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Revista Trimestral

Casado Médico IMPRESSO

Tecnologia na medicina Como médicos e pesquisadores avaliam o uso de equipamentos e programas computacionais cada vez mais avançados no atendimento em saúde

ENTREVISTA EXCLUSIVA

Presidente da APM SP comenta gestão e desafios da entidade REGIONAL ARARAQUARA

Eleições para nova diretoria marcadas para o mês de agosto MEMÓRIA VIVA

Dr. Aufiero Sobrinho FORA DO CONSULTÓRIO

O psiquiatra artesão

Ano 19 | n.67 | Junho de 2017

ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE MEDICINA | ARARAQUARA


A revista Casa do Médico é uma publicação trimestral editada pela Associação Paulista de Medicina (APM) Secção Araraquara. www.apmararaquara.org

Dr. Renato Chediek Presidente Dr. João Orávio de Freitas Jr. Vice-presidente Dra. Ticiane Corina Ribas 1a Secretária Dra. Fabiane A. Alves Madureira 2a Secretária Dr. Marcus Vinicius Platzer Amaral 1º Tesoureiro Dr. Fernando Linares 2º Tesoureiro Dr. Luis Henrique B. Falcão Diretor de Defesa Profissional Dr. Helio Paulo Primiano Junior Diretor Social

Produção Editora Casa da Árvore Reportagem André Lourenço Foto da capa National Cancer Institute Impressão Gráfica Art Point Tiragem 1.000 exemplares Distribuição Gratuita. APM Araraquara | Casa do Médico Rua Voluntários da Pátria, 1478 Centro, Araraquara, SP

novos associados

ALBERTO FRANCISCO SILVA BARROS CARDIOLOGISTA CRM: 155908

EDUARDO DE LUCCA DALL’ACQUA CIRURGIÃO VASCULAR CRM: 139566

EDUARDO VENERANDO DA SILVA GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA CRM: 156050

JOÃO VITOR LEITE ZBEIDI CIRURGIÃO GERAL E DO AP. DIGESTIVO CRM: 160190

MÁRCIO FRANCISCO MICHELONI GASTROENTEROLOGISTA CRM: 90030

ROGÉRIO HIROSHI SATO ANGIOLOGISTA E CIRURGIÃO VASCULAR CRM: 133919

WALTER WILLIANS FIGUEIREDO PEDIATRA CRM: 40593

CONFIRA

CAIO FERNANDO FERREIRA VIEIRA ASSOCIADO ACADÊMICO (SEM FOTO)

ANDREZA JULIANI GILIO ENDOCRINOLOGISTA INFANTIL CRM: 129977

CAMILA FRAGALÁ KARAM CLÍNICA MÉDICA CRM: 155990 (SEM FOTO)

ISABELA MARIA ANSELMO RIBEIRO SIMÕES ANESTESIOLOGISTA CRM: 171332

MARIA CAROLYNA FONSECA BATISTA ARBEX CLÍNICA MÉDICA E GERIATRA CRM: 156506

MARINA CORVELLO PEDIATRA CRM: 152385

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Ano 19 | n.67 | Junho de 2017


HISTÓRIA DA MEDICINA

Febre amarela em Araraquara Gaulter Pereira, primeiro inspetor Mudança da sede da comarca A epidemia da febre amarela entre sanitário estadual dos muitos que os anos de 1895 e 1896 interferiu em atuaram em Araraquara no período. todos os aspectos da vida municipal Houve resistência de um médico da de Araraquara. O próprio presidente cidade que insistia em dizer que a do Estado, Bernardino de Campos, febre amarela na verdade era apenas autorizou a pedido do juiz de direito uma forma de impaludismo. Num primeiro momento, a epideda comarca, a transferência dos trabalhos forenses para a estação ferroviá- mia ficou restrita a uma área próxima ria de Américo Brasiliense, distante do cemitério. Também creditava-se a de 8 a 10 quilômetros de Araraquara. importação da doença a algumas merIsso ocorria “atendendo ao mau cadorias chegadas de Santos. Como o estado sanitário em que se encontrava couro, destinado aos sapateiros. Logo a cidade de Araraquara, em razão da depois o inspetor sanitário identificou o primeiro caso de recrudescência da epidemia na cidaepidemia de febre A epidemia entre os de, como trazido de caráter grave anos de 1895 e 1896 por um doente de que ia para 7 meinterferiu em todos Campinas, cujas ses”. O ato era roupas foram ladatado de 7 de noos aspectos da vida vadas por uma vembro de 1895. municipal. Num lavadeira que se Quando a siprimeiro momento, contaminou. tuação sanitária da cidade se norficou restrita a área Falta de recursos malizou em 1896, próxima do cemitério. para o saneamena Comarca voltou Também creditava-se a to básico a ser sediada em Datado de São Araraquara. Poimportação da doença 29 de maio rém, como nada a algumas mercadorias Paulo, de 1897, a câmara escapava ao pochegadas de Santos, de vereadores de der dos coronéis, mandatários das como o couro destinado Araraquara recebeu um ofício cidades e vilas, aos sapateiros impresso tipograquando foi marficamente (o que cado o julgamento dos denunciados pelo linchamento indica ter sido remetido a todos os dos Britos, em julho de 1897, o estado municípios), que dizia em certo tresanitário da cidade em ordem, o po- cho o seguinte: Não deveis estranhar der estadual determinou a mudança a insistência do Governo. Ela traduz da sede da comarca novamente para o desejo de conhecer os recursos de Américo Brasiliense, pretextando o cada localidade no que diz respeito risco de ajuntamento. Ocorre porém, aos meios de defesa da saúde pública que a situação sanitária da cidade era numa época em que as crises de saúnormalíssima, tendo apenas a comar- de se amiúdam e por tão largo espaço ca mudada a fim de intimidar jura- fazem se sentir no interior. Algumas dos, promotores e outros envolvidos. câmaras mais diligentes ou mais bem orientadas têm conseguido com os próprios recursos, dentro do novo Divergência e descoberta da causa Ainda no ano de 1895 chegou em regime de autonomia que desfrutam, maio, na cidade de Araraquara, o dr. organizar serviços da mais súbita releAno 19 | n.67 | Junho de 2017

