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nº 1

R$ 14,90

ENTREVISTA: General-de-exército José Elito Carvalho Siqueira

julho-setembro 2009

Secretário de Ensino, Logística, Mobilização, Ciência e Tecnologia do Ministério da Defesa

DEFESA LATINA

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DE VOLTA AOS CÉUS

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Primeiro foi o Demoiselle, a levíssima aeronave na qual Alberto Santos-Dumont passeava pelas avenidas aéreas de Paris. Nos EUA, ao lado do Flyer B dos irmãos Wright, ele estrelou o primeiro voo conjunto de réplicas da história da aviação. Conquista do Instituto Arruda Botelho, instituição não-governamental e sem fins lucrativos, que trabalha com preservação ambiental, manutenção do patrimônio cultural e restauração de aeronaves de importância histórica. Agora, é a vez do Blériot XI-2, avião de Louis Blériot (1872-1936) – o primeiro aviador do mundo a receber brevê e pioneiro na travessia aérea do Canal da Mancha em 25 de julho de 1909. A aeronave teve significativa presença nos céus da América Latina. Selecionado para participar ainda em 2009 das festividades do Ano da França no Brasil, o Projeto Blériot é um extraordinário exemplo de cooperação multinacional, envolvendo instituições, profissionais, artesãos e estudantes franceses, brasileiros e indianos. O resultado, mais do que uma aeronave, é a replicação do espírito de ousadia, empreendedorismo e da exemplaridade de homens que estiveram na vanguarda tecnológica de seu tempo. A serviço da humanidade.

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Resgatando a memória da aviação e promovendo a cultura

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ao leitor

A Editora de Cultura atua no mercado nacional há mais de 30 anos, estando consolidada na área de livros, com autores consagrados e novos talentos em seu catálogo. Foi o encontro com um desses escritores que nos levou à comichão de fazer uma revista – para mim, um retorno às origens acalentado, mas sempre adiado. Com Cosme Degenar Drumond, jornalista com grande experiência no setor de defesa e incansável estudioso das matérias correlatas, tivemos oportunidade de amadurecer a ideia entre as edições de Asas do Brasil (2004) e Santos-Dumont, novas revelações (2009). Acontece que ideia não faz revista, como sabemos os profissionais da área. É do convívio com as fontes e com o público que o projeto, um patinho feio, se tornará de fato um cisne ou acabará naufragando. Nossa intenção é produzir uma publicação ágil, séria, bonita, aberta a inovações e interessada na área de defesa sobretudo como fonte geradora de riqueza e tecnologia para o país. Sem perder de vista o papel estratégico do Brasil como exportador de paz e de concórdia. Queremos ainda observar a trajetória da indústria nacional e, na medida do possível, contribuir para a geração de negócios, falando com tomadores de decisão da América Latina em nível de autoridades e de empreendedores. Aprovado o projeto e escolhido o título da revista (que consideramos um achado, sem modéstia alguma!), passamos a trabalhar na sua viabilização. Nesta oportunidade, queremos agradecer a todos, em especial às empresas que acreditaram em nosso projeto, participando desta primeira edição, e às nossas autoridades do setor, pelo estímulo que recebemos – inaugurando com pompa e circunstância nossa seção de correspondências. Esperamos agradar em forma e conteúdo e ficamos no aguardo de sua manifestação. Sem isso, como produzir um número melhor neste semestre? Boa leitura.

Mirian Paglia Costa, editora

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sumár

8 RADAR

Diretor de Arte Yves Ribeiro Filho Expedição e Assinaturas Maria Angela Silveira de Souza Conselho Editorial João Lins de Albuquerque, Maura Sylvia Pasculli de Curci, Norton de Andrade Rapesta, Peterson Ferreira da Silva, Rubens Ribeiro Cardoso Filho Conselho Técnico General Antônio Burgos, Brigadeiro José Antônio Scheer, Almirante Marcílio Boavista da Cunha Colaboradores Angela Schnoor, Lucca Alves Lucita Briza, Luiza Lusvargui, Marília Schumann, Márcia Cristina Gonçalves de Souza, Paulo Fernando Kasseb, Rita de Sousa, Roberto Caiafa, Roberto Guimarães Carvalho, Alejandro Valdéz (Buenos Aires, Argentina), Armen Kouyoumdjian (Valparaíso, Chile) Revisão Pagliacosta Editorial (Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras | Nova Ortografia)

DEFESA LATINA é uma publicação da Editora de Cultura Ltda. Terá circulação trimestral e distribuição em todo o território nacional por Fernando Chinaglia Distribuidora Ltda. Endereço para correspondência: Rua Pimenta Bueno, 324 03060-000 – São Paulo – SP – Brasil Tel: 55 11 2894.5100 Fax: 55 11 2894.5099 E-mail: sac@defesalatina.com.br Apoio institucional Abimde | Aiab | Comdefesa-Fiesp

20 ENTREVISTA

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eneral-de-exército José G Elito Carvalho Siqueira

Arquivo Defesa Latina

Diretora de Marketing e Publicidade Helena Maria Alves helena@defesalatina.com.br

E stratégia Nacional de Defesa depende de 23 atos legislativos e administrativos a serem apresentados até o fim de 2009

“ Finalmente, a Nação está comprometida com a valorização da defesa em benefício do país e do seu povo”

24 CAPA

Guerreiras do Brasil Elas já são quase 14,5 mil no Exército, na Marinha e na Força Aérea, mas ainda longe das frentes de combate

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Arquivo Pessoal

Diretor de Redação Cosme Degenar Drumond degenar@defesalatina.com.br

Alerta na defesa

28 LAAD 2009

I ndústria de defesa exibe suas armas

30 INDÚSTRIA

Índios: Armas que previnem rmamentos para dissuasão A ganham importância

Atech: Tecnologia do conhecimento

24 Arquivo Defesa Latina

Editora Mirian Paglia Costa MTB Nº 12.637 mirian@defesalatina.com.br

14 política

Intimidade com P&D e incubação de soluções

Inbra: Inovação em destaque

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Muito apetite por tecnologias

36 AVIAÇÃO MILITAR C-390 O futuro do K transporte aéreo militar

Embraer

Ano 1 - Nº 1 julho-setembro 2009

Agência Brasil

6 CARTAS

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T erceira maior indústria de aviação do mundo, Embraer investe em transporte tático

38 SOCIEDADE

Conduta ética nos negócios enegrir a concorrência não D é boa tática para vencer no mercado

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io SAAB

40 SUBMARINO Senhor dos mares

caminho da construção do submarino A nuclear brasileiro

42 PONTO DE VISTA Combate e psiquismo

eações humanas a situações R de conflito e violência

44 Arquivo Defesa Latina

44 CAÇAS

F-X2: Francês, americano ou sueco?

CCOMSEx

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hega ao fim o processo de seleção C para os esquadrões de combate da Força Aérea Brasileira

48 LOGÍSTICA

Voando com as próprias asas Centro Logístico da Aeronáutica O avança em nacionalização e autonomia tecnológica para o país

50 INTERNACIONAL

I mportância das missões de paz da ONU Forças do Brasil trabalham pela paz sob a bandeira das Nações Unidas

52 CIÊNCIA & TECNOLOGIA Ameaça cibernética

uerra virtual com efeitos reais: G o lado mau do mundo informatizado

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54 CULTURA

Arte: Veleiro encantado Cisne Branco nas aquarelas do O artista paraense Mário Barata

Livros: Stalingrado, 1942

A “guerra dos ratos” no fronte aéreo

A guerra das privatizações Brasil S/A ou a desestatização dos anos 1990

Memória: Ada Rogato Arquivo Editora de Cultura

A brasileira que voava só

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cartas De: Ministério da Defesa Para: Defesa Latina O Brasil é reconhecido historicamente por pautar sua política externa na primazia da diplomacia sobre o confronto. Ao longo de sua formação e consolidação, o país sempre privilegiou a via pacífica para a resolução de conflitos. Tal atitude resultou em uma privilegiada situação de amizade, paz e harmonia do Brasil com os países com os quais faz fronteira, o que o levou a assumir o papel de mediador em conflitos regionais. O cenário internacional, no entanto, apresenta alto grau de incertezas e focos de instabilidade. E, quando os desequilíbrios levam ao caminho da solução armada, verifica-se que esses conflitos modernos apresentam características distintas das que tinham as guerras do século XX, quais sejam: combates de baixa intensidade com emprego de excessivo poder tecnológico e rapidez em sua perpetração e resolução. A natural e crescente participação brasileira no contexto internacional, em conjunção com a necessidade de assegurar nossa soberania sobre os abundantes recursos naturais, indica a exigência de não nos descurar da segurança nacional, que deve ser buscada pelas vias diplomáticas e escudada por capacidade militar e tecnológica adequada aos conflitos do século XXI. O conhecimento é a nova fronteira da soberania, daí ser imprescindível o envolvimento de toda a sociedade com o tema defesa. A classe política deve pensar a defesa como assunto de Estado e ditar as diretrizes respaldadas pela sociedade. Do acadêmico, espera-se o debate para aprofundar o seu 6

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conhecimento. O setor científico e tecnológico deve perseguir o domínio da tecnologia e ao setor industrial cabe o uso dessa tecnologia na produção dos meios de ponta necessários à defesa. Esse é o caminho para adensar o conhecimento e promover o desenvolvimento, necessários para que as Forças Armadas disponham dos instrumentos indispensáveis para assegurar a nossa soberania. Com o intuito de promover a evolução tecnológica do Brasil e de modernizar nossas Forças Armadas, capacitando-as a resguardar nossos interesses pela dissuasão, foi implementada, em dezembro de 2008, por decreto presidencial, a Estratégia Nacional de Defesa, que delineia as ações a serem desenvolvidas na busca desses objetivos. Ciente de que desenvolvimento e segurança caminham juntos e que a indústria de material de defesa, em todo o mundo, tem sido motor de desenvolvimento tecnológico, a Estratégia orienta as ações de modernização das Forças Armadas brasileiras e de sua adequação ao contexto internacional do século XXI. Isso visa a promover a indústria nacional, privilegiando as associações internacionais que permitam transferências de tecnologia para a indústria nacional, com o propósito final de colocar o Brasil na linha de frente tecnológica. Honrado com o convite da direção de DEFESA LATINA para participar desta edição inaugural, ressalto a inestimável contribuição que este periódico dará para a divulgação e a inclusão do tema defesa na agenda nacional, assegurada pela participação, em sua direção e em seu

corpo editorial, de jornalistas especializados no setor e de renomados profissionais e acadêmicos. Parabéns, Nelson Jobim Ministro de Estado da Defesa do Brasil

De: Comando do Exército Para: Defesa Latina A Estratégia Nacional de Defesa (END), lançada no final do ano de 2008, fruto de trabalho presidido pelo Ministro da Defesa e coordenado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos, com a participação dos Comandantes das Forças, cumpre um objetivo governamental de suscitar na sociedade brasileira, particularmente no segmento civil, o interesse pelos assuntos ligados à defesa do país, haja vista que este assunto historicamente ficou ao encargo das Forças Armadas, justamente pela falta de um elo entre a Política de Defesa Nacional (PDN) e a Política Militar de Defesa (PMD) que a END veio completar. Após esse primeiro passo, é fundamental que os propósitos constantes desse documento sejam difundidos nas diversas instâncias do Poder Nacional, com ênfase na política e na econômica, dois dos principais vetores que farão com que a estrutura de defesa atinja a dimensão compatível com a importância que o país vem adquirindo no cenário mundial. Neste contexto, o surgimento da revista DEFESA LATINA, com a proposta de divulgação de temas relacionados à defesa nacional, às Forças Armadas, à soberania nacional, julho-setembro 2009


à indústria de defesa, à tecnologia dual, ao pensamento estratégico e à história militar, vem somar esforços e complementar outras publicações do gênero. Recebam os cumprimentos do Exército Brasileiro pela iniciativa e os nossos votos de que sejam felizes nessa empreitada, transmitindo aos seus leitores todas as informações necessárias ao entendimento e à participação da sociedade na evolução do sistema de defesa do país. General-de-exército Enzo Martins Peri Comandante do Exército

De: Comando da Marinha Para: Defesa Latina Na atualidade, observa-se um contínuo e benéfico crescimento do jornalismo especializado em defesa, o que tem contribuído para a evolução da consciência da sociedade sobre temas de relevância para a soberania nacional, cuja divulgação promove o debate, incentiva o exercício da crítica e gera formação de opinião. Nesse contexto, considero fundamental o aproveitamento de todas as oportunidades para proporcionar maior visibilidade das atividades da Marinha do Brasil junto à opinião pública, intensificando e dinamizando a comunicação social relativa à atuação da Força. Torna-se vital o convencimento, não só da sociedade, mas também do poder político, quanto à importância da “Amazônia Azul” – região assim chamada em razão de seus incomensuráveis recursos naturais, dimensões e potencial econômico, representando, julho-setembro 2009

metaforicamente, ou­tra Amazônia em pleno mar – e das nossas águas interiores tanto para o crescimento da nossa economia como em relação à manutenção da soberania e à garantia dos interesses nacionais. O Brasil não pode prescindir de uma Marinha pronta e de porte compatível com suas responsabilidades constitucionais e que esteja à altura da estatura político-estratégica do país. Isso possibilitará a formação de um círculo virtuoso: atuação>reconhecimento>apoio> mais recursos >mais atuação. Ao pretender despertar o interesse da sociedade brasileira para as questões concernentes às tarefas das Forças Armadas, a revista DEFESA LATINA levará conhecimento e esclarecimento aos profissionais de jornalismo, às comunidades científica e acadêmica, às classes dirigentes, aos núcleos de pesquisa e de produção de bens e serviços, tornando-se mais um importante instrumento na formação de uma mentalidade marítima, necessária à proteção do imenso patrimônio contido na “Amazônia Azul”. Todo esse esforço editorial, que ora se lança no mercado, por certo representará uma parcela indispensável para tornar a Marinha do Brasil mais conhecida e admirada por nossa sociedade, reforçando a existência de um Poder Naval adequado aos interesses do Brasil no mar. Bons ventos à DEFESA LATINA!

De: Comando da Aeronáutica Para: Defesa Latina As novas tecnologias têm permitido aos veículos de comunicação oferecer ao cidadão a possibilidade de acessar um universo incomensurável de informações, exigindo na mídia um jornalismo cada vez mais dinâmico e individualizado. Dessa forma, a segmentação dos veículos de comunicação tornou-se obrigatória como forma de facilitar o acesso a informações específicas, disponibilizando notícias na profundidade de conteúdo que atenda aos diversos segmentos sociais. Nesse cenário tão favorável aos consumidores de informação, é sempre oportuna a oferta de novos produtos midiáticos específicos a assuntos relacionados à defesa nacional, principalmente após a apresentação da Estratégia Nacional de Defesa. Consequentemente, o Comando da Aeronáutica vê com entusiasmo o lançamento da revista DEFESA LATINA pela Editora de Cultura e colocase à disposição para bem divulgar as ações de nossa instituição. Felicidades! Tenente-brigadeiro-do-ar Juniti Saito Comandante da Aeronáutica

Almirante-de-esquadra Júlio Soares de Moura Neto Comandante da Marinha

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radar

Missões comerciais Na América do Sul, as perspectivas de negócios para a indústria de materiais de defesa do Brasil são boas. Daí o desenvolvimento de missões comerciais, que, com apoio dos ministérios da Defesa; do Desenvolvimento, Indústria e Comércio; e das Relações Exteriores, buscam incrementar as vendas externas do setor, cujos sistemas são considerados competitivos e estão presentes em diversas forças armadas, inclusive em países do Primeiro Mundo. No passado, uma única empresa, a Engesa, chegou a vender blindados sobre rodas para 35 países em vários continentes, configurando um exemplo notável da capacidade tecnológica e comercial brasileira.

Ricardo Stuckert/Presidência da República

Chile O Chile, por exemplo, tem mantido suas forças em constante modernização. Há razões geopolíticas para isso. E recursos adequados constam dos orçamentos do Estado, cuja legislação lança mão das receitas da exportação de cobre – uma das principais riquezas do país andino – para amparar as compras. Tradicional cliente da indústria de defesa da Inglaterra, o Chile tem mantido boa sintonia comercial com Israel nessa área nos últimos anos. Várias empresas brasileiras também estão presentes entre os fornecedores das Forças Armadas chilenas. Neste caso, no entanto, a participação pode ser maior, inclusive junto aos Carabineiros (polícia militar). Foi o que constatou em abril a primeira missão comercial enviada ao país vizinho. A relação comercial entre os dois países atingiu em 2008 cerca de US$ 8 bilhões. O Chile tem demonstrado interesse em ter o Brasil como parceiro, inclusive para a diversificação do seu parque industrial nessa área. Em agosto, uma comissão chilena, liderada pela presidente Michelle Bachelet, programou-se para visitar o Brasil, prevendo encontros de negócios inclusive no segmento de defesa.

Depois de encontros com industriais em São Paulo, o presidente Uribe foi para Brasília, onde assinou acordos bilaterais com o presidente Lula

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Colômbia Também são boas as perspectivas no mercado colombiano, onde a estrutura militar projeta renovação de seus materiais de defesa, com disponibilização inicial de cerca de US$ 5 bilhões. Segundo dados da Fiesp, a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da Colômbia está entre as maiores da América Latina e sua economia tem apresentado bom ritmo de expansão, tendo chegado a 7,7% em 2007, informou a agência de classificação de risco Fitch Ratings. As projeções para o corrente ano e o próximo, de acordo com a mesma fonte, são de aumento do PIB de 2,3% e 2,7% respectivamente. Embora a corrente de comércio bilateral ainda seja tímida, dados da Fiesp indicam que o volume cresceu substancialmente, passando de US$ 573 milhões em 1998 para US$ 3,124 bilhões em 2008. Em agosto desse ano, uma missão empresarial brasileira esteve na Colômbia, cumprindo agenda da qual participaram o presidente Lula e o ministro Nelson Jobim, da Defesa. Na ocasião, foram feitas reuniões com autoridades militares e industriais do país. Já em fevereiro de 2009, foi o presidente Álvaro Uribe quem veio ao Brasil. Em julho, outra missão industrial multissetorial brasileira foi programada para realizar rodadas de negócios com representantes de diferentes setores industriais da Colômbia, além de participar de eventos culturais e gastronômicos, com respaldo institucional do Ministério da Defesa. Em resposta, uma comitiva da Colômbia da área de logística militar deverá vir ao Brasil para uma visita ao nosso parque industrial. O evento está sendo planejado pela Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa (Abimde). julho-setembro 2009


Sob nova

direção

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para veí­culos blindados. Por outro lado, está em tramitação no Congresso peruano lei semelhante à Lei do Cobre do Chile, que objetiva garantir investimentos anuais do setor militar com parte dos recursos da venda de gás natural. A Divisão de Exportação da Fiesp já está planejando uma missão comercial ao Peru.

Eduardo Marson Ferreira, que ocupava o cargo de diretor-geral no Brasil do Grupo EADS (European Aeronautics Defence and Space), é o novo presidente da fabricante de helicópteros Helibras desde 1º de junho. Embora jovem, Marson é um executivo com grande experiência no setor de defesa, tendo participado de importantes projetos da EADS no Brasil, entre os quais a ven- Eduardo Marson da do avião Ferreira, presidente Airbus para a da Helibras e do conselho da EADS Pre­si­dê­­­n­cia da Brasil República e 50 helicópteros EC-725 para as três Forças. Seu maior desafio, agora, será ampliar a participação da Helibras na estratégia global de sua controladora, a Eurocopter, pertencente ao consórcio EADS, em cooperação com a indústria brasileira. Cooperação multinacional, aliás, é sua palavra de ordem: “Este é o presente e o futuro das relações empresariais nos setores industriais mais tecnológicos”, escreveu em 2007 num artigo para o jornal Gazeta Mercantil. E completou: “Produzir juntos, vender juntos e ganhar juntos através de projetos cooperativos é um modelo que, atualmente, não apenas determina o sucesso de um produto, mas, no caso de países com capacidade técnica comprovada como o Brasil, pode representar um importante apoio para o desenvolvimento tecnológico, econômico e social”. Ele também passa a compor o Conselho de Administração da EADS Brasil.

