Quarteirao historico 15

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De Santa Rosa

São Paulo 2016



Neste livro De santa Rosa procura a quebra do paradigma da escrita, esta quebra de paradigma contextual da escrita pode-se ser observado logo na parte da apresentação do livro, onde nada diz sobre o referido e ao mesmo tempo tudo fala a respeito do livro em linguagem totalmente fora do contexto das apresentações das literaturas. Ele vem se desafiando a fazer um livro de fácil compreensão para os leitores. Tenta ele construir nova linguagem na sua forma de escrita, desafio que pode ser interpretado pelos construtores da linguagem como erros, mas que são usados por ele como artifício para impulsionar e dar rima, colagem e sequência da história. Assim nasce Quarteirão Histórico, livro feito para todo tipo de leitor sem ter a destinação de público-alvo, sendo seu intento a diversão através da leitura. A narração do contexto dá-se em ambiente hostil, vivido por Lalausa, seu principal personagem, que sendo analfabeto e inocente, revolve as entranhas da elite baiana que nega a ele o reconhecimento do seu feito. Todos que o veem viver fora do seu ciclo de vida tentam lhe tirar proveito sendo destes os piores os políticos das duas vertentes, que querem se apropriar da obra feita sob a tutela do narrado, narrado este que goza de prestígio e ascensão entre o proletariado que políticos tanto dizem defender com o mero interesse da apropriação indébita. Este se vendo com todo o privilégio da classe acima dele, tendo na organização onde se encontra inserido todo apoio que lhe é negado pelo estado legal, vive vida de regalo junto com todos inseridos nos projetos. Em suma, vive-se um estado paralelo ao estado legal, que resulta na diminuição de todo tipo de fraude e violência contra o ser humano.


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Patrícia de Almeida Murari

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ R694q Rosa, De Santa Quarteirão histórico / De Santa Rosa. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2016. il. ISBN 978-85-437-0502-6 1. Romance brasileiro. I. Título. 16-34641

CDD: 869.3 CDU: 821.134.3(81)-3

________________________________________________________________ 13/07/2016 15/07/2016 Impresso no Brasil Printed in Brazil

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Frutos da sinfonia, Tocada pela orquestra do amor, Melodia acoplada de vida e doação. Me doou, para fazer vocês felizes Para, Jorge, Maria, Rosana e Ricardo


O sol às três da tarde queima o juízo, frita a cidade. No meio do vapor que sai do chão, ela surge brilhante, a pele negra reflete toda beleza da tulipa, negra pérola a desfilar atravessando becos neste enredo, dessa gente cor de bronze que tem a dança no andar. Forjada do machado de Xangô, enfrenta o perigo com dança provocante. Requebra dentro da minissaia que mal cobre a bunda redonda com a divisória saliente que sobe e desce e enche o ar de tentação. Pelas vielas estreitas passa a deusa rebolando, roçando coxas, arrancando elogios dos pobres seres humanos, pobres infernizados mortais que se atiram no chão para serem pisoteados pela deusa, acreditam que ser pisados por ela é a cura dos seus males. No chão que ela pisa a inveja acompanha seus passos. Das janelas, portas, mulheres torcem os lábios, esbravejam, arrancam o ódio da oitava porta do fundo do inferno, atribuindo a tipos como ela a má sorte de terem sido abandonadas pelos respectivos amantes. Línguas ferinas que desbancam o rei pondo um plebeu no lugar, aprisionam o inocente deferindo-lhe a pena de morte, matam e fazem questão de segurarem na alça do caixão e choram mais que carpideira. Assim são as que se ocupam da vida alheia, 7


falsas, Judas, beijam a face da condenada. É cumprimentada ao passar pela mais vil de todas no tortuoso caminho na ida para trabalho: - Boa tarde, Paula, Deus acompanhe e proteja você no seu dia de labuta. Meias-palavras, duplo significado que são respondidos com graça e abstinência pela deusa: - Tarde boa terei, Conça. Assim Paula, a deusa, chama Conceição, uma mestiça de negro com índio de formas arredondadas, monumento esculpido a mão pelo criador da sedução, mulher de língua amarga, cobra que não perde tempo em definir o trabalho de Paula. Não tem dúvida do trabalho de Paula e afirma: “quem trabalha à noite é xoxota”. Adjetivando títulos a Paula como o de rameira da ladeira da Montanha. Fazedora de pista na orla e outros. Ri com as comadres ao espoliar a vida das pobres vítimas. No término da escadaria do Beco do Cocô, onde mora Paula, localiza-se o bar São Jorge, bar que abriga os verdadeiros mestres na arte da degustação da cachaça, homens de calo na garganta por onde o líquido sagrado escorre sem fazer ardência. Homens, mulheres e jovens com dialeto próprio, degustam diariamente da cachaça tendo raro momento de intervalo. O líder dos inchadinhos, profundo conhecedor da famosa incha-pé, vulgarmente conhecido como Língua de Veludo. O rei dos baiacus quando fareja o cheiro de Paula subindo o Beco do Cocô, suas narinas se dilatam assustando a todos, Língua deforma a face, as ventas sugam todo do ambiente estalando a língua como quem terminou de tomar uma boa talagada de bufubufu. Profere o mais puro poema de porta de bar por ele conhecido elogiando o tamanho da vulva e da bunda de Paula quando ela passa pela porta do bar. Já calejada com os elogios proferidos por Língua, Paula baixa a cabeça de um jeito meio displicente, meio inclinada do jeito do mais puro charme, sai requebrando, quebrando a volúpia contida nos amantes desta negra que se arrastam a seus pés, desbunde maior não tem quando por cima da microssaia mete os dois dedinhos na regada da bunda puxando o elástico da calcinha, faz o elástico o barulho fatal quando se encontra com a bunda. O tac feito pelo elástico gira a cabeça de todos 8


fazendo-os imaginarem travessuras mil se a deusa lhes concedesse uma noite em seu leito. Tonto, desequilibrado, com a cabeça rodopiando, segundos após a bela maldade feita pela deusa, ouve-se a voz do mestre dos baiacus, Língua de Veludo, com todo o vigor dos pulmões ressoando pela cidade o mais nobre elogio às ancas de Paula: - Que cu! Com este cu trabalha de orgulhosa. No final da linha dos ônibus no bairro do IAPI, Paula tem a calorosa recepção de seu confidente. O cobrador do coletivo que a leva todos os dias para o trabalho, o conhecido Da Fruta. Sarará de traço fino, homo-sexual que foi descabaçado aos doze anos por seu padrasto e expulso de casa pela mãe que viu no filho a mais forte e vil concorrente nos segredos de como cativar um homem e mantê-lo fiel aos desejos de quem o possui. Aceito pelo pai, homem rude, de pensamento preconceituoso, que se deixou levar pela meiguice do filho e às vezes nos momento de intimidade pergunta ao filho suas dúvidas e curiosidades sobre o terceiro sexo. Fica espantado com as respostas. Admira o filho em segredo por ser de outra estirpe, de um mundo que aos seus preconceituosos olhos parece-lhe insano, impuro. Agora, através do filho vê se revelando a sua frente este mundo que pode ser a salvação das muitas agruras enfrentadas pela humanidade. Paula cumprimenta Da Fruta, este anseia para lhe contar a grande novidade como diz ele em sua linguagem, um babado novo: - Mulher! Ontem arrasei. Levei um bofe lá para casa e dei de todo jeito. Menina, perdi a chave do cu. Quando painho percebeu minha agitação, euzinha tava rodando mais que Caboclo na hora do barravento. Veja senhora, fiz de um tudo para painho não ver o bofe que escondi no meu quarto. De nada adiantou, o bofe quis ir ao sanitário e esbarramos em painho. O bofe de branco ficou transparente, e eu rezei a todos os Orixás, pedi desculpas pelas faltas cometidas e entreguei a alma ao criador. Apesar de que desde o meu retorno painho tá uma seda, eu nunca vou me esquecer do barraco que ele armou quando soube da minha opção sexual, foi um Deus nos acuda, foi me pegar dentro do colégio Polivalente. Fechou o Pau Miúdo por mais 9


de três horas, acabou sendo posto a ferros, amarrado, enjaulado como fera por mais de semanas. Foi essa a primeira coisa que veio na cabeça, entreguei a alma ao criador. Imagine a cena, painho e o bofe de cueca, e euzinha de calcinha vermelha, os três parados no corredor, um olhando para o outro sem ninguém falar nada, só olho a movimentar-se sem ter onde se fixar. Para meu desatino, painho chamou o bofe para conversar, me pediu calma e me fez servir a sopa que fiz com a sobra do cozido do almoço para eles. Senhora, me senti uma donzela pega em travessura por seu pai. Que lindo foi painho a conversar como gente educada, civilizado. Fiquei radiante, sonhadora, até imaginei se o bofe seria capaz de me pedir em casamento para poder passar a noite comigo. Sei que é só sonho, mas me sentir mocinha tendo o pai descoberto o mau passo e chamado o responsável para assumir o erro cometido. Isso tudo aumentou meu tesão, as pregas do cu, isso é se que ainda resta alguma, se enrugavam pedindo logo a penetração, não aguentava de tanta ansiedade. Painho terminou a conversa com o menino e só recomendou para ele não tocar a mão no facão velho e enferrujado que ele guarda atrás da porta, essa coisa de velho com seus brinquedos. Após o susto, a noite foi dos delírios. Imagine, senhora, o bofe poetizando, suplica, chora. Menina nem sei como consegui chegar na hora, até agora não encontro o comando das pernas. Braços entrelaçados continuam o breve passeio até o fim da fila. Aguardam a hora da partida do coletivo, entre um cochicho e outro revelam segredinhos, riem, jogam no ar a satisfação de viverem livres e felizes. Vão sacolejados na velha lotação, rindo, jogando felicidade no ar, quebra o sisudo dos rostos insatisfeitos que propagam a insatisfação da péssima qualidade do transporte, sujo, lotado. Fim da viagem para Paula, esta salta na Baixa dos Sapateiros, ganha a rua Das Flores em direção ao Pelourinho com seu molejo, esse requebro que só as baianas têm, essa graça de requebrar assim como se equilibra lata de água na cabeça pela ladeira escorregadia, esse sobe e desce da bunda que parece chamar o passante para safadeza. Sobe o largo do Pelourinho chegando à Praça Quincas Berro D’água, 10


suada soltando, seu cheiro natural de jambo, jambo incrustado, negro, nesta cor da pele, pele e suores juntos perfumando o ambiente. Trabalhadora dedicada do restaurante Cartão Postal, troca dois dedos de prosas com a clientela, na sua maioria homens a sondarem, rodeando, rodilhando feita cobra à espera da hora certa de dar o bote na presa. Paula traz todos eles a seus pés, escravos dos encantos desta deusa negra, negra filha de Oxum que assume sua função no trabalho em devaneio com pensamentos a mil da feliz vida. O agito das noites soteropolitanas são contagiantes. Nos terreiros de candomblé os atabaques dão o tom das oferendas aos Orixás. Essa religião onde se mistura com vida do imaginário, mistura de sagrado e profano, miscelânea na musicalidade pelos bares, sacro, profano, miscelânea na culinária, sendo as moquecas e acarajés os mandatários deste reinado. Precisa-se de prepara atlético para aguentar o repuxo. Boêmios catedráticos, formados nas Universidades do mercado das Sete Portas ensinam com toda picardia de grão-mestre a lição aos novatos: - Ilustre discípulo; beba mingau de cachorro pela manhã no desjejum e não dispense um bom cuscuz de carimã, pirão de mocotó ou escaldado de caranguejo para o almoço, no jantar, jabá com cuscuz de milho e tapioca e o mais importante, isso nunca esqueça, antes de sair uma boa colherada de óleo galo, colher de sopa das grandes. A afirmação desses cadedros, especialistas em cachaça e noitadas mil, é que não exista homem que não aguente solver litros do líquido precioso, dizem esses profissionais que pode até ingerir mijo do diabo que não cai. O mercado das Sete Portas abriga na madrugada o seleto público de garçons e outros trabalhadores da encantada noite baiana, que após jornada extenuante congregam-se com cerveja servindo de companhia codorna, pirões e os afrodisíacos caldos para levantarem o moral e tudo mais que seja necessário. São caldos de sururu, bode, feijão, lambreta, camarão de todos os tipos e variedades para o mais aguçado paladar. Dentro deste contexto do largo das Sete Portas está abrigado de frente para o mercado o bar Beirute, sendo de propriedade de Galego. Sendo este o primeiro estabelecimento a atender vinte quatro 11


horas em Salvador. Este bar é o abrigo de Lalausa e seus aceclas, reunidos para comemorarem mais um ano de união. Levantam brindes e relembram o pacto que feito em nome da vida. Da Fruta, como sempre espontâneo, como é de seu natural, relembra a triste circunstância desfavorável em que foi feito esse laço de amizade: - Vem Lalausa pelo Largo do Tanque, com seu andar cambaleando, assim com se ensaiasse novo passo de dança neste local que é sua vida, Largo do Tanque, seu reduto, onde passa noite de adoração às estrelas com seus amigos de infância, os poucos amigos que lhe restou. Alheio a toda poesia em volta um desajustado social, ávido de amor, sedento por justiça, não entendendo o que fez sua mãe para pagar tão alta pena, revoltado aplica um golpe na despercebida senhora, assustada, apavorada, grita para ser socorrida com toda força do pulmão, pega ladrão. Mas o desajustado é um garotão roubou a distraída, o soldado de polícia que explora os comerciantes locais, passa e ouve o desesperado apelo, olha na direção da esquartejada de seus pertences e vê um negro horrendo a poucos metros depois da vítima, parado, estático. Negro e feio, se não fosse ele o ladrão passaria a ser, não tem dúvida o soldado sobre o autor da façanha, em ato heroico, covarde, saca o revólver e rende Lalausa, algemado, humilhado, envergonhado, o negro curva-se ante a pesada mão da descriminação. Mas aguerrido, acostumado ao debate, Eduardo, um jovem negro de mais ou menos um metro e meio, pacifista, observa toda movimentação e percebe a injustiça que será cometida com a prisão do negro Lalausa. Intervém junto ao policial a favor de Lalausa. Fala por ter presenciado todo fato e isenta Lalausa da culpa do roubo. Foi só o tempo de terminar seu depoimento para sentir o ouvido esquerdo zunindo com o telefone aplicado pelo agente da lei e a acusação de ter a associação com o marginal detido para aplicarem este tipo de golpe na redondeza. O agente da lei vangloria-se da prisão e relata os dias de perseguição a dupla que vinha tirando o sono e o sossego dos comerciantes local. Presos, autuados em flagrante delito passaram-se três dias para serem ouvidos pelo delegado. Eduardo foi solto, Lalausa foi enviado para casa de custódia e detenção provisória, mais conhecida pelos seus assíduos frequentadores como a casa de tia Dete. 12


Inconformado, Eduardo desce a ladeira dos Gales, passa pela rua Djalma Dutra aportando direto no bar Beirute. No fundo do bar, jogado, mal humorado, Eduardo toma grandes goles cachaça, raivoso promove várias seções de espancamento contra o balcão. Bozó vê o desespero do homem e pergunta em tom bem humorado para descontrair o desesperado, o que tinha lhe causado de tão grave o móvel para ser duramente espancado com tanto vigor e raiva. Bozó, o advogado, isto é, mais cachaceiro que advogado, ouve o relato de Eduardo. Emocionado Bozó promete ajuda jurídicas ao réu sem cobrar honorário, tomam goles de cachaça por conta de Eduardo. Bêbedo, irado, Eduardo sai às quedas pondo em dúvida as qualidades jurídicas de Bozó e duvida até que ele seja advogado, pensa que é ele mais um aproveitador, desses que ficam postados nos balcões à espera que algum cliente lhe pague um gole de cachaça. Ruma pela avenida J.J. SEABRA avança para o terminal do Aquidabã, bailando no asfalto, bêbedo, embriagado, raivoso, cego pela raiva é atropelado. Humberto, o motorista do veículo atropelador, homem de porte avantajado, voz rouca, mais rouca fica com o descontrole do seu dono com o acidente. Humberto é acolhido por Da Fruta que testemunhou quando a vítima se atirou de encontro a seu carro, como suicida em ato a ser consumado. Da Fruta serve de testemunha e ajuda Humberto a socorrer a vítima. Vendo o estado desesperador de Humberto, Da fruta tenta descontrair o homem falando com seu jeito moleque do membro descomunal do atropelado. - Homem olha só para o tamanho deste cacete, este negrinho não pode morrer agora, veja esta ferramenta, mole tá deste tamanho, imagine o tamanho disso duro e a chapeleta deve ser dessas que entram rasgando, tenho que conhecer este negrinho na intimidade. Humberto sorri, sem graça, preocupado com o estado da saúde do atropelado. Eduardo recobra a consciência, pede desculpas aos rapazes pelos transtornos. Narra o acontecido no Largo do Tanque até a saída do bar, como quem pede desculpas ao mundo pelo mal causado, sem ter poder para defesa do inocente. Os dois ficam solidários a Eduardo, que só se animou quando Da Fruta confirmou ser Bozó advogado, 13


mais cachaceiro que advogado, porém advogado. Marcam para encontrarem-se no bar Beirute a fim darem suporte ao advogado no que for necessário e serem solidários a vítima da injustiça, Lalausa, visitando-lhe, servindo-lhe de conforto ao desesperado nesta difícil hora. No julgamento a defesa feita por Bozó arrancou aplausos. A plateia foi ao delírio, comentam e perguntam na audiência qual a fonte inspiradora do causídico para tão perfeita defesa. A realidade é que o processo destaca-se pelas falhas. Não tem nome da vítima, sem testemunha que tivesse presenciado o ocorrido, a confissão tomada sem a presença do advogado, ou pelo menos o nome do agente policial que efetuou a prisão e encaminhou o réu para delegacia. Sem estas evidências, Bozó, certo da vitória esbanjou na falação como se este processo fosse lhe redimir perante a sociedade. Quando o corpo do juri entregou a decisão ao juiz, e este proferiu a pena de três anos em cárcere, regime fechado com atenuante de seis meses no regime especial sem comunicação, Bozó fechou o tempo no foro Rui Barbosa, brigou, xingou, partiu para cima dos jurados. Contido pelos meirinhos, foi preso e fez companhia ao seu cliente por três semanas. Após o fatídico julgamento coisas tenebrosas ocorreu na imaculada casa das leis. Pela manha o odor na santa casa de punições tava insuportável, obrigando aos ilustres baluartes das leis a suspenderem o expediente. Mas segundo relato das sentinelas, que na madrugada da injustiça cometida com Lalausa, o túmulo de Rui Barbosa tremeu por toda noite clamando por justiça, dizem os que viram e ouviram que a lapide rachou e da abertura saia sons que juravam ser a voz do finado, discursando, a pedir respeito pelo seu nome, clamando por justiça pela injustiça feita. A esperança nutrida por Lalausa foi-se. Revolta, agora significa Lalausa. Risca da sua vida toda parte afetiva, todo respeito às leis, rompendo com sociedade. Temendo pelo descrédito que ouviram do réu, os quatro a esta altura já amigos, reveza-se nas visitas ao negro. Servem de acalento para alma. Envolvem o prisioneiro com laços de afetivo, dando esperança ao encarcerado para com a vida. Meses a fio, todos os dias das visitas, lá se encontravam para 14


levarem amor, afeto, esperança e alguma comidinha bem diferente. Adoçando o paladar, saboreando e nutrindo a esperança da vida. Soltura. Canta o agente penitenciário o nome de Lalausa, grita ao negro que chegou sua liberdade. A soltura, na porta do complexo penitenciário da Mata Escura desde a madrugada, os quatros aguardam ansiosos, a cada movimentação agitavam-se, sonharam com este dia, vivenciaram o início do pesadelo, agora querem dar o merecido fim. Lalausa, a estrela do espetáculo por assim dizer, aparece na porta do presídio sendo abraçado por Eduardo. O ex que não merecia ter sido detento deixa rolar sem controle pela face uma lágrima, que logo se transforma em choro convulsivo, a perguntar aos quatro o que tinha feito para tão dura pena. Reconhece que foi rude após o julgamento e confessa a sua falta de coragem para o banditismo. “Sem terem palavras se abraçam, choram e fazem um pacto pela vida, cinco vidas em uma.” Lembranças reativadas por Da fruta fazem lágrimas mudas rolarem pelos rostos, apertam os lábios afirmando estarem mais unidos que nunca pelo pacto que feito pela vida. Neste clima de nostálgico, Paula aparece na porta do bar, faz sinal para Da Fruta. Indo de encontro rápido para saber o que ela quer. Fala-se rápido. Da Fruta retorna à mesa, expõe a situação da menina para o grupo. De imediato Lalausa oferece companhia e segurança à moça até o destino dela. Ainda embriagado pelas lembranças Lalausa não percebe o jambo maduro, rajado pela ação do sol e vento, escorrendo o néctar pelas rachaduras e pele, exalando o cheiro doce, doce fruto pronto para ser degustado. Seguem calados sob a fina chuva que logo se transforma em temporal. Correm para abrigarem-se na cabine de um banco vinte quatro horas, que fica na parte baixa da ladeira dos Bandeirantes. Displicente, ela torce a barra da bata molhada, não nota que despertou o adormecido parceiro de caminhada. Despertado, acordado, ele olha os reluzentes seios expostos sob o fino tecido de algodão. Tenta desviar o olhar. Impossível, não consegue olhar em outra direção. O desejo invade todo seu ser. Devora a ninfa com os olhos do desejo. Percebido 15