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ENTREVISTA Paulo Skaf Presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp)

Marinha do Brasil 95 anos operando submarinos

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Foto: Maria Cristaldi

ao leitor

As manifestações que recebemos pela primeira edição de DEFESA LATINA muito nos alegraram. Foi bom demais saber que nossas ousadias de projeto gráfico e variedade de conteúdo agradaram. Chegaram mensagens das Forças Armadas, de empresários, executivos e de pessoas que, no Brasil e no exterior, estão atentas à nossa temática. A todos, nossos agradecimentos pelo estímulo e pela colaboração. Isso mesmo: as sugestões de pauta enviadas estão anotadas para execução nos próximos números! Nesta edição, ampliamos a seção de Cultura – atendendo a pedidos. Na seção Entrevista, focalizamos o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, um dirigente que vem colecionando animadores resultados para a indústria de defesa, cuja visibilidade cresceu significativamente após a criação do Comdefesa em 2007. Conquistamos uma parceria muito especial com a Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), trazida pelo historiador militar Expedito Carlos Stephani Bastos – uma personalidade civil para o nosso Conselho Técnico e um colaborador que brindará nossos leitores com seu pensamento independente e seu incrível cabedal de informações históricas e de atualidade. Enviamos um repórter à Amazônia, que conheceu o importante trabalho do Exército Brasileiro na fronteira norte do país. Nosso diretor de redação embarcou em um submarino da Marinha do Brasil e mostra a relevância da operação de submersíveis na proteção do nosso patrimônio marítimo. São matérias de inteligência emocional, que reconhecem o valor das instituições e homenageiam os homens e as mulheres que as tornam vivas e eficazes. Estamos falando também de ciência e tecnologia, tema vital no processo de desenvolvimento sociotecnológico brasileiro, e publicando outros assuntos atuais – alguns com exclusividade. Em 2010, DEFESA LATINA terá a oportunidade de cumprir todo o calendário gregoriano, cobrindo já no trimestre inicial seu primeiro evento no exterior – a Fidae, no Chile, onde faremos circular a edição, dando-nos a conhecer ao vivo e em cores a um público mais amplo. Na expectativa de que esta edição desperte tanto interesse quanto a primeira, desejamos a todos Feliz Ano Novo.

Mirian Paglia Costa, editora

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Ano 1 - Nº 2 outubro-dezembro 2009 Editora Mirian Paglia Costa MTB Nº 12.637 mirian@defesalatina.com.br Diretor de Redação Cosme Degenar Drumond degenar@defesalatina.com.br Diretora de Marketing e Publicidade Helena Maria Alves helena@defesalatina.com.br Diretor de Arte Yves Ribeiro Filho Expedição e Assinaturas Maria Angela Silveira de Souza Conselho Editorial João Lins de Albuquerque, Maura Sylvia Pasculli de Curci, Norton de Andrade Rapesta, Peterson Ferreira da Silva, Rubens Ribeiro Cardoso Filho, Tenentebrigadeiro Sérgio Xavier Ferolla Conselho Técnico General Antônio Burgos, Expedito Carlos Stephani Bastos, Brigadeiro José Roberto Scheer, Almirante Marcílio Boavista da Cunha. Colaboradores Hermelindo Lopes Filho, Lucca Alves, Lucita Briza, Luiza Lusvargui, Marília Schumann, Márcia Cristina Gonçalves de Souza, Roberto Caiafa, Paulo Fernando Kasseb, Rita de Sousa, Salvador Nogueira, Virgínia Silveira Alejandro Valdéz (Buenos Aires, Argentina) Armen Kouyoumdjian (Valparaíso, Chile) Agradecimentos especiais Márcio Diemer, Paulo Limões DEFESA LATINA é uma publicação da Editora de Cultura Ltda. Tem circulação trimestral e distribuição nacional por Fernando Chinaglia Distribuidora Ltda. Endereço para correspondência Rua Pimenta Bueno, 324 03060-000 – São Paulo – SP – Brasil Tel: 55 11 2894.5100 Fax: 55 11 2894.5099 e-mail: sac@defesalatina.com.br Apoio institucional Abimde | Aiab | Comdefesa-Fiesp Todos os direitos reservados. Permitida a reprodução de trechos desde que citadas autoria e fonte. O conteúdo dos anúncios é de responsabilidade dos respectivos anunciantes. Todas as informações e opiniões são de responsabilidade dos autores, não refletindo a opinião da Editora de Cultura, publicadora desta revista. Os documentos e imagens usados nesta publicação, quando não forem de domínio público ou fornecidos para divulgação, são reproduzidas com base em licenças obtidas e saem com atribuição de créditos informados pelas fontes. Em caso de omissão ou erro, a Editora se prontifica a fazer as correções devidas nas próximas edições quando notificada. DEFESA LATINA 4

6 CARTAS 8 RADAR REPORTAGEM 14 95 anos operando submarinos

Para o submarino nuclear, nova base e novo estaleiro

18 Um repórter no fundo do mar Um dia no Timbira para convidados

ARTIGO 22 O passado pode orientar o futuro

Importância estratégica de um complexo industrial de defesa para o Brasil

25 MERCADO EUROPEU Parceria Brasil-Polônia ultrapassa área militar Poloneses apresentam suas vantagens competitivas

MERCADO LATINO 26 Chile. Falta alguma coisa?

Renovação de equipamentos garantida pela Lei Reservada do Cobre, que poderá ser alterada

CAPA 30 Rigores de um pelotão de fronteira Enquanto os brasileiros dormem, soldados do Exército vigiam no extremo norte do país

INTERNACIONAL 38 Nobel da Paz defende a guerra justa

Obama falou 45 vezes a palavra “guerra” e mencionou “direitos humanos” só 6 vezes

39 EUA: Dinheiro para avanços tecnológicos

Orçamento de defesa para 2010 é maior desde a Segunda Guerra Mundial

ENTREVISTA 43 Paulo Skaf

“Estamos defendendo a importância de fortalecer uma base industrial de defesa”

SOCIEDADE 45 O que considerar: a ética ou o lucro? Pensando sobre reserva de patentes


Capa: Guerreiro de selva da 16ª Brigada de Infantaria de Selva, Tefé, Amazonas, com fuzil automático pesado. Foto: Roberto Caiafa.

CIÊNCIA & TECNOLOGIA 46 Coração nuclear

O reator experimental brasileiro já foi concebido e aguarda a fase de testes

48 Tecnologia que se aprende fazendo

Professora do Ipen alerta: “Não podemos comprar um equipamento e acreditar que estamos absorvendo tecnologia”

INDÚSTRIA 50 50 helicópteros e um novo polo aeronáutico Helibrás, Eurocopter e o Núcleo de Inteligência Competitiva de Minas Gerais

51 Blindado leve brasileiro

Veículo do Grupo Inbra estará pronto para o mercado no início de 2010

53 Campeãs sem times de apoio

Cadeia produtiva aeroespacial e de defesa em desequilíbrio no Brasil

55 SEGURANÇA URBANA Vant: O voo do zangão

Quem responde pelos veículos aéreos não tripulados?

CULTURA 56 Bicentenário: Regata dos grandes veleiros

58 Wingwalking: É show! Marta Bognar e seu balé aéreo 61 Memória: Tradição preservada Veteranos

Foto: Antoine Gonin

Os mais belos navios de 11 países comemoram independência de Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela e México

62 Fotografia: Tecnologia aeronáutica vira arte Luz e sombra a serviço das criações da indústria 64 Segunda Guerra Mundial: Aos 70 anos, novas interpretações 66 EFEMÉRIDES

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cartas

Com muita satisfação e alegria, congratulo a fantástica e conceituada nova publicação brasileira (que já é um sucesso), sobre defesa militar, indústria de defesa e geopolítica que é a excelente revista DEFESA LATINA. Competente equipe editorial, lindas fotos e acabamento gráfico de primeira.Objetiva. PARABÉNS! Estava com dificuldades em encontrá-la nas bancas de Belém. Agora, sou leitor assíduo e colecionador. Destaques da edição nº1: Embraer KC-390, Programa FX-2, Centro Logístico da Aeronáutica e LAAD’2009. Ivan Flávio Belém, PA Agradeço o envio da revista DEFESA LATINA e do DVD sobre indústrias do setor de defesa. Será motivo de despacho pessoal com o comandante da Marinha. BRAVO ZULU! Almirante Domingos Savio Almeida Nogueira Diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha Ao cumprimentá-los pela excelência do trabalho produzido, agradeço, também, a atenção dispensada ao nosso Exército. General Enzo Martins Peri Comandante do Exército Brasileiro Agradeço pela gentileza do envio do exemplar da revista DEFESA LATINA. Nelson A. Jobim Ministro de Estado da Defesa 6

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O esmero na seleção do editorial e o profissionalismo e a seriedade com que as matérias foram tratadas sugerem o futuro promissor dessa publicação especializada, tor­ nando-se um importante vetor na difusão do tema para a sociedade em geral, somando-se ao esforço do Estado brasileiro em fazer dessa uma pauta nacional. General Adhemar da Costa Machado Filho Chefe do Centro de Comunicação Social do Exército Foi grande a satisfação de ler o 1º número da DEFESA LATINA. Escrita com simplicidade e objetividade, a revista é um marco para a Defesa Brasileira e para as nossas Forças Armadas. Agradou-me sobremaneira a matéria “Guerreiras do Brasil”, capa da edição. Parabéns pela realização João Leonidas Machado IV CGERD, Escola Superior de Guerra O Comando da Aeronáutica se sente honrado em contar com o apoio da revista DEFESA LATINA, que muito tem a contribuir com o fortalecimento da imagem das nossas Forças, como já demonstrado em sua primeira edição, quando tivemos o prazer de ler artigos bem elaborados, focando assuntos ligados à área de defesa de nosso país, a indústria nacional, bem como o papel estratégico do Brasil como exportador de paz e de concórdia. Por essa razão, gostaríamos de externar nossos sinceros cumprimentos pela valorosa iniciativa, fazen-

do votos de continuado sucesso em suas sucessivas publicações. Brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez Chefe do Centro de Comunicação Social da Aeronáutica É muito bom ter Degenar Drumond de volta a este campo, que conhece muito bem. Ele sabe, como poucos, dar sentido e conteúdo a assuntos e informações relacionados às áreas de defesa e segurança, transformando-os em matérias ao alcance e ao prazer da leitura de todos. Que ele continue nesta sua vitoriosa caminhada, repleta de verdades, sucessos e muitos amigos, entre os quais tenho orgulho de me incluir. Romualdo Monteiro de Barros São José dos Campos, SP Minhas felicitações pela grande qualidade da revista, em que o destaque fica com a variedade de temas, uma pluralidade nunca vista em publicações nacionais do tipo, o que a torna uma revista dinâmica e de agradável leitura, além das informações exclusivas que este primeiro número trouxe para todos nós, entusiastas do tema no Brasil. Ousando um pouco, gostaria de fazer uma crítica construtiva à seção “Radar”. Seria muito interessante não apenas a apresentação das notícias, mas também uma breve avaliação técnica e/ou política da informação, de modo a formar uma opinião acima de tudo crítica, estimulando, por um canal aberto entre a revista e o leitor, a pesquisa por mais e mais informações.


Meus parabéns pela iniciativa, ousada em um país como o nosso, e pelas qualidades técnicas do produto e suas preciosas informações. Victor Magno Juiz de Fora, MG Parabenizo os idealizadores da DEFESA LATINA por este belo trabalho apresentado na primeira edição da revista, de fato completíssima, abrangendo a atualidade das forças brasileiras de terra, mar e ar, com reportagens, entrevista, arte e cultura e opiniões abalizadas. A revista é um deleite, com imagens e produção gráfica de ótima qualidade e muito bom gosto. Ivan Gonçalves Cascais, Portugal Achei bastante interessante a DEFESA LATINA ser escrita majoritariamente por jornalistas mulheres. Possivelmente na busca de outra perspectiva, outra atenção, outro tipo de perspicácia e certamente outra forma de estar. Grato pela atenção e sucesso para a DEFESA LATINA. Paulo Limões Aveiros, Portugal A iniciativa de publicar uma revista especializada no campo da defesa é louvável e bastante oportuna por jogar luz sobre um tema que precisa ser corretamente compreendido e discutido por toda a sociedade, não somente pelo segmento militar. A defesa do nosso patrimônio, tanto econômico quanto material,

constitui-se em um dever do Estado, mas também é uma responsabilidade de cada brasileiro. De forma objetiva e agradável, a revista DEFESA LATINA aborda assuntos que ocupam crescente relevância na agenda atual do país, como a necessidade da conquista tecnológica para a manutenção do crescimento econômico e para a defesa do território brasileiro. Seus artigos antecipam para o leitor a real dimensão dos desafios impostos ao setor da ciência e tecnologia nacional. Vice-almirante Ney Zanella dos Santos Secretário de CT&I da Marinha Agradeço a gentileza da remessa da revista DEFESA LATINA nº 1. Parabéns pela qualidade do trabalho! Major-brigadeiro Odil Martuchelli Ferreira Diretor do Departamento de Logística da Secretaria de ELMC&T do Ministério da Defesa Em sua primeira edição, DEFESA LATINA promete contribuir para nos pôr em dia com os acontecimentos do enorme mercado da defesa brasileira, com um olhar sério e multifacetado, que inspira confiança no leitor, aspecto muito valorizado na hora de buscar informação tendente a gerar novos negócios. Suas bem escolhidas matérias acertam no interesse do momento de todos nós, observadores dos grandes investimentos que o Brasil está levando a cabo para modernizar suas Forças Ar-

madas, e permitem que nos atualizemos sobre as decisões em curso e a trajetória da Defesa Nacional brasileira. O variado espectro de temas que aborda em torno da defesa lhe dá um toque de agilidade e amenidade diferente de todas as outras publicações tradicionais, pois tanto cobre interessantes temas tecnológicos quanto refrescantes temas culturais – o que se poderia atribuir à mão feminina de sua editora. Em síntese, DEFESA LATINA é uma atraente contribuição ao mundo da defesa da América Latina. Eduardo Morales Rios Gerente comercial da Sisdef, Santiago, Chile

Para se corresponder com a revista Defesa Latina, as cartas devem trazer assinatura, endereço, número da cédula de identidade e telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redação Rua Pimenta Bueno, 324 03060-000 - São Paulo - SP Brasil Fax: 55 11 5294.5099 e-mail: sac@editoradecultura.com.br. Por razões de espaço ou clareza, as cartas poderão ser publicadas resumidamente.

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AL & Caribe: economia melhora em 2010 Não foi só o Brasil que mostrou bom desempenho diante da crise econômica mundial. Também a recuperação das outras economias da América Latina e do Caribe será mais rápida do que o esperado: a região deverá ter crescimento de 4,1% em 2010, segundo as últimas estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Essa comissão regional da Organização das Nações Unidas lançou em 10 de dezembro o documento “Balanço Preliminar das Economias da América Latina e do Caribe 2009”, confirmando o relatório do primeiro semestre, quando os números começavam a dar indícios de recuperação. Apesar disso, o Departamento de Estudos Econômicos do organismo sustenta que haverá aumento de 8% em média na taxa de desemprego regional, tendo como consequência o agravamento do nível de pobreza. “O pior da crise ficou para trás. Os motores do crescimento se aqueceram novamente, mas não se sabe por quanto tempo haverá combustível”, advertiu a mexicana Alicia Bárcena, secretária executiva da Cepal, ao divulgar o documento. Segundo as projeções do organismo, o Brasil encabeçará a lista dos países que mais crescerão em 2010, com expansão estimada de 5,5%. Em seguida virão o Peru e o Uruguai (5% cada um), a Bolívia, o Chile e o Panamá (4,5%). A Argentina e o Suriname crescerão 4,0%, enquanto México, Costa Rica e República Dominicana terão recuperação menor e mais lenta (3,5% cada um). Em 2009, a totalidade dos países registrou declínio significativo nas taxas de crescimento observadas entre 2004 e 2008. Para 2010, as melhores expectativas de crescimento e de alta nos preços de alguns produtos básicos que a região exporta permitirão aumento nas receitas públicas, com a consequente melhora do resultado fiscal. No entanto, um pouco além do curto prazo, a Cepal realça que a atual crise dará lugar a profundas mudanças no cenário internacional, o que gerará ambiente menos favorável ao crescimento regional do que o observado no período 2003-2008. O organismo conclui que, diante disso, é urgente a necessidade de redefinir os padrões de especialização produtiva e comercial, incentivando a inovação, a incorporação do conhecimento, a diversificação de produtos e a busca de novos mercados de destino – neste caso, está prevista alta participação dos países asiáticos.

Alicia Bárcena durante o Fórum Econômico Mundial sobre a América

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ONU discutirá crime organizado na Bahia Vai acontecer de 12 a 19 de abril de 2010 em Salvador, Bahia, o XII Congresso das Nações Unidas de Prevenção ao Crime e Justiça Criminal, para o qual são esperados pelos menos 4 mil participantes de mais de 100 países, incluindo 80 chefes de Estado, que deverão ser recepcionados pelo presidente do Brasil. Para a preparação da estrutura do evento, estiveram em Salvador autoridades da ONU, que se reuniram com representantes do governo baiano e da diplomacia brasileira. Já no que diz respeito ao conteúdo, o Brasil sediou no início de dezembro em Brasília um encontro extraordinário das comissões técnicas das Reuniões de Ministros de Justiça e Interior do Mercosul, cujo objetivo era elaborar um informe para apresentação no congresso. Especialistas, estudiosos e funcionários de governo que se reunirão em Salvador deverão refletir sobre estratégias de atuação contra facções que atuam com corrupção, tráfico de drogas, tráfico de pessoas e lavagem de dinheiro, além de discutir melhores práticas de prevenção ao crime e aperfeiçoamento da justiça criminal. No caso dos países do Mercosul, a idéia é que as propostas sejam feitas pelo bloco. Ouvido em Brasília pela reportagem do Portal Fator Brasil, o secretário nacional de Justiça do Ministério da Justiça, Romeu Tuma Júnior, disse que a melhor estratégia seria estrangular financeiramente os grupos criminosos, tanto interceptando suas ações quanto confiscando seus bens.


Aprendendo pilotagem e mecânica de helicópteros Pilotos de helicópteros e mecânicos de manutenção agora podem contar no Brasil com os mais modernos equipamentos e softwares para capacitação. Desde outubro, o Centro de Treinamento da Helibrás, em Itajubá (MG) está equipado com a ferramenta Computer Aided Instruction (CAI), que auxilia nas aulas teóricas dos cursos oferecidos pela empresa para operação dos modelos EC120, AS350 B3, EC130 e EC135. Para o modelo AS350 B2, o recurso é o Vehicle and Engine Multifunction Display (LTD – VEMD). Segundo a gerente de Treinamento da Helibrás, Cíntia Trentini, o destaque é o CAI do EC135, que funciona como uma espécie de simulador de voo e permite ao instrutor reproduzir em sala de aula o painel da aeronave. Os aparelhos e softwares simulam voos normais e situações reais de risco e dispõem de instrumento de avaliação prática para corrigir possíveis enganos no processo ensinoaprendizagem e implementar melhorias se necessário. O Centro de Treinamento da Helibrás já formou mais de 9 mil alunos desde sua fundação, há 30 anos.

Crise aérea

com os dias contados A turbulência na confiança do público foi violenta quando se revelaram, após os últimos acidentes aéreos no país, que nem as ferramentas de controle de tráfego aéreo e nem seus operadores estariam à altura da grande responsabilidade exigida pela tarefa. Sobretudo num país como o Brasil, em que o volume de voos sofreu tremendo aumento. E continua crescendo: a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) divulgou que o tráfego aéreo de passageiros teve crescimento de 38,37% em novembro, considerando apenas os voos domésticos, com média diária de 4 mil voos. Mas a crise está com o fim anunciado: o Sagitário, novo sistema de controle de tráfego aéreo a ser implantado no país, começará a funcionar em março no Cindacta II (Curitiba), onde já está sendo testado, e cobrirá todo o território nacional até 2012 – se os investimentos forem mantidos. Sigla de Sistema Avançado de Gerenciamento de Informações de Tráfego Aéreo e Relatórios de Interesse Operacional, o software Sagitário foi desenhado – com a participação dos próprios controladores – para tornar mais confortável e fácil o trabalho do operador, com planos de voo (previsão de rotas e altitudes) disponíveis na tela e alertas para possíveis conflitos de rota antes mesmo da decolagem das aeronaves. A empresa contratada para desenvolver o sistema, a Atech Tecnologias Críticas, trabalhou durante dois anos para produzir o software, usando como parâmetro as recomendações da agência de segurança aérea da Europa, a Eurocontrol, e pretende exportar o pacote a países vizinhos. De acordo com Delfim Miyamaru, diretor da empresa, o novo sistema está pronto para a nova geração de controle aéreo, de comunicações por satélite. Esse modelo de troca de informações entre pilotos e controladores dispensará o rastreamento por radares e o contato por rádio. Por enquanto, o sistema atual – o x-4000 – continuará operando lado a lado com o Sagitário. O custo inicial de desenvolvimento do sistema foi de R$ 6,9 milhões. Outros R$14 milhões serão pagos por instalação, garantia do produto e treinamento das equipes – o que vem sendo precedido pelo programa Ciclo de Diálogos – Gerenciamento de Tráfego Aéreo, que a empresa iniciou em maio de 2009, com o objetivo de promover a troca de experiências entre controladores e profissionais da área, além de discutir a aplicação de novas tecnologias para atender ao crescimento de demanda desse sistema no Brasil. O primeira evento dessa ação reuniu 200 profissionais na sede do Serviço Regional de Proteção ao Voo de São Paulo (SRPV-SP) para serem apresentados ao Sagitário. DEFESA LATINA

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Nova ordem mundial para jornalistas É de esperar que a Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo, repita em 2010 a iniciativa do embaixador Sergio Amaral, diretor do Centro de Estudos Americanos da universidade, que promoveu no final do segundo semestre o ciclo de palestras “As relações internacionais no século XXI”. Oferecido gratuitamente a jornalistas como oportunidade de atualização e discussão de temas da nova agenda internacional de interesse para o Brasil, o ciclo apresentou alguns dos maiores experts da diplomacia do país, como o ex-ministro das Relações Exteriores Luis Felipe Lampreia e os embaixadores Rubens Ricupero e Botafogo Gonçalves, além de duas estrelas do jornalismo especializado em política internacional brasileiro – William Waack (Rede Globo) e Carlos Eduardo Lins da Silva (Folha de S. Paulo). A seleta platéia pôde estabelecer verdadeiro tête à tête com os palestrantes, regalando-se com narrativas de experiências vividas e informações de bastidores. A editora de DEFESA LATINA participou do curso.

