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Sandoval Cajú

O personagem, o povo e a cidade

CEPAL / Imprensa Oficial Graciliano Ramos - Maceió - Ano IV - Nº 8 - ABRIL / MAIO 2011

ISSN 1984-3453


Reportagem

Artigo

Sandoval Cajú, o poeta espadachim | 4

Sonhos poéticos, pesadelos políticos | 64 Maurício Melo Júnior

Bonito de Santa Fé - Perdido na caatinga | 8

Documenta

Origens e infância | 11 “Desmentindo“ Euclides da Cunha | 12

No cotidiano da política, o bom humor | 68 De João Pessoa para o Recife e do Recife para Maceió – Por acaso | 13 O incendiário do rádio alagoano | 14 Sandoval Cajú candidato a prefeito de Maceió: a piada | 22 A administração de Sandoval Cajú | 28 O Golpe Militar de 1964 - Cassação e queda | 38 Cajú, o “versejador patológico” | 44 Sandoval e o design da cidade | 50 Na intimidade, o ressentimento | 52 Cajú e o “Duque de Caxias” | 54 Os filhos de Cajú | 56 O outro lado do contador de causos | 62 Vanessa Mota

Governo do Estado de Alagoas Teotonio Vilela Filho Governador de Alagoas José Thomaz Nonô Vice-Governador de Alagoas

Moisés de Aguiar Diretor-presidente da CEPAL / Imprensa Oficial Graciliano Ramos José Roberto Pedrosa Diretor Administrativo Financeiro Hermann de Almeida Melo Diretor Comercial

Álvaro Machado Secretário-Chefe do Gabinete Civil Luiz Otavio Gomes Secretário de Estado do Planejamento e do Orçamento Contatos: (82) 3315.8303 | editora@cepal-al.com.br

Janayna Ávila Coordenadora editorial Pesquisa e textos: Lelo Macena

Fotografias Acervo família Cajú Museu da Imagem e do Som de Alagoas - Misa Acervo Jucá Santos

Conselho editorial: Fernando Fiúza Janayna Ávila Milena Andrade Sidney Wanderley Simone Cavalcante

Michel Rios Direção de arte / Diagramação

Daniel Hogrefe Ilustrações

Revisão: Marli Josefina

Estagiários: Arthur de Almeida, Mariana Belo e Vanessa Mota

ISSN 1984-3453 Os textos assinados são de exclusiva responsabilidade do autor.


Apresentação

Não são poucas as histórias que envolvem a figura do paraibano Sandoval Cajú. Dono de uma personalidade ímpar, contador de histórias engraçadas e inovador na administração pública, adquiriu, ao longo de sua curta, mas intensa jornada como prefeito de Maceió, amigos fiéis e inimigos ferrenhos. Estes, é certo, em número bem menor, mas capazes de destituir do cargo, como o fizeram em 1964, o mais popular dos prefeitos da capital alagoana. A cassação afastaria Sandoval Cajú para sempre da política. Apesar de seu curto tempo à frente da administração da cidade (19611964), empreendeu uma “revolução” na paisagem urbana, planejando áreas de convívio social e reformando parques e praças. Ainda hoje, é possível observar intervenções marcan-

tes em espaços como a Praça do Centenário, no bairro do Farol, e a Praça Sinimbu, no Centro, que constituem dois exemplos significativos das propostas de modernização arquitetônica e paisagística que embalaram sua gestão. O bom humor e a habilidade para o improviso – em parte, herança dos tempos como radialista – teriam sido as características que acabariam tornando-o um personagem engraçado e carismático. Entre amigos e correligionários, a presença de Cajú numa festa era garantia de diversão. Não à toa, o ator alagoano Paulo Gracindo, que imortalizou o personagem de Odorico Paraguaçu, da novela e série O Bem Amado, confessou, certa vez, que havia “tomado emprestado” de Sandoval uma das frases mais marcantes do prefeito de Sucupira, dita quase sempre durante a abertura de uma solenidade : “Vim de branco para ser mais claro”. Após a cassação de seu mandato e a tentativa fracassada de retornar ao poder, Sandoval Cajú teria ficado cada vez mais ressentido. Na intimidade, com poucos amigos, costumava falar com tristeza do golpe sofrido. Nesta 8ª edição da revista Graciliano, brindamos o leitor com um dossiê inédito sobre a trajetória do homem, do político, do radialista e do

poeta Sandoval Cajú. A pesquisa e a reportagem do jornalista Lelo Macena trazem fatos desconhecidos pela maioria dos alagoanos, como a chegada a Maceió, a carreira de sucesso na Rádio Difusora e a campanha vitoriosa (e cheia de lances curiosos) à Prefeitura de Maceió. Na seção Documenta, trechos dos livros 350 Histórias do Folclore Político, de Sebastião Nery, e Missão Secreta em Igaci, de Cleto Falcão, relembram o protagonista de situações cômicas, que remetem a um jeito peculiar de fazer política, bem diferente dos dias atuais. O escritor e jornalista Maurício Melo Júnior, autor do artigo “Sonhos poéticos, pesadelos políticos”, previu, com notável lucidez, a relação entre o ex-prefeito de Maceió e o cenário político do presente: “O mundo pragmático da atualidade não comporta o doce populismo de Sandoval Cajú”. Para saber mais sobre um dos mais controvertidos e marcantes personagens de Alagoas, confira também o documentário Sandoval Cajú – Além do Conversador, assinado pelo cineasta Pedro da Rocha. Assim como esta edição da Graciliano, o vídeo mostra como são importantes e necessárias a reflexão e o debate sobre fatos que marcaram nossa história.


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REPORTAGEM

Sandoval Cajú, o poeta espadachim As labaredas consumiam rápido o que havia no interior da loja. Na casa ao lado, onde morava coma família, o professor do Lyceu Alagoano, Vital Barbosa, se desesperava. À medida que as chamas avançavam do outro lado da parede, a temperatura no interior da residência ficava insuportável. Pelas frestas do telhado, a fumaça invadia e tomava conta

professor, jovens adultos e crianças invadiram a residência para tentar salvar os pertences da família Barbosa. Pegavam tudo o que encontravam ao alcance das mãos, corriam para fora e jogavam de qualquer maneira na calçada e no meio da rua. Em poucos minutos, móveis, louças, porcelanas, panelas de alumínio, roupas, muitos livros e quadros de

As labaredas daquela noite iluminavam o início da trajetória meteórica de um dos mais autênticos e controversos personagens da história recente de Alagoas do ambiente. Dentista conhecido na cidade, Vital Barbosa não teve alternativa a não ser pedir ajuda à multidão de curiosos que se aglomerava. Ao primeiro pedido de socorro do

pintores famosos ficaram espalhados naquele trecho da Rua Joaquim Távora, no Centro de Maceió. Vários objetos, entre eles um piano de calda, não resistiram ao resgate treslouca-

do e foram destruídos na correria. Somente após a ação desesperada, o professor Vital Barbosa percebeu que se precipitara. Viu desconsolado que o incêndio se limitou ao prédio vizinho e que, à base de latas d’água, voluntários acabavam de debelar as últimas chamas. Já era noite naquele dia 10 de maio de 1947. O incêndio da Casa das Tintas, conhecido estabelecimento comercial à época, era visto com desconfiança pelos maceioenses de língua ferina. Dizia-se à boca miúda que o evento era mais um golpe do dono da loja. Seria a terceira loja do comerciante que ele próprio tocava fogo criminosamente para que pudesse receber o dinheiro do seguro. No meio da multidão, curioso e atento, um homem assistia a tudo. Ouvidos aguçados, o desconhecido sorvia todos os comentários. Acabara de chegar a Maceió, onde desembarcara do trem vindo de Recife, no final da tarde. Hospedara-se no hotel Lusobrasileiro, na Rua Senador Mendonça. O forasteiro chamava-se Sandoval Ferreira Cajú e tinha apenas 23


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O prefeito Sandoval Cajú (ao centro, de terno escuro), e o governador de Alagoas Luís Cavalcante (à direita de Sandoval) durante protesto de comerciantes


REPORTAGEM

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anos. Estava jantando no hotel quando o labafero provocado pelo incêndio despertou-lhe a atenção. Chegou a pensar que fossem capangas do truaculento governador Sivestre Péricles colocando adversários políticos para correr na base da bordoada. O visitante chegara à cidade por acaso. O objetivo de sua viagem era apenas “matar o tempo”. Pensava em visitar um irmão e conhecer a terra

destino, Sandoval Cajú não imaginava que aquele incêndio na Casa das Tintas era seu batismo de fogo, poucas horas depois de pisar pela primeira vez em solo caeté. As labaredas daquela noite iluminavam o início da trajetória meteórica de um dos mais autênticos e controversos personagens da história recente de Alagoas. Cheio de espontaneidade, olhar

Dono de um senso de humor que virou sua marca, não demorou muito para Sandoval Cajú se destacar na Maceió do final dos anos 40 dos marechais. Poderia passar talvez 15 dias na cidade, antes de regressar a Paraíba, sua terra natal, onde no final daquele mês de abril, assumiria um posto no recém instalado governo de Oswaldo Trigueiro de Albuquerque Mello. Homem cuja vida foi permeada por lances marcados pela mão do

penetrante e dono de uma maneira única de se expressar, bastava começar a falar para que as pessoas tivessem a certeza de estar diante de um homem “diferente”. Inteligente e espirituoso, dono de um senso de humor que virou sua marca, não demorou muito para Sandoval Cajú se destacar na Maceió do final dos anos 40.

Jamais retornaria para assumir o cargo prometido na Paraíba. Ao invés dos 15 dias que planejou ficar na cidade, seu “passeio” pela capital alagoana duraria até o último instante de sua vida. Em pouco tempo, o jovem nascido em Bonito de Santa Fé, nos confins do sertão paraibano, fez amigos, conseguiu emprego e radicou-se em Maceió. Apaixonado por literatura e poesia, ajudou a fundar a Academia Maceioense de Letras e revelou-se, num curto espaço de tempo, um dos mais criativos e irreverentes radialistas do Nordeste. Mas o seu grande momento viria pouco mais de uma década depois de sua chegada a Maceió. Em 1960, no auge de sua carreira no rádio alagoano, foi motivo de galhofa ao se candidatar à Prefeitura de Maceió. Contrariando as expectativas, venceu em todas as urnas da capital e derrotou três adversários representantes de forças políticas de Alagoas. Elegeu-se prefeito de Maceió e imprimiu sua maneira única de administrar. Adorado pela população maceioense, que lhe garantiu a vitória esmagadora nas urnas, Sandoval Cajú tinha uma preocupação especial com o bem estar do povo. Construiu dezenas de praças, cuidou do espa-


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ço público e levou infraestrutura aos bairros distantes. Potencial candidato a disputar e vencer as eleições para o governo do estado no pleito seguinte, Sandoval Cajú foi “abatido em pleno voo”. Numa trama orquestrada por seus adversários políticos, ele teve seu mandato cassado e os direitos políticos suspensos pelos militares durante o golpe de 1964. Tentou reaver o cargo, mas nunca conseguiu. Jamais foi chamado para depor “nem por te-

Sandoval Cajú durante campanha para a prefeitura de Maceió

lefone”, como costumava dizer, e ninguém jamais lhe falou sobre qualquer Inquérito Policial Militar (IPM) que citasse seu nome. Imortalizado no anedotário da política brasileira por meio do livro Folclore Político, do jornalista e ex-deputado federal Sebastião Nery, o personagem que Sandoval Cajú criou para si ficou mais conhecido pelas tiradas engraçadas, pela verborragia demagógica e pelos casos que viraram piadas clássicas em

rodas de políticos. Mas, para além do homem que ‘vestia branco para ser mais claro’, havia também o prefeito arrojado e inovador, o radialista virtuoso, o orador imbatível e sedutor, o talentoso contador de histórias, o poeta e amante da literatura, o amigo fiel, o pai dedicado. Nesta edição da Graciliano vamos conhecer o universo múltiplo do ex-prefeito de Maceió Sandoval Ferreira Cajú, o sertanejo da Paraíba que fez história em Alagoas.


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REPORTAGEM

Bonito de Santa Fé Perdido na caatinga Sob o sol causticante, sedento e debilitado, montado no lombo de um animal ainda mais extenuado, o jovem Sandoval Cajú pensou que fosse morrer naqueles confins de caatinga inóspita. Perambulava sem

o dia clarear e o sol ir a pino. Não encontrara uma alma viva. Deixara a estradinha de terra há mais de duas horas. Agora o cavalo cambaleava sobre o solo pedregoso. Jamais imaginou que estaria naquela situação. Es-

Esperava melhor sorte na sua primeira investida na vida, depois de deixar a terra natal rumo, desnorteado. Estava perdido em algum ponto do alto sertão da Paraíba. Penava desde a noite anterior para achar o caminho de volta. Vira

perava melhor sorte na sua primeira investida na vida, depois de deixar a terra natal, Bonito de Santa Fé, no semiárido paraibano, em busca de uma

cidade maior, onde pudesse estudar e trabalhar. O ano era 1941 e Sandoval tinha acabado de completar 18 anos. Desde os 12, havia concluído o curso primário. Teve de interromper os estudos porque não havia ginásio na pequenina e remota cidade onde nasceu. Por isso partiu para Coremas, cidade vizinha, a menos de 100 quilômetros de Bonito de Santa Fé. Conseguiu emprego em um cartório. Filho de tabelião, o jovem Sandoval Cajú dominava aquele mundo de registros, certidões e outros documentos. Mas para que pudesse assumir oficialmente a função, era preciso assinar o termo de compromisso diante do juiz de Piancó, comarca da qual fazia


Patos João Pessoa Campina Grande

Bonito de Santa Fé

parte Coremas, a menos de 20 quilômetros dali. O chefe do cartório de Coremas, chamado Pedro Natividade, reservou lugar para o jovem Cajú em um dos carros que partiriam na manhã seguinte, logo cedo, para Piancó, onde aconteceria o julgamento de um homem que assassinara uma meretriz no cabaré da cidade. Numa manhã de segunda-feira, Sandoval partiria para a sua primeira aventura além dos limites de sua Bonito de Santa Fé. Carregava debaixo do braço o pesado livro de assentamento de termos do cartório de Coremas, em uma das páginas do qual Sandoval assinaria e formalizaria sua posse no emprego.

No início, deu tudo certo. Sandoval foi até o juiz, que exigiu documento de maioridade dele antes da assinatura. Missão cumprida. Era só aguardar o final do julgamento e voltar para Coremas. Sem paciência para acompanhar os debates de acusação e defesa, Sandoval Cajú foi para o pequeno hotel, onde almoçou e deitou em uma rede para cochilar. Pegou no sono. Acordou num pulo, horas depois, quase noite. Correu para o local onde os carros estavam estacionados e constatou, incrédulo, que os veículos já haviam partido. Desesperou-se, mas procurou manter a calma. Tinha de voltar naquele dia. O chefe do cartório

o aguardava. Orientado pelo dono do hotel, procurou um fazendeiro que lhe emprestou um burro, único meio de transporte àquela hora da noite. Pediu informações sobre o caminho a tomar e partiu a galope. Depois de mais de duas horas de cavalgada, avistou as luzes de uma cidade que pensou ser Coremas. “Graças a Deus”, suspirou aliviado. Mas, ao aproximar-se, tomou um susto. As luzes eram de Piancó, de onde partira no início da noite. Constatou incrédulo que cavalgara em círculo. Puxou as rédeas do cavalo, deu meia volta e pegou novamente a estrada. Iniciava ali a “via-crúcis” do jovem Cajú. Cavalgou a noite toda, emen-


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dou pela madrugada e amanheceu em meio à caatinga erma, num ponto qualquer do alto sertão paraibano, cuja localização o adolescente Cajú ignorava completamente. Cansado, com fome e sedento, todo rasgado dos espinhos de mandacaru, no fim da tarde do dia seguinte Sandoval Cajú avistou um córrego. Ele e o animal mataram a sede. Exausto, sob a sombra de um juazeiro Sandoval “desmaiou”. Quando acordou, nova e trágica surpresa: o cavalo havia desaparecido. Pronto. Agora morreria no meio daquela vegetação seca. Seu corpo apodreceria sem que ninguém conseguisse encontrá-lo naquela imensidão, pensava Sandoval Cajú. Danou-se a andar sem direção, guiado por um instinto de sobrevivência. Caminhou durante horas até ouvir o canto de um galo. Conseguiu chegar a uma casa onde foi socorrido por uma família sertaneja. Medicado e alimentado, dormiu quase um dia inteiro. Quando acordou, ficou sabendo que estava na zona rural do município de Patos, a quase 90 quilômetros a leste de Coremas e havia cavalgado o tempo todo no sentido contrário.

No dia seguinte, rumou para a rodovia e pegou um ônibus de volta para Coremas. Não foi notado quando desceu do veículo e caminhou desconfiado em direção ao cartório. Pedro Natividade tomou um susto quando viu Sandoval Cajú. Não sabia se chorava, se agradecia a Deus, se abraçava-o, ou se dava uma bronca no auxiliar reaparecido. Foram dias de aflição para o dono do cartório. Havia organizado grupos de busca ao jovem desaparecido. A cidade toda estava aflita. A história do desaparecimento misterioso se espalhara rapidamente pelo sertão da Paraíba. O acontecimento virou notícia. “Cavalo e cavaleiro desaparecem dentro da noite na rodovia Piancó-Coremas! Ninguém dá notícias deles. O escrivão Pedro Natividade aluga dois automóveis e despacha seis

homens para busca de escrevente”, escreveu um periódico. “Fato inédito no sertão paraibano: entre Piancó e Coremas jovem sumiu com o livro do cartório”, alardeava outro. Um terceiro foi mais sensacionalista: “Escrevente desaparece do mapa como os barcos no Triângulo das Bermudas!”. Na sua primeira tentativa de ganhar o mundo, Sandoval Cajú ganhou as páginas dos jornais paraibanos. A história narrada acima é contada pelo próprio Sandoval Cajú, em seu livro O Conversador (Sergasa-1991), um relato autobiográfico, nas páginas do qual ele conta fatos de sua vida e passa a limpo sua trajetória pessoal e política. Conta com detalhes o período de sua vida compreendido entre sua chegada a Maceió, em 1946, a eleição para prefeito, em 1960, e a última campanha política para a Prefeitura de Maceió, em 1985.


Origens e infância Até desembarcar em Maceió, na metade dos anos 1940, a vida de Sandoval Cajú deu muitas voltas. Ele nasceu em 1923, na minúscula e distante Bonito de Santa Fé, no alto sertão da Paraíba, a 555 quilômetros de João Pessoa, mas possui raízes em Alagoas. O avô paterno de Cajú, Laurentino Cajú, nasceu em um sítio na cidade de São José da Laje, zona da mata alagoana, em 1870. Casou-

dono do cartório de Bonito de Santa Fé por mais de 40 anos. José Ferreira Cajú casou-se com a bonitense Tamires Ferreira Guarita, cujos pais eram de São José de Piranhas, também no sertão paraibano. Desse matrimônio, nasceram cinco filhos. Sandoval é o terceiro dos rebentos. Na infância, o menino Sandoval já se destacava nas brincadeiras no

Sandoval nasceu na minúscula e distante Bonito de Santa Fé, no alto sertão da Paraíba -se com uma pernambucana do município de Canhotinho. No início do século passado, o casal rumou para o agreste paraibano. A princípio, se instalou na zona rural de Conceição de Piancó. Três anos mais tarde, os dois decidiram viver em Bonito de Santa Fé. O primeiro filho do casal, batizado com o nome de José, tinha dez anos quando chegou com os pais ao sertão da Paraíba. No futuro, o menino alcançaria relativo destaque na sociedade bonitense. Viria a ocupar o cargo de prefeito da cidade por dois mandatos, além de ser também o

meio da rua e ao redor da igreja de Bonito de Santa Fé. Desde cedo já demonstrava o talento para contar história e prender a atenção dos pequenos que o cercavam. Aos 12 anos concluiu o curso primário. Como Bonito de Santa Fé não dispunha de curso ginasial, teve de interromper a aprendizagem formal e mergulhar no estudo autodidata. Só concluiria o ginásio mais de 20 anos depois, já morando em Maceió. Criado dentro do cartório de registro da cidade, Sandoval Cajú aprendeu com o pai todo o serviço cartorário. Dos cinco irmãos, ele foi

o que mais se adaptou ao trabalho de redigir, carimbar e despachar documentos oficiais. Talvez por isso, antes de completar 18 anos, ele herdou o cartório fundado pelo velho José Cajú. Mas abriu mão e repassou à irmã mais nova a responsabilidade. Não ficaria em Bonito de Santa Fé. Queria ganhar o mundo, se estabelecer em “uma cidade grande”, que oferecesse meios para que pudesse concluir os estudos e crescer na vida. Contava com o incentivo e o patrocínio do pai. O velho José Cajú sabia que o futuro do filho estaria ameaçado caso continuasse naquela acanhada cidade sertaneja. Sandoval fez várias tentativas de se estabelecer em uma capital nordestina. Buscou a sorte em Fortaleza, onde esteve por algum tempo, arriscou alguns meses em João Pessoa e passou uma temporada no Recife. Ainda não tinha 18 anos quando se aventurou numa viagem ao Rio de Janeiro. No meio do caminho, o dinheiro acabou e ele foi obrigado a passar dois anos na Bahia, em Santo Amaro, a cerca de 30 quilômetros de Salvador. Trabalhou duro e pegou no cabo da pá e da picareta. Em 1941, foi servente de pedreiro na construção, da base aérea de Santo Amaro do Ipitanga. Teve de retornar a Bonito de Santa Fé. A Segunda Guerra Mundial eclodira e milhares de jovens brasileiros estavam sendo convocados a servir à pátria. Sandoval Cajú passou quase dois anos no Exército.


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“Desmentindo” Euclides da Cunha Ao deixar o serviço militar, decidiu morar em João Pessoa, na capital paraibana. Era fim de 1946. Em janeiro do ano seguinte ocorreriam as eleições para governadores de Estado. De maneira voluntária, Sandoval Cajú se engajou na campanha política do ministro da Suprema Corte de Justiça, Oswaldo Trigueiro de

O sertanejo é, antes de tudo, um fraco! Sandoval Cajú Albuquerque Mello, candidato apoiado pelo líder político e escritor José Américo de Almeida. Mesmo sem ser convidado, juntou-se à caravana do candidato ao governo da Paraíba. Formado por nomes ilustres da política paraibana, o cortejo sairia em campanha pela região sertaneja, realizando comícios e conquistando votos de eleitores. Sandoval Cajú encontrou uma

vaga em um dos mais de dez veículos que formavam a caravana e rumou para o sertão da Paraíba, de volta às paragens que conhecia tão bem. Logo na primeira oportunidade que surgiu, na cidade de Itaporanga, ele não deixou escapar a chance de exibir o seu talento no manejo do verbo. Conhecia a alma sertaneja, os costumes e as dificuldades vividas no semiárido. No seu discurso de estreia já foi exibindo a habilidade de prender a atenção e provocar suspense na plateia. Iniciou sua fala contradizendo o jornalista e escritor Euclides da Cunha, para espanto dos oradores presentes: “O sertanejo é, antes de tudo, um fraco!”. A multidão ficou em silêncio. Sandoval continuou. “... impotente para resistir sozinho aos impiedosos caprichos da natureza que periodicamente inflige a seca. A seca que esturrica a terra, terra que, ressequida, não produz o alimento à sobrevivência; seca que o debilita fisicamente e lhe mata de sede e de fome o gado, a criação!... Mas, os homens do sertão da Paraíba tornar-se-ão fortes amanhã, quando este governo de Oswaldo Trigueiros se instalar no Palácio da Reden-

ção e tratar de construir grandes reservatórios de água para irrigação...Paguemos para ver com o nosso voto!”. Foi efusivamente aplaudido e aclamado e ganhou de imediato a simpatia do candidato Oswaldo Trigueiros, que daquele dia em diante fazia questão de manter Sandoval Cajú à vista. Quase sempre, o escalava para discursar e formular os agradecimentos pelas homenagens recebidas nas cidades sertanejas. Sandoval se destacava entre oradores renomados da Paraíba que compunham a caravana, a exemplo do recém-eleito à época deputado federal João Agripino Filho, Josmar Toscano Dantas e Plínio Lemos. Trigueiros venceu as eleições e Sandoval Cajú conquistou um emprego no quadro administrativo do Palácio da Redenção. No dia 9 de maio de 1947, foi recebido no palácio pelo novo governador. Os dois conversaram e ficou combinado que Sandoval Cajú se apresentaria para trabalhar na assessoria do governo no fim do mês, exatamente no dia 30, uma sexta-feira.


De João Pessoa para o Recife e do Recife para Maceió – Por acaso Fachada da estação ferroviária do Recife, onde Sandoval embarcou rumo à Maceió

Saiu do Palácio da Redenção “com o coração arrebentando de felicidade”, como descreve Cajú em seu livro de memórias, O Conversador. Sentou-se em banco de praça, em frente à estatua de João Pessoa, respirou e vislumbrou um futuro promissor. Mas as coisas só começariam a acontecer de fato no fim do mês. Inquieto e ansioso, Sandoval Cajú pensou

no fim da tarde. Hospedou-se em uma pensão nas proximidades da antiga Rua da Detenção, a alguns metros de uma estação da Great Western. À noite, caminhou pela Imperatriz, viu o Rio Capibaribe ao passear pela ponte da Boa Vista e assistiu a um filme no cinema da Praça Joaquim Nabuco. No retorno à pensão, as luzes da estação lhe chamaram a atenção. A

Aquela decisão tomada na noite anterior, em meio às luzes da estação de trens, daria novo rumo à vida de Sandoval Cajú numa maneira de “matar o tempo”. No dia seguinte, no início da tarde, num sobressalto que lhe arrancou do cochilo após o almoço, pegou a bagagem e partiu para embarcar num ônibus. Decidira conhecer Recife, queria visitar pontos turísticos, prédios históricos, museus e bibliotecas. Chegou à capital pernambucana

Great Western comemorava 100 anos de operação na região Nordeste. No salão principal da estação, Sandoval deparou-se com vários cavaletes nos quais estavam colocados quadros-negros onde se lia os horários de partidas de trens para várias cidades: Garanhuns, Jaboatão, Moreno, Caruaru, Maceió...

“Maceió!”, exclamou Sandoval Cajú. Nutria o desejo de conhecer a terra dos marechais. Acompanhava por meio dos noticiários de rádio e jornal fatos da política alagoana, dominada à época pelo violento Silvestre Péricles de Góes Monteiro. Seria uma grande oportunidade de rever o irmão Genival Cajú, que estudava na Faculdade de Direito, na capital alagoana. Não pensou duas vezes. Partiu para o guichê e comprou a passagem de 1ª classe Recife/Maceió. Embarcou às 6 horas da manhã do dia 10 de maio de 1947. Nem desconfiava que aquela era uma viagem apenas de ida. Aquela decisão tomada na noite anterior, em meio às luzes da estação de trem, daria novo rumo à vida de Sandoval Cajú. Jamais ele retornaria à Paraíba para assumir seu posto no governo de Oswaldo Trigueiros. Carregou dentro dele o “remorso” de ter desprezado a terra natal. Em Maceió, ele consagraria sua trajetória e escreveria seu nome num dos capítulos mais importantes da história política alagoana.


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O incendiário do rádio a Num fim de tarde daquele mês de setembro de 1948, o governador de Alagoas Silvestre Péricles de Góes Monteiro era o centro das atenções de uma roda formada por secretários

poeta e garanhão. Enquanto o papo rolava, uma figura se espreme e pede passagem em meio ao pequeno grupo em torno do governador. “Governador, me permita um

Enquanto o papo rolava, uma figura se espreme e pede passagem em meio ao pequeno grupo em torno do governador e bajuladores. Como costumava fazer, ao fim do dia, o chefe do executivo reunia-se no Palácio dos Martírios com sua equipe. Naquela tarde, nada de assuntos oficiais. A discussão girava em torno da beleza da mulher alagoana, um dos assuntos preferidos do cacique político, metido a

aparte! É claro, óbvio, evidente e axiomático que mulher é que nem castigo: só presta grande!”. Não se sabe exatamente do que tratava a conversa. O fato é que Silvestre Péricles ouviu aquilo e deu uma gargalhada. Gostou da “tirada” daquele jovem excêntrico, mas muito simpá-

tico. Chamou-o para perto, abraçou-o ainda sorrindo. “Governador, meu nome é Sandoval Cajú”, apresentou-se. “O que você quer?”, perguntou Silvestre. “Eu quero ir para a Rádio Difusora”, disse, sem titubear, o rapaz. Silvestre Péricles então sacou a caneta, escreveu um bilhete, assinou e o entregou dizendo: “Procure o Aldemar Paiva”. Teria sido dessa forma que Sandoval Ferreira Cajú passara a integrar o quadro da recém-criada Rádio Difusora de Alagoas. Essa versão é contada pelo próprio Aldemar Paiva, artista talentoso e um dos mais brilhantes personagens do Teatro de Amadores de Maceió, grupo de artistas que pontificava naquela época, na capital alagoana. Enquanto conta a história, Paiva faz questão de imitar o jeito de falar de Sandoval, que detestava, segundo amigos, a imitação de Aldemar Paiva.


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alagoano “Como jornalista que já era naquele tempo, Sandoval Cajú vivia fuçando as autoridades, em busca de notícias e estava naquela tarde no Palácio dos Martírios. Ele tinha o sonho de trabalhar em rádio e aproveitou o momento para dar a ‘facada’ no Silvestre Péricles”, conta Aldemar Paiva. Há um ano e meio radicado em Maceió, Sandoval Cajú conseguiu, menos de 15 dias depois de chegar à capital alagoana, emprego no Departamento de Viação e Obras Públicas (DVOP). Nomeado diretor artístico da ZYO-4, a Rádio Difusora, fundada em 16 de setembro de 1948, Aldemar Paiva também trabalhava naquele órgão estadual. Ao receber a solicitação do “doutor Silvestre”, Paiva tratou de transferir Cajú do DVOP para as ondas radiofônicas da Difusora. Sob a direção geral de Mário Marroquim, um dos pioneiros do rádio alagoano, a Rádio Difusora formou

um verdadeiro elenco de cantores, locutores, músicos, redatores e técnicos. À frente da direção teatral, Lima Filho ditava os roteiros e garantia o sucesso de audiência das radionovelas interpretadas por nomes como o próprio Lima Filho, Aldemar Paiva, Ezequias Alves, Nilda Neves, Claudio Alencar, Pedro Onofre e outros. O time de cantores também era imbatível e contava com vozes afinadas como as de Seton Neto, Raynou Carvalho e Yasinha Calmon. Sandoval Cajú reforçaria o quadro de redatores que contava também com Aldemar Paiva e Lima Filho, dois curingas da Difusora, além de Ezequias Alves, Josué Júnior e o poeta ácido e irreverente Armando Wucherer. Em sua nova função, Sandoval Cajú passou a escrever o ‘Álbum Social’ da Difusora, espécie de coluna social radiofônica que divulgava da-

Governador Silvestre Péricles (à direita) durante bate-papo com correligionários: foi a ele que, em 1948, Sandoval Cajú pediu emprego na Rádio Difusora


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tas de aniversário e fatos da sociedade maceioense. Também redigia os textos do programa de auditório apresentado pelo animador Alcides Teixeira, que viria, anos depois, a ocupar uma cadeira de deputado

da à Rua Pedro Monteiro, no Centro da cidade, estava lotado e o público não podia mais esperar pelo animador faltoso. O próprio Cajú conta o episódio: “Subi ao palco, lancei mão do microfone, contive o nervosismo e

Por mais sonhador que pudesse ser, Cajú jamais imaginou que estava iniciando naquele momento uma das carreiras mais brilhantes do rádio alagoano estadual, na Assembleia Legislativa de Pernambuco. Por mais sonhador que pudesse ser, Cajú jamais imaginou que estava iniciando naquele momento uma das carreiras mais brilhantes no rádio alagoano. Quando um dos animadores de um dos programas de auditório faltou, o diretor artístico Aldemar Paiva olhou para Sandoval e disse: “Vai você!”. O auditório localizado na antiga sede da Rádio, situa-

enfrentei a plateia. O espetáculo sob meu comando improvisado teve curso normal e, por incrível que pudesse parecer, foi alvo dos aplausos da numerosa assistência”. O resultado foi tão surpreendente que a direção da Rádio Difusora decidiu mantê-lo em definitivo na nova função, onde continuou até o mês de dezembro, quando o contrato de publicidade acabou e o programa foi tirado do ar. Empolgados com a

performance do novo animador, os patrocinadores mostraram-se interessados em renovar o contrato de publicidade e bancar um novo programa tendo à frente Sandoval Cajú. Criativo e inovador, Sandoval inventou o “Palito de Fósforo, o incendiário dos auditórios”, programa que revolucionou o rádio alagoano. Foi batizado assim porque o animador só dispunha de apenas 15 minutos para fazer o espetáculo, ganhar a audiência e “vender seu peixe”. “Era pequeno como um palito de fósforo, mas tocava fogo e incendiava e plateia”, dizia Sandoval Cajú. Nesse curto espaço de tempo, ele recebia e entrevistava personalidades da época e distribuía prêmios aos ouvintes que respondiam corretamente às perguntas formuladas ao microfone. Durante a audição, bem ao seu estilo teatral, gesticulando muito e caprichando no vocabulário, Sandoval Cajú narrava fatos pitorescos. Em casa e no auditório, os ouvintes e o público presente morriam de rir. Aldemar Paiva não esquece a estreia de Palito de Fósforo. “O progra-


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ma estreou no dia 25 de dezembro. Aí o Sandoval pegou o microfone e disse: ‘Senhoras e senhores, esse é um programa sui generis da radiodifusão nacional. E eu quero, antes de qualquer coisa, proceder a um registro que eu considero da maior importância: Está completando nessa data 1948 anos de idade nosso senhor Jesus Cristo, a quem eu peço uma salva de palmas!”. O sucesso do programa foi imediato. A audiência no horário cresceu e o tempo de audição foi ampliado para duas horas de duração. Os ouvintes adoravam e os companheiros de trabalho se impressionavam com a facilidade que Sandoval tinha de se comunicar com o público. Onde chegava, dominava o ambiente e logo virava o centro das atenções. “O Sandoval era um homem diferente. Tinha uma maneira única de falar. Usava umas expressões, umas palavras, que nenhum outro locutor ou apresentador usava naquela época”, lembra o jornalista e escritor Cassimiro de Farias Cardoso, mais conhecido pelo nome artístico de Cláudio Alencar, galã das radionovelas da Rádio Difusora nos anos 1950.

