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Terra nova Série: História de famílias



Osvaldo Pasqual Castanha

Terra nova Série: História de famílias

São Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda Capa e ilustrações Sopa Grafix Projeto Gráfico Editora Baraúna Revisão Priscila Loiola Diagramação Isaac Tiago

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ C341t Castanha, Osvaldo Pasqual Terra nova/ Osvaldo Pasqual Castanha. - 1. ed. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-767-6 1. Castanha, Osvaldo Pasqual. 2. Italianos - São Paulo - História. 3. Imigrantes - São Paulo - História. I. Título. 13-02059

CDD: 981.61 CDU: 94(815.6) -------------------------------------------------------------------------------12/06/2013 13/06/2013 ________________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Glória, 246 – 3º andar CEP 01510-000 – Liberdade – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Aos meus dois filhos, Bruno e Dante. Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas. Todos os rios correm para o mar e, contudo, o mar nunca se enche: embora chegando ao fim do seu percurso, os rios continuam a correr. Eclesiastes (Coélet). Ecl 1, 4-7



SUMÁRIO

I-PREFÁCIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 II-IMIGRAÇÃO: CONSIDERAÇÕES . . . . . . . . . . 22 1-Por que o Brasil necessitava dos imigrantes?. . . . . . 22 2-Por que as pessoas emigravam?. . . . . . . . . . . . . . 33 III-A IMIGRAÇÃO ITALIANA NO BRASIL. . . . . . 43 IV-FAMÍLIA CASTAGNA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 1-Descendentes de Domenico e Paulina - meus avós paternos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70 2-Sobre Domenico Pasquale Castagna. . . . . . . . . . . . 75 3-Sobre alguns dos filhos de Domenico e Paulina . . 81 4-A ocupação do oeste paulista - expansão cafeeira. 86 5-A vida na cidade de Tupi Paulista-SP . . . . . . . . . . . 94 V-A IMIGRAÇÃO PORTUGUESA NO BRASIL . . 110

VI-FAMÍLIA DOS SANTOS RODRIGUES. . . . . 118 1-Descendentes de Manoel e Carolina - meus avós maternos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118 2-A vida na cidade de Pacaembu-SP . . . . . . . . . . . . 121


VII-FAMÍLIA LUIZ E DELPHINA Meus pais . . . 134 1-Descendentes de Luiz e Delphina. . . . . . . . . . . . . 134 2-A dureza da vida na roça . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141 3-Sobre meus irmãos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 150 VIII-A IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL. 167 IX-FAMÍLIA KIMURA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 1-Descendentes de Tomoshigue e Oriê - avós paternos da minha esposa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 185 2-A vida no Brasil .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191 X-FAMÍLIA YAMAUTI . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201 1-Descendentes de Hissakiti e Tami – avós maternos de minha esposa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201 2-A vida em São Paulo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204 XI-FAMÍLIA TATSUMI E ROZA pais de minha esposa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 226 1-Descendentes de Tatsumi e Roza. . . . . . . . . . . . . 226 2-Entre Santo Amaro e Jabaquara . . . . . . . . . . . . . . 227 XII-FAMÍLIA OSVALDO E KAZUMI - Minha família. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 234 1-Descendentes de Osvaldo e Kazumi. . . . . . . . . . . 234 2-Minhas Memórias. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 235 3-Memórias da Kazumi. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 248 XIII-A IMIGRAÇÃO ALEMÃ NO BRASIL . . . . 258


XIV-A IMIGRAÇÃO ÁRABE NO BRASIL. . . . . 272 XV-ÁRVORE GENEALÓGICA ESQUEMÁTICA. . 285 1-Resumo Genealógico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 286 2-Descendentes de Domenico e Paulina. . . . . . . . . 288 3-Descendentes de Manoel e Carolina. . . . . . . . . . . 290 4-Descendentes de Luiz e Delphina. . . . . . . . . . . . . 291 5-Descendentes de Tomoshigue e Oriê. . . . . . . . . . 294 6-Descendentes de Hissakiti e Tami. . . . . . . . . . . . . 295 7-Descendentes de Tatsumi e Roza. . . . . . . . . . . . . 296 XVI-MEMORÁBILIA. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 297 1-Documentos – passaporte, certidão de desembarque, certidão de nascimento, de casamento e de óbito. . . . . 297 A - Família Castagna . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 297 B - Família dos Santos Rodrigues. . . . . . . . . . . . . . . 298 C - Família Kimura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 298 D - Família Yamauti. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 299 2-Tábua de parentesco. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300 XVII-BIBLIOGRAFIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 302 1 - Fontes Impressas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 302 2 - Fontes Eletrônicas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 307 3 - Fontes Orais. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 310