UFRJ

Diploma de Defesa para civis É a primeira graduação em estudos estratégicos do país, destinada a formar especialistas civis em defesa. A iniciativa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ganhou o nome de Curso de Defesa e Gestão Estratégica Internacional e está adstrito ao Núcleo de Estudos Internacionais, que é dirigido pelo professor Ronaldo Fiani, entusiasmado defensor do novo bacharelado, que, segundo diz, difere bastante do de Relações Internacionais. São oferecidas 120 vagas para o curso no vestibular de 2010: metade no primeiro semestre e metade no segundo. Adotando a duração tradicional de quatro anos – ou oito períodos –, a grade curricular será comum à do núcleo temático até o quinto período. A partir daí, virão as formações especializadas, quando os alunos irão escolher uma das três áreas da graduação: Estratégias Nacionais e Regionais de Segurança pelo Desenvolvimento, Defesa e Assuntos Estratégicos, ou Saúde e Questões Ambientais Globais. Interpretações do Brasil, Teoria dos Jogos, Comércio Internacional de Armas, Bioética em Saúde, Poluição Ambiental e Repercussões Internacionais, Toxicologia e Defesa Nacional, Trajetória Contemporânea do Sistema Interestatal Capitalista e Estudo da Defesa são algumas das matérias a serem estudadas. 10

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PPE-Embraer forma seus especialistas Para estudar em 2010 não dá mais tempo, porque o processo de seleção para candidatos ao Programa de Especialização em Engenharia da Embraer foi encerrado em outubro. Mas logo mais as inscrições se abrem de novo e quem tiver o perfil adequado deveria aproveitar a oportunidade. O PEE-Embraer é um programa de pós-graduação com estratégia de aceleração do aprendizado criado em 2001, já trabalhou com 14 turmas, tendo formado 850 profissionais, que foram imediatamente contratados pela empresa. Outros 150 ainda estão em curso. A cada ano são admitidos, em média, 100 engenheiros recémformados, com inglês fluente e selecionados por processo classificatório. O programa, feito em parceria com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), é um mestrado stricto sensu em Engenharia Aeronáutica e tem duração de 18 meses, ao longo dos quais os profissionais em formação têm status de bolsistas de pós-graduação. As especializações abrangem as áreas tecnológicas, como aerodinâmica, estruturas, comandos de voo, suporte ao cliente, elétrica e eletrônica, aviônica e softwares embarcados, entre outros. Informações: pee@embraer.com.br

Arquivo Defesa Latina

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Forças Armadas na

Desafios da inovação

O auditório da Escola de Guerra Naval lotou durante o evento.

A defesa nacional é um conjunto de meios e expertises com o poder de dissuadir ameaças e agressões externas ao país, mas ainda há muito o que fazer em ciência, tecnologia e inovação para que o Brasil tenha blindagem segura, moderna e eficaz, com processo de implementação vantajoso também em tecnologias de uso civil. Foi bem disso que tratou o Simpósio de Ciência, Tecnologia e Inovação, promovido pela Marinha do Brasil em setembro, na Escola de Guerra Naval, no bucólico bairro carioca da Urca. Na abordagem sobre o desenvolvimento sustentável do país, mereceu destaque a questão do meio ambiente. A contribuição do Legislativo na área foi igualmente debatida, considerando-se que, embora a importância da defesa nacional venha sendo reconhecida pelos parlamentares, estes podem fazer mais nessa questão, seja dotando o país de legislação pertinente, seja enfrentando politicamente os óbices ao ágil encaminhamento dos processos.

Foto: Divulgação

Outras temas foram ações e programas, como o Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec) e o poder de indução da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), a capacidade industrial para o desenvolvimento de tecnologias de interesse da defesa e os desafios e oportunidades de C&T para o país – o último abordado pelo representante da empresa Atech Tecnologias Críticas. Foram objeto de exposição ainda o papel dos centros tecnológicos militares e da universidade em inovação tecnológica (USP), gestão da inovação (Unicamp) e preservação da propriedade intelectual (UFRJ). O debate com o público se estendeu além dos horários previsto, tamanha a participação da assistência. No coquetel de encerramento, não se economizaram elogios à iniciativa da Marinha, que criou em 2008 a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, sediada em Brasília, objetivando estruturar seus institutos de pesquisa, coordenar seus projetos, apoiar a inteligência científica e estimular seus recursos humanos. “Dar a eles maior motivação pelo trabalho valioso que desenvolvem”, nas palavras do secretário dessa pasta, almirante Ney Zanella dos Santos. Outro desafio está no mar, ilustre desconhecido dos brasileiros. Se a instituição naval vai construir o submarino de propulsão nuclear, terá de privilegiar a engenharia oceânica para conhecer melhor o mar, sua biologia, riquezas naturais e saber exatamente por onde o submarino vai trafegar.

Adventure Sports Fair

A maior feira de esportes e aventura do hemisfério sul aconteceu em setembro, no Centro de Exposições Imigrantes, em São Paulo, e atraiu a participação das Forças Armadas, que aproveitaram a ocasião para promover suas missões constitucionais e sociais. “A proposta é mostrar a dualidade de equipamentos e produtos utilizados pelos militares em suas atribuições diárias”, comentou o diretor do Departamento da Indústria de Defesa da Fiesp (Comdefesa), Jairo Cândido, lembrando a semelhança entre as atividades militares e as práticas do turismo e dos esportes de aventura. Além de se aventurar em atividades com bikes, motos, autos, caiaques e atrações diversas, os visitantes puderam ver um helicóptero militar e uma maquete do submarino nuclear nacional, equipamentos da Marinha e outros utilizados pelos Fuzileiros Navais e pelo Grupamento de Mergulhadores de Combate. O público ainda se encantou com as belas imagens das exposições Amazônia Azul e Estação Antártica Comandante Ferraz, base pertencente ao Brasil no extremo sul do continente americano. DEFESA LATINA

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foto: Edson Yui

Lucita Briza palestra sobre Ada Rogato no XIII Encontro Nacional das Aviadoras.

Mulheres no ar Se faz três anos que o Brasil tem mulheres na aviação militar, já faz décadas que aviadoras brasileiras ocupam cabines de aeronaves civis. Hoje, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), mais de 800 mulheres pilotam desde aviões esportivos até helicópteros e jatos. E foram elas que criaram o grupo Aviadoras, em 1998, que está preparando o XIV Encontro Nacional, previsto para 28 de agosto de 2010 em São Paulo e

já com inscrições abertas. O objetivo inicial do grupo era reunir as pilotos de linhas aéreas para troca de experiências, discussão de objetivos comuns e apoio mútuo. Em seguida, vieram os encontros anuais e a abrangência para todas as aviadoras, independentemente do tipo de habilitação. No XIII Encontro, foi lançado o Prêmio Aviadoras, destinado a mulheres que se destacaram por atitudes ou trabalhos

inovadores. Entre as premiadas estão Marta Bognar, única wingwalker da América Latina; a comandante Andrea Mion, por seus 6 anos de presidência dos grupos Aviadoras e 99-Brasil (The Ninety-Nines, organização de mulheres pilotos de 35 países), e a jornalista Lucita Briza, colaboradora de DEFESA LATINA e autora da biografia de Ada Rogato, a ser lançada em 2010, no centenário de nascimento da aviadora pioneira.

Contra o terror O blog http://counterterrorismblog.org foi fundado em janeiro de 2005 e, às vésperas de completar cinco anos, continua o endereço certeiro para quem se dedica ao tema “contraterrorismo”. Ele oferece notícias, comentários de especialistas, discussões de tendências, legislação, mas a grande atração é o painel de contributing experts, composto pelos principais nomes da área e nem todos com pontos de vista uníssonos. O noticiário cobre dia a dia os acontecimentos, focalizando sobretudo talibans, Al Qaeda e fundamentalistas muçulmanos. Nesse quadro, o destaque do portal em 2009 foi o registro de dois fenômenos preocupantes. Um deles foi a queda de um Boeing 727 carregado de cocaína no Deserto de Máli, em novembro último. Neste caso, a droga partiu da América do Sul – aparentemente da Venezuela – para venda na Europa. Segundo o consultor Douglas Farrah, ex-The Washington Post e perito em fontes de financiamento do terrorismo, a escala na África indica provável envolvimento de “algum ramo da Al Qaeda ou de outros grupos terroristas islâmicos dispostos a fazer o transporte ou a proteger o caminho das drogas para o norte”. O outro é o desaparecimento de jovens de origem somáli residentes no Ocidente. Observou-se que são aliciados para treinar na Somália com o grupo extremista Al-Shabaab. Depois, prontos para agir, retornam a seus países de residência – nesse caso, o Canadá. No Natal, o atentado frustrado de um nigeriano nos EUA revelou que o Iêmen também está formando agentes do terror.

desenhos Boeing/Divulgação

Versões do Boeing 727

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reportagem Cosme Degenar Drumond, texto e fotos

95 anos operando

submarinos

Com o submarino nuclear, o Brasil ganhará maior projeção de força e condições de se nivelar aos países que detêm tamanho domínio tecnológico

Marinha do Brasil

O submarino de ataque foi criado simultaneamente por franceses e americanos no fim do século XIX. Os ingleses e os alemães duvidaram da eficácia da nova arma, permanecendo fiéis ao encouraçado, a maior expressão do poder naval de então. Quando, por fim, mudaram de opinião e decidiram desenvolver seus próprios submersíveis, inspiraram-se no projeto francês. Os alemães inovaram ao adotar a propulsão por motor diesel. A Itália também se integrou ao grupo de países detentores da nova tecnologia, assim como o Japão, que optou por operar o submarino como instrumento de apoio às suas operações navais.

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Em 1914, o Brasil criou a atual Força de Submarinos da Marinha, batizada inicialmente de Flotilha de Submersíveis, que foi equipada com três submarinos da classe Foca, adquiridos da Itália. São, portanto, 95 anos de experiência brasileira nessa área, completados em 17 de julho passado. Na década de 1980, o Brasil conquistou capacitação tecnológica para construir seus próprios submarinos convencionais. Juntamente com o submarino da Esquadra Humaitá e os da classe Tupi (também italianos da década de 1930), os pioneiros F-1, F-2 e F-5 participaram da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e atuaram em adestramento de tática antissubmarina para os navios e aviões que protegiam os comboios mercantes contra os ataques dos submarinos do Eixo. À noite, o inimigo operava na superfície, explorando a velocidade e melhores posições de ataque. Com a invenção do radar, quase ao fim da guerra, passou a operar preferencialmente submerso, explorando a vantagem da ocultação para deflagrar seus ataques de surpresa. Após a guerra, o Brasil adquiriu submarinos de origem americana, das classes Fleet e Guppy, e os Oberon, ingleses. Atualmente, opera as unidades originadas do projeto alemão IKL 209-1400, da classe Tupi (S-30 Tupi, S-31 Tamoio, S-32 Timbira e S-33 Tapajós) e um da classe Tikuna (S-34 Tikuna). Com exceção do Tupi, os demais foram construídos por técnicos brasileiros no Rio de Janeiro. Completando a estrutura da Força de Submarinos, estão o navio de socorro submarino Felinto Perry e o Grupamento de Mergulhadores de Combate (Grumec), tropa de elite para operações especiais. DEFESA LATINA

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Submarino nuclear

Patrimônio dos brasileiros O comandante Humberto Caldas da Silveira Junior sempre foi um apaixonado pelo mar. Já no Colégio Naval, tomou gosto pelos submarinos. Após 18 anos dedicando-se à carreira, desde fevereiro passado, ele comanda o Timbira. Há algo em especial que é exigido do candidato a submarinista? É preciso gostar da atividade, ser voluntário e passar nas provas exigidas. Os que ingressam com dúvida ou incerteza, já servindo a bordo, descobrem que não gostaram e desistem. Mas são casos raros, pois o processo de seleção e avaliação é completo e eficiente. Algum fato marcou sua carreira de submarinista? Nos primeiros anos, fiz parte da tripulação do Tupi, o S-30. Em viagem ao norte do Brasil, tivemos um período de imersão de 26 dias. Isso me marcou muito, pois permaneci quase um mês confinado em ambiente restrito com 40 companheiros, cada um com suas características. Foi um treinamento de paciência, tolerância e calma para chegar ao final da jornada. Algo a acrescentar? Apenas dizer que o brasileiro precisa conhecer mais suas Forças Armadas, em especial a Força de Submarinos e nossas atividades. No meu convívio social, as pessoas costumam me perguntar se o Brasil tem submarinos. A pergunta me é dirigida inclusive por pessoas com formação acadêmica, portanto, esclarecidas, mas que desconhecem as capacidades e a composição da Marinha do Brasil quanto a submarinos. E, no entanto, trata-se de um patrimônio de todos os brasileiros. 16

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Comparativamente ao tipo convencional, o submarino movido a propulsão nuclear tem maior poder de ataque, operando praticamente invisível para os navios de superfície. Com maior mobilidade, num primeiro momento, usou como armamento torpedos e mísseis táticos. No período da Guerra Fria, aumentou seu poder de dissuasão ao empregar também mísseis intercontinentais de ogiva nuclear. Na Guerra das Malvinas, no Atlântico Sul, em 1982, foi a arma que acelerou a derrota argentina no conflito. Mais recentemente, foi usado no Afeganistão e no Iraque, em apoio às ofensivas americanas. Sua maior vantagem é permanecer submerso por longos períodos, sem necessitar recarregar as baterias. Outra vantagem singular é navegar em águas profundas, imune à identificação por sonar ou satélite. A Marinha do Brasil sempre pensou em operar o tipo nuclear. Com o acordo franco-brasileiro assinado em 23 de dezembro de 2008, ela poderá enfim, em médio prazo, consolidar essa aspiração e integrar-se ao grupo de países que detêm a tecnologia de construção desse tipo de belonave – EUA, França, Reino Unido, Rússia, China e Índia. Pelo acordo, serão construídos quatro modelos convencionais, classe Scorpène, e um submarino nuclear de ataque. O primeiro convencional será parcialmente construído na França; os demais, no Brasil. Para a construção do tipo nuclear, a França comprometeu-se a transferir os conhecimentos de projeto e construção, mas não a tecnologia do reator nuclear, já plenamente dominada pelo Brasil. Para a construção e apoio às novas belonaves, serão construídos no Rio de Janeiro um estaleiro e uma base naval. O submarino funciona com reator nuclear frio, cuja energia é concentrada em barras sólidas instaladas no seu interior. Acionado, o reator atua como componente de uma planta a vapor, movimentando a turbina geradora de energia elétrica. Para substituir a carga radioativa, o submarino entra em dique, processo que exige segurança máxima, pelo risco de contaminação radioativa. O pessoal técnico trabalha com roupas de proteção apropriadas, avaliadas após cada operação. Em caso de conflito naval, um Teatro de Operações Marítimo é definido. São então estabelecidas Zonas de Patrulha nas áreas onde o inimigo pode estar operando. Cada uma das zonas é ocupada por um submarino, com liberdade para atacar de surpresa, usando a ocultação. No patrulhamento são empregados pelo menos dois submarinos em cada área, com parada de 10 dias para manutenção e reabastecimento. O ciclo básico de operações dura 60 dias. A sede da Força de Submarinos da Marinha do Brasil funciona na ilha de Mocanguê Grande, na Base Almirante Castro e Silva (BACS), na Baía da Guanabara. Ela foi ampliada em 1946; hoje, porém, não tem mais condição de crescer fisicamente. Daí a necessidade de construção da nova base e do novo estaleiro. Até meados do corrente século, a Marinha do Brasil pretende construir 15 submarinos convencionais e seis do tipo nuclear.


Maior poder de dissuasão Em 1978, o contra-almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior foi declarado guarda-marinha. Desde então, exerceu diversos cargos e funções na Marinha. Serviu nos submarinos Tonelero e Humaitá e fez parte da comissão que recebeu, na Alemanha, o primeiro IKL-209, Tupi, do qual também foi tripulante. Comandou o Tamoio, o Tonelero e a Base Almirante Castro e Silva, e cumpriu missões de paz a serviço da ONU. Qual a importância do submarino para o poder naval brasileiro? A Estratégia Nacional de Defesa estabeleceu a tarefa básica do Poder Naval de “negar o uso do mar” como prioridade para a Marinha, sendo o submarino a arma eficaz para executar essa tarefa, por sua capacidade de ocultação. Qual é a perspectiva da Ma­rinha quanto ao submarino nuclear? Este é um sonho antigo da Marinha do Brasil – em particular, da Força de Submarinos – acalentado desde o final dos anos 1970. O submarino nuclear vai trazer para a Marinha e para a Força de Submarinos um avanço enorme, não só em termos tecnológicos, como maior mobilidade e flexibilidade de emprego, o que permitirá avanços significativos e poder de dissuasão sem precedente. O senhor já navegou em submarino nuclear? Tive a oportunidade de navegar em dois submarinos nucleares: um americano e, mais recentemente, um francês que visitou o Brasil por ocasião das comemorações do 7 de Setembro e da assinatura dos contratos Brasil-França. Qual foi a sua impressão? Pude comprovar, nos dois embarques, que realmente se trata de uma arma diferenciada, com desempenho incomparável em relação ao submarino convencional. Acredito que estamos totalmente preparados para assumir as novas responsabilidades exigidas pelo submarino nuclear. O Brasil tem plena capacidade e competência tanto para construir como também para operar essa arma.

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O submarino é uma máquina fascinante. Ainda hoje, as pes­soas se mostram maravilhadas pela figura lendária do Nautilus, o submersível imaginado pelo escritor francês Júlio Verne no romance 20 mil léguas submarinas. Desde que se tornou realidade, no fim do século XIX, o submarino tem sido uma ferramenta estratégica para as marinhas modernas, dada sua capacidade de desequilibrar contenciosos no mar.

dar [ir em direção a determinado lugar ou objetivo] profundidades maiores que 50 metros, em imersão de adestramento. A navegação na superfície durou cerca de 30 minutos, período em que pude observar, por boreste, a ilha Fiscal e a Escola Naval, na ilha de Villegaignon, e, por bombordo, a igreja da Boa Viagem e o Museu de Arte Contemporânea, em Niteroi. O mar não estava para al-

Ataque, onde as operações do navio se desenvolvem, vimos pelo periscópio a superfície do mar, nas proximidades da Ilha Rasa, já cruzando a isobatimétrica [linhas existentes na carta náutica, que unem as mesmas profundidades, formando um contorno do fundo onde as profundidades são maiores que 50 metros]. No ponto de imersão, o capitão Humberto, em sua vigília ao periscópio, plotando as posi-

Um repórter no fundo Ao longo dos meus 30 anos como profissional de imprensa, assisti a tiros de canhão autopropulsado, conheci veículos blindados e voei jatos militares. Mas nunca havia tido a sensação de mergulhar a bordo de um submarino. No dia 21 de setembro, enfim, a convite da Marinha, tive o privilégio de realizar uma imersão no Atlântico, nos arredores do litoral fluminense, a bordo do submarino Timbira. Bem cedo, cheguei à Base Almirante Castro e Silva, a sede da Força de Submarinos da Marinha do Brasil (ForSub), no Rio de Janeiro. Apresentado ao seu comandante, contra-almirante Bento Costa Lima de Albuquerque Junior, após rápido cafezinho, assisti ao hasteamento da bandeira nacional, ocasião em que conheci o comandante do S-32 Timbira, o capitão-de-fragata Humberto Caldas da Silveira Júnior, e sua tripulação. Às nove horas em ponto, o Timbira desatracou para deman18

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mirante, e o S-32 jogava muito, o que me levou a sentir ligeiro mal-estar, algo comum aos marinheiros de primeira viagem. Mas isso passou tão logo o submarino imergiu, como previra o vice-almirante Carlos Autran de Oliveira Amaral, submarinista experiente, que também fazia parte do grupo de convidados, como o capitão-de-mar-e-guerra Flávio Luiz Condé Marliere, o tenente Marcelo da Silva Vieira e o empreendedor imobiliário Francisco Saboia.Na saída da barra, com a Ilha da Laje e o Forte de São João por boreste, e o Forte de Santa Cruz a bombordo, o “Tiba”( assim chamado por sua guarniçãlo) rumou para o ponto de imersão – local com profundidade suficiente para o mergulho seguro –, ao sul da Guanabara. O submarino é composto de várias partes, entre as quais vela, hélice, tanques de lastro, casco resistente, carenagem hidrodinâmica, leme vertical e lemes horizontais. Após receber as instruções de segurança, na sala de

ções de mercantes e pesqueiros, anunciou: – Passadiço, falando o comandante! Mergulhar, mergulhar! – Mergulhar, mergulhar. Passadiço ciente! – respondeu o oficial da vigia. Imediatamente, o suboficial de imersão acionou a sirene de aviso, que soou pelo submarino. Nesse momento, lembrei-me daquelas cenas de filmes sobre guerra naval, quando o submarino mergulha. O som da sirene é bem característico, inconfundível. O Timbira mergulhou para a cota de periscópio [profundidade de até 15 metros], em que pudemos ainda ver a linda Copacabana, as ilhas Rasa e Redonda, navios mercantes fundeados e pesqueiros. Para imergir, os tanques de lastro são alagados e o submarino se inclina pela ação dos lemes horizontais. Para voltar à superfície, esvazia os tanques de lastro, utilizando a injeção de ar comprimido para expulsar a água. O submarino convencional