O “nome de guerra” lhe foi dado pelo diretor de radioteatro, Lima Filho, que não considerava “radiofônico” o Cassimiro de Farias. Cláudio Alencar estava no auditório da Rádio Difusora e presenciou a famosa entrevista concedida pelo craque Edvaldo Santa Rosa, o Dida, a Sandoval Cajú, em uma edição do Palito de Fósforo. À época, Dida era jogador do CSA e viria a vestir a camisa do Flamengo do Rio de Janeiro, de onde seria convocado para a Seleção Brasileira. “O auditório estava lotado. O Sandoval, com aquele seu jeito, iniciou a entrevista e, antes de apresentar o entrevistado, começou a elogiar Dida por meio de cada letra de seu apelido: ‘D de dominador, I de imperador, D de demolidor e A de artista da bola’”, lembra Cláudio. Nesse momento, segundo Cláudio, um “gaiato” da plateia grita: “dá o c... a ele!”. “De imediato, Sandoval virou-se para o cara, dirigiu-se a ele, e emendou, trocando a pontuação da frase: “Eu como você!... Também gosto da brincadeira...”. O tal “gaiato” foi colocado para fora do auditório a tapas.


REPORTAGEM

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Em seu livro, intitulado Contando Histórias, lançado em 1991, uma coletânea de textos que falam do surgimento do rádio em Alagoas, Cláudio Alencar conta com detalhes a implantação da Rádio Difusora, pioneira no Estado. Entre os “causos”, está o do Quartel General do Rádio, o programa de auditório criado por Sandoval Cajú que, depois de farta divulgação, mal chegou a estrear. “No dia do lançamento do programa, muito anunciado e com estreia muito badalada, Sandoval Cajú decidiu que os estudantes não pagariam ingresso. O que se viu foi a superlotação do auditório da Difusora, na Rua Pedro Monteiro”, conta Cláudio Alencar. Anunciado para começar às 20 horas, logo após a Voz do Brasil, às 17 horas já havia estudante chegando à rádio. “É bom lembrar que, naquela época, os estudantes mandavam brasa. Os festejos do Dia dos Estudantes terminavam em quebra-quebra e em anarquia generalizada”. A situação ficou fora de controle.

As mocinhas normalistas não conseguiram permanecer dentro do auditório. Para complicar ainda mais a situação já caótica, uma queda de energia deixou a cidade às escuras. A Rádio Difusora, segundo narra Cláudio Alencar, era a “menina dos olhos” do governador Silvestre Péricles, que ficou “possesso” ao ser comunicado que, naquela noite, os estudantes estavam destruindo a rádio. Em meio àquela confusão, Sandoval Cajú mantinha a calma e aparentava tranquilidade. Apenas esperava a hora de entrar no ar e estrear o seu Quartel General do Rádio. Às 20 horas. Sandoval manda abrir a cortina. Não havia dito a ninguém como conduziria o programa e o que faria para “domar” a estudantada rebelde. “ZYO-4, Rádio Difusora de Alagoas...”. A vaia cobriu. Sandoval levantou a mão, pediu silêncio, aproveitou uma breve pausa na zoada, e cravou: “Senhoras e senhores, antes mesmo de ser iniciado, está definitivamente encerrado o Quartel General do Rádio!”, e deixou o palco. Apesar de

anunciado e aguardado pela audiência, o programa nunca mais foi ao ar. Foi o programa mais curto da história do rádio. Criativo e dono de ideias originais, Sandoval Cajú não desistiu. “Inventou” o Gigante do Ar, programa de estúdio que instigava a imaginação dos ouvintes. Tudo se “passava” no interior de um enorme avião, a bordo do qual os principais cantores e artistas da época viajavam sob a liderança do “comandante” Sandoval Cajú. “Atenção, senhoras e senhores, estamos pousando aqui na capital alagoana e temos a bordo os cantores Ciro Monteiro e Carlos Galhardo...”, viajava Sandoval. O programa foi outro sucesso de audiência. Durante três anos e meio, Cajú permaneceu na Rádio Difusora. Criou e produziu outros programas de auditório, a exemplo de Traga Centavos e Leve Cruzeiros e Feira de Atrações. Por meio das ondas da Difusora, ele fez fama de radialista virtuoso e exímio comunicador. Ficou conhecido no Nordeste e admirado na Paraíba, sua


Sandoval Cajú (à direita) durante a transmissão do programa Palito de Fósforo, pela Rádio Difusora


REPORTAGEM

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terra natal, onde familiares e amigos se reuniam em torno do rádio para ouvir os programas comandados por ele. No início de 1951, depois de ter concedida uma licença médica de três meses, Sandoval Cajú viajou para a Paraíba. Lá, passou o dobro do período a que tinha direito, o que lhe acarretou a demissão do Departamento de Viação e Obras Públicas (DVOP), onde era lotado. Em João Pessoa, não resistiu aos assédios e aceitou o convite de Carmelo dos Santos Coelho, diretor-geral da Rádio Tabajara para assumir a função de locutor-chefe da emissora. A proposta de emprego veio depois de sua performance como locutor das comemorações do Dia 1º de Maio, um freelance que aceitou fazer enquanto estava de licença médica em João Pessoa. Passou cerca de seis meses na função e levantou a audiência da emissora paraibana com programas como Página Poética e Papos Noturnos. Pediu demissão e voltou a Maceió, para que sua esposa, uma

alagoana com quem estava casado há um ano e meio, desse à luz à sua primeira filha, batizada de Adélia. Cajú ainda retornaria à Rádio Tabajara para mais uma temporada de cerca de cinco meses. Quando voltou à capital alagoana, em 1952, trabalhou como repórter do Jornal de Alagoas e também como corretor de publicidade de rádio e jornal. Enquanto batalhava para garantir o sustento da família, Sandoval Cajú também lutava para concluir o ginásio e o curso secundário, já que possuía apenas o curso primário. Estudou no Colégio Guido de Fontgalland e também na Escola Técnica de Comércio de Maceió, onde foi diplomado no dia 27 de dezembro de 1958. Em seguida, inscreveu-se e foi aprovado no curso pré-universitário da Faculdade de Direito de Alagoas, onde se formou bacharel em ciências jurídicas e sociais, atividade que garantiria seu sustento nos anos de ostracismo na política. Dez anos após a inauguração da Rádio Difusora, surgia em Alagoas a Rádio Progresso, inaugurada no

feriado de 15 de novembro de 1958. Instalada sob o prefixo ZYL 25, a nova emissora nasceu do investimento do então deputado Ary Pitombo e inaugurou também o ciclo de rádios comandadas por políticos no Estado. Para os profissionais da área, locutores, animadores, radioatores, radioatrizes e técnicos, a Progresso significava a expansão do mercado de trabalho em Alagoas. Muitos nomes do cast da Rádio Difusora migraram para a nova emissora. Além deles, jovens talentos que despontavam na comunicação naquele momento também foram acolhidos pelo novo empreendimento, fazendo com que, por exemplo, a experiência de Jesualdo Ribeiro fosse somada ao fôlego do “foca” Luiz Tojal. Nos mesmos microfones surgiriam figuras do rádio como Sabino Romariz, Arnoldo Chagas e Floracy Cavalcante. Para as radionovelas, o diretor da Rádio Teatro Florêncio Teixeira contava com elenco de talento, dentro do qual figurava nomes a exemplo de Silvia Lorene, Cibele Barbosa e Romildo Holiday.


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O diretor-geral Castro Filho foi buscar o radialista pernambucano Edécio Lopes, falecido em 2009, para elaborar e dirigir a programação. Foi pelas mãos dele e pelo brilhante trabalho que desenvolvia aos microfones da Rádio Difusora que Sandoval Ferreira Cajú chegou às “ondas hertzianas”, como gostava de dizer, da ZYL 25, a Rádio Difusora. Cajú não perdeu tempo e logo emplacou o programa que revolucionaria radicalmente a radiodifusão em Alagoas. Levado ao ar no horário

Antiga sede da Rádio Difusora de Alagoas, no Centro de Maceió

de almoço, o Tribuna do Povo era um programa “do povo, pelo povo e em função do povo”, como alardeava ao microfone o apresentador Sandoval Cajú. Matreiro na arte de se comunicar, Sandoval Cajú conhecia como ninguém o idioma do povo. Andarilho das ruas, frequentador de praças e de outros locais públicos, ele sabia dos anseios da classe mais humilde. Mas seu discurso também ganhava a simpatia dos ricos. Seu Tribuna do Povo logo se transformou em lideran-

ça absoluta de audiência. O programa projetou ainda mais Cajú e garantiu-lhe a popularidade de que precisava para partir para sua maior aventura em terras caetés. Sem qualquer apoio político, desprovido de suporte de grupos econômicos e contrariando todas as expectativas, nas eleições de 1960 Sandoval derrotaria três candidatos apoiados por forças políticas tradicionais e escreveria uma das mais incríveis páginas da recente história de Alagoas.


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Sandoval Cajú candidato

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a prefeito de Maceió: a piada A gargalhada explodiu dentro da sala de reuniões da Academia Maceioense de Letras, numa tarde daqueles primeiros dias de agosto, em 1960. O radialista e literato Jesualdo Ribeiro, o jovem radioator Pedro Onofre, o cantor, poeta e compositor Jucá Santos e o poeta Manoel Cícero do Nascimento imaginavam tratar-se de

bem Sandoval, eu vou trabalhar na sua campanha’, mas levando tudo na brincadeira, porque não havia a menor chance de vitória. Eram três candidatos representantes dos políticos tradicionais. Aí chega um maluco dizendo que seria prefeito de Maceió!”, lembra sorrindo o teatrólogo alagoano Pedro Onofre, 74 anos. Do grupo

Eu sou candidato a prefeito e preciso da ajuda de vocês Sandoval Cajú

mais uma piada do irreverente Sandoval Cajú. Mas o radialista estava sério e fez questão de repetir: “Eu sou candidato a prefeito de Maceió e preciso da ajuda de vocês”. Onofre tirou onda de Sandoval: “Com que dinheiro? Você não tem onde cair morto...”. Cajú não esquentou. “Não sei, mas vamos dar um jeito. Vocês estão ou não estão comigo?”. “Eu olhei para ele e disse: ‘Está

da Academia Maceioense de Letras, apenas ele se engajaria na busca de votos para o amigo pelos bairros de Maceió. A dois meses do pleito eleitoral, não foi fácil para Sandoval Cajú garantir sua candidatura pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Para conseguir a legenda ele teve de brigar e superar a oposição do presidente do pequeno partido, Cícero Virgínio Tor-

res, que pretendia oferecer o PDC para a candidatura do engenheiro Clóvis Maia Nobre. Sandoval decidira se candidatar a prefeito no ano anterior, em 1959. Contratado pela Rádio Progresso,de propriedade do deputado Ary Pitombo, era campeão absoluto de audiência à frente do Tribuna do Povo. O programa tinha duas horas de duração, de segunda a sábado, e começava ao meio-dia. O objetivo era buscar soluções práticas para os problemas principalmente da comunidade carente. Enquanto almoçavam, os ouvintes curtiam o programa e aprovavam o verbo afiado do locutor. Seu discurso criticava o abandono da capital e o descaso do poder público com os mais necessitados. “É preciso resgatar o ‘sorriso’ desta cidade”, pregava, enquanto cobrava infraestrutura, abastecimento de água e de energia elétrica para os bairros da periferia. As ondas do rádio transportavam Sandoval Cajú aos braços do povo. A audiência do programa comandado por ele chegou a atingir 95%. Tal projeção encheu Sandoval Cajú de esperança e deu-lhe a certeza de que não haveria momento melhor para lançar seu nome à Prefeitura de Maceió.


Michel Rios

Eu olhei para ele e disse: ‘Está bem Sandoval, eu vou trabalhar na sua campanha’, mas levando tudo na brincadeira, porque não havia a menor chance de vitória Pedro Onofre Teatrólogo

Pedro Onofre durante a campanha de Sandoval Cajú para a Prefeitura de Maceió


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OS ADVERSÁRIOS DE SANDOVAL Para chegar ao mais alto posto do executivo, Sandoval teria de enfrentar e derrotar três candidatos representantes de forças políticas e econômicas de Alagoas. Eram eles: o médico Jorge Quintela, ex-vereador, então deputado estadual pela UDN; Cleto Marques Luz, candidato que gozava do apoio do governador Muniz Falcão e do prefeito Abelardo Pontes Lima, durante três mandatos vereador por Maceió e, à época, deputado estadual; e Joaquim Leão, que tinha o apoio dos comerciantes e era o candidato do deputado federal Ari Pitombo, dono da recém-inaugurada Rádio Progresso e chefe de Sandoval Cajú. Pitombo ainda tentou fazer com que Cajú desistisse da candidatura e passasse a apoiar o comerciante Joaquim Leão, mas o locutor paraibano estava decidido e não abria mão de disputar o pleito. A teimosia custou a Sandoval Cajú suas duas horas nos microfones da Progresso. Numa atitude de represália, Ary Pitombo mandou tirar do ar o Tribuna do Povo. Sem dinheiro, sem apoio político e agora sem seu programa no rádio, Sandoval Cajú partiu para a campanha política. Montou seu “comitê eleitoral” na antiga Farmácia Minerva, na Rua do Comércio, de proprie-

dade de Angélico Gomes, também paraibano que adorava Sandoval. O filho dele, Harry Gomes, colocou à disposição do radialista um automóvel Studebaker 1951, sobre o qual foram instalados dois autofalantes também cedidos por outro comerciante, Severino Gomes. Além desse apoio, também contava com o patrocínio do sogro José Loyola, político antigo da capital. Arregimentou como locutor oficial de sua campanha Artagnã Marcelino e convocou Pedro Onofre para assumir o posto de orador oficial. A bordo de um veículo modelo Studebaker, como verdadeiros mosqueteiros, os três percorreriam em dois meses todos os bairros de Maceió, numas das mais criativas e empolgantes campanhas políticas já realizadas em Alagoas. Em entrevista ao radialista Edécio Lopes, em seu programa Manhãs Brasileiras, em 1985, Sandoval Cajú lembra aquele momento histórico. “Nós entramos na campanha com gosto de gás, como se diz na gíria, e tivemos de fazer 147 comícios. Não que estivesse programada essa enormidade de comícios. É porque o candidato, naturalmente, caiu no gosto do povo”.

