Sexo Divino

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Copyright © 2015 por Jonathan Grant Traduzido do original em inglês: Divine Sex Publicado por Brazos Press a division of Baker Publishing Group, Grand Rapids, Michigan, 49516, U.S.A. As citações bíblicas foram retiradas da Nova Versão Internacional (NVI), da Biblica, Inc.®, salvo indicação contrária. É proibida a reprodução deste livro sem prévia autorização da editora, salvo em breve citação. 1a edição: agosto de 2021 Edição Yuri Freire Tradução André Beraldo Ireno Preparação de texto Wesley K. Carvalho Revisão Milena dos Santos Beraldo Alan Cristie Capa Equipe Concílio

Catalogação na publicação: Mariana C. de Melo Pedrosa — CRB07/6477 G762s

Grant, Jonathan, 1973Sexo divino : uma visão cativante sobre relacionamentos cristãos em uma era hipersexualizada / Jonathan Grant ; prefácio de James K. A. Smith ; [tradução: André Beraldo Ireno]. – Niterói, RJ: Concílio, 2021. Tradução de: Divine sex. Inclui referências bibliográficas. ISBN 9786587263083 (brochura) 9786587263090 (epub) 1. Sexo – Aspectos religiosos – Cristianismo. I. Título. CDD: 233.5

Publicado no Brasil por Editora Concílio Copyright © 2021 Editora Concílio www.editoraconcilio.com.br contato@editoraconcilio.com.br


Para Esther



SUMÁRIO Prefácio, por James K. A. Smith Agradecimentos

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1. A justando a nossa visão 15 A formação e os relacionamentos cristãos em uma era sexualizada Parte 1: Mapeando o imaginário sexual moderno 2. Buscando a verdade Amor, sexo e relacionamentos na cultura da autenticidade 3. Três caminhos para a liberdade na estrada até o nada O fim da linha da liberdade moderna 4. Somos o que consumimos O consumismo como uma dinâmica destrutiva 5. A identidade hipersexual Sexo e relacionamentos como mecanismos de felicidade 6. Igrejas sem torres A perda do transcendente e a cosmovisão atomística Parte 2: Traçando um novo curso para a formação cristã 7. Em busca da verdade que transforma Apresentando o imaginário social cristão 8. Contemplando a boa vida e nos tornando o que vemos O papel da visão na formação sexual 9. No âmago do ser Redimindo o desejo e encontrando a verdadeira identidade 10. Vivendo a história do evangelho O discipulado narrativo na comunidade narrativa 11. Como nos tornamos o que fazemos O poder formativo do hábito Epílogo: melodias divinas Referências bibliográficas

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PREFÁCIO James K. A. Smith

Quando se escreve um livro sobre desejo, as pessoas esperam que você fale sobre sexo. Quando você fala sobre o ágape como o eros corretamente ordenado e descreve os seres humanos como criaturas “eróticas”, a temperatura na sala aumenta alguns graus, e as pessoas esperam por uma reviravolta libidinosa na conversa. Mas eu sou a última pessoa que deveria escrever sobre sexo. De fato, nesse assunto, sou bem quadrado, um estranho de outra era. Casei-me aos dezenove anos e fiz sexo com exatamente uma pessoa: a maravilhosa mulher que é minha esposa há 25 anos. Embora eu me lembre das páginas de certas revistas obscenas circulando nos vestiários masculinos, meus anos de formação não foram assombrados pela ubiquidade da pornografia que conhecemos hoje. Estudei em um seminário onde mulheres tinham a permissão de entrar em dormitórios masculinos por exatamente duas horas por semestre e sob forte vigilância. Assim, os mundos de Sex and the City ou de Girls (estrelado por Lena Dunham) são praticamente inimagináveis para mim. Ainda assim, tenho quatro filhos (espero que sejam a prova de que eu gosto de sexo!) e tenho uma profunda consciência de que eles cresceram em um mundo diferente. Embora tenhamos uma comunicação aberta e falemos sobre a dádiva e a segurança de uma sexualidade saudável a partir de uma perspectiva bíblica, às vezes temo que minha esposa e eu soemos como aqueles adultos no desenho do Charlie Brown, com uma espécie de zumbido “Ua ua ua ua uaaaa” que, por mais que muito bem intencionado, é uma língua que não faz sentido para os cristãos mais jovens do século XXI. E isso não é porque as normas transcendentais do discipulado bíblico estão fora de moda, mas porque o mundo no qual (e de onde) nossos filhos 9


