagu, Campinas, n. 31, p. 219-250, jul./dez. 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010483332008000200011&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 8 jul. 2020. O artigo tem como objetivo discutir as experiências vividas por homens e mulheres brasileiros que tentam cruzar a fronteira México-Estados Unidos como imigrantes clandestinos. No artigo, também é relatado que tanto homens quanto mulheres podem estar diretamente ligados ao tráfego de migrantes e que ambos os gêneros enfrentam os riscos eminentes nesse tipo de viagem, não havendo uma separação de gênero nesse caso. yy BIZZI, Ana Sofia Coutinho. Imigração nos Estados Unidos. Conteúdo Jurídico, [s. I.], 15 ago. 2018. Disponível em: https://www.conteudojuridico.com.br/ consulta/artigos/52136/imigracao-nos-estados-unidos. Acesso em: 8 jul. 2020. Nesse artigo, são analisados o fluxo migratório nos Estados Unidos ao longo dos anos e as políticas adotadas pelo país em diferentes períodos, com enfoque na alteração política implementada após a eleição do presidente republicano Donald Trump. É evidenciada também a xenofobia sofrida pelos imigrantes no território americano e são abordados diferentes aspectos sociológicos na questão imigracionista. yy PATARRA, Neide Lopes. Migrações internacionais de e para o Brasil contemporâneo: volumes, fluxos, significados e políticas. São Paulo em 33


Perspectiva, São Paulo, v. 19, n. 3, p. 23-33, jul./set. 2005. Disponível em: https:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392005000300002. Acesso em: 8 jul. 2020. Nesse artigo, Neide Lopes apresenta diferentes questões com relação à migração dentro e fora do Brasil. A autora destaca como grupos sociais específicos estão envolvidos com aproveitadores e sujeitos à ação deles. Ela também aborda as diferentes ações políticas necessárias para cada tipo de migrante e emigrante, tanto os documentados quanto os não documentados e os refugiados/asilados.

Sugestões de filmes Os filmes Terra firme e O porto retratam a história de famílias que decidiram acolher imigrantes. Sob a mesma lua aborda a trajetória de uma mãe que decide atravessar a fronteira entre o México e os EUA ilegalmente em busca de melhores condições de vida para o filho. Na novela Ilegais, Delaney carrega uma mochila com o adesivo de um desenho da famosa cena do filme King Kong na qual a mocinha é carregada pelo gorila. Essa passagem inspirou a criação de uma das ilustrações do livro, que aparece na capa, porque também foi por meio desse adesivo, encontrado no carro de Fred, que Jair constata o final sombrio que teve o jovem Delaney. Essa pode ser uma boa oportunidade para assistir a esse clássico com a turma. Durante essas sessões de cinema na escola, serão contemplados o campo de atuação na vida pública e o campo artístico-literário. yy KING Kong. Direção: Merian C. Cooper; Ernest B. Schoedsack. Estados Unidos: RKO Pictures,1933. 1 vídeo (100 min). Um famoso diretor de cinema decide que sua próxima produção seria gravada em uma ilha que até então era apenas uma lenda. Com dificuldades para conseguir uma atriz que aceite filmar no local, ele encontra Ann Darrow nas ruas de Nova York e dá a ela o papel. A equipe viaja para a ilha desconhecida e se depara com uma civilização primitiva que oferece mulheres a Kong, um gorila gigante. Depois de enfrentar muitos perigos, a equipe de filmagem captura o gorila e o leva para Nova York a fim de exibi-lo, mas no decorrer da história ele se apaixona por Ann e consegue se soltar. yy NEW York, New York. Direção: Martin Scorsese. Estados Unidos: Chartoff-Winkler Productions, 1977. 1 vídeo (163 min). Um saxofonista e uma cantora se conhecem no final da Segunda Guerra Mundial, começam a se apresentar juntos e se apaixonam, mas a relação 34


volátil se desintegra com o passar do tempo. Anos depois, com carreiras já estabelecidas, os dois se reencontram. yy O PORTO. Direção: Aki Kaurismaki. Finlândia/França/Alemanha: Sputnik; Pyramide Productions; Pandora Film, 2011. 1 vídeo (93 min). Marcel Marx é um escritor que decide morar em uma cidade portuária da Normandia, na França. Imigrantes que viajavam escondidos em um contêiner com destino a Londres são descobertos pela polícia. Marcel decide acolher o menino Idrissa e enfrenta o preconceito da comunidade local. yy SOB a mesma lua. Direção: Patricia Riggen. México: Creando Films, 2007. 1 vídeo (102 min). Rosário atravessa ilegalmente a fronteira para trabalhar nos Estados Unidos como faxineira e dar uma vida melhor ao filho, Carlitos, que fica aos cuidados da avó no México. Mas a rotina da família muda completamente quando a avó morre e o garoto embarca em uma arriscada aventura para ir ao encontro da mãe em Los Angeles. yy TERRA firme. Direção: Emanuele Crialese. Itália/França: France 2; Cattleya; 2013. 1 vídeo (88 min). A vida de uma família tradicional da Sicília é alterada quando o patriarca decide abrigar uma jovem etíope grávida. O filme é um bom ponto de partida para discutir as diferentes posições do governo e da população diante de um problema ainda recorrente na atualidade.