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Arquivo DL

Peru Outro país da região que projeta oportunidades de negócios na área de defesa e segurança é o Peru, que, em face da situação de obsolescência dos materiais hoje em operação, disponibilizou US$ 650 milhões para renovar seus equipamentos militares em 2009, lançando inclusive licitação

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Míssil made in Brazil O Exército Brasileiro receberá em breve um lote-piloto do Míssil MSS 1.2 AC (míssil superfíciesuperfície anticarro) de fabricação nacional. A encomenda total feita pelo EB via Centro Tecnológico do Exército (CTEx) compreende 66 unidades de tiro e munição, três simuladores e três equipamentos de teste, compreendendo ainda desenvolvimento e produção de dois mecanismos adaptadores para uso das unidades em viatura e dois sistemas de visão noturna para as unidades de tiro. Trata-se da retomada de um projeto datado de 1986 e paralisado em 1989. O programa, sob a responsabilidade da Mectron e do CTEx, terá duração de quatro anos, com entregas regulares de sistemas completos (armamentos e equipamentos de suporte logístico). Conduzido ao alvo por um feixe de laser projetado no espaço por unidade de tiro terrestre, com sistema óptico independente de apontamento de mira, igual a um periscópio, o míssil brasileiro pesa cerca de 15 quilos, tem alcance de 3 quilômetros e pode ser lançado de paraquedas contra veículos blindados e navios. A Marinha do Brasil também já manifestou interesse pelo mesmo armamento.

Número 100

Embraer

Feliz coincidência: o centésimo Super Tucano saiu para a FAB, primeira a utilizá-lo; os outros compradores são Equador, Chile, República Dominicana e Colômbia.

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Saber mais

Gestão de recursos de defesa Na manhã do dia 26 de junho, a Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) promoveu em sua sede, na avenida Paulista, um ciclo de palestras para os estagiários do Curso de Gestão de Recursos de Defesa (C-Gerd), promovido pelo Departamento da Indústria de Defesa (Comdefesa/Fiesp), com o apoio da Escola Superior de Guerra (ESG). O seminário abordou os temas Ética Empresarial e Comunicação Social nas Forças Armadas, com palestras da jornalista e escritora Márcia Cristina Souza e dos chefes da Comunicação Social do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, respectivamente general-de-divisão Adhemar da Costa Machado Filho, contra-almirante Domingos Sávio Almeida Nogueira e brigadeiro-do-ar Antônio Carlos Moretti Bermudez, que responderam a perguntas dirigidas pelos estagiários do curso. O mediador dos debates foi o jornalista Cosme Degenar Drumond, diretor de redação de Defesa Latina. O C-Gerd, que dura 9 semanas e tem 180 horas/aulas, está em sua quarta edição e tem atraído o interesse de militares, agentes policiais, professores, executivos, empresários e profissionais liberais, o que demonstra a importância da defesa nacional nos vários segmentos da sociedade. Em Brasília, o curso – sempre gratuito e montado para 40 estagiários selecionados por análise curricular – terá início em 31 de agosto, prolongando-se até outubro. A grade curricular contempla três grandes áreas temáticas: Poder Nacional, Relações Internacionais e Política e Gestão de Recursos Públicos.

Mestrado em engenharia de defesa Está programado para ter início em 2010 o primeiro Mestrado lato sensu em Engenharia de Defesa no país, cujo objetivo é aprofundar conhecimentos dos engenheiros de diversas especialidades que trabalham na Base Industrial de Defesa. Um passo importante para viabilizar esse projeto foi dado no dia 2 de junho último, no 1º Workshop de Engenharia de Defesa, realizado pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde). O evento aconteceu nas dependências do Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, e reuniu mais de 40 participantes entre engenheiros, diretores e presidentes das empresas associadas à Abimde, que assistiram à apresentação do primeiro módulo do curso, abrangendo fundamentações dos Estudos Estratégicos, uma visão da Estratégia Nacional de Defesa e os principais programas governamentais para o setor. Fizeram-se representar o Ministério da Defesa e a Rede de Defesa do Sistema Brasileiro de Tecnologia (Sibratec), do Ministério da Ciência e Tecnologia. 10

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Avibras

Aeronave encontrada é a de João Verdi Apoio fundamental Pioneira na criação de um comitê da cadeia produtiva de defesa, que chamou de Departamento da Indústria de Defesa (Comdefesa), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) está inspirando suas congêneres. No Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul , a Fierj e a Fiergs já instituíram seus respectivos fóruns, enquanto a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) anuncia que vai trilhar o mesmo caminho. Por um lado, destaca-se o apoio que o setor produtivo da defesa vem recebendo das instituições públicas. Por outro, as entidades que reúnem os industriais têm reconhecido de forma ostensiva o papel das Forças Armadas em benefício da sociedade brasileira, sobretudo nos rincões mais distantes e isolados do país. No caso da Fiesp, tem havido constante diálogo entre as partes – o que inclui seminários, palestras, reuniões de estudos e, por que não?, também reuniões comemorativas. A última delas foi a homenagem à Marinha do Brasil no início de julho, abrilhantada pela Banda Fuzi Bossa, dos Fuzileiros Navais. Presente, o comandante da Força, almirante Júlio Soares de Moura Neto.

Abril de 1961. A moderna construção aeronáutica brasileira tomava forma. Em São José dos Campos (SP), um grupo de engenheiros que participara dos projetos pioneiros Convertiplano e Beija-Flor trabalhava no desenvolvimento de um avião que revolucionaria os processos até então praticados. Na liderança do grupo, um mineiro de Alfenas, João Verdi de Carvalho Leite, engenheiro diplomado pelo ITA em 1958 na especialidade de Aeronaves e piloto desde os 17 anos. Verdi havia ajudado a montar o laboratório de pesquisas e ensaios mecânicos do Departamento de Materiais do CTA e também participara de estudos sobre tecnologia para o desenvolvimento da microeletrônica. E foi assim que nasceu, naquele mês e ano, a Avibras Indústria Aeroespacial, uma empresa vocacionada para o setor aeronáutico, mas que ganharia destaque no campo da defesa ao conceber e exportar sistemas bélicos de última geração para vários países. Em 23 de janeiro de 2008, uma quarta-feira, ele saiu de sua casa de praia com a mulher, Sônia, e decolou de Angra dos Reis (RJ) para São José dos Campos, onde morava. O helicóptero EC120 Colibri, de prefixo PP-MJV, desapareceu junto com seu comandante, João Verdi (72 anos), e sua esposa. No dia 13 de julho passado, quase um ano e meio de buscas depois, um mateiro encontrou por fim os destroços da aeronave e os restos mortais de Sônia e João Verdi na região serrana de Ubatuba (SP) – na altura da praia de Maranduba, onde, na noite do desaparecimento, moradores teriam ouvido barulho de helicóptero seguido de estrondo. João Verdi foi e será lembrado não apenas por sua participação direta e ativa na evolução das indústrias aeroespacial e de defesa do país, mas também por sua singular figura humana. “Era um exemplo de profissionalismo, talento, ética e criatividade”, diz o jornalista Cosme Degenar Drumond, que conviveu profissionalmente com o engenheiro.

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Arquivo Defesa Latina

Sônia Regina Brasil Leite e o empresário João Verdi

Banda Fuzi Bossa na homenagem à Marinha prestada pela Fiesp

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Agência Brasil

política

Ministro Nelson Jobim, da Defesa

O EMB 145 SA 2 com o dispositivo de alerta aéreo antecipado (AEW)

Alerta n Com o fim do regime militar (1964-1985), os sucessivos governos no Brasil não chegaram a dar importância à defesa nacional, que passou a ser interpretada pelos políticos como “coisa dos militares”, e não como instrumento estratégico do Estado. Em consequência dessa visão equivocada, ano após ano, as Forças Armadas perderam capacidade de dissuasão, enquanto as fronteiras do país se tornavam vulneráveis a atos ilícitos de todos os tipos. Não se compreendia por que o Brasil, dono de imensas riquezas naturais, com posição de líder regional e expressivo PIB nominal, tratava com indiferença seu próprio escudo protetor. Mas essa interpretação política mudou. Sob

a chefia do ministro Nelson Jobim, o Ministério da Defesa resgatou a identidade das Forças Armadas e restabeleceu a importância da defesa nacional para o país ao lançar, em dezembro passado, a Estratégia Nacional de Defesa (END). Portanto, tirar o país de um circulo vicioso – o de, ao longo de toda sua história, haver conduzido seus meios de defesa de forma improvisada – é o que deverá acontecer a partir da aplicação do novo plano governamental, cujo texto, com mais de 90 páginas, prevê sua implementação com base em 23 atos legislativos e administrativos a serem apresentados até o fim de 2009.

Embraer

Reorganização geral O plano apresenta três eixos estruturantes: reorganização do setor militar, reestruturação da indústria de materiais de defesa e composição dos efetivos militares. A modernização do profissional militar é outra meta. “Esse ideal tem de estar encarnado no combatente brasileiro, seja infante, aviador, marinheiro ou fuzileiro. Cada um deles terá de reunir vários atributos, como a capacidade de atuar em rede com outros componentes”, disse a respeito o coordenador dos trabalhos de estruturação do projeto, ministro Roberto Mangabeira Unger, da Secretaria de Assuntos Estratégicos. 14

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na Defesa

Cosme Degenar Drumond

Modernização em três décadas As ações contempladas no plano governamental para a defesa estão lastreados em três tempos para solucionar as questões de equipamentos, armamentos, meios de transporte e suprimentos: julho-setembro 2009

tecnológicos. Nos últimos anos, os investimentos em defesa no Brasil superaram apenas os do Peru e da Argentina no subcontinente. O país chegou a gastar minguados 0,9% do PIB no setor. Em 2006, segundo dados do Fun-

curto prazo até 2014 médio prazo até 2022 longo prazo até 2030 O grande destaque é a participação maciça da indústria brasileira para fornecer os materiais militares, cumprindo papel relevante e estratégico ao mesmo tempo. Nesse sentido, ao apresentar a Estratégia Nacional de Defesa ao Congresso, ainda em dezembro de 2008, o ministro Jobim ressaltou que o desenvolvimento nacional está ligado à defesa nacional: “São premissas inseparáveis e a defesa serve de escudo ao desenvolvimento. Um influencia o outro e quem não tem defesa, não tem capacidade de dizer não”. Nas previsões da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa (Abimde), o faturamento no setor já em 2011 deverá somar R$ 5 bilhões, com geração de R$ 366 milhões em tributos e criação de 20 mil novos empregos diretos. O faturamento poderá triplicar até 2014 e quintuplicar até 2019. Fortalecer a base militar, portanto, significa incrementar a economia nacional e gerar benefícios sociais e tecnológicos de vulto para o país. Exército A mudança de conceitos está no começo e encontra o acervo bélico do Exército bastante desgastado e defasado em termos

CMNE

No distante passado, a solução para reprimir as agressões externas ao patrimônio brasileiro era mobilizar milhares de homens e colocar uma arma na mão de cada um. Índios, escravos e mamelucos pegaram em armas para ajudar a defender o país. Há tempos já não é assim. Hoje, porém, os sistemas inteligentes fazem a diferença, e o Brasil terá de evoluir mais em tecnologias de ponta. A Força Aérea Brasileira (FAB), por exemplo, pretende avançar do atual estágio básico de operacionalidade para um nível mais sofisticado a partir das inovações tecnológicas embarcadas no jato de combate que a instituição pretende adquirir e se encontra em fase final de seleção. A Marinha deverá buscar meios capazes de negar o uso do mar brasileiro a qualquer força naval invasora. O mesmo ideal de vanguarda envolverá o Exército, cujas brigadas de ação rápida cumprirão papel mais relevante no futuro, comunicando-se por enlace de dados e apoiadas por avançados conceitos de logística, doutrina e estratégia.

do Monetário Internacional (FMI) não atingiu 2% nessa área, superado até pela Bolívia, ao passo que a Venezuela ultrapassou os 5% e o Chile, os 3%, seguido de perto pela Colômbia. Para uma ideia do que isso representou para o Brasil, constate-se que 78% da frota de cerca de 1.600 veículos blindados do Exército tem mais de 35 anos de operação. É a mais velha da região. Em termos de aeronaves, a Colômbia possui quase 120 unidades no seu exército, enquanto Peru e Argentina operam aproximadamente 90 unidades cada um. O Exército Brasileiro tem menos de 80 aeronaves. DEFESA LATINA

Blindado da Força Guararapes, do Comando Militar do Nordeste

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Fotos e arte: CCSM

tre (a fronteira México-EUA tem 2.500 quilômetros). A ideia é aumentar o número desses bastiões, mas, antes disso, a Força terá de melhorar a operacionalidade das unidades existentes. A prioridade é dar ao Exército maior capacidade de prontidão, monitoramento e vigilância, mobilidade, de defesa antiaérea e de defesa civil e

Submarinos Tupi e Tikuna

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Mas não adianta chorar sobre o leite derramado. Com as novas medidas oficiais, em curto prazo o Exército Brasileiro terá condições materiais para enfrentar antagonismos no entorno nacional. Hoje, são 26 brigadas e um comando de aviação. As estratégias de emprego estão diretamente relacionadas a dissuasão, presença, resistência e projeção de poder. Em se tratando de presença, há apenas 71 quartéis ao longo dos 15.700 quilômetros de fronteira terresDEFESA LATINA

GLO, isto é, missões de garantia de lei e ordem. Os projetos mais urgentes contemplam uma nova família de blindados de rodas, o veículo aéreo não-tripulado (UAV), a defesa antiaérea, sistemas de comando e controle e de guerra eletrônica, míssil anticarro, morteiros médios e pesados, arma leve anticarro, equi­­pa­men­ tos de visão noturna e fuzil 5.56 mm. Do plano de articulação, em curto prazo, será aumentado o número de Pelotões Especiais de

Fronteira. Hoje, são 21; deverão passar para 28 unidades. Em médio prazo, o Exército vai iniciar a implantação e transformação das Brigadas, processo que deverá ser concluído já no limite do longo prazo, por volta de 2030. Até lá, os investimentos do Exército para as novas metas deverão totalizar R$ 65,8 bilhões. Só a nova família de blindados custará R$ 15,5 bilhões até 2022, com adicional de R$ 10 bilhões para fechar o ciclo de longo prazo. Marinha Como no Exército, o plano de reequipamento da Marinha é antigo e decorrente de necessidades bem latentes. Se nada fosse feito, a Armada certamente teria suas atividades asfixiadas no médio prazo. Mas a Estratégia Nacional de Defesa projeta no-

vos horizontes para a Marinha. Em curto, médio e longo prazo, ela poderá modernizar seus cinco submarinos convencionais das classes Tupi e Tikuna, construir outros 15 da classe Scorpène e obter seis unidades de propulsão nuclear com capacidade de operar a 350 metros de profundidade, em velocidade de 24 nós (44 km/h), tripulados por 70/80 homens. O porta-aviões São Paulo deixa a desejar ultimamente. Afinal, seus jatos de interceptação e ataque (AF-1 Skyhawk) julho-setembro 2009


carecem de modernização. A própria belonave entrará em regime de modernização e dois outros navios-aeródromos deverão ser adquiridos. Na realidade, em termos materiais, a esquadra será inteiramente renovada com quatro novos navios de propósitos múltiplos, 30 de escolta, quatro de transporte de apoio, cinco de apoio logístico, 12 de 1.800 toneladas, 46 de patrulha (500 toneladas), quatro de 200 toneladas e 14 de patrulha fluvial, cinco de assistência hospitalar, oito para transporte fluvial, oito varredores, oito caça-minas, um oceanográfico, um polar, 13 rebocadores de alto-mar e 926 embarcações menores para operações básicas e de apoio. Para modernização, deverão entrar em diques três navios de patrulha fluvial, quatro caça-minas, cinco rebocadores de altomar, um de apoio logístico, sete de escolta (fragatas classe Niterói e a corveta Barroso) e um de assistência hospitalar. Na aviação naval, além dos 12 AF-1 Skyhawk, serão modernizados seis helicópteros de ataque AH-IIA Super Lynx e adquiridos 48 jatos de interceptação e ataque tipo F-18 e Rafale, oito aviões de alarme aéreo antecipado, vigilância ma-

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rítima, transporte administrativo e reabastecimento em voo, 16 helicópteros de múltiplo emprego, veículos aéreos não-tripulados, 66 helicópteros de emprego geral de médio porte, 60 helicópteros de emprego geral de pequeno porte e 30 de instrução.A Marinha será reforçada com 78 carros lagarta anfíbios (CLAnf), 26 carros de combate (CC) tipo SK-105AT, 42 viaturas blindadas sobre rodas para transporte de pessoal (VB TP SR), seis baterias de artilharia de campanha, uma bateria de lançadores múltiplos de foguetes (LMF), dois sistemas de defesa antiaérea (SisDefAAe) e dois sistemas de guerra eletrônica (SisGE), além de modernização de 30 viaturas blindadas de transporte de pessoal sobre lagartas (VB TP SL) e outras 42 viaturas do mesmo tipo. Como nenhum equipamento bélico opera sem munição, estão previstas compras de torpedos pesados e leves, minas de contato e influência (MCI), mísseis superfície-superfície (MSS), mísseis superfície-ar (MSA) de curto e médio alcance, mísseis ar-superfície (MAS) de médio e longo alcance, mísseis anticarro (MAC), foguetes ar-solo de curto alcance, despistadores de mís-

seis, bombas de profundidade e de aviação, munição convencional, explosivos e pirotécnicos. Deverão ser estruturadas uma 2ª Esquadra (três bases: naval, aeronaval e de abastecimento) e também uma 2ª Divisão Anfíbia (base de fuzileiros navais). O Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), braço industrial da Armada, será revitalizado. A Base Naval do Rio de Janeiro será ampliada e modernizada, enquanto uma base e um estaleiro de submarinos serão construídos em Itaguaí (RJ). Por fim, será criada uma Estação Naval em Tabatinga, no Amazonas, prevendose ainda obras de ampliação das bases e estações navais de Rio Grande (RS), Rio Negro (AM), Aratu (BA), Ladário (MS) e Valde-Cães (PA) e de construção de paióis. Fechando o ciclo de conquistas, a Marinha consolidará o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul por Satélites. Os investimentos serão, no curto prazo, de R$ 12.636 bilhões; no médio prazo, de R$ 31.248 bilhões; e de R$ 31.581 bilhões no longo prazo. Após 2030, a Marinha investirá mais R$ 15.625 bilhões em materiais suplementares. O total dos investimentos chegará a R$ 91 bilhões, ou 0,2% do PIB.

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Legacy 500

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Avibras

Veículo aéreo não-tripulado da Avibrás

AERONÁUTICA No início da próxima década, a Força Aérea Brasileira (FAB) receberá novas aeronaves de emprego geral. Em seguida, no período de 2014-2016, os 36 caças do Projeto F-X2. Em 2014, chegam os primeiros aviões de transporte tático KC-390, da Embraer, cerca de 30 aeronaves. Os planos de aquisição abrangem também quatro C-105, quatro KC-X2, dois VC-2, dez C-98 e quatro C-97, além de oito jatos executivos Legacy 500 para transporte de autoridades. A modernização de curto prazo vai contemplar 57 F-5, 43 A-1 (AM-X), 41 C-95 e 18 Hércules, cinco E-99M e três R-99M, além de 13 P-95M. Diversos F-5 já foram modernizados e entregues à Força. Na área de helicópteros, estão previstas compras de dez H-60, 12 AH-2 e 18 EC-725, que deverão entrar em operação em meados da próxima década. No longo prazo, 41 C-X2 substituirão os atuais C-97 Brasília e C-95 Bandeirante (2020-2028), ao passo que 21 TH-X substituirão os helicópteros H-50 de instrução. No período 20192030, deverá ser desenvolvido o F-XBR, futuro caça de fabricação nacional. Estão previstos 52 exemplares para entrega entre os anos de 2030 e 2036. Uma aeronave de patrulha marítima também 18

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deverá ser fabricada no Brasil, o P-X2, com produção seriada de 21 unidades prevista para o período 2020-2028. Há ainda a previsão para desenvolvimento e fabricação de cinco E-X, visando complementar as necessidades de controle e alarme em voo – o que deverá acontecer entre os anos de 2017 e 2025 –, e também de novos R-X de reconhecimento estratégico. Entre 2020 e 2028, serão três aeronaves desse tipo. Quanto aos veículos aéreos não-tripulados, serão 30 unidades nos modelos RE e CBT, meio a meio, para maior precisão em monitoramento e controle do território brasileiro. Esses pequenos aviões são o futuro na aviação militar, inclusive para missões de combate. No caso brasileiro, eles serão desenvolvidos e fabricados no período de 2011 a 2023. Satélites de órbita polar, satélite geoestacionário (comunicações) e estações fixas e móveis de controle de solo estarão interligando as operações da Força a partir de 2015. Na parte de armamentos, serão desenvolvidos e adquiridos kits de bomba GPS e a laser, mísseis ar-ar de curto e médio alcance, mísseis antirradiação (MAR), mísseis superfície anticarro (MASAnav), mísseis ar-superfície, mísseis solo-ar de média altura (MASMABR) e alvo aéreo manobrável.

As necessidades continuarão impulsionando as Forças Armadas para novos níveis tecnológicos. Se eventualmente o país tiver de agir contra adversário menor, o F-X2 e os mísseis de cruzeiro poderão resolver a questão. Mas, para confrontar forças poderosas, isso não basta. O novo patamar exigirá tecnologia mais sofisticada, sobretudo em eletrônica e integração. Paralelamente, o parque industrial terá de estar plenamente maduro em tecnologias de ponta e, destaque-se, funcionando plenamente coeso. Sem isso, a confiança nas vanguardas será inútil e o país ficará sem blindagem segura contra as ameaças que o patrimônio nacional poderá vir a sofrer no futuro. Os custos para o reaparelhamento das Forças Armadas podem dar a impressão imediata de que são monumentais. E realmente o são. Contudo, são relativamente baixos, considerando-se o longo prazo. O Brasil tem tido receitas da ordem de R$ 1,3 trilhão por ano. Quando 2030 chegar, quanto os atuais investimentos na Defesa Nacional estarão representando em percentuais relativos, comparativamente às receitas anuais do país, já que são fixos? É só fazer as contas. julho-setembro 2009


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entrevista General-de-exército José Elito Carvalho Siqueira, Secretário de Ensino, Logística, Mobilização, Ciência e Tecnologia do Ministério da Defesa

Desde adolescente, o sergipano José Elito Carvalho Siqueira queria ser oficial do Exército. Nascido em Aracaju em 1946, foi aprovado aos 18 anos no concurso para a então Escola Preparatória de Cadetes do Exército, sediada em Campinas (SP). Cinco anos depois, consolidava sua vocação profissional ao ser declarado aspirante-a-oficial de Infantaria. Ao longo de sua trajetória, realizou cursos de especialização e de aprimoramento, exerceu cargos de prestígio no Brasil e no exterior e galgou todos os postos da carreira militar. Dentre outras funções, comandou a 16ª Brigada de Infantaria de Selva, o 28º Batalhão de Caçadores, a Polícia Militar do Estado de Alagoas e a Aviação do Exército. Foi também Adido Militar e Aeronáutico na África do Sul, oficial de gabinete do então Ministério do Exército e da Casa Militar da Presidência da República. Em 2006, esteve à frente da Força de Paz no Haiti. Por onde passou, mostrou dedicação e competência. Foi condecorado no Brasil e em países como Chile, Argentina, Guatemala, Espanha, Uruguai, Líbano e Portugal, tendo ainda uma condecoração da Organização das Nações Unidas (ONU). Ao ser nomeado para o cargo que ocupa no Ministério da Defesa, detinha o Comando Militar do Sul, em Porto Alegre (RS), função que exerceu até novembro de 2008. Em Brasília, uma de suas responsabilidades é assessorar o ministro nos assuntos mais estratégicos da vida nacional conduzidos pelo Ministério da Defesa. Sua atuação adquiriu importância ainda maior com o recente lançamento da Estratégia Nacional de Defesa, documento de Estado que prevê mudanças estruturais nas Forças Armadas e o envolvimento concreto da indústria brasileira no aparelhamento militar. Cumprindo suas atribuições, o general José Elito reúne-se frequentemente com empresários e entidades do setor. Numa dessas oportunidades, Defesa Latina o convidou para ser o entrevistado da edição inaugural. Receptivo e gentil, o general falou sobre este momento particular da defesa nacional. 20

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O Brasil vive um tempo de decisões importantes no campo da defesa. Como o senhor ana­lisa este momento? A publicação do Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008, contendo a Estratégia Nacional de Defesa, marca, sem dúvida, um novo momento e o comprometimento da nação com o sensível e estratégico tema da defesa. Nos últimos 25 anos, nas três Forças, projetos de alta relevância estratégica não lograram consolidação, como o FT-2000 no Exército Brasileiro, por exemplo. O senhor é um soldado preparado para o combate. Como acompanhou essa realidade? Essa situação não foi um problema brasileiro isolado. Com a queda do Muro de Berlim em 1989, houve um natural e necessário reajuste nas estruturas de defesa de vários países do mundo e em suas políticas e estratégias. Como soldado, sinto que, com um documento de Estado que prioriza e interliga permanentemente defesa e desenvolvimento, poderemos finalmente ter orça­mentos contínuos e planejamentos que evitarão situações como as mencionadas. A Estratégia Nacional de Defesa (END) visa, também, modernizar e robustecer a capacidade militar do país. Nesse aspecto, quais os principais julho-setembro 2009

benefícios para a sociedade? Para atingir essas e outras metas, é compulsório um nível tecnológico adequado. Esse nível somente será alcançado com o envolvimento de toda a indústria nacional e a crescente participação do seu recurso humano. Portanto, os grandes benefícios para a sociedade serão a maior inserção de todos pelas oportunidades que surgirão e a certeza da garantia do nosso maior patrimônio – nossa Pátria. O Brasil está preparado para reprimir potenciais agressões futuras ao patrimônio nacional, sobretudo na Amazônia? Há vários anos que a Amazônia já é considerada uma área prioritária. A Estratégia Nacional de Defesa ratifica essa posição e destaca outras áreas também fundamentais para a manutenção da soberania nacional – e, em consequência, para o desenvolvimento do Brasil. As Forças Armadas, apesar dos óbices que enfrentam, estão em condições de cumprir sua missão constitucional. Mas precisam, permanentemente, se modernizar. Segundo a Estratégia Nacional de Defesa, a reorganização das Forças Armadas passa pela redefinição do papel do próprio Ministério da Defesa. O que é isso e como se processará? Os três eixos estruturantes estabelecidos na Estratégia são a reorganização das Forças Arma-

Arquivo Defesa Latina

As Forças Armadas, apesar dos óbices que enfrentam, estão em condições de cumprir sua missão constitucional. Mas precisam, permanentemente, se modernizar.

das, da indústria de defesa e a composição dos efetivos das Forças Armadas. Esses são pilares, mas a END estabelece diretrizes para várias áreas, inclusive na possibilidade de reestruturação do Ministério da Defesa. Estaremos em 2009 executando essas tarefas impostas pela END. As Forças Armadas modernas desenvolvem suas operações estratégicas apoiadas na chamada “arquitetura de sistemas inteligentes basea­ dos em rede”. Como estamos nessa área? É também uma das prioridades da END quando define três setores de importância estratégica: o cibernético, o espacial e o nuclear. Os nossos sistemas certamente serão priorizados e modernizados regularmente. O senhor poderia explicar de modo simples o significado e a importância de logística e mobilização para o país? Podemos afirmar que não há sucesso estratégico/operacional DEFESA LATINA

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sem o adequado apoio logístico. E quando a nação convocar suas Forças Armadas para garantir a sua soberania, estas precisarão, também, da mobilização nacional de pessoal, material e infraestrutura para cumprir sua missão constitucional. Concluindo, sem logí­stica e/ou mobilização, poderemos fracassar.

nas suas especificidades e nas possibilidades de ameaça. O domínio de tecnologias adequadas e um recurso humano preparado e bem-equipado são fatores de sucesso de qualquer país. É lógico, portanto, que o Ministério da Defesa e as Forças estejam permanentemente atentos a este e outros temas semelhantes.

e do seu povo. O senhor ministro da Defesa tem destacado que não seremos mais compradores de produtos acabados, e sim parceiros em toda a cadeia produtiva e com a obrigatoriedade de transferência total ou parcial de tecnologia. É um foco estratégico que certamente trará grandes benefícios.

As novas tecnologias revolucionaram os conceitos de guerra. Mísseis de grande alcance e veículos aéreos não-tripulados, por exemplo, já são considerados equipamentos indispensáveis na defesa de um país. Existe estudo no Ministério da Defesa voltado para atender o país nesse ambiente? Obviamente, as estratégias dos países são muito distintas, pois baseiam-se

O parque industrial de defesa deve funcionar integrado aos centros de pesquisas das Forças Armadas e a universidades. O Ministério da Defesa tem trabalhado no sentido de tornar essa sintonia forte e integrante do processo de desenvolvimento tecnológico do país? Baseado no eixo estruturante denominado “reorganização da indú­stria de defesa”, a END estabelece várias diretrizes visando implementar maior integração dos setores acadêmico, militar e industrial. Várias metas estão previstas para 2009 com essa finalidade.

O senhor é um líder militar com notável experiência profissional, tendo participado inclusive de uma Missão de Paz da ONU. Como foi essa sua experiência no exterior? Foi uma experiência de vida, pessoal e profissional, totalmente inusitada, mas acima de tudo uma grande honra poder comandar cerca de 7 mil homens de 20 nações em missão real. Cabe destacar aqui o valor do militar brasileiro no cumprimento de tão sensível missão. O sucesso da Minustah [sigla da missão no Haiti] é de todos, mas o desempenho do Brasil foi e é fator determinante em todas as ações naquele pobre e especial país.

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O que o empresário do setor pode esperar dessas novas diretrizes para elevar sua produção e atender às necessidades do país nesse campo? Como temos enfatizado, vemos um momento especial para todos, porque, finalmente, a Nação está comprometida com a valorização da defesa em benefício do país

Para finalizar, o senhor gostaria de fazer neste espaço algum comentário adicional? Apenas agradecer a oportunidade da entrevista e desejar muito sucesso a todos os que contribuem, direta e indiretamente, na edição da nova revista Defesa Latina. julho-setembro 2009


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capa

CCSM

Cecomsaer

Guerreiras do Tudo começou na Marinha A Marinha foi a primeira a admiti-las em seu efetivo. São 3.440 mulheres ocupando postos e graduações, desde 1980, quando foi criado o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM). Ainda não são aceitas em navios, batalhões de Fuzileiros Navais ou unidades operativas, mas, nessa Arma, a carreira militar lhes possibilita chegar ao almirantado. A paulista Sandra Lúcia Ferreira da Câmara Chaves, hoje capitão-de–mar-e-guerra, foi uma das pri­meiras a ingressar na Marinha, em 1981. Formada em Serviço Social pela Pontifícia Universidade

longas marchas pela selva com uniformes camuflados, coturnos, fuzis e mochilas pesadas, além de encontrar disposição física e mental para enfrentar outras missões iguais às dos homens em suas respectivas Armas. É o que dispõe a Estratégia Nacional de Defesa para o futuro próximo.

Católica de São Paulo (PUC-SP), especializou-se em Administração Hospitalar pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e em Serviço Social pela PUC-Rio. Já serviu no Rio de Janeiro e em Belém (PA). Agora, é vice-diretora do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo. O interesse pela

carreira militar começou a partir de uma propaganda sobre a mulher nas Forças Armadas. “Havia três vagas para oficiais formadas em Serviço Social e senti curiosidade”, recorda. Apesar das restrições iniciais do pai, ela teve o apoio da mãe e da irmã mais nova e seguiu seu caminho. Durante o curso de adaptação, no Rio de Janeiro, sua maior dificuldade foi o afastamento da família. Diz que nunca se sentiu discriminada na corporação por ser mulher. “Tive sempre a oportunidade de atuar na minha área de formação, voltada para recursos humanos”. Já a primeiro-tenente Laine Chapada de Amorim, do Rio Arquivo pessoal

A presença feminina nas carreiras das Forças Armadas completa 28 anos neste ano. Com números impressionantes: elas já são quase 14,5 mil no Exército, na Marinha e na Força Aérea. Estão em hospitais, na comunicação social, nas cabines dos aviões e em missões em outros países, como Iraque, Timor-Leste e Haiti. E, claro, fundamentalmente em áreas que as mantêm longe das frentes de combate. Mas isso vai mudar. Elas serão convidadas a deixar a farda de passeio, os sapatos de salto e o trabalho burocrático para trás, assim como suas famílias, passando a encarar

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A primeiro-tenente Laine Chapada de Amorim: orgulho de pertencer à Marinha do Brasil

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Luiza Lusvarghi

CComsex

Brasil de Janeiro, é psicóloga formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Armando Álvares Penteado. Saiu oficial em 2004. Desde 2005, serve no Comando do 8º Distrito Naval, em São Paulo. “Durante o estágio em duas organizações militares, eu me identifiquei com o ambiente organizado e formal de trabalho. Observei que a hierarquia e a disciplina são os fatores diferenciais das Forças Armadas”, assinala. O atrativo que a levou à Marinha foi a remuneração, “bem acima do que as jovens psicólogas recebem ao concluir o curso, e de acordo com o posto que ocupamos, não com a profissão”. No curso de adaptação e formação militar, de nove meses, ela enfrentou algumas dificuldades iniciais, fruto da inexperiência. “Para superá-las, contei com a orientação de militares experientes e procurei o aprimoramento profissional a­tra­­v­és­ de uma pós-graduação na área gerencial”, conta. Laine diz que tem orgulho de pertencer à Marinha, ter estabilidade no emprego e plano de car­reira julho-setembro 2009

definido, com igualdade de condições para evoluir. Acredita que, da década de 1980 para cá, a imagem da mulher mudou não apenas na Marinha, mas na sociedade de modo geral. “Quando entrei na Força, a presença da mulher no meio militar já era algo comum”. A mulher no Exército A primeira missão da ONU a enviar militares brasileiras para uma zona de conflito foi a do Iraque. A primeira Missão de Paz aconteceu no Timor-Leste e seu sucesso abriu caminho para a presença feminina no Haiti. Em 2008, o Batalhão Brasileiro de Infantaria de Força de Paz (Brabat) participou ativamente das operações de resgate aos soterrados pelo desabamento da escola La Promesse, em Porto Príncipe, capital do Haiti, que provocou a morte de cerca de 90 pessoas, a maioria crianças. A capitão médica Carla Maria Clausi participou dessa operação. Ela entrou para o Exército em 1996, como médica voluntária. Até então, o acesso só era permitido a enfermeiras e médicas veterinárias. Com o concurso aberto nesse mesmo ano para médicas, dentistas e farmacêuticas, inscreveu-se e, aprovada, seguiu para a Escola de Saúde do Exército, no Rio, de onde saiu oficial. A dra. Carla já foi chefe da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e do Serviço de Cardiologia do Hospital Geral do Exército em Curitiba, onde serve, e fez especialização no Centro de Capacitação Física do Exército (CCFEx). Foi a primeira mulher a cumprir essa etapa. Esteve na Bélgica por dois anos e, em 2007, cursou a Escola

de Aperfeiçoamento de Oficiais – passo indispensável para o prosseguimento na carreira, equivalente ao mestrado. Em 2008, foi convocada para a Minustah, a missão da ONU para a estabilização do Haiti. “Eu sempre gostei muito das coisas do Exército, de armas, de atirar... Era a única filha entre outros quatro irmãos. Meu avô, um italiano, lutou na Grande Guerra e recebeu a Medalha de Prata do Exército Italiano por bravura em combate”. O pai de Carla praticava tiro e tinha armas em casa, entre elas, pistolas Lugger e Steier – esta última capturada pelo avô em combate contra uma tropa austríaca. Ela aprendeu a atirar com o pai, foi bandeirante na infância e adolescência e sempre gostou dos chamados “esportes radicais”. Paraquedista de salto livre, mergulhadora, esgrimista (florete), corredora de orientação (esporte de campo, guiado por mapa e bússola) e de rally de regularidade, é também esquiadora em água e neve. Diz que sempre achou os militares charmosos em suas fardas. Em 1986, conheceu um oficial do Exército durante um curso de corrida de orientação, do qual ele era instrutor, com quem se casou dois anos depois. Carla jamais imaginou que seguiria a carreira militar. Mas lá está ela nas missões de solidariedade do Exército. A participação das brasileiras nessa Força não é coisa de hoje. A baiana Maria Quitéria de Jesus Medeiros (1792-1853), por exemplo, hoje patrono do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro, foi a grande heroína das lutas pela Independência na Bahia no início do DEFESA LATINA

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ONU/ Marco Dormino

século XIX. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), um grupo de enfermeiras serviu no teatro da Itália como voluntárias – a mais conhecida delas foi a major Elza Cansanção, que em 2004 se

A capitão médica Carla Maria Clausi, em missão no Haiti

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tornou a primeira escritora militar imortal, ao assumir a Cadeira 3 da Academia Alagoana de Letras. Diz Carla que a grande diferença entre essas pioneiras e as de hoje “é que temos mais facilidades do que elas, principalmente em termos de conforto nas instalações e, claro, por não estarmos em guerra... Mas ainda não temos uniformes operacionais sob medida, coletes táticos ou fuzis um pouco mais leves, ou um pouco menores, pela nossa menor força física”, compara. E, claro, as pioneiras não faziam carreira em nenhuma das Armas. As peacekeepers, quer dizer, as que participam de missões de paz, são mais facilmente aceitas pela população em geral. O episódio do resgate das crianças no desabamento da escola no Haiti, por exemplo, foi episódio que lhes trouxe aplausos. E muitas emoções também, diz a oficial médica. “O procedimento do resgate foi dramático, pois permanecemos por cerca de seis horas e meia trabalhando num ambiente pesado, vivenciando a dor, o medo e o sofrimento daquelas crianças, e sob forte calor, DEFESA LATINA

com escassez de luz, com sede, em meio à caliça que caía constantemente sobre nossas cabeças e correndo o risco de sermos todos soterrados”, revela. A população haitiana tem excelente relacionamento com os militares brasileiros. Vê-se a bandeira do Brasil pintada nos tap-taps (veículos de transporte coletivo no Haiti) e nos muros, assim como é comum encontrar pessoas usando camisas da Seleção Brasileira de Futebol. “Para eles, somos bombagais, termo do idioma créole (derivado do francês) que significa “amigo”, diz. Numa missão internacional, estar habilitada em uma ou mais línguas estrangeiras faz parte das exigências. Atualmente, são três mulheres no 10° CTG e 1.200 homens. Carla fala inglês, francês, espanhol e italiano. Ela é apenas um exemplo das muitas mulheres que buscaram a vocação militar. Na Bahia, funciona o curso de adaptação ao Exército para as oficiais jornalistas concursadas. Presença feminina na Força Aérea A primeira turma de mulheres foi admitida na FAB em 1982. Em 2003, já eram 2.105, passando para 6.255 em 2009. São oficiais e sargentos. Em Guaratinguetá (SP), a Escola de Especialistas da Aeronáutica (EEAer) abre concurso anual para graduados técnico-especializados. O curso de oficial é feito na Academia da Força Aérea (AFA) em Pirassununga (SP). Em 1999, 17 cadetes mulheres concluíram o curso de oficial de intendência, de quatro anos de duração. Hoje, elas já estão no posto de capitão.