I-PREFÁCIO “Entender o passado em toda sua complexidade é uma forma de adquirir sabedoria, humildade e um senso trágico a respeito da vida”. Gordon S. Wood- historiador americano em The Purpose of the Past: Reflections on the Uses of History. Meu nome é Osvaldo Pasqual Castanha, sou o nono filho dos dez que tiveram Luis Castanha e Delphina Emília dos Santos Castanha. Meu pai, por seu turno, era o oitavo filho de uma prole de treze do imigrante italiano que aportou no Brasil em 18/05/1896, Domenico Pasquale Castagna, casado no Brasil com Paulina Sassioto. Minha mãe era a primogênita de uma família de 7 filhos dos imigrantes portugueses Manoel dos Santos Rodrigues e Carolina Emília de Jesus. Casei-me com Kazumi Kimura Castanha e tive dois filhos, Bruno e Dante Kimura Castanha. Assim me situo na árvore genealógica que ora registro em livro. Apesar de dedicar este livro aos meus dois filhos, o Bruno e o Dante, foi o nascimento do meu primeiro neto, o Theo, que me instou a terminá-lo. O levantamento da árvore genealógica da minha família foi iniciado logo após o nascimento do Bruno, em fevereiro de 1980. Comecei a coletar os dados a partir de então e fui aos poucos juntando informações aqui e ali, colhidas com pessoas da família. 10


Contudo, havia uma carência de dados muito grande, principalmente da parte da minha família paterna, devido ao pouco relacionamento que tive com a família do meu pai. Quando eu tinha 3 anos de idade, mudamos da cidade onde morávamos, ao lado de quase todos os irmãos do meu pai, e fomos morar nas terras do meu avô materno, localizadas em outro município da região. Apesar de a distância entre as cidades não ser muito grande, os meios de transportes na época eram escassos e caros, o que dificultava o contato. É fato notório que os membros de uma família vão se afastando assim que cada componente vai constituindo a sua própria família. Depois que isso acontece, é natural que cada um se envolva muito mais com a sua própria prole, principalmente quando os seus filhos crescem e se casam e os netos começam a nascer. A família do meu pai é um exemplo disso: quando eu nasci, em 1951, vários irmãos do meu pai, que conheci muito superficialmente, já estavam com quase 50 anos e já tinham o seu núcleo familiar próprio, com vários filhos casados e com muitos netos. Como já foi dito acima, meu pai era o oitavo filho, e eu o nono filho do meu pai, e esse fato provocou um distanciamento muito grande entre mim e parte dessa família. Tampouco conheci meus avós paternos; minha avó faleceu em 1935, e meu avô em 1940, ou seja, ela 16 e ele 11 anos antes do meu nascimento. Essa dificuldade aliada à faina diária contribuiu para que a pesquisa ficasse relegada a segundo plano, e os dados levantados dormitaram por mais de 20 anos em uma gaveta qualquer da minha residência. Ignorados, mas não

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esquecidos, pois quando me aposentei em 2003 me vi com tempo para retomar esse antigo projeto e me dediquei com mais afinco a terminá-lo. Fui à busca da memória da família, e o ano de 2004 foi muito profícuo, além de ter sido bafejado pela sorte, por ter conseguido, em fevereiro daquele ano, gravar uma conversa que tive com minha tia Giusepina Almicci Castanha (a tia Pina), que lamentavelmente veio a falecer 9 meses depois. Possuidora de uma memória formidável, relatou-me fatos e causos espetaculares que me ajudaram sobremaneira na elaboração deste livro e que por muito pouco essa viva memória, tão farta e com tantos detalhes, não teria sido levada com ela. Mesmo assim, tive muita dificuldade para levantar os dados do meu avô. Só com muito custo e muita pesquisa consegui juntar todas as pontas do novelo. A primeira vitória foi descobrir o seu nome completo, Domenico Pasquale Castagna, devido a uma particularidade bem específica dos costumes italianos. Até então só o conhecia como Pasqual Castanha, muito embora a tia Pina tivesse relatado que ele dizia chamar-se Domingos (tradução de Domenico para o português), mas esse detalhe passou-me despercebido. O mistério foi esclarecido por uma pessoa na Itália especializada na busca de documentos necessários para obtenção da cidadania italiana e que eu havia contratado para ajudar-me nessa empreitada. Explicou-me ele que na Itália vigorava o costume de o padrinho de batismo ter a prerrogativa de dar um nome ao batizando, e que este poderia ou não adotá-lo depois de adulto. Por fim, depois