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as ouvem mudou radicalmente. Isso não significa que precisamos revisar ou reformular um entendimento bíblico do sexo, mas sim que precisamos recontextualizá-lo a fim de que possa ser entendido novamente por aquilo que é: um presente sólido para a prosperidade humana. É por isso que sou tão grato por Jonathan Grant ter escrito Sexo Divino. Ele desloca a forma reducionista pela qual a moralidade cristã tradicional é normalmente articulada: como se o conhecimento suficiente unido à força de vontade (hercúlea!) fosse tudo de que precisássemos. Essa espécie de racionalismo tende a esquecer que, em discussões relacionadas ao sexo, há outros órgãos além do cérebro que podem ser, digamos, relevantes à discussão. Nossa vida sexual não se resume a escolhas racionais e deliberadas que fazemos, como se o sexo fosse a conclusão de algum silogismo. São estilos de vida que logramos porque nossas mentes e corações foram cativados por uma imagem da chamada “boa vida”. Como Grant corretamente enfatiza — ecoando meu próprio argumento em Desejando o Reino e Imaginando o Reino —, nossa consciência sexual é afetada pela formação da nossa imaginação. Somos criaturas de hábitos, e esses hábitos são formados em nós pelos ritmos e rituais nos quais estamos imersos, mesmo (na verdade, mais ainda) se não percebemos. Nossos amores, anseios e desejos — incluindo nossos desejos sexuais — não são apenas instintos biológicos; eles são aprendidos. As pedagogias do desejo que nos formam, entretanto, raramente se parecem com palestras ou sermões. Aprendemos a amar no registro da imaginação. De uma forma compreensiva, Grant reconhece as maneiras pelas quais os cristãos são inseridos nos padrões culturais que nos moldam sem que percebamos. Temos que compreender, ele corretamente ressalta, “a extensão pela qual o indivíduo moderno, com seu foco em ser livre (no sentido negativo de ser livre de outras pessoas), tem se infiltrado no imaginário cristão e distorcido nossa visão da sexualidade e dos relacionamentos”. Ou, como ele coloca um pouco depois: “O fio condutor que entremeia este livro é a convicção de que somos, mais do que imaginamos, formados por nosso contexto.” É por isso que a primeira metade de Sexo Divino se concentra no diagnóstico do meio cultural que forma e molda a nossa imaginação — incluindo como imaginamos o sexo de maneiras que jamais poderíamos articular. E a análise de 10


Prefácio

Grant é brilhante: é precisa e honesta, sem ser alarmista e desesperadora. Valendo-se do (e traduzindo com lucidez o) importante trabalho de estudiosos e cientistas sociais como Charles Taylor, Christian Smith e Mark Regnerus, bem como interagindo com parte do meu próprio trabalho, Grant nos ajuda a entender como e por que o mundo que nos forma mudou — e, portanto, como seria uma contraformação cristã eficaz. O diagnóstico de nossa condição cultural não é então considerado como uma licença para a revisão de normas bíblicas; em vez disso, ele oferece o ímpeto para uma nova articulação do porquê tais normas poderiam ser consideradas como algo que nos liberta da escravidão que hoje se apresenta como “liberdade” sexual. O resultado é teologia pastoral como etnografia, escrita das linhas de frente da nossa era secular e crescendo para além do ministério em Londres e outros lugares. Grant não escreve de algum enclave protegido onde as estruturas tradicionais de plausibilidade estão vivas e saudáveis. Não, este livro é escrito das trincheiras do ministério em algumas de nossas mais plurais — e hedonistas — cidades globais. Sua voz é, ao mesmo tempo, teológica e pastoral: uma brilhante obra de análise cultural que parece sempre manter os nomes e rostos personificados em vista. (Tenho também que admitir que invejo a excepcional facilidade de Grant com metáforas, símiles e figuras de linguagem que ilustram seu argumento. Como meus irmãos e irmãs pentecostais daqui gostam de dizer: “Dá uma pregação tremenda!”). Este é um livro que precisava ser escrito. Oro para que ele chegue às mãos não apenas de pastores e pais, mas também da ampla gama de líderes que cuidam do corpo de Cristo no século XXI. Ele fala tanto para os solteiros quanto para os casados, e é leitura obrigatória para qualquer um que trabalhe com jovens. Deve ser lido por pastores de jovens e capelães de universidades, bem como por diretórios estudantis em faculdades e universidades cristãs. Absorver a perspicácia, a análise e o argumento construtivo de Grant deve não apenas aprofundar como conversamos sobre sexo e discipulado, mas deve também nos dar uma nova intencionalidade sobre a igreja como uma comunidade formativa, capacitando-nos a viver um roteiro diferente permeado de boas novas: nossa vida sexual está oculta com Cristo em Deus. 11



AGRADECIMENTOS

Quando se embarca em um grande projeto de fé, há muitas pessoas que querem o seu sucesso, mas é um grupo muito menor que genuinamente viaja com você durante toda a jornada. Este livro pertence a essas pessoas. Estudar e escrever é um estágio da vida que envolve muito arar, plantar e regar sem colher o fruto imediatamente. Durante esse tempo oculto, Donald Dewar, Josh e Carly Arnold, Steve e Rachel Cole, Clare Gates, Julie Noon e Debs Paterson forneceram um generoso suporte financeiro sem sequer ter-lhes sido pedido. Por seu amor e suporte práticos, sou eternamente grato. Também tenho uma imensa gratidão por grandes amigos em Vancouver que foram uma fonte constante de encorajamento e diversão: JJ e Lisa Kissinger, Dan e Krista Carlson, e nosso pequeno grupo, incluindo Sarah Clarke, Lisl Baker e John Gardner, que forneceram um “laboratório” voluntário para o teste prático de muitas das ideias contidas neste livro! Sou privilegiado por ter tido Don Lewis e Reid Johnson como mentores, que sempre estiveram disponíveis para conversas e orações. Anne Cochran e seu formidável grupo de mulheres de oração na Carolina do Norte me acompanharam em cada passo do caminho, ao mesmo tempo em que Kathy Gillin e Pauline Kirke forneceram contribuições inestimáveis ao manuscrito de diferentes cantos do planeta. O conceito, a pesquisa e a estrutura acadêmica deste livro tomaram forma como uma dissertação de mestrado em teologia na Regent College, em Vancouver, British Columbia. Muitas pessoas ofereceram suas contribuições àquele projeto, mas quero agradecer especialmente ao professor Bruce Hindmarsh por seu generoso encorajamento. 13


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Agradecimentos especiais à nossa querida amiga Cherith Fee Nordling. Por muitos anos, ela tem sido uma amiga mais chegada que irmã e uma grande apoiadora, além de um exemplo inspirador do raro fenômeno de alguém que busca de todo o coração a vida em Cristo. Foi a recomendação pessoal de Cherith que levou James Ernest da Baker Publishing a graciosamente receber e considerar um manuscrito deste livro. Obrigado, James! A simples verdade é que este livro não existiria sem a determinação e a enorme contribuição de minha esposa, Esther. Foi de forma conjunta que nós começamos a trabalhar e ministrar na área de relacionamentos, e este livro é uma continuação de nossa parceria. Esther tem profundamente carregado a visão deste livro tanto quanto eu, e cada vez que este projeto parecia ter afundado, sua tenacidade e inspiração mantinham-no flutuando e avançando. Esther tem uma habilidade única de tornar ideias abstratas em tangíveis e praticáveis na vida real, e sem sua contribuição esta seria uma leitura bem menos agradável e útil. De fato, a razão pela qual creio apaixonadamente na beleza e na esperança de relacionamentos cristãos é, em grande parte, por causa de sua amizade, amor e perseverança durante esses últimos vinte e um anos de casamento. Por último, quero agradecer a meus pais, Ian e Mary Grant, que foram exemplos de uma vida de confiança e obediência a Deus.

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AJUSTANDO A NOSSA VISÃO A formação e os relacionamentos cristãos em uma era sexualizada

Há alguns anos, ao celebrarmos nosso décimo quinto aniversário de casamento, minha esposa e eu ficamos na base das montanhas gêmeas de Whistler e Blackcomb, a gigantesca estação de esqui na costa oeste do Canadá. Nosso hotel ficava bem no pé das estações de esqui, de maneira que conseguíamos ver as imensas montanhas diretamente de nossa janela. A vista era espetacular, e era fascinante observar as muitas gôndolas e teleféricos subirem as encostas antes de passarem sobre os cumes vertiginosos para além da nossa visão. À medida que o sol da primavera brilhava nas encostas congeladas, era fácil esquecer que se tratava de um terreno igualmente acidentado, empolgante e aterrorizante. Aqui as mortes são comuns durante a temporada de esqui por causa da grande área de neve fora da pista apropriada e do constante risco de avalanche. Ao vislumbrar o imponente cenário daquela manhã, fiquei abismado com os paralelos entre aquele ambiente e o estado dos relacionamentos hoje, mesmo no contexto da igreja. Assim como aquelas montanhas grandiosas, o amor e o romance se tornaram lugares sedutores, porém arriscados. O idealismo romântico da nossa cultura nos encoraja a explorar audaciosamente o playground do sexo e dos relacionamentos. Ainda assim, rapidamente sucumbimos à “exposição” quando confrontados com os elementos corrosivos da hipersexualidade da nossa cultura e seu fatalismo acerca de compromissos duradouros. Essa combinação de fatores transformou os relacionamentos românticos, antes lugares de aventura e de risco empolgante, em fendas de morte e desespero. 15


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Tendo jogado fora o mapa e abandonado a rede de gôndolas e teleféricos que poderiam nos orientar e nos guiar com segurança em nossa vida sexual, nossa cultura se encontra perdida e desesperada em um verdadeiro nevoeiro. A sabedoria popular diz: “encontre o seu próprio caminho”, porém essas montanhas não são lugar para um novato criativo. A evidência é clara, e é convincente. Nosso experimento cultural deixou um rastro de destroços relacionais e nos levou a um estado de negação da realidade. Como sociedade, encorajamos roteiros sexuais poderosos que moldam o mundo narrativo no qual os relacionamentos modernos se desenvolvem. Colocamos, por exemplo, nossa confiança no sexo, mas perdemos a fé no casamento. Os jovens são encorajados a adiar o início de uma família, e ao mesmo tempo tornam-se sexualmente ativos cada vez mais cedo. Uma pesquisa sugere que, para muitos jovens, namoro e sexo se tornaram sinônimos — um é simplesmente a consequência do outro. Cerca de 84% dos americanos de 18 a 23 anos praticaram sexo pré-marital, ao passo que esse número sobe para 95% de todos os americanos (de qualquer idade) que já fizeram sexo fora do casamento.1 Além da esfera dos relacionamentos da vida real, o sexo virtual — graças à inovação muito bem-sucedida da pornografia online — está inundando a cultura dominante. Tudo isso se desenvolve num contexto de casamentos fracassados que, por muitas gerações, enfraqueceu a possibilidade imaginativa do casamento como uma forma permanente de relacionamento. Tal ambiente cultural faz com que a visão cristã da sexualidade e do casamento pareça ingênua, irracional ou no mínimo impraticável como uma filosofia da vida real — mesmo para muitos cristãos. Ainda assim, no meio desse fatalismo cultural está a forte esperança da visão cristã de relacionamentos. Em nosso quarto de hotel naquela manhã, li sobre as origens da estação de esqui de Whistler. Em seu início, nos anos 60, críticos argumentavam que essas montanhas eram hostis demais para uma estação de esqui comercial; eram simplesmen-

1.  Mark Regnerus e Jeremy Uecker, Premarital Sex in America: How Young Americans Meet, Mate and Think about Marrying (Nova York: Oxford University Press, 2011), p. 1.

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te inacessíveis, selvagens e bastante imprevisíveis. Através, porém, de uma enorme rede de estradas, gôndolas e teleféricos, um contexto que de outra forma seria impenetrável se tornou um lugar maravilhoso para explorar e desfrutar — tornando-se até mesmo um espaço adequado para os Jogos Olímpicos de Inverno. Atualmente, enfrentamos um desafio semelhante em relação ao sexo e aos relacionamentos. Com os casamentos de compromisso vitalício não mais sendo considerados como “naturais”, somos tentados pelo calor do sol da primavera a nos envolvermos e explorarmos — no entanto, o clima parece mudar rapidamente conforme avançamos em território desconhecido. Tragicamente, a igreja absorveu muitas das mesmas perspectivas e, assim, passou a refletir a cultura ao seu redor em vez de transformá-la. Contudo, esse não precisa ser o nosso destino. Nessa crise, a visão de Deus sobre a vida é um plano para a prosperidade geral humana em toda a sua plenitude. Assim como as gôndolas e os teleféricos, ela oferece orientação, conhecimento e ímpeto para explorar e desfrutar a profundidade, a amplitude e a glória da criação de Deus, especialmente em nossos relacionamentos românticos. As sementes deste livro foram plantadas há muitos anos quando Esther e eu pastoreávamos uma igreja em Londres. A grande maioria dos membros daquela igreja eram jovens adultos solteiros, de vinte a trinta e poucos anos. Ao conhecermos suas diversas histórias ao longo dos anos, tivemos o sentimento crescente de que abordar a área dos relacionamentos e da sexualidade era um dos maiores desafios que enfrentávamos. Por causa da nossa responsabilidade de discipular e pastorear essa geração naquela igreja, não podíamos ignorar sua confusão. Questões relacionais eram, comumente, o aspecto mais difícil e incômodo de suas vidas. Para muitos, relacionamentos íntimos eram uma grande fonte de confusão, frustração, decepção, raiva e, não raramente, desespero enquanto passavam pelos seus trinta e entravam nos quarenta sem nenhum “sucesso” na busca pelo amor. Isso muitas vezes resultava em uma crise de fé: “Como poderia Deus me levar a este abismo solitário quando eu o segui com todas as suas regras sobre sexo?” Outros pareciam marginalizar sua fé cristã e sexualizar seus relacionamentos, sem saber o que fazer com a culpa que se seguia. Ao mesmo tempo, ficamos 17


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chocados com o número de amigos, cristãos ou não, cujos casamentos estavam se desfazendo em apenas poucos anos. Além disso, uma atmosfera relativamente tóxica estava se desenvolvendo na igreja entre ambos os sexos. Cada lado apontava para o outro, culpando-o por tudo o que estava dando errado. Os homens pareciam ter todas as escolhas possíveis de companheiras, mas não podiam se comprometer em um relacionamento, ao passo que as mulheres só queriam ser abordadas pelo cara “certo” e tratavam com desdém qualquer um que compreendiam como “errado”. A probabilidade de rejeição fez com que os homens ficassem relutantes em arriscar novos relacionamentos. Casais que posteriormente se separariam, achavam difícil permanecer na mesma igreja juntos e, portanto, um ou ambos normalmente saíam da igreja. Não era um cenário totalmente sombrio, é claro. As pessoas ainda se reuniam e a igreja era um lugar empolgante de se estar, tanto espiritual quanto socialmente. Mas percebemos que o discipulado da igreja precisava abordar essa questão crucial, ou então estaríamos fazendo vista grossa. Percebemos uma desconexão entre o mundo espiritual das pessoas e suas vidas de sexta-feira e sábado à noite. Elas pareciam receber sua visão sobre Deus diretamente da igreja e sua visão sobre sexo e relacionamentos diretamente da cultura popular. Também observamos que igrejas de todos os cantos enfrentavam dificuldades para lidar com essa complexa questão. Trata-se, creio eu, de um desafio crucial para a igreja, uma vez que esta geração de jovens adultos se torna o marco zero da mudança radical provocada pelo mundo moderno em sua abordagem de relacionamentos íntimos. Nós, como igreja, precisamos correr atrás. Precisamos trabalhar para entender as necessidades desta geração que lida com a quebra e a fragmentação da sexualidade moderna. Reconhecer isso foi o início de uma jornada para mim, tanto na forma de pensar como no ministério, para explorar e abordar algumas dessas questões. Parecia haver cursos e informação disponíveis, mas não muitos textos sobre como abordar essa área de uma maneira transformadora. Esther e eu começamos lançando um curso focado em relacionamentos — exclusivamente para os “não casados” —, o qual foi 18