Nós entramos na campanha com gosto de gás, como se diz na gíria, e tivemos de fazer 147 comícios Sandoval Cajú


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USANDO ESTRATÉGIAS DE CIRCOS MAMBEMBES Segundo Pedro Onofre, havia noites em que Sandoval Cajú chegava a fazer cinco ou seis comícios, numa estratégia semelhante aos circos mambembes. O trio partia para um bairro, no fim de tarde, e escolhia uma rua para o primeiro comício. Sedutor, insinuante, “papo de derrubar avião”, Sandoval descia do carro e batia palmas na porta de uma casa. A dona vinha atender e ele dizia: “Boa noite, eu sou o Sandoval Cajú e queria a sua permissão para realizar o meeting aqui na sua porta”. Não havia quem recusasse. Permissão concedida, Sandoval fazia mais um pedido. “Poderia, por favor, ligar essa tomada do nosso sistema de som aí na sua casa?” Pedro Onofre e Artagnã tratavam de conseguir um banco, uma mesa ou uma caixa de madeira para servir de palanque. “Depois que ligava o microfone, o Artagnã ficava anunciando: ‘Venham ver o comício de Sandoval Cajú, a esperança de Maceió! Depois que o Artagnã falava, juntava um monte de menino, as pessoas saíam nas portas, aí eu subia no banco e dava o primeiro discurso da noite. Quando eu terminava de falar, Sandoval vinha e dava o discurso dele”.

Na metade do discurso, Sandoval Cajú parava e dizia: “Colegas, acabo de ser convidado para fazer mais um comício logo ali adiante. É aqui na mesma rua, só que na outra esquina. Peço que vocês me acompanhem para que eu possa concluir o meu discurso”. Sandoval partia então a pé, seguido de uma pequena multidão, para o seu segundo comício. O público ia aumentando a cada discurso. No quinto comício da noite, Sandoval Cajú falava para uma multidão. Seu discurso era cheio de humor e frases de efeito, bem no estilo que o consagrou no rádio, mas não faltavam ataques aos que acabaram com o “sorriso” de Maceió e críticas pelo abandono a que fora relegada a capital. “O discurso do Sandoval era irreverente. Ele atacava o que tinha de ser atacado, o descaso com a cidade, e tinha certas tiradas, umas frases interessantes que despertavam o riso. ‘Eles estão aí me ameaçando, mas eu tenho uma arma que assenta qualquer cabelo e vou mostrar aos senhores...’ Aí, puxava um pente. Era uma gargalhada geral, o povo ia ao delírio”, lembra Pedro Onofre. Os comícios de Sandoval Cajú ga-

nharam status de shows. Milhares de pessoas passaram a acompanhar o performático locutor. Só então, os outros candidatos passaram a perceber a força e o crescimento da campanha do paraibano. “No começo, todos iam lá para brincar, para zombar. Ninguém acreditava. Os outros candidatos só começaram a sentir o peso da campanha de Sandoval Cajú faltando uns 15 dias para a eleição. Eles já colocavam observadores, apareciam carros nos comícios”, diz Onofre. Segundo ele, nem o próprio Sandoval Cajú se dava conta do que estava acontecendo. “A ficha foi caindo aos poucos para ele. Nos últimos dias da campanha, ele foi perdendo aquele ar de brincalhão, foi sentindo naturalmente temor, o peso da responsabilidade de assumir a Prefeitura de Maceió. Aquele comediante, aquele palhaço, como todos chamavam, começou a desaparecer dele. Sandoval ficou mais introspectivo, mais preocupado. Já se via Sandoval Cajú em silêncio, pensativo, coisa que era impossível”, diz Onofre.


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REPORTAGEM

O PLEITO E A VITÓRIA ESMAGADORA NAS URNAS Foi no famoso comício da Praça Deodoro que Sandoval Cajú teve a certeza de que seria eleito prefeito de Maceió. Sua campanha havia crescido e atraído novos oradores. Contava com um palanque e um serviço de som. Na praça, não havia espaço para mais ninguém. As ruas ao redor estavam tomadas. “Você está vendo o que está acontecendo, meu filho?”, perguntou José Cajú. “Agora estou vendo, pai”, respondeu Sandoval. Pela primeira vez, a família dele estava presente em um comício em Maceió. Tios, primos e amigos da Paraíba vieram conferir o sucesso do candidato. Sandoval estava inspirado. Vinha de um comício em Bebedouro, onde falou para uma multidão. Fez um grande discurso e consolidou sua vi-

tória na Praça Deodoro. Foi durante sua fala que aconteceu um dos mais emblemáticos episódios da história do folclore político brasileiro. O próprio Sandoval reproduziu sua fala durante entrevista para a extinta revista Última Palavra, em sua edição de 8 de abril de 1988. “Maceioenses, viemos de Bebedouro. A massa que se comprimia na Praça Lucena Maranhão era incontável e fez várias manifestações de apoio e solidariedade a este candidato. Não resta mais dúvida de que seremos vitoriosos, mas falta o teste final. Estamos vivendo um regime democrático e à nossa frente se encontra a figura do fundador da República, marechal Deodoro da Fonseca...” Invocando a “participação” do Marechal Deodoro, Sandoval

deixou a multidão atônita e curiosa ao indagar: “Deodoro, estás ou não ao nosso lado nessa campanha democrática?” Decorridos longos segundos, Cajú desfechou: “Quem cala consente! Agora, só perderemos essa eleição se o cupim roer as urnas!”. O público explodiu numa ruidosa gargalhada seguida de estrondosa salva de palmas. Na segunda-feira, dia 3 de outubro de 1960, os alagoanos foram às urnas. Além dos cargos de prefeito, também seriam escolhidos governadores e o presidente da República. O pleito ocorreu sem maiores incidentes. À noite, as urnas foram recolhidas para o Clube Fênix Alagoana, onde seriam abertas na manhã do dia seguinte.


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Sob os olhares de candidatos e fiscais dos partidos, o juiz eleitoral abriu a primeira urna, na qual Sandoval possuía considerável vantagem sobre seus três opositores. A segunda urna mostrou resultado parecido. Seria assim até o final da apuração. Sandoval Cajú venceria em todas as 222 urnas da capital, elegendo-se prefeito de Maceió. Na mesma eleição, o major Luiz Cavalcante conquistou o governo de Alagoas e o Brasil elegeu Jânio Quadros para a presidência. A legislação estabelecia à época a posse dos eleitos para o dia 31 de janeiro de 1961. A Assembleia Legislativa havia marcado a posse do governador Luiz Cavalcante para as 16 horas daquele dia. A Câmara de Ve-

readores fez o mesmo para proceder a diplomação de Sandoval Cajú. Para não haver choque entre as duas solenidades, Sandoval decidiu adiar em 24 horas sua posse. Então, na tarde de quinta-feira, 01 de fevereiro de 1961, Sandoval Cajú assumiu a Prefeitura de Maceió, em solenidade na Câmara Municipal, situada na Praça Deodoro. A edição do Jornal de Alagoas, do dia 2 janeiro, traz matéria sobre a posse. Sandoval Cajú chegou ao local em um carro aberto, por volta das 16h30, e foi recebido com flores. Estava acompanhado da esposa, Waldete Loyola, e do vice-prefeito eleito Vinícius Cansanção. O pai de Sandoval, José Cajú, que havia sido prefeito de Bonito de Santa Fé, na Paraíba, terra natal do

locutor, além de irmãos também prestigiaram a solenidade. Uma multidão tomava conta da praça desde o início da tarde. Em seu discurso de posse, Sandoval Cajú prometeu fazer obras de calçamento nas ruas e saneamento nos bairros para “retirar Maceió da lama em que se afoga nos invernos”, acabar com os mosquitos, cuidar da saúde do município voltando as atenções para o Hospital Pronto-Socorro, distribuir água e luz para os bairros mais pobres, além de higienizar, arborizar e pavimentar a cidade – que Cajú chamou de metrópole. Encerrando o discurso, o prefeito Sandoval Cajú convocou os vereadores para fiscalizar o governo e “garantir a sinceridade das suas intenções” conforme matéria do Jornal de Alagoas.


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A administração REPORTAGEM

de Sandoval Cajú

Quando assumiu a Prefeitura de Maceió, no dia 2 de fevereiro de 1961, Sandoval Cajú tomou um susto. Ao tomar pé da grave situação financeira em que estava afundado o município, pensou até em renunciar. Em entrevista ao repórter José Otá-

responsabilidade do município, devia quase 20 milhões de cruzeiros a fornecedores, além de não dispor de medicamentos e nem de alimentos para os pacientes e acompanhantes. A cidade estava suja e abandonada. “Não havia um só banco nas praças.

Não havia um só banco nas praças, tudo destruído pela incúria das administrações anteriores Sandoval Cajú

vio da Rocha, do Última Palavra, em 1988, Sandoval contou que a receita da Prefeitura de Maceió era de 9 milhões de cruzeiros à época e que a folha de 1.259 funcionários do executivo municipal consumia nada menos que 13 milhões. A dívida com o comércio e a indústria era de 47 milhões de cruzeiros. O Hospital de Pronto Socorro, de

Tudo destruído pela incúria das administrações anteriores”, disse o ex-prefeito ao Última Palavra. A Prefeitura de Maceió não tinha dinheiro, mas Sandoval Cajú descobriu que dispunha de mão de obra farta. Em seu primeiro dia de governo, olhou da janela do gabinete e contou no pátio pouco mais de 400 trabalhadores da Prefeitura de Maceió,

todos de braços cruzados. Teve uma ideia. Chamou um assessor e mandou procurar as casas de ferragens, no Centro de Maceió. Era preciso retomar o crédito e reconquistar a confiança dos comerciantes. Menos de uma hora depois, o assessor retornou e trouxe a boa notícia. Os comerciantes estavam dispostos a ajudar o novo prefeito. “Esse prefeito que está aí pode limpar a minha prateleira”, teria dito o dono de uma conhecida loja de ferramentas da época. Além dele, outros donos de loja teriam se colocado “à disposição” de Sandoval Cajú, disponibilizando crédito para o município. “Aí peguei um bloco e escrevi: 150 carros de mão, 300 picaretas, 300 pás, 300 enxadas, uma dúzia de machados, foices e vários outros equipamentos. Isso era umas 9h/10h do dia. Quando foi às três da tarde, um caminhão alugado numa praça antiga entra na Rua do Imperador, onde ficava a Prefeitura, com aquela carga enorme, não muito bem amarrada, e balançando muito”, lembrou Sandoval Cajú em entrevista a Edécio Lopes.


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Sandoval Cajú recebendo flores de eleitores durante solenidade de inauguração de obra


REPORTAGEM

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Sandoval Cajú (ao centro) e o jovem Divaldo Suruagy (à direita) durante inauguração de uma praça em Maceió

No dia seguinte, o prefeito eleito alugou mais três caminhões, colocou os trabalhadores em cima e partiu para dar início à revolução que faria na capital alagoana. Chegava de surpresa nos lugares com seu exército de trabalhadores. Promovia a limpeza do local e investia nos serviços básicos de infraestrutura. Ele mesmo comandava a tropa de trabalhadores antes ociosa. Orientava e dava ordens. Sempre muito simpático, educadíssimo, segundo depoimento de amigos, conversava com as donas de casa e os chefes de família. Ouvia deles as reivindicações e elencava as ações mais urgentes. Fazia questão de cumprir as promessas feitas durante campanha. Demonstrava atenção especial aos bairros mais humildes. Sua vitória nas urnas foi garantida pela expressiva votação conquistada em locais como Ponta Grossa, Vergel, Pontal da Barra e Fernão Velho. Sandoval Cajú procurou retribuir a grande votação com trabalho. Os moradores do distante lugarejo conhecido à época como Carrapato tomaram um susto quando o

prefeito Sandoval Cajú e seu exército de trabalhadores chegaram de surpresa ao local, no início da manhã. Localizado entre o distrito de Fernão Velho e o município de Satuba, a pequena comunidade surgida às margens do rio Carrapatinho sofria com o descaso do poder público. Não possuía creche, escola primária e posto de saúde. Foram dois meses de trabalho intenso. Ao final do mutirão foi construído um grupo escolar, um posto médico, além de uma praça. Sandoval Cajú também pavimentou ruas, instalou postes de iluminação elétrica e construiu uma ponte de concreto sobre o rio Carrapatinho, o que garantiu o acesso de veículos ao povoado. Após a conclusão das obras, Cajú rebatizou o local, que passou a se chamar Rio Novo. Sandoval tinha preocupação especial com o espaço físico e com o visual da cidade. Durante a campanha, prometera devolver o sorriso à capital alagoana. Para ele, os espaços públicos eram fundamentais para a convivência das pessoas, principalmente crianças e idosos. Maceió era


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REPORTAGEM

AS PRAÇAS E A POLÊMICA DO “S” conhecida como a Cidade Sorriso, mas estava, de fato, abandonada. Em depoimento dado durante entrevista Sandoval Cajú, o radialista Edécio Lopes retrata a situação de Maceió, no final dos anos 1950, quando ele chegou à capital para trabalhar na Rádio Progresso. “Eu achei

das e abandonadas. Para além do “S” do Sandoval, a marca registrada de suas obras, as novas praças públicas significaram verdadeira revolução estética e arquitetônica na cidade. Por trás desta verdadeira proposta de modernização arquitetônica e paisagística de Maceió estavam os

Em três anos de mandato, construiu 36 praças na capital, além de fazer a reforma de outras 22 que já existiam Maceió uma cidade horrível, uma cidade suja e feia. Era uma cidade triste, um paradoxo com a alegria do povo. Sou testemunha ocular dessa história”, diz Edécio. Aos poucos, Sandoval Cajú foi transformando essa realidade. Em três anos de mandato, construiu nada menos que 36 praças na capital, além de fazer a reforma de outras 22 que já existiam, mas estavam depreda-

arquitetos Lauro Menezes e José da Costa Passos Filho. Ambos faziam parte da equipe da antiga Superintendência Municipal de Obras e Viação (Sumov). Menezes e Passos eram os responsáveis não só por desenhar e projetar as novas praças, como imprimir o novo estilo aos espaços públicos que seriam reformados pelo prefeito Sandoval Cajú. Em seu trabalho Permanências

Modernistas na Praça Sinimbú – Maceió, a arquiteta e urbanista Josemary Ferrare cita a Praça Sinimbú, uma das que foram reformadas, como símbolo da modernização dos espaços públicos a partir de 1961. Segundo ela, detalhes como “uma ousada disposição de passeios e canteiros sinuosos”, bancos circulares com e sem encosto, fabricados em marmorite, mesmo material usado na fabricação dos brinquedos fixos e painéis de azulejos compunham o novo visual das praças . A letra “S” de sorriso e não de Sandoval, como ele fazia questão de explicar - embora políticos de oposição e até correligionários de Cajú afirmassem que o “S” se tratava de autopromoção do prefeito -, adornava os brinquedos e também estava incrustado no marmorite dos encostos dos bancos ou destacado em relevo nos canteiros de alvenaria. A estátua do menino mijão, o Mijãozinho, que “fazia xixi” no lago da fonte construída na praça, era atração. Todos paravam para admirar a escultura. A revolução estética chegaria também a outras praças que se en-


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Ricardo Lêdo

Praça Sinimbú, no Centro de Maceió, foi reformada durante a gestão de Cajú: local é um dos símbolos da modernização dos espaços públicos dos anos 1960. O “S” adornava os brinquedos e estava presente ainda nos bancos e canteiros do local


REPORTAGEM

Michel Rios

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Praça Santa Tereza, em Ponta Grossa, construída durante a gestão de Cajú

contravam abandonadas e que logo se transformariam em concorridos pontos de encontro da sociedade maceioense. Localizada no bairro do Farol, região onde se concentravam as residências das principais famílias ricas da capital, no início dos anos 1960, a Praça do Centenário era um matagal que servia de esconderijo de gatunos e ladrões de galinha que atacavam os sítios da região. O local recebeu o nome de Parque do Centenário em 1939, quando Maceió completava 100 anos na condição de capital de Alagoas. Antes disso, já havia sido chamada também de Praça Getúlio Vargas e Praça General Góis Monteiro, com direito a imensa

estátua deste último no centro da praça. No segundo ano de sua administração Sandoval Cajú promoveu a reforma da Praça do Centenário. Repaginada totalmente, o antigo espaço abandonado e depredado ganhou 13 jardins, passeios de mosaico, iluminação moderna embutida, oito jarros luminosos, 300 metros de bancos de marmorite, além de quatro poltronas do mesmo material, arborização, cinco estátuas metálicas e playground com escorregadeiras, balanços, gangorras e outros brinquedos. Além do equipamento citado acima, no novo espaço público foi instalada uma fonte sonoro luminosa batizada com o nome de Jayme de Al-

tavila. No convite de inauguração, a Prefeitura de Maceió afirmava tratar-se da mais potente fonte do País. No centro do espelho d’água, a equipe de desenhistas da antiga Sumov ergueu um monumento de concreto armado, revestido de azulejos coloridos, representando o mapa de Alagoas. Em uma extremidade do mapa, uma estátua de um índio caeté. Na outra, a de um índio tabajara, ambos representando Alagoas e Paraíba, terra natal do prefeito. Tudo estava dentro de uma área de 15.242 metros quadrados. Era o maior logradouro público do Nordeste à época. A inauguração aconteceu no dia 7 de setembro de 1963, data do 141º aniversário da Independência do Brasil.