Esta seção publica trechos selecionados da obra “A História da Medicina e dos Médicos de Araraquara”, de

Rodolpho Telarolli

vância, já canalizando água, fazendo calçamento, drenagem superficial, mandando estudar um sistema de esgoto, mantendo um regular serviço de limpeza pública, etc... O poder estadual conhecia melhor do que qualquer outro organismo, a farsa que fora a tão discutida e prometida “autonomia” municipal na constituinte de 1891. Na realidade, o poder dos municípios de decisão e principalmente de arrecadação de recursos financeiros através de contribuições continuou como no Império, ínfimo, ficando com a maior parte do bolo das rendas públicas o estado e a união. (Trecho da página 299) g 3


REPORTAGEM

Desafios da medicina com o avanço das tecnologias Cada vez mais, espera-se dos médicos um olhar humano e um agir tecnológico. Inovar e incorporar novos instrumentos e técnicas no cuidado da saúde é sempre um desafio. Saiba o que profissionais e pesquisadores da área pensam sobre como lidar com softwares, dados, aplicativos, nanodispositivos e até robôs que podem ajudar a diagnosticar e tratar doenças. A tecnologia sempre foi uma aliada dos médicos. Nas últimas décadas, o uso de instrumentos avançados se tornou mais acessível, estimulando novos mercados e fronteiras na medicina: fármacos de engenharia genética, robótica e realidade virtual em cirurgias, impressão 3D, aplicativos conectados a sensores, nanodispositivos, inteligência artificial para análise de grandes conjuntos de dados. Da bioinformática à telemedicina, surgem novidades que transformam áreas inteiras da profissão. Diante dessa realidade, médicos, gestores e outros profissionais de saúde veem as novas tecnologias como fator de qualidade e eficiência no atendimento. Mas lembram também que nem sempre é simples adotar rapidamente uma inovação. Mais segurança, menos sofrimento Na medicina diagnóstica, por exemplo, recentes tecnologias de imagem agilizam a realização de exames e a apresentação de resultados. Também são mais seguras, como relata o médico Carlos Roberto Cardoso de Souza, radiologista do Hospital São Paulo e da clínica Inthera. “Além da possibilidade de se fazer uma tomografia de abdômen com apenas uma respiração, os novos equipamentos têm uma dosagem mais baixa de radiação, importante para pacientes que fazem controle do câncer.” Para o médico otorrinolaringologista Marcos Marques Rodrigues, a aplicação de inovações tecnológicas em sua área de especialidade favorece também o conforto dos pacientes. “A tecnologia na medicina tem per4

mitido que os procedimentos sejam mais seguros e causem menos efeitos colaterais, como sangramentos e dor, além de proporcionar uma recuperação mais rápida”, diz. Maioria ainda reticente No entanto, embora resultados e experiências reforcem essas vantagens, a médica Denise Zornoff, coordenadora do Núcleo de Educação a Distância e Tecnologias da Informação em Saúde da Faculdade de Medicina de Botucatu, da UNESP, aponta para o fato de que os chamados early adopters (profissionais que buscam adotar rapidamente as novidades) ainda são minoria entre os médicos. “A maioria está dividida entre aqueles que precisam ser convencidos das vantagens trazidas pelas inovações, mas que acabarão adotando mais cedo ou mais tarde, e uma pequena minoria que jamais adotará”, diz Zornoff, citando modelos usados para explicar como se dá a difusão de inovações no setor. A coordenadora também ressalta que a adoção de recursos tecnológicos mais complexos, como registros eletrônicos, sistemas de apoio à decisão ou equipamentos de última geração, geralmente envolve decisões institucionais cuidadosas sobre investimentos na aquisição, no suporte e treinamento dos profissionais. Atualização profissional Outro ponto é a necessidade de aprimoramento constante dos profissionais que irão utilizar inovações que exigem conhecimento. Cresce, com isso, a oferta de treinamentos, cur-

sos de atualização e estudos que vão além da medicina, incluindo interfaces com física e computação. O otorrinolaringologista Marcos Marques Rodrigues lembra que a necessidade de atualização é essencial na prática médica, independentemente dos avanços tecnológicos. “Os médicos devem ter reciclagem constante, com cursos de atualização, congressos e simpósios.” Carlos Roberto Cardoso de Souza, especialista em medicina diagnóstica, acrescenta que a tecnologia também é aliada no processo educacional, em que a presença física dos alunos passa a ser dispensável em modalidades de educação continuada oferecidas também à distância. Denise Zornoff, da UNESP, ressalta que dentro das escolas médicas as mudanças curriculares nem sempre são rápidas, nem disruptivas. “Muitas inovações entram nas disciplinas de forma gradativa, sem a necessidade de atualizações formais”. Ela cita como exemplo a substituição dos microscópios tradicionais pelo estudo de imagens eletrônicas com lâminas escaneadas. “O objetivo pedagógico é o mesmo, mas as ferramentas mudam.” Humanização, sempre Outro aspecto a ser considerado é a relação entre avanço tecnológico e atendimento humanizado, valor que deve ser preservado diante da adoção de instrumentos mais potentes e, muitas vezes, automatizados. O radiologista Carlos Roberto Cardoso de Souza reforça que é o médico, e não a tecnologia, o protagonisAno 19 | n.67 | Junho de 2017