é movido por propulsão dieselelétrica, composta de motor elétrico, gerador a diesel, hélice, eixo propulsor, baterias, tanques de combustível, esnórquel e conduto de descarga. Em imersão, realiza manobras alimentado pela energia das baterias, que, progressivamente, perdem força e exigem recarregamento. Isso é feito com emprego do esnórquel, um processo em que o mastro do esnórquel é içado para interli-

do mar

gar o interior do submarino à atmosfera. Por meio do gerador de energia, o ar atmosférico e o combustível armazenado recarregam as baterias. Paralelamente, os gases de combustão a bordo são expulsos por meio de um condutor submerso. Estabilizado na isobatimétrica de 60 metros, o capitão ordenou uma guinada de 90 graus (180 para boreste 270), em alta velocidade (13 nós, cerca de 24 km/h), manobra semelhante à de uma aeronave alterando a

proa, enquanto a guarnição verificava o comportamento da plataforma. Às 11h30, o Tiba foi passado ao controle do oficial de periscópio. Na sala de estar – Praça d’Armas, no linguajar naval –, trocamos ideias e impressões sobre a atividade submarinista. O almirante Autran e o comandante do submarino falaram de suas experiências no mar. Pouco antes do almoço, fomos “convocados” para o batismo a bordo, cerimônia dedicada aos que fazem a imersão pela primeira vez. Tratase de um ritual antigo, costume italiano, iniciado com a chegada dos primeiros submarinos ao Brasil. Como tradição, há também o brinde cantado aos amigos e a Canção da Flotilha de Submarinos, lembrada nos aniversários da unidade. Sua letra é uma provoca­ção aos marinheiros não submarinistas, tratados na canção como alvos dos submarinos. O momento é especial. Nele, antigos e novos submarinistas, apesar de separados por gerações, cantam juntos, relembrando suas aventuras e operações navais. A canção originou-se do hino da guerra civil americana, The Battle Hymn of the Republic. Durante a cerimônia de batismo, é feita homenagem a Netuno, o deus do mar, das ilhas e das praias, a quem se roga permissão para navegar nas profundezas dos oceanos. Cada um dos batizados profere a oração de súplica pelas graças do grande rei:

Eu, imundo e profano, pilhado nas profundezas do reino de vossa majestade Neptuno Rex, penitencio-me diante de vós, provando o sal da sapiência que fará de mim um esclarecido. Sal, sal, sal. E peço que me untem com o óleo sagrado dos peixes, que fará de mim um forte. Graxa, graxa, graxa. E doravante, respondendo pelo nome de [um peixe escolhido], prometo respeitar ninfas e sereias, conchas e caramujos e todos os seres que habitam o reino de vossa majestade. Amém! Sorvemos a porção de sal, fomos untados na testa com duas pequenas camadas de graxa e repetimos as palavras de compromisso, ditadas pelo mestre de cerimônia, o tenente Gabriel Sá, do S-32. Ao terminar a oração, recebemos o certificado de batismo de imersão, um diploma caricaturizado pelo cartunista brasileiro Luis Sá nos anos 1950. Depois, conhecemos ainda os aposentos da tripulação. O camarote do comandante é tão exíguo quanto os demais, diferenciado apenas por pequena mesa, sobre a qual o capitão escreve o diário de bordo. Às 14h00, o Tiba retornou à superfície, já em curso de volta à base, onde atracou uma hora depois. Após agradecimentos e despedidas, fui levado ao gabinete da ForSub para uma rápiDEFESA LATINA

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da entrevista com o comandante da grande unidade. O Timbira é o terceiro navio e o segundo submarino da Marinha a ostentar esse nome, homenagem à nação indígena do Maranhão. Construído no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, foi lançado ao mar em janeiro de 1996 e incorporado em dezembro de 1996. Desloca 1.550 toneladas, mede 61,2 metros de comprimento e desenvolve velocidades superiores a 20 nós, podendo mergulhar a profundidades maiores que 200 metros. A propulsão provém de quatro motores de combustão acoplados a quatro geradores elétricos. O submersível acumula mais de 100 mil milhas náuticas navegadas e já participou

de operações internacionais conjuntas: Fraterno, Endurance, Unitas, Swordfish e Deployment, na América do Sul, nos EUA e na Europa. Sua tripulação é formada por 9 oficiais e 33 praças. Aos amigos curiosos, quero dizer que não tive visão alguma do fundo do mar, nem vi peixes passeando ao lado do submarino. Aquele gigantesco painel de vidro transparente do Nautilus é coisa da ficção. O submarino real é uma sólida máquina de aço. Submerso, navega controlado por avançados e eficientes sistemas embarcados. Quero ainda registrar meus agradecimentos a todos os que me possibilitaram essa fantástica viagem ao fundo do mar. Foi uma experiência ímpar e inesquecível.

Observei o quanto as tripulações de um submarino se dedicam para cumprir missões nas profundezas do mar, em ambiente fechado, restrito e isolado. E pude constatar o profissionalismo, a técnica, a dedicação e a fidalguia de todos, no mar e em terra. A propósito, o lema da Força de Submarinos é um retrato fiel desses corajosos homens do mar:

USQUE AD SUB AQUAM NAUTA SUM Sou marinheiro até debaixo d’água.

O Timbira diante do navio de socorro submarino Felinto Perry

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artigo

O passado pode orientar o futuro Importância estratégica de um complexo industrial de defesa para o Brasil

foto: Coleção do autor

O Brasil construiu, a partir de meados da década de 1960, uma pujante, estruturada e supostamente duradoura indústria de material de defesa. Seus projetos traziam esperanças de que o país conseguiria se transformar em destacado provedor de materiais de emprego militar, agregando tecnologia aos produtos nacionais e trazendo divisas e conhecimentos estratégicos importantes para seu futuro como nação.

Lote de EE-9 Cascavel, na Engesa, pronto para entrega ao Exército, em 1986: o blindado mais produzido e exportado, com 1.738 unidades.

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A indústria de defesa, após esse período de desenvolvimento inicial, obteve tecnologias críticas primordiais e um relativo sucesso comercial, quando as principais empresas do setor firmaram contratos de desenvolvimento, produção e exportação com diversos países latino-americanos, europeus, africanos e asiáticos. As vendas de itens de defesa da Embraer, por exemplo – aviões de ataque, treinamento, transporte e patrulha marítima – marcam sua inserção em diversos países, nos segmentos militar e governamental, abrindo caminho para o sucesso de seus produtos nos mercados de todo o mundo. DEFESA LATINA

De modo semelhante, e paralelamente, os setores ligados às forças terrestres da indústria de defesa iniciaram negócios externos, obtendo sucessos de venda. As que mais se destacaram foram Engesa e Avibrás, com importantes vendas na América do Sul, África e Oriente Médio. Já a força naval, diferentemente das demais, procurou absorver tecnologias no exterior, estimulando a produção local com resultados satisfatórios, que desenvolveram empresas próprias de atuação no setor. Reveses e lições Os notórios êxitos de vendas externas receberam apoio de diversos governos daquele período, no qual o Brasil mais se destacou como fornecedor de itens para defesa. Porém, depois, em momento mais delicado pelo qual passava essa indústria, faltou apoio, o que foi crucial para os destinos do setor no país: o apoio interno. Diversas etapas do ciclo de projeto, desenvolvimento e produção foram exercitados e entendidos. No momento em que toda a cadeia de desenvolvimento e produção entrou em crise, os governantes não cuidaram de preservá-la, incluindo aí todo o conhecimento gerado por anos de pesquisas e qualificação de pessoas, que da noite para o dia se viram desempregadas, desamparadas e lançadas à própria sorte. Nem o material foi mantido para retomada futura. Assim, maquinário e protótipos simplesmente foram sucateados, vendidos

como ferro-velho, sepultandose assim um fator essencial para o domínio da tecnologia na área de defesa. Faltou visão estratégica e vontade política, pois as alegações de que “importar é mais barato” e que aquilo era “resquício da ditadura” prevaleceram nos últimos anos somente agora nos mostram o que realmente foi feito. O setor sofreu considerável revés quando, no início dos anos 1990, assistiu nossas indústrias se desfazerem uma a uma – pela falta de compras externas e pela sempre crônica falta de recursos internos, agravadas por mudanças no contexto internacional, como o fim da Guerra Fria –, jogando fora anos de pesquisa e desenvolvimento. Alternativas tiveram que ser buscadas pelas empresas para evitar o encerramento de suas atividades. Algumas diversificaram suas operações, adaptandose às novas realidades. Outras, estatais, foram privatizadas. E as maiores, privadas, simplesmente desapareceram. Poucas sobrevivem na atualidade – normalmente, as de menor porte. O histórico do desenvolvimento tecnológico nacional poderia ter sido muitíssimo mais bem aproveitado, levando-se em conta que não perdemos o principal de nossa capacitação: o fator humano. Entre os ensinamentos dessa experiência, podemos levantar pontos importantes para desenvolver e manter uma indústria de defesa:


mesmos resultados, visto que sempre estamos a reinventar a roda, repetindo erros idênticos a cada 20 anos; Criar regras bem definidas quanto aos itens que seriam de maior interesse para o reequipamento das Forças Armadas e para que os gargalos tecnológicos a serem enfrentados possam vir de cooperação oriunda de países que realmente querem e podem transferir tecnologia de ponta, o que muito ajudaria para salvarmos os “sobreviventes” do que foi a indústria de defesa brasileira; Conhecer o passado e, aí sim, ter idéia do que pode ser aproveitado

Futuro à vista Para concretizar uma indústria de defesa sólida e que possa atender à demanda das Forças Armadas, faz-se necessário: Readequar o nosso parque industrial de defesa, com fusões de empresas, tornando-as mais competitivas e diversificadas, como tem sido feito na Europa e nos Estados Unidos; Criar uma agência de aquisição e avaliação de material para as três forças ligadas ao Ministério da Defesa, com poder de decisão e como forma de transformar as Forças Armadas em operadoras de sistemas de armas, e não detentoras de plataformas “X” ou “Y”, interagindo nos sistemas que forem comuns; Recriar empresas estatais para produção de material de defesa que não seja de interesse das privadas (pouca lucratividade, pequenas quantidades e longo intervalo de compras), como forma de suprir e manter operacionais itens importantes que possam ser produzidos no país, evitando-se importações em escala pequena, como tem ocorrido na atualidade; Flexibilizar nossos requisitos técnicos, pois, no papel, são excelentes, mas, na prática, acabam por ficar fora da nossa realidade; Criar maior interação entre os diversos centros de pesquisas, civis e militares, pois estes, embora pesquisem as mesmas coisas na atualidade, funcionam como ilhas, sem comunicação uns com outros, gerando gastos e cometendo erros reincidentes até obterem praticamente os

foto: Coleção do autor

Conhecimento do nosso passado: incluindo de todos os erros e acertos conseguidos em quase três décadas; Desoneração fiscal: buscando produzir no Brasil com a mesma carga que onera os produtos importados; Política real de off set: que realmente transfira tecnologia de ponta para o país e este possa ter condições de absorvê-la, e não apenas tratá-la como um modismo atual; Orçamento impositivo para a área de defesa: pois, na atualidade, isso é obra de ficção – por que não criar uma fonte permanente, vinda diretamente, do petróleo e do minério de ferro, por exemplo, como faz o Chile com o cobre? Financiamento: para desenvolvimento de produtos de defesa com aquisição de pré-série e garantia de compras mínimas; Evitar importações de produtos que podem ser desenvolvidos e produzidos por empresas no Brasil: com o cuidado de não criar reserva de mercado prejudicial aos interesses nacionais, a exemplo do que foi feito no passado nas áreas de informática e telefonia; Fortalecimento do Ministério da Defesa: para que seja fator de integração entre as Forças Armadas e tenha maior poder de decisão, inclusive para compras de itens que possam atender a essas forças; Compreensão da importância estratégica do conhecimento gerado pelos diversos órgãos militares: preservá-los como fontes para estudos futuros.

para o aprimoramento e a continuação de projetos que eram viáveis na década de 1990 e ainda podem muito bem, com algumas modernizações, ter grande valor para reequipar nossas Forças Armadas e servir como plataforma para agregar conhecimentos importantes. A partir daí, caminharmos para uma sofisticação maior, visto que em tecnologia não se dão grandes saltos, mas, sim, pequenos passos, que, somados, possibilitam um caminhar suave e crescente; Definir o por quê, o para quê e o como pretendemos, no futuro, empregar essas DEFESA LATINA

Caminhão EE-25 da Engesa: maior volume de produção, com 2.416 unidades em todas as versões.

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forças, qual o nível de tecnologia que queremos e de que necessitamos, visto não termos ambições expansionistas, mas precisarmos criar um bloco regional no qual, sem dúvida, nos caberá ser o elo e a força maior para que a região possa ter mais voz ativa no conturbado século XXI, cujo horizonte não é dos melhores; Evitar que empresas ligadas à área de defesa se digladiem, como no passado, levando muitos projetos a ser deixados de lado, competição esta que caminhava para a quase hegemonia de um determinado grupo. Muitas soluções e necessidades reais de nossas Forças Armadas foram esquecidas, sonhando-se com um grau de sofisticação muito distante de nossa realidade. Tanto que hoje continuamos a comprar equipamentos de segunda mão, excedentes da Europa e Estados Unidos, embora, em vários casos, tivessem existido similares nacionais, muitas vezes superiores aos que vêm sendo adquiridos; Ter visão estratégica, o que nos faltou em décadas passadas, e compreender que produzir e desenvolver material de defesa não faz mal à sociedade, pois, se conseguirmos dominar pontos importantes nessa área, ela trará enorme benefício a todos, desenvolvendo tecnologias sensíveis e até duais, que os países mais adiantados não querem e não podem nos transferir; 24

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foto: Avibrás

Sistema de artilharia de foguetes Astros II em linha de produção na Avibrás para a Malásia, em 2003: maior sucesso, com vendas de US$ 2 bilhões.

Manter um museu tecnológico seria de extrema importância, juntando tudo o que sobrou do nosso desenvolvimento nessa área no passado, com a finalidade de servir de base para desenvolvimentos futuros. Só um decreto não basta para manter e ampliar uma indústria de defesa. É preciso analisar a grande interatividade entre as indústrias nacionais e multinacionais e as Forças Armadas que, no passado, transformou o país em produtor de material de defesa para seu uso e para exportação, com erros e acertos, desenvolvendo tecnologias que, na maior parte, não podem ser compradas, pela simples razão de que quem as detém não ensina a dominar seu ciclo de produção, criando a terrível dependência; Uma análise detalhada de nossas capacidades outrora ativas pode nos mostrar importantes caminhos a seguir. Tecnologias e projetos, após a devida revisão, seriam plenamente factíveis e adaptáveis a nossa realidade atual e traríamos novamente aos domínios da nação a capacidade de gerir projetos de defesa com ganhos para diversos setores da economia. O desejo de ter equipamento brasileiro deve ser dos brasileiros, e não dos fabricantes mundiais. Tecnologia não se compra, desenvolve-se.


mercado europeu

Parceria Brasil-Polônia ultrapassa área militar Vantagens competitivas Após a democratização, nos anos 1990, a Polônia construiu um dos mais diversificados parques industriais de defesa na Europa e conquistou a segunda posição entre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), tendo aberto seu mercado para o mundo – inclusive o Brasil, que em 2008 dobrou suas importações da Polônia, superando a cifra de US$ 1 bilhão. Talvez se possa atribuir tal êxito aos esforços da Polônia, que investiu na abertura do mercado brasileiro para os seus produtos. Em agosto de 2008, por exemplo, aconteceu o Seminário de Oportunidades Brasil-Polônia, com organização da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil), do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (CIN-Fiergs) e da Agência

Polonesa de Informação e Investimentos Estrangeiros (PAIiIZ). A comitiva passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre, apresentando suas vantagens competitivas. Entre elas, a demografia – 50% da população tem menos de 35 anos e metade deste contingente tem formação acadêmica – e seus atrativos fiscais – o país concede abatimento de tributos à razão de 50% do que for investido lá. Outra frente de trocas entre Brasil e Polônia está na área educacional, tendo por base convênio de intercâmbio de estudantes entre a Universidade Pública de Lodz e o Complexo Educacional FMU, sediado em São Paulo. No ano letivo de 2009, a FMU recebeu a quarta turma de estudantes poloneses e, em agradecimento pela cooperação, concedeu o título de doutor honoris causa ao professor Pawel Starosta, reitor da Universidade de Lodz.

foto: Abimde/Divulgação

A Polônia apresentou-se com pompa e circunstância à comunidade empresarial brasileira em 5 de outubro, quando a Fiesp recebeu numerosa comitiva sob a liderança do ministro de Defesa, Bogdan Klich, para o Fórum de Defesa Brasil-Polônia. Menos bem-sucedida do que se esperava, a rodada de negócios do dia seguinte levou à conclusão de que deve ser preparada uma missão empresarial brasileira para aquele país em 2010. Durante o encontro, os dois países firmaram compromisso de cooperação, visando estreitamento da parceria comercial nos próximos três ou quatro anos, com especial destaque para a indústria de defesa. Participaram do evento organizado pelo Departamento da Indústria da Defesa (Comdefesa) da Fiesp, 27 empresas públicas e privadas daquele país e cerca de 50 brasileiras. Só o Bumar, maior grupo polonês do setor, agrega 23 indústrias que produzem veículos blindados, armas e sofisticados sistemas de eletro-óptica. “Nossa intenção é iniciar as atividades de fomento entre Brasil e Polônia antes da Olimpíada de 2016”, informou Klich, que não escondeu o interesse de seu país no sistema brasileiro de comando e reconhecimento C4ISR, enquanto oferecia seus sistemas antiaéreos e de radar, veículo blindado de transporte e equipamento individual para soldado. Assinaram o acordo de cooperação o presidente da Câmara Polonesa de Indústrias de Defesa e o vicepresidente executivo da Abimde.

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mercado latino

Nos últimos tempos, junto com as compras anunciadas pela Venezuela e o ambicioso plano de modernização das Forças Armadas do Brasil, o Chile é o país que mais se destaca pelo volume de aquisições militares. Verdade que, na última década, o país implementou seu plano de modernização de capacidade bélica, cuja justificativa oficial é a substituição de material obsoleto, sem aumen-

Com verbas seguras e constantes, as Forças Armadas do Chile puderam renovar seu material de primeira linha to substancial de força. A situação chilena foi favorecida pelo fluxo garantido de recursos para compra de material da Lei Reservada do Cobre. Até agora, esse mecanismo entregava para tal fim 10% do produto das exportações de cobre feitas pela mineradora estatal Codelco – Corporação Nacional do Cobre do Chile. Durante muito tempo, os ingressos desse item não superaram U$ 300 milhões/ano. Com a alta do preço do metal, porém, o ingresso médio superou U$ 1,15 bilhão por ano durante o período 2005-2008. Agora, mesmo com a queda do preço do cobre, a lei rendeu U$ 364 milhões no primeiro semestre de 2009. Paralelamente, e ainda pendente 26

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de reforma mais profunda do sistema de financiamento – em tramitação no Congresso, propondo substituir a lei atual por um programa plurianual, que passaria a fazer parte do orçamento nacional do Chile –, a autonomia para gastar esses montantes (que não podem ser destinados a outro uso) já foi restringida por imposições da Controladoria da República e do Ministério da Fazenda.

em uso há 44 anos. Dos Estados Unidos, foi adquirido um navio logístico, também para substituição, desta vez, do único petroleiro em serviço, cuja estrutura (ausência de casco duplo) limita seus movimentos sob as novas normas marítimas internacionais – leia-se Convenção Internacional para a Prevenção da Poluição por Navios (Marpol), da Organização Marítima Internacional (OMI)

Primeira e segunda mão Esse período de bonança permitiu renovar o material de primeira linha, com uma mescla de materiais novos e usados para as três forças. Assim, a Marinha adquiriu dois submarinos Scorpène novos – tendo sido o primeiro cliente do modelo inicial francês – e oito fragatas usadas (metade da Grã-Bretanha e metade da Holanda). Os estaleiros nacionais construíram dois navios de patrulha oceânica [OPV, na sigla em inglês para ocean patrol vessel, e NaPaOc em português] e têm autorização para produzir mais duas, talvez três unidades. Também está em construção um novo barco oceanográfico para substituir a unidade atual,

Falta alguma coisa?