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bastante aplaudido quando o anunciamos na igreja! O curso teve grande repercussão em nossa comunidade e atraiu pessoas de outras igrejas, confirmando o quanto as pessoas estavam sedentas nessa área da vida. Mais recentemente, tenho procurado abordar e discutir certas questões importantes: o que aconteceu em nosso contexto cultural que nos levou a uma disfunção tão complexa nos relacionamentos sexuais? De quais maneiras significativas nosso contexto secular está moldando a nossa sexualidade? E, em resposta a isso, qual é a visão cristã de relacionamentos, e como seus líderes podem fortalecê-la na vida das pessoas? Este livro é uma tentativa de abordar essas questões. A importância dessa área é reafirmada quase toda semana. Recentemente, minha esposa e eu passamos uma noite ajudando um casal a se preparar para seu casamento que se aproximava. Embora ambos parecessem ter uma fé cristã madura, eles descreveram alguns problemas graves que enfrentavam. Ele tinha um longo histórico de vício em pornografia, e ambos estavam preocupados em como isso poderia afetar seu casamento. A própria noiva, também, de uma hora para outra, já não tinha mais certeza se estava realmente atraída por seu noivo. Em um outro caso, que ocorrera na semana anterior a essa, havíamos encontrado três amigas solteiras, todas mulheres descomprometidas nos seus quase quarenta anos. Cada uma expressou uma profunda tristeza sobre a realidade decadente de seus sonhos de longa data de se casar e ter uma família. Na noite seguinte, nosso pequeno grupo foi dominado por conversas e oração a respeito de problemas de incerteza relacional e ansiedade. À luz dessa neurose generalizada, o que fazer agora? Por onde começamos? Acompanhe-me num experimento de reflexão por um momento. Suponhamos que a prioridade dos líderes e pastores cristãos seja encorajar e instigar, por quaisquer meios possíveis, o constante crescimento, a maturidade e a integridade daqueles sob seus cuidados. Agora, suponhamos que tais líderes também são capazes de categorizar e priorizar os obstáculos e os desafios que esses mesmos discípulos enfrentam em suas vidas normais. Talvez pudessem classificar cada problema com base em sua frequência: por exemplo, “enfrentado diariamente”, “semanalmente”, “mensalmente”, e assim por diante. Talvez 19


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ainda possam categorizar cada problema com base em sua severidade, como “capacidade de resistir ou resolver esse problema de 1 a 10”. Para completar nosso experimento de reflexão, os líderes podem categorizar quanto tempo e atenção eles dão a cada problema dentro do ensino e do discipulado da igreja, como por exemplo: “foco da igreja de 1 a 10”. Agora é hora de colocar minhas cartas mal escondidas na mesa. Podemos afirmar, com toda a certeza, os pressupostos descritos acima: que o objetivo dos líderes cristãos é, de fato, buscar crescimento e maturidade para as suas igrejas e também entender e categorizar as questões que os cristãos estão enfrentando em suas experiências diárias. Suspeito fortemente que tópicos que se referem à sexualidade e aos relacionamentos, para jovens cristãos em particular, apareceriam no topo dessas listas como os mais graves e comuns. Ainda assim, essas mesmas questões, mais provavelmente, seriam classificadas próximas ao fim de nossas listas quando se trata da quantidade de foco que damos a tais desafios na igreja. Qual o motivo? A resposta é complexa e exige de nós atenção e reação. O início dessa resposta deve-se ao fato de que já somos profundamente formados por nosso contexto cultural moderno. Tais questões, nos dizem, são “particulares”, devem ser deixadas à consciência de cada pessoa agindo em isolamento. A convicção fundamental deste livro é que só podemos chegar ao âmago dessas questões importantes e abordá-las eficazmente através de uma consciência cristã liberta das limitações da imaginação moderna. Uma antiga piada irlandesa fala de como um turista no condado de Cork pergunta a um homem local como chegar à grande cidade de Dublin. “Ah”, responde o homem local com a testa profundamente franzida, “eu não começaria por aqui”. Há uma tentação no contexto do discipulado de cometer o mesmo erro de começar com a pergunta: “Qual é a visão cristã da sexualidade e dos relacionamentos?” e depois mover diretamente para a pergunta final: “Como vivemos isso em nossas comunidades eclesiásticas?” Ainda assim, tal prática evita o mais importante aspecto da formação contemporânea. A pergunta que devemos abordar primeiro é contextual: “O que há em nosso atual momento cultural que faz com que a visão cristã da sexualidade 20