Fotos: Divulgação

Denise Zornoff, da UNESP, e Sérgio Mascarenhas, da USP: incorporação de inovações é gradativa e requer visão integrada ta do diagnóstico e da terapêutica para o paciente. “Muitas vezes a tecnologia nos afasta da questão humana, e a ação do médico passa a ser focada apenas na análise de uma chapa, examinando-se somente o caso e a patologia, sem olhar para o paciente”, observa. “É preciso lembrar que ali tem uma vida, um filho, uma mãe ou um pai”, completa. “A máquina traz subsídios, mas não raciocina, não pensa, não sente.” De acordo com o físico e professor da USP Sérgio Mascarenhas, em situações extremas em que o médico se torne praticamente um “escravo da tecnologia”, o médico estaria em tese também abrindo mão de sua responsabilidade pela interpretação. “O acesso exacerbado à tecnologia provoca perda interpretativa em relação ao paciente. O médico passa a tentar atendê-lo e entendê-lo apenas por meio do encaminhamento para exames.” Médicos na pesquisa Além de usuário e de formador de opinião sobre os avanços da tecnologia em sua prática, o médico, assim como outros profissionais da área da saúde, deve ter um papel importante e direto também na geração de conhecimento e inovação, atuando como pesquisadores Ano 19 | n.67 | Junho de 2017

ou desenvolvedores de soluções tecnológicas, como destaca Zornoff, da UNESP. “Os médicos estão presentes em todas as fases do processo das pesquisas na inovação tecnológica em saúde, desde a identificação de uma necessidade que leve à concepção dos projetos de pesquisa, ao desenvolvimento dos estudos e de produtos, teste e adoção das soluções, comunicação dos achados, por meio da apresentação em eventos científicos e submissão às publicações científicas, finalizando com a educação de seus pacientes, seus alunos e outros profissionais”, descreve a coordenadora. Ela cita, como exemplo, o trabalho do Grupo de Interesse Especial de Simulação em Saúde, da Rede Universitária de Telemedicina (SIG/RUTE), que apresentou um modelo inovador para treinamento de microcirurgia que está sendo patenteado. Também de acordo com o radiologista Carlos Roberto Cardoso de Souza, essa participação dos médicos durante o processo de desenvolvimento de inovações é crucial. “As empresas têm dado abertura para o encaminhamento de informações sobre ajustes necessários nos equipamentos”, relata. (André Lourenço) g

SISTEMA COMPLEXO

Uma tecnologia analítica para entender a saúde O físico Sérgio Mascarenhas enxerga a saúde como um “sistema complexo”, cujas propriedades não decorrem de cada elemento isolado, mas da interação que gera novas qualidades ao sistema. Segundo o professor emérito do Instituto de Física de São Carlos e colaborador em pesquisas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ambos da USP, essa complexidade abrange três grande pilares da prática médica: o diagnóstico, a terapia e o prognóstico. Para ele, a tecnologia necessária não se resume ao avanço de equipamentos ou inovações farmacológicas, por exemplo, mas também inclui mecanismos lógicos capazes de compreender e avaliar este sistema. “Há um aumento exponencial do nível de complexidade da tríade diagnóstico-terapia-prognóstico ao longo do processo médico. A estatística é um mecanismo de avaliação deste sistema. Ela detecta o valor médio das variáveis e permite uma conclusão razoável sobre o que e como ocorre.” Ainda segundo Mascarenhas, isso depende do acesso a um grande conjunto de dados (o chamado big data) e de tecnologias analíticas que levem os profissionais a descobrir, dentro desse mapa sistêmico, qual é o erro e qual é o ruído. “Ao se afastar o ruído, o sinal verdadeiro corresponderá ao fenômeno”, conclui o cientista. Na opinião de Mascarenhas, os cursos básicos de formação precisam passar por uma reformulação voltada para um ensino mais interdisciplinar, diferente do que ocorre hoje, com divisão de departamentos por especialidades. “A maioria das faculdade de medicina cada vez menos ensina física, bioquímica, matemática, biologia molecular, ou seja, ciências básicas que permitem uma visão ampla”, diz g 5


OTORRINOLARINGOLOGIA

Apneia do Sono: mal oculto Marcos Marques Rodrigues

Descrita em 1973 por Cristian Guilleminault, a Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) é uma doença caracterizada por obstrução das vias aéreas durante o sono, provocando apneias associadas com esforço respiratório torácico. Um recente estudo epidemiológico realizado na cidade de São Paulo demonstra que 32,8% da população adulta da cidade têm Apneia do Sono e praticamente 1 em cada 3 pessoas é portadora da doença. Os fatores de risco associados para o desenvolvimento da síndrome foram: sexo masculino, Índice de Massa Corpórea (IMC) > 25kg/m2, baixo nível sócio-econômico, idade avançada e mulheres na menopausa. Os principais sintomas são: roncos, sonolência diurna, cansaço, acordar de manhã com sensação de não ter dormido bem, dores de cabeça pela manhã e hipertensão. Desde a sua descoberta a SAOS vem sendo bastante estudada e demonstrou ser uma doença extremamente importante e prevalente, pois está associada a diversas doenças, tais como: a hipertensão, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), dislipidemias e diabetes. Cerca de 20% da população adulta relata roncos e 95% das pacientes portadores de Apneia do Sono se queixam de roncos. A Academia Americana de Medicina do Sono recomenda a avaliação diagnóstica de AOS por meio da po-

Professor de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Araraquara, da UNIARA. Pós-graduado em Medicina do Sono do Instituto do Sono, na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), especialista em Otorrinolaringologia e Medicina do Sono pela AMB e doutorando em Ciências da Cirurgia na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Formado em Medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Pacientes com depressão, hipertensão, arritmias, obesidade e diabetes têm alta chance de ter apneia do sono, problema que atinge 33% da população adulta. Falta do diagnóstico provoca ineficiência no tratamento lissonografia em todos os pacientes com doenças cardiovasculares e/ou metabólicas, como: obesidade com IMC > 35 kg/m2, insuficiência cardía-

ca congestiva, fibrilação atrial, hipertensão arterial sistêmica refratária ao tratamento, diabetes do tipo 2, arritmias noturnas, acidente vascular encefálico, hipertensão pulmonar, motoristas profissionais e pré-operatório de cirurgia bariátrica. Estamos frente a frente com uma doença oculta que pode ser a responsável pela maioria dos problemas relatados por pacientes em nossa rotina. Pacientes com depressão, hipertensão, arritmias, obesidade e diabetes têm uma alta chance de ter Apneia do Sono. A falta do diagnóstico e do consequente tratamento dessa doença certamente provoca ineficiência no tratamento e em muitos casos, o uso demasiado de medicações para reverter os efeitos da Apneia do Sono sobre o estresse oxidativo. g