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de intensa busca na província de Bérgamo, ele conseguiu obter a certidão de nascimento do meu avô, que pelo jeito não gostava do nome Domenico recebido do seu padrinho, pois jamais o usou em documentos no Brasil. De posse dessa certidão, e sabendo através da tia Pina que minha bisavó, a mãe do meu avô Pasquale, ficara viúva e se casara de novo na Itália com Francesco Colleone, consegui encontrar no Memorial do Imigrante a data de entrada do meu avô no Brasil. Domenico Pasquale Castagna chegou ao Brasil em 18/05/1896, quando tinha 15 anos, junto com sua mãe, Orsola, e seu padrasto, Colleone. A tia Pina chamava o meu avô, que era seu sogro, de tio, e isso a coloca como protagonista daquelas histórias de parentesco que só os da família entendem, e que deixa os de fora do ciclo familiar com cara de interrogação. A explicação não é tão complicada: a mãe da tia Pina era Emília Colleone, filha do primeiro casamento de Francesco Colleone, e embora ela não tivesse nenhum laço de sangue com meu avô, conviveu com ele como irmã quando o pai dela casou-se com a mãe do meu avô. Assim a tia Pina desde criança chamava o meu avô Pasquale de tio e continuou dando-lhe esse tratamento mesmo depois de ter passado a ser sua nora ao casar-se com um dos seus filhos, o tio Gustim. Faltava ainda conseguir a certidão de casamento dele, o que sempre resultava em uma busca infrutífera. Ora, tinha em mãos a certidão de nascimento do seu primeiro filho, o tio Pierin, registrado na cidade de Leme, portanto o casamento só poderia ter acontecido naquela cidade ou em outras localidades próximas. Busquei por

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essa certidão primeiro em Leme, depois por todos os cartórios da região. Recorri ao meu contato na Itália, pois meu avô depois de casado voltou para Bérgamo e lá permaneceu por 5 anos. Como ele foi com a intenção de ficar definitivamente na Itália, com certeza ele deveria ter de regularizar sua situação junto às autoridades italianas apresentando a documentação pertinente. Em vão. Apenas em 2011, graças ao fiel registro compilado e mantido pela Comunidade Mórmon, consegui descobrir e obter uma cópia da certidão de casamento de Pasquale com Paulina, ocorrido em 15/09/1900 na Paróquia São Manoel na cidade de Leme-SP. Apesar de esse casamento ter ocorrido após a instituição do casamento civil no Brasil por uma lei promulgada por Deodoro da Fonseca em 24/01/1890, o casamento deles só foi efetuado ainda à moda antiga, apenas na Igreja Católica. Os registros eram feitos à mão pelo pároco local, em um livro imenso de inúmeras páginas – o registro do casamento dos meus avós era o último da página 38. Tal livro, atualmente com as páginas amareladas pelo tempo as quais tive o prazer de manusear, está hoje sob a guarda da Cúria Diocesana de Limeira, que me forneceu a respectiva Certidão de Casamento. Cumpre-me apenas registrar o motivo que levou a Comunidade Mórmon, conhecida também como Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a pesquisar, coletar e manter tais registros. Josef Smith, o americano criador dessa igreja, afirmou ter tirado os fundamentos dessa religião de um livro escrito em placas de ouro recebido das mãos de um anjo chamado Moroni, que o visi-

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tou por três vezes. Depois que ele traduziu o tal livro para o inglês, as placas de ouro originais foram transportadas para o céu (sic). Contudo, a doutrina propugnada pelo Livro de Mórmon causou um problema aparentemente incontornável, ao afirmar que apenas os seguidores dessa religião, fundada com a publicação desse livro em 1830, teriam a salvação eterna. E os que nasceram e morreram antes dessa data, ou que morreram sem a oportunidade de partilhar suas maravilhas, seriam condenados, por outro lado, à danação eterna? A Comunidade Mórmon resolveu esse problema reunindo uma gigantesca base de dados genealógicos do mundo inteiro em suas enormes instalações na cidade de Salt Lake City, no estado de Utah, nos EUA, e se ocupa em alimentá-la com os nomes de todas as pessoas cujos nascimentos, casamentos e mortes foram tabulados desde o início dos registros. Toda semana, em cerimônias especiais nos templos mórmons, a congregação se reúne e recebe uma cota de nomes dos que partiram e pelos quais devem orar. As orações são um pedido a Deus para que aceite a conversão dessas almas para a crença mórmon, para que assim elas possam ser recebidas no reino do céu. É claro que o Livro de Mórmon, que segundo o grande escritor Mark Twain era “clorofórmio impresso”, não faz parte do meu credo, mas é fato irrefutável que a crença desses incautos e o trabalho hercúleo por eles efetuado resultaram em grande benefício para aqueles que buscam montar sua árvore genealógica, desde que não se importem, é claro, que os seus ancestrais tenham se convertido ao mormonismo depois de mortos (sic). Eu, como

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