Em São José dos Campos (SP), o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) também forma oficiais mulheres no curso de engenharia aeronáutica. Mas, enquanto as formadas na AFA têm a carreira militar assegurada, isso nem sempre acontece com as do ITA. É que o número de vagas para engenheiro militar é menor do que o número de diplomados anualmente. Assim sendo, a maioria opta pelo mercado civil. A capitão intendente Larissa Leocadio serviu por cinco anos no Parque de Material Aeronáutico do Galeão, unidade que realiza a manutenção das aeronaves da FAB no Rio de Janeiro. Depois, por dois anos, foi auditora da Subsecretaria de Auditoria da Aeronáutica. Desde 2007, trabalha na Divisão de Contratos e Convênios da Secretaria de Economia e Finanças da Aeronáutica (Sefa) em Brasília. Ela abraçou a carreira militar porque seu pai povoava sua infância com relatos sobre o serviço militar obrigatório, que prestou no 1º Batalhão de Guardas do Exército, no Rio. Aos 17 anos, quando Larissa estudava para o vestibular, a AFA abriu seus portões para as mulheres. Ela se apresentou e passou no concurso, assim como foi aprovada nos vestibulares para Medicina da UERJ e Engenharia Mecânica na UFRJ. “Vejo as mulheres motivadas a seguir a carreira quando surgem as oportunidades. Nos cursos de formação de oficiais médicos, dentistas e farmacêuticos da Aeronáutica e de oficiais temporários, cujos concursos não separam vagas específicas pelo julho-setembro 2009


sexo, já tivemos turmas formadas predominantemente por mulheres, com cerca de 90%. O mesmo pode ser observado nos cursos de formação de sargentos”, comenta. A AFA é pioneira na admissão de cadetes mulheres. A Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), do Exército, e a Escola Naval (EN), da Marinha, ainda não abriram concurso para o público feminino. Mas é questão de tempo. Desde 2004, a AFA ministra também o curso de oficial aviador para mulheres. A primeira turma formou-se em 2006. O intendente e o aviador podem chegar a oficialgeneral, assim como o médico, o engenheiro e o infante. Larissa diz que viveu experiências grandiosas, entre elas, saltar de paraquedas, aprender a atirar, aplicar técnicas de sobrevivência na selva e no mar e conviver em grupo com pessoas de culturas diferentes. Diz ela que amadureceu rapidamente com a disciplina e a ordem impostas pela rotina militar. “A AFA me deu autonomia e uma visão muito lógica da vida”, avalia. Larissa pertence à primeira turma mista de oficiais da AFA. “Minha turma carregou a expectativa de que o curso na Academia daria certo. Isso gerou um senso de responsabilidade e comprometimento generalizado, tanto nas mulheres quanto nos homens da turma”, recorda a oficial intendente ao mesmo tempo que reconhece sua contribuição como parte ativa nessa história de pioneirismo. A FAB também oferece às mulheres oportunidades de ingresso nas áreas de saúde, técnica e administrativa. Elas podem ingressar como sargenjulho-setembro 2009

A MULHER NAS FORÇAS ARMADAS DA AMÉRICA LATINA

tos (nível médio) e como oficiais (nível superior). Para aquelas que já concluíram o nível superior, o ingresso se dá no Quadro Complementar de Oficiais, que apresenta amplo leque de especialidades, como jornalismo e relações públicas.

Mirian Paglia Costa Em seu estudo “As mulheres chegam aos quartéis” (*), datado de 2005 e publicado pela Red de Seguridad y Defensa de la América Latina, a cientista política brasileira Suzeley Kalil Mathias analisou a situação da mulher-soldado nas Forças Armadas latino-americanas – em particular naquelas do “Mercosul ampliado”, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O pano de fundo da entrada das mulheres nas Forças Armadas na região do Mercosul é a transição dos “regimes autoritários burocráticos” dos anos 1960-1970 – as ditaduras militares – para governos democráticos a partir dos anos 1980, como se vê no primeiro quadro. Conforme a professora, o recrutamente militar feminino nos países da América Latina seguiu as linhas gerais do processo ocorrido no Brasil e nos países da Organização do Atlântico Norte (Otan): incorporação em quadros complementares das Forças, nos quais as mulheres desempenham funções de menor prestígio, porque não ligadas diretamente ao combate – entre essas atividades, cargos administrativos, de ensino e saúde. A grande exceção entre os países estudados é o Uruguai, onde mulheres e homens têm o mesmo status como militares, com funções, responsabilidades e direitos iguais.

Mais igualdade Parte do Plano Estratégico Nacional de Defesa adianta que dentro dos próximos anos as atribuições das moças devem aumentar. O texto determina três ordens de meios e de habilitações para elas: atuação em rede (trabalho em combinado com as três Forças); conhecimento e habilidade para usar meios de mobilidade terrestres e aquáticos e capacitação para o combate. A ideia é que elas recebam treinamento focado em flexibilidade, adaptabilidade, audácia e surpresa no campo de batalha.

Ano de ingresso feminino na carreira militar

País (*)

Argentina Brasil Chile Uruguai Paraguai Bolívia

Corpo Profissional

Terrestre

Naval

Aérea

1982 1981 1992 1980 1974 2003 1996 1998 1970 s/d 1982

1982 1982 1974 1994 s/d 2004

Corpo de Comando

Terrestre

Naval Aérea

1997 2001 1998 1998 1995 2007 1998 2000 2003 2003 1979

2001 2001 2000 1997 2003 2007

Fonte: Organismos e documentos oficiais dos países, Resdal (Red de seguridad y defensa de la América Latina) (*) A tabela original contempla outros países da região. Selecionamos apenas os dados do Mercosul ampliado.

Condições de incorporação feminina às Forças Armadas no Mercosul ampliado

País

Acesso a armas de combate?

Acesso ao oficialato superior em quais Forças?

Argentina Brasil Chile Uruguai Paraguai Bolívia

não não sim sim não não

todas Força Aérea Força Aérea todas Exército Exército

Qual Força iniciou Quanto tempo até a incorporação? a incorporação integral?

Força Aérea Marinha Exército Exército Exército Exército

2 anos 12 anos 7 anos 3 anos não houve não houve

Fonte: Comando das forças singulares dos países

DEFESA LATINA

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LAAD 2009

A próxima edição da LAAD está programada para acontecer entre os dias 12 e 15 de abril de 2011

Bienal da Defesa gera negócios

Lucca Alves

Imprensa RJ: Carlos Magno

A Latin America Aero and Defence (LAAD), maior exposição de materiais de defesa do Cone Sul, é uma vitrine fascinante. São tantos os equipamentos em exibição que o visitante se surpreende ao se encontrar, de repente, diante de um míssil que conhece de ouvir falar, um foguetinho de

O presidente Lula, o ministro Jobim e o governador Sérgio Cabral na LAAD 2009

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nada, mas com enorme poder bélico. Mais estupefato fica ao saber que a tecnologia que compõe o armamento, o laser, por exemplo, é também usada para salvar vida. No campo da defesa, a dualidade do conhecimento revelou a informática, o GPS (Global pos­itio­­­­ning system) e outros produtos que facilitaram a vida da sociedade.A sétima edição da feira, a LAAD 2009, ocorrida em meados de abril, atraiu para o Rio de Janeiro profissionais, especialistas e admi­ra­dores do setor. Ocupou um dos pavilhões do Riocentro, na barra da Tijuca, onde reuniu quase uma centena de empresas do Brasil e representantes DEFESA LATINA

de grupos empresariais de 40 países. O público visitante foi estimado em 18 mil pessoas. Os comentários pós-evento mostram que as empresas voltaram às suas sedes satisfeitas com os resultados que colheram no Riocentro. As feiras são um balcão de promoção de produtos. Com o tempo, as conversações ali iniciadas geram negócios. O presidente Lula visitou a feira, na companhia do governador e do prefeito do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, e de autoridades civis e militares. O presidente esteve nos estandes, sempre mostrando simpatia e inte­resse em conhecer as tecnologias em exposição. O Ministério da Defesa foi o anfitrião do evento, juntamente com as Forças Armadas. A feira é organizada pela Clarion Eventos, empresa britânica com sucursal na capital paulista

e de possibilidades de negócios, foi importante”. Sérgio Jardim, da Clarion Eventos, diz que a presença dos delegados estrangeiros é de fato significativa, pois são tomadores de decisão em seus países. Com as novas perspectivas do aparelhamento do setor militar brasileiro, as Forças Armadas foram cortejadas na LAAD. No centro da exposição, um grande estande com salas de reuniões concentrou representantes e negociadores da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, com destaque para a apresentação da Estratégia Nacio­ nal de Defesa pelo Ministério da Defesa. A movimentação de empresários no estande central foi visível. Os próprios comandantes das Forças reuniram-se com expo­ sitores e visitantes. Quanto às perspectivas de negócios, o ministro Nelson Jobim disse que o Brasil não quer ser

No comentário geral, a LAAD agradou. Para o almi­rante Marcelio de Castro Pereira, presidente da Em­pre­sa Geren­cial de Projetos Navais ­(Emge­pron), ligada à Marinha, a feira se destacou pelo aspecto internacional. “Foi uma excelente oportu­ nidade para manter contatos antigos, discutir ideias e pro­ jetos e apresentar novas propostas. Em termos de contatos

apenas comprador, mas parceiro dos países que produzem materiais de defesa, pois a intenção é que o aparelhamento militar corra em paralelo ao desenvolvimento da indústria de defesa brasileira. Daí a necessidade das parcerias. “É preciso que o país tenha uma agenda nacional. Temos grandes centros de tecnologia, mas é preciso triplicar sua produção”, afirmou. julho-setembro 2009


julho-setembro 2009

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indústria

Armas que previnem Os armamentos menos letais ganham importância para operações militares e policiais “A massa de manifestantes, enlouquecida, avança em nossa direção brandindo suas armas. Rapidamente, ordeno que meus homens façam uma formação em linha, protegidos atrás dos escudos à prova de balas. Foi nossa sorte, pois logo começo a ouvir projéteis de arma de fogo batendo nos escudos.” Quem fala é o comandante da tropa chamada a controlar a situa­ção: um grupo de trabalhadores rurais sem-terra que bloqueia importante rodovia estadual. É o que pontua Márcio S. H. Couto no artigo “Munições não letais” publicado no número 79 da revista Magnum. O comandante vê que os atacantes usam mulheres e crianças como escudo. Razão a mais para reagir com cuidado. Trata-se de uma típica OCD, isto é, operação de controle de distúrbios. E é com balas de borracha atiradas nas pernas dos manifestantes, granadas de gás lacrimogênio e cargas de cassetete que a turba é controlada e a rodovia, reaberta. Nitidamente aliviado, conclui o comandante: “Saldo da operação: meia dúzia

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de manifestantes feridos levemente, cinco agitadores presos e nenhum policial ferido. Não há nenhum morto. Penso então como o treinamento e o equipamento fazem a diferença”. No município paulista de Santa Isabel, em meio a imensa mata nativa, a Índios Indústria e Comércio trabalha para prover os equipamentos que fazem essa diferença e são recomendados tanto pela ONU em suas missões de paz quanto pelas forças militares e policiais de seus Estados-membros – o Brasil inclusive – em operações preventivas, de repressão e dispersão de tumultos. Originada na conhecida fábrica de fogos de artifício Caramuru, foi a chamado da Marinha do Brasil, nos anos 1970, que a Índios ampliou sua tradicional linha de produtos pirotécnicos e explosivos e começou a produzir sinalizadores de salvatagem para equipar navios e aeronaves. A linha de armas menos letais foi aberta em 2007, respondendo a

outra convocação militar. Desde então, a empresa desenvolveu variada linha de artefatos pirotécnicos, de acordo com os procedimentos previstos pela Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC) e pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx). São munições antidistúrbio, granadas explosivas de efeito moral, lacrimogênias, de som e luz para emprego nas Forças Armadas, por forças de segurança e polícias civis e militares. Outros equipamentos congêneres levaram à expansão da atuação da empresa nesse mercado. Que, aliás, está em fase de abertura também para empresas de segurança privada. A linha de artefatos pirotécnicos menos letais inclui os de uso militar e controle intensivo a curta distância de manifestações, os para dispersão de rebeliões ou desalojamento de pessoas em recinto fechado e cobertura de apoio para outras ações. Além de causar mal-estar e irritação nos olhos, a densa nuvem de fumaça lacrimogênia provoca efeito químico nocivo à saúde se aspirada por longo tempo. A esse propósito, é bom lembrar o ponto destacado por Francis Gomes Roos no artigo “O emprego de armas não letais em operações de garantia da lei e da ordem”, publicado no site da Cemi Brasil: “Não existe um pó mágico, ou dardo, químico, que ponha a pessoa instantaneamente para dormir e que depois permita recuperá-la completamente. Ainda que existam drogas de ação rápida, todas as reações farmacêuticas com humanos bajulho-setembro 2009


Nesse último ponto, aliás, um dos detalhes que chamam a atenção nas instalações da Índios é o seu entorno. Ali, a natureza permanece intocada e imponente. “Essa preocupação começa no momento do manuseio da matéria-prima, pois levamos muito a sério esse objetivo”, explica o empresário Pedro Miranda, presidente da Índios. “Não se pode produzir em detrimento do nosso maior patrimônio.” Entre os produtos de destaque da fabricante estão a granada de efeito moral, a manual fumígena colorida, a explosiva de adestramento e a iluminativa atordoante. O sinalizador pirotécnico de uso civil e militar é um dos equipamentos exportados para Argenti-

Fotos: Divulgação Indios

seiam-se em muitos fatores complexos, inclusive peso corporal e condições físicas. A dose necessária para um homem normal pode matar uma criança. Uma dose menor pode falhar”. Daí a insistência da fabricante para a necessidade de instrução prévia de todos os que irão utilizar tais armamentos – por mais simples que seja seu manuseio. Afinal, de acordo com a Organização dos Tratado do Atlântico Norte (Otan), armas menos letais são sistemas especificamente projetados e empregados para incapacitar temporariamente pessoas e materiais, ao mesmo tempo que minimizam mortes, ferimentos permanentes e danos indesejáveis à propriedade e ao meio ambiente.

na e Egito, enquanto o sinalizador pirotécnico com munição menos letal vem sendo divulgado nos paí­ ses da América Latina. A Índios está em permanente processo de aperfeiçoamento tecnológico de suas munições me­nos letais. Essa preocupação é um dos pontos da visão de futuro de Pedro Miranda: “Eu acredito que a munição menos letal terá emprego não só para controle de distúrbios, mas também em conflitos bélicos”.

Tecnologia do conhecimento O setor de defesa gera tecnologias de ponta de dupla aplicação – civil e militar –, como prova o think tank brasileiro Atech Tecnologias Críticas

julho-setembro 2009

Controle de tráfego aéreo Sistema Atech

Atech

Em meados da década de 1940, o então recém-criado Ministério da Aeronáutica, hoje Comando da Aeronáutica, concebeu um arrojado plano de pesquisa e desenvolvimento aeroespacial, do qual nasceram o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e o Centro Técnico Aeroespacial (CTA). Com o desenvolvimento da engenharia aeronáutica, a Força Aérea passou a operar aeronaves fabricadas por brasileiros. Hoje, o Brasil é o maior sítio de tecnologia aeroespacial da América Latina e está entre os

três maiores fabricantes de aviões do mundo. Porém, produzir aeronaves não foi a única lição dada pelos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento da Aeronáutica à indústria nacional, pois fomentaram também a capacitação em sistemas de

comando e controle e ensinaram como usar o conhecimento de ponta para melhorar os processos de projetos, programas e produtos. A Atech Tecnologias Críticas, fundação de direito privado e sem fins lucrativos com sede na DEFESA LATINA

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CCSM

indústria

Os sistemas e serviços inteligentes da Atech na área de defesa estão presentes em terra, mar e ar

capital paulista, é uma das organizações depositárias do saber estratégico gerado nesses pioneiros centros de excelência. Nasceu em 1997, como integradora do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam), com a finalidade de garantir a autonomia tecnológica do Brasil na inteligência do sistema. Em poucos anos, adquiriu maior capacitação em integração de hardwares e softwares de várias origens. Então, abrindo seu leque de atividades, destacou-se no mercado com amplo portfólio de tecnologias críticas de aplicações civis e militares. No gerenciamento de tráfego aéreo (Air traffic management, ATM), por exemplo, um campo de domínio do conhecimento restrito a poucos países, seus sistemas operam em 13 dos 29 centros de aproximação de voo (APP) e nos quatro centros de controle de área do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo do Brasil, monitorando aproximadamente 6 mil pousos e decolagens diários nos aeroportos brasileiros. Até 2010, a Atech terá concluído a modernização de mais nove APP, totalizando 22 centros principais. Evoluindo num rápido crescendo, a organização agregou valor às Forças Armadas e ao mercado espacial brasileiro. Para 32

DEFESA LATINA

o setor logístico, desenvolve técnicas de análise e fusão de dados, geotecnologias, comunicação, soluções integradas de transporte e sistemas de gerenciamento e monitoramento de frotas. No tráfego urbano, contribuiu na integração e validação final do sistema de transporte da região metropolitana de São Paulo – o chamado Bilhete Único – e no monitoramento de frotas de ônibus da região metropolitana da cidade. Ainda na capital paulista, atua na integração do sistema de gestão de saúde pública. Na segurança pública, desenvolveu um tipo de sistema inteligente que permite o acompanhamento em tempo real de diversos indicadores, como ocorrências policiais por tipo, dias da semana e região – com o cruzamento desses dados, é possível fazer a diagnose criminal e planejar ações policiais preventivas. No setor ambiental, oferece bancos de dados amplos e interativos para uso racional e sustentável de recursos naturais em iniciativas de desenvolvimento. No campo da energia, realiza parcerias variadas, que incluem desde projetos dedicados à prospecção de petróleo até sistemas para melhorar o atendimento aos usuários por meio de detecção de falhas e rápida reativação da energia nos casos de corte.

Absorção de conhecimento crítico O produto da Atech é o conhecimento estratégico, que a levou a especificar o satélite geoestacionário brasileiro e a desenvolver a plataforma multimissão de lançamento de foguetes da Alcântara Cyclone Space (ACS), um empreendimento binacional formado por Brasil e Ucrânia, sob a coordenação da Agência Espacial Brasileira. Fora do Brasil, foi selecionada pela União Européia para participar do Projeto Galileo, uma alternativa complementar ao sistema GPS, de propriedade dos EUA. Também está presente na Venezuela e em Aruba, através de seus sistemas de controle de tráfego aéreo – os quais lhe renderam o Prêmio Flyer do governo da Catalunha, Espanha, em 2007, como melhor empresa na área de infra-estrutura aeroportuária. O grande desenvolvimento da Atech deve-se aos seus 360 colaboradores – a maioria de mestres e doutores, engenheiros, matemáticos, administradores, físicos, biólogos, geógrafos, analistas de sistemas, administradores e arquitetos, profissionais de total intimidade com P&D, gestão do conhecimento, capacitação em tecnologias e incubação de soluções. Assimilando os horizontes projetados pela Estratégia Nacional de Defesa, a julho-setembro 2009


Dassault/, J.M. Guhl

H. H. Deffner

Atech tem planos de ampliar sua participação no mercado internacional, mais especificamente na América Latina e no Caribe. “Trabalhamos com domínio tecnológico em áreas consideradas críticas”, diz o diretor de Defesa da Atech, engenheiro Giacomo Feres Staniscia. “Somos uma organização que atua junto com o cliente, identificando suas necessidades, desenvolvendo sistemas e customizando soluções

com transferência de tecnologia e realizando parcerias locais”. No momento, uma equipe de 14 engenheiros e analistas da Atech trabalha integrada ao corpo técnico da empresa espanhola EADS-Casa no projeto de modernização de aeronaves P-3 Orion. Trata-se de nove aviões adquiridos da Marinha dos EUA, que deverão ser dotados de equipamentos e sensores para detectar navios, submarinos e aviões e

processar dados táticos. Missão: desenvolver conjuntamente o sistema e se capacitar para prover o suporte técnico e cuidar da evolução do sistema no Brasil. O projeto, iniciado em 2006, teve sua primeira prova em abril , com o voo inaugural de teste da P-3 BR. De acordo com as previsões, a primeira aeronave modernizada deverá ser entregue em dezembro deste ano. Mais tecnologia crítica no portfólio.

Inovação em destaque A Inbrafiltro iniciou suas atividades no ramo de tecidos industriais e produtos filtrantes. Hoje, é um grupo formado por cinco empresas com instalações industriais no município de Mauá, na Grande São Paulo. A diversificação de suas atividades decorreu da visão de futuro de seus fundadores, Jairo e Lourival Cândido. Fabricando coletes de proteção individual, eles decidiram guardar as sobras de fibra de aramida, a matéria-prima de alto valor agregado usada na produção. Quem sabe pudessem ser usadas para novos produtos? julho-setembro 2009

A oportunidade surgiu quan­ do o governo de São Paulo iniciou a implantação do Metrô e incrementou o transporte de massa por trens urbanos, lançando concorrências públicas para selecionar os fornecedores de componentes metroviários e ferroviários. A InbraFiltro possuía mais de 200 toneladas de aramida em estoque e know how obtido em vários anos de pesquisa para transformar as aparas em polpa. Resultado: foi selecionada e usou as antigas sobras na industrialização de sistemas de frenagem para os

Arquivo Defesa Latina

Soluções inovadoras e tecnologia de ponta são as características do Grupo Inbra, que está completando 30 anos no mercado

Na moda: colete com design feminino é o lançamento de 2009

trens da Companhia do Metropolitano de São Paulo. Com capital humano de alto nível e soluções inovadoras, a Inbra cresceu no mercado. Para cada oporDEFESA LATINA

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indústria

Apetite por tecnologia Projetado com base em requisitos operacionais das Forças Armadas, o VBL pesa 6,5 toneladas e pode transportar 8 soldados, incluindo o motorista, em missões de cavalaria, reconhecimento, transporte de tropas, missões de paz e operações urbanas. Tem compartimento para peças de artilharia e pode ser armado com torreta 360 graus para metralhadora .30 e lançadores de granadas de vários tipos e aplicações. Equipado com escudo defletor de proteção contra minas terrestres, seus faróis utilizam lentes de policarbonato e os paralamas são fabricados com fibra de vidro, materiais que permitem ao veículo romper explosões sem sofrer tombamento. A parte externa é limpa, sem parafusos ou dobradiças, e o desenho do carro agrega a configuração furtiva contra emissões de radar. O motor é um MWM de 185 HP, com câmbio automático de seis velocidades e máxima de 140 km/h, com autonomia para 1.000 quilômetros.

O VBL é resultado de investimentos de mais de US$ 3 milhões e quase cinco anos de desenvolvimento. A previsão é que em setembro as primeiras unidades cabeças-de-série sejam produzidas em escala, com cerca de 250 unidades em 2010. O veículo esteve em exposição na LAAD 2009 e atraiu a atenção do público profissional. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, conheceu o carro juntamente com o presidente Lula, o ministro Nelson Jobim e outras autoridades, declarando ao final que se tratava de excelente equipamento para as operações táticas urbanas da Polícia Militar carioca. Em cima da visão do quarto risco (terrorismo urbano), a InbraBlindados vai desenvolver e produzir o veículo policial. Na linha de produtos destacam-se ainda os coletes à prova de tiro. Uma novidade é o modelo projetado para policiais femininas, que possibilita maior conforto e desenvoltura para as agentes em operação. Capacetes

para uso militar, policial e antitumulto, com proteção balística, nos níveis I, II e IIIA, além de escudos individuais para tropas de choque, também integram o portfólio de produtos do grupo. Com centros de pesquisa e desenvolvimento próprios – únicos no mundo na área de vidros – e laboratórios de testes para cada área em que atua, o grupo mantém um seleto corpo de técnicos e engenheiros e cerca de 600 empregados. “Tudo aqui é feito à base de muito investimento e avançados conhecimentos de ponta”, enfatiza o advogado Jairo Cândido, presidente do grupo. “Trabalhamos com universidades e centros de excelência tecnológica, principalmente das três Forças Armadas. As janelas de oportunidades sempre se abrem. Portanto, a indústria precisa ter apetite por tecnologias, recursos para investimentos, soluções de engenharia e estrutura de base industrial. E isso nós temos aqui”.

Grupo Imbra

tunidade de negócio, implantou novas unidades industriais. Assim nasceram a InbraGlass, a InbraBlindados e a InbraAerospace, que se somaram à InbraTêxtil e à InbraFiltro. Parcerias também foram firmadas. A InbraBlindados, por exemplo, aliou-se à Agrale, fabricante 100% nacional de tratores, caminhões e chassis de ônibus, e desenvolveu para o mercado de defesa o veículo blindado leve (VBL), versão 4x4, para emprego em operações de alta complexidade e mobilidade.

O veículo blindado leve (VBL) exposto na LAAD, que terá suas primeiras unidades circulando a partir de setembro

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DEFESA LATINA

julho-setembro 2009


julho-setembro 2009

DEFESA LATINA

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aviação militar

Embraer KC-390 O futuro do transporte aéreo militar

Artes Embraer

A terceira maior indústria de aviação do mundo investe no mercado de aviões de transporte tático

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O Brasil sempre mostrou vocação para as atividades aeroespaciais. Nem haveria de ser diferente no país que revelou figuras de singular talento na aeronáutica mundial, como Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) e Alberto SantosDumont (1873-1932), entre outros. Nessa área, sempre que Desenhos do projeto: em 2005, a governo e indústria trabalhaproposta original; em 2009, a aeronave com modificações requisitadas pela FAB ram juntos, seja em desenvolvimento tecnológico, seja para produzir em conjunto equipamentos de defesa, seus resultados mostraram-se de grande valia no fortalecimento da personalidade brasileira. A histórica parceria entre a Força Aérea Brasileira (FAB) e a Embraer é um exemplo clássico. Pois um novo empreendimento tecnológico está próximo de oferecer um salto de qualidade para a engenharia aeronáutica brasileira, com contribuições relevantes para o país. É o Programa Embraer KC-390, com responsabilidades compartilhadas entre o governo e a indústria, que visa desenvolver para a FAB uma nova aeronave de transporte militar. O projeto surgiu há pouco mais de dois anos. Na ocasião, um estudo de mercado revelou que, em DEFESA LATINA

médio prazo, haverá demanda mundial por cerca de 700 aviões de transporte tático na faixa de até 20 toneladas de carga útil. O mercado endereçável abrangeria 77 países. Na América do Sul, a demanda projetada se situa em torno de 100 unidades. O Brasil está incluído entre os países que em médio prazo irão renovar suas frotas nesse segmento. Com base nas projeções e nos requerimentos operacionais da FAB, a Embraer concebeu o projeto para atender à futura necessidade brasileira e competir no mercado mundial. Em abril passado, o programa foi disparado com a assinatura do contrato que ampara o ciclo de vida do programa. O empreendimento será impulsionado por investimentos públicos da ordem de R$ 3,2 bilhões e sua execução se estenderá por sete anos, com o novo avião entrando no mercado no momento exato em que a frota mundial começará a exigir renovação. Segundo previsão da Embraer, as possibilidades de vendas externas do KC-390 são de fato muito boas, pois tudo nele foi concebido para facilitar a vida de seu operador. julho-setembro 2009


FICHA TÉCNICA

Alcance com carga paga máxima: 2.700 km Velocidade máxima de cruzeiro: 850 km/h Peso máximo de decolagem: 72 toneladas (operação logística) Teto operacional máximo: 36.000 pés (cerca de 11.000 metros de altitude) Fator de carga máximo: 3,0 g (operação tática) Velocidade máxima: 870 km/h (Mach 0.80) Alcance máximo: 6.208 km Comprimento: 33,50 m Pressurização: 7,6 psi Envergadura: 33,95 m Propulsão: 2 motores da classe - 27.000 libras/empuxo Altura: 11,35 m

ALTO, FORTE E ESPADAÚDO Com desenho aerodinâmico robusto, o KC-390 foi projetado para missões de transporte de tropas, carga paletizada, contêi­ neres e veículos militares, operações de lançamento de paraquedistas e cargas, evacuação médica e reabastecimento em voo e no solo. A cabine é ampla e ele tem rampa de acesso para cargas. Sua arquitetura aviônica é moderna e inclui sistemas de navegação diurna e noturna, sejam quais forem as condições de tempo. Terá capacidade de transportar 19 toneladas de carga útil e realizar pousos e decolagens a partir de pistas semipreparadas. O novo avião brasileiro incorpora vantagens técnicas e

julho-setembro 2009

operacionais superiores às do concorrente mais próximo – o Lockheed-Martin C-130J (19,1 toneladas de carga). Sua capacidade interna permite transportar 80 soldados sentados ou 64 paraquedistas equipados. Em missões Medevac (isto é, de evacuação médica), poderá transportar 82 pacientes devidamente acomodados em macas e quatro especialistas em saúde. Para transporte de cargas, o espaço interno poderá receber um blindado como o Patria AMV 8x8, um LAV 25, ou um EE-11 Urutu, ou três veículos do tipo HMMVW, ou ainda um helicóptero do tipo S-70A. O KC-390 terá preço unitário inferior ao de um C-130J – hoje

em torno de US$ 100 milhões. Outra vantagem é que será a única aeronave “zero quilômetro” a coincidir com o timing previsto para a demanda mundial nessa classe. Nos próximos dois anos, o programa de desenvolvimento do KC-390 estará com suas portas abertas para receber parceiros de outras nacionalidades, sob prévia avaliação do governo federal, proprietário intelectual do projeto, representado pelo Comando da Aeronáutica. Enfim, o futuro avião de transporte tático militar da Embraer tem tudo para se destacar no mercado e repetir o sucesso comercial da linha de equipamentos de defesa da empresa.

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sociedade

Conduta ética nos negócios Márcia Cristina Souza

A prática de denegrir os produtos da concorrência ainda é adotada por profissionais que pensam que agindo assim vão aumentar suas chances no mercado O mercado de defesa envolve relativamente poucas indústrias, mas é constituído de empresas de grande porte, que disputam um número de clientes em todo o mundo. Os negócios envolvem cifras que chegam aos bilhões de dólares e exigem pessoal altamente qualificado em conhecimento técnico, tanto na condução dos relacionamentos negociais e contratuais como no que se refere a projeto, engenharia e produção. É comum as negociações envolvendo equipamentos de defesa demorarem anos até a concretização da venda. Algumas vezes, anos de árduas conversações redundam em negócio frus­tra­ do por várias razões. As negociações no mercado de defesa são, de fato, complexas. Porém, a despeito da alta capacitação técnica e profissional no setor, o treinamento do pessoal envolvido, na maioria das empresas, não inclui questões importantes como a conduta ética. Existem muitos casos de comportamento antiético registrados, sobretudo na disputa de contratos bilionários. A necessidade de gerar faturamento que viabilize a lucratividade e, portanto, a sobrevivência da indústria ou a manutenção do emprego, costuma gerar ansiedade nos profissionais de vendas, que podem se ver tentados a usar argumentos inadequados para convencer o comprador quanto à superioridade de seus produtos. Às vezes, são casos praticados por uma empresa contra outra da mesma bandeira nacional. Na década de 1980, uma fase de fertilidade jamais vista em produção e venda de produtos de defesa, as empresas lançaram mão de estratégias antiéticas para tentar desqualificar o produto concorrente. O Brasil não esteve à margem desse comportamento – algumas empresas que disputavam o mercado tiveram primeiro de desatar os nós trançados pela concorrência, sobretudo no mercado árabe, para só depois promoverem seus próprios produtos. É claro que a compra de produtos de alto valor agregado envolve análise detalhada dos compradores. As características intrínsecas e o preço dos produtos são diferenciais importantes, mas, sem dúvida, a credibilidade quanto à qualidade e à

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durabilidade desses produtos, assim como a confiança nos serviços de pós-venda e assistência técnica pesam muito na hora de escolher o fornecedor. Será que agindo de forma antiética eles conquistam confiança e semeiam credibilidade? Profissionais inescrupulosos preferem falar mal da concorrência em vez de promover o seu produto. Não percebem que, com negociadores com­prometidos com a ética, argumentos desse tipo costumam provocar percepção oposta àquela que eles tentaram passar. Além disso, contribuem para provocar descrédito no próprio setor da indústria que representam. Se cada vendedor defende seus produtos colocando em dúvida a qualidade do outro, qual deles merece crédito? Então, é correto supor que todos podem estar mentindo, certo? Dessa forma, tem maior chance de fechar a venda o concorrente que se preocupou unicamente em demonstrar as qualidades de seu produto de forma honesta e objetiva, no interesse do comprador. Outro fator importante a considerar é que, na maior parte das vezes, se está tratando com compradores que representam governos. Será então necessário se preocupar com a destinação a ser dada aos equipamentos? É ético vender sistemas de defesa a países que desrespeitam os direitos humanos ou usam armas contra minorias étnicas, religiosas ou políticas? Como tudo o que se refere à conduta ética, trata-se de uma questão pessoal e flexível, cuja resposta é sujeita a diferentes interpretações. É um dilema ético que vai exigir a decisão pessoal de cada profissional e de cada empresa envolvida. O dilema ético nos põe frente a questões relacionadas à consciência e à personalidade, exige análise de ganhos, benefícios, prejuízos e consequências na visão utilitarista ou de princípios éticos adotados pelas empresas de forma corporativa. Nunca é uma decisão fácil. Abrir mão de uma venda que envolve milhões de dólares, reduzir lucros em busca de ganho de credibilidade e de tranquilidade na consciência corporativa é muito complicado. Qual seria a postura mais correta? O lucro é mais importante? A Estratégia Nacional de Defesa, lançada pelo governo brasileiro, tem entre suas metas a reorganização do setor industrial. A ética, portanto, deve ser uma premissa fundamental nesse processo de reorganização.

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submarino

Senhor dos mares

O submarino sempre ocupará lugar de destaque nas marinhas modernas

Acima, a Amazônia Azul, alcance do patrimônio brasileiro no mar.

A Marinha do Brasil foi uma das primeiras instituições navais do mundo a operar submarinos. Em 1914, recebeu seu primeiro submersível, de origem italiana. Décadas depois, passou a operar belonaves americanas e inglesas. Desde o final dos anos 1980, usa em suas operações modelos IKL-209, um deles fabricado na Alemanha e quatro feitos no Brasil, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). No final dos anos 1970, a Armada brasileira já mostrava interesse pelo submarino nuclear ao iniciar em São Paulo um programa de desenvolvimento tecnológico, cuja meta era o domínio completo do ciclo do combustível nuclear, o que foi concretizado em 1982. O passo seguinte, construir um reator nuclear, deverá se concluir em 2013. A terceira etapa contempla a construção de um submarino nuclear. Trata-se de um empreendimento de alto conteúdo tec-

DCNS

Ao lado, características originais do submarino classe Scorpène, que o Chile já tem e o Brasil fabricará

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nológico. Por sua característica furtiva, o submarino tem a vantagem operacional do fator surpresa, um diferencial em qualquer confronto. Se o radar não o detecta embaixo d’água, não se pode dizer o mesmo em relação ao sonar. Porém, como a propagação acústica no mar não se dá em linha reta e gera “zonas de sombra”, isso permite ao submarino confundir-se com o meio ambiente marinho. A luta contra um submarino exige um complexo sistema de meios navais de superfície e aeronavais. Não é sem motivo, portanto, que é chamado de “senhor dos mares”. São dois os tipos de submarinos: o convencional e o nuclear. O convencional usa óleo diesel para mover seus motores e geradores elétricos. Periodicamente, precisa subir à superfície para recarregar suas baterias e renovar o ar ambiente, processo que também pode ser feito com a belonave semioculta e usando o esnorquel em tais funções. Nessas ocasiões, contudo, fica vulnerável. Para limitar tal ex-

posição, ele deve economizar o máximo de energia, o que acarreta baixa mobilidade e o deixa restrito mais a áreas litorâneas. Estas são as grandes limitações do tipo convencional. Já o submarino nuclear incorpora todas as vantagens operacionais não encontradas no modelo convencional. Utiliza reator nuclear, que aciona seus geradores elétricos e propulsão, e produz a energia necessária à vida a bordo. Silencioso e de excelente mobilidade, é o equipamento mais adequado para atuar em águas profundas. Sua fonte de energia é praticamente inesgotável, permitindo-lhe permanecer por meses navegando submerso. O importante não é apenas saber construir o submarino, mas ter a capacidade de desenvolver projetos nessa área. A Marinha do Brasil domina a tecnologia de construção. Mas falta-lhe a outra parte. A solução seria desenvolver sucessivos protótipos até chegar a um projeto adequado que possa abrigar a planta nuclear. Ao debruçar-se sobre esse desafio, nos primeiros dez anos, até 2006, o programa se desenvolveu a passos lentos, quase parando, por falta de recursos orçamentários para viabilizar o processo no prazo e no ritmo que fora planejado. A partir de 2007, contudo, com a nova visão política do governo de fortalecer a defesa nacional, o programa voltou a ganhar força. Agora, a Marinha terá de encurtar etapas julho-setembro 2009


AVANÇO TECNOLÓGICO Ao tempo em que a Marinha do Brasil planejava desenvolver um submarino nuclear, a França lançava ao mar sua primeira unidade de ataque (SSN), da Classe Rubis. Pouco mais de três décadas se passaram desde então. Hoje, os franceses representam, juntamente com russos, chineses, americanos e ingleses, o seleto grupo de nações com autossuficiência tecnológica nessa área. O acordo entre os países foi assinado em fins de 2008. Inicialmente, serão enviados à França projetistas navais brasileiros que, juntamente com seus colegas franceses, trabalharão durante um ano fazendo os ajustes no projeto do submarino convencional (S-BR), uma versão brasileira do modelo francês Scorpène, cujo desenvolvimento também está previsto no acordo. Um segundo grupo de técnicos brasijulho-setembro 2009

leiros realizará cursos de projeto na França. Outra equipe de engenheiros fará estágio em sistemas de combate de submarinos (sonares, direção de tiro etc.) e torpedos, para absorção de tecnologia de projeto. Fechando essa etapa, um grupo de técnicos franceses ficará baseado no Brasil por cinco anos, participando do desenvolvimento do projeto do primeiro submarino nuclear brasileiro – com exceção da parte do reator nuclear e seu compartimento. CCSM

para resgatar o tempo perdido. Para isso, o ideal será trabalhar em conjunto com um parceiro estratégico, isto é, um país com pleno domínio nessa área. Feita a sondagem no mercado mundial, a França respondeu melhor às exigências brasileiras e aceitou participar do empreendimento. Assim sendo, o submarino nuclear brasileiro vai estar, a tempo e a hora, presente em qualquer ponto da Zona Econômica Exclusiva, uma vastidão oceânica que abrange cerca de 4,4 milhões de quilômetros quadrados. Mas os interesses do Brasil no mar não terminam nos limites da Amazônia Azul e se estendem a qualquer lugar onde um navio de bandeira brasileira navegue, cuja proteção é dever do Estado brasileiro.

