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O Fabuloso Livro Verde


A Mérula Dourada

ra uma vez um grande fidalgo, que tinha três filhos. Certo dia, o senhor fidalgo caiu muito doente, e o enviaram para médicos de todo o tipo, e até mesmo para um endireita-ossos. Mas os médicos todos, os muitos e vários doutores de jeito nenhum conseguiam descobrir o que é que havia de ruim nele, e nem mesmo aliviar o seu sofrimento. Enfim veio um médico forasteiro, que declarou: só a Mérula Dourada é que poderia curar o doente. Assim, pois, o velho fidalgo enviou o seu filho mais velho em busca da ave maravilhosa, e prometeu-lhe um mundaréu de riquezas se a encontrasse e a trouxesse de volta. E lá se foi o moço, e daí a pouco viu-se numa encruzilhada, onde quatro estradas se encontravam. Como não soubesse qual escolher, resolveu jogar o chapéu para o alto e seguir em frente a direção na qual ele caísse. Após viajar por dois ou três dias, cansou-se de ficar a andar sem saber aonde ia, ou quanto tempo até lá levaria, e fez uma parada numa


Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

pousada, cheia de gente a fazer uma bela duma folia, e pediu algo para comer e beber. — Palavra – disse ele – é pura besteira gastar mais um minuto que seja a caçar esta tal ave. Meu pai já é velho, e se ele morrer hei de herdar tudo quanto tem. O velho, depois de pacientemente esperá-lo por algum tempo, enviou o seu segundo filho à procura da Mérula Dourada. O jovem enfiou-se pelo mesmo caminho do irmão, e ao chegar à encruzilhada também jogou o chapéu para o alto, a ver qual estrada deveria tomar. O chapéu caiu onde já caíra da outra vez, e ele andou até chegar à estalagem onde o irmão fizera a sua parada. Este, que estava debruçado sobre a janela da pousada, deu-lhe um grito e o chamou para ficar e participar da festança. — Estás certo – respondeu-lhe o jovem. – Sabe-se lá se eu jamais haveria de encontrar a Mérula Dourada, ainda que viajasse o mundo a procurá-la. Na pior das hipóteses, se o velho morrer herdaremos tudo quanto tem. Os irmãos entraram na pousada e se puseram a comer, a beber e a festejar até não poderem mais, e logo gastaram o que tinham e o que não tinham, pois ficaram a dever para o dono da pousada, que os manteve como reféns até que pudessem pagar-lhe suas dívidas. E lá saiu o filho mais novo em seguida, e também chegou ao lugar onde seus irmãos estavam ainda presos. Pediram-lhe para parar, e fizeram tudo quanto podiam para impedi-lo de seguir em frente. — Não – respondeu ele – meu pai confiou em mim, e eu hei de correr mundo afora até encontrar a Mérula Dourada. — Essa agora! – escarneceram os irmãos – encontrarás tanta mérula quanto nós, e só o que farás é andejares à toa. Que o velho morra, se quiser; iremos repartir tudo o que ele tem. Depois de voltar ao rumo, topou uma pequena lebre, que estacou para olhá-lo e lhe perguntou: — Aonde vais, amigo? — A dizer a verdade, não sei – respondeu ele. – Meu pai está doente, e não poderá ficar bom a menos que eu lhe traga a Mérula Dourada. Já 6