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Praça do Centenário, no bairro do Farol, reformada no segundo ano da administração de Cajú: maior espaço público do nordeste à época, ganhou 13 jardins, passeios de mosaico, iluminação embutida, 8 jarros luminosos, bancos de marmorite e playground

Um público de mais de 12 mil pessoas prestigiou o evento, que aconteceu à noite. Sandoval Cajú estava no auge de sua popularidade. Durante todo o dia, a bordo do seu Simca Chambord, veículo oficial, ele e sua comitiva visitaram obras e estiveram em outras praças recém-inauguradas. Antes da inauguração, Sandoval foi pessoalmente às praças Guedes de Miranda, Moleque Namorador, Santa Tereza e Onze Nacional. Visitou as ruas Paissandu, Marquês de Pombal e a Avenida Santo Antônio, todas no bairro de Ponta Grossa. Às 16h, na Praça do Centenário, a banda de música do professor Francisco Pedrosa começou a tocar para animar o público que já começava

a chegar. Naquela noite, o orador oficial da festa foi o jornalista, poeta e ex-prefeito de Maceió, Cipriano Jucá. Sandoval Cajú só chegaria ao local às 20h. Entusiasmado, diante da fonte luminosa e do mapa ladeado pelos representantes das duas etnias nordestinas, ao final do discurso, declamou: “É Tabajara é Caeté/Caeté é Tabajara/São crentes da mesma fé/Ninguém jamais os separa/Esse povo é caeté/E o prefeito é tabajara”. Aplausos da multidão. O prefeito locutor tinha um carinho especial pelo bairro de Ponta Grossa, seu principal reduto eleitoral, beneficiado por 12 das 36 praças construídas em pouco mais de três anos de sua gestão. Uma das mais fa-

mosas e emblemáticas é a Praça Moleque Namorador, no bairro de Ponta Grossa. Foi o próprio Sandoval quem batizou a nova praça com o apelido do jornaleiro famoso nas décadas de 1930 e 1940, cujo nome de batismo era Armando Veríssimo Ribeiro. Exímio passista, vencia fácil os concursos de frevo durante o carnaval. A Praça Moleque Namorador se transformaria no principal quartel general do frevo na capital alagoana. Enquanto a elite maceioense se divertia em clubes como a Fênix, o povão pulava ao som de bandas de frevo do Recife. Alternando benfeitorias entre bairros da periferia e das chamadas áreas nobres, Sandoval Cajú logo conquistaria a simpatia das classes


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Na praça Moleque Namorador, no bairro da Ponta Grossa, a escultura sobre o “S“ faz referência ao passista que brilhava nos antigos carnavais de Maceió

mais abastadas de Maceió. Além da Praça do Centenário, a Prefeitura de Maceió também promoveu a reforma do Parque Gonçalves Lêdo, localizado numa das mais belas regiões da parte alta da cidade. À sombra de seus eucaliptos centenários, corriam e brincavam jovens que se destacariam futuramente na cidade, a exemplo de Guilherme Palmeira, Humberto Gomes de Barros, Cláudio Fernando Oiticica Lima e Carlos Mendonça. Recém formado em Medicina no início dos anos 1960, o jovem pediatra Milton Hênio assistia àquela revolução nos espaços públicos da cidade. O avô dele, professor Luiz Carlos de Souza Neto, foi o primeiro habitante do entorno do Parque Gon-

çalves Lêdo, onde havia apenas uma vacaria e um caminho estreito que levava até a Catedral de Maceió. “O parque era uma coisa linda, mas estava abandonado. Aí o Sandoval disse: ‘Eu vou reformar’, e fez aqui um trabalho maravilhoso”, lembra o médico Milton Hênio. Para ele, o prefeito Sandoval Cajú sabia da importância dos espaços públicos para a população. “O Sandoval Cajú tinha consciência de que a praça era do povo e que as pessoas se encontravam nas praças. Era nas praças que, ao entardecer, os idosos se encontravam, com seu chapéu na cabeça, com seu netinho, seu cachorrinho. Ele sabia que era o ponto de encontro das famílias”, diz Milton Hênio.

Segundo ele, Sandoval trabalhava para contribuir para a felicidade da sociedade maceioense, independente de classe social. “Através das praças, o prefeito Sandoval Cajú proporcionou o bem estar das pessoas. Ele fazia isso sem o conhecimento científico, mas hoje está provado, cientificamente, que nosso organismo só trabalha se estivermos felizes”, diz Milton Hênio. Ao todo, foram 36 novas praças construídas e 22 recuperadas e reformadas, num trabalho que mudou completamente o visual da cidade. Ao retornar de uma temporada no Recife, o radialista Edécio Lopes ficou surpreso com o novo aspecto da cidade. Ainda durante a entrevista, com


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Abandonado no final dos anos 1950, o Parque Gonçalves Lêdo, no bairro do Farol, foi reformado e reinaugurado por Sandoval Cajú

Sandoval, ele afirma: “Quando voltei do Recife, encontrei uma Maceió diferente. Praças cheias de azulejos coloridos, bancos em todas as praças. Eu via ali na Pajuçara, na praça do Rex, senhoras com regadores, mangueiras, cuidando das praças. Eu notei que havia um novo espírito dentro da cidade de Maceió, uma participação. A cidade estava bonita. O Sandoval fez um belo trabalho em termos de urbanização, em termos de melhoria paisagística da cidade de Maceió”, disse Edécio. Além do trabalho de urbanização, a administração de Cajú equipou o Hospital de Pronto Socorro com ambulâncias, equipamentos cirúrgicos e medicamentos. Adquiriu duas frotas de caminhões, além de ferramentas

para obras de construção e reformas de prédios públicos nos bairros e distritos de Maceió. Sandoval Cajú ainda construiu uma maternidade no bairro do Jacintinho, além da nova sede da Prefeitura, na Rua Pedro Monteiro. Durante sua gestão, de acordo com informações veiculadas na imprensa à época, não ocorreu nenhum aumento de impostos ou taxas municipais. Saldou todas as dívidas contraídas e os débitos herdados de gestões anteriores. Com um índice de aprovação dos mais altos já atingidos por um prefeito da capital, a figura de Sandoval Cajú ganhou projeção no interior de Alagoas. Prefeitos de cidades importantes faziam questão de ir visitá-lo na Prefeitura quando viajavam a

Maceió. Sua candidatura ao governo do estado, nas eleições de 1965, era dada como certa. Muitos já apostavam na sua vitória. Eleito para um período de cinco anos à frente da Prefeitura, Sandoval Cajú jamais imaginou que não cumpriria todo o seu mandato. Durante o terceiro ano de sua gestão foi “abatido em pleno voo” pelo Golpe Militar de 1964, que tinha como representante principal em Alagoas o governador major Luis Cavalcante, principal adversário político de Sandoval e responsável por articular o sucesso do golpe em terras caetés. Embora jamais tenha sido chamado a prestar qualquer depoimento ou tenha tomado conhecimento de qualquer documento oficial, Cajú teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos.


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O Golpe Militar de 1964

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Cassação e queda

Em frente à sede da Prefeitura de Maceió, na Rua Pedro Monteiro, o delegado Albérico Barros, o Barrinhos, comanda uma escolta de 12 policiais armados de metralhadoras e aguarda impaciente a saída de Sandoval Cajú. Os relógios marcavam 15h daquele

Cavalcante. No xadrez político da sucessão para o governo de Alagoas, Sandoval Cajú era a “pedra no sapato” de Luis Cavalcante. Inconformado, o “Major” assistia do Palácio dos Martírios a ascensão do prefeito e o crescimento da candidatura de San-

Às escondidas, numa sessão secreta, vereadores votaram o afastamento do prefeito dia 28 de abril de 1964. A manhã havia sido tensa. Às escondidas, numa sessão secreta, vereadores votaram o afastamento do prefeito de Maceió. Era o último ato de uma trama posta em prática tão logo os militares tomaram o poder, no dia 1º de abril de 1964. Teria sido orquestrada pelo governador de Alagoas, major Luis

doval. Uma séria ameaça a suas pretensões políticas. De olho no pleito, o major Luis Cavalcante não admitiria outro sucessor que não fosse o nome saído do bolso de seu paletó. Sandoval Cajú não assumia a candidatura ao governo, mas, em seu terceiro ano de mandato, já estava em plena campanha para 1965. Prova disso é um “santinho” em formato de

flâmula, uma relíquia do acervo pessoal do presidente da Academia Maceioense de Letras e amigo pessoal de Sandoval, Jucá Santos. No alto do panfleto, o desenho de um cajú vermelho com talos e folhas pretas. No lugar da castanha, o “S” de “Sorriso”. Abaixo está escrito: “O Povo também tem vez – Esta é a vez do povo – Para o governo Sandoval Cajú – 1965”. Ao entregar o “santinho” a Jucá Santos, no início de 1963, Sandoval pediu sigilo ao amigo. “Nós já estávamos em campanha naquele momento”, revela o secretário de gabinete de Sandoval Cajú à época, Pedro Onofre. “Lembro que a Superintendência Municipal de Obras e Viação (Sumov) estava disponibilizando postes de iluminação para prefeituras do interior de Alagoas. Já era Sandoval se articulando com os prefeitos”, diz Onofre. De acordo com ele, Sandoval Cajú havia criado um espaço dentro da prefeitura apenas para receber os prefeitos e políticos do interior que


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Sandoval Cajú (à direita) e o governador Luís Cavalcante, durante solenidade: o ex-prefeito atribuía a Cavalcante a autoria do processo que cassou seu mandato


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o procuravam na capital. “Quando os prefeitos chegavam do interior nem procuravam o governador. Passavam direto e se dirigiam à Prefeitura para procurar o Sandoval. O governador Luís Cavalcante ficava uma fera com isso”, lembra Pedro Onofre. A gota d’água para o governador teria sido a distribuição, na capital e no interior, de uma cartilha para alfabetização de jovens e adultos, chamada Força Total. Na contracapa da cartilha, Sandoval mandou imprimir o nome dele. Na autoridade de Comandante do Golpe Militar em Alagoas, o major Luis Cavalcante teria aproveitado o momento para se livrar do desafeto. Como não poderia enquadrar Sandoval Cajú por subversão, pois Sandoval não tinha relação com a esquerda em Alagoas, o governador teria iniciado uma verdadeira campanha para “provar” que o prefeito de Maceió era corrupto e havia enriquecido às custas do dinheiro público. Nos primeiros 28 dias do Golpe Militar, a vida de Sandoval Cajú foi “vasculhada” por homens da Polícia Civil alagoana. O próprio delega-

do Albérico Barros, o temido Barrinhos, sob ordens de Luis Cavalcante, chegou a viajar para a Paraíba para investigar familiares de Sandoval Cajú. Visitou várias cidades em busca de bens que estivessem em nome do prefeito de Maceió ou de parentes dele. As salas onde funcionava o escritório de advocacia de Sandoval Cajú, no Edifício Brêda, foram arrombadas por policiais. Na busca por objetos de valor que indicassem o enriquecimento ilícito do prefeito, eles “confiscaram” um tapete, sob a alegação de que o objeto seria um tapete persa e teria custado uma fortuna. A origem do dinheiro usado para a compra das duas pequenas salas também foi alvo de investigação. Nada foi encontrado que comprovasse qualquer improbidade cometida por Sandoval Cajú. Mesmo assim, coagidos pelo governador Luis Cavalcante, sob ameaças de também serem cassados, os vereadores votaram pelo afastamento. Naquela tarde, Sandoval Cajú deixaria a sede da prefeitura por volta das 16h. Sairia tranquilamente e não

seria abordado por policiais. Instantes depois, o delegado Barrinhos invadiu a Prefeitura e foi direto à tesouraria, onde vasculhou documentos à cata de irregularidades. Em vão, pois as acusações de que havia sido alvo nunca foram comprovadas. Foi o comandante do Exército em Alagoas à época, coronel Carlindo Simão, que orientou Sandoval Cajú a buscar um advogado e entrar na Justiça para reaver o cargo de prefeito. Mas todos os advogados de Maceió procurados por ele se recusaram a pegar a causa temendo represálias, segundo ele mesmo conta em seu livro de memórias. Formado em Direito há 20 e ainda não inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Cajú não podia fazer a sua própria defesa e foi obrigado a desistir. O golpe de misericórdia estaria por vir. Para acabar com qualquer pretensão de Sandoval Cajú retomar o cargo, o major Luís Cavalcante enviou dois de seus secretários com a missão de convencer os militares a incluir na lista de cassados o nome do prefeito “corrupto” de Maceió. E assim foi feito. Às 23h45 do dia


15 de julho de 1964, nos 15 minutos finais de vigência do primeiro Ato Institucional dos militares, o nome do prefeito Sandoval Cajú foi incluído na lista de cassados pelo AI-1. Foi o último nome da segunda e última lista dos punidos pelo AI-1. Além de perder o cargo de prefeito, Sandoval teve os direitos políticos suspensos por dez anos. Nem teve tempo de inaugurar obras que estavam quase concluídas, como a nova sede da prefeitura e os trabalhos de infraestrutura, além do posto de saúde em Rio Novo, antigo Carrapato. Em seu lugar, assumiu o vice-prefeito Vinícius Cansanção. Na era das cassações, iniciada tão logo o presidente João Goulart foi deposto, os militares estavam dispostos a varrer do cenário político o populismo subversivo. Para eles, era necessário fazer uma limpeza em todos os setores sociais importantes. As punições viriam em forma de cassações, suspensões de direitos políticos e investigações por meio de IPMs (Inquéritos Policiais Militares) e CGIs (Comissões Gerais de Inquéritos). A lista dos cassados pelo AI -1, na “Santinho” produzido por Sandoval Cajú em 1963: ex-prefeito planejava eleger-se governador e preparava a campanha


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Sandoval Cajú (à direita) e o sogro, José de Oliveira Loyola, que costumava acompanhar o genro em quase todas as solenidades de inauguração de obras

qual destoava o nome de Sandoval Cajú, era encabeçada pelos esquerdistas Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes, Miguel Arraes, Francisco Julião, além dos ícones do antigo populismo, Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek. Incluía também lideranças de setores nacionalistas, como o governador de Sergipe, Seixas Dória e o ministro Abelardo Jurema. Assim como nas principais cidades brasileiras e nas capitais, em Maceió os militares promoveram prisões, cassações, empastelamento dos jornais do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Segundo o historia-

dor alagoano Geraldo de Majella, o jornal semanário A Voz do Povo, de propriedade do PCB, foi destruído pelos delegados Rubens Quintela e Albérico Barros, o Barrinhos, obedecendo a ordens do governador Luis Cavalcante e do comando civil-militar golpista, do qual o governador era o comandante. “Funcionários públicos foram demitidos sumariamente, sindicalistas foram presos, demitidos dos empregos e processados. Entidades sindicais, como sindicatos, federações e confederações sofreram com intervenções do Ministério do Tra-

balho. A Fetag (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Alagoas), que havia sido criada poucos meses antes do golpe, teve a sua diretoria cassada e se viu com interventores postos pelos militares em comum acordo com o patronato”, conta Majella. Ainda de acordo com ele, a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) foi posta na ilegalidade e seus dirigentes foram presos e processados. Roland Bittar Benamor, Alan Brandão, Rubens Colaço, Mário Correia da Silva, Nilson Miranda e outros passaram por humilhações. “Inte-


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lectuais como Dirceu Lindoso, José Moura Rocha, Jayme Miranda, Luiz Nogueira Barros, Rubem Figueiredo Ângelo, ou empresários rurais como Ernani Maia Lopes, Antonio Moreira, e ainda comerciantes como Mozart Damasceno foram presos ou detidos”, diz o historiador. Logo após a publicação oficial da lista de cassados pelos militares, aconselhado pelo coronel Carlindo Simão, que temia pela integridade física do prefeito afastado, Sandoval Cajú teria viajado para o Rio de Janeiro para um breve exílio. Há quem diga também que Cajú não teria saído de Maceió. Nesse período, enviou algumas correspondências ao amigo Jucá Santos. Numa delas, uma carta datilografada, datada do dia 22 de setem-

bro de 1964, Sandoval não esconde a mágoa: “...Como estaria o amigo atravessando a estrada da vida no momento, diante dessa revolução michada (sic) que veio para o desconto dos pecados de muitos inocentes... e favorecer os inconfessáveis anseios de meia dúzia de cafajestes? (...) Quando as lufadas violentas do vendaval da política sórdida da Província passarem, estaremos novamente a falar de poesia, como nos idos tempos...”, escreveu Cajú. Sandoval Cajú só voltaria a disputar uma eleição em 1982, quase 20 anos depois da suspensão dos direitos políticos. Foi a primeira eleição direta para governador depois de 1965. Lançou seu nome para deputado federal. Apesar da expressiva votação, mais de 20 mil votos,

foi derrotado. Naquele ano, Divaldo Suruagy foi eleito governador de Alagoas. Três anos depois, em 1985, Sandoval Cajú concorreu novamente, desta vez à Prefeitura de Maceió. Mas os tempos eram outros e ele voltou a amargar nova derrota. Seria a última aparição de Sandoval Cajú em campanhas políticas. Esquecido, Sandoval viveu os últimos anos de sua vida no ostracismo. Carregava mágoa profunda e nunca conseguiu digerir a injustiça de que foi vítima. Tabagista crônico durante praticamente toda vida, morreu no dia 23 de maio de 1994, aos 70 anos, vítima de um câncer no pulmão. Seu corpo foi enterrado no cemitério Parque das Flores, no Tabuleiro, em Maceió.