Almirante-de-esquadra Júlio Soares de Moura Neto

A primeira das quatro seções do primeiro submarino será construída em Cherbourg, na França, e terá participação de técnicos e engenheiros do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. O grupo absorverá métodos, normas e processos de construção franceses. De volta ao Brasil, formará o núcleo de transferência de tecnologia para a Sociedade de Propósito Específico (SPE), que administrará o novo estaleiro a ser construído, atuando depois na fiscalização das obras e na garantia do controle de qualidade. Um dos objetivos do megaprojeto é contemplar a indústria

naval brasileira para produzir cerca de 20% de todo o material a ser empregado nos submarinos – cerca de 36 mil itens. Nesse processo, a Marinha do Brasil adotou a postura de não indicar empresas, cabendo aos franceses selecioná-las de acordo com critérios próprios, qualificá-las e homologá-las. Essa decisão foi tomada no intuito de evitar intermináveis controvérsias futuras, normalmente presentes em casos de concorrências públicas, que acabam comprometendo o cronograma e até a continuidade do empreendimento. Exemplo disso é o programa de desenvolvimento de satélites brasileiros, ocorrido nos anos de 1990. O parque nacional é altamente capacitado em engenharia e instalações. A França já selecionou mais de trinta empresas brasileiras e deverá qualificar outras tantas. O AMRJ tem tradição secular na área e capacitação tecnológicoindustrial. Dos programas mais recentes com os quais esteve envolvido, destacam-se o das fragatas classe Niterói (modelo Vosper MK-10, britânico) e dos submarinos classe Tupi e Tikuna (modelo IKL-209, alemão). Porém, no caso dos novos submarinos, inclusive os nucleares, um estaleiro será construído, atendendo aos requisitos ambientais e de controle de qualidade, prática mundialmente adotada. A operação do estaleiro ficará a cargo da SPE, formada pelo consórcio construtor, composto pela indústria francesa Direction des Constructions Navales Services (DCNS); pela Odebrecht, a parceira selecionada pela DCNS no Brasil; e o governo federal, representado pela Marinha, através de golden share, com poder de veto. DEFESA LATINA

Da Redação Com base em “A importância da construção do submarino de propulsão nuclear brasileiro”, artigo do almirante Júlio Soares de Moura Neto, comandante da Marinha do Brasil

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ponto de vista

Combate e psiquismo As reações humanas a situações de conflito e violência

“Massacre”, pintura em que o colombiano Fernando Botero registra o cotidiano de guerra e violência que, sob muitas formas, permeiam a realidade do cidadão

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FB óleo sobre tela, 2000 @ Museu Nacional da Colômbia

No filme O terceiro homem (1949), Harry Lime, o personagem vivido por Orson Welles, diz: “Na Itália, durante os trinta anos em que os Borgia estiveram no poder, houve guerras, terror, violência e assassinatos, mas ainda assim lá surgiram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. A Suíça, com toda sua fraternidade e seus 500 anos de democracia e paz, produziu o quê? O relógio cuco.” Escassez de recursos, crenças desiguais e impasses com o poder alimentam conflitos que, uma vez instalados, são nutridos por preconceitos e atitudes negativas. Entretanto, os conflitos podem servir como base para o desenvolvimento pessoal e de grupos, desacomodando e ativando a criatividade como forma de superação e sublimação. Diz o ditado: ‘A dificuldade é a mãe das invenções’. No entan-

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to, na época em que vivemos, a violência e os conflitos passaram a acontecer a todo instante e em todo o lugar e as dificuldades, quando excessivas, podem matar a criatividade. As guerras permeiam nosso cotidiano sob muitas de suas formas, quando não acontecem em nossa porta e em nosso caminho. Sob o ponto de vista da psicologia individual, posso dizer que as reações humanas a situações de conflito, combate e violência podem ser analisadas sob quatro pontos de vista, que se permeiam e inter-relacionam: a natureza do indivíduo, a formação recebida, a motivação para a vida e a experiência. Natureza do indivíduo: Cada pessoa vem ao mundo com características próprias, fruto da combinação de fatores herdados que predispõem a uma forma fí-

Angela Schnoor

sica, intelectual e emocional. Esse potencial implícito influenciará sua seleção e leitura de fatos e pessoas. O tipo psicológico individual poderá nos esclarecer tanto sobre sua predisposição – introvertida ou extrovertida – em relação ao mundo quanto sobre sua aptidão predominante para lidar com a existência, que pode ser sensorial, por pensamento, sentimento ou intuição. Sob esse ponto de vista, podese imaginar como serão diferentes as reações das pessoas a guerras, conflitos e violências. Alguém que gosta de desafios, sabe lidar com eles e se sente bem com sua agressividade enfrenta facilmente situações externas, ao passo que a pessoa interiorizada, que aprecia segurança, conforto, beleza e arte e procura harmonizar as pessoas à sua volta perceberá o mundo externo como intimidador. De forma geral, podemos nomear esses dois tipos como pessoas masculinas e femininas. Esse termos nada têm a ver com gênero ou sexualidade, apenas se aplicam aos princípios opostos e complementares que os orientais tão bem conhecem – o yin e o yang, associados a sombra e luz, defesa e ataque, dentro e fora, noite e dia. Assim, o indivíduo preponderantemente masculino (yang) teria potenciais ou “armas” psíjulho-setembro 2009


quicas mais adequadas para o combate, aceitaria os enfrentamentos com eficiência e galhardia e teria melhores condições de adaptação a situações duras e dolorosas. Já o tipo feminino (yin) estaria mais capacitado para a diplomacia e as atividades defensivas. Caso essa pessoa, além do tipo feminino, tivesse a predominância dos sentimentos em seu psiquismo, correria sérios riscos de comprometimento emocional durante e após algum conflito. Aquele cuja preponderância da percepção é mental, embora em tese seja um tipo masculino, não estará interessado e nem muito habilitado para ações e lutas, pois as relações que faz entre fatos e coisas acontecem através do conhecimento. Seria então mais indicado para atuar onde o pensamento e as articulações se façam necessárias. Alguém desse tipo poderá fazer um estudo estratégico sobre armas de guerra, mas dificilmente as usará. Formação recebida: A natureza do indivíduo vai ser moldada e ajustada pelo meio em que nasce e vive. Assim, a família, a escola, o local onde cresce, as regras de convivência de sua cidade e país podem ajudá-lo a desenvolver seus potenciais ao respeitar e moldar seus limites. Também poderão castrá-lo e impedir seu desenvolvimento, criando distorções na percepção de si mesmo e do mundo, ou ainda deixá-lo solto, sem orientação e sem respeito pelos outros. Tomemos como exemplo uma criança que nasce com potencial combativo e criativo. Se, pelo fato de atrapalhar a paz doméstica, for constantemente pujulho-setembro 2009

nida, impedida e criticada a cada iniciativa; se não for estimulada a desenvolver e canalizar positivamente sua agressividade, pode vir a tornar-se um ser medroso e apático. Já adulto, frente a situações de conflito, os impulsos represados poderão explodir em atitudes violentas e inadequadas, inclusive frente a figuras de autoridade. Motivação para a vida: Embora possam ser subprodutos do meio, os valores, o significado da existência, a filosofia de vida e até a religião que uma pessoa professa são fatores fundamentais para determinar a percepção e as reações individuais diante dos conflitos. Por um lado, podem acirrar as diferenças – como é o caso de culturas com filosofias e religiões radicais. Mas, por outro, a ética e a motivação do indivíduo podem servir como elementos moderadores de sua natureza, auxiliando-o quando esta estiver exacerbada. A convicção pacifista de alguém o impedirá de enfrentar um conflito. O amor à pátria motiva e sustenta os atos do nacionalista, enquanto um universalista não encontrará sentido em defender uma só pátria. O idealismo levará a pessoa a batalhar pela causa que apóia, enquanto um mercenário usará sua energia belicosa com finalidade exclusivamente material. Experiência: O potencial de um indivíduo molda-se de acordo com o tempo e a experiência de vida. Assim, quando uma situação de conflito ocorre, a idade da pessoa e tudo o que ela já viveu terá suprema importância em suas reações e motivações.

Na juventude, o heroísmo e o idealismo são, quase sempre, mais marcantes, enquanto o tempo vivido traz a consciência da vacuidade de alguns valores e arrefece a impaciência característica do jovem. O homem tem necessidade de desafios. Em locais e situa­ ções em que vencer a natureza é imperioso, os seres crescem desacomodados e combativos, mas colaboram entre si contra o desafio comum. Com as facilidades do mundo moderno, não há expressões positivas para a combatividade e a necessidade de conquista. Nos extremos da facilidade absoluta e das grandes dificuldades, o ser humano se destrói pelo tédio ou pelas guerras e disputas. Em tempos de excessiva violência como hoje vivemos, a banalização da morte roubalhe o brilho e o valor e, mesmo a criatividade mencionada por Orson Welles deixa de existir. Ou está tomando novas formas, que ainda não temos perspectiva para compreender. DEFESA LATINA

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caças

Francês, americ

Qual dos três caças que disputam o F-X2 comporá os O Projeto F-X2, a competição aberta pelo governo brasileiro para adquirir três dezenas de aviões de combate de primeira linha para a Força Aérea Brasileira (FAB), selecionou três fabricantes internacionais para a fase final do processo: a sueca SAAB, a francesa Dassault Aviation e a americana Boeing. Os aviões pré-selecionados são o Gripen NG; o Rafale e o F/A-18, respectivamente, todos com excelente perfil de dissuasão e combate, dotados com modernos sistemas para guerra eletrônica, autoproteção, capacidades datalink e outras sofisticadas facilidades de manejo que possibilitam ao piloto visualizar o quadro tático completo do ambiente em que estiver operando. A despeito de suas excelentes qualidades tecnológicas e operacionais, é provavelmente no campo das contrapartidas comerciais que eles se digladiarão para vencer a concorrência brasileira. No entanto, a influên­cia política poderá decidir o vencedor. Uma das exigências brasileiras é a transferência dos conhecimentos de ponta incorporados nas aeronaves. Sabe-se de antemão, porém, que tecnologia de ponta não se vende, não se transfere e nem se dá; conquista-se com programas próprios de desenvolvimento. No caso do F/A-18, por exemplo, a legis44

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lação americana não permite a cessão de tecnologias consideradas estratégicas. A Boeing tenta compensar a restrição oferecendo vantagens adicionais para vender seu caça ao Brasil. Já os dois outros fabricantes dizem ter liberdade para atender a todos os requisitos brasileiros. Para o diretor da Gripen International no Brasil, Bengt Janér, representante da SAAB, “não existe transferência de tecnologia no papel”. Ele garante que a atuação direta de empresas brasileiras no desenvolvimento do Gripen NG permitirá esse acesso, inclusive aos códigos-fontes de missão e controle de voo da aeronave, conhecimentos fundamentais para a autonomia de operação do jato militar. A Rafale International, por sua vez, que representa a Dassault Aviation, oferece cooperação tecnológica e industrial, visando garantir o investimento brasileiro e a cessão de tecnologias para projeto e produção de aeronaves de combate. As preferências no mercado brasileiro variam. Máquina por máquina, há quem diga que o F/A-18 é a melhor. Para outros, o Rafale atende ao envelope de operações. Já os simpatizantes do Gripen NG acreditam que a participação da indústria brasileira no desenvolvimento do caça

sueco representa a melhor opção em termos de futuro. De qualquer modo, é tarefa da FAB definir o vencedor, que deverá atender ao conjunto dos requisitos. RAFALE A exemplo dos americanos, os franceses tiveram atuação de destaque na aviação brasileira. Na primeira década do século XX, instrutores dos EUA ajudaram a implementar a aviação na Marinha do Brasil, enquanto os franceses contribuíram com a aviação do Exército Brasileiro. Na Segunda Guerra Mundial, a FAB foi totalmente renovada com aeronaves de origem americana. No último quartel do século pasado, a França atuou mais em helicópteros e forneceu ao Brasil os primeiros jatos da família Mirage, da Dassault, mesma fabricante do Rafale. Para a Dassault Aviation, o F-X2 não é um simples processo de licitação, mas uma oportunidade para deslanchar um programa tecnológico de longo prazo, com cooperação em larga escala industrial entre os dois países. Há uma motivação adicional. O Brasil já assinou com a França dois compromissos de alto valor financeiro e tecnológico – a construção no Brasil de 51 helicópteros EC-725 para as Forças Armada e o fornecimenjulho-setembro 2009


Cosme Degenar Drumond

ano ou sueco?

s esquadrões de combate da Força Aérea Brasileira? Com essa justificativa, o pacote de cooperação tecnológica e industrial da Rafale Internaciona, inclui software, hardware e entrega de todas as ferramentas e todos os códigos-fontes, sem nenhuma restrição, com o objetivo de fornecer plena capacidade para manter, melhorar e até mesmo produzir o Rafale no Brasil. É o que informa a empresa. O birreator da Dassault impressiona. Está em serviço na Marinha Francesa desde 2001 e na Força Aérea desde 2004, tendo participado de campa-

nhas no Afeganistão a partir do porta-aviões Charles de Gaulle, no oceano Índico, e de bases rudimentares do Himalaia. Com capacidade para realizar missões de cooperação com forças aliadas, tanto no ar como em terra, pode ser operado de modo autônomo ou em operações conjuntas. Seu raio de ação é da ordem de 1.850 quilômetros – o dobro do raio do Mirage 2000 em serviço na FAB. Sua configuração bimotora fornece segurança e capacidade de sobrevivência para sobrevoo de áreas extensas e inóspitas, sobre o mar ou sobre a terra, com redução do risco de ejeção. Cumpre missões ar-ar, ar-mar, ar-solo, projeção de força e reconhecimento, além de outras, e está também disponível na versão naval.

Divulgação Dassault

to e cooperação para a construção de submarinos Scorpène. Se conquistar o contrato do F-X2, a França consolidará uma posição jamais conquistada por outro fabricante estrangeiro no Brasil. A FAB pretende operar uma aeronave de alto desempenho, mas também assimilar conhecimentos para, numa perspectiva de longo prazo, produzir suas próprias aeronaves. Os concorrentes no F-X2 dizem que estão dispostos a contribuir para tal meta. Segundo a Dassault Aviation, no campo da defesa e aeronáutica, a França é o único país, fora os EUA, a possuir e dominar com independência o espectro das tecnologias críticas necessárias ao Brasil. “Essa mesma ambição foi sentida pela França há alguns anos”, registra um documento da empresa distribuído à imprensa.

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Divulgação Boeing

SUPER HORNET O F/A-18 tem horizonte de vida de pelo menos mais 30 anos. É um senhor avião, que qualquer força aérea certamente gostaria de operar. Entretanto, a legislação americana não permite a exportação dos códigos-fontes. O fato curioso é que, se a Boeing decidiu participar do F-X2 (não se apresentou na concorrência do F-X) e chegou à fase final, é porque deve ter algum trunfo, possivelmente alguma forma de compensação adicional. De qualquer modo, a FAB precisa ter acesso aos códigos-fontes até para poder usar armamentos brasileiros, como o míssil antirradiação, sem correr o risco de comprometer a plataforma do avião. Segundo Bob Gower, vicepresidente dos programas F/A-18 e E/A-18 da Boeing, o modelo E/F estreou em 2005 incorporando a melhor tecnologia do século XXI, como o radar de varredura eletrônica APG-79 (active electronically scanned array). “Isso confere ao Super Hornet a capacidade única de conduzir operações de combate aéreo e terrestres ao mesmo tempo”, diz o executivo da Boeing. Os sensores da aeronave trabalham integrados e formam 46

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uma rede ao se conectar entre si no ar, em solo ou no mar. O piloto tem integral consciência do ambiente de batalha o tempo todo. Isso significa que recebe permanentemente informações importantes do ambiente de operações, identifica ameaças e decide se deve evitá-las ou enfrentá-las. Com 11 estações de armas para combate e para abrir caminho no ar, ele é hábil em missões ar-ar, escolta aérea, suporte aéreo próximo e/ou distante do solo, reconhecimento e reabastecimento tático em voo. No aspecto da transferência de tecnologias como parte da venda, segundo o executivo, as negociações se fazem de governo para governo. Enquanto discute essa parte, a fabricante está buscando gerar mais oportunidades de negócios com o Brasil. “Estamos objetivando parcerias de longo prazo, nas quais possamos estabelecer planos e metas benéficas e crescimento futuro para os dois lados, focando tecnologias aeroespaciais e relacionamento com centros de excelência, trabalhando ao mesmo tempo para assegurar suporte local, manutenção, integração e modificações do Super Hornet”.

Outra oferta da empresa é criar um programa de trabalho conjunto com o parque aeroespacial do Brasil. Ou seja, a meta da Boeing é ser um parceiro industrial de longo prazo, gerando benefícios de crescimento mú­tu­os na indústria e na economia. GRIPEN NG A SAAB não tem a mesma força política que seus dois concorrentes. Mas, a exemplo deles, detém avançada base tecnológica, resultado de pesados investimentos em pesquisa e desenvolvimento. O Gripen NG é baseado na plataforma do modelo anterior. Nas previsões do fabricante, em 2014, quando o programa estiver concluído, será o mais atual dos caças em operação do mundo, com vida útil projetada para até 2040. Fabricado à base de materiais compostos (uso intensivo), o avião sueco terá o menor Radar Cross Section das aeronaves de sua classe, um sistema de alta importância em missões de combate ar-ar. Na avaliação da empresa, por ser monomotor (os outros dois são birreatores), terá custos de aquisição, manutenção e operação relativamente baixos, adequados a forças aéreas com orçamentos restritos. julho-setembro 2009


Divulgação Saab

A proposta sueca prevê entrega da aeronave já armada com o míssil A-Darter, projeto que o Brasil desenvolve em parceria com a África do Sul, e com o Meteor BVR (sigla em inglês para “além do alcance visual”), míssil europeu em fase de ensaios finais. A SAAB tem uma história de cooperação com o setor aeroespacial brasileiro, especialmente nos programas dos jatos Embraer EMB145 AEW&C Erieye, exportados para o México e a Grécia, e em operação no Brasil. Na parte de compensação comercial, industrial e tecnológica, a empresa garante que atende aos requisitos da FAB. Um volume de 75% a 80% das compensações comerciais serão do tipo offset direto, com financiamento de 100% do valor do contrato. As primeiras versões do Gripen sofreram críticas quanto a alcance. Como forma de compensação, o fabricante estudou a alteração da plataforma original e a adoção de um tipo de motor mais potente. Com isso, o Gripen carregará 40% mais combustível, podendo atingir 2.200 milhas, alcance bem maior do que o anterior. A Comissão Gerencial de Projulho-setembro 2009

jetos incluiu-o na última fase do F-X2 depois de considerar que seu desenvolvimento atende ao cronograma de entrega, caso venha a ser o vencedor da concorrência. Até 2014, o modelo NG terá cumprido os ensaios, inclusive de qualificação de armas e softwares. O congelamento dos sistemas embarcados (configuração aviônica) se dará em 2010. Quanto a ser monoturbina, o que alguns analistas consideram fator de desvantagem operacional em relação aos modelos birreatores, Bengt Janér contra-argumenta: para ele, o grande problema está no jato biturbina, cujo custo de operação, ciclo de vida e suporte logístico é maior em relação ao monomotor. Segundo o executivo, enquanto o Gripen custa menos de US$ 4 mil por hora de voo, incluídos investimentos e atualizações, o birreator custa cerca de US$ 12 mil. “O que importa é ter uma Força verdadeiramente operacional, que não vá ficar no chão por conta dos altos custos de ciclos de vida da frota”, diz Janér, para quem o novo Gripen terá alcance de traslado de cerca de 4 mil quilômetros, “o

mesmo alcance ou até maior”, se comparado ao F/A-18, e praticamente o mesmo do Rafale. Informa ainda que o caça sueco terá condição de transportar 6 toneladas, indo mais longe dos que seus concorrentes, e de operar usando até estradas para decolar e aterrissar. “Nossa proposta vai ao encontro da Estratégia Nacional de Defesa. Portanto, temos certeza de que o Gripen NG possibilitará um novo salto de qualidade para a indústria brasileira. Em termos de mercado, a Embraer é 10% militar e 90% civil; a SAAB é 90% militar e 10% civil. Então, existe a possibilidade concreta de complementaridade”. Os próximos passos do projeto serão a indicação do vencedor pela FAB ainda em julho; encaminhamento dessa resolução para análise do ministro da Defesa, que, por sua vez, a encaminhará ao Conselho de Defesa Nacional, que tem a última palavra no processo e deverá torná-la pública em agosto. A assinatura do contrato de compra das aeronaves não deverá ultrapassar o segundo semestre deste ano. DEFESA LATINA