Chile A aviação naval está recebendo aviões de patrulha Casa-295 (no Brasil, denominado C-105 Amazonas). Já a Força Aérea (FACh), depois de uma primeira esquadrilha de dez F-16 novos, comprou uma partida de aparelhos usados da Holanda e está prestes a fechar contrato para outros 18 da mesma fonte. Para treinamento avançado, a FACh


elegeu o Super Tucano brasileiro. Menos bem-sucedida foi a busca de um avião de transporte de longo alcance, resolvida com um Boeing 767 com 14 anos de serviço em sete companhias aéreas. Seu uso duplo como avião presidencial só trouxe problemas de manutenção até o momento. O Exército, que havia comprado tanques usados Leopard 1, constatou que eles não eram adequados para o deserto de Ataca-

integrando as três forças, também estão sendo considerados para os anos vindouros. E uma pergunta começa a ecoar: em que momento as compras passam de “necessidade” a “capricho”? Novos fornecedores Um aspecto diferente vem sendo a aparição de fornecedores não tradicionais para competir com as fontes convencionais de abastecimento (até agora, EUA, Euro-

para fornecer um sistema de comando e controle integrado para a Zona Norte – território atravessado pelo deserto e por vales férteis das regiões de Tarapacá, Antofagasta, Atacama e Coquimbo – com valor estimado de U$ 500 milhões. Enquanto isso, fontes tradicionais continuam vendendo material conhecido (quase sempre de segunda mão). É o caso de dois KC-135, dos EUA, e três

ma e os está trocando pelo modelo Leopard 2, outro ex-holandês. Também está em fase final a compra de artilharia autopropulsada de tipo M-109, oferecida de segunda mão pelos EUA. Numa segunda etapa, o esforço será direcionado para o material logístico, não tão chamativo, mas nem por isso menos necessário. Helicópteros leves e médios, aviões de transporte e de abastecimento aéreo, equipamentos de reconhecimento, caminhões pesados etc. – sem esquecer as necessidades de defesa antiaérea, que há muitos anos permanece à espera de solução. Melhores sistemas de armas para equipamentos existentes e sistemas sofisticados de comando e controle no teatro de operações,

pa e, ocasionalmente, Israel). A indústria aeronáutica da Índia concorreu sem sucesso com o modelo Dhruv para fornecimento de helicópteros leves para a FACh. Também viu frustrar-se a venda para a Marinha do míssil de cruzeiro Brahmos, desenhado em conjunto com a Rússia. Em contrapartida, o Brasil conseguiu vender o Super Tucano e a Rússia está a ponto de assinar a venda de vários helicópteros MI-17 para a Aeronáutica chilena. Outro ator que entra com força nas licitações é a Turquia. O país perdeu para a francesa Panhard a concorrência para vender seu blindado leve Otokar aos fuzileiros navais chilenos e está concorrendo (contra Thales, Lockheed e Northrop)

Hércules C-130, de várias fontes possíveis, enquanto a multinacional MBDA, fabricante de mísseis, oferece seu sistema Spada 2000 de defesa antiaérea. Apesar dos obstáculos encontrados com as autoridades civis para aprovar as compras – embora o dinheiro esteja disponível e não possa ser aplicado para outras finalidades –, as Forças Armadas estavam procurando acelerar o gasto dos fundos disponíveis antes das eleições presidenciais e legislativas de 13 de dezembro de 2009 e das alterações na Lei do Cobre. Um fator que contribuiu para a cautela foi a publicação de detalhes sobre subornos pagos anteriormente para a compra de aviões Mirage da Bélgica e da primeira partida DEFESA LATINA

À esquerda: o Super Tucano da Embraer, para a Aeronáutica chilena. À direita: Piloto Pardo (81) navio de patrulha oceânica da Armada do Chile fabricados pelo estaleiro Asmar.

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de tanques Leopard I da Holanda. O Chile se esforça muito para cuidar de sua imagem (pouco fundamentada) de país com baixo índice de corrupção. Indústria modesta, porém dinâmica A indústria nacional de defesa no Chile, assim como a de muitos de seus pares na América do Sul – com a notável exceção do Brasil –, está principalmente centrada em filiais industriais das próprias Forças Armadas. Apesar disso, existem algumas empresas

Leopard I, o tanque adquirido pelo Exército chileno, mostrouse inadequado para operar no deserto de Atacama e será substituído.

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do setor privado que aportam um componente de dinamismo a esse campo. E tudo indica que o setor vai ganhar ritmo nos próximos anos, pois, com o objetivo de desenvolver tecnologia própria, os fundos estatais destinados a projetos de pesquisa estarão disponíveis também para as empresas da área de defesa, conforme anunciado no final de agosto pela Corpora­ción de Fomento de la Produc­ción (Corfo), agência financiadora estatal, e pela Comissão Nacional de Pesquisa Científica e Tecnológica (Conicyt). O estaleiro Asmar, da Marinha chilena, não só conserta e transforma navios próprios e de clientes, como fez com submarinos tipo 209 da Marinha do Equador, mas, nos últimos DEFESA LATINA

tempos, começou a fabricar unidades, inclusive para exportação, a exemplo dos patrulheiros oceânicos vendidos para as Ilhas Maurício e para a Islândia. Dois desses OPV já foram entregues à Armada nacional, estando previstas pelo menos mais duas unidades. No final dos anos 1990, surgiu o Projeto Fragata, pelo qual Chile e Argentina renovariam sua frota com um modelo próprio, baseado em desenho alemão, que seria construído pelo Asmar. Mas esse grande salto na capacitação técnica do estaleiro foi frustrado pela crise argentina, restando ao Chile renovar sua esquadra com navios de segunda mão adquiridos na Inglaterra e na Holanda. A Enaer, Empresa Nacional de Aeronáutica, da Força Aérea do Chile (FACh), produz apenas um modelo de avião – o T-35 Pilan, de treinamento básico, desenhado pela Piper –, mas já exportou vários deles para Espanha, Equador, Panamá, República Dominicana e El Salvador. De resto, a estatal fabrica peças para outras indústrias e faz manutenção de aeronaves – entre estas, o Hércules, da Lockheed, e alguns modelos civis da Boeing. Como subcontratante, trabalha para EADS-CASA, Dassault e Embraer. Um contrato maior, para fabricação de partes do miniavião executivo Eclipse, dos EUA, esbarrou em dificuldades ainda não resolvidas. A operação mais modesta é a do Exército, cuja empresa, a Famae (Fábricas y Maestranzas del Ejercito), produz munições, granadas e foguetes e conserta armas leves sob licença, além de realizar serviços de modificação

e atualização de sistemas para veículos militares nacionais. Durante o governo militar (19731990), a empresa, junto com a BAe Systems, iniciou o projeto de um sistema de foguetes de artilharia chamado Rayo, mas o empreendimento foi abandonado no começo dos anos 1990, quando ficou claro que nem o próprio Exército chileno tinha interesse em comprá-lo. No setor privado, há várias empresas relativamente pequenas, mas dinâmicas, operando tanto para o mercado interno quanto para exportação. A Desa, especialista em integração de sistemas eletrônicos navais e terrestres, tem a seu cargo o sistema de tiro para os novos OPVs da Marinha chilena. A Linktronic, por seu lado, fabrica radares pequenos, computadores especializados e outros sistemas, inclusive equipamento para guerra eletrônica. Talvez o caso mais original seja o da empresa Sisdef, cuja propriedade é dividida meio a meio entre a Marinha do Chile e a britânica BAe Systems. Com gerenciamento comercial autônomo, fabrica sistemas de comando e controle para aviões, helicópteros e navios. Outros produtos são sistemas de comando estratégico para diferentes armas e para o campo de batalha. Também se especializa em sistemas para submarinos e antissubmarinos, colaborando com o estaleiro francês DCNS na incorporação dos submarinos Scorpène adquiridos pela Armada chilena. Seus vários sistemas já foram exportados para países da região, como Colômbia e México.


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capa

Enquanto os brasileiros dormem, soldados do Exército vigiam no extremo norte do país

Rigores de um pelotão de fronteira Roberto Caiafa, texto e fotos

1º Tenente Edir Paulino da Silva Filho, comandante do PEF de Villa Bittencourt, com sua tropa.

O jornalista Roberto Caiafa foi a Manaus em viagem de cortesia oferecida pela TAM Linhas Aéreas. O roteiro Manaus-Tefé-TabatingaVila Bittencourt-Manaus foi feito a convite da Força Aérea Brasileira.

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“A Amazônia brasileira é Brasil, é nossa, e não tem ninguém que deva ficar dando palpite” General Heleno

O sol já havia se posto no Apapóris. As águas do afluente do Japurá seguiam seu curso preguiçosamente, passando pelo início da fronteira BrasilColômbia, entre as cidades brasileiras de Tabatinga e Benjamim Constant e a colombiana Letícia. A canoa se aproximava da margem lentamente. Ajuri, o índio macu líder da expedição de caça composta por oito guerreiros, fez um sinal para que fosse ainda mais diminuída a marcha da canoa. Momentos antes, ele avistara uma paca que pastava, gorda e exuberante, na margem esquerda do Apapóris e não queria perdê-la. Foi então que fez a mira. Súbito, antes que ele pudesse soltar sua flecha, uma rajada de metralhadora agita as águas e balança a canoa. Ato contínuo, uma lancha voadeira dá partida em seus motores e se aproxima rapidamente da tosca embarcação dos índios. Os cinco ocupantes da lancha, trajando uniformes camuflados e com os rostos pintados, apontam fuzis para os atônitos caçadores. – Manos en las cabezas! – foi a ordem. Em seguida, o aviso: – Podem ir, mas, se falarem com qualquer pessoa que estamos aqui, preparem-se para morrer! Assustados, os índios remaram com força e sumiram. A voadora permaneceu no lugar, silenciosa, rebatendo no casco as águas do Apapóris. Os intrusos, presumivelmente guerrilheiros das autodenominadas Forças

Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC), sentiam-se seguros. Mas foi por pouco tempo. No dia seguinte, um grupo de combate do 3º Pelotão Especial de Fronteiras (PEF) do Exército brasileiro, em patrulha pelo rio, travou intenso tiroteio com os invasores e afundou a lancha voadeira com os cinco homens – os mesmos que ameaçaram os índios macu, pertencentes à Aldeia de São José, que fica ao norte do quartel do pelotão. Estes, após a fuga em canoas até Vila Bittencourt, denunciaram a presença dos guerrilheiros e a ameaça de morte lançada para que eles não se comunicassem com as tropas brasileiras na região. O fato, acontecido em 2002, demonstra muito bem o pensamento de que “o preço da paz é a eterna vigilância”. Na época, o governo colombiano movia grande ofensiva contra as FARC na região de fronteira e muitos guerrilheiros invadiam o território do Brasil em busca de combustível, armas e munições. Mas ocorrências desse tipo não ficaram no passado. Tanta é sua atualidade que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, manifestou ao presidente da República, em agosto deste ano, a necessidade de estender à Marinha e à Aeronáutica o poder de polícia de que já dispõe o Exército para inibir invasões ao nosso território – atualmente, as mais comuns partem do narcotráfico. No que diz respeito à Aeronáutica, por exemplo, a Lei do Abate permite atirar para fazer

pousar ou mesmo destruir uma aeronave invasora sem plano de voo e que não se identifique ou se recuse a obedecer a ordens de se retirar do território nacional. Mas, quando a aeronave pousa, é preciso esperar a chegada da polícia, pois os oficiais da FAB não podem prender suspeitos. O mesmo acontece com os oficiais da Marinha – que se veem cada vez mais envolvidos em casos desse gênero, pela simples razão de que a Lei do Abate, em vigor desde 2004, levou os narcotraficantes a optar pelas vias fluviais ou marítimas. Nos primeiros dias de dezembro, o projeto de lei elaborado pelo Ministério da Defesa e pela Casa Civil da Presidência da República foi encaminhado ao Congresso pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prevendo que as duas forças poderão revistar navios e aviões e realizar prisões em flagrante. Um mundo a ser vigiado O general Luís Carlos Gomes Mattos, 62 anos, paranaense de União da Vitória, é o atual chefe do Comando Militar da Amazônia (CMA), cujo QG fica em Manaus. Um mapa na parede de sua sala delimita a Amazônia Legal Brasileira, que abrange 10 estados (59% do território nacional), incluindo 11 mil quilômetros de fronteiras com sete países sulamericanos. Para defender esse vastíssimo território, equivalente a 14 países europeus, o CMA emprega cinco brigadas de infantaria de selva (BIS): 1ª BIS (Boa Vista, DEFESA LATINA

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Caçador camuflado, com fuzil automático pesado (FAP)

RR), 2ª BIS (São Gabriel da Cachoeira, AM), 16ª BIS (Tefé, AM), 17ª BIS (Porto Velho, RO), 23ª BIS (Marabá, PA). “Antes mesmo de pensar em combater invasores, temos que ter em mente que as grandes distâncias da Amazônia e o clima inclemente tornam a missão de suprir e manter nossos homens um grande desafio”, diz o general, que ressalta o valor dos recursos humanos para efetivar sua missão. “Estradas quase não existem, a logística depende dos rios da região e do apoio da Aviação de Transporte da Força Aérea Brasileira. Nossa capacidade de combate está amparada na qualidade do soldado de selva – índios em muitos casos –, assim como no treinamento e nas capacidades de nossos oficiais e sargentos, vários deles egressos do Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs), o melhor do mundo”. O pronunciamento do general Mattos, ex-diretor do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, sediado em Brasília, reforça a opinião de seu antecessor na Amazônia e sucessor no Distrito Federal, general Heleno Ribeiro Pereira, que saiu de Manaus em 6 de abril deste ano: “Completamente isolados de todas as facilidades, cercados de selva por todos os lados, alguns desses pelotões se valem do aproveitamento de água da chuva. Ora, nós estamos no século XXI. 32

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Não é possível que, em um país rico como o Brasil, nós ainda tenhamos militares submetidos a esse enorme sacrifício. Temos que investir para resolver esse problema”, observou em sua despedida. E, como faz seu sucessor, o general Heleno apontou o efetivo humano como mais importante até do que dispor de armamentos modernos para defender a Amazônia: “A grande arma nossa na Amazônia é dispor do melhor combatente de selva do mundo. Cerca de 60% são de origem indígena. Eles conhecem profundamente a selva e aproveitam a selva como ninguém”, disse ao repórter Leandro Martins, da Rádio Nacional da Amazônia, segundo registro no site da Agência Brasil. Exemplo disso é o índio Eliaquin Zaguri, jovem soldado com 20 anos, de poucas palavras em

português, guerreiro da etnia tikuna, lotado no 8º BIS em Tabatinga. “Não quis para mim o mesmo futuro de outros índios, ficar sem trabalho e perdido na bebida e na droga, coisa triste que vem acontecendo com muitos da minha gente”, disse. “Minha mãe sempre repetiu que futuro eu só teria no quartel. Aqui tenho serventia, sou respeitado e recebo salário, inclusive pude morar em Tabatinga com ela, coisa que não conseguiria se não fosse o Exército”. O cabo Raimundo Nascimento, também do 8º BIS, 42 anos, experiente instrutor de sobrevivência na selva, ecoa as palavras do general Heleno: “Na selva, o desempenho deles [soldados índios] é muito acima da média dos demais, não se desidratam e a agilidade e consciência situacional que apresentam no combate é algo impressionante”. Com 23 anos de serviço, o cabo sabe do que está falando. “Índio aqui só não resiste aos vícios e doenças do homem branco, porém, quando conseguimos dar aos jovens a oportunidade de se tornar militares do EB, a maioria abraça a chance sem vacilar. E quando se tornam soldados do Exército, especialmente na Amazônia, são de extrema valia para o país.” É ali, na fronteira, que, a despeito dos sacrifícios, os pelotões e destacamentos garantem a presença do Estado brasileiro. Faz parte dos planos do ministro


“Antes mesmo de pensar em combater invasores, temos que ter em mente que as grandes distâncias da Amazônia e o clima inclemente tornam a missão de suprir e manter nossos homens um grande desafio” General Luís Carlos Gomes Mattos, chefe do Comando Militar da Amazônia (CMA),

Jobim a criação de mais 28 deles até 2024. “Com isso, será dobrado o nosso efetivo na região”, explica o general Mattos. Na verdade, o Brasil dispõe de 71 quartéis ao longo de 15.700 quilômetros de fronteiras terrestres, e o projeto do Ministério de Defesa inclui não apenas aumentar o número dos postos de fronteira, mas também incrementar sua capacidade de prontidão, monitoramente e vigilância, mobilidade, defesa antiaérea e defesa civil – isto é, garantia de lei e ordem (GLO), sendo este último o conceito em mais intensa discussão para se chegar à lei complementar desejada pelo ministro Jobim nessa questão. Moeda e conhecimento, fatores de soberania DEFESA LATINA acompanhou um tour de autoridades federais pela área de atuação da 16ª Brigada de Infantaria de Selva. No roteiro, Manaus, Tefé (sede), Tabatinga (8º BIS) e Vila Bittencourt, base do 3º Pelotão Espe-

cial de Fronteira (PEF). As etapas foram voadas em aeronave cargueira C-105 Amazonas (1º/9º GAV) da Força Aérea Brasileira. Voltada especialmente para operações fluviais de guerra na selva, a “Brigada das Missões” atua em uma área de 570 mil quilômetros quadrados (região oeste dos estados do Amazonas e Acre) e nas divisas com Peru e Colômbia, onde mantém pelotões de fronteira nas localidades de Palmeiras do Javari, Ipiranga, Estirão do Equador e Vila Bittencourt, mais os destacamentos de Marechal Thaumaturgo, São Salvador e Santo Antônio do Iça. Então, como fazer para suprir localidades tão distantes? O general Marco Aurélio Costa Vieira, comandante da 12ª Região Militar e responsável pela logística do CMA, responde: “Isso demanda soluções nada convencionais. Precisamos trabalhar prevendo quatro meses à frente as necessidades das unidades operacionais e dos pelotões de fronteira. Levamos cada item das

necessidades da tropa, desde o playstation para o filho do militar até o DVD para entretenimento da família, além de alimentação e material. Para tanto, empregamos embarcações de diferentes tipos e capacidades e planejamos desde os parafusos até cada pessoa transportados pelos cargueiros da FAB. Hoje, os pelotões de fronteira têm acesso à internet, e seus estoques, todos catalogados digitalmente, podem ser controlados online da minha mesa”. Jovens oficiais comandam os pelotões de fronteira. É o caso do primeiro-tenente Edir Paulino da Silva Filho, responsável pela unidade militar de Vila Bittencourt, um vilarejo de 350 habitantes na confluência dos rios Apapóris e Japurá, em frente a uma região de selva colombiana, a 1.400 quilômetros de Manaus. “Temos uma boa relação com a adminisO general Mattos mostra a região sob seu comando, um vasto mundo em parte desconhecido, que o tenentecoronel engenheiro Clovis Gaboardi tem por missão mapear.

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Um dia em Vila Bittencourt, Chegada do avião e desembarque de passageiros

Filhos de militares do 3º PEF sob 40ºC.

Jamile Gomes e Ivina Pereira, 13 anos, alunas da 3ª série do fundamental

Casario da vila para oficiais e sargentos

Joaquim Ribeiro Bonfim, macu-iahup, líder da Aldeia São José, com esposa e filho. 34 34

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Tropa fora de forma após desfile diante das autoridades


Amazonas, Brasil Portão de entrada no 3º PEF

Menino da etnia tucano no local onde se hasteia a bandeira

Moradores e indígenas assistem à chegada dos visitantes.

Generais José Carlos Nader Motta, Racine Bezerra Lima Filho e Luís Alberto Martins Bringel

Eduardo Munico da Silva, índio macu, toca flauta nos festejos.

2º Sargento Giancarlo Caldas e seu filho, Victor, no PEF há dois anos.

Playground cá, Colômbia lá

Indiazinhas da etnia macu-iahup DEFESA LATINA

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indús-

“Nossa capacidade de combate está amparada na qualidade do soldado de selva – índios em muitos casos”

Eliaquin Zaguri, soldado da etnia ticuna, do 8º Batalhão de Infantaria de Selva, Tabatinga.

tração local e complementamos ações em favor das comunidades em nosso entorno”, diz ele. “O pelotão é basicamente uma unidade de execução e pronto emprego, sem, no entanto, descuidar do bem-estar das famílias dos militares e da população local”, completa. Mas ameaças existem, e o episódio da invasão do território brasileiro próximo a Vila Bittencourt é um exemplo, entre as muitas histórias de real perigo de ocupação estrangeira de terras brasileiras que os militares têm para contar. Até porque basta atravessar o rio para

de pouso e atracadouros. Todos os pelotões receberão caixas eletrônicos do Banco do Brasil, para facilitar a circulação de moeda brasileira nas áreas de sua atuação. Com isso, haverá diminuição do escambo de mercadorias e será reforçada a integração com a população nativa, que vive no entorno dos aquartelamentos. “Esta é também uma boa forma de exercer a nossa soberania”, observa o tenente Paulino. Ele tem razão. Cuidando das populações civis e fazendo circular a moeda brasileira, diminuem as ameaças de “internacionalização” da Amazônia. Não raro, estrangeiros são fla-

Entrada da Sede do CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva), Ajuricaba, e seu monumento ao guerreiro de selva, famoso em todo o mundo. Manaus, Amazonas

estar em outro país. A ação do Exército brasileiro no Norte do Brasil não se limita a vigilância e proteção do território. Ele faz muito mais. O Exército trabalha para modernizar os 28 PEFs existentes. A matriz de sustentabilidade prevê melhorias na geração de energia elétrica, tratamento correto do lixo (inclusive hospitalar), serviços de telecomunicações, melhoria das habitações, novas técnicas de agricultura e de criação animal, ampliação do número de pistas 36

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grados dilapidando a fauna e flora ou retirando amostras de minerais estratégicos e valiosos. É o Exército que providencia a expulsão deles, entregando-os às autoridades da Imigração. “A Amazônia brasileira é Brasil, é nossa, e não tem ninguém que deva ficar dando palpite”, disse ao deixar o posto em Manaus o

General Heleno

general Heleno, forte defensor da Amazônia e de investimentos para a defesa da região. Para o futuro, estão previstos, em alguns pelotões de fronteira, o uso de radares Saber M-60, de tecnologia nacional, destinados acompanhar o tráfego aéreo e detectar voos ilegais ou ações que atentem contra a soberania brasileira na região. Some-se a isso o incremento da capacidade antiaérea mais moderna, para emprego na selva, com a utilização de mísseis portáteis superfície-ar do tipo Igla, de fabricação russa. Por outro lado, em 2012, ao final de cinco anos de trabalho, o mapeamento cartográfico dos chamados “vazios amazônicos”, conduzido pela 4ª Divisão de Levantamento, deverá ter coberto mais de 1,8 milhão de quilômetros quadrados de selva, utilizando tecnologia de mapeamento por radar. Na prática, tratase de uma cuidadosa operação de montagem de equipamentos (refletores) em solo descoberto – algo quase impossível na região densamente coberta pela selva – ou dentro da água dos rios, em conjunto com operações de sobrevoo para captação de informações sobre os locais e simultânea garantia de acurácia dos dados obtidos pelo sistema de radar de abertura sintética (SAR).