'ŪĘşčîƘđŪƘƐĽşƘ NĽƍĘƐƤĘşƘĆŪîƐƤĘƐĽîŔ 'ĽïŔĽƘĘƍĘƐĽƤŪşĘîŔ  ŔĿşĽĊîıĘƐîŔ ɇǺǿɈǼǼǼǺȹȁǹǽȁ ɇǺǿɈǼǼǼǺȹȁǹǼǽ ¤ƬîNƬŝîĽƤïȴǻǹǺȁȹ ĘşƤƐŪȴƐîƐîƏƬîƐî 6

Dr. Henrique Luiz Carrascossi

qęđĽĊŪsĘİƐŪŔŪıĽƘƤîɇ ¤qǺǻǾȹǾȀǺɈ qĘŝĉƐŪ¹ĽƤƬŔîƐđî¬ŪĊĽĘđîđĘ ƐîƘĽŔĘĽƐîđĘsĘİƐŪŔŪıĽî Ano 19 | n.67 | Junho de 2017


PROFISSÃO

Medicina impessoal Henrique Carrascossi Formado em medicina pela Faculdade Medicina de Catanduva, com residência em clínica médica e nefrologia no Serviço de Nefrologia de Ribeirão Preto Fazendo uma análise retrospectiva dos últimos 30 anos da nossa medicina, imediatamente concluímos que evoluímos muito. Será? Quando perguntamos para uma pessoa com mais de 50 anos como era a medicina antigamente muitos prontamente lembram-se o nome de um médico de confiança da família que era acionado em qualquer necessidade de diagnóstico e tratamento, médico este que era amigo da família inteira e que resolvia a maioria das necessidades. Todos se conheciam por nome. Com a chegada dos planos de saúde essa relação médico paciente foi ficando cada vez mais impessoal, o usuário agora não mais paciente, mal conhece e sabe o nome do médico que está consultando, possui conhecimen-

to apenas da especialidade que procura, conveniada à operadora que ele faz parte. O médico, já com uma remuneração mais baixa porque agora ele depende do plano de saúde para trabalhar se submetendo ao valor proposto por falta de opção, também não sabe mais o nome do paciente, chamando-o muitas vezes pelo número do leito. Não podemos negar que o sucesso no tratamento de uma doença envolve vários aspectos e entre eles, a relação médico-paciente é uma determinante. Como estamos mantendo essa relação impessoal hoje? Cada vez mais consultórios são fechados. Um levantamento da FIPE mostrou que o custo médio de um consultório é de R$ 6.000 e a média paga por consulta de uma operadora de saúde é de R$ 50, logo já se inicia o mês precisando fazer 120 consultas para não sair no prejuízo. Com isso o médico precisa atender cada vez mais rápido e objetivo, não praticando os princípios básicos de anamnese com exame físico completo. Isso gera com certeza muitas solicitações de exames desnecessários, pois ao invés de fazer o diagnóstico pelo exame clíni-

co do paciente se solicita muitos exames por ser mais fácil e rápido! Essa é a economia “burra” das operadoras que não remuneram o profissional dignamente e aumentam, assim, o custo com exames complementares. Diante da realidade econômica que passamos, sabemos que as operadoras cobram altas mensalidades, pois o capitalismo requer lucro e os custos operacionais da medicina são cada vez maiores, exames extremamente específicos, tratamentos cada vez mais caros e a indústria farmacêutica batendo recordes de faturamento. O médico, que geralmente não têm vínculo empregatício, direito a férias, 13º salário, vale transporte, licença, aposentadoria e outro direitos frente às operadoras, é a mão de obra barata frente aos empresários de grandes operadoras de saúde. Dentro dessa realidade cabe ao médico lutar por condições melhores de trabalho com uma remuneração mais justa, procurando atender o paciente como um todo, inclusive sabendo seu nome. Já aos pacientes é importante buscar saber junto à sua operadora a remuneração do profissional antes de fazer um convênio. Não se trata de desmerecer nenhum tipo de trabalho, mas talvez você seja atendido por um médico que vai receber menos do que você paga pra dar banho em seu cãozinho no pet shop. g

DIAGNÓSTICO POR IMAGEM COM EXPERIÊNCIA, CONFIANÇA E SUSTENTABILIDADE

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INFORME PUBLICITÁRIO

Hospital São Paulo recebe certificação Acreditado Pleno Selo emitido pela Organização Nacional de Acreditação (ONA) à instituição da Unimed Araraquara atesta qualidade assistencial com foco na segurança do paciente A certificação Acreditado Pleno, que o Hospital São Paulo/Unimed Araraquara recebeu em maio deste ano, é concedida pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), de acordo com o site da entidade, “para instituições que, além de atender aos critérios de segurança, apresentam gestão integrada, com processos ocorrendo de maneira fluida e plena comunicação entre as atividades”. De maneira sucinta, o tema segurança do paciente, debatido e incorporado globalmente, visa à máxima qualidade dos cuidados assistenciais para reduzir ou eliminar eventos adversos. A melhoria contínua das práticas que priorizam a segurança do paciente tende a gerar resultados mais consistentes por meio do engajamento em todas as áreas do hospital, daí o destaque para “gestão integrada” anotado pela ONA na descrição do nível Acreditado Pleno. É da gestão eficiente de recursos e da harmonia na integração entre todos os setores e profissionais, por meio da adoção de protocolos reconhecidos, processos bem definidos e funções específicas, gerando um quadro de padronização, que advém a referida qualidade assistencial.