A Mérula Dourada

faz muito tempo que saí de casa à sua procura, mas ninguém sabe me dizer onde posso encontrá-la. — Ah – disse a lebre – tens ainda um longo caminho pela frente. Terás de andar ao menos setecentas milhas antes de chegar até ele. — E como hei de viajar tamanha distância? — Sobe em minhas costas – disse a pequena lebre –, e hei de te levar até lá. O rapaz obedeceu: e a cada salto a pequena lebre avançava sete milhas, e foi sem demora que chegaram a um castelo tão enorme e esplêndido quanto um castelo os poderia ser. — A Mérula Dourada está numa pequena choupana, aqui perto – disse a pequena lebre –, e hás de facilmente encontrá-la. O pássaro vive numa pequena gaiola, que fica ao lado de uma outra, feita todinha de ouro. Mas faças o que fizeres, não vás pô-lo na gaiola bonita, ou todos no castelo saberão que você o roubou. O moço encontrou a Mérula Dourada num poleiro de madeira, mas tão imóvel e rija que mais parecia morta. E ao lado da gaiola bonita estava a gaiola de ouro. — Quem sabe ela não volte à vida se eu a puser cá nesta gaiola bonita – pensou consigo o rapaz. Foi a Mérula Dourada tocar nas grades da magnífica gaiola e já despertou, e entrou a piar e piar, de modo que todos os criados do castelo correram a ver o que se passava, dizendo que ele era um ladrão e tinha de ser preso. — Não – respondeu ele – não sou um ladrão. Se apanhei a Mérula Dourada, foi apenas para com ela curar o meu pai, que está muito doente. Viajei mais de setecentas milhas para encontrá-la! — Muito bem, pois – responderam eles – deixar-te-emos ir, e até mesmo a Mérula Dourada havemos de te dar, se fores capaz de nos trazer a Dama de Porcelana. O jovem foi-se embora, choroso que só, e encontrou a pequena lebre, que estava a mastigar toda espalhafatosa um bocado de tomilho. — Por que choras, meu bom amigo? – perguntou a lebre. 7


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— Porque – respondeu ele – a gente do castelo não me dará a Mérula Dourada sem que eu lhes dê em troca a Dama de Porcelana. — Bem vejo que não seguiste meu conselho – disse a pequena lebre – e colocaste a Ave Dourada na bela gaiola. — Ai de mim! sim! — Não te desesperes! a Dama de Porcelana é uma jovem, tão linda quanto Vênus, que mora a umas duzentas milhas daqui. Sobe em minhas costas e eu te levarei até lá. A pequena lebre, que a cada salto comia sete milhas de uma só vez, num piscar de olhos já estava lá, e deixou o moço na beira de um lago. — A Dama de Porcelana – disse a lebre ao moço – virá aqui para banhar-se com suas amigas, enquanto eu como um bocado de tomilho para revigorar-me. Quando ela estiver no lago, esconde-lhe as roupas, que são de uma brancura de cegar a gente, e não as devolvas até que ela concorde em seguir-te. E a pequena lebre foi-se embora, e quase imediatamente lá estava a Dama de Porcelana, com as suas amigas. A senhora despiu-se e entrou na água. Então o moço deslizou sem fazer um só barulho e pegou-lhe as roupas, que haviam sido escondidas sob uma pedra um pouco para lá do lago. Quando a Dama de Porcelana já não queria mais brincar n’água, saiu para vestir-se. Mas foi um procurar que não acabava mais pelas suas roupas, e ela não as encontrou em lugar nenhum. As suas amigas ajudaram-na a procurá-las; mas, vendo enfim que a busca de nada estava a adiantar, deixaram-na sozinha na margem, a chorar amargamente. — Por que choras? – disse o jovem, achegando-se dela. — Ai de mim! – respondeu ela –­­ enquanto estava a banhar-me, alguém veio e roubou as minhas roupas, e minhas amigas me abandonaram. — Hei de encontrar as tuas roupas; basta que venhas comigo. E a Dama de Porcelana aceitou segui-lo; e, após lhe ter dado de volta suas roupas, o moço comprou-lhe um pequeno cavalo, veloz como o vento. A pequena lebre os conduziu de volta, para ele buscar a Mérula Dourada, e quando se avizinharam do castelo onde o pássaro vivia, a lebre lhe disse: 8