Essa zona forma o que se costuma chamar de “arco de desconhecimento”, que vai do oeste do Acre ao norte do Amapá, abrangendo 35% da Amazônia brasileira sobre a qual não existem dados de relevo, profundidade de rios e outras informações cartográficas fundamentais para agir no desenvolvimento da região. Quem responde pelo projeto Cartografia da Amazônia, coordenado pelo Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), é o tenente-coronel engenheiro Clovis Gaboardi, comandante da 4ª Divisão de Levantamento (Diretoria de Serviço Geográfico do Exército). Na infra-estrutura, o 2º Grupamento de Engenharia continua as obras da BR-319, Manaus-Porto Velho, principal eixo logístico do Exército por terra em direção ao Acre (via BR-364), e vai entregar as obras do quartel do 3º BIS, em Barcelos, e a ponte sobre o Rio Itacutu. Esta, com 230 metros de comprimento e orçada em R$ 11 milhões, foi iniciada em 2001 e retomada em 2007, após anos de paralisação, estando a cargo do 6º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC) do Exército. Trata-se de ligar o Brasil à Guiana e abrir caminho para produtos brasileiros no comércio com os países do Caribe.

Tripulação do C-105 Amazonas da FAB: Major Demétrio Sivieri, tenente Robson Cortês, tenente Ranieri (load master), sub-oficial Muller (load master), sub-oficial De Paula (mecânico), terceiro-sargento Félix (comissário de bordo).

O pé-de-boi high tech da FAB O C-105 Amazonas é a mais recente aquisição da aviação de transporte da FAB. DEFESA LATINA entrevistou uma das tripulações do Esquadrão Arara – 1º/9º GAV, isto é, 1º Esquadrão do 9º Grupo de Aviação –, baseado em Manaus e comandado pelo tenente-coronel Gildo Alves de Melo Junior. Com a palavra, o major Demétrius Sivieri, que, aos 37 anos, já contabiliza 21 de Força Aérea. Antes de pilotar o C-105, o major voava o helicóptero UH-60L Blackhawk na aviação de asas rotativas da FAB. Como substituto do Buffalo, em que o C-105 Amazonas é superior? Em praticamente tudo. O C-105 pode levar até 9,5 toneladas de carga e, ainda assim, ter maior alcance que o Buffalo. O avião é fundamental na Amazônia. Com ele, fazemos mais em menor tempo, o que representa toda a diferença na região. O C-105 tecnologicamente apresenta que vantagens como transporte? O avião é muito funcional, seu interior pode ser adaptado para várias missões, como ação cívico-social (Aciso), remoções médicas, transporte de tropas, lançamento de paraquedistas e cargas paletizadas. Dispõe de porta rampa hidráulica, ar-condicionado no compartimento de carga, sistemas de navegação avançados, visão noturna e tem capacidade defensiva. Todas as pistas disponíveis hoje na Amazônia podem ser usadas pela aeronave? O C-105 pode operar até em pistas rústicas, de terra batida, grama etc. A questão é a relação entre comprimento de pista e materiais empregados em sua construção. Veja o caso de Japurá, a pista que serve ao 3º PEF (Vila Bittencourt). Em março de 2008, ela ganhou piso de concreto, ideal para a região em termos de resistência ao clima e durabilidade. DEFESA LATINA

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internacional

Nobel da Paz defende a guerra justa “Esforços extraordinários por reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos” deram o prêmio a Barack Obama.

Fundação Nobel

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Criado pelo inventor da dinamite, Alfred Nobel, para promover a segurança coletiva e a fraternidade entre as nações, o Prêmio Nobel da Paz é o único que está fora do controle da Suécia, sendo atribuído pelo Comitê Nobel norueguês em Oslo. E continua sendo a mais controvertida de todas as láureas, tanto pelas escolhas feitas todos os anos, como também pelo seu peso político, invariavelmente polêmico. Foi o que aconteceu também em 2009, com a atribuição do prêmio ao presidente americano Barack Obama, que, durante a cerimônia de entrega do galardão, pronunciou um discurso que jamais outro laureado da história ousara fazer: defendeu o princípio da “guerra justa”. Com seu irresistível charme de orador saído da Harvard University, Barack Obama falou 45 vezes a palavra “guerra” e 29 vezes a palavra “paz”. A expressão “direitos humanos” saiu de sua boca apenas meia dúzia de vezes! Apresentandose como um homem de moral, que vem fazendo o melhor que pode num mundo imperfeito, o presidente americano sustentou: “A guerra às vezes é necesDEFESA LATINA

sária para preservar a paz”. No silêncio avassalador da sala nobre superlotada de Oslo, na Noruega, onde um público heterogêneo o escutava, Obama desfechou sua lógica: – A guerra tem um papel a cumprir para a preservação da paz. Negociações por si só não podem, por exemplo, convencer a rede (terrorista) Al Qaeda a desistir das armas. A força é necessária e não há cinismo nisso, apenas o reconhecimento de nossa história. Ao contrário do que pensava Alfred Nobel, no final do século XIX, para quem os homens tinham a possibilidade de evitar os conflitos armados através da diplomacia, da redução dos exércitos e dos arsenais militares, Obama defendeu princípio talvez menos utópico, mais realista e por consequência mais constrangedor. – Não podemos erradicar os conflitos em nosso tempo. Por isso, haverá ocasiões em que diferentes nações, agindo individualmente ou em conjunto, entenderão que o uso da força não será apenas necessário, mas também moralmente justificável – disse Obama. Sustentou essa lógica apontando exemplos de “guerras justas”: contra Hiltler, contra Saddam Hussein, o envolvimen-

O presidente Barack Obama, cumprimentado pelos funcionários da Embaixada dos EUA na Noruega, onde foi receber o Prêmio da Paz.

to da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na guerra dos Bálcãs. Em outra parte do discurso de Obama – que certamente provocaria o pensamento atormentado e irreligioso de Alfred Nobel –, ele se referiu ao conflito entre judeus e palestinos no Oriente Médio, sendo também categórico: – A religião é usada também para justificar a morte de pessoas inocentes. Esses extremistas são os primeiros a matar em nome de Deus, mas nos lembram que tais guerras não podem ser guerras justas. O primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos teve certa dificuldade de explicar de forma convincente o que era “guerra justa”. – Para isso – disse – é necessário seguir as regras e os padrões morais que determinam as ações de guerra. Seguir nossos valores é o que nos separa das pessoas contra as quais lutamos. Num recado final para os 42 aliados da Otan, que participam da guerra do Afeganistão e, em maioria, relutam em associar-se

Casa Branca/Pete Souza

João Lins de Albuquerque


EUA: dinheiro para avanços tecnológicos Orçamento de defesa americano para 2010 é o maior desde o fim da Segunda Guerra Mundial

à estratégia americana de ampliar forças na região, o presidente advertiu: – Os Estados Unidos lutam há 60 anos com o sangue de seus soldados pela segurança global e este comprometimento não acabará. A missão de manter a paz pode implicar também o uso da força – repetiu. Barack Obama foi ouvido em silêncio praticamente todo o tempo de seu discurso, mas os aplausos vieram quando ele levantando os braços culminou: – A necessidade da guerra deve ser refletida a partir de outra verdade “inconciliável”. Não importa quão justos sejam a guerra e o sacrifício dos soldados, a guerra nunca é gloriosa. No outro dia, os jornais da Noruega escreveram: “O Comitê Nobel quis reforçar a autoridade moral de Barack Obama, mas, por excesso de zelo, arriscou-se a criar falsas expectativas”.

Assinado pelo presidente Barack Obama em 28 de outubro passado, o orçamento de defesa americano chama a atenção não apenas pelo seu extraordinário volume de recursos, US$ 680,2 bilhões, podendo chegar a US$ 803 bilhões com a adição de recursos suplementares, mas pela importância que dá a pesquisa e desenvolvimento no setor e aquisição de sistemas de armas modernos. O permanente engajamento da indústria na produção de novas tecnologias mantém as Forças Armadas dos EUA como as mais avançadas do planeta. Dados oficiais e análises sobre o tema estão publicados no portal do Center for Strategic and Budgetary Assessments (CSBAonline.org), sendo a fonte para esta matéria o documento “Analysis of the FY 2010 Defense Budget Request” (“Análise do Pedido de Orçamento de Defesa para o Ano Fiscal de 2010”), de Todd Harrison. Reajustados com base na inflação, os recursos aprovados destinam US$ 130 bilhões ao esforço de guerra no Afeganistão e no Iraque; US$ 40,2 bilhões para operações e manutenção do arsenal; e encaminham dezenas de bilhões de dólares para pesquisa e desenvolvimento nos vários programas em andamento no Exército, na Marinha,

na Força Aérea e nos Fuzileiros Navais. As instituições civis que trabalham com defesa, como FBI, Guarda Costeira, Agência de Emergências e Diretoria Nacional de Proteção e Programas, também receberão recursos do orçamento – US$ 7,4 bilhões no total. Os planos de aquisição de mísseis de defesa e o programa FCS (Future Combat System) tiveram seus custos reduzidos. Os gastos com pagamento de salários, aposentadorias e benefícios sociais subiram em média 5,6%. A folha de pessoal custará US$ 136 bilhões. Historicamente, o país sempre pagou alto custo em perdas humanas por sua participação em campanhas de guerra mundo afora (agora chamadas Overseas Contingency Operations). Grande parte dos soldados que retornam da guerra recebe tratamento psicológico e benefícios sociais. Em 2010, US$ 47 bilhões serão destinados a investimentos em saúde e re-39 DEFESA LATINA


foto: Cortesia US Army

10/12/2009: Comandantes de brigadas americano e iraquiano recebem ordens para missão em Bagdá, Iraque.

abilitação dos veteranos, gastos que têm aumentado de 5% a 7% anualmente, e US$ 110 bilhões irão para aos fundos de assistência aos veteranos (US$ 53 bilhões para gastos discricionários e US$ 57 bilhões para despesas obrigatórias), registrando aumento de 12% comparativamente a 2009. Se os US$ 803 bilhões previstos forem consumidos, isso representará 23% do orçamento geral do país – volume que teria sido maior se o secretário

de Defesa, Robert Gates, não tivesse recomendado economia no planejamento. Com isso, um documento intitulado Terminations, Reductions and Savings elenca 121 programas da área militar que tiveram recursos diminuídos ou cancelados. O programa de desenvolvimento do helicóptero de busca e resgate em combate (CSAR-X), da Força Aérea, por exemplo, foi reduzido a US$ 89 milhões, gerando economia de US$ 144 milhões. O avião cargueiro C-17 Globemaster não passará da produção prevista, economizando US$ 3 bilhões. O caça F-22 Raptor ficará nas 187 unidades originais, representando mais US$ 2,9 bilhões de economia. O resultado é que outros programas mais urgentes poderão ser

beneficiados. Desde 2001, a participação americana em conflitos externos tem causado enormes sangrias aos cofres do país – US$ 864 bilhões, sem incluir US$ 79,9 bilhões aprovados neste ano para a máquina militar no Iraque. A propósito, a guerra do Iraque representa 80% de todos os recursos gastos pelos EUA em conflitos, à exceção da Segunda Guerra Mundial. Em 2010, os recursos para as guerras correntes deixaram de ser alimentados com dotações extraordinárias e voltaram a fazer parte do orçamento de Defesa, com diminuição gradativa de seus volumes. A previsão é que, a partir de 2011, os gastos sejam da ordem de US$ 50 bilhões por ano.

Defesa do Brasil gasta mais com pessoal Foi defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na primeira quinzena de dezembro, a dissertação de mestrado "Abrindo a caixa-preta: O desafio da transparência dos gastos militares no Brasil", do pesquisador Vitelio Brustolin. O estudo mostra que o orçamento do Ministério da Defesa (R$ 50 milhões) é o terceiro maior do país, perdendo apenas para os ministérios da Previdência Social e da Saúde. No entanto, 80% desses recursos são gastos com folha de pagamento, sendo 63% com inativos e pensionistas. Comparativamente, com base no orçamento de defesa dos Estados Unidos para 2010, percebe-se que o desembolso americano com pessoal corresponde a 20% do total. O estudo, baseado em números do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) do Tesouro Nacional, traz dados que cobrem o período 1995-2009 e, segundo o autor, neles se percebe a existência de um “impulso pré-eleitoral” para cima no orçamento da defesa – isto é, há aumento de recursos para a Forças Armadas em

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períodos anteriores a eleições gerais – e, por outro lado, de cortes em investimentos e custeio em momentos de crises financeiras, como 1999, 2003 e 2009. “Essa foi minha dissertação de mestrado e agora sou pesquisador e doutorando do Programa de Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da UFRJ”, disse a DEFESA LATINA Vitelio Brustolin, que é também assessor de comunicação da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Para ele, o recente comentário do ministro da Defesa sobre a inexistência de previsão orçamentária para a aquisição dos caças F-X2, atualmente em tramitação, foi uma resposta ao estudo, “pois este suscitou diversos questionamentos da imprensa e da sociedade”. O ministro Nelson Jobim declarou que o programa de desembolsos para o Projeto F-X2 será feito apenas depois da escolha do avião vencedor – o Rafale francês (Dassault), o Gripen sueco (Saab) ou o Super Hornet americano (Boeing). A decisão foi adiada para 2010. (MPC)


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entrevista Paulo Antônio Skaf, nascido em São Paulo, capital, em 1955, é de origem libanesa. Estudou administração de empresas na Universidade Mackenzie, mas, antes de receber o diploma, tornou-se dirigente da Skaf Indústria Têxtil Ltda., onde já trabalhava desde os 14 anos. O início tão jovem se deu porque, tendo três irmãs mais velhas, Skaf foi emancipado pelo pai, Antonie Skaf, para tomar conta da empresa e da família. E fez bonito, até que, na década de 1990, a invasão de produtos chineses comprometeu sua empresa, assim como fez balançar várias indústrias – de fábricas de cadarços e calçados a produtoras de eletroeletrônicos e brinquedos. Ele mesmo resume assim sua carreira: “Aos 18, assumi a responsabilidade de minha indústria e o fiz com êxito: a empresa alugava 500 metros quadrados na zona leste paulistana e, anos depois, passou a ocupar um complexo próprio de 172 mil metros quadrados em Pindamonhangaba (SP). Quando decidi dedicar-me à atividade sindical e à defesa dos interesses do meu setor, mudei o foco de minha atividade empresarial. Tenho orgulho de ter ajudado o setor têxtil a transformar um déficit de US$ 1,2 bilhão em superávit de cerca de US$ 1 bilhão, bem como de ter estimulado a geração de 150 mil empregos, além da valorização da moda brasileira. Isso foi possível graças à articulação de toda a cadeia têxtil brasileira”. Depois de representar o setor têxtil e de confecção, ao qual permanece ligado como acionista e vice-presidente de uma das maiores empresas têxteis do país – a Paramount Lansul –, Skaf foi eleito presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo num dos pleitos mais disputados da história da entidade. Ele ganhou a Fiesp, que reúne 132 sindicatos patronais e 150 mil empresas, e a tarefa de administrar o dinheiro do Serviço Social da Indústria (Sesi) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), mas perdeu para seu oponente, Claudio Vaz, a direção do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) – cisão ocorrida pela primeira vez. Reeleito em 2007, desta vez para presidir Fiesp e Ciesp, ele teve nesse mesmo ano um de seus melhores momentos à testa das entidades: o reconhecimento de seu papel na derrubada da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), o que lhe deu visibilidade nacional. Em setembro, Skaf instituiu o Departamento da Indústria de Defesa, conhecido como Comdefesa, importante instrumento para o desenvolvimento do setor. Paulo Skaf concedeu esta entrevista a DEFESA LATINA pouco antes de partir para o Peru, liderando uma comitiva de cerca de 80 empresários brasileiros. Trata-se de mais um passo da aproximação entre a entidade e o país de Alan Garcia, que tem como objetivo a criação do Conselho Empresarial Brasil-Peru (CEBP), destinado à implantação de políticas para impulsionar os negócios entre os dois países.

Paulo Skaf

A indústria de defesa em foco

Empresário e presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/ Ciesp) 42

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O senhor é um líder empresarial que demonstra ter admiração pelas Forças Armadas. É isso mesmo, presidente? É. O profissional militar é um servidor da pátria e da sociedade brasileira, é preparado para defendê-la em qualquer situação que coloque sob risco a soberania nacional. Tem consciência do Brasil-nação como poucos brasileiros têm. É profundo conhecedor de cada pedacinho das áreas marítima, aérea e terrestre de nosso território e dispõe de treinamento e estratégia adequados para defender nossos recursos naturais. Inclusive, muitas metodologias de organizações militares são reaplicadas nas empresas para tornar seus negócios mais eficientes. Ou seja, o militar brasileiro merece o respeito e a confiança de todos nós. Eu tenho relação pessoal com a vida militar. Cursei o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de São Paulo (CPOR), em São Paulo, como oficial de infantaria, e essa formação foi muito importante para mim. Afinal, ajudou a desenvolver o espírito público que tenho hoje. Isso me realiza e deixa feliz, e foi o serviço militar que me levou a esse caminho. À frente da Fiesp, o que o motivou a criar o Departamento da Indústria de Defesa? Desde o início de minha gestão à frente do Sistema Fiesp, trabalhei pela criação de um espaço para a área da defesa, que lhe desse ressonância política. As Forças Armadas brasileiras estavam com problemas de equipamentos; por outro

lado, a indústria nacional de defesa não tinha oportunidades no mercado interno e, menos ainda, condições de competir no mercado externo. Criamos comitês de cadeias produtivas dos setores que tinham gargalos a serem desobstruídos. Os temas e projetos cresceram de tal forma que criamos o Departamento da Indústria de Defesa (Comdefesa), que hoje desenvolve projetos e atividades com ênfase na promoção de nossas indústrias no mercado internacional, na inovação tecnológica; além de criar ferramentas como o Observatório da Indústria de Defesa e o Banco de Competências. Por meio desse departamento, realizamos cursos, feiras e missões empresariais que já resultaram em negócios para as empresas brasileiras com mercados estratégicos, como, por exemplo, a Colômbia. Tenho convicção de que nosso trabalho conseguiu dar maturidade a esse setor, que estava praticamente abandonado e que, hoje, passou a ser pauta no governo e na mídia. Em sua avaliação, que importância o Brasil deve dar à defesa nacional, e por quê? A defesa nacional é tema dos mais importantes em qualquer país consciente de seu valor e de seus recursos naturais. Presenciamos um momento novo em que o Brasil é respeitado internacionalmente pelo seu desempenho econômico, hoje superior ao de muitas nações ricas frente à crise financeira mundial. Em breve, teremos aqui a Copa do Mundo, a Olimpíada e exploraremos o

Pré-sal. Desenvolvemos fontes de energia renovável invejáveis, temos abundância de água doce, minérios e tantas outras riquezas. É fundamental investir na defesa. É preciso aproveitar a oportunidade que o Brasil tem hoje, quando os olhos do mundo estão voltados para a nossa terra, e mostrar que o brasileiro é capaz e o país tem economia consistente, segurança jurídica. Para isso, devemos investir em educação e tecnologia. E conhecimento não se compra, se adquire, leva tempo e é caro. Portanto, precisamos agir, a fim de preservar e multiplicar nossas competências intelectuais. Recentemente, a Marinha, o Exército e a Força Aérea apresentaram seus planos de reaparelhamento em um encontro aqui na Fiesp. São projetos que não se encontram em prateleira, mas requerem muito trabalho e dedicação, além de um período de, em média, 20 anos para atender a um Brasil imenso, com um território de proporções continentais. Por isso, precisamos começar já. Em passado recente, nossa indústria de defesa sofreu grave retrocesso. Quais são as suas expectativas para o setor? Um dos problemas mais preocupantes enfrentados pelas Forças Armadas é o orçamento apertado, que não atende às necessidades de reaparelhamento. A defesa nacional é assunto sério e o orçamento para a área deveria ser destinado de modo incontingenciável. Muitas tecnologias de defesa têm emprego civil e militar e, dessa maneira, a sociedade sempre será beneficiada. Por exemplo, quanDEFESA LATINA

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O tema “defesa” virou rotina na Fiesp, com debates construtivos, que valorizam as missões constitucionais da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.

do empregadas para a segurança pública – um problema que tem se agravado ano a ano no Brasil, preocupando e acuando a sociedade. As aquisições das três forças não deveriam ficar dependentes de financiamentos externos, que têm custo muito alto. Também o modelo de garantia de compra precisa ser revisto. Do modo como está, não há como proteger o que é nosso e tampouco manter o setor industrial de defesa e sua cadeia competitivos. Como seria, em sua opinião, a participação da indústria de defesa no processo de desenvolvimento nacional? A indústria de defesa pode atuar para equipar, com qualidade, as Forças Armadas. Elas têm homens e mulheres preparados, mas que estão sem os meios desejáveis para desenvolver suas missões constitucionais com a qualidade que desejam. Acontecem muitas ameaças ao nosso território sem nosso conhecimento – na região da Amazônia por exemplo. Além das fronteiras terrestres, temos o oceano que banha toda a costa brasileira e que fica sem vigilância por falta de navios. No passado, tivemos a compra de material que, no entanto, não consegue ser aplicado adequadamente. Ou seja, investiu-se na aquisição, mas não na transferência de conhecimento. Agora, temos que investir em projetos que tragam novas tecnologias e tratar dos assuntos de defesa com a sociedade com a maior transparência possível.

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O crescimento da indústria de defesa depende da solução de entraves vigentes na legislação tributária, que prejudicam a competição do setor frente às suas congêneres do exterior. Nesse sentido, a indústria de defesa deve receber tratamento especial? Há seis anos, o Comdefesa e demais entidades representativas do setor trabalham numa Proposta de Lei Complementar (PLC) que pede a equiparação da indústria nacional à estrangeira no que se refere à tributação. O setor aeronáutico já conseguiu desonerar a cadeia produtiva, foi uma vitória. Contudo, o Ministério da Fazenda não deliberou isonomicamente, de modo a atingir também a cadeia produtiva de navios de guerra, carros blindados e aeronaves de combate. A Fiesp já prepara a defesa da eliminação da assimetria tributária para toda a cadeia. Apesar de estar na Estratégia Nacional de Defesa (END), ainda precisamos apresentar como serão identificados os produtos que estão atrelados aos equipamentos de defesa. Temos que agir rápido para que todo esse esforço não seja perdido. Desde que foi criado, o Comdefesa tem atuado em favor da indústria de defesa. Não poderia ser diferente, claro. Mas, em termos de resultados obtidos, quais o senhor consideraria os mais representativos, decorrentes desse trabalho da Fiesp? As realizações são muitas. Mas eu destacaria a aproximação que fizemos com as Forças Armadas. Fizemos amigos e grandes parceiros. O tema “defesa” virou rotina na

Fiesp, com debates construtivos, que valorizam as missões constitucionais da Marinha, do Exército e da Aeronáutica. Juntos, estamos defendendo a importância de fortalecer uma base industrial de defesa, estamos trabalhando pelo bem do Brasil. O senhor é uma personalidade de destaque na sociedade brasileira. Tem planos de usar a experiência que adquiriu nesses últimos anos em algum projeto de alcance social, após deixar a presidência da Fiesp? Nos últimos onze anos, me dividi entre a vida empresarial e um trabalho institucional que vem crescendo. Neste momento, optei por filiar-me a um partido político, porque acredito que todo cidadão deve participar do processo político. A maior inteiração dos cidadãos na vida política e a renovação dos quadros partidários é a melhor forma de aprimorar a democracia. Vinha sendo convidado para ingressar em diversos partidos há algum tempo e, agora, chegou a hora de, como brasileiro e num ato de cidadania, escolher um deles e participar das transformações de interesse da sociedade. Por enquanto, meu foco é trabalhar como presidente da Fiesp, do Ciesp, do Sesi, do Senai de São Paulo e do Instituto Roberto Simonsen, o que já ocupa bastante. Quanto a ser candidato, essa é uma decisão que, numa primeira fase, começa na vontade do meu partido e acaba na minha decisão pessoal. Depois, vai depender da decisão democrática do eleitor. Esse assunto, portanto, fica para o primeiro semestre de 2010.


sociedade

O que considerar: a ética ou o lucro? A consciência ética como determinante da disseminação de inovações de C&T

Márcia Cristina Gonçalves de Souza

O desenvolvimento de novas tecnologias exige investimentos altíssimos de governos e empresas privadas. Esses investimentos trazem inovações que, não raro, representam diferenciais competitivos que geram lucros e/ou superioridade estratégica extremamente atraentes. Fácil imaginar o que representou para o governo dos Estados Unidos, na década de 1960, a concepção, do GPS (sigla de Global Positioning System, sistema de posicionamento global) em plena Guerra Fria. Poder acompanhar de perto as movimentações do inimigo – então, a antiga União Soviética – representava e ainda representa, em situação de confronto, um adicional de segurança que norteia decisões importantes e pode representar a diferença entra ganhar ou perder uma batalha. Um equipamento como esse, hoje disponível para a população civil, trouxe inúmeras facilidades para a navegação marítima e terrestre, evitando acidentes e economizando tempo e dinheiro para quem precisa encontrar o caminho certo. Da mesma forma, a invenção do radar, do computador, da ultrassonografia, do raio laser, do teflon e até mesmo dos confeitos de chocolate M&M surgiram de descobertas e observações militares, depois lançadas pela indústria americana sob a forma de produtos para o público civil.

Na iniciativa privada, a indústria de equipamentos destinados à medicina e a indústria químico-farmacêutica estão entre os maiores investidores em pesquisa. Sempre que uma nova solução é encontrada, a comercialização do produto representa o retorno dos grandes investimentos realizados... e lucro. É claro que nenhuma empresa poderá sobreviver se não obtiver lucro. Sabe-se que empresas precisam ter o retorno dos investimentos realizados, caso contrário, estes passam a constar como prejuízo. Mas, então, vem a questão relacionada com a ética: é correto manter em segredo as inovações que garantem maior competitividade e asseguram lucros, independentemente do que essas inovações representam para a humanidade? Detectamos aqui um dilema ético que certamente vai encontrar defensores de ambas os lados – manter sigilo e assegurar lucros ou permitir que outras empresas e países façam uso dos produtos que podem facilitar o dia a dia e até mesmo salvar vidas? Não posso aqui pretender ditar regras, mas considero que as inovações – especialmente aquelas que representam cura e saúde – deveriam ser comercializadas entre as grandes empresas, de forma a assegurar o retorno dos inves-

timentos realizados, somado a uma margem de lucro que garanta o estímulo a novos investimentos. Ou, caso esse tipo de acordo comercial seja inviável, que a empresa mantenha o “segredo industrial” até atingir o retorno do investimento, sendo necessário considerar também que, para uma grande inovação ser alcançada, é necessário investimento em muitos outros caminhos de pesquisa que não resultam em novos produtos e, por isso, são arcados como prejuízo. Certo é que não se pode exigir que uma empresa invista e trabalhe no estilo samaritano. Muito pelo contrário, é fundamental que haja estímulo aos investimentos em pesquisa. Entretanto, como sempre acontece em assuntos analisados sob o foco da ética, as pessoas com poder de decisão deveriam fazer uso do bom senso e da consciência ética para decidir o momento certo de abrir mão de ganhos para beneficiar a humanidade.

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ciência e tecnologia

Coração nuclear

Salvador Nogueira

No berço da industrialização do Brasil, será testado o reator de concepção e fabricação nacional Numa instalação da Marinha no interior do estado de São Paulo, o primeiro submarino nuclear brasileiro já é uma realidade. O Centro Experimental de Aramar, localizado em Iperó, a cerca de 100 quilômetros da capital paulista, terá um prédio totalmente dedicado a testar os sistemas de geração da energia e de propulsão do submarino – inclusive seu reator nuclear de alta potência, que será o primeiro feito com 100% de tecnologia nacional. O prédio é o Labgene, sigla de Laboratório de Geração Núcleo-Elétrica, que está em construção em terreno de 8 milhões de metros quadrados, protegido por 22 quilômetros de cerca. “Esperamos tê-lo pronto no final de 2014”, declara o almirante Carlos Passos Bezerril, diretor do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, órgão responsável pelo projeto de propulsão do submarino nuclear. O conjunto de edifícios abrigará as turbinas, o pressurizador, o combustível e a área para embalagem de rejeitos, entre outros. Até agora, já foram lançadas as fundações dos edifícios do reator e do combustível, que serão à prova de abalos sísmicos e até de tornados. O ritmo dos trabalhos reflete a decisão do governo federal de 46

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retomar o programa nuclear brasileiro, que sofreu interrupção no final da década de 1980 e inclui também a finalização de Angra 3 e da planta de enriquecimento de urânio da indústria nuclear brasileira (INB), em Resende (RJ), além do desenho da Política Nacional para Rejeitos Radioativos e instalações necessárias, que consta da pauta do ministro Sérgio Resende, titular da pasta de Ciência e Tecnologia. No que diz respeito ao programa nuclear da Marinha, o panorama se clareou desde que o presidente da República decidiu pela liberação de R$ 1 bilhão em 8 anos, com repasse anual de R$ 130 milhões ao orçamento do Ministério de Defesa para financiamento das obras civis e equipamentos do reator para o protótipo em terra do submarino nuclear brasileiro – além de bolsas de pesquisa e outros investimentos. É que a instalação conterá uma réplica detalhada de praticamente metade do submarino nuclear. Todo o ambiente de operação ao redor do reator, até a porção anterior do navio, será montado para testar minuciosamente o funcionamento dos sistemas de propulsão. Só as hélices, é claro, não estarão lá – serão substituídas por um sistema capaz de dissipar a energia produzida.

O reator experimental brasileiro já foi concebido e aguarda a fase de testes. “Primeiro a gente vai terminar o prédio. Assim que ele ficar pronto, começam os testes. Devemos passar uns dois anos nessa fase. Depois que todos os elementos forem validados, aí, sim, passaremos à fabricação para incorporação no submarino de verdade”, diz o almirante. Pelas especificações, o reator deverá produzir 48 megawatts de energia térmica, que, após ser transferida pelos circuitos primário e secundário, fornecerá 11 MW de energia elétrica. Essa é a tecnologia mais sensível de todo o projeto – algo que ninguém Almirante Bezerril

transfere para ninguém no âmbito internacional. Mas, para projetar outros sistemas do submarino, a Marinha terá parceria de engenheiros franceses, pois, segundo o almirante Bezerril, “nós já sabemos construir um submarino. Agora, queremos aprender como projetar um submarino”. Nos planos do governo brasileiro está previsto o comissionamento do primeiro submarino nuclear para 2021. A data deve marcar uma revolução na capacidade nacional de proteger suas águas. Se um submarino convencional tem autonomia máxima de algumas horas, o nuclear está limitado apenas pelo armazenamento de mantimentos e pela saúde psicológica da tripulação – nos países que já detêm essa tecnologia, há missões de até três meses sem volta


à superfície. A estratégia da Marinha do Brasil poderá ser mais efetiva em termos de proteção da costa, avançando para a fronteira oceânica do país em vez de apenas guardar posições mais sensíveis próximas das praias. O desenvolvimento da tecnologia também promete trazer vários benefícios para a indústria, que deve participar ativamente do programa da Marinha. “Tudo o que podemos comprar da indústria, nós compramos. Só fabricamos o que para ela não compensa”, arremata o almirante. Por outro lado, na linguagem do setor, essa tecnologia é dual, isto é, serve para fins militares e também para uso civil, não estando afastada a hipótese de que venha a ser usada para geração de energia elétrica em pequenas usinas nucleares. Em síntese, o Labgene é um protótipo em terra do sistema de propulsão naval, com instalações que servirão de base e de laboratório para qualquer outro projeto de reator nuclear no Brasil.

Desafios do combustível nuclear De acordo com informações garimpadas pelo repórter Alex Rodrigues, da Agência Brasil, embora já domine todo o ciclo de produção do combustível nuclear, da prospecção mineral à fabricação das pastilhas de urânio que alimentam os reatores nucleares, o Brasil ainda não consegue produzir nem o gás UF6 nem o urânio enriquecido nos volumes necessários. A data limite para acabar com a dependência de terceiros pelo menos no primeiro desses itens é 2010, anunciado pela Marinha do Brasil como o ano em que passará a dispor de usina própria para transformar em gás UF6 o concentrado de urânio (yellowcake) e, desse modo, desenvolver a contento seu programa nuclear. Atualmente, a conversão do urânio em pó em gás UF6 é feita no Canadá, enquanto o enriquecimento do urânio é fornecido pelo consórcio Urenco – de Uranium Enrichment Services Worldwide –, formado por Inglaterra, Alemanha e Holanda. Assim que concluída a Usexa – Usina de Hexafluoreto de Urânio (o gás UF6) –, que funcionará em Iperó, assim como o Labgene, o país poderá produzir 40 toneladas do gás, não muito, mas o suficiente para cobrir suas necessidades. O local para a construção do edifício, que será ligado ao do Labgene por uma ponte rolante, tem subsolo rochoso com 100 metros de profundidade. Ambos os projetos foram licenciados pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), prevendo as mesmas contenções de proteção das usinas de Angra dos Reis (RJ).

foto: Agência Brasil/Valter Campanato

Instalações da Usina de Hexafluoreto de Urânio, Usexa.

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foto: Arquivo do Ipen

Tecnologia que se aprende fazendo Peterson Ferreira da Silva

Início dos anos 1960: numa das fases do ciclo do combustível nuclear, técnico do Ipen faz a queima de diuranato de sódio; o operador é protegido e o local é isolado do restante da usina.

Apesar da crise global de desabastecimento de molibdênio, a Marinha e a USP avançam em domínios estratégicos Em 1942, chamada a participar do esforço de guerra, a Universidade de São Paulo (USP) instituiu os Fundos Universitários de Pesquisa para a Defesa Nacional (FUP). Mais adiante, veio o Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o embrião da parceria atual entre USP e Marinha do Brasil. Lá atrás, durante a Segunda Guerra, a demanda da Marinha ao diretor do Instituto de Física

O primeiro reator da América do Sul Em maio de 2003, o professor Marcello Damy (1914-2009) contou à revista ComCiência, as histórias do sonar da Marinha e de como o Brasil construiu, a custo zero, o primeiro reator nuclear da América do Sul. “(...) veio a guerra e eu fui trabalhar para a Marinha, juntamente com Paulo Pompéia. Fomos encarregados de estudar métodos de detecção de submarinos (risos). E nós passamos o tempo da guerra estudando isso e resolvemos o problema para a Marinha, desenvolvendo sonares que foram instalados nas corvetas que acompanhavam os comboios, e nos submarinos também. Aliás, funcionaram muito bem. (...) em 1955, conseguimos também o primeiro reator. Naquele ano, houve a primeira conferência de Átomos para a Paz, em Genebra e nessa ocasião o governo norte-americano prometeu que doaria um reator para o país que primeiro fosse capaz de instalá-lo. E nós ganhamos esse prêmio. (...) Trabalhamos dia e noite, e conseguimos o reator.” 48

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da USP, o renomado professor Marcello Damy de Souza Santos, era o desenvolvimento de um sonar para os navios mercantes do país. Já em 1956, a parceria voltou-se para a criação do curso de Engenharia de Construção Naval, núcleo duro da capacitação do país para projetar e construir navios e submarinos. Ainda em 1956, era fundado no campus o atual Instituto de Pesquisas Energéticas Nucleares (Ipen), autarquia estadual gerida técnica e cientificamente pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). E na década de 1970, o então capitão-de-fragata Othon Luiz Pinheiro da Silva, considerado o “pai do programa nuclear da Marinha”, e o físico Cláudio Rodrigues, atual professor emérito do Ipen, colocaram a área nuclear no centro do mapa da pesquisa científica nacional. Hoje, de acordo com o diretor do Ipen, Nilson Dias Vieira Junior, uma das principais atividades do organismo é a de pesquisa, ensino, serviço e produção de medicamentos nucleares, principalmente os utilizados no diagnóstico e tratamento do câncer. Nessa área, atesta, o Brasil caminha pari passu com centros de ponta, como os Estados Unidos, e leva os benefícios da energia nuclear


foto: Ipen/Marcello Vitorino, Fullpress

Setembro de 2009: o secretário de Desenvolvimento do estado, Geraldo Alckmin, e o ministro de C&T, Sergio Rezende, visitam área de radiofármacos do Ipen em São Paulo.

a segmentos cada vez mais amplos da população. Em 1986, foi criado o atual Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), com desdobramentos que, silenciosamente, sustentavam o desenvolvimento tecnológico no Centro Experimental de Aramar (CEA). “Se hoje o Brasil detém o knowhow do enriquecimento de urânio, foi graças à parceria entre Ipen e Marinha”, afirma a professora Ana Maria Pinho Leite Gordon, pesquisadora do Centro do Reator de Pesquisa do Ipen. Nos anos 1990, contudo, tal parceria entrou em estado vegetativo, “em razão da falta de verbas para manter pesquisas na área”, explica a professora. Crise estimulante No final de 2008, o molibdênio – vital para a fabricação de geradores de tecnécio, utilizados nos procedimentos de medicina nuclear – praticamente desapareceu das unidades de medicina diagnóstica devido a problemas dos fornecedores internacionais. E as perspectivas

ficaram sombrias quando foi noticiado que o reator argentino (ao qual o Brasil pretendia recorrer), também vai interromper operações. Por isso, em meados de novembro, autoridades da Sociedade Brasileira de Biologia e Medicina Nuclear (SBBMN), do Ipen e da Cnen discutiam como neutralizar os efeitos do desabastecimento em 2010 A instabilidade no fornecimento global de radioisótopos, somada às necessidades energéticas (Angra III) e estratégicas (submarino nuclear) nacionais, forma o quadro que ensejou a retomada do interesse pela área nuclear, principalmente a partir de 2007. Esta foi a origem, por exemplo, do atual projeto do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), fruto da parceria entre o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e o governo de São Paulo, que visa garantir tanto a autonomia na produção de molibdênio quanto o desenvolvimento da pesquisa. Hoje, dos quatro reatores de pesquisa do país, dois estão no Ipen, sendo um made in Bra-

zil em parceria com a Marinha. A iniciativa do RMB só reforça a fase positiva do setor, avalia a professora do Ipen. E o almirante Carlos Bezerril, diretor do CTMSP, compartilha as perspectivas favoráveis, que deságuam em outras partes da USP. Um exemplo recente disso foi a participação de uma equipe da Engenharia Elétrica dessa universidade na modernização das fragatas classe Niterói. Nas palavras do diretor do CTMSP, esse fluxo precisa aumentar daqui para a frente. E ainda ser enriquecido com o envolvimento da indústria, que “demorou a perceber o valor da parceria com a universidade”, segundo o militar. Em última instância, o que está em jogo é o domínio de um setor estratégico para o país, ao considerar suas reverberações simultaneamente em segurança e desenvolvimento. “Não podemos ficar dependentes de tecnologia, ou seja, comprar um equipamento e acreditar que estamos absorvendo tecnologia. Em minha opinião, isso não existe. Sobretudo quando consideramos a importância do conhecimento tácito, aquele que na indústria chamaríamos de ‘conhecimento do chão de fabrica’, que só se adquire fazendo”, conclui a professora Ana Maria Gordon. DEFESA LATINA

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foto: A. Pecchi

50 helicópteros e um novo polo aeronáutico Helibrás faz avançar no Sul de Minas Gerais o Núcleo de Inteligência Competitiva do governador Aécio Neves

O helicóptero EC725 da Eurocopter é o estímulo para a ampliação da fábrica da Helibrás em Itajubá (MG)

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O contrato foi assinado pelo comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Juniti Saito, representando as três Forças Armadas, no Copacabana Palace, um dos mais tradicionais cenários do Rio de Janeiro. A data, 23 de dezembro. Ou seja: nem a proximidade do Natal impediu que avançassem para a concretização as intensas negociações do Brasil com o Grupo EADS – representado no país pela Helibrás. No caso, o fornecimento, com produção no país, de 50 helicópteros militares EC-725, sendo 16 aeronaves para a Marinha, 16 para o Exército e 18 para a Aeronáutica, numa operação avaliada em R$ 250 bilhões O contrato foi consolidado a partir de exigências de requisitos operacionais estabelecidos pelas três forças, objetivando a realização de projetos de engenharia, fabricação, adaptação e modernização de helicópteros, bem como capacitação de pessoal brasileiro, transferência de tecnologia e medidas de compensação comercial (off set). Uma das condições para o cumprimento desse acordado fora anunciada uma semana antes, no dia 16/12, por Eduardo Marson, presidente da Helibrás e do Conselho de Administração da EADS Brasil, que confirmou os planos de expansão da planta da empresa em DEFESA LATINA

Itajubá (MG). Dois dias depois, em 18/12, Marson e seu vice, Luiz Eduardo Mauad, reuniramse com o governador Aécio Neves no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, para comunicar oficialmente o projeto, de R$ 420 milhões, que contempla expansão da capacidade de produção e geração de 400 empregos diretos e 3 mil indiretos. A pedra fundamental da nova linha de montagem deverá ser lançada em março de 2010 e o projeto EC 725 terá apoio e incentivos do governo de Minas Gerais, que considera o projeto do EC 725 o ponto de partida para a implantação do Polo Aeronáutico Brasileiro de Helicópteros de Grande Porte. Aécio Neves, dando destaque às facilidades que seu estado oferece para novos fornecedores da empresa se instalarem na região, comparou: “Da mesma forma como nos consolidamos através da Embraer como importante polo de fabricação de aeronaves do mundo, estamos iniciando, a partir desses entendimentos, o segundo grande polo de indústria aeronáutica do Brasil”. O governador deu ao seu programa de novos investimentos o nome de Núcleo de Inteligência Competitiva. E as primeiras ações já começaram a pipocar. Como parte da transferência de tecnologia e conhecimento, Marson mencio-

nou o envio de 40 técnicos e engenheiros para treinamento nas instalações da Eurocopter (controladora da Helibrás) na França, em 2010, ao tempo em que se despedia dos estudantes Stéfano Cerchiari e Reynaldo Oioli Neto, ambos de 22 anos e alunos de engenharia aeronáutica da USP-São Carlos, selecionados para estagiar durante cinco meses na maior fabricante de helicópteros do mundo. Por outro lado, como parte do acordo de off set, a Helibrás já está negociando a participação de indústrias brasileiras no projeto. Capacitadas no programa, elas poderão exportar produtos para outros helicópteros da Eurocopter, tornando-se fontes de suprimento da linha de montagem do grupo em nível mundial. Por fim, o Natal coroou o ano da Helibrás com a assinatura, no dia 24/12, do maior contrato na área de serviços em seus 30 anos no Brasil, prevendo a modernização de 34 helicópteros AS365K Pantera do Exército Brasileiro, que serão transformadaos em máquinas de última geração, com mais 25 anos de vida útil. Ao longo do programa, que deve ir até 2021, mecânicos e gerentes logísticos da Aviação do Exército participarão do projeto, realizando treinamento on the job, para transferência de conhecimento nessa área.

foto: Helibrás/Divulgação

indústria


Interior do EC145

Tapete voador Não foi a toa que o primeiro helicóptero EC145 entregue a um cliente brasileiro pela Helibrás ganhou o nome de Stylence – junção de estilo com silêncio. Para operação no mercado corporativo, ele realmente corresponde aos níveis de exigência do segmento, oferecendo espaço com conforto para 8 passageiros e 2 pilotos e possibilitando até a realização de reuniões a bordo, pois não há divisórias para atrapalhar a visibilidade. Somando-se o espaço do bagageiro e o da cabine, o helicóptero tem 6,8 metros cúbicos disponíveis – ou 8,08 com o posto de pilotagem. Com operação em 27 países, a frota mundial do EC145 é composta por mais de 240 helicópteros, com 250 mil horas de voo. O líder da frota já acumulou mais de 4 mil horas de voo. Durante a Heli-Expo 2009, nos Estados Unidos, o EC145 foi apresentado na versão para missões policiais, a Star-145 (security and tactical airborne response). De uso bastante generalizado nesse país, ele faz sucesso pela flexibilidade e facilidade de manobra ao operar em patrulha portuária, combate a incêndios e transporte de doentes e feridos, e seu uso militar vem crescendo significativamente – rebatizado como UH-72A, o EC145 é usado pelo Exército para substituir a frota de UH-1 Huey, que está envelhecendo.