Sala de PPP (pré-parto, parto e puerpério). O Hospital São Paulo participa e adota as medidas recomendadas pelo projeto Parto Adequado, desenvolvido pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), pelo Hospital Israelita Albert Einstein e pelo Instituto de Melhoria em Saúde (tradução livre para IHI, da sigla em inglês), com apoio do Ministério da Saúde

seguras salvam vidas”, desafio internacional lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2007, como Escalada na qualidade um dos fatores de risco para o insucesso de assistências Em maio de 2013, o Hospital São Paulo foi certificado com o selo Acreditado – o primeiro dos três níveis emitidos cirúrgicas. Durante acrescenta que a comunicação dedicada aos papela ONA. Dois anos depois, o hospital foi reavaliado e manteve a certificação. Agora, com a homologação da certi- cientes e familiares, em todas as suas formas, da atenção às anotações, passando pelas conversas, ajuda a criar vínculo ficação Acreditado Pleno, o hospital sobe de patamar. Para o presidente da Unimed Araraquara, Silvio Cardoso, e, assim, a elevar a segurança. “Os históricos fornecidos pelo próprio paciente ou a nova acreditação resulta dos investimentos maciços e pela família auxiliam os profissionais de saúde na escolha constantes em gestão, pessoas, estrutura física, tecnologia da melhor abordagem. Além do aspecto técnico, existe, e processos. principalmente, o aspecto humano. A transparência, que “Os ‘degraus’ da ONA sinalizam uma sequência permasempre é estabelecida por meio da comunicação, transmite nente. No nível Acreditado [anterior], são estabelecidos confiança e solidariedade em situações de medo e ansiedaos princípios de segurança na assistência. A obtenção da de”, comenta. certificação Acreditado Pleno implica a aplicação desses “Estados físicos de dor, fadiga e estresse, comuns princípios”, diz Cardoso. O diretor do Hospital São Paulo Antonio Carlos Durante tanto no período que antecede as cirurgias como no que as procede, influenciam nas respostas dos pacientes. É a explica que o conceito de segurança do paciente envolve, comunicação que pode detectá-los para que sejam amenialém dos próprios pacientes, familiares, gestores e profiszados. O conforto é inerente ao tratado sobre segurança do sionais de saúde. Ele lembra que a comunicação inadequada dentro da equipe foi apontada no projeto “Cirurgias paciente”, completa. 8

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Fotos: Márcia Belotti/Revista kappa

Metodologia da ONA tem reconhecimento internacional

Sala do Centro Cirúrgico do Hospital São Paulo: capacitação profissional, ambiente limpo, recursos tecnológicos e processos de segurança, como checklist em três etapas, integram conceito de cirurgia segura

UTI Neonatal

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A Organização Nacional de Acreditação (ONA) é uma entidade não governamental, sem fins lucrativos, que certifica a qualidade de serviços de saúde no Brasil, com foco na segurança do paciente, tema de relevância global que objetiva reduzir – e até eliminar – índices de morbidade e mortalidade provocados por eventos adversos evitáveis. A ONA certifica em três níveis: Acreditado (selo válido por dois anos recebido pelo Hospital São Paulo/Unimed Araraquara em 2013 e mantido em 2015), Acreditado Pleno (novo selo do Hospital São Paulo, homologado em maio de 2017, também válido por dois anos) e Acreditado com Excelência (válido por três anos). As adesões são voluntárias, ou seja, são os prestadores de serviços de saúde que manifestam interesse em ser certificados. Eles são avaliados pelas Instituições Acreditadoras Credenciadas pela ONA, a quem compete aprovar ou não a certificação. O Hospital São Paulo foi avaliado pela Fundação Vanzolini, mantida e gerida por professores do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). A metodologia empregada pela ONA é reconhecida pela Sociedade Internacional para Qualidade em Cuidados de Saúde (tradução livre para ISQua, da sigla em inglês), associação parceira da Organização Mundial da Saúde (OMS) que conta com representantes de instituições acadêmicas e organizações de saúde em mais de 100 países. 9


ENTREVISTA

Qual a importância do fortalecimento das APMs? Como esse trabalho pode ser feito? O médico e a medicina enfrentam grandes desafios nos dias atuais. A despeito da qualidade incontestável da medicina brasileira, situada entre as melhores do mundo, a população em geral, principalmente a mais vulnerável economicamente, não tem acesso nem mesmo aos serviços básicos de saúde. Isto se deve ao baixo financiamento do SUS e ao alto custo dos planos de saúde. O médico, por seu lado, tem péssimas condições de trabalho no setor público e é mal remunerado tanto no setor público quanto no privado. É função da Associação Paulista de Medicina desenvolver estratégias para enfrentar estas dificuldades. Para tanto é preciso uma APM forte e representativa. Este trabalho é feito unindo todas as APMs regionais bem como as demais entidades representativas dos médicos. Com esta coesão temos condições de melhor lutar por uma medicina de qualidade.

Divulgação

Presidente da APM paulista fala sobre lutas da entidade g

De que forma as APMs Regionais podem contribuir? As APMs regionais são de grande valor, pois representam os médicos em suas respectivas localidades para tratar de questões do dia a dia, bem como garantem capilaridade às nossas bandeiras, anseios e ações, temos oitenta regionais, levando a voz da APM a todo o Estado e multiplicando-a ao Brasil.

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g Qual tem sido o trabalho da APM em prol às necessidades e interesses da classe profissional e da sociedade, dentro do âmbito político, científico e social? Procuramos garantir a atualização profissional por meio de um grande número de cursos, congressos e jornadas científicas. Desta forma garantimos a qualidade no exercício da medicina. Nossa luta por honorários profissionais e boas condições de trabalho é continua, organizando os médicos, contando com a participação das demais entidades. As negociações

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e as perspectivas atuais de mudança a curto prazo são pequenas. Quais as principais conquistas da Associação Paulista de Medicina (APM) nos últimos anos, e quais os desafios ainda enfrentados? As principais conquistas foram, de um lado, o fortalecimento da APM, com importante reestruturação administrativa que a tornou mais ágil e eficiente. Uma forte recuperação econômica, pois reduzimos muito as despesas e aumentamos as receitas. Há seis anos em nossa posse gastávamos 98% do total arrecadado, hoje gastamos apenas 75%. Com o bom superávit, apesar da crise econômica, conseguimos acumular recursos para recuperar o patrimônio que estava muito deteriorado. Desta forma temos hoje uma APM forte e preparada para desafios futuros. Aliás, os principais desafios a serem enfrentados referem-se à qualidade de formação dos médicos que está em decadência em função da abertura indiscriminada de escolas médicas quase sempre com ensino deficiente. Referem-se também a enfrentar a questão dos honorários profissionais que são muito baixos e as condições de trabalho, principalmente no setor público, cujas instalações são precárias e com falta de equipamentos básicos para o exercício profissional. g

FLORISVAL MEINÃO

Médico, formado pela Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas de Botucatu, da UNESP, tem especialização em otorrinolaringologia. É presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), com mandato de 2011 a 2017.