A Mérula Dourada

— Agora, sê um tiquinho mais perspicaz que da última vez, e serás capaz de levar contigo tanto o Mérula Dourada quanto a Dama de Porcelana. Apanha com uma mão a gaiola dourada, e deixa o pássaro na gaiola velha em que está, e traz também esta contigo. A pequena lebre então sumiu; o moço fez o que lhe fora ordenado, e os criados do castelo nem sequer suspeitaram de que ele estava a levar embora a Ave Dourada. Ao chegar na estalagem onde seus irmãos estavam aprisionados, pagou o que deviam e os libertou. E lá se foram embora, todos juntos. Mas os dois irmãos mais velhos se roíam de inveja das façanhas do mais novo, e, aproveitando a oportunidade que lhes surgiu enquanto andavam na margem dum lago, atacaram-no, arrancaram-lhe da mão a Mérula Dourada e o jogaram na água. Depois, seguiram em frente, levando consigo a Dama de Porcelana, crentes de que o irmão se afogara. Mas, felizmente, ao cair, este havia se agarrado a um tufo preso à margem, e gritou por ajuda. A pequena lebre veio correndo, e disse: — Segura a minha perna e sai d’água. Quando já estava seguro na margem, a pequena lebre lhe disse: — Agora, eis o que tens de fazer: vai e te veste como se fora um bretão a procurar um emprego como guardador de estábulo, e oferece os teus serviços ao teu pai. Uma vez lá, facilmente poderás fazê-lo saber a verdade. O jovem fez o que a lebre lhe ordenara, e lá se foi para o castelo de seu pai, a perguntar se não se precisava ali dum guardador de estábulos. — Sim – respondeu seu pai –, precisamos, e muito. Saibas, porém, que não é um trabalho fácil. Há no estábulo um cavalo pequeno, arisco que só ele, que não deixa ninguém se aproximar, e que já coiceou até a morte muita gente que tentou escovar-lhe os pelos. — Hei de escovar-lhe os pelos – disse o moço. – Jamais vi na vida um cavalo de que tivesse medo. – E o pequeno cavalo deixou-se escovar sem mover um só músculo ou dar um só coice. — Valha-me Deus! – exclamou o mestre – como pode ser que ele te deixe tocá-lo, quando mais ninguém o pode? — Talvez ele me conheça – respondeu o guardador de estábulos. 9


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Dois ou três dias depois o mestre disse-lhe: — A Dama de Porcelana está aqui: mas, se bem que seja tão bela quanto o raiar do Sol, é tão maléfica que enche de arranhões quem dela se aproxima. Vai e oferece a ela teus serviços, e vejas se ela os aceita. Tão logo o moço entrou na sala onde ela estava, a Mérula Dourada entrou a piar uma canção alegre, e a mesma coisa fez a Dama de Porcelana, cantando também, enquanto dava pinotes de alegria. — Valha-me Deus! – gritou o mestre. – Será possível que a Dama de Porcelana e o Mérula Dourada também saibam quem és? — Sim – respondeu o jovem – e a Dama de Porcelana poderá contar-te toda a verdade, se assim o quiseres. Assim, pois, ela contou ao velho fidalgo tudo quanto acontecera, e como consentira em seguir o moço que havia capturado a Mérula Dourada. — Sim – acrescentou o moço – eu libertei meus irmãos, que haviam sido presos numa estalagem, e como recompensa jogaram-me num lago. Disfarcei-me, portanto, e vim até aqui, para te contar a verdade e prová-la. E o velho fidalgo abraçou muito forte o seu filho, e prometeu-lhe a herança de tudo o que tinha. Quanto aos dois filhos mais velhos, que o haviam enganado e tentado matar o próprio irmão, sentenciou-os à morte. O moço casou-se com o Dama de Porcelana, e se lhes fez uma esplendorosa festa de casamento.*

* Paul Sébillot.

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A Histรณria de Sigurd

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O Fabuloso Livro Verde - A Mérula Dourada  

Um dos 42 contos de fadas clássicos que estarão presentes no Fabuloso Livro Verde. Garanta já a sua cópia e o nome do seu filho dentro do li...

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