Encontro entre o embaixador americano à época (à esq.) e o prefeito Sandoval Cajú (ao centro). A visita, ocorrida em Maceió, pouco antes do Golpe Militar de 1964, teve a presença também do coronel Bendochi Pereira (à dir.), amigo de Sandoval


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O “versejador patológico” Na porta do Café Ponto Central, na Rua do Comércio, ponto de encontro histórico de intelectuais, políticos e desocupados da classe média maceioense, Sandoval Cajú cutucou Jucá Santos e apontou para uma senhora que passava: “Ela é co-

e retomaram o papo que havia começado na madrugada anterior, na Praça Deodoro. Jucá Santos não lembra o assunto específico de que trataram naquele dia, mas o tema com certeza era e literatura, pela qual os dois nutriam

A relação de amizade entre Jucá Santos e Sandoval Cajú revela um lado quase desconhecido do paraibano: o Cajú literato munista, Jucá! É comunista!”, dizia, com expressão grave. “Que história é essa Sandoval? Você nem conhece a mulher...”, retrucou Jucá. “Veja, Jucá, tenho certeza que ela é comunista. É tão feia que parece ter sido feita à foice e martelo”. Jucá explodiu numa gargalhada. Só parou de rir quando os dois entraram, pediram um café

verdadeira paixão. Compositor inspirado, um dos pioneiros do rádio alagoano, Jucá Santos já era admirador do talento radiofônico de Cajú. Mas foi no gosto pelos versos e no prazer que sentiam em construir sonetos que se fundou a amizade dos dois. Nas madrugadas da Praça Deodoro, Cajú e Jucá declamavam Augusto

dos Anjos, um dos poetas preferidos de Sandoval, que sabia de cor vários poemas do autor de Eu. Discutiam até altas horas na busca da palavra que daria métrica e rima perfeita ao poema feito a quatro mãos. A relação de amizade entre Jucá Santos e Sandoval Cajú revela um lado quase desconhecido do paraibano: o Cajú literato, devorador dos clássicos, leitor de Shakespeare, Euclídes da Cunha e outros autores. Tomou gosto pelos livros durante suas incursões autodidatas no mundo da literatura, depois que concluiu o primário e parou de estudar por pura falta de um curso ginasial em Bonito de Santa Fé. Sandoval Cajú era capaz de citar trechos longos de obrase e gostava de demonstrar em público seus conhecimentos literários. Em entrevista ao radialista Edécio Lopes, em 1985, exagerou ao citar o nome, a profissão e a data de nascimento do pai de Shakespeare. “Antes de vir para Alagoas, o San-


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Antes de vir para Alagoas, o Sandoval Cajú já mantinha contato com poetas paraibanos. Um deles era o Eurícledes Formiga Jucá Santos Escritor


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doval Cajú já mantinha contato com poetas paraibanos. Um deles era o Eurícledes Formiga”, lembra o escritor Jucá Santos, 77 anos. Nascido em São João do Rio do Peixe, no interior da Paraíba, Formiga trabalhou em jornais de João Pessoa e chegou a ser redator da Folha de S. Paulo. Era conhecido pela facilidade de improvisar, por isso é apontado também como poeta repentista. Andou em Maceió na década de 1950. Lançou vários livros de poesia. No fim dos anos 1960, Formiga conheceu o médium Chico Xavier, de quem se tornou amigo. Converteu-se ao espiritismo e psicografou vários livros. Outra referência literária de Sandoval Cajú é o poeta alagoano Geraldino Brasil, de quem se aproximou poucos meses depois de chegar a Maceió. Os dois se conheceram na Praça Deodoro. Brasil acabara de fixar residência na capital. Viera com a família de Atalaia, onde nascera e

Capas dos livros Poesia Despida e Guanabara, de Sandoval Cajú fora batizado com o nome de Geraldo Lopes Ferreira. Aos 12 anos, Sandoval lia Olavo Bilac. Aos 17, compôs a primeira quadrinha, depois que a namoradinha matuta, após férias escolares, partiu no trem de volta para a casa dos pais:

“Carminha seguiu no trem/das duas horas da tarde:/Meu coração foi também/chorando como um covarde”. Envaideceu-se com o que achou uma obra- prima e teve a certeza de que era um exímio trovador. No encontro com Geraldino Bra-


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sil, Sandoval esperou o momento certo para apresentar, orgulhoso, os quatro versos. Encheu o peito de ar e mandou: “Carminha seguiu no trem...”. Rapaz de fino trato, Geraldino manteve-se como estava. Não disse uma só palavra, não esboçou qualquer reação, nem positiva, nem negativa. Na hora, Cajú não ligou para a reação de Brasil. Mas depois que conheceu a produção de poemas do poeta de Atalaia, Sandoval se preocupou. Geraldino era, de fato, um grande poeta. Aquele silêncio certamente era de reprovação. Mesmo assim, Sandoval Cajú lançou três livros de poesia, Poesia Despida, Sonhos e Pesadelos e Guanabara. Mas depois de alguns anos, humildemente, reconheceu que “jamais haveria de suplantar um reles versejador patológico”. O amor pela poesia e a militância literária de Sandoval Cajú em

Maceió não garantiram a fama que o paraibano gostaria de alcançar nessa seara, mas fez com que seu nome ficasse marcado na história das letras em Alagoas. Três anos depois de conhecer Jucá Santos, ao lado deste e de outros intelectuais, foi responsável pela fundação da Academia Maceioense de Letras, em agosto de 1955, presidida até hoje por Jucá Santos. Jucá Santos e Sandoval Cajú faziam parte do Centro Cultural Emídio de Maia, fundado em 1939. “Era uma espécie de academia de poetas e escritores”, explica Jucá. Segundo ele, Emídio de Maia era um jovem deputado federal, filho de usineiro, que morreu muito jovem. “Então, para homenageá-lo, o Oséas Cardoso, que era poeta e na época ainda não era deputado, batizou o centro cultural com o nome dele. Eu entrei em 1950. E levei o Sandoval para lá em 1952”, lembra Jucá Santos.

Alguns anos antes, o professor, poeta e arqueólogo Valdick Pereira tentou se desvincular do Centro Cultural Emídio de Maia e criar outra agremiação cultural, mas foi impedido pela maioria que formava o centro. Só em 1955, com a participação de Sandoval Cajú, Jucá Santos, Pedro Onofre, Jesualdo Ribeiro e outros militantes literários, foi fundada a Academia Maceioense de Letras, assim como Valdick Pereira pensou em batizá-la. Sandoval Cajú é patrono de uma cadeira que, curiosamente, está vaga. Amigo leal, confidente e padrinho de casamento de Sandoval Cajú, Jucá Santos é dono de um pequeno “memorial” do ex-prefeito de Maceió. Assim como um fã de um artista famoso, ele coleciona, num caderno de capa dura, bilhetes, fotos, cartas, poemas, quadrinhas, recortes de jornal e outros “documentos” do amigo.


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PEQUENO MEMORIAL DE UM POETA São “raridades” para Jucá Santos. “Acho que os familiares do Sandoval nem sabem que essas coisas existem. Guardei durante todo esse tempo com muito carinho. Nós éramos muito amigos”, diz Jucá, mostrando os vários cartões de aniversário que recebia todo ano de Sandoval. “Ele nunca esqueceu o dia do meu aniversário. Quando estava viajando, mandava telegrama”, conta o poeta e presidente da Academia Maceioense de Letras. Entre os recortes colados nas páginas, uma revelação. Ao contrário do que muitos acreditam, a campanha para prefeito de Maceió, em 1960, não foi o primeiro pleito eleitoral de Sandoval Cajú em Alagoas. Duas “peças” de campanha mostram que o paraibano se candidatou a deputado estadual nas eleições de 1950 e de 1955. Nesta última, provavelmente criada

por ele, o panfleto fala de “3 fases na vida de um candidato: ontem: poeta, hoje: speaker; amanhã: deputado”, sonhava Sandoval. “Alagoano: se não tens compromisso com outro candidato, dá teu voto a Sandoval Ferreira Cajú”, pede ele em outro “santinho”. Enquanto folheia o caderno, Jucá parece reviver o tempo em que construía sonetos com Sandoval. Um dos quais ele sabe de cor: “Eu apertei sua mão macia/E dirigi-me ao barco soluçando/Só consegui dizer mesmo chorando/Adeus meu grande amor, adeus Maria...”, diz o primeiro verso de “Partida”, de autoria da dupla Cajú e Jucá. Num bilhete, Cajú solicita ao amigo uma alteração: “Jucá, veja se concerta [sic], no meu poema “Alagoas”, o verso que está com onze (11!) sílabas: “Nesse pedaço de solo brasileiro”. Mude para “Nesse canto do solo

brasileiro”. Não se vá esquecer de corrigir o verso em apreço, pois faço questão de metrificar rigorosamente os versos que escrevo”. Além da parceria poética, havia em comum nos dois as duas sílabas que formavam os nomes dos parceiros, tal qual dupla de coco de embolada. Cajú e Jucá também serviam de mote para um repente no pandeiro, de autoria de Miguel Oliveira, amigo em comum. “É preciso ser sagaz/ Fazer verso de repente/A um poeta competente/Conhecido nos anais/ Mas tudo isso se faz/Olhando assim para o leste/Jucá amarga por peste/ Cajú é doce demais”. Outro, identificado como Efigênio Moura, rebateu. Conheço muita madeira/Muitas de lei e valor/Provei inté do sabor/Duma tá de quixabeira/ Fruta boa da jaqueira/Com seus troncos colossais/No mato tem araçás/


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Pau ferro dá no agreste/Jucá amarga pru peste/Cajú é doce demais”. Durante a entrevista, Jucá muda a expressão quando vira a página e revê o recorte de jornal com a matéria do enterro de Sandoval Cajú. Na foto, o jornalista Zé Elias caminha de cabeça baixa, ao lado do caixão. Numa das alças está o filho Clemenceau. Jucá Santos contempla e lamenta. “Ele fumava demais, era uma coisa impressionante. Acendia um cigarro no outro. Brincava dizendo que não gastava fósforos”, diz, referindo-se ao câncer de pulmão que consumiu Sandoval Cajú. Entre os vários cartões e bilhetes de aniversário que enviou ao amigo Jucá Santos, alguns em verso, um foi incluído no primeiro livro de Sandoval Cajú, Poesia Despida. Chama-se “Soneto dos Parabéns”.

SONETO DOS PARABÉNS Este soneto vai prestar-me agora Um dos serviços importantes que Outro qualquer “script” nessa hora Jamais mo prestaria e bem se vê: É que ele vai por esse mundo em fora Dizer bem alto que surgiu porque Fora incumbido de abraçar sem mora O meu maior amigo que é você! Segue soneto célere ligeiro Desempenha o papel de mensageiro Nesse sublime e radioso dia... E, ao encontrá-lo, onde quer que esteja Dize ao Jucá que o seu amigo almeja Um 10 de JUNHO cheio de alegria!... Sandoval Cajú 10/06/1953


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Sandoval e o design da cidade Para além do vasto bigode penteado, da cara de mau e da piada na ponta da língua, principais características que compunham o personagem folclórico, foram poucos os que tiveram o prazer de desfrutar de momentos ao lado do homem Sandoval Cajú, o Cajúíno, como permitia que alguns poucos o chamassem. Não havia como não se “apaixonar” por aquela figura excêntrica depois de ouvir uma de suas histórias “via poço”, como gostava de dizer, na roda seleta de amigos. “As histórias dele eram fantásticas. Ouvir Sandoval falar sobre Bonito de Santa Fé, a cidade onde ele nasceu, ouvir a descrição dele sobre fatos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, era como se você estivesse em um cinema assistindo a um documentário, um filme histórico ou mesmo de ficção”, lembra o ex-deputado federal Sérgio Moreira, 50 anos, admirador declarado do ex-prefeito. Ele tinha 18 anos quando conheceu Sandoval Cajú, durante campa-

nha política de 1978. “Eu me recordo do Sandoval Cajú apoiando o Bernardino Souto Maior, candidato a prefeito. Eu conheci o Sandoval e o senso de humor dele. Mesmo apoiando o Bernardino, numa madrugada em que estávamos na Macarronada do Edson, ele dizia que o Bernardino era o fardo mais pesado que tinha de carregar”, diverte-se Moreira. O personagem folclórico Sandoval Cajú, ele conhecera cinco anos antes, por meio do livro 350 Histórias do Folclore Político, de autoria do jornalista Sebastião Nery. “Eu tinha uns 13 pra 14 anos e ficava imaginando aquele personagem. Na época, foi o maior sucesso. O Sebastião Nery, inclusive, dedica o livro ao Sandoval Cajú”. Em entrevista à Graciliano, Sebastião Nery recorda a ocasião em que conheceu Sandoval Cajú: “Não lembro exatamente o dia em que o conheci. Sei que foi na Câmara, em Brasília, na década de 80, onde creio que ele chegou como suplente. E certamente fui apresentado pelo deputado Sérgio Moreira, meu colega

de legislatura e com quem sempre conversava muito sobre Alagoas. A impressão que Sandoval me deixou foi ótima: um homem alto, elegante, bem falante, cabelos cheios, esvoaçados, inteiramente brancos, já envelhecido, mas de uma conversa fascinante. E furioso com o Golpe Militar de 64, que lhe cassou os direitos políticos. Ele se queixava de que a cassação foi a única maneira de a UDN, que ele sempre derrotou, afastá-lo da política”. Antes de ser apresentado a Cajú, Nery já havia ouvido falar do ex-prefeito. “Amigos da Paraiba, na década de 50, me contavam historias de um radialista muito inteligente, que passou uma temporada no Rio e voltou para João Pessoa, para trabalhar na Rádio Tabajara da Paraíba. Usava um cartão de ‘locutor da Rádio Relógio do Distrito Federal’ (que não tinha locutor). Antes de fazer programas de auditório de sucesso, ficou muito conhecido quando morreu o ‘mártir da ciência’, um cientista médico, cujo nome esqueci, e


Estátua do Mijãozinho na fonte da praça Sinimbu e mapa de Alagoas na praça do Centenário: construídos com mosaico de azulejos, os dois monumentos expressam a relação entre Sandoval Cajú e a estética da cidade

que morreu no Rio por contágio de doentes de que tratava. O enterro foi em João Pessoa, com todas as pompas, Assis Chateaubriand promoveu nacionalmente nos Diários Associados. Havia tanta gente no cemitério que Sandoval foi sendo empurrado e caiu dentro da cova, gritando: ‘Furo internacional! A Rádio Tabajara falando de dentro do túmulo do mártir da ciência!’”. A convivência entre Sérgio Moreira e Sandoval Cajú só viria acontecer em 1986, um ano após Sandoval ser derrotado nas eleições para a Prefeitura de Maceió, na sua segunda tentativa de voltar à vida política. Três anos antes ele havia se candidatado a deputado federal. Apesar da votação expressiva, não foi eleito. “Segundo Sandoval, ele foi roubado, história que conta em seu livro”, diz. Na avaliação de Sérgio Moreira, talvez tenha sido o erro fatal de Cajú, na tentativa de voltar

a ser peça do xadrez político de Alagoas, após o período de ostracismo. “Se ele se candidatasse a deputado estadual, mesmo roubado, ele teria sido eleito. Se tivesse uma tribuna, talvez ele tivesse reconstruído sua carreira política que foi injustamente e,violentamente, ceifada”, afirma. Moreira não enxerga outra motivação, a não ser política, para justificar a cassação de Sandoval Cajú. “Sandoval não era um ideológico, nem um homem de esquerda. Era um homem popular e populista. Ele era antes de tudo um comunicador radicalmente inovador. Sandoval tão pouco era um corrupto. Naquela época se cassava por subversão ou corrupção. Ele foi pobre a vida toda”, diz. Secretário de Planejamento e do Orçamento de Alagoas por duas vezes, durante os governos de Fernando Collor e Tetonio Vilela Filho, ex-diretor-presidente do Sebrae Nacional, presidente da Companhia Hi-

drelétrica do São Francisco (Chesf) e da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), além de consultor do Banco Mundial, em Washington, Moreira faz questão de ressaltar a administração de Sandoval Cajú. “Os resultados de Sandoval à frente da Prefeitura de Maceió nos autorizam a dizer que ele foi um inovador. Ele fez a administração mais revolucionária que Maceió já tinha visto”, afirma Moreira. A transformação física da cidade, a construção e reforma de praças e espaços públicos, são para Sérgio Moreira, a característica mais forte da administração de Sandoval Cajú. “Sandoval era um esteta. Ele tinha um pendor pelo design da cidade. Ele pensou não apenas na organização, mas na estética da cidade. E é aí que está a sua marca, a marca do seu governo”.