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pareça ingênua e irrealista na melhor das hipóteses, e completamente repressiva na pior, até mesmo para muitos jovens cristãos? Por que a visão da igreja sobre sexualidade, com todas as suas ‘regras’ e ‘restrições’, tem sido um fracasso entre o crentes contemporâneos?” Somente após compreendermos a natureza desse desafio é que teremos condições de responder às outras duas perguntas. De fato, precisamos saber onde estamos antes de planejarmos nossa jornada para aonde queremos ir. Se considerarmos nossa vocação pastoral como semelhante a de um médico espiritual, então poderemos ver a importância de se fazer um diagnóstico preciso da doença para que possamos aplicar o evangelho de maneira mais eficaz à causa formativa. Devemos evitar dois erros comuns nessa complexa arena. De um extremo, sem um diagnóstico crítico, podemos facilmente aceitar as coisas do jeito que são, simplesmente absorvendo o entendimento cultural como nossa própria cosmovisão. A convicção mais irresistível nesse sentido é a ideia de que a qualidade do amor entre duas pessoas — quem quer que sejam e o que quer que façam juntas — deve ser a única coisa a ser considerada quando se leva a relação ao âmbito sexual. Muitos cristãos não conseguem combater de forma coerente esse imperativo moral ilimitado. Ou eles o aceitam como sendo autoevidentes, ou o rejeitam com base no texto da Escritura. Do outro extremo, sem um cuidadoso diagnóstico das questões, podemos cair na armadilha de rejeitar todas as normas culturais modernas. Um exemplo comum é a busca moderna pela autorrealização. Se vemos tal busca como puramente egocêntrica e problemática, seremos tentados a descartá-la por completo. Ora, o problema não está com a autorrealização em si, mas com o fato de ela ser colocada acima de todas as outras prioridades. Tal impulso precisa ser reajustado com as outras prerrogativas da vida cristã: obediência a Cristo, paciência diante do sofrimento e amor ágape altruísta dentro da comunidade de fé. A tentação de rejeitar a cultura moderna em todas as suas formas é como receitar um antibiótico genérico para tratar uma infecção específica. O paciente pode ser curado, mas seu sistema imunológico ficará bastante enfraquecido.

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O PODER FORMATIVO DO CONTEXTO

Um dos legados mais influentes da política e da filosofia moderna é a convicção de que a identidade pessoal é baseada na liberdade do indivíduo de escolher sua própria fonte de significado da vida e o próprio modo de vivê-la, em geral livre de influências externas. Essa convicção penetrou tão profundamente a consciência ocidental que se tornou parte do cenário religioso. Muitos cristãos, por exemplo, acreditam que podem simplesmente construir sua própria identidade com base unicamente nas Escrituras, em oposição e em paralelo à cultura secular. Tal confiança é enganosa. O sociólogo americano Robert Wuthnow observa: “A premissa básica da pesquisa da ciência social é que a religião está embutida em um ambiente social e, assim, é influenciada por tal ambiente”, de maneira que “amplas tendências sociais definem como as pessoas pensam a respeito de si mesmas.”2 James K. A. Smith sugere ainda que “liturgias seculares” generalizadas — nossas práticas culturais regulares, como ir ao shopping ou ao cinema — representam as “dinâmicas afetivas de formação cultural”, que estão produzindo as identidades de todos aqueles que vivem na cultura ocidental, tanto cristãos quanto não-cristãos.3 Tais liturgias seculares, argumenta Smith, representam uma poderosa deformação da identidade do eu que compromete o evangelho.4 Charles Taylor descreve tal “formação cultural” da identidade do eu usando a noção de “imaginário social moderno”.5 Isso representa a soma total de como imaginamos, de maneira coletiva, nossa vida social no mundo ocidental, incluindo nossa economia, comunidade, família, relacionamentos íntimos, ambiente e política. Para a maioria de nós, esse imaginário social não é primariamente expresso ou recebido como uma coleção de ideias ou crenças intelectuais, mas é representado por “imagens, histórias e lendas” que se instalam profundamente em nossa

2. Robert Wuthnow, After the Baby Boomers: How Twenty- and Thirty-Somethings Are Shaping the Future of American Religion (Princeton: Princeton University Press, 2007), p. 20. 3.  James K. A. Smith, Desejando o reino: culto, cosmovisão e formação cultural (São Paulo: Vida Nova, 2018), p. 87. 4. Ibid. 5.  Charles Taylor, Modern Social Imaginaries (Durham, NC: Duke University Press, 2004), pp. 23-30.