Sugestões de músicas A seguir apresentamos uma música que demonstra não só a esperança no futuro mas também o desejo de retorno de tantos imigrantes que saíram de seu país em busca de melhor qualidade de vida. Você poderá escolher o momento mais adequado para partilhar a audição, com o objetivo de estimular os estudantes a refletir sobre a posição do eu lírico na canção. Nessa atividade serão contemplados o campo artístico-literário e o campo da vida pessoal. yy EDINHO Vilas Boas – Vida de imigrante. [S. l.: s. n.], 17 jul. 2018. 1 vídeo (ca. 3 min). Publicado pelo canal Edinho Vilas Boas. Disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=jwJ61b_i5aw. Acesso em: 26 out. 2020. Nessa canção, Edinho Vilas Boas ressalta a coragem dos que deixam a família e os amigos em busca de melhores condições de vida em outro país e como o desejo de retornar ao lugar de origem se torna um novo sonho. 35


Sugestões de reportagens Para suscitar debates com a turma sobre os diferentes aspectos que envolvem a migração ilegal, você pode retomar, na íntegra, as reportagens mencionadas na obra Ilegais (busque os links no livro). Pode também compartilhar uma reportagem sobre a polêmica sugestão proposta por Donald Trump a respeito da construção de um muro na fronteira entre o México e os EUA. Nessas atividades, serão abordados o campo jornalístico-midiático e o campo da vida pessoal. yy MURO entre EUA e México ainda é ideia polêmica. [S. l.: s. n.], 25 mar. 2019. 1 vídeo (ca. 26 min). Publicado pelo canal Revista Novo Tempo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Tz-rx0mgc0Q. Acesso em: 29 jul. 2020. Você poderá apresentar essa reportagem para suscitar debates sobre as expectativas em torno da construção do muro entre os EUA e o México. Depois, os estudantes podem discutir se a medida realmente resolveria o problema ou se apenas agravaria a situação de segregação social.

Sugestões de sites Indicamos a seguir dois sites. Neles poderão ser encontradas informações sobre migração. Esses sites podem ser usados como fonte de pesquisa tanto para você quanto para os estudantes. Por meio dessas consultas, serão trabalhados o campo das práticas de estudo e o campo artístico-literário. yy MIGRAMUNDO. [S. l.: s. n.], c2018. Disponível em: https://www.migramundo. com. Acesso em: 30 jul. 2020. O site MigraMundo foi criado com o objetivo de informar e debater as múltiplas facetas que permeiam as imigrações não só no Brasil mas no mundo todo. Nele, você encontrará notícias e entrevistas com pessoas de diferentes lugares, que viveram e vivem a experiência de ser imigrante, bem como relatos sobre elas, além de informações relativas aos avanços legais nessa questão. Há também uma lista com indicação de 80 filmes relacionados ao assunto que poderão ser usados em sala de aula. yy MUSEU DA IMIGRAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO. São Paulo: SCEC, [20--?]. Disponível em: http://www.inci.org.br/acervodigital/. Acesso em: 30 jul. 2020. Esse site consiste em um acervo digital do Museu da Imigração do Estado de São Paulo. Nele é possível encontrar imagens, mapas, registros, jornais e informações sobre os imigrantes vindos para o Brasil ao longo dos anos. É um material rico que você pode explorar com a turma. 36


Bibliografia comentada BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: BEZERRA, Paulo. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010. Nesse adendo à obra Estética da criação verbal, que reúne textos de diferentes fases do pensamento de Mikhail Bakhtin, os conceitos referentes aos gêneros do discurso são apresentados, tematizados, discutidos e inseridos na construção de uma perspectiva dialógica de concepção e abordagem da linguagem. CHIAPPINI, Ligia. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 2004. Esse livro sistematiza algumas informações importantes sobre o foco narrativo: que o narrador é um entre os vários elementos com os quais se articula, orgânica e especificamente, na composição das obras singulares e que a técnica na ficção está intimamente relacionada com problemas ideológicos e epistemológicos. Por isso mesmo, ao discutir questões de técnica narrativa, como é o caso do foco, acaba se voltando aos grandes e eternos problemas: da representação, dos encontros e desencontros entre ficção e realidade, do velho parentesco da literatura com a história. CHKLOVSKI, V. et al. Teoria literária II: textos dos formalistas russos apresentados por Tzvetan Todorov. Lisboa: Edições 70, 1989. A obra reúne textos de pensadores russos escritos no início do século XX, mas que só foram publicados na década de 1960. O formalismo russo tem sua origem associada ao Círculo Linguístico de Praga. Ao rejeitar a mística que envolve a criação artística, os formalistas tentam descrever o processo literário dentro de um sistema por meio da análise das qualidades intrínsecas da matéria literária. COELHO, Nelly Novaes. Panorama histórico da literatura infantil/juvenil. São Paulo: Ática, 1993. O livro apresenta um panorama da literatura infantil e juvenil no Brasil considerando tanto suas origens populares como as influências europeias. A obra é dividida em duas partes: “Das origens indo-europeias à Era Romântica (da narrativa 37