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logística

Rita de Sousa

Voando com as próprias asas

O Centro Logístico da Aeronáutica completa seu quarto ano de atividades com razões para comemorar os avanços da nacionalização no âmbito da Força Aérea Brasileira, que economiza divisas e contribui para a autonomia tecnológica do país

Laboratório afere a qualidade das peças dos produtores nacionais

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A frota da Força Aérea Brasileira (FAB) é composta de cerca de 700 aviões de 33 modelos diferentes. Para manter as aeronaves na disponibilidade ideal, precisa de um sistema de logística rápido, flexível e eficiente. É nessa parte que entra em cena e se destaca o Centro Logístico da Aeronáutica (Celog), moderna organização com sede na capital paulista, cujas origens estão assentadas na década de 1940, quando o então Ministério da Aeronáutica pôs em prática um projeto industrial visando apoiar a manutenção de aeronaves. A recém-criada Força Aérea Brasileira precisava desse tipo de serviço, que seria feito no Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (Pamasp), sediado no Campo de Marte. Com o tempo, além de fazer o atendimento logístico da FAB, o Pamasp tornouse o maior complexo industrial da América Latina em aeronáutica e fomentou o desenvolvimento da indústria brasileira no setor. Nos anos 1970, porém, a crise internacional do petróleo levou a FAB a enfrentar crescentes dificuldades na importação de logística para sua frota. Diz o ditado que “há males que vêm para bem”. Pois, para manter suas aeronaves em voo, a FAB adotou a nacionalização do material de que necessitava. O processo cresceu e exigiu nova identidade estrutural. Em julho de 1977, sob a coordenação do brigadeiro-doDEFESA LATINA

ar Massao Kawanami, nasceu a Comissão de Nacionalização de Material Aeronáutico (Conma). Mas era preciso fazer a separação entre nacionalização e atividade de aquisição, o que originou a Comissão Aeronáutica Brasileira em São Paulo (CABSP), em maio de 1982, que, ao final, incorporou as duas atividades. Com a modernidade a exigir novas adaptações, o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Juniti Saito, decidiu mudar a sistemática e, em 2005, criou o Celog com o objetivo de ampliar a estrutura e normatizar, executar, controlar e supervisionar as atividades de logística – desde a procura e compra do material desejado até sua distribuição aos “clientes”, isto é, as grandes organizações do Comando da Aeronáutica. “A Força Aérea diz o que quer e nós nos desdobramos para adquirir”, diz o brigadeiro Edgard de Oliveira Júnior, diretor do Celog. Mais vida útil No dia 25 de julho de 2008, o brigadeiro Edgard foi o anfitrião das comemorações dos três anos da instituição, que incluíram homenagem ao brigadeiro Masao Kawanami. Ele recebeu um presente bizarro e ao mesmo tempo significativo: uma lâmpada, que foi o primeiro item nacionalizado pela organização. Velhos tempos. Hoje, a nacionalização tomou vulto em razão

das imensas complexidades tecnológicas e do envelhecimento natural dos aviões. Com mais de 30 anos de operação, muitas aeronaves da frota ainda tinham bom horizonte de vida útil. Eram os casos de Xavante, Búfalo e Mirage, que tiveram suas vidas estendidas. Com equipamentos como Tucano, Bandeirante e Universal, porém, os problemas eram a real falta de peças ou a demora na entrega de componentes pelos fabricantes, pois os aviões não estão mais em linha de produção. Mas a FAB não poderia mandá-los para a sucata, se ainda podiam ser úteis em suas missões específicas. A nacionalização foi a resposta. O processo envolve profunda análise da peça necessária em falta no mercado e a viabilidade de sua produção no Brasil. O primeiro passo é identificar a peça fora de linha em todas as suas características, como matéria-prima, estrutura, resistência, design entre dezenas de aspectos técnicos considerados. A engenharia reversa, que cuida dessa parte, também trata de melhorar o desenho original, o desempenho do item e todo o projeto industrial. Em seguida, verifica qual a empresa brasileira com capacidade em maquinário para produzi-la. Os próprios engenheiros da FAB auxiliam o fabricante a materializar a peça em pauta. Os resultados têm sido altamente satisfatórios, conjulho-setembro 2009


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tos como tinta, combustível de aviação, aeronaves, viaturas, armamento, suprimento de aviação, material de comunicação e radar, material de escritório e hospitalar. Para atender à FAB e suas organizações subordinadas, trabalha com mais de 200 contratos. Os itens catalogados superam a ordem de 700 mil. A nacionalização já produziu mais de 15 mil itens no Brasil para mais de 30 tipos de aeronaves. No início, eram itens pequenos, mas atualmente inclui, por exemplo, praticamente todas as partes do sistema dos trens de pouso da famosa aeronave T-27 Tucano, que equipa a Esquadrilha da Fumaça e também a Academia da Força Aérea para treinamento avançado. O Celog tem escritórios que respondem pela compra de material nos cinco continentes, bem como por manutenção e controle dos contratos firmados nas diversas regiões. Efetivamente, eles economizam de 15% a 35% nas aquisições que fazem. Em termos de distribuição do material adquirido, aviões do Correio Aéreo Nacional (CAN) fa-

zem o transporte das peças para as unidades requisitantes. Por via terrestre, o trabalho é feito pelo Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro (DARJ), unidade militar da estrutura do Comando da Aeronáutica que, na realidade, funciona como um centro logístico de distribuição, respondendo por desembaraço alfandegário, recebimento, triagem e distribuição de todo material adquirido no exterior, destinado às diversas organizações da Aeronáutica. Em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o Celog tem promovido um continuado processo de cadastramento da capacidade instalada da indústria brasileira. Enfim, como o brigadeiro Edgard enfatiza, “o difícil, o impossível ou o vencer é questão de capacidade logística”. Arquivo Defesa Latina

forme constatado em rigorosos testes de qualidade, regidos pelas normas internacionais. Ganha o país, que evita gastar divisas, a economia é incrementada, as aeronaves da FAB continuam no ar, o parque nacional recebe injeções de novos conhecimentos de ponta e excelência do produto. Ganha-se ainda com o cadastramento e a certificação, pois as empresas passam a figurar como possíveis fornecedoras no banco de dados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) ao lado de mais de 1,5 milhão de empresas do mundo inteiro e está permanentemente à disposição para consulta de vários países signatários. O trabalho e os efeitos são entusiasmantes. Contudo, nem sempre a nacionalização sai em conta. Ocorre que a alternativa é inaceitável: condenar à condição de sucata aviões que valem milhões de dólares. Assim, a despeito do alto preço unitário, os benefícios da nacionalização são visíveis, sobretudo no que diz respeito ao salto extraordinário de qualificação da empresa e seus produtos. Para uma ideia do valor agregado, a construção civil tem padrão de qualidade nível 3; o setor automotivo, nível 7; enquanto na aviação é 20 vezes maior. Mais de 25 mil pedidos de produtos chegam ao Celog por ano. A maioria das compras (87%) é feita via pregão eletrônico; as outras 13%, por outras modalidades de licitação, dependendo da urgência da demanda, da disponibilidade do item ou do fabricante. O Celog também compra produ-

Brigadeiro Edgard de Oliveira Júnior, diretor do Celog

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internacional

João Lins de Albuquerque Apesar das periódicas dificuldades financeiras da ONU, provocadas pelo atraso no pagamento das contribuições por alguns Estados membros poderosos – como os Estados Unidos –, as operações de paz das Nações Unidas se apresentam como cada vez mais necessárias. E, a despeito do não engajamento e da incompreensão de alguns países sobre a forma de fortalecer a organização nos domínios da diplomacia preventiva, do restabelecimento e da manutenção da paz, a comunidade internacional tem sido chamada a assumir responsabilidades cada vez maiores na esfera da segurança coletiva nos quatro cantos do mundo.

O Brasil é o 18º país que mais contribui com pessoal para as missões de paz da ONU O fim da imensa barreira ideológica que durante décadas alimentou suspeitas e hostilidades entre o Leste e o Oeste não impediu a continuação de guerras e conflitos armados que semeiam morte, sofrimento e horror e exigem intervenções urgentes, pois representam riscos, ameaças e desafios para a segurança nacional, regional e internacional. Daí por que democracias como o Brasil são levadas a integrar forças multinacionais de intervenção sob a bandeira das Nações Unidas. Assim, as novas missões de paz tornaramse indispensáveis, não só para a

contenção de catástrofes humanitárias, mas para a solução das crises em que a democracia não existe ou o Estado faliu. O Brasil ocupa o 18º lugar entre os países que mais contribuem com pessoal para as missões de paz da ONU. Está presente em dez delas, das quais a mais expressiva é hoje a Minustah (sigla francesa para Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti). Criada pela Resolução 1.542 do Conselho de Segurança da ONU em 30 de abril de 2004, ela foi classificada desde o início como a maior operação multidimensional realizada no Hemisfério Ocidental. Envolve 7.060 militares de quarenta países, dos quais mais de 1.200 são brasileiros. Tanto no Haiti como em Angola e Moçambique, onde o comando das operações ficou a cargo do Brasil, a distinção e o profissionalismo dos militares brasileiros demonstram como – em poucas décadas – as Forças Armadas souberam responder aos novos desafios das relações internacionais, não mais pautadas pelo conflito Leste-Oeste, mas pela multipolaridade de nosso mundo.

UN Photo/Marco Dormino

Brasil, protagonismo global Parece claro que a defesa nacional compreende que precisa conjugar estabilidade e objetivos permanentes, implícitos em suas funções, com as mudanças rápidas – por vezes inesperadas – impostas pelo contexto internacional. Nesse sentido, o Brasil já não é mais o gigante adormecido: não pode ficar e não fica alheio às questões que enSob a faixa de “Feliz Natal e Ano Novo”, membros do contingente brasileiro no Haiti atendem ao garoto e à senhora em Porto Príncipe (25/12/2008) 50

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UN Photo/Tim McKulka

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volvem o mundo e, em particular, a América Latina, onde a condição do país é, inegavelmente, de liderança. Isso implica estar presente onde e quando for necessário. A importância de um país no cenário internacional é medida pela sua expressão nos campos políticos e militar, econômico, científico, cultural, territorial e demográfico, afirmou na ONU, em 1996, o embaixador brasileiro Ivan Cannabrava. A capacidade de atuação externa dos diferentes Estados

– completou – depende essencialmente de seu peso relativo nessas áreas de atuação. Poucas vezes alguém disse coisas tão claras! A inserção do Brasil na esfera internacional por meio das missões de paz – catalisadoras de modernização e adequação de nossas Forças Armadas ao contexto do século XXI – deve ser compreendida também como instrumento estratégico da nossa política externa para garantir objetivos regionais e internacionais. Naturalmente, se

Mulheres, vítimas da guerra civil, recebem ajuda da ONU em Agok, Sudão (21/05/2008)

alguém perguntar que objetivos são esses, a resposta poderia ser sincera e resumida: conquistar credibilidade internacional a ponto de o Brasil ser reconhecido como autêntico global player, legitimando assim sua justa reivindicação a uma cadeira permanente num Conselho de Segurança reformado e democratizado na Organização das Nações Unidas. Enfim, sair da retórica das relações externas para um papel autenticamente ativo no novo cenário internacional.

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ciência | tecnologia

Ameaça cibernética A ciência e a tecnologia significam progresso, mas também criam vulnerabilidades e ameaças

Peterson Ferreira da Silva

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O mundo vivencia uma série de transformações aceleradas e avanços tecnológicos que, somados ao gradativo acesso da humanidade à informação, fomentam o crescimento de redes de alcance transnacional as quais entrelaçam e desafiam diversos atores, processos e valores. Desafios que atentam, às vezes de forma simultânea, contra a segurança internacional, nacional e individual por meio de atividades ilícitas, como lavagem de dinheiro; tráfico de armas, drogas e pessoas; crimes contra a propriedade intelec­ tual e, dentre muitos outros, os crimes cibernéticos. Estes, por sua vez, não tardaram a suscitar novas práticas no contexto da dimensão militar de segurança por meio da assim denominada “guerra cibernética”. Se a origem da Internet remete ao programa militar americano da Agência de Pesquisa e Projetos Avançados (Arpa, de Advanced Research and Projects Agency) no contexto da Guerra Fria, foi a ArpaNet, em contato com universidades e outras instituições, que levou à moldagem da rede global de computadores na forma como a conhecemos hoje. Trata-se de mais uma evidência da recorrente aproximação entre tecnologias utilizadas nos mais sofisticados sistemas civis e militares a ponto de se tornarem frequentemente duais. Fenômeno demonstrado pelos EUA na I Guerra do Golfo, em 1991, e que alguns derivam da assim apregoada “Revolução dos Assuntos Militares” (RAM) – conceito que diz respeito a teorias julho-setembro 2009


sobre o futuro da guerra, normalmente ligado a temas de organização, estratégia e impacto de novas tecnologias. Desde então, uma avalanche de sensores e dados domina os conflitos modernos, possibilitando o entrosamento das mais variadas esferas de decisão e culminando em concepções como a de guerras centradas em redes, que são desenvolvidas sobretudo nos países mais avançados tecnologicamente. Porém, tal dependência trouxe consequências alarmantes. Apenas para lembrar eventos recentes, só no início deste ano de 2009, houve vários indícios de invasões cibernéticas nos sistemas de controle de tráfego aéreo e de centrais de distribuição de energia elétrica americanos. Contudo, o que mais chamou a atenção na grande mídia foi a invasão de sistemas do Pentágono associados ao programa do Joint Strike Fighter (JSF) da Força Aérea Americana na qual foram roubados muitos terabytes de dados – provavelmente estratégicos. Ações dessa natureza são cada vez mais frequentes: estimase que só no ano fiscal de 2008 tenham ocorrido mais de 18 mil invasões cibernéticas contra o governo americano, segundo o Departamento de Segurança Interna, totalizando cerca de US$ 8 bilhões em prejuízos aos cofres americanos, informou a Casa Branca. Como se esse quadro não bastasse, muitos países, especialmente os mais desenvolvidos – mas não apenas eles – investem na formação de verdadeiros guerreiros cibernéticos (ver boxe). julho-setembro 2009

Guerra cibernética A guerra cibernética pode ser entendida como o conjunto de ações ofensivas e defensivas de informações e seus sistemas para explorar ou manipular de algum modo determinados alvos civis ou militares. E nos conflitos recentes sua disseminação tem ocorrido rapidamente. Em novembro de 2008, enquanto tanques russos invadiam a Geórgia, sites do governo de Tbilisi eram tirados do ar por hackers. Em ocasião semelhante em 2007, ataques provavelmente originados na Rússia tiraram do ar vários sites governamentais e de importantes bancos na Estônia. Mesmo simples vírus de computadores tornam-se motivos de apreensão de civis e militares – como no caso dos Rafale franceses, que, em janeiro último, foram impedidos de voar devido à apreensão dos pilotos quanto a “baixar” os planos de vôo dos computadores infectados. Outro exemplo ocorreu, no mesmo mês, em várias bases da Força Aérea Britânica e significativa parcela da frota naval de Sua Majestade – incluindo o porta-aviões Ark Royal –, que foram afetados por uma versão híbrida do mesmo vírus. Trata-se, portanto, de prática de alto impacto, baixo custo e difícil rastreamento em razão de seu caráter transnacional, cujos alvos principais são redes de comunicações, sistema financeiro, serviços críticos e sistema de infraestrutura em geral. O ciberespaço tornou-se um domínio passível de combates e suas ações, ataques de desorganização em massa.

Nesse sentido, é com a China O modelo 5150, que alguns governos ocidentais primeiro PC estão preocupados. Desde 1999, da IBM, 1981 quando hackers chineses atacaram sites do governo dos EUA após o bombardeio americano à embaixada chinesa em Belgrado, os ataques originados daquele país só têm crescido, segundo informações dos governos britânico e americano. Ações perfeitamente condizentes com os princípios de “guerra irrestrita” formulados pelos militares chineses no contexto das atuais transformações da guerra como fenômeno. Em resposta, vários países rea­ lizam regularmente manobras cibernéticas em suas academias militares, reforçam sua segurança virtual por meio de novas instituições e até mesmo desenham planos, como no caso do Pentágono, de criar comandos militares dedicados exclusivamente à questão do ciberespaço. Já os países incapazes de acompanhar o volume de investimentos necessário para dar conta sozinhos do desafio – como a Estônia – decidiram centralizar nas esferas civis tal responsabilidade, supervisionando serviços críticos, fomentando uma “cultura de segurança virtual”, apoiando cursos de graduação sobre o tema e linhas de pesquisa específicas, claramente com o intuito de negar o uso estrangeiro de sistemas nacionais em um eventual ataque. DEFESA LATINA

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Ataque virtual, dano real

Consequências para o Brasil Apesar da expansão do uso da internet nos últimos anos, o Brasil ainda está colocado em 59º lugar no ranking dos países mais conectados à rede, conforme levantamento do Fórum Econômico Mundial. Entretanto, os avanços já constituem exemplos para outros países, como os serviços públicos do governo eletrônico (e-gov), o sistema de compras eletrônicas do governo federal (Comprasnet), tido como referência pelo Banco Mundial, e os serviços do sistema Receita Federal, que já recebeu vários prêmios. Assim, ao mesmo tempo que vislumbra maior popularização da internet, o Brasil precisa zelar pela segurança de suas conquistas, sob o risco de assistir a novas panes no serviço de transmissão de dados e de acesso à internet, a exemplo da que afetou praticamente todo o estado de São Paulo em julho de 2007, gerando sérios problemas a bancos, empresas, delegacias, bombeiros, tribunais e usuários de banda larga em geral. Apesar de iniciativas louváveis no âmbito do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, como a criação do Comitê Gestor da Segurança da Informação em 2000, há muito a ser feito. A própria recém-lançada Estraté54

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gia Nacional de Defesa elenca o setor cibernético como uma das prioridades e, ao que tudo indica, almeja maior sinergia entre setores civis e militares nesse campo. Se a iniciativa do governo de estabelecer parceria público-privada (PPP) para construir o primeiro satélite geoestacionário brasileiro vai garantir razoável autonomia nas telecomunicações civis e militares – hoje dependentes em última instância de operadoras comerciais estrangeiras –, a conclusão do veículo lançador de satélites (VLS) torna-se fundamental nesse sentido também. Portanto, a difusão de eventos sobre segurança de computadores no Brasil – como o Computer Security Day (CSD), celebrado anualmente em 30 de novembro –, unindo desde entidades como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) até o 3º Centro de Telemática de Área (3º CTA) do Exército Brasileiro, pode ser considerada mais uma pequena e necessária iniciativa para enfrentar o desafio cibernético.

Em 9 de julho, pela quarta noite consecutiva, o site do Departamento de Estado dos Estados Unidos foi invadido por hackers. A onda de ataques cibernéticos, que satura conexões e paralisa sites, provocou apreensão nesse mesmo dia ao causar lentidão também no sistema de internet de um país inteiro: a Coreia do Sul. De acordo com informações dos serviços de inteli­gên­cia encarregados de investigar o evento, os ataques partiram de 16 países, inclusive dos próprios territórios americano e sul-coreano, utilizaram pelo menos 20 mil com­ putadores domésticos e 86 provedores de internet. Os alvos principais foram bancos e órgãos ligados às Forças Armadas do país. Um comunicado da inteligência sul-coreana pontuou que ofensiva tão ampla e orquestrada só poderia ter sido “elaborada por uma organização bem-montada ou por um Estado”. E indicou sua principal suspeita, a Coreia do Norte. Embora no país comunista poucos tenham acesso à internet, a Coreia do Sul alega que sua arquiinimiga tem uma unidade especializada em ataques cibernéticos.