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consciência e práticas.6 Através desse processo de formação cultural, a concepção que o mundo moderno tem da identidade do eu humano torna difícil imaginar uma outra forma de ver e estar no mundo. Essa visão, como diz Taylor, passou a ser considerada a forma natural das coisas, tão óbvia que nem vale a pena mencionar.7 O problema é que essa identidade do eu moderno não está bem equipada para fidelidade sexual e relacionamentos comprometidos.8 Os cristãos não são imunes a esse problema. Wuthnow observa que certas tendências na sociedade americana têm influenciado grupos religiosos, inclusive jovens evangélicos, particularmente nas áreas do sexo pré-nupcial, casamento tardio e divórcio.9 Embora as crenças religiosas moldem as atitudes dos jovens com relação a sexo, relacionamentos e casamento, Wuthnow sugere que há uma diferença considerável entre o que os evangélicos creem e aquilo que eles fazem nessa área. Por exemplo, ainda que os jovens evangélicos americanos tenham se tornado mais propensos, ao longo dos últimos anos , a dizer que o sexo antes do casamento é “sempre errado”, 69% dos evangélicos não casados desse grupo disseram que já fizeram sexo com pelo menos um parceiro nos últimos doze meses.10 Ou seja, o muito influente “juramento de abstinência” entre jovens nos Estados Unidos teve pouco sucesso em mudar o comportamento sexual de jovens cristãos.11 Também nos dizem que metade dos casamentos cristãos nos Estados Unidos terminará em divórcio. De acordo com alguns parâmetros, essa taxa é mais alta que a média nacional. 6.  Ibid., p. 23. 7.  Ibid., p. 29. 8.  Robert N. Bellah et al., Habits of the Heart: Individualism and Commitment in American Life (Berkeley: University of California Press, 1996). 9. Wuthnow, After the Baby Boomers, p. 20. 10.  Ibid., pp. 139-140. 11.  Mark Regnerus resume esse fenômeno: “Embora a religião certamente influencie a tomada de decisão sexual de muitos adolescentes, ela raramente motiva as ações da juventude religiosa. Em outras palavras, adolescentes religiosos normalmente não tomam decisões sexuais por razões religiosas. Aqueles que articulam razões religiosas e agem de acordo com a crença que professam são a exceção, não a regra. A maioria dos adolescentes religiosos permanecem influenciados por sua tradição e prática de fé, mas não motivados pelas mesmas.” Ver Mark D. Regnerus, Forbidden Fruit: Sex and Religion in the Lives of American Teenagers (Nova York: Oxford University Press, 2007), p. 184.

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Durante o curso de relacionamentos que ministramos em nossa igreja, aproximadamente 500 participantes responderam a uma pesquisa anônima que continha questões a respeito de sexualidade. Em matéria de pornografia e sexo antes do casamento, entre outros temas, ficava difícil dizer se a pesquisa foi realizada no contexto da igreja ou num ambiente puramente secular. Essa é uma crise que precisa de atenção. Seja qual for a maneira como você vê e interpreta os dados sociais, a experiência confirma que a igreja tem um problema genuíno. Há algo em nossa abordagem do discipulado que não está chegando ao cerne da questão. Embora diversos líderes cristãos com mais influência tenham abordado questões relacionadas à sexualidade, a igreja frequentemente tem dificuldade de perceber e de fato aceitar que há uma significativa deformação da identidade que ocorre no mundo (pós)moderno. A abordagem comum de ensinar as pessoas a viverem de acordo com a Escritura sem dar devida atenção à influência formativa de nosso contexto cultural, inadvertida e ironicamente sucumbe à ilusão moderna de que podemos escolher nossa própria realidade praticamente livres de influências externas. Tal abordagem míope à formação cultural corre o risco de incorporar pressupostos seculares a respeito da identidade humana em nossos modelos de discipulado. Embora isso possa não ser intencional, acaba enfraquecendo a formação de cristãos maduros capazes de sustentar práticas sexuais que sejam fiéis à visão cristã da vida. Basicamente, nossa inabilidade de perceber a influência da deformação cultural está enfraquecendo o poder do evangelho cristão de guiar e formar pessoas para caminhar rumo à maturidade sexual. Líderes cristãos tendem a usar a Bíblia como sua fonte exclusiva para enquadrar o modo cristão de falar e viver. Contudo, apenas através de uma espécie de “densa descrição” de nossa presente circunstância, estando atentos tanto ao mundo quanto à igreja, podemos compreender a esperança do evangelho na redefinição e na reforma da identidade do eu nesta complexa era.12 Entender a natureza da identidade do eu

12.  James K. A. Smith, prefácio à série de Graham Ward, The Politics of Discipleship: Becoming Postmaterial Citizens (Grand Rapids: Baker Academic, 2009), p. 12.