Diminuímos o tempo de espera dos resultados de exames laboratoriais e agora estamos viabilizando a realização de ultrassons na UPA Central, visando diminuir a demanda de interações na Santa Casa com os planos de saúde alcançam melhor resultado com esta estratégia. A luta por melhorias no setor público também é constante; depende fundamentalmente de decisões políticas e da situação econômica vigente. Vivemos um momento delicado, pois o enorme déficit fiscal afeta fortemente o financiamento do Sistema Único de Saúde

Independente dos benefícios oferecidos, qual a importância do profissional fazer parte do associativismo? É muito importante que os profissionais médicos façam parte da APM e das demais entidades representativas. Desta forma fortalecemos o associativismo dando-lhe força para atuar em defesa de nossa classe profissional.

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g Como tem sido o diálogo da APM com órgãos representativos de outros Estados? Quais contribuições essa relação tem trazido? O diálogo com demais entidades de outros estados bem como de outros profissionais de saúde e até de outras

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MUDANÇA DE GESTÃO

APM Araraquara tem eleições para o triênio 2017-2020 Além da nova diretoria, associados elegerão candidatos para cargos eletivos da APM (Capital) e AMB A Associação Paulista de Medicina - Secção Regional de Araraquara, nos termos de seu Estatuto Social e observando os seus dispositivos estatutários e suas normas complementares, realizará no segundo semestre a eleição para preenchimento dos cargos eletivos para o triênio 2017/2020. As eleições são feitas a cada três anos, quando também ocorre a escolha da nova diretoria, conselho fiscal e delegados da Associação Paulista de Medicina (Capital) e da Associação Médica Brasileira (AMB). A apresentação de chapas concorrentes é facultativa e pode ser feita mediante protocolo junto à secretaria regional de Araraquara, até as 18h00 do dia 13 de julho de 2017. Já a

profissões é muito importante, pois as questões que enfrentamos são comuns a vários segmentos da sociedade. Desta forma é preciso trocar experiências e desenvolver estratégias conjuntas nas questões que nos unem. Temos feito isto sistematicamente com bons resultados. g Quais projetos têm pautado as ações da APM? Na fundação da APM em 1930 já constava na ata inicial seus objetivos: a representação do médico junto à so-

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eleição em pleito único está marcada para o dia 31 de agosto, quando os associados com direito a voto poderão comparecer das 8h00 às 17h00, na Associação Paulista de Medicina - Secção Regional Araraquara, localizada na Rua Voluntários da Pátria, 1478. A escolha dos candidatos para ocupar os cargos eletivos da APM (Capital) e AMB poderá ser feita no formato eletrônico (www.apm.org.br) ou via correio através de encaminhamento da correspondência para a sede da Associação Paulista de Medicina em São Paulo. O pleito 2017 terá início às 9 horas do dia 21 de agosto de 2017 com encerramento às 18 horas do dia 31 de agosto de 2017. g

ciedade, defendendo seus interesses corporativos bem como a defesa de uma medicina de qualidade à população. Estes objetivos permanecem até hoje e são perenes. O que varia são as estratégias que dependem do momento político social e econômico. Hoje nossas preocupações são: (1) O número excessivo de escolas médicas sem estrutura adequada de ensino, o que trará problemas na qualidade do atendimento em futuro não muito distante; (2) O financiamento do SUS, insuficiente para garantir o acesso a serviços

básicos para todos brasileiros, que não conseguem desfrutar dos avanços técnicos e científicos na área de saúde; (3) As relações de trabalho do médico tanto no sistema público quanto privado, com remuneração baixa e com contratos de trabalho precários, que não obedecem à legislação vigente. Diante deste cenário, a APM tem atuado em todas estas frentes, tanto organizando a luta dos médicos para superar estes desafios quanto para tentar junto aos poderes constituídos maior atenção ao setor saúde. g

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FORA DO CONSULTÓRIO

O psiquiatra que herdou, do pai e avô, o talento de artesão Embora os passos profissionais não tenham trilhado os mesmos caminhos que os de seus antecessores, foi através das mãos que o médico psiquiatra Rafael Teubner da Silva Monteiro pôde preservar uma tradição familiar, desempenhando com talento e criatividade a produção de variadas obras artesanais. Assim como seu avô, que além de ser funcionário da antiga Estrada de Ferro Araraquara (EFA) também atuava profissionalmente como marceneiro, e assim como seu pai, que colocava as habilidades manuais em ação nas horas vagas de bancário. “Meu pai gostava de fazer os brinquedos para os filhos, até porque a compra não era tão simples devido às dificuldades financeiras”, conta o médico, ao se recordar e também lamentar, principalmente, a perda de uma locomotiva artesanal feita ainda naquela época e que trazia detalhes minuciosos. Mesmo sem ter conhecido o avô, foi acompanhando o pai que, ainda na infância, Rafael tomou esse ofício como um hobby para si, a ponto de se familiarizar com as ferramentas e se tornar referência dentro da família, com sua presença solicitada sempre que surge a necessidade de se fazer alguns reparos. O gosto, que talvez pudesse ter se perdido com o passar dos anos, foi na verdade se intensificando. Já adulto, bastava um motivo especial para que as mãos talentosas do então jovem doutor logo entrassem em ação. “Aproveitando umas pranchas de madeira que estavam guardadas, fiz o primeiro guarda-roupa assim que casei”, destaca. Para o médico, não há dificuldade em inovar: “basta o livre criar para criar”, diz, fazendo referência ao pensamento do escritor Millor Fernandes, segundo quem “o livre pensar é pensar”. Aliás, a criação já era uma atividade rotineira para ele desde os bancos 12

Arquivo pessoal

O talento e a criatividade de Rafael Teubner da Silva Monteiro estão retratados em diversas peças distribuídas em seu consultório e residência

Monteiro, com objetos criados por ele, em seu consultório: “basta o livre criar para criar”

“Tenho dificuldade em produzir obras repetidas porque o pensamento e a visão evoluem e, ao tentar elaborar a segunda, haverá algo novo” escolares, devido a uma especial habilidade com desenho geométrico que levou Monteiro a desenvolver vários projetos que foram, depois, aproveitados por outros colegas. Com o passar dos anos, o exercício da medicina trouxe ao “artesão das horas vagas” uma condição financeira mais estável e, com ela, a possibilidade de investir mais em seu passatempo, com ferramentas diversificadas que resultaram em trabalhos mais criativos feitos em sua própria casa. “Mantenho uma pequena oficina com ferramentas mais avançadas, como um torno de bancada, uma lixadeira elétrica, uma fresa, entre outros equipamentos que vão dando mais amplitude aos meus trabalhos”, diz.