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cultura.arte

"Foz do Rio Amazonas", 2005

O Cisne Branco nas aquarelas do artista paraense Mário Barata “Construa você mesmo um dos mais belos veleiros do mundo”. Não poderia ser mais exata a chamada feita pela editora Planeta De Agostini ao lançar nas bancas do país sua coleção de 29 fascículos, ao fim dos quais o leitor fiel terá adquirido todas as peças para montar o veleiro Cisne Branco, da Marinha do Brasil. Um oportunidade de negócio que não passou despercebida à gigante editorial ítalo-espanhola de colecionáveis e um modo original de dar mais visibilidade a essa nave maravilhosa, usada para treinamento e representação do país nos portos do mundo (“mostrar bandeira”). Nos portos onde atraca, o Cisne Branco atrai multidões. A 56

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razão é simples: ter acesso ao convés, mesmo por alguns instantes, equivale a entrar no túnel do tempo, quando qualquer grande viagem implicava alguma travessia marítima e praticamente toda a civilização humana dependia da navegação. Moderno, mas pela aparência pertencente à linhagem dos soberanos dos mares dos séculos XVIII e XIX, ocasião em que os ventos foram enfim dominados e se abriu uma nova era para o conhecimento do mundo e dos oceanos, o Cisne Branco é uma autêntica celebridade. Fotografado e filmado sob todos os ângulos para documentários, revistas e jornais, ele foi homena­geado no Carnaval 2005 pela Escola de Samba Unidos de Vila Isabel e se

tornou personagem de um artista da aquarela – o paraense Mário Barata. Com base nas artes produzidas por ele, foi desenvolvido o livro Aquarela e navegação: um encontro que fez história, que hoje viaja com o veleiro e é oferecido a personalidades de destaque nos países visitados. O projeto cultural foi patrocinado pelo Grupo Bunge para comemorar seus 100 anos de presença no Brasil em 2005. Construído pelo estaleiro holandês Damen ao custo aproximado de US$ 15 milhões, sua entrega ocorreu em 4 de fevereiro de 2000 – no tempo exato de chefiar as comemorações marítimas dos 500 anos do Descobrimento. julho-setembro 2009


Fotos: Editora de Cultura

“Partida”, 2004

U-20, navio veleiro Cisne Branco

“Cisne Branco a todo o pano”, 2005

Batimento de quilha: 9/11/1998 Lançamento e batismo: 4/08/1999 Incorporação: 9/03/2000 Deslocamento: 1.038 toneladas (carregado) Dimensões: comprimento 76 metros (249 pés) boca 10,6 metros calado 4,80 metros Propulsão: Diesel e vela ( três mastros) Área vélica: 2.195 metros quadrados Energia elétrica: 2 geradores diesel Velocidade máxima: 11 nós a vela, até 17,5 nós a motor Raio de ação: 1.250 milhas Sensores: 1 radar de navegação Furuno FR 1510 Mk-3 Tripulação: 52 homens (10 oficiais e 42 praças) Armamento: 2 canhões de salva 47 mm Comandantes: CMG José Sadi Cantuária, 2000 CMG Bernardo José Pierantoni Gambôa, 2002 CMG Paulo Vinicius C. Rodrigues Júnior, 2004 CMG Leonardo Puntel, 2006 CMG Flavio Soares Ferreira, 2008

SOBRE O ARTISTA Chamado pela crítica de “Turner tropical”, em referência ao grande marinhista britânico J. M. W. Turner (1775-1851), Mário Barata, Belém (PA), 1963, é arquiteto, professor e artista plástico. Especialista na difícil arte da aquarela, realizou exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Suas aquarelas têm servido à ilustração de livros científicos, revistas e coleções de literatura infanto-juvenil. Figuram ainda em peças institucioniais e culturais de empresas e organizações, como Universidade da Amazônia, Universidade do Estado do Pará, Museu Náutico da Bahia, Marinha do Brasil. "O veleiro atracado no Rio de Janeiro", 2004 julho-setembro 2009

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cultura.livros

A “guerra dos ratos” no fronte aéreo Editor da revista Asas, dedicada a cultura e história da aviação, o jornalista Claudio Lucchesi voa novamente ao passado para trazer aos leitores mais um título da série Grandes Batalhas Aéreas: Stalingrado, 1942. (C&R Editorial, 98 págs., R$ 63,00). Nele, estuda e analisa uma por uma as ações do longo enfrentamento entre soviéticos e alemães pelo domínio da cidade – rebatizada de Volgogrado em 1956 –, que acabou com a primeira grande derrota das forças do III Reich na Segunda Guerra Mundial. Como em seu trabalho anterior, Kursk, 1943, o livro tem fácil leitura e confirma a especialização do autor em assuntos de defesa. Sobretudo seu conhecimento da aviação do Leste Europeu. Quando Hitler ordenou a tomada da cidade, no final da primavera de 1942, com o clima ainda ameno, os alemães encurralaram os russos na beira do rio Volga. Mas estes não se renderam. Obedecendo ao desafio lançado por Stalin – “nenhum passo para trás” –, os cidadãos e soldados defenderam o terreno rua por rua, protegendo-se embaixo da terra, num corpo a corpo em que até simples facas eram utilizadas. Daí os nazistas a batizarem de “guerra dos ratos”. Porém, embora documentada por cinegrafistas filmando em tempo real e no enregelar da hora – mostrando o sofrimento imposto às forças nazistas pelo conhecido General Inverno, responsável também pela derrota de Napoleão Bonaparte em 1812 –, a batalha de Stalingrado não foi suficientemente explorada no que diz respeito à importância das Forças Aéreas no teatro das operações. Essa é a lacuna preenchida por Claudio Lucchesi em seu livro, que ainda premia o leitor com fotos e mapas raros e com 24 desenhos de aviões das duas forças envolvidas na batalha, na qual 4.400 aeronaves foram perdidas. Lucchesi está pesquisando a preferência dos leitores no site de Asas – talvez para definir sua próxima incursão historiográfica sobre batalhas. Por enquanto, está ganhando a batalha aérea de Yom Kippur, da guerra que envolveu Egito, Síria e Iraque contra Israel e durou de 6 a 26 de outubro de 1973. (MPC) Soete Lieven / Katardat.org

Russos decolam para missão e avião nazista derrubado em 1942 em Stalingrado, fotos clássicas do documentarista russo Georgi A. Zelma

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Brasil S/A Com formação jurídica, vivência intensa no mercado de capitais e inegável vocação de historiador, Ney Carvalho vem contribuindo para a revisão da história econômica do Brasil. Sua opção tem sido registrar momentos decisivos a partir do exame de documentos, repercussão na imprensa e análise ideológica de prós e contras – sem nunca encobrir sua posição de privatista convicto. Em 2004, seu estudo O Encilhamento – Anatomia de uma bolha brasileira contraditou a tradicional visão negativa do evento, baseada em romance do Visconde de Taunay de 1894, destacando o incentivo que representou para o início da industrialização no país. Agora, Carvalho revisita o conjunto dos processos de privatização dos anos 1990 num livro que também procura mostrar “o outro lado” do tema. Até agora, só a visão dos que acham que as privatizações representaram profundo prejuízo ao Estado tinha obtido expressão. Em A guerra das privatizações (Editora de Cultura, 512 págs., R$ 66,00), ele avança através do campo minado de manifestos, passeatas, greves, lobbys e demais escaramuças das forças contrárias para revelar o que e como foi, de fato, a desestização no Brasil da última década do século XX. “A ‘guerra das privatizações’ foi, na verdade, uma sucessão de combates entre razões e emoções, tendo como foco de disputa a manutenção do que se convencionou denominar Estado-empresário”, define o autor, lembrando que esse modelo, surgido na ditadura de Vargas, nos anos 1940, emitia nítidos sinais de esgotamento quando da Constituinte de 1988 – representados por “prejuízos imensos, ineficiência, empreguismo e terreno fértil para semeadura de corrupção”. Com quatro capítulos de informação e 13 dedicados à venda de empresas federais, o livro percorre desde a primeira privatização, que foi a da Usiminas, em 1991, passa por CSN, Vale do Rio Doce, Telebrás, entre outras, e chega até o Banespa, em 2000. O capítulo 17, intitulado “A luta aérea”, é dedicado à Embraer – ascensão, queda, privatização e nova ascensão, até as portas da atual crise da economia mundial. Nenhum aspecto controverso é evitado e tudo é contextualizado a partir de dados históricos sobre a estatização nos séculos XIX e XX, ainda quase desconhecidos da maioria dos brasileiros. No prefácio ao livro, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, diz: “(...) as privatizações foram alvo de uma campanha de desinformação que acabou por estigmatizá-las. Um inestimável serviço prestado ao atraso do país, que nos cabe combater, pelo esclarecimento. É o que faz este livro, A guerra das privatizações, de Ney Carvalho, em boa hora publicado”. (MPC)

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cultura.memória Lucita Briza

2010 marcará os 50 anos do reide aéreo de Ada Rogato à Terra do Fogo

Retrato de 1944, que Ada dedicou à também pioneira da aviação Thereza de Marzo

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Foi em 1952, portanto há 57 anos, que a aviadora brasileira Ada Rogato (1910-1986) surpreendeu as autoridades da aviação civil e militar do Brasil e da Bolívia ao chegar a La Paz e aterrissar em El Alto, o aeroporto mais alto do mundo. Sozinha em seu pequeno avião, ela pousou a 4.071 metros de altitude, façanha que nenhum piloto civil brasileiro – homem ou mulher – havia tentado antes. Advertida sobre os riscos da empreitada em uma aeronave de poucos recursos – um Cessna-140 A, de apenas 90 Hp de potência –, Ada aliviou ao máximo o peso do avião antes da partida. Para lidar com as traiçoeiras correntes de ar nas alturas, ela confiava na perícia adquirida como a primeira mulher a pilotar planador no Brasil e na América do Sul. Além disso, já havia cruzado os Andes duas vezes em 1950, visitando Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai, num périplo de 11.200 quilômetros e 116 horas de voo. Voltara a cruzar a cordilheira em 1951, em seu reide solitário de 51.064 quilômetros pelas três Américas, que a levou até o Círculo Polar Ártico, mas não à Bolívia – justamente devido à altitude de seu principal aeroporto. Para cumprir essa última etapa do reide pan-americano, Ada partiu de São Paulo, passou por Mato Grosso, cruzou a fronteira e pousou em Santa Cruz de la Sierra e Cochabamba antes de chegar a El Alto em 20 de junho de 1952. A presença dela causou alvoroço na capital e seu pequeno Cessna foi exibido em praça pública. Depois de tornar-se a primeira mulher a obter o brevê de piloto militar e as Asas da Força Aérea do país, Ada recebeu a medalha Condor dos Andes, a mais alta condecoração do governo boliviano. Seu vitorioso regresso ao Brasil se deu em 13 de julho. Ada Rogato continuaria suas aventuras. Entre elas, um reide em homenagem a Santos-Dumont em 1956, que a levou a percorrer todo o território brasileiro – perfazendo 25.057 quilômetros em 163 horas de voo –, e a viagem em 1960 à Terra do Fogo, ponto extremo da América do Sul, onde foi a primeira mulher a chegar pilotando um avião.

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efemérides Colaboraram nesta edição Colaboraram nesta edição

julho 18 Coroação de D. Pedro II (1840) Americanos esperam lançamento da Apollo 11 (foto NASA)

20 Chegada do primeiro homem à Lua na Apollo 11 (Neil Armstrong, EUA, 1969)

28 Independência do Peru

agosto

Fat Man, a bomba de Nagasaki (foto: Wikimedia Commons)

Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro

5 Independência da Bolívia 6 Americanos lançama bomba atômica sobre Hiroxima (Japão) 1945 9 Americanos lançam a segunda bomba atômica sobre Nagasaki (Japão) 1945 13 Construção do Muro de Berlim,1961 23 Dia do aviador naval Dia da intendência da aeronáutica 24 Morte de Getúlio Vargas (1954), sua carta-testamento é transmitida por rádio 25 Independência do Uruguai Jânio Quadros renuncia à Presidência (1961) Dia do soldado 26 Sonda espacial Voyager II chega a Saturno em 1981

setembro 1 Início da 2ª Guerra Mundial(1939) 3 Dia da polícia militar 7 Dia internacional da aviação civil Independência do Brasil (1822) 11 Atentado terrorista derruba as torres gêmeas do World Trade Center em NY (EUA) 12 Dia da América Latina 17 Lançamento do primeiro avião supersônico (EUA 1947) 30 Dia mundial da navegação

Angela Schnoor é psicóloga graduada pela Pontifícia Angela Schnoor é psicóloga Universidade Católica do Rio graduada de Janeiropela e sePontifícia dedica à Universidade Católica do Rio de Janeiro e se Literariadedica à clínica de psicoterapia individual e de grupo. clínica de psicoterapia mente, exercita-se em individual minicontos.e de grupo. Literariamente, exercita-se em minicontos. Cosme Degenar Drumond iniciou carreira como Cosme Degenar iniciou carreira como redator no antigo Drumond Ministério da Aeronáutica. Atua redator no antigo Ministério da Aeronáutica. na imprensa especializada em defesa desde 1985.Atua Foi na imprensa especializada em defesa desde 1985. sócio e diretor de redação da revista TecnologiaFoi & sócio e diretor de redação da revista Tecnologia & Defesa e tem as mesmas funções na Defesa Latina. Defesa e tem as mesmas funções na Defesa Latina. É autor dos livros O Museu Aeroespacial Brasileiro, ÉAsas autor dos livros O Museu Aeroespacial Brasileiro, do Brasil e Santos-Dumont, novas revelações. Asas do Brasil e Santos-Dumont, novas revelações. João Lins de Albuquerque é bacharel em direito JoãoFaculdade Lins de Albuquerque é bacharel direito pela Nacional de Direito do Rio em de Janeiro pela FaculdadedoNacional Direito do Rioem deSovietoJaneiro (Universidade Brasil) edepós-graduado (Universidade do Internacionais Brasil) e pós-graduado em Sovietologia e Relações pela Universidade de logia e Relações pela Universidade de Estocolmo. AtuouInternacionais como correspondente internacional Estocolmo. como ecorrespondente internacional em Londres,Atuou Estocolmo Nova York, onde trabalhou em Londres, EstocolmodeeInformação Nova York,Pública onde trabalhou para o Departamento da Orgapara o Departamento de Informação Pública da Organização das Nações Unidas. É autor de Conversações: nização das Nações Unidas. autor deoConversações: 50 entrevistas essenciais paraÉentender mundo. 50 entrevistas essenciais para entender o mundo. Julio Tarragó Ribeiro é estudante de arquitetura e Julio Tarragó Ribeiro é estudante de arquitetura e ilustrador. ilustrador. Lucca Alves é jornalista diplomado pela PUC-Campinas, Lucca Alves é carreira jornalistaem diplomado PUC-Campinas, tendo iniciado jornais dopela interior, transferintendo iniciado carreira em jornais do interior, do-se depois para a Assessoria de Imprensa da transferinTelefônica do-se depois para a Assessoria de Imprensa da Telefônica em São Paulo. em São Paulo. Luiza Lusvarguhi é diplomada em letras e bacharel Luiza Lusvarguhi diplomada emmestre letras ee bacharel em jornalismo pelaéPUC-SP, sendo doutora pelapela PUC-SP, sendo mestre e doutora em jornalismo Comunicação Universidade de São Paulo. em Comunicação pelaShopping Universidade Paulo. Trabalhou nos jornais News de e OSão Estado de Trabalhou nos de jornais Shopping e Ofemininas Estado dee S. Paulo, além colaborar com News revistas S. Paulo, além de colaborar com os suplementos culturaiscom e derevistas turismofemininas dos jornaise com osPopular suplementos culturais e de turismo dosdo jornais Diário e Folha de S. Paulo. É autora livro Diário e Folha de S. Paulo. É autora do livro De MTVPopular a Emetevê. De MTV a Emetevê. Lucita Briza é pedagoga e jornalista, tendo iniciado carLucitanaBriza é pedagoga e jornalista, tendoAbril. iniciado carreira imprensa nas revistas da Editora Depois, reira nanoimprensa revistas Editoracomo Abril.pauteira, Depois, atuou jornal Onas Estado de da S. Paulo atuou no ejornal O Estado de S. PauloInteressou-se como pauteira, redatora editora de Internacional. por redatoraaoe traduzir editora de Internacional. Interessou-se por aviação o livro sobre a saga dos aviadores aviação aodurante traduziraoII livro sobre a saga(Ados aviadores poloneses Guerra Mundial Question of polonesesl. durante GuerraPrepara Mundialuma (A Question of Honour, Olson & aS.IICloud). biografia da Honour, da l. Olson & S. Cloud). Prepara uma biografia da pioneira aviação Ada Rogato. pioneira da aviação Ada Rogato. Márcia Cristina Gonçalves de Souza é jornalista diMárcia Cristina GonçalvesGama de Souza é jornalista diplomada pela Universidade Filho, Rio de Janeiro; plomada pela Universidade Filho, Riopela de Janeiro; pós-graduada em GerênciaGama de Marketing ESPM, pós-graduada emGestão Gerência de Marketing pela ESPM, São Paulo, e em Empresarial pela Universidade São Paulo, em Gestão Empresarial pela Universidade Católica doeSalvador, Bahia. É palestrante e autora do Católica É palestrante e autora do livro ÉticadonoSalvador, ambienteBahia. de trabalho. livro Ética no ambiente de trabalho. Maria Angela Silveira de Souza é jornalista e publiMaria Angela Silveirarespondendo de Souza é jornalista citária. Iniciou carreira pela área edepubliprocitária. Iniciou carreiraNobel, respondendo área de propaganda da Livraria em São pela Paulo, passando paganda da aLivraria em de Sãoimprensa Paulo, passando depois para área deNobel, assessoria e comudepois para a área de assessoriauniversidades de imprensa e outras comunicação, atendendo a editoras, nicação, atendendo editoras,como universidades e outras empresas de cunho acultural, a Blue Comunicaempresas de cunho cultural, como a Blue Comunicação e a Editora de Cultura. ção e a Editora de Cultura. Mirian Paglia Costa é bacharel em direito e em jorMirian Paglia bacharel direito e emVisão jornalismo, tendo Costa atuadoéem jornaisem e nas revistas atuado em jornais e nas da revistas Visão enalismo, Veja. É tendo publisher e diretora editorial Editora de e Veja. Ée publisher diretoraLatina. editorialÉ da Editora Cultura da revistaeDefesa autora dos de liCultura e da Defesa Latina.doÉ lugar autoracomum, dos livros Colar derevista maravilhas e Notícias vros detítulos. maravilhas e Notícias do lugar comum, entreColar outros entre outros títulos. Peterson Ferreira da Silva, bacharel e mestrando Peterson Ferreira da Silva,participa bacharel do e mestrando em Relações Internacionais; Programa em Relações participa do Programa Pró-Defesa do Internacionais; Ministério da Defesa e Capes. Pró-Defesa do Ministério da Defesa e Capes. Rita de Sousa é jornalista diplomada pela UnespRita é jornalista pela UnespBaurudee Sousa se especializou emdiplomada revistas segmentadas. Bauru e se especializou em revistas segmentadas. Atuou como assistente editorial da Revista Brasileira Atuou como assistente editorial da Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância, e como edide Aprendizagem Aberta e a Distância, e como editora das revistas IColetiva, do Núcleo de Inteligência tora das revistas IColetiva, do Núcleo de Inteligência Coletiva Aplicada à Educação, e OESP Construção. Coletiva Aplicada à Educação, e OESP Construção.

FONTE: http://fortuna.jard.com.br/

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Número 1 - Ano 1  

Segurança militar