primordial à Literatura Infantil Clássica) e “Do Brasil entre séculos ao contemporâneo (dos precursores da Literatura Infantil Brasileira ao surto de criatividade dos anos 70/80)”. Trata-se de uma leitura fundamental para os estudiosos da literatura infantojuvenil. EVRARD, Franck. La nouvelle. Paris: Éditions du Seuil, 1997. O escritor e teórico da literatura apresenta uma análise detalhada desse gênero literário, a novela, comparando-o com o romance, com destaque para aspectos estruturantes desse tipo de narrativa, como o espaço, a linguagem e o tempo. FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 1998. O objetivo central dessa obra é suscitar uma reflexão sobre as relações que a linguagem mantém com a ideologia. Ao analisar as diferentes ideologias que cada discurso vincula, por meio de um percurso cronológico, o autor busca verificar o lugar de determinadas ideologias no complexo fenômeno que é a linguagem. FOSTER, Edward Morgan. Aspectos do romance. Tradução: Sérgio Alcides. São Paulo: Globo, 2005. Nesse livro, o escritor e teórico britânico Edward Morgan Foster apresenta um estudo das partes do romance, que foi dividido em três aspectos: história, enredo e pessoas. A obra ficou célebre por sua classificação dos personagens como esféricos ou planos, a qual ficou conhecida como a classificação tipológica mais eficiente e completa, influenciando vários estudiosos de literatura até a atualidade. FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. São Paulo: Cultrix, 1973. Nesse livro, Frye apresenta um estudo para a teoria literária em quatro ensaios, divididos em críticas histórica, ética, arquetípica e retórica. Seu objetivo é formular uma visão geral do escopo, da teoria, dos princípios e das técnicas da crítica literária. Essa abordagem ainda é necessária para compreendermos os diferentes caminhos da crítica literária. LAGE, Nilson: A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Rio de Janeiro: Record, 2001. 38


Trata-se de um livro fundamental para estudantes e profissionais da área. O autor apresenta dicas e teorias para os que quiserem se aprofundar e se aperfeiçoar nas técnicas jornalísticas. Segundo o próprio autor, o livro “pode eventualmente servir de subsídio a qualquer um que se interesse pelo assunto quer do ponto de vista acadêmico, quer profissional – pessoas que trabalham como fonte de informação, por exemplo”. A intenção de Nilson Lage é mostrar, numa progressão didática, as técnicas básicas da reportagem, comentá-las, revelar alguns recursos que têm se provado eficientes na busca da verdade. Sob esse ponto de vista, reúne a experiência de velho jornalista, com 45 anos de prática. A obra fala até de técnicas de pesquisa na internet, que têm baixo custo e proporcionam uma gama imensa de resultados. MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001. Nessa obra, o linguista francês parte da análise de gêneros discursivos da publicidade e da imprensa, considerados de pouco prestígio na vida cotidiana, para teorizar conceitos fundamentais sobre a importância do processo de comunicação. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gênero e compreensão. São Paulo: Parábola, 2008. O livro é organizado em três partes interligadas: produção textual, com ênfase na linguística de texto de base cognitiva; análise sociointerativa de gêneros textuais no contínuo fala-escrita; e processos de compreensão textual e produção de sentido. As noções de língua, texto, gênero, compreensão e sentido, bem como o enfoque geral da abordagem, são apresentados na perspectiva sociointeracionista geral da língua. MAURIAC, François. La romancier et ses personnages. Paris: Éditions, 1952. Nessa obra, o romancista francês defende que o vínculo entre o escritor e seus personagens é marcado pela memória, ainda que por meio da imaginação de cada romancista, para recriar os elementos. 39


SPRINGER, Doyle Mary. Forms of the Modern Novella. Chicago: The University of Chicago Press, 1975. Nessa obra, a professora e estudiosa norte-americana Mary Doyle Springer apresenta um estudo sobre as formas da novela na modernidade, uma preciosa contribuição para a compreensão das características desse gênero literário tão peculiar. ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. São Paulo: Global, 2003. Esse livro de ensaios reúne reflexões de Regina Zilberman a respeito das obras destinadas à infância e à juventude. Nele professores, pesquisadores, editores, pais e autores encontrarão elementos riquíssimos para redimensionar o papel da literatura infantil na atualidade.

Fabio Maciel


Ficha técnica do material Elaborado por Maria Schtine Viana Direção-geral Vicente Tortamano Avanso Direção editorial Felipe Ramos Poletti Supervisão editorial Gilsandro Vieira Sales Edição Paulo Fuzinelli Assistência editorial Aline Sá Martins Auxílio editorial Marcela Muniz Apoio editorial Maria Carolina Rodrigues Supervisão de artes Andrea Melo Editoração eletrônica Daniela Capezzuti Supervisão de revisão Dora Helena Feres Revisão Elaine Silva e Sylmara Beletti


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Issuu converts static files into: digital portfolios, online yearbooks, online catalogs, digital photo albums and more. Sign up and create your flipbook.