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UMA MENSAGEM AO MUNDO – Crônicas do Velho Alvino – ­


Wallace Fauth

UMA MENSAGEM AO MUNDO – Crônicas do Velho Alvino – ­

São Paulo 2010


Copyright © 2010 by Editora Baraúna SE Ltda Capa Luiz DeLuca Projeto Gráfico e Diagramação Aline Benitez Revisão Priscila Loiola

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________

F272m

Fauth, Wallace Uma mensagem ao mundo : crônicas do Velho Alvino / Wallace Fauth. - São Paulo : Baraúna, 2010. ISBN 978-85-7923-098-1 1. Fauth, Alvino Mylius. 2. Crônica brasileira. I. Título. 10-0460. 02.02.10

CDD: 869.98 CDU: 821.134.3(81)-8 05.02.10

017410

________________________________________________________________ Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua João Cachoeira, 632, cj.11 CEP 04535-002 Itaim Bibi São Paulo SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Ao meu av么 (In Memorian)


Sumário

PREFÁCIO Quem foi Alvino Mylius Fauth? . . . . . . . 9 Carta a Jaqueline Onassis. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 A Mudez do Velho - parte I . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 A Mudez do Velho - parte II. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 O Escatológico Vírus da AIDS. . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 O Caso das Batatas Inglesas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 Câncer. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 A Casa do Velho. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 A Gaiola e a Menina da Calcinha Ensaboada. . . . . . . 59 O Velho e as Pequenas Cousas. . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 Cimento não Estraga. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71 Minha Deusa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75 O Enterro do Cão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79 O Velho e a Escola. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 O Doce de Goiaba. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 O Velho e Seu Partido Político. . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 O Velho e a Religião. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 Segurança Acima de Tudo!. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105 O Vinho de Natal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 O Zero. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115 OUTROS OLHARES. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119 O Guarda-Vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121


Próstata . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Esconderijo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 Ainda as Chaves. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 Palavras o Vento Leva. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135 De Bundas Quentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 POSFÁCIO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141 EPÍLOGO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145


PREFÁCIO

Quem foi Alvino Mylius Fauth?

Meu avô. E isso talvez, por si só, explique muita coisa a meu respeito. Não há como negar o parentesco, apesar de, muitas vezes, desejá-lo. Não queria parecer que faço aquela coisa piegas de publicar um livro sobre o meu querido vozinho a fim de homenageá-lo e receber os cumprimentos da família. Não se trata disso. O motivo pelo qual ele está aqui não é meramente sentimental. Se assim fosse, razões maiores eu teria para escrever sobre minha mãe, minha mulher, meus filhos, e seria mais uma página familiar e sentimental. A causa, portanto, de o Velho (assim ele mesmo gostava de ser chamado) estar presente é que, antes de mais nada, ele é um personagem literário, uma figura excêntrica, cuja psicologia e modo de vida são de um fascínio tão fantástico quanto os contos de Gabriel García Márquez. Ou, no mínimo, uma pessoa de existência um tanto incrível.


Para se ter uma ideia, meu avô era daqueles sujeitos que enviavam cartas e telegramas ao Presidente da República e tinha certeza de que eram lidas. Nunca imaginou que houvesse algum tipo de triagem e que a maioria das cartas, normalmente, nem chegam ao conhecimento do presidente. Certa vez ele enviou uma carta para a presidência com soluções para o problema da inflação. Meses depois o presidente lançou um projeto de lei para a economia e o velho disse: – Nem citou minha carta! Canalha! Essa ideia foi minha! Seu Alvino era assim. Assistia ao Jornal Nacional e à novela das oito religiosamente. Aliás, seus horários eram cronometrados. Acordava às sete da manhã, tomava seu chimarrão e começava a escrever. Ia desse jeito até umas nove horas, quando comia algum pão com mel e café. Meio-dia em ponto era a hora do almoço. Depois, lá pelas treze ou quatorze horas, a sesta. Não tinha hora para acordar desse sono vespertino, mas nunca passou das dezesseis. Tomava outro chimarrão e voltava a seus escritos. Às dezenove horas começava o jantar, ligava a TV, acompanhava o jornal, a novela e algum programa depois da novela, se julgasse bom – o que era raro, na sua opinião. Dormia novamente, ansioso por mais um novo dia de trabalhos escritos que, segundo ele, iam “botar fogo no mundo!”. Ao conjunto de seus escritos atribuía o nome de Uma Mensagem ao Mundo. Poético e profético. Eram escritos teóricos. E o velho não tinha pressa. Ficava horas desenhando umas letras góticas, como se dedicasse seu tempo a preparar papiros medievais para a posteridade mesmo. 10


Em seus últimos dias, empenhava-se na preparação de uma “Escrita Fonêmica”. Tratava-se do desenvolvimento de uma escrita que fosse capaz de demonstrar, no papel, o som da fala e serviria para qualquer idioma. Com isso, qualquer um poderia pronunciar qualquer língua, mesmo que não a entendesse. Um sujeito poderia ler, em voz alta, um jornal alemão perfeitamente, mesmo que só soubesse, por exemplo, o português. A utilidade disso estaria no aprendizado de outras línguas, o que seria muito vantajoso, pensando filosoficamente hoje, em nosso mundo globalizado. E o velho vinha trabalhando nisso muito antes de se falar em globalização. É verdade que o velho Alvino sempre esteve à frente de seu tempo. Era um gênio que não teve oportunidade de expandir suas ideias, talvez por ser radical demais com seu modo antissocial de viver. Exemplo dessa genialidade estava no fato de ele ter criado uma teoria linguística em muitos pontos imbatível e séria. O problema é que Ferdinand de Saussure já havia chegado às mesmas conclusões no final do século XIX. Eu poderia dizer que o velho tinha copiado as ideias, mas tenho certeza de que ele nunca ouvira falar do tal linguista. Imagino se seu Alvino tivesse estudado em uma universidade, o que ele teria produzido! Desde antes da década de 60, o velho alertava para os perigos dos alimentos intoxicados com conservantes e outras químicas usadas para que se apresentassem mais bonitos. Falava até das batatas, que não queria mais comprá-las no comércio porque vinham envenenadas – não se conhecia muito o termo agrotóxico. Somente 11


hoje, quase meio século depois, inventaram a moda dos produtos orgânicos, talvez o único sonho de consumo do meu avô, se é que se pode dizer que ele tinha algum: produtos absolutamente isentos de venenos. O velho era praticante da ecologia muito antes de esse nome constar dos dicionários! ­– Tenho um dicionário que pertenceu a ele cuja palavra (ecologia) não está lá (Diccionario Contemporaneo da Lingua portugueza). Portanto, Uma Mensagem ao Mundo é uma janela aberta para o universo desse personagem que tem muito para nos mostrar com suas ideias e sua vida. Ele é uma daquelas raras e belas figuras formadas por um misto do que é excêntrico, louco e genial. A cada semana uma nova história do velho era registrada em uma página da internet que há muito já não está no ar. Preferi reuni-las em livro para que o velho não tenha a sensação de, mais uma vez, ter sido roubado. O livro inicia-se com uma carta de sua própria autoria à Jaqueline Onassis e foi copiada na íntegra com a grafia cuidadosamente estudada pelo velho. Não tentem encontrar erros, pois, segundo ele, não há. Wallace Fauth

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Carta a Jaqueline Onassis

Por Alvino Mylius Fauth, “O Velho” Rio de Janeiro (Brazil) Em 14 Fev 1975 Exma. Sra. JAQUELINE ONASSIS Paris – França Prezada Senhora! Infelizmente meu inglês e francês é fraco para lhe escrever. Pelo grego, pior ainda, embora possua sangue grego (por parte de Mylius). Esta carta visa a saúde de seu marido ARISTÓTELES ONASSIS. Acredito que ele mesmo poderá entender a carta com seus conhecimentos de espanhol, na Argentina. Tenho acompanhado as notícias sobre seu marido Aristóteles, na TV. Só estes dias deparei com a paralisia muscular progressiva. Não sou médico. Falo por experiência, porque doença igual já tive, embora não tão grave a ponto de não poder caminhar ou precisar ser hospitalizado. 13


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Eu mesmo descobri, em tempo, o meu mal, aliás, as causas dos males de que eu padecia. Primeiro foi o infeccionamento cúprico que me deixou completamente doente, com meus rins não funcionando, originado pelos dentes de ouro com muito cobre: cobre que vai se desprendendo lentamente, sempre e sempre, estourando principalmente com os rins e a bexiga; de um modo geral, o cobre ataca todo aparelho gênito-urinário. Tive também um infeccionamento cúprico com o amálgama de cobre, na obturação dos dentes com extravasamento dos canais: canais obturados até ao maxilar dos dentes. Eu mesmo o descobri. Só depois de extrair os dentes com o mau ouro (muito cobre) é que tive um pouco de melhora. Logo descobri então o amálgama de cobre, que me foi extraído com duas intervenções cirúrgicas nos seios do maxilar superior (ambos os lados). Aí tive uma melhora quase total. Conforme disse, o cobre ataca de preferência o aparelho gênito-urinário: rins, bexiga, ovários ou testículos. Deixa a mulher fria e o homem quase impotente. Talvez seu marido não sofra nada disso. Mas se tiver ouro na boca, é de desconfiar que o ouro seja inferior. Qualquer metal ataca sempre os músculos (a carne) por ser eletropositivo. O excesso de cobre se pode descobrir raspando com a broca um pouco do ouro dos dentes, num dentista, colocando o pó em pouquíssimo ácido muriático (HCl diluído), tudo numa xícara branca. Se o ácido ficar esverdeado, é sinal que a liga do cobre com ouro é muito forte (com excesso de cobre). O grande sinal do cobre se dá nas axilas e na região das virilhas (inclusive 15


Uma mensagem ao mundo - crônicas do Velho Alvino