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Ajustando a nossa visão

moderno tem enorme importância para os líderes espirituais porque se trata do âmago da identidade e da missão cristã dentro de nossa cultura. A identidade cristã está sendo formada pela igreja ou está sendo formada pela cultura em geral? Somente se chegarmos à raiz dessa questão poderemos efetivamente realizar a tarefa de permitir que Deus transforme as pessoas por meio do evangelho. AJUSTANDO A NOSSA VISÃO

Quando meus avós estavam com seus 80 anos, a televisão deles desenvolveu um defeito que deixou a tela permanentemente verde florescente. Era ótima para ver programas de jardinagem ou de natureza, mas era bastante desconfortável em qualquer outro momento. Sendo um escocês muito frugal, meu avô nunca a consertou! Embora seja tentador fazer uma caricatura da influência da cultura sobre nós dessa maneira, seus efeitos tendem a ser muito mais sutis. A cultura gradualmente ajusta a nossa visão em vez de mudá-la por completo. Quando você cobre um olho, por exemplo, você ainda consegue ver claramente, mas sua percepção de profundidade está comprometida. Basicamente, você não enxerga mais em 3D. Nosso contexto cultural funciona de uma maneira semelhante. Trata-se de uma lente pela qual vemos a vida, sombreando e ajustando como vemos as coisas. Ainda assim, visto que tendemos a olhar por meio dela em vez de para ela, estamos frequentemente inconscientes de que tal lente cultural sequer afeta nossa visão. A cultura moderna tem esse tipo de influência em nossa maneira de ver a vida. Se a visão cristã envolve ver com dois olhos — um divino e outro humano —, a cultura moderna cobre um olho para que comecemos a ver apenas por meio da perspectiva humana. Essencialmente, ela compromete nossa percepção de profundidade espiritual e nos tenta a nos tornarmos o centro de gravidade de nossa própria vida. Uma das funções cruciais dos líderes cristãos, incluindo pais e mães, é serem guardiães da lente. Precisamos cuidar da lente porque a Escritura nos chama a ver com novos olhos, da perspectiva da eternidade. Consequentemente, este livro é uma tentativa de descrever as principais formas de como a nossa lente cultural está moldando nossa identidade e nossos relacionamentos e como podemos reajustar a visão da igreja por meio da lente do evangelho. 25


SEXO DIVINO

FAZER DISCÍPULOS COMO NOSSA PRIORIDADE FUNDAMENTAL

Assim como a igreja primitiva, precisamos alimentar uma paixão por fazer discípulos que reflitam a imagem de nosso Mestre e não se conformem ao mundo à sua volta. Mudança pessoal genuína e tangível não é apenas possível; é um imperativo do evangelho. De fato, a prioridade do ministério de Paulo era apresentar suas congregações na volta de Cristo como comunidades maduras de discípulos — sem “mácula”.13 Isso não é linguagem derrotista de “pecadores salvos”; trata-se de uma expectativa enérgica de que tais comunidades se tornariam templos do Espírito Santo e epístolas vivas da mensagem para aqueles ao seu redor.14 Paulo era mais um discipulador fazedor de tendas do que um evangelista que se reunia em tendas. Ele passou muito de seu tempo aconselhando e ensinando seus convertidos no estilo de vida apropriado para a nova comunidade de Cristo. Cuidar da vida sexual e relacional das pessoas é parte crucial dessa jornada de discipulado porque somos seres relacionais. Assim como Mark Regnerus e Jeremy Uecker dizem: “Relacionamentos são um amplo campo sobre o qual outras disputas e desafios da vida são resolvidos”.15 Concentrar-se em discipulado na área de relacionamentos, portanto, não se trata apenas de ticar um item em um programa de formação espiritual ou ajudar cristãos a viverem uma vida mais feliz. É importante precisamente porque todo o propósito e alvo do evangelho são relacionamentos reconciliados. Bons relacionamentos na comunidade de fé consistem em viver hoje o nosso destino futuro. Relacionamentos românticos são uma área importante porque em tais relacionamentos somos chamados a nos comprometermos plena e sacrificialmente — e ainda assim, é aqui que temos mais dificuldade. Não podemos deixar que a formação sexual e relacional continuem sendo uma preocupação secundária dentro da igreja, algo com o que lidamos no sermão ocasional ou em um curso especial. Sustentar relacionamentos fiéis e encorajar a capacidade de viver uma vida sexual

13.  Ef 5.27; Cl 1.22. 14.  2Co 3.1-3. 15.  Regnerus e Uecker, Premarital Sex, p. 138.

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Ajustando a nossa visão

disciplinada pode ser uma das tarefas missionais mais influentes da igreja contemporânea, visto que testemunhamos o reino de Deus numa cultura sexualmente confusa e relacionalmente fatalista. Isso deveria tornar o ato de capacitar homens e mulheres a viverem de maneira plena e saudável na área da sexualidade e dos relacionamentos uma prioridade e uma paixão para os líderes cristãos. A convicção básica deste livro é que a fé cristã e a cultura secular existem em um interrelacionamento complexo. Isso cria tanto desafios quanto oportunidades para o discipulado. A primeira parte do livro considera as seguintes questões: o que é a identidade do eu moderno e como ela aborda relações sexuais? Como nosso momento cultural moldou o que pensamos e fazemos nessa área? Tendo identificado os sinais dos tempos e sua influência, a segunda parte proporá uma visão alternativa cristã da identidade pessoal como base para um modelo prático de formação, um que integre problemas relacionados à sexualidade e aos relacionamentos.

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