Oskolu 15

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São Paulo 2017

Ilustração: Adriana Zanardi



Copyright © 2017 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa

Adriana Zanardi

Diagramação

Editora Baraúna

Revisão

Patrícia Amurari

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ L38o Latif, J. Oskolú : o príncipe lunar / J. Latif. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2016.

ISBN: 978-85-4370-738-9 1. Ficção brasileira. I. Título.

16-38426

CDD: 869.3 CDU: 821.134.3(81)-3

________________________________________________________________ 07/12/2016 12/12/2016 Impresso no Brasil Printed in Brazil

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Dedicatória

À minha filha Sita pela inspiração de “Lira”, e a minha esposa France, pela força do começo ao fim de “Oskolú”.

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Oskolú (O Príncipe Lunar) Parte 1

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Capítulo 1º

– Agora escute! – A voz do homem soou sonora, branda e firme; tinha um quê de autoridade não proposital e uma insinuação natural de encerramento de tema. – Você – continuou persuasivo – já fez o seu inútil trabalho, buscou incansavelmente por vidas sem conta, esgotou a sua parte só para reconhecer, enfim, que o seu esforço não leva a nada, a não ser ao reconhecimento de que não há sentido em buscar, pois não há nada a ser atingido ou alcançado! Ouça, o buscador é o buscado! Deixe que isso penetre profundamente em sua consciência! Agora a fase é a do não esforço, relaxe, mantendo firme atenção nos acontecimentos externos e internos, vivendo desprendido e natural! A voz do sábio, ao dizer isso, escorregou para o tom suave que seus olhos translúcidos e levemente gatinhados sempre irradiavam; depois, passando de leve o braço pelos ombros do rapaz, levou-o até a porta do templo e disse com um laivo de doçura que deixou o jovem a ponto de chorar: 9


– A entrega é o não método, e só ela funciona! Vá e cumpra seu papel, não escolha! Essa última assertiva, não escolha, foi na verdade uma ordem de mestre para discípulo, pois o jovem príncipe Oskolú tinha diante de si um desafio, que era por si só difícil: pôr-se à frente do exército do seu reino e defendê-lo contra a ameaça de povos do ocidente, que há tempos vinham se armando e tramando nefastas alianças, na ambição de possuir e saquear reino tão grande e rico como Ángoras. Mas era-lhe doloroso uma atitude guerreira... Sim, fora treinado em todas as artes conhecidas do seu tempo, sem menoscabo das artes marciais, nas quais mostrou excepcionais qualidades, embora fosse de índole mansa e tranquila, inclinado que era à vida contemplativa, ao retiro e à prática da meditação. Agora, como príncipe herdeiro, cabia-lhe pôr-se à frente das tropas imperiais, já que o pai, depois de longo reinado, retirar-se-ia, como era tