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Superando as fases da vida


Superando as fases da vida Magnolia Teixeira Gomes

S達o Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda. Capa Monica Rodrigues Revisão Marcelo Hauck Diagramação Isaac Tiago CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ G176s Gomes, Magnólia Teixeira Superando as fase da vida/ Magnólia Teixeira Gomes. - 1. ed. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-846-8 1. Gomes, Magnólia Teixeira. 2. Mulheres - Brasil - Biografia. I. Título. 13-06717 CDD: 920.72 CDU: 929-055.2 ________________________________________________________________ 31/10/2013 01/11/2013 ________________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Glória, 246 — 3º andar CEP 01510-000 — Liberdade — São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Agradecimentos A Deus Pela vida, pelo lindo planeta Terra que me ofertou para, viver, amar e nele progredir. Obrigado, Senhor, pelos anjos do cotidiano que me ajudam a enfrentar com ânimo as vicissitudes naturais da vida.

A meus pais Argentina e Antonio Gomes (in memoriam), agradeço pela vida. Vossos carinhos, conselhos e sorrisos estão refletidos na minha alegria de viver. Votos de progresso e paz. Amo-vos. 5


À minha companheira de jornada Fernanda Marluce, pela suavidade da sua juventude, que expande este perfume angelical e transforma minha vida em felicidade. Que o mestre Jesus seja o farol a iluminar o seu caminho. Aos meus cardiologistas Dr. Rafael Flávio Gang e Dra. Ana Neri Rodrigues Epitácio Pereira. Parabéns pela dedicação, pelo carinho, paciência e competência dispensados a mim durante vinte anos. Agradeço-lhes pela vida!

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Pensamento Na história da evolução do planeta Terra, o homem primitivo agia pelo instinto, como meio de sobrevivência. Progredindo por meio da instrução, encontramo-nos dotados de sentimento. E o auge dessa sensibilidade é o AMOR, não o amor no sentido cotidiano do termo, mas o sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações sobre-humanas. O AMOR substitui a individualidade pela fusão dos seres, exterminando o egoísmo, causador das misérias sociais, dos preconceitos de etnias e raças. O AMOR, ingrediente que usamos para aceitar as pessoas como elas são, mesmo quando nos desapontam ou quando fogem dos ideais que temos para com elas, ou ainda quando nos ferem com palavras ásperas ou ações impensadas. Aprendamos a escutar com os ouvidos e com os outros sentidos: saber o que dizem os ombros caídos, os olhos irrequietos, a insegurança mascarada, a solidão encoberta, a angústia disfarçada, descobrir a dor de cada coração — é também AMAR. Ditoso o ser que tem capacidade de amar o seu irmão em sofrimento.

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Capítulo 1 Início de 2012, o Rio de Janeiro desperta chovendo torrencialmente. Eu, Magnolia, aos sessenta e três anos, da janela da minha sala, aprecio a beleza do Horto Florestal do Grajaú. Abaixo, várias residências em área de alto risco. O noticiário do serviço de comunicação local informa a população sobre os deslizamentos de alguns morros que soterram várias residências, sem registro, até o momento, de mortos e feridos. Com as malas prontas, devido a isso, adiei a minha ida para casa de veraneio, em Maricá, pois me encontro de férias. Inesperadamente, em pensamento, regresso à minha cidade natal. Tenho sete anos de idade por volta dos anos de 1956; estou na cidade de Estância. Um local maravilhoso, tranquilo, com muitas flores, denominado Jardim de Sergipe, apelido dado em gesto de carinho, no período do Brasil Império, por Dom Pedro II. A Rua Capitão Salomão destaca-se na paisagem turística, vemos os sobrados e as casas azulejadas encantarem a paisagem urbana, muitas delas tombadas pela Secretaria de Cultura do Governo de Sergipe. A BR-101 passa por dentro da cidade, que possui 65.226 habitantes e tem densidade demográfica de 82,69 habitantes por quilômetro quadrado, segundo IBGE 2012. 9


Essa cidade está localizada na linha Verde, estrada ecológica protegida pelo IBAMA, que liga Salvador a Aracaju. Cantar o hino da cidade é absorver sua beleza, o que me leva a um bem-estar súbito de renovação e paz interior. A sua letra revela o paraíso contido dentro dessa cidade. Estância, jardim de Sergipe! Rainha dos Abais! Estância, ô terra querida, (refrão/bis) Gentil guarida, Rincão feliz. Tu és princesa do Piautinga O rio-poeta que, nas noites de luar, Enamorado de reveste em prata e madrigais murmura, Para te embalar. Se raia o dia, teu povo em prece E a sua “Lyra” Centenária, imortal as tuas fábricas e a passarada fazem alvorada, num concerto original! Tens praças que ostentam palmeiras, Sobrados e igrejas tradicionais. E o mar debruçado nas praias, Contempla o vigor dos seus coqueirais. (Bis) Da indústria têxtil pioneira foste, E o teu esporte já foi pentacampeão.

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Deste a Sergipe “miss” a mais formosa E um modelar colégio, Quase setentão. És progressista e hospitaleira. São João o melhor E o mais famoso do Brasil! “Cantada em verso, cantada em prosa” Mãe primorosa, fértil ninho das águias mil! Primeira imprensa, áureo berço e esplendor da cultura, em Sergipe D’ÉI Rei! E a virgem Morena abençoa O teu povo, que faz do amor sua lei!  São Glórias tantas que o teu nome encerra, que inábil musa não as logra enaltecer! Heróis e Gênios te povoam a História, E todo estanciano Louva com prazer. Gilberto e Jorge, Coutinho e Gomes, Góis, Nascimento, Homem, Bessa e Capitão, Judite, Graccho e Camerino, Jessé, Quirino, Dome, Augusto e Salomão. Tão bela, garbosa e florida. Na face da terra jamais houve assim!

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E Pedro II batiza: “Estância, tu és Cidade Jardim!”. (Bis) Letra de Francisca dos Santos Assunção A praia de Abais, com vinte quilômetros de extensão, é o lugar mais popular da Cidade Jardim. Intocável pelo homem, quando a temperatura aumenta, é o favorito, recebe turistas de todo o país e moradores; o custo é mínimo. O esporte ao ar livre faz desse local um paraíso de dunas gigantes, que são um convite para essas atividades. A união do rio com o mar faz uma bacia natural é um ponto de encontro para o banho das famílias e suas crianças. A cidade possui a igreja Nossa Senhora do Rosário e um palanque no centro da praça, que tem um jardim de flores variadas que encantam os visitantes. As ruas são calçadas de paralelepípedos e há uma rodoviária. Sua economia é gerada pela agricultura de coco e laranja, pecuária bovina e ovina e pelas indústrias têxteis. A cidade é banhada pelos afluentes do velho rio São Francisco, sendo seus os rios Piauitinga e Piauí. Todos os habitantes se conhecem, todos se ajudam. Em trinta minutos de marinete, percorre-se a cidade. Comumente, vê-se passeio pela cidade de carroça. A visita dos ciganos fazia parte do local, seus acampamentos eram construídos às margens dos rios. Tinham hábitos diferentes, costumavam vestir-se bem, usavam joias, a quiromancia fazia parte da sua cultura. Nossos pais orientavam os filhos a não conversar com estranhos, esclareciam que eram pessoas sem residências fixas. Ao crescer, consigo perceber que esses grupos, denominados nômades,

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por preconceitos, foram excluídos pelos nossos historiadores e educadores. É necessário aprofundar conhecimentos sobre eles, pois trouxeram ao povo sua cultura e, de alguma forma, ajudaram no desenvolvimento de nosso país. Minha avó, mãe de meu genitor, que foi uma escrava trazida da África para o nosso país em um navio negreiro e vendida para um dono de fazenda de cacau, na Bahia, relatava a meu pai que ele era filho dela com esse dono da fazenda. Quando questionado pelos filhos sobre a vida dessa africana, nossa avó — como fora a viagem, como ela chegou àquela fazenda —, o rosto de meu papai expressava uma angústia profunda e ele respondia cautelosamente, buscando palavras que não acendessem o passado: *** Maria Lúcia, vossa avó, contou-me que, ainda adolescente, foi arrancada, por homens brancos armados, da Nigéria. Estava na agricultura com sua família quando foi conduzida para uma embarcação. Relatou que seus pais já a tinham prevenido dos riscos pelos quais aquela civilização estava exposta. Foi colocada no porão do navio, e lá se encontravam vários negros acorrentados. A viagem durou vários dias, era impossível computar o tempo, nunca saia daquele lugar em que a colocaram, um local escuro, a embarcação ia de lado para outro. Os amigos de viagem choram compulsivamente, faziam vômito. A comida era escassa. Muitos companheiros ficaram doentes e, ali mesmo, morriam. Os brancos retiravam os corpos e ninguém mais os via. Pela primeira vez, ouvia

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a palavra “escravo”, pois os companheiros de viagem diziam: vamos todos ser escravos. Contava também sua mãe sobre a felicidade que vivia na África. Era de uma família de agricultores, pais pobres, plantavam e colhiam, porém era amada e muito feliz. Ela relatou que certo dia a conduziram para cima do navio e percebeu que estava em terra firme. Entregaram-na a um homem branco e disseram: “Esta é sua.” Foi morar na casa grande e ajudava as demais escravas nos cuidados do lar. Citava ter conhecimentos de negros que residiam na fazenda, porém não tinha contato com eles. Sentia-se culpada por ter engravidado daquele homem já acima dos trinta e quatro anos. O filho nasceu em 1900. Essa história era sempre interrompida pelo pranto. Meu pai nunca relatou o nome do meu avô. O fazendeiro concedeu, após o nascimento de meu pai, a liberdade à minha avó e ao seu filho. Na certidão de nascimento do seu filho foi colocado o sobrenome daquela família, mas o nome do pai tinha sido ocultado. Fixaram residência na cidade de Itaparica, na Bahia; casa doada por ele. *** Não conheci essa mulher sobrevivente da escravatura, porém conheci o livro da sua vida. Um livro que ela não escreveu, não digitou, mas que foi exemplificado pela arte da superação por meio do relato de sua existência, estórias maravilhosas, contadas com muito orgulho, dessa negra valente, corajosa, trabalhadora incansável, que sonhava e incentivou o filho a estudar. Ele frequen-

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tou a escola e alcançou uma educação de segundo grau profissionalizante — tornou-se técnico em mecânica. Meu genitor se casou três vezes. A primeira esposa faleceu durante o trabalho de parto do último filho. Viúvo, casou-se pela segunda vez, mas a esposa não teve destino diferente: teve dois filhos e foi a óbito ao dar à luz ao derradeiro descendente. Novamente viúvo, resolveu sair do estado acompanhado dos quatro filhos mais velhos, Gel, Rosito, Dalva e Tonho Filho. Zé, o mais novo, ficou com a sua avó e manteve-se com essa deusa até a sua morte. Estância foi a nova cidade do interior escolhida. Meu pai ficou encantado com acolhimento do povo e fixou residência, adotando o lugar como sua terra. Empregou-se em uma fábrica de tecido e, pelos conhecimentos adquiridos na cidade grande, era chamado de mestre. Seus filhos, adolescentes e jovens dessa comunidade, aprendiam com ele a sua profissão de mecânico. Dono de uma comunicação e simpatia sem iguais, programava comumente novenas, benzia as águas dos convidados, e o povo dizia que as curava; coisa do baiano Mestre Gomes. E tudo acabava em forró. Em uma dessas novenas, aos trinta e oito anos, encantou-se por uma jovem, a Menininha, com dezessete anos de idade, filha de fazendeiros, com educação primária incompleta, a cultura comum da época, pois moça, naquele tempo, não podia estudar para não escrever para os namorados, relatava minha mãe. Apaixonou-se e se casou após três meses de namoro e noivado. Foi uma grande festa na pequena cidade, até banda na praça fez parte desse evento.

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