Blindado leve brasileiro Veículo projetado e desenvolvido pelo Grupo Inbra, de São Paulo, estará pronto para o mercado no início de 2010 A indústria brasileira tem capacidade de projetar, desenvolver, fabricar e exportar variada gama de veículos blindados. Isso é fato na história recente do setor. O mais novo lançamento na categoria 4x4 deverá acontecer em fins do primeiro trimestre de 2010. É o veículo blindado leve (VBL), de 6,5 toneladas, projetado e desenvolvido pelo Grupo Inbra, de São Paulo. Apresentado ao público na LAAD 2009, no Rio de Janeiro, foi configurado a partir de requisitos operacionais básicos. “Não é uma adaptação de chassis de outro veículo, mas um veículo inédito”, explica Jairo Cândido, presidente do Grupo Inbra. “Tudo nele foi projetado para torná-lo versátil, resistente e confiável, capaz de vencer as mais exigentes operações em sua categoria”. O VBL tem blindagem nível IV, com chapas de 100 mm de espessura e vidros com 54 mm de espessura. Os faróis são protegidos com lentes de policarbonato. As faces externas da carroceria não têm parafusos nem dobradiças e são inclinadas para redução da força de impacto de projéteis. O veículo é equipado

com escudo defletor contra minas terrestres. Paralamas de fibra de vidro foram projetados para que se rompam em explosões, dando vazão aos gases e evitando o tombamento do veículo, que pode acomodar seis soldados com até 1m87cm de altura. O blindado leve sobre rodas com tração 4x4 é importante equipamento de apoio para as forças militares e de segurança, devido a suas diferentes possibilidades de emprego. Por suas pequenas dimensões e grande mobilidade, é veículo ideal para uso em área urbana, regiões de fronteira e também em missões de paz. O da Inbra nasceu após pesquisa de mercado. Segundo foi constatado, há, em âmbito mundial, muitos veículos com características semelhantes; porém, caros, pouco operacionais no nosso terreno e de difícil manutenção. Neste último aspecto,

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O VBL da Inbra em montagem

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to, o primeiro operador deverá ser mesmo do Brasil: a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, que já acompanha seu apronto há alguns meses, estudando a aquisição do blindado para uso na polícia civil. Na análise do presidente da Inbra, o VBL da empresa se ajusta à fase atual da luta contra o crime organizado no Rio de Janeiro, mais intensa e eficaz. “As operações da polícia serão cada vez mais cirúrgicas, levando a corporação a empregar equipamentos mais especializados”, diz.

No setor aeroespacial foto: Boeing/Divulgação

Jairo Cândido destaca um de seus trunfos: “O Brasil está montando cerca de 3 milhões de veículos por ano. Isso significa disponibilidade de autopeças para manutenção, sobretudo para os operadores da América Latina, geograficamente mais próximos do mercado brasileiro”. A propósito, o VBL vem de fato atraindo a atenção dos vizinhos – e ainda da Europa e da África –, como resultado das inovações que apresenta, pelo seu variado envelope de operações e preço competitivo. No entan-

Blindado médio Guarani aposentará Urutu

O VBTP-MR Guarani foi apresentado ao público em forma de maquete durante a LAAD 2009. 52

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O cargueiro 747-8 da Boeing, em setembro de 2009: a montagem final é uma representação eloquente de cadeia produtiva.

charge: Márcio Diemer

A participação não foi lá essas coisas, mas 17.559 pessoas responderam ao chamamento do Comando do Exército para batizar o novo veículo blindado de transporte de pessoal médio sobre rodas (VBTP-MR), que foi licitado em 2007 com a vitória da italiana Iveco Defence, empresa do Grupo Fiat. O resultado, anunciado pelo Centro de Comunicação Social do Exército, deu a vitória ao nome “Guarani”, com 7.312 votos, à frente de “Tapuia” e “Goitacás”. A vitória do nome “Guarani” irritou alguns, que acham a denominação mais adequada ao Paraguai do que ao Brasil, embora O guarani tenha sido um best seller da nossa literatura e da nossa música no século XIX, com obras assinadas pelo cearense José de Alencar e pelo campineiro Carlos Gomes. Além disso, a abertura triunfal da ópera marcou durante décadas o programa de rádio do governo, A Voz do Brasil. Substituindo o apelido informal do projeto, que era Urutu III, destinado a aposentar os veículos da antiga Engesa, EE-11 Urutu e EE-9 Cascavel – ou, nas palavras do ministro da Defesa “todo o sistema de mobilidade do Exército” –, o novo blindado está sendo construído na Fiat de Sete Lagoas (MG) para entrega em 2010. Depois desse primeiro veículo, virão outros 16, para testes durante 2011, precedendo a encomenda substitutiva maciça. Projeto de desenvolvimento conjunto entre o Exército Brasileiro e a Iveco Defence, a fabricação no Brasil – com até 60% de componentes nacionais, segundo a montadora italiana – deverá ser feita com olhos também na exportação.


Campeãs sem times de apoio e de defesa, a cadeia produtiva brasileira está em desequilíbrio Virgínia Silveira

O fortalecimento da cadeia produtiva aeronáutica e de defesa brasileira pode reverter a relação anormal que existe hoje no número de empregos entre fornecedores e montadoras. Para uma ideia dessa desproporção, em 2008, o setor aeroespacial brasileiro era responsável pela geração de 27 mil empregos, sendo 4 mil em pequenas e médias empresas. A maior parte desse montante, cerca de 21.500, segundo levantamento feito pela Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (Aiab), eram gerados pela Embraer. Nos Estados Unidos, segundo a mesma associação, a Boeing, considerada a principal indústria aeroespacial americana, tinha em 2008 cerca de 160 mil funcionários, mas o total das empresas do setor empregava 657 mil pessoas. Na Europa, a indústria aeronáutica empregava 640 mil pessoas em 2008, enquanto a francesa Airbus, considerada a maior fabricante de aviões comerciais da atualidade, tinha 52 mil funcionários. No Canadá, a relação de empregos entre montadoras e fornecedores também é mais proporcional: a Bombardier tem 32

mil funcionários num setor que emprega 80 mil pessoas. “Para reverter esse quadro, é mandatória a aplicação do poder de compra do governo e a eliminação da assimetria tributária existente hoje, que resulta em custo mais elevado para as empresas nacionais, comparado com as estrangeiras”, afirma o presidente da Aiab, Walter Bartels. “Isso dificulta ainda mais a existência de fornecedores de peças e componentes para os mercados brasileiro e de exportação”. Segundo Bartels, até o México, que não tem nenhum fabricante de aeronaves, adota políticas públicas para atrair investimentos. Impostos e distorções As fragilidades da cadeia produtiva aeronáutica brasileira, diz Bartels, geram custos adicionais e dificultam a venda de produtos acabados. O sistema de contratação atual privilegia a execução de processos industriais por emissão de simples ordens de serviço, e não por contratos com prazo determinado. Ele exemplifica: “Nesse esquema, a Embraer integra a matéria-prima e as empresas só vendem o serviço, não existindo agregação de valor. É simplesDEFESA LATINA

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mente venda de homem-hora”. Pela falta de isonomia tributária, muitos itens são mais baratos no exterior do que no Brasil, onde o imposto de importação no setor aeronáutico é zero. O fim dessa disparidade está prevista nas novas políticas industrial e de defesa do governo, mas até agora nada foi implementado. Na crise que colheu as economias mundiais como reflexo da crise americana, a maioria das fornecedoras da indústria aeroespacial brasileira vem tentando se ajustar ao cenário, reduzindo despesas e buscando a diversificação, já que a Embraer responde por mais de 90% das encomendas do setor. Essas empresas

registraram redução de mais de 50% em seu nível de atividade devido à queda de pedidos. Por seu lado, a Embraer, responsável por mais de 89% da receita do setor, também foi obrigada a rever sua previsão de entrega de aeronaves em 2009, que caiu de 350 para 242. Os pedidos de compra da empresa foram reduzidos em US$ 700 milhões no último trimestre de 2008, levando a empresa a demitir 4,2 mil funcionários em fevereiro de 2009 – cerca de 20% do seu efetivo. A área de defesa teve participação de 8,79% (US$ 650 milhões) na receita total obtida pelas empresas do setor aeroespacial em

2008, mas vem ganhando destaque, devido à Estratégia Nacional de Defesa e à destinação de R$ 2,26 bilhões pelo Ministério da Defesa para atendimento das necessidades das Forças Armadas em 2009, relativas a aquisição de equipamentos e aeronaves. Apesar dos desafios que enfrenta para sobreviver em um mercado tão complexo, o Brasil tem a maior indústria aeroespacial e de defesa do hemisfério sul e a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo. No campo da alta tecnologia, o setor é o único que apresenta marcas reconhecidas mundialmente, como Embraer, Avibrás e Atech.

Base industrial

capa

cidad

e cre

scen

te

Uma base industrial representa um sistema de capacidades necessário para criar, produzir, operar e apoiar uma mercadoria. Podese ver uma capacidade industrial como uma pirâmide cuja base é a tecnologia em funcionamento e cujo ápice é a geração de nova tecnologia e desenhos novos. (...) Embora se possa considerar essas capacidades como um contínuo, ocorrem lacunas substanciais entre seus diferentes níveis. Por exemplo, encontram-se diferenças significativas entre saber como reparar ou fabricar uma aeronave e saber como criar o desenho integrado de uma aeronave. Contudo, ambas as capacidades permanecem essenciais a uma base industrial.

CAPACIDADE DE BASE INDUSTRIAL

(...) Uma base industrial saudável precisa ter investimentos prolongados para manter a diversidade adequada e, desse modo, possibilitar a inovação e a renovação da força de trabalho. A variedade estimula a competitividade em um ambiente de tecnologia evolutiva, do mesmo modo que a pluralidade de firmas facilita operações eficientes e adaptações. Além disso, a indústria precisa de uma força de trabalho suficientemente grande para que trabalhadores mais velhos e experientes treinem seus futuros substitutos. Fonte: Tenente-coronel David R. King, USAF, trecho do artigo “A base da indústria aeronáutica dos Estados Unidos – No limite”, Acessível em www.airpower.au.af.mil/apjinternational/ apj-p/2007/2tri07/king.html

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segurança urbana

Vant:

o voo do zangão De quem é a responsabilidade pelo voo dos veículos aéreos não tripulados?

foto: Israel Aerospace Industries/Divulgação

O Vant, veículo aéreo não tripulado, ou UAV, unmanned aerial vehicle – geralmente chamado de drone nos países de língua inglesa – tem mostrado excelentes resultados para as forças militares e de segurança. E os especialistas acreditam que, no futuro, ele também cumprirá papéis atualmente desempenhados por aeronaves de combate tripuladas. Empregado originalmente para apoiar operações militares, o uso do Vant já cruzou as fronteiras do mercado de defesa para o mundo civil, tal qual o GPS e a informática. No Brasil, a Polícia Federal pretende usar esse tipo de aeronave em combate a ilícitos. Para tanto, realizou em meados de 2009, no oeste do Paraná, uma primeira série de testes de voo com o aparelho israelense Heron – da Israel Aircraft Indus-

tries (IAI) –, que foi controlado remotamente a partir do aeródromo de São Miguel do Iguaçu. A Organização da Aviação Civil Internacional (Icao), ligada à ONU, ainda não tem legislação a esse respeito. Assim, no Brasil, a orientação oficial foi estatuída na AICN 29, expedida em 19/11/2009 pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), vinculado ao Comando da Aeronáutica. Por enquanto, o emprego do Vant tem caráter excepcional e sua operação deve ser instruída pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a partir da documentação do projeto, características de controle, perfil de voo e outros requisitos. “Cada caso é um caso”, diz uma fonte militar. “Mas, para qualquer tipo de operação de Vant, há que haver obrigatoriamente autorização do órgão competente”.

Zangão ou drone em macrofotografia de Luis A. Florit.

Drone? Por que drone? Dizem os dicionários que “drone” tem três acepções no inglês: “zangão”, inseto sem ferrão, que não fabrica mel, vive como parasita da colmeia e tem como função acasalar com a abelha rainha; por extensão, aproveitador; e, enfim, aeronave sem piloto, operada por controle remoto. O dicionário The American Heritage diz que, talvez inspirada pelo zumbido das abelhas, a palavra, em música, significa som contínuo e monótono. Conclusão: o Vant/UAV seria chamado de drone devido a sua forma, semelhante à do zangão.

Foi o que aconteceu nos testes do Heron da PF, realizados com base em Notam especial (notice to airmen, alerta para pilotos), que reservou a área para o exercício planejado. Ou seja, a Polícia Federal está desbravando um terreno ainda praticamente virgem em termos de normas e procedimentos. Segundo o diário israelense Haaretz em sua versão online de 16 de novembro, a Israel Aerospace Industries (IAI) informou ter assinado contrato no valor de US$ 350 milhões para fornecimento de Vants ao Brasil, que tem ao menos uma dezena de projetos próprios de aeronaves não tripuladas, mas nenhum ainda em fase operacional.

Heron israelense fotografado em teste na região oeste do estado do Paraná.

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cultura.bicentenário

Regata dos grandes veleiros

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Ushuaia (20-23/03), com travessia pelo Canal de Beagle. No Chile, passa pelo Cabo Horn (2324/03) e ainda Punta Arenas (2730/03), Talcahuano (8-12/04) e Valparaíso (15-20/04). Depois do porto peruano de Callao (28/042/05), os veleiros fazem parada no Equador, em Guaiaquil (7-11/05); na Colômbia, em Cartagena (19-23/05); na Venezuela, em La Guaira (29/05-2/06); na República Dominicana, em São Domingos (6-9/06); e no México, em Veracruz (23-28/06). Ao ser oficialmente apresentada pela ministra da Defesa argentina, Nilda Garré, a regata foi considerada uma iniciativa para o diálogo e as ações comuns na América Latina. Presente no ato, o chefe da Marinha do Chile, Edmundo González Robles, reafirmou o evento como “uma mensagem de paz e fraternidade para todos os povos”. Do primeiro porto no Atlântico ao último no Pacífico, serão 150 dias no mar. Os veleiros Cisne Branco, do Brasil; Libertad e Bernardo Houssay, da Argentina; Capitán Miranda, do Uruguai, com suas velas pintadas pelo artista plástico Páez Vilaró; Esmeralda, do Chile; Gloria, da Colômbia, Guayas, do Equador, Simón Bolívar, da Venezuela, e Cuauhtémoc, do México, viajarão em grupo com o Sagres, de Portugal, o Juan Sebastián Elcano, da Espanha, e o Europa, da Holanda.

Acima, o uruguaio Capitán Miranda. Abaixo, o Cuauhtémoc, do México, e, ao lado, o navio português Sagres. foto: Paulo Limões

Cinco países latino-americanos – Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela e México – completam 200 anos de independência em 2010. Para marcar a data, Argentina e Chile organizaram a Regata do Bicentenário 2010. De acordo com a Agência Nacional de Notícias da Argentina (Telam), é a primeira vez na história da vela mundial que 12 veleiros fazem uma viagem conjunta de instrução e celebração. A travessia será protagonizada por bergantins, fragatas, escunas e catamarãs de nações latino-americanas e européias. São as mais belas naves de suas marinhas, que vão encantar o público durante suas paradas festivas pelos portos programados. Mas, além de cultura e divertimento, deverão refletir positivamente em termos de turismo, economia, geração de empregos e gastronomia nos portos e países envolvidos. O itinerário tem início no Rio de Janeiro (2-7/02), segue para a Argentina, em Mar del Plata (22-26/02), depois Montevidéo, no Uruguai (28/02-2/03), e de novo para águas portenhas, pois em Buenos Aires (4-9/03) se concentrarão os 12 veleiros e 3.500 marinheiros de todas as partes do mundo, com visitações abertas ao público. A rota argentina continua para as Ilhas dos Estados (18/03) e toca no Farol do Fim do Mundo, construído em 1884, em

foto: Antilleantv

Mirian Paglia Costa


foto: Eliseo Carlos Martín

A travessia será protagonizada por bergantins, fragatas, escunas e catamarãs de 12 nações

foto: Armada de Chile

foto: Marinha Portuguesa

foto: Daniell Mendes

Ao lado, o navio argentino Libertad. Abaixo, o Cisne Branco, da Marinha brasileira e, mais embaixo, o chileno Esmeralda.

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cultura.wingwalking Luiza Lusvarghi

É show! Marta Bognar e seu balé aéreo

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para essa corajosa e persistente paulista, que reside no bairro da Lapa, na capital. Desde 1992 ela se dedica integralmente ao wingwalking, que começou a praticar nos Estados Unidos, sob a orientação da instrutora americana Margareth Stivers, da equipe Silver Wings Flight Team, da Califórnia. Na verdade, havia feito duas experiências na Escandinávia, em 1988, mas foi com Margareth Stivers que a atividade ganhou firmeza em sua vida – uma tradição que ela também quer passar adiante no momento propício. “Minha instrutora conheceu a pioneira Jessy Wood. Eu a conheci e sei que a tradição é um adotar o outro”, afirma. Para cumprir seu destino de brilhar nos céus, Marta conta com a eficiente parceria de Pedrinho Mello, instrutor de acrobacia aérea, mecânico de aeronaves, piloto e também perito em acrobacias. Marta e Pedrinho se cruzaram casualmente num voo em que ela trabalhava e foram se reencontrar anos depois, para integrar a dupla da Brazilian Wingwalking Airshows. As apresentações duram em geral 15 minutos. Após a coreografia de Marta, o piloto desenvolve uma sequência de

manobras, e tudo sempre com a wingwalker sobre o avião. “É frio lá em cima. E muito solitário quando você está amarrado por uma corda à asa escorregadia de uma aeronave. O vento passa cortante Silver Wings Wingwalking/Divulgação

No último Dia do Aviador, 25 de outubro, ela foi homenageada sob os aplausos emocionados de mais de 100 mil pessoas, no Campo de Marte, São Paulo. Ela não pilota aviões, não participou da Segunda Guerra Mundial e nem de alguma missão de paz no Iraque. Parte de sua vida profissional foi passada dentro de aviões, como comissária de bordo da antiga Viação Aérea São Paulo, cuja falência foi decretada em 2008. Mas foi fora das aeronaves da Vasp que ela conquistou a fama. Aos 48 anos, 10 de estrelato, Marta Lúcia Bognar é uma das poucas mulheres no mundo a exercer profissionalmente o wingwalking (literalmente, caminhar sobre asas). Hoje, existem apenas 20 equipes atuantes. Na América Latina, é a única a participar de shows do gênero, também chamado em inglês de aerobatics – que muita gente traduz como a junção de acrobata aéreo com lunático. Marta é uma acrobata dos ares. Voa presa a um suporte montado sobre a aeronave e executa seu fantástico balé sob as nuvens com equilíbrio e coordenação – em movimentos que poucos marmanjos se atreveriam a realizar. Nada de mais

Margareth Stivers e Hartley Folstad

looping: volta vertical completa de 360 graus, deixando a aeronave momentaneamente de cabeça para baixo; touneaux: (ou tunô): giro completo de 360 graus em torno do eixo, combinado com trajetória helicoidal, formando uma espécie de rosca ou parafuso; hammerhead: literalmente, “cabe­ça de martelo”, subida repentina em ângulo de 90 graus, quase parada no alto e descida no mesmo ângulo, como se o avião fosse cair de cabeça para baixo.


Para terminar: a bandeira do Brasil.

Um pouco de história Além das proezas de Marta e de Pedrinho, outro fator de atração nos espetáculos é o Show Cat, um biplano moderno, equipado com motor radial Pratt & Whitney de 450 Hp, especialmente adaptado para essa finalidade, mas que, projetado com design antigo, apaixona os colecionadores e confere estilo às apresentações. E, para melhorar, o biplano é dotado de dispositivo de fumaça, que enfeita ainda mais as acrobacias. Para cumprir sua arriscada função, Marta precisa estar em excelentes condições físicas, e, naturalmente, magra e elegante. “Quando estou executando movimentos no ar, o meu peso triplica por causa da gravidade. Portanto, não posso engordar muito, pois meu corpo não suportaria”, conta ela. Afinal, como uma bailarina, ela executa uma dança no ar. “Minha coreografia envolve apenas meu corpo, interagindo de forma

aerodinâmica com a aeronave em movimento”, diz. Tudo começa com as manobras de Pedrinho – “Eu dificulto a ação dele, porque não é fácil pilotar com 1m75 de mulher atrapalhando”, ela ri. Mas o fato é que a presença dela valoriza as manobras do piloto, que precisa de enorme perícia. Depois, vem a coreografia propriamente dita, feita com rasantes do avião, para que o público veja as posições e os movimentos da wingwalker. Por fim, vem o desfraldar da bandeira brasileira, com a aeronave fazendo uma virada de 360 graus, que emociona o público ao som de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, para o encerramento do show – um espetáculo de harmonia entre as partes intervenientes. Ou, como expressa a mestra Margareth Stivers: “Piloto, avião, vento e wingwalker, todos se movem em uníssono para pintar sua arte na tela do céu”. A atividade de Marta e de Pedrinho resgata parte da história da aviação. Consta que, como espetáculo, o wingwalking nasceu após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), no estado americano do Texas, de forma amadora. No Brasil,

chegou com pioneiros como Charles Astor – escritor, artista de circo, paraquedista, professor, que veio ao país como acrobata em 1928, fundou a primeira escola de paraquedismo no Aeroclube de São Paulo fotos: Mauricio Lanza

por você, e o ronco do motor é sua única companhia”, ela poderia dizer com Bob Essell, o antigo “aerobata” americano que agora é piloto para as acrobacias aéreas de sua filha, a wingwalker Jenny Forsythe.

Dia do Aviador: passeio especial para crianças órfãs, com direito a abraço de Marta e Pedrinho.

dois anos depois e aqui ficou como brasileiro naturalizado e reconhecido colaborador do Exército e da Aeronáutica. Sua equivalente do sexo dito frágil nos EUA, conta a história, foi a antiga trapezista do Circo Barnum, Ethal Dare, primeira mulher a passar de um avião para outro em pleno ar. Mas ninguém pense que essa atividade foi sempre show. Quem conhece a saga de Santos-Dumont, por exemplo, logo se lembrará da comoção que ele causou em Paris ao andar sobre a estrutura de um de seus balões, lá no alto, para fazer um conserto de emergência. E foi com o mesmo objetivo que a história DEFESA LATINA

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foto: Mauricio Lanza

Serviço : marta@wingwalking.com.br www.wingwalking.com.br

Posição triplano

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registra os passeios aéreos do tenente Omer Locklear (18911920), famoso pelos consertos em seu avião durante a I Guerra Mundial, que o levaram a se tornar wingwalker, astro de shows aéreos e dublê de cinema. Outra função importante desses ousados aeronautas foi inaugurar o reabastecimento ar-ar em voos de longa distância – experiência realizada por homens da Força Aérea e da Marinha dos EUA. Depois da Segunda Guerra, tornou-se número de entretenimento cultural, sobretudo no

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Reino Unido, que até hoje tem a maior equipe em atividade, fazendo shows mundo afora. Mas, mesmo hoje, o wingwalking tem também utilidade prática. É Marta quem informa: “Ele é utilizado internacionalmente como forma de publicidade e mídia alternativa, colocando os patrocinadores próximos ao público consumidor de forma marcante e inesquecível”. E ela sabe o que diz, pois, além de se apresentar em eventos aeronáuticos, participa de comemorações e festejos de todos os tipos, em pistas e praias, sempre atraindo centenas de milhares de pessoas. Até hoje, seu maior público foi o da Feira Internacional do Ar e do Espaço – a Fidae 2000 –,

no Chile, que reuniu mais de 200 mil pessoas. E a dupla acredita que vai poder multiplicar suas exibições a partir do ano que vem. É que, se nada se fazia na América Latina para incentivar o patrocínio na indústria do show aéreo, a mentalidade parece estar mudando rapidamente. A Shell Aviation foi a primeira a acreditar no trabalho da equipe e tem revalidado seu patrocínio anual ao Brazilian Wingwalking Airshows. O primeiro grande espetáculo da companhia em 2010 será no Broa Fly-In, XI Feira e Seminário Latino-Americano de Defesa e Aviação, que acontece no final de maio em Itirapina (SP) e junta aviadores e entusiastas da aviação do Brasil e países vizinhos.


cultura.memória Morre a decana das mulheres militares do Brasil Imperdíveis. Assim eram qualificadas as palestras da major Elza Cansanção Medeiros sobre a Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial. Aos 19 anos, em 1943, ela se apresentou como a primeira voluntária para atuar como enfermeira no teatro de operações da Itália. No ano seguinte, seguiu para a guerra com o Destacamento Precursor de Saúde. Durante o conflito, passava notícias para os correspondentes Joel Silveira, dos Diários Associados, e Rubem Braga, do Diário Carioca.

Ela só usava farda quando representava a FEB. Aqui, com o baterista e estudioso da Segunda Guerra, João Barone, em julho de 2008.

A vocação jornalística e a dedicação à memória nacional levaram a major Elza a se tornar uma das principais fontes de informação sobre o episódio, juntando a seu testemunho pessoal um enorme acervo iconográfico, com mais de 5 mil fotos sobre a participação brasileira na guerra, divididas entre o Museu da Segunda Guerra Mundial do Rio de Janeiro e outro, com a mesma denominação, em Maceió. Brasileira mais condecorada da história, faleceu no Rio em 8/12 aos 88 anos.

Tradição preservada Um grupo de veteranos do 1º Grupo de Aviação de Caça, unidade de elite da Força Aérea Brasileira, reúne-se no Clube de Aeronáutica, no Rio de Janeiro. São remanescentes da força que entrou para a história por sua luta heroica nos céus da Itália durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O peso da idade não afeta o entusiasmo que se nota nos olhos e nos gestos. É 5 de setembro e eles vão participar do desfile comemorativo da Independência em Brasília (DF). Mais uma vez, cumprem a missão de transmitir às novas gerações o orgulho de terem lutado na guerra em defesa da liberdade. Como primeira escala em 6 de setembro, o grupo desceu na Base Aérea de Anápolis (GO), onde foi recebido pelo comandante da unidade, coronel aviador Luiz Cláudio da Fonseca Bragança. À noite, durante o jantar no Clube de Oficiais, os veteranos

Hermelindo Lopes Filho

Os veteranos na saída do desfile.

nos relembraram o passado no front, cantaram e, ao final, gritaram uníssono Senta a Pua!, o lema do 1º GAvCa. Representando a atual geração de caçadores, o comandante da base bradou À la chasse!, e todos responderam Brasil! No dia seguinte, em clima fraterno, o grupo seguiu para a concentração, juntando-se aos bravos veteranos da Força Expedicionária Brasileira. Abrindo o desfile, foram todos ovacionados pelo público. Dever cumprido, houve almoço de confraternização na Base Aérea de Brasília.

Adeus ao pai da Embraer No dia 27 de dezembro, faleceu no Rio de Janeiro o tenente-brigadeiro reformado Paulo Victor da Silva, aos 88 anos de idade. Paraense, Paulo Victor era engenheiro aeronáutico diplomado pelo ITA. Partiu dele a ideia de batizar o primeiro turboélice brasileiro (EMB-110) com o nome de Bandeirante. Foi ele também que, numa autêntica maratona, correu os gabinetes de Brasília e Rio de Janeiro na missão de convencer as autoridades federais da necessidade de criar uma indústria sob o controle do Estado para produzir em série o Bandeirante, nascendo assim a Embraer. O brigadeiro Paulo Victor foi ainda personagem ativo da história política nacional ao aderir ao movimento de Aragarças, em 1956, contra o governo de Juscelino Kubitschek.

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cultura.fotografia

Tecnologia aeronáutica vira arte Luz e sombra a serviço das criações da indústria

Antoine Gonin: Fuselagem do A380

Antoine Gonin: Airbus

Depois de passar por Brasília, Manaus, Fortaleza, João Pessoa e Goiânia, ficará em São José dos Campos (SP) até 7 de fevereiro de 2010 a mostra “Bastidores da Aeronáutica Europeia”, do fotógrafo Antoine Gonin. Uma das expressões do Ano da França no Brasil, por iniciativa da Aliança Francesa, a exposição se encerrará no Rio de Janeiro, ao completar um ano de itinerância pelo país, em junho de 2010. De acordo com o próprio fotógrafo, foi a fantasia de voar das crianças, a capacidade de construir aviões dos adultos e os calcanhares alados do deus grego Hermes, protetor dos viajantes, que o inspiraram a percorrer a Europa registrando as grandiosas estruturas construídas pelo homem em seu labor tecnológico. O trabalho teve como origem uma encomenda que lhe foi feita pela multinacional European Aeronautic Defence and Space Company (EADS), líder mundial em aeronáutica, espaço e defesa, para a Exposição Universal de 2005, ocorrida em Aichi, no Japão. A idéia de transformar tecnologia em arte deu certo. Em Aichi, que teve participação de 128 países e 22 milhões de visitantes em um mês, os organizadores informaram que os pavilhões favoritos do público foram o da montadora Toyota, com seu balé de robôs humanóides, e o da França, com as fotos de Gonin, entre outras atrações. O fotógrafo francês, nascido em Paris em 1951, apresentou uma série de fotografias sobre os principais setores de atividades do grupo industrial EADS, tendo obtido imagens impressionantes, que põem em destaque os aspectos mais espetaculares da tecnologia praticada pela empresa, como laboratórios espaciais, satélites, mísseis, helicópteros, caças, supercondutores, aviões em túnel de vento e o maior avião de passageiros – o Airbus, que pertence ao grupo. No Brasil, a EADS está presente há mais de 30 anos, por meio da fabricante de helicópteros Helibrás, EADS Brasil e EADS Secure Networks Brasil. Profissional da fotografia publicitária e industrial, Antoine Gonin publicou duas obras pela editora Delpire: Eloge de l’avenir (“Elogio do futuro”), de 2000, e Horizons (“Horizontes), de 2008. As 24 imagens da mostra “Bastidores da Aeronáutica Européia”, em cores e em preto & branco, percorreram Egito, África do Sul, Rússia, China, Itália, Arábia Saudita e Emirados Árabes antes do tour brasileiro.

Aliança Francesa de São José dos Campos 25/11 a 3/03/2010 Aliança Francesa de Curitiba 16/03 a 11/04/2010 Aliança Francesa de São Carlos 22/04 a 16/05/2010 Aliança Francesa do Rio De Janeiro 27/05 a 20/06/2010 62

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cultura.segunda guerra mundial

Aos 70 anos, novas interpretações

National Archives and Records Administration (EUA)

Mirian Paglia Costa

Pôster da guerra. Alto: tropas germânicas no Tirol após anexação da Áustria (Anchluss); judeus num campo de concentração. Centro: Batalha de Stalingrado; Soviéticos capturam Berlim. Embaixo: soldados japoneses na China; bombardeio atômico de Nagasaki.

Divulgação

Abaixo: cartaz do filme Bastardos inglórios e capa do livro Europa na guerra.

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Aero Magazine e os combates no céu. Em setembro, por ocasião dos 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), devido à invasão da Polônia pela Alemanha, a revista Aero Magazine teve a boa ideia de lançar nas bancas uma série de três DVDs com imagens produzidas pelo Discovery Channel sobre os mais famosos combates aéreos do conflito, envolvendo P-51 Mustang vs. Messerschmitt Bf-1a09, P-47 Thunderbolt vs. Focke-Wulf 190, F4F Wildcat vs. Mitsubishi Zero e outros igualmente decisivos. Com conteúdo inédito no Brasil, os DVDs trazem documentários com imagens históricas, cenas coloridas, animações com as táticas utilizadas na época, combates reproduzidos com aviões restaurados e comentários de historiadores e especialistas. A edição e a tradução dos conteúdos foram feitas pela própria Aero Magazine, uma publicação do Grupo Spring. De acordo com o editor-chefe da revista, Valtécio Alencar, “os espectadores poderão conferir detalhes das aeronaves, dos armamentos às principais características técnicas”, além de conhecer melhor alguns grandes aviadores da Segunda Guerra. Para adquirir números atrasados, ligar para a Central do Assinante Aero ­Magazine: (11) 3038-1401. O conflito de ponta a ponta. Também a Editora Abril investiu na revisitação do tema, com a coleção “70º Aniversário da II Guerra Mundial”, série produzida pela Nugus/Martin para a BBC, constando de 30 DVDs com 95 documentários – 65 deles coloridos digitalmente –, mais de 500 páginas de infográficos, abordagem dos avanços tecnológicos desenvolvidos para a guerra e hoje utilizados para fins pacíficos e, claro, análises de especialistas e contextualização histórica do maior conflito da era moderna. Mais informações sobre o ambicioso plano de edição estão acessíveis no portal < www.colecaosegundaguerra.com.br >. Revisão com novas fontes O curioso em torno do assunto é que, graças à liberação de arquivos após a debacle do comunismo – a queda do Muro de Berlim também está aniversariando e marcando sua segunda década –, muitas são as reinterpretações e novas versões em curso. Até a conta do número de mortos no conflito, que durou 1.620 dias, já ganhou acréscimo de quase 100%: teriam sido 72 milhões, e não 40 milhões como se pensava, sendo 46 milhões de civis. Vale a pena ler alguns livros para acompanhar de perto esse movimento de revisão. Boris Fausto, por exemplo, em Getúlio Vargas: O poder e o sorriso (Cia. das Letras), mostra o esforço de apagamento


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dos pracinhas e de sua campanha na Itália pelo ditador, que lhes proibiu o uso de uniformes e condecorações em praça pública. Até que a redemocratização, em 1945, trouxe o resgate da Força Expedicionária Brasileira (FEB), sua história e seus heróis. Para reavaliar a importância do Dia D quanto ao fim do conflito, convém manusear o recém-lançado Europa na guerra 1939-1945 (Record), do historiador britânico especializado em Europa do Leste Norman Davies. Para ele, a guerra já havia sido decidida pelas vitórias russas em Stalingrado e em Kursk, cenário do maior embate de blindados da história, o que diminui a importância dos Aliados do fronte ocidental. O mesmo Davies desmonta o mito de hábil estrategista construído em torno de Adolf Hitler, enquanto outro historiador britânico, Andrew Roberts, em The Storm of War (“A tempestade da guerra”), mostra como a arrogância do führer ao assumir a liderança do teatro de operações fez malograr uma guerra que poderia ter sido ganha por seus generais. Alongando a lista. Ainda na faixa da revisão – ou de novas visões –, a televisão e o cinema prometem enriquecer em 2010 a lista de películas dedicadas à Segunda Guerra Mundial, que ultrapassam os 1.000 títulos dos mais diversos gêneros, dos cultuados Casablanca (1942) e Apocalipse Now (1979) aos gêmeos Cartas de Iwo Jima e Conquista da honra (2006), em que o diretor Clint Eastwood fez a inusitada abordagem de um mesmo episódio – a batalha de Iwo Jima, no Pacífico – sob os pontos de vista japonês e americano. The Forgotten Few, que está em fase de pós-produção na Inglaterra, foi filmado para a TV neste ano e, como diz o título, dedica-se a fazer justiça histórica a um grupo esquecido de pilotos do Leste Europeu que combinou esforços com a aeronáutica britânica, por meio dos poloneses do Esquadrão Aéreo 303, ajudando decisivamente as forças aliadas a vencer a Batalha da Grã-Bretanha. Algona, a ser filmado no ano que vem, conta a história do campo de prisioneiros alemães na cidade homônima, que fica no estado americano de Iowa. Um dos maiores campos em território dos EUA, chegou a abrigar 10 mil prisioneiros no período 1944-1946. Red Tails, também em pós-produção, foi filmado por George Lucas, o mago das séries Guerra nas estrelas e Indiana Jones. A sinopse diz que o filme focaliza o famoso esquadrão “Caudas vermelhas”, comando de pilotos negros que atuou na Segunda Guerra Mundial – detalhe que foi focalizado na armação do problema de racismo entre soldados americanos num campo de prisioneiros alemão em A guerra de Hart. Os dois lançamentos mais esperados, no entanto, são a série da HBO para a televisão The Pacific, com 10 episódios e produção envolvendo Steven Spielberg, Tom Hanks e Gary Goetzman, prevista para março de 2010, e o filme de Quentin Tarantino com Brad Pitt, Bastardos inglórios, cuja pré-estreia foi feita no início de novembro no Japão.

Lançamento em SP: na platéia, o professor e veterano da FEB Boris Schnaiderman. Ao lado, o autor, Israel Blajberg, com Jayme Serebrenic, presidente do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro.

Esses soldados desconhecidos

Eles são dois grandes expoentes da vida intelectual brasileira – o historiador marxista de origem russa Jacob Gorender, autor de O escravismo colonial; e o literato Boris Schnaiderman, primeiro professor do curso de letras russas na Universidade de São Paulo e autor das primeiras traduções diretas dos grandes autores russos para o português. Ambos são, também, judeus. E em comum têm ainda o fato de terem lutado na Itália como soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Os professores Gorender e Schnaiderman figuram na obra Soldados que vieram de longe. Os 42 heróis brasileiros judeus da II Guerra Mundial, mais uma obra a acrescentar novas informações ao conhecido evento. O lançamento em São Paulo aconteceu na sede do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro (AHJB), sendo prestigiado pelos presidentes da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil e da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, além de militares e vários representantes da comunidade judaica. No Rio de Janeiro, esteve presente até o coronel Roberto Mascarenhas, neto do marechal Mascarenhas de Moraes, que foi o comandante da FEB. Baseada em história oral, a obra reúne depoimentos de veteranos e de familiares, colhidos sob a coordenação de Israel Blajberg, 2o Ten R/2 Art, engenheiro, professor e sócio-titular do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil (IGHMB). O livro, com 280 páginas e 60 fotografias coloridas, foi publicado pela Academia de História Militar e Terrestre do Brasil em conjunto com a Federação da Indústria do Rio de Janeiro (Fierj). DEFESA LATINA

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efemérides

Colaboraram nesta edição

outubro

Armen Kouyoumdjian, nascido no Líbano de pais armênios e diplomado em Estatística Aplicada pela Sorbonne, em Paris, trabalhou como economista e analista de risco no México, em Washington e Londres e atua no Chile como consultor independente de governos, empresas privadas e organismos multilaterais. Colabora com a BBC, a CNN e vários órgãos da mídia internacional.

04 Lançado pelos russos o Sputinik, primeiro satélite. Um mês depois, em 3/11, a cadelinha Laika seria a primeira viajante espacial a bordo do Sputinik II (1957). 23 Dia da Aviação, Dia do Aviador, Dia da Força Aérea Brasileira. Nesta data, Santos-Dumont fez o primeiro voo com um aparelho mais pesado do que o ar, o 14-Bis, que decolou por seus próprios meios (1906). 24 Há 80 anos, a Quinta-feira Negra do crash da Bolsa de Nova Iorque lançou os EUA e o mundo na Grande Depressão (1929). Fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), com 50 países integrantes (1945).

novembro 04 O arqueólogo inglês Howard Carter descobre o túmulo do faraó Tutankamon no Vale dos Mortos, em Luxor, Egito, transformando a egiptologia em cultura de massa (1922). 10 Nascimento da Esquadra de Guerra do Brasil, marcado pelo dia em que o pavilhão nacional foi içado na nau Dom Pedro I, nosso primeiro capitânia. 15 Proclamação da República e derrubada do imperador Pedro II por um golpe de militares do Exército brasileiro há 120 anos (1889). 19 Morte do jesuíta santista Bartolomeu de Gusmão, criador do aeróstato, o balão movido a ar quente, cujo primeiro experimento bem-sucedido se deu em Lisboa há 300 anos, em 8 de agosto de 1709 (1724). 20 Uso dos primeiros carros blindados (tanques de guerra) durante a Batalha de Cambrai, França, travada entre ingleses e alemães na Primeira Guerra Mundial (1917). 24 Charles Darwin publicou Sobre a origem das espécies através da seleção natural, contrariando a idéia religiosa da criação com a Teoria da Evolução (1859).

dezembro 23 John Bardeen, Walter Brattain e William Shockley, funcionários dos Laboratórios Bell, EUA, inventam o transístor, principal responsável pela revolução da eletrônica nos anos 1960 (1947). 24 Lançamento do primeiro míssil guiado, produzido por Wernher von Braun e sua equipe de engenheiros e técnicos a serviço do III Reich, origem das bombas voadoras V-1 e V-2, usadas para bombardear sobretudo a Inglaterra nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial (1942). 31 O inventor americano Thomas Edison mostrou ao público a lâmpada eléctrica incandescente em seu laboratório em Nova Jersey (1879).

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Cosme Degenar Drumond é jornalista, tendo se iniciado como redator no antigo Ministério da Aeronáutica. Atua na imprensa especializada em defesa desde 1985. Foi redator-chefe da revista Tecnologia & Defesa e tem o mesmo cargo na DEFESA LATINA. É autor dos livros O Museu Aeroespacial Brasileiro, Asas do Brasil e Santos-Dumont, novas revelações. Expedito Carlos Stephani Bastos é detentor no grau de alta distinção da Legião do Mérito do Engenheiro Militar, da Academia Brasileira de Engenharia Militar de São Paulo, professor de história militar, pesquisador e coordenador do setor de tecnologia militar do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora. Escreve para revistas técnicas brasileiras e européias. Hermelindo Lopes Filho, é pesquisador de história da aviação militar e tecnologias aeroespaciais, além de estudar direto. Funcionário do Legislativo federal, desenvolve atualmente o documentário “Nas asas da História da Força Aérea Brasileira”. João Lins de Albuquerque formado em direito e pós-graduado em Sovietologia e Relações Internacionais pela Universidade de Estocolmo. Atuou como correspondente internacional em Londres e Estocolmo, tendo trabalhado em Nova York no Departamento de Informação Pública da ONU. É autor de Conversações: 50 entrevistas essenciais para entender o mundo e Antonio Olinto, memórias póstumas de um imortal. Luiza Lusvargui é diplomada em letras e jornalismo pela PUC-SP e doutora em Comunicação pela USP. Trabalhou nos jornais Shopping News e O Estado de S. Paulo, além de colaborar com revistas femininas e com os jornais Diário Popular e Folha de S. Paulo. É autora do livro De MTV a Emetevê. Márcia Cristina Gonçalves de Souza é jornalista diplomada pela Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro; pós-graduada em Gerência de Marketing pela ESPM, São Paulo, e em Gestão Empresarial pela Universidade Católica do Salvador, Bahia. É palestrante e autora do livro Ética no ambiente de trabalho. Mirian Paglia Costa é bacharel em direito e em jornalismo, tendo atuado em jornais e nas revistas Visão e Veja. É publisher e diretora editorial da Editora de Cultura e da revista DEFESA LATINA. Autora dos livros Colar de maravilhas e Notícias do lugar comum entre outros títulos. Peterson Ferreira da Silva, bacharel e mestrando em Relações Internacionais; participa do Programa Pró-Defesa do Ministério da Defesa e Capes. Salvador Nogueira, jornalista pela ECA-USP, especializou-se em ciência, saúde e tecnologia, tendo trabalhado na Folha de S. Paulo e no portal G1, da TV Globo, antes de tornar-se editor da revista Conhecer (BBC). Escreve para publicações do setor e é autor do livro Conexão Wright-Santos-Dumont. Virgínia Silveira é jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora, tendo feito especialização em Gestão e Normalização das Atividades Espaciais na Unesp e mestrado em Jornalismo e Comunicação de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente em Madri. Recebeu o Prêmio Santos Dumont de Jornalismo em 2002. Escreve sobre os setores aeroespacial e de defesa para o jornal Valor Econômico.


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Número 2 - Ano I  

Revista Defesa Latina