A busca pelo diferente e pelo impactante fez com que esse médico artista não deixasse seu talento e criatividade restritos apenas às produções em madeira, incorporando o manuseio de materiais diversificados, como PVC, vidro, metais e principalmente a iluminação, agora uma das principais características de suas peças. “Tenho dificuldade em produzir obras repetidas porque o pensamento e a visão evoluem e, ao tentar elaborar a segunda, algo novo será acrescentado”, ressalta. A presença de algumas simples peças em seu consultório, como prateleiras e luminárias, ou ainda algumas obras mais elaboradas, como o aparador de mesa e a cascata da piscina de sua residência, configuram a dimensão de sua habilidade nesse ofício artesanal e da criatividade sem limites do autor. “Quando minha mulher fala que o ambiente está parecendo um museu, isso é ótimo, porque é assim que eu quero”, brinca o médico. g Veja fotos das obras de Rafael Monteiro no site da APM Araraquara. acesse:

www.apmararaquara.org

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MEMÓRIA VIVA

As leis de imigração não foram obstáculos para que o italiano Giuseppe Aufiero começasse a escrever sua história em terras brasileiras. Afinal, bastou apenas o convite de alguém já residente no país para que a aventura da imigração se tornasse realidade. Foi ainda em 1929, por intermédio de seu tio homônimo, que o jovem então recém formado em medicina desembarcou no Brasil com a obrigação, segundo a legislação da época, de apenas revalidar o diploma para que pudesse exercer sua profissão, além de incorporar a palavra Sobrinho como sufixo do próprio nome. Em 1930, após regularizar o título na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o “Doutor Sobrinho”, como ficou conhecido em Araraquara, começou a atuar ao lado do tio em uma clínica já consolidada e bem estruturada na cidade. Dentre os vários pacientes dos Aufiero estava a família Lupo. E foi em meio a esses atendimentos que o jovem conheceu Henriqueta, uma dentre os dez filhos do patriarca Henrique Lupo. Com ela, construiu uma família que deu origem a dois filhos: Aldo e Liliana. Atuando como clínico geral e cirurgião, Giuseppe partia todas as manhãs para honrar com seus compromissos, além dos atendimentos prestados em uma ala da Santa Casa. A seriedade e a dedicação do médico foram marcantes em sua atuação também dentro da empresa da família, onde atendia centenas de funcionários como médico do trabalho. A inquietude e preocupação diante de casos que estavam fora de sua especialidade ou alcance levava Doutor Sobrinho a buscar ajuda de especialistas em São Paulo. Mas nunca se desincumbia: mesmo com o encaminhamento dos pacientes a outros profissionais, ele seguia acompanhando cada um dos casos até sua resolução. Considerado preciosidade na época, o telefone era um privilégio para poucos, tanto que, segundo a filha Liliana Aufiero, a família dispunha apenas de uma linha para ser utilizada Ano 19 | n.67 | Junho de 2017

Arquivo pessoal

Giuseppe Aufiero Sobrinho: a medicina como sabedoria

Busca por conhecimento e o gosto por viagens marcaram a vida do Dr. Sobrinho

Chegou ao Brasil em 1929, vindo da Itália. Casou-se com Henriqueta Lupo e foi profissional exemplar, como diretor clínico da Santa Casa e médico dos funcionários da fábrica de meias tanto para a clínica quanto para a residência. Por esse motivo, o pai não permitia o uso do aparelho após o almoço, período em que atuava no consultório. “Quando eu tinha que conversar com minhas amigas, não podia usar o telefone nesse período, e também ninguém podia me chamar do meio-dia às cinco da tarde”, relembra Liliana. Com uma vida mais reservada, após cumprir a agenda do consultório no período da tarde, doutor Sobrinho

dedicava as noites para a leitura dos jornais e estudos de assuntos variados. Aliás, sua curiosidade lhe trouxe uma bagagem de conhecimentos variados, apreciada principalmente por aqueles que podiam desfrutar de sua companhia. Uma oportunidade que o ginecologista Sidney Antonio Mazzi teve logo após concluir os estudos, graças a seu pai, que, além de amigo, trabalhou com o médico. E foi auxiliando nos atendimentos voltados aos funcionários da fábrica de meias que o Doutor Mazzi passou a ter o privilégio de usufruir de uma sabedoria que permeava a modernidade. “Eu chegava antes do horário de iniciar os atendimentos para que pudesse ter mais tempo durante o café, momento em que conversávamos sobre tudo”, destaca Mazzi. “Doutor Sobrinho era uma pessoa que, mesmo aos seus 80 anos, falava de novidades que ainda estavam surgindo”, completa. A busca pelo conhecimento e o gosto por viagens fazia com que o médico sempre reservasse em sua agenda um espaço para visitas a lugares e culturas interessantes, como a África do Sul e os países da Europa, como a Itália, sua terra natal, onde esteve com a esposa e os filhos em 1953. “Foi uma viagem longa e boa. Eu tinha apenas oito anos quando fui conhecer minha avó em Avelino, lugarejo próximo a Santa Paulina, cidade de meu pai”, recorda com saudades a filha Liliana. Diretor Clínico da Santa Casa de Misericórdia de Araraquara por dez anos, além dos mais de 40 anos de exercício no cargo de médico na fábrica da Lupo, Giuseppe Aufiero Sobrinho recebeu da Câmara Municipal de Araraquara em 4 de maio de 1982 o título de Cidadão Araraquarense. Em 13 de maio de 2013, uma homenagem lhe foi prestada pela Prefeitura Municipal de Araraquara, com seu nome atribuído ao Centro Municipal de Saúde localizado na Vila Melhado. Giuseppe Aufiero Sobrinho morreu aos 86 anos, em fevereiro de 1989, deixando dois filhos. g 13


EVENTO CULTURAL

‘Cinema, Conversa e Psicanálise’ tem nova temporada O auditório da Casa do Médico, sede da Associação Paulista de Medicina (APM) de Araraquara foi palco da programação do primeiro semestre do projeto “Cinema, Conversa e Psicanálise”, realizado em parceria com o Grupo de Estudos e Psicanálise de Araraquara (GREPA). A temporada 2017 teve início no mês de março com a exibição do filme “Meninos não choram” e comentários da psicanalista Suely Delboni. O filme “Malena” foi a atração do mês de abril e contou a análise da psicóloga e psicanalista Silvana Maria Bonini Vassimon. Em maio foi a vez da obra cinematográfica “Capitão Fantástico”, com a presença da psicóloga e analista Reichiana Susana

Zaniolo Scotton. Ainda dentro da programação, o público pôde conferir no mês de junho o filme “Relatos Selvagens”, com a presença da psicóloga e psicanalista Guiomar Papa de Morais. A programação do segundo semestre terá início no dia 4 de agosto, e segue mensalmente até novembro, com a exibição de longa metragens como “Cisne Negro”, “Ondas do Destino”, entre outros (ver lista abaixo). Os encontros são abertos ao público em geral e não apenas destinados a profissionais ou estudantes da área de psicologia e psiquiatria. g

Psicóloga e psicanalista Guiomar Papa de Morais (ao centro, na foto à esquerda) com o grupo organizador, durante sessão do evento em junho na Casa do Médico Dia 04 de Agosto - 19h30

LARANJA MECÂNICA (EUA/GBR 1971)

COMENTÁRIOS: Drª Maria Auxiliadora Campos, médica, psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto, docente aposentada da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Dia 01 de Setembro - 19h30

CISNE NEGRO (EUA 2010)

COMENTÁRIOS: Drª Maria Auxiliadora Borges dos Santos, psicóloga formada pela USP, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto e psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Dia 06 de Outubro - 19h30

ONDAS DO DESTINO (DMN 1996)

COMENTÁRIOS: Maria Letícia Wierman, psicóloga formada pela USP em Ribeirão Preto, mestre em Psicologia Clínica pela USP em São Paulo, psicanalista e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto. Dia 10 de Novembro - 19h30

NISE: O CORAÇÃO DA LOUCURA (BRA 2016)

COMENTÁRIOS: Paula Costa Franco Esteves, psicóloga clínica, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, especialista em terapia de casal e família. Promove cursos e grupos de estudos na abordagem junguiana.

EVENTO CIENTÍFICO

Casa do Médico recebeu simpósio de otorrinolaringologia A sede da Associação Paulista de Medicina (APM) em Araraquara foi palco no dia 10 de maio, do I Simpósio sobre Doenças Otorrinolaringológicas Comuns na Infância. O evento realizado pela Liga Acadêmica de Otorrinolaringologia da UNIARA (LAOTO) e pela Liga Acadêmica de Pediatria contou com a presença dos convidados especiais Dr. Marcos Marques Rodrigues e Dr. Ricardo Nasser Lopes. g

Médico responsável: Dr. Francisco Iba (CRM: 48.822)

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RECEITA MÉDICA

Ragu di Ossobuco CHICO OLIVI Chef de cozinha e sommelier Ingredientes 8 peças de ossobuco de cerca de 5 a 8 cm de altura 2 linguiças paio cortadas em rodelas grossas 300g de bacon picados em pedaços grosseiros 2 latas de tomates pelados ½ lata de extrato de tomate concentrado 2 cebolas roxas grandes picadas 1/2 cabeça de alho picada 250ml de caldo de carne (de preferência caseiro, ou de baixa concentração de sódio) 3 folhas de louro 4 bagos de pimenta jamaica Uma pitada de nós moscada, cardamomo, pimenta preta e páprica picante defumada (todas em pó) Ervas frescas a gosto: salsa, cebolinha, tomilho, alecrim... Modo de preparo Primeiro passo: Grelhe as peças de ossobuco na mesma panela que irá colocar a carne na pressão, selando os pedaços por inteiro. Em seguida, acrescente a linguiça, a cebola e o alho junto à carne para fritar até dourar. Após este processo, junte a mistura ao caldo de carne até cobrir todas as partes sólidas e junto coloque as folhas de louro e as especiarias para cozinhar na pressão durante 20 a 25 minutos, após a válvula começar a apitar. Fique atento ao tempo que irá deixar o ossobuco cozinhar na pressão, pois o tempo pode variar de acordo com o tamanho das peças, ou seja, quanto maiores,

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mais tempo na pressão necessitam. Segundo passo: Verifique se a carne está macia, mas antes do ponto de descolar do osso, acrescente o restante dos ingredientes, os tomates pelados e o extrato, e deixe o molho perder água e apurar. Este processo pode durar mais uns 40 a 60 minutos. Por fim, coloque as ervas frescas e finalize seu molho de ossobuco... a carne irá descolar do osso, e você poderá serví-la com massa, purês, polenta, e até mesmo com risoto de açafrão, coma minha sugestão abaixo. Harmonize com vinhos oriundos de regiões montanhosas, com baixa acidez, boa estrutura e volume de taninos. Minha sugestão são os Italianos feitos a partir da uva Nebbiolo, os vinhos Barolo, Barbaresco, Gattinara. Cervejas de sabor marcante, Bock, Belgian Golden Ale, Stout e algumas APAs ou IPAs, mas não as beba em temperaturas muito baixas, pratos quente, com cerveja muito geladas não combinam! g

Dr. José Barbieri Jr.

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Revista Casa do Médico (Junho 2017)  

Publicação trimestral da Associação Paulista de Medicina (APM) - Secção Araraquara

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