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Na intimidade, REPORTAGEM

o ressentimento

Ideologias distintas, convicções políticas opostas, a ligação entre o jornalista Ricardo Mota e o ex-prefeito Sandoval Cajú foi processada no campo da simpatia que um despertou no outro. Os dois se conheceram na

lia muito Augusto dos Anjos, embora soubesse que ele próprio era um mau poeta”, lembra Ricardo Mota. A maioria das pessoas que se aproximavam de Cajú queria o contato com o personagem. Pediam para

A maioria das pessoas que se aproximavam de Cajú queria o contato com o personagem sala do jornalista Zé Elias, na Gazeta de Alagoas, e fizeram amizade. Ricardo transformou-se num confidente de Sandoval Cajú. Sandoval via no jornalista um amigo. Costumava almoçar na casa de Mota às sextas-feiras. No cardápio, não podia faltar a carne de sol que Sandoval degustava com prazer. Quando o ex-prefeito estava “pra cima”, o papo invariavelmente era sobre literatura. “Ele era um bom leitor. Leu os clássicos. Passávamos horas falando sobre Eça de Queiroz, por quem ele era apaixonado. Adorava poesia,

que repetisse histórias folclóricas ou contasse uma de suas piadas. Já na companhia de Mota, Sandoval ficava à vontade e assumia a condição humana. “Eu comecei a conversar com o Sandoval o que ele, normalmente, não conversava com outras pessoas. Eu me dava bem com o lado humano dele. Eu percebi então que o Sandoval era um sujeito extremamente amargurado, por mais que não parecesse. Sempre que falava da vida dele era com uma carga de tristeza muito grande”, diz Ricardo Mota.

Num trecho do livro O Conversador, revisado e prefaciado pelo próprio Mota, Sandoval fala da “... sopa amarga do arrependimento que venho tragando há mais de quatro décadas (...) é que, a despeito de alguns louros conquistados por cá, o profundo e ardente amor à terra mãe não me perdoa a ingratidão de tê-la desprezado, justamente quando menos razões me assistiam para permutar o aconchego da aldeia tabajara pela indiferença na taba caeté”, escreve Cajú, ao lamentar o dia em que decidiu, num impulso, comprar uma passagem de trem para Maceió, motivo pelo qual deixou de honrar o compromisso que havia firmado com o governador da Paraíba. Segundo Ricardo Mota, Cajú nunca digeriu a cassação e o fato de ter sido “abatido em pleno ar”, quando seria fatalmente o governador de Alagoas. Sofria com isso. Não perdoava os que, na sua visão, tramaram e destruíram sua carreira política. Era duro no julgamento do ex-governador Luís Cavalcante, a quem acusava de ter arquitetado sua queda.


Eu comecei a conversar com o Sandoval o que ele, normalmente, não conversava com outras pessoas. Eu me dava bem com o lado humano dele Ricardo Mota Jornalista

Michel Rios

Da esq. para a dir., Ricardo Mota, Sandoval Cajú, Plínio Lins e Márcio Canuto. O ex-prefeito gostava de reunir os amigos para conversar e contar histórias


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Cajú e o REPORTAGEM

“Duque de Caxias”

Deputado estadual de oposição à época em que Cajú era prefeito, testemunha e protagonista de momentos seminais da história política alagoana, o polêmico Mendes de Barros não acredita que o major Luís Cavalcante tenha sido o articulador principal da trama que aniquilou a promissora carreira política de Sandoval Cajú. “Eu combati o governador Luis Cavalcante. Naquela época, a violência era muito grande entre os políticos. Ele era meu adversário, protegia meus inimigos, mas não posso dizer que o major fosse capaz de fazer isso, idealizar uma situação para cassar o Sandoval. Se alguém idealizou, sugerindo e dizendo que o Sandoval era um perigo para a Revolução, ele não contestou. Mas que tenha sido criação do próprio major Luis Cavalcante, eu não diria isso, não tenho elementos”, afirma Mendes de Barros, enquanto acende o inseparável cachimbo. Embora absolva em sua análise o major Luis Cavalcante das suspeitas e acusações feitas por Sandoval Cajú, Mendes de Barros é duro no breve

perfil que traça do ex-governador: “O major Luis Cavalcante era um magnífico idiota. Ele foi governador do Estado, mas levava tudo na brincadeira. A carreira militar dele também não tinha essa significação porque ele era general, mas todos só o conheciam como major”, destila Mendes, para quem a popularidade e a força que Sandoval tinha junto às camadas populares foram o principal motivo para a sua cassação pelos militares. Longe das picuinhas políticas, Mendes de Barros conviveu com Sandoval Cajú. O ex-prefeito era frequentador assíduo da “clássica” mesa de pife-pafe da casa do ex-deputado. Eram madrugadas de diversão e muita galhofa. “Foi um prazer muito grande conviver com o Sandoval Cajú. Foi uma pessoa extremamente singular porque tinha um pouco de tudo e usava o que tinha da forma mais interessante, mais simpática e mais agradável que você pudesse imaginar”, relembra Mendes. Ele afirma que, em Alagoas, as pessoas só são valorizadas pelo que possuem em dinheiro. “E mesmo

nessas condições, o Sandoval aflorou, sendo um homem de posses modestas, mas de uma grandeza mental extraordinária”. Dos vários momentos hilários protagonizados por Cajú, tem um que Mendes não esquece. “Jogar com o Sandoval Cajú era um privilégio, porque o importante no jogo é a diversão e nós morríamos de rir com ele. Uma vez, na casa do Moacir Miranda, o dia já estava raiando, era uma mesa demorada, todo mundo sabendo onde era o setor de cada jogador. O deputado João Moraes estava pifado, esperando uma carta baixa. O Sandoval também estava com um pife monstruoso e sabia que a carta de valor baixo era perigosa, mas estava com um “2”, o duque, sobrando. Então ele soltou a carta, mas jogou na mesa com força, de modo que ela embaralhou. O Moacir não viu direito e perguntou: “Qual foi a carta?”. O Sandoval: “foi um duque”. Moacir voltou a perguntar: “de que?”, querendo saber o naipe. E o Sandoval: “de Caxias!”, lembra, às gargalhadas, Mendes de Barros.


Michel Rios

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Jogar com o Sandoval Cajú era um privilégio, porque o importante no jogo é a diversão e nós morríamos de rir com ele Mendes de Barros Advogado


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REPORTAGEM

Os filhos de Cajú O automóvel deslizava veloz pela estrada paraibana, rumo a Bonito de Santa Fé. Ao volante, concentrado, Clemenceau Cajú. Ao lado dele, despreocupado, entre um olhar e outro na paisagem, o pai lia jornal tranquilamente. Restavam menos de 200 quilômetros dos mais de 700 que separavam Maceió da cidade sede do clã Cajú. Ao longo do caminho, pai e filho já haviam conversado e contado piadas. Ao completar a última curva, antes de chegar ao município de Cajazeiras, Clemenceau gelou. Ao lado de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal, à margem da rodovia, o policial apontava o acostamento e mandava o carro parar. “Eita, pai! Estamos lascados”. Sandoval Cajú estava acostumado com o estilo veloz de dirigir do filho que mais parecia com ele fisicamente. Desde adolescente, Clemenceau era o motorista preferido do ex-prefeito de Maceió. Entregava sem medo as chaves dos carros que possuiu ao longo do tempo. Gostava de carros grandes: Aero Willys, Galaxie, Opala.

Todos sempre “tocados” com perícia pelo filho. Sandoval pediu calma a Clemenceau. “Deixe que eu falo com o guarda”, disse. Cara fechada, cenho franzido, o policial se aproximou: “Boa tarde. Os documentos, por favor. O radar acusou excesso de velocidade. O veículo estava a 110 quilômetros por hora”, ralhou o policial rodoviário. “Como assim?!”, disse Sandoval, com expressão de surpresa. “Acho que o seu equipamento está com defeito”, advertiu. “O meu filho estava a 140 quilômetros por hora e não a 110, como o radar acusou. Seu equipamento está com problema. Tá bom de trocar”, afirmou, com o olhar grave, diante da expressão patética do policial. “Aí meu pai desceu do carro, acendeu um cigarro, e começou a conversar com o policial. Era fim de tarde. Quando saímos de lá já tinha escurecido. No final das contas, não deu em nada. Ele descobriu que o guarda era parente dele. Ficaram conversando. O policial só faltou colocar meu pai

no braço”, conta Clemenceau. Não lhe sai da memória as viagens para Bonito de Santa Fé, na companhia do pai. Eram dias de felicidade. “Viajei muitas vezes pra lá. Só eu e ele. Apesar da distância, eram viagens muito agradáveis. Nós íamos conversando, ele sempre contando histórias”, lembra Clemenceau. “Lá, eu adorava andar a cavalo. Passava o dia todo cavalgando. Não queria mais parar. Parece que estou vendo meu pai dizer: ‘Meu filho, desça desse cavalo, assim você mata o bichinho’”, diverte-se Clemenceau. Ele conta que ficava impressionado com a popularidade de Sandoval em Bonito de Santa Fé. “Lá, ele era Deus. O povo dizia: ‘Olha, é o filho do José Cajú. É o prefeito de Maceió’”, relembra. A fama era anterior ao mandato no executivo municipal da capital alagoana. Antes de ser prefeito, para a pequena cidade do alto sertão paraibano, Sandoval Cajú era um popstar do rádio. Na casa dos pais, familiares e amigos se reuniam em torno de um aparelho de rádio para curtir


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Da esq. para a dir., Eliane Rosa e Silva, filha de casal amigo da famĂ­lia, e os filhos Clemenceau e Simone


REPORTAGEM

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seus programas transmitidos pelas rádios Difusora, de Alagoas, e Tabajara, da Paraíba. “Ficávamos esperando a hora do programa dele começar. Era o maior sucesso”, lembra a irmã caçula de Sandoval Cajú, Yara. Aos 83 anos, por telefone, ela se emocionou ao lembrar do irmão. “Eu o adorava. Tinha muita saudade de dele. Ele saiu de Bonito muito jovem”, diz dona Yara, que atualmente mora em João Pessoa. “Meu irmão sempre foi um homem espirituoso, inteligente. Sempre gostou de conversar, de contar histórias”. Uma das imagens do irmão que ficou marcada em sua memória foi a do dia em que ele regressou a Bonito de Santa Fé pela primeira vez, depois de ter fixado residência em Alagoas. “Ele voltou como um herói. Estava dirigindo uma camionete, onde estava escrito assim: ‘Bonito de Santa Fé/ Estado da Paraíba/Pra saber como ela é/Só nas canções de Capiba’. Um monte de gente saiu acompanhando o carro dele”. Em Maceió, quando era prefeito, a multidão também seguia Sandoval

Cajú. Aos 7 anos de idade, Simone Cajú ficava orgulhosa com o carisma do pai e com as demonstrações de carinho da população. Sandoval fazia questão de levar os filhos às inaugurações de obras de sua gestão. Para as crianças da família, era dia de festa, de comer bolo e tomar guaraná. Além das guloseimas, havia um detalhe especial que não sai da memória de Simone até hoje. “Meu pai era sempre recebido com flores. Em qualquer parte da cidade que chegasse, havia sempre uma pessoa que oferecia um buquê de flores. Eu achava aquilo muito bonito. Ficava admirando a figura do meu pai, o carinho e o respeito que as pessoas tinham por ele. Quando ele começava a falar, todos paravam para ouvir. Ele sabia prender a atenção do público”, lembra Simone Cajú. Ao lado dos irmãos ainda pequenos, ela esteve em várias inaugurações de praças construídas na gestão do pai. “Lembro que naquela época eram poucas as famílias que tinham televisão em casa. E meu pai colocou televisão nas praças. Então todo

mundo ia para as praças assistir”, conta Simone. Naquela época, ela nem pensava em namorar e muito menos imaginava que se casaria com um homem que, quando criança, também nutria admiração por Sandoval Cajú. Ainda de calças curtas, na distante Cacimbinhas, no agreste alagoano, José Wanderley Neto ficava contemplando o obelisco construído pelo segundo prefeito da cidade, Simão José Januário. Influenciado pela fama de Cajú, que já se estendia interior adentro, Simão afixou no alto do monumento a letra S, em alusão ao badalado prefeito de Maceió. Foi a primeira referência que José Wanderley Neto, que se tornaria um dos médicos cardiologistas mais importantes do País, teve do ex-prefeito Sandoval Cajú. Não imaginava ele que os caminhos do destino o levariam aos braços da filha daquela figura polêmica. “Eu fui para o Rio de Janeiro estudar. Quando voltei, no final dos anos 70, eu conheci a Simone e nos casamos. Foi quando eu tive a oportunida-


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Michel Rios

Os filhos de Sandoval Cajú na praça do Centenário: Natanael, Simone, Clemenceau e Ana Maria


REPORTAGEM

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de de conhecer o Sandoval Cajú além do mito”, conta José Wanderley. “Era um homem muito simples, uma pessoa desprovida de ambição material, inteligente e espirituoso. Na minha visão, era um animal totalmente fora de seu habitat. Não tinha malícia política, não participava de conchavos, de articulações”, lembra o médico que também ingressou na política alagoana. A admiração era mútua. Sandoval tinha verdadeiro orgulho do genro. Em seu livro autobiográfico O Conversador, Cajú inclui o nome de José Wanderley Neto em uma lista de 36 personalidades, no seu modo de ver, mais importantes da história do Brasil. Na medicina, na lista de Cajú, de forma curiosa, Wanderley Neto tem a mesma importância histórica de Oswaldo Cruz e Seixas Barros. O genro de Sandoval divide espaço com Santos Dumont, Duque de Caxias, Tiradentes, Janete Clair, Lima Duarte, Chico Buarque e Chico Anysio. Sandoval o define como um “cirurgião cardiologista moderno e competente que tem cuidado de centenas de pacientes, abastados ou desprovidos de recursos, assistindo-os indiscriminadamente com o mesmo desvelo”.

A outra filha de Sandoval, Ana Maria, lembra que o ex-prefeito de Masceió se desdobrava para agradar as pessoas. “Era o jeito dele, papai era assim. Fazia de tudo para agradar as pessoas. Gostava de ver as pessoas felizes ao redor dele”, diz Ana Maria. Foi ela quem percebeu os primeiros sinais de que a saúde de Sandoval Cajú necessitava de cuidados. “Meu pai adorava café. Sempre que passava na minha casa, eu oferecia. Numa dessas vezes, percebi a dificuldade dele em segurar a xícara. Ele tremia e derrubou a xícara no chão. Aquilo me deixou muito preocupada”, lembra Ana Maria. Clemenceau também percebeu o problema no dia em que presenciou o pai assinando um documento. “Ele tremia muito para fazer a assinatura. Até ficou chateado e reclamou que depois de velho estava ficando analfabeto e gago”. Eram os primeiros sintomas de um câncer no pulmão que se alastrara e chegara até uma região do cérebro. Sandoval sempre gozou de uma “saúde de ferro”. Tinha pavor de doença e “pelava-se” de medo de injeção. Os filhos de Sandoval se reuniram.

Era preciso convencê-lo a se tratar. Foi entregue aos cuidados de uma equipe médica da Santa Casa de Misericórdia. Um raio-X detectou o tumor no pulmão provocado por uma vida de tabagismo. Sandoval Cajú ficou em pânico. A doença evoluiu com velocidade impressionante. Na noite de 22 de maio de 1994, Clemenceau deixou a pelada com os amigos antes do final do jogo. Estava com uma sensação estranha. Antes de abrir a porta de casa, ouviu o telefone tocando. Correu para atender. Na linha, Sandoval Cajú estava aflito como nunca estivera antes. “Sô, venha me ver. O pai está morrendo”. Clemenceau pegou o carro e foi ao encontro do pai. Sandoval estava inquieto, andava de um canto a outro da casa. “Eu nunca havia dado um beijo no meu pai. Nós nos amávamos, mas não havia o contato, aquela coisa. Mas naquela noite eu o beijei na cabeça. Sentei ao lado da cama, segurei na mão dele, ele foi se acalmando e dormiu”. No dia seguinte, Sandoval Cajú foi levado às pressas para a Santa Casa de Misericórdia, onde faleceu.


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Sandoval CajĂş entre Eliane Rosa e Silva e a filha Simone


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O outro lado do contador de causos REPORTAGEM

VANESSA MOTA Durante o intevarlo da entrevista para um vídeo sobre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), o médico José Wanderley – e à época, vice-governador do Estado

fotográfico que usou no documentário. “Não vivia aqui em Maceió e era criança na época áurea de Sandoval Cajú. Passei a conhecer melhor sua história a partir de leituras que fiz”,

Foi por conta da popularidade que ele atingiu no rádio que acabou tornando-se político Pedro da Rocha Documentarista

– comentou sobre o filme que o documentarista Pedro da Rocha havia feito sobre o rádio alagoano, Estrelas Radiosas e propôs que ele fizesse um documentário sobre seu sogro, o ex-prefeito Sandoval Cajú. Foi com ele que Pedro da Rocha conseguiu a maior parte do acervo

explica. Até então, o cineasta tinha Sandoval Cajú como um personagem mitológico, por conta das histórias do anedotário político e das praças. Para Pedro da Rocha, o documentário funciona como um desdobramento de Estrelas Radiosas. Ele explica que, quando começou sua

pesquisa, notou que a história do rádio alagoano era muito rica para ser contada em pouco menos de uma hora por conta de alguns dos personagens, dentre os quais está Sandoval Cajú. “Foi por conta da popularidade que ele atingiu no rádio que acabou tornando-se político”. Como aponta o título, Sandoval Cajú – Além do Conversador retrata não só o lado cômico e mais conhecido do radialista e político. Pedro da Rocha conta que todos os entrevistados tinham pelo menos uma história engraçada para contar a respeito de Sandoval Cajú. “Essa visão cria um personagem com imagem distorcida quanto à sua importância para a história da cidade. Quis desconstruir um pouco essa lenda”, diz. Pedro da Rocha decidiu mostrar as outras faces do homenageado. Passando pelo lado político, fala sobre as motivações e consequências da cassação de Sandoval. O documentário retrata também o lado


Cenas do documentário Sandoval Cajú - Além do Conversador, de Pedro da Rocha

poético e, principalmente, as intervenções urbanas que fez. “Foi um trabalho que marcou toda uma época e, infelizmente, foi destruído”. Das histórias que mais chamaram a atenção de Pedro da Rocha, está a da cassação. “O fato revela que, como apontam alguns dos entrevistados, a política é, em alguns momentos, um jogo violento. Sandoval Cajú foi cassado e nunca foi processado. Alegaram que ele era um administrador incompetente. É como se alguém fosse preso sem sequer saber o motivo”. O documentário traz uma entrevista feita em 1985 por Edécio Lopes,

o único registro que Pedro da Rocha conseguiu encontrar. O cineasta fala da ausência de registros da época como uma de suas principais dificuldades para o desenvolvimento do projeto. “Eu confesso que tive certa dificuldade para a finalização do processo, porque até para fazer o cartaz, não consegui encontrar nenhuma foto boa”, afirma. “Ainda temos uma memória viva sobre o personagem. Temos os filhos, o genro e algumas das pessoas que trabalharam e conviveram com ele, porém, não há material audiovisual. Talvez isso reflita um pouco da nossa dificuldade de

organização de acervo”. Foram entrevistados Aldemar Paiva, fundador da Rádio Difusora, Cláudio Alencar, que escreveu alguns livros sobre a história do rádio alagoano, Pedro Onofre, que participava ativamente das campanhas à prefeitura, Divaldo Suruagy, que era secretário durante a administração de Sandoval, a professora Josy Ferrari, que estuda os aspectos urbanísticos das intervenções feitas em Maceió, além de amigos, como Ricardo Mota, Mendes de Barros e Sérgio Moreira, familiares, como José Wanderley e o prefeito de Maceió, Cícero Almeida.


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Sonhos poéticos, pesadelos políticos ARTIGO

MAURÍCIO MELO JÚNIOR Era radialista e advogado, mas teimava em ser poeta e político. E apesar de ter sofrido, foi feliz. Conheci poucos com tamanha verve e presença de espírito. Chegou a ser prefeito de Maceió, eleito em 1960, e já na campanha mostrava sua condição humana. Tinha um único cartaz, exibido sobre o carro da batalha: ele, imponente, em pé, vestido de branco, pisando um revólver. Também um único slogan: Não à violência. Era no tempo dos brutais embates entre Arnon de Mello e Silvestre Péricles. Meu amigo passou ao largo, inclusive dos boatos que anunciavam diariamente sua renúncia à candidatura. Um dia resolveu acabar de vez com o falatório. Na Praça Marechal Deodoro, diante de uma multidão, liquidou a fatura. - Fala-se de minha renúncia, mas só há uma pessoa que me fará renun-

ciar. Vou interrogá-lo agora. – E virando-se para a impoluta estátua do Proclamador da República, indagou: - Marechal Deodoro, o senhor permite minha eleição à Prefeitura de Maceió? – E diante do silêncio tumular, proclamou: - Quem cala consente. E assim ganhou a eleição e fez uma administração revolucionária. Construiu praças, abriu avenidas e exerceu seu humor. No dia da posse recebeu o pedido de audiência de uma freira que vinha solicitar auxílio para suas obras sociais. Recusou-se a receber a religiosa e assim permaneceu por coisa de três meses até que um dia a secretária entra em seu gabinete. - Prefeito, a freira… O alcaide virou a cadeira para a janela, olhou a paisagem e decretou: - Mande entrar a vigarista. – E quando se virou para a secretária deu de cara com a freira. Não perdeu a

pose. Levantou e cumprimentou sua visitante: - Como vai, irmã? - Nada bem. Entro aqui com o senhor me chamando de vigarista… - Mas irmã, qual é o feminina de vigário? Não terminou o mandato. Veio o golpe de 64 e o cassou. Tinha o governador como inimigo e, o pior, como vice o genro do tal governador. Nunca mais conseguiu voltar à vida pública. Nem para o rádio. Homem de poucas posses e honesto – diziam os amigos que entrou na prefeitura puxando uma cachorrinha e saiu sem cachorrinha, sem coleira, sem nada –, fez-se advogado. Paraibano, tinha adotado Alagoas como pátria e não se desfez da terra de adoção. Perseguido pelos mandatários em Maceió, foi trabalhar no Recife e semanalmente vencia, dirigindo o próprio carro, a distância entre as duas capitais. E


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Entrevista de Sandoval CajĂş ao Conversa de Botequim, batepapo comandado pelo jornalista PlĂ­nio Lins, no bar Casablanca


ARTIGO

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assim se especializou em defender vítimas de acidentes rodoviários. Enquanto isso se dedicou à sua paixão literária, não propriamente uma vocação. Era um leitor compulsivo, apaixonado por Euclides da Cunha. Leu Os Sertões mais de trinta vezes, mas apenas a terceira parte, A Guerra. Tinha pavor das duas anteriores, A Terra e O Homem. E escrevia e conversava. Ninguém melhor que ele para animar uma roda de conversa. Ia madrugada a dentro, sem beber, fumando e contando histórias fantásticas. Chegou a escrevê-las num livro de memórias, O Conversador, que guardo em minha estante. E lembro de sua indignação. Quando mandou o livro para a gráfica foi entrevistado por um jornal local. E lá vinha a informação que terminara de escrever um volume memorialístico chamado O Conservador. E o amigo bradava:

- Logo eu, um conservador. Conservador é a puta da mãe desse jornalista analfabeto… Também publicou um livro de poesia, Sonhos & Pesadelos, com este “&” comercial, como informa o exemplar de minha estante. Os versos são sofridos, reconheço. Um exemplo? “Sonhei morrendo de frio, / À míngua do teu calor, / A bordo desse navio!… / Calcula a minha agonia, / Se o sonho fosse real/ Mas tudo não passaria / De um pesadelo BANAL…” Já as orelhas são uma preciosidade pelo inusitado. Assinadas por um certo J. Romero, afirmam as tais orelhas: “Eu tenho em mãos cópias xerográficas dos originais do livro de poesias Sonhos & Pesadelos, (…) e, confesso, sinceramente: trata-se de uma ‘obra poética’ inteiramente destituída de méritos. Quer na parte dos Sonhos, quer na de Pesadelos, não há um só verso

– lírico ou dramático – que enleve ou comova a alma mais sensível. (…) É pois, a negatividade global de todos os princípios que regem a criação da poesia e da literatura. (…) Tudo é lugar-comum, trivialidade. (…) Insulso livro, cuja autoria atesta o estado patológico de um poeta desprestimoso, incapaz de criar imagens ou figuras expressivas. (…) Concluindo: em que pese a observação feita nos comentários acima, não se deixe de ler tal livro: ao contrário, aconselha-se que o leia, para que constate in loco, com os próprios olhos, o que foi dito sobre Sonhos & Pesadelos, nestas duas orelhas que hão de arder na cabeça vazia do autor.” Diante do desaforo procurei o amigo. - Este filho da puta elogiou muito outro livro meu, A Imperatriz da Simpatia, sobre a visita da rainha da Inglaterra ao Brasil. Quando ele me


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entregou o texto desta nova orelha, o livro já estava no prelo. Mandei para a gráfica sem ler. Deu nisso. Fatos à parte, não tinha vocação para a política nem para a literatura. Anistiado em 1979 enfrentou outras candidaturas, sempre sem votos, sempre com humor e esperanças. Ouvimos, pelo rádio de um restaurante uma dessas apurações. Quando o locutor anunciou os milhares de votos de outros tantos candidatos e apenas um mísero sufrágio no amigo, ele não se entregou: - Já estou na suplência. Grande amigo. Conduzia sempre alta carga de solidariedade e gentileza, que distribuía com próximos e desconhecidos. Um dia, vindo ele e meu irmão do Recife, pararam em Palmares. De repente o amigo sumiu. Também de súbito ressurgiu com um pacote de pão sob o braço. “Caso o carro venha a quebrar, não passare-

mos fome.” O carro não enguiçou e logo que entraram em Maceió obrigou meu irmão, o motorista, a parar num ponto de ônibus. Perguntou para uma mulher solitária e assustada que ali estava: “A senhora já comprou pão hoje?” “Não.” “Então não precisa mais comprar”. E passou o pacote à mulher. Hoje caminho em Maceió e não encontro rastros do amigo. Sua obra – imensa – como prefeito foi se esvaindo nas modernizações da cidade e agora o apontam apenas como o prefeito que demoliu o Hotel Central, construção antiga que já se esmigalhava com o descaso e o tempo. Não importa, o mundo pragmático da atualidade não comporta o doce populismo de Sandoval Cajú. Mesmo assim seus amigos, como eu, não pisam em Maceió sem deixar de lembrá-lo em sua grandeza, de reverenciá-lo.

Capa do livro O Conversador, de Sandoval Cajú, lançado nos anos 1990


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DOCUMENTA

No cotidiano da política, o bom humor Personagem dos mais marcantes da história da política brasileira, Sandoval Cajú teve suas “tiradas” cômicas registradas em dois livros: Missão Secreta em Igaci, de Cleto Falcão, e 350 Histórias do Folclore Político, de Sebastião Nery. Confira alguns desses momentos registrados para a posteridade.

UMA QUESTÃO DE INTERPRETAÇÃO Sandoval Cajú estava uma tarde com mil afazeres. Entra sua secretária na sala. — Prefeito, tem aí uma freira querendo falar com o senhor. — Uma freira? — Sim, aquela que esteve aqui o mês passado pedindo ajuda para uma escola. Está aí com uma comissão — Hoje eu não recebo. Tenho muito o que fazer. Mande voltar outro dia. Disse isso e continuou mexendo e arrumando uma papelada. A secretária insistiu: — Prefeito, é uma religiosa. O senhor deve receber. Sandoval, em dúvida, deu as costas e ficou calado. A secretária tomou a iniciativa de mandar a freira e sua comitiva entrarem. Sandoval se vira e grita:

— Manda logo essa vigarista entrar. Tarde demais. A freira e a comitiva já estavam no Gabinete, diante do Prefeito. Foi aquele pânico. Todo mundo calado, o ar carregado. Sandoval, na maior cara de pau, se dirige à freira. E beija as suas mãos. — Eu já estava esperando pela senhora. A freira, com a cara trancada, falou: — Eu ouvi o que o senhor disse de mim. — Ouviu o quê? — Ouvi o senhor me chamando de vigarista. — Ora, irmã, entenda: Padre, nós chamamos de vigário, não é? — É. — Então? Se padre é vigário, freira é vigarista...


69 . Graciliano . CEPAL/Imprensa Oficial Graciliano Ramos

É TUDO POVO Sandoval chega para um comício em Bebedouro. — Povo da Ponta Grossa Um popular grita avisando que ele está em bebedouro. Sandoval não perdeu a linha: —... que veio a Bebedouro para me ouvir falar. AS FRUTAS Sandoval chega uma hora atrasado para um comício na Chã da Jaqueira. O povo já impaciente. Ele subiu no caminhão, pegou o microfone: — Meus amigos, desculpem o meu atraso. Não fiquem com raiva. Eu vim para Chã da Jaqueira, estou falando embaixo de uma amendoeira, na minha frente vejo um menino chupando manga, eu sou Caju, vamos misturar tudo isso, fazer uma salada e esquecer esse atraso... Que atraso? Ninguém lembrava mais.


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70 . Graciliano . CEPAL/Imprensa Oficial Graciliano Ramos

Sandoval Cajú, paraibano de talento e cara dura, depois de uma temporada no Rio, voltou para João Pessoa impressionando a província com um diáfano cartão de linho: Sandoval Cajú locutor da Relógio do Distrito Federal. E virou o maior radialista do Nordeste, na Rádio Tabajara da Paraíba. Um dia, mudou-se para Alagoas. Ia para a praça pública todo vestido de branco e, de cima de um caminhão, começava: — Vim de branco para ser claro. 4 E tanto foi claro que acabou prefeito de Maceió, com espetacular votação. Inclusive com apoio de Floriano Peixoto. Diante da estátua do Marechal de Ferro, falava um dia ao povo. De repente, abriu os braços: — Marechal Floriano, vós que sois o patrono da terra das Alagoas, dizei a este povo se estais ou não estais apoiando a candidatura de Sandoval Cajú à Prefeitura de Maceió. A praça calada como quarto de freira, e Sandoval, braços ao vento, insistia: — Respondei, Marechal, respondei! Depois, num soluço, os olhos molhados de gratidão, gritou: — Obrigado, Marechal. Obrigado. Quem cala, consente.


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Coleção Pensar Alagoas. Reedições em formato fac-símile de obras importantes sobre o Estado. Pontos de venda: Cepal, Edufal, Resma e Banca Porto Seguro

Secretaria de Estado do Planejamento e do Orçamento

PENSAR ALAGOAS COLEÇÃO

Informações: 3315 8305 | 8883 7617 Av. Fernandes Lima, KM 7, S/N, Gruta de Lourdes - Maceió-AL


CEPAL Imprensa Oficial Graciliano Ramos

Graciliano Nº 8  
Graciliano Nº 8  

Graciliano é uma revista da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Nesta edição Sandoval Cajú - O personagem, o povo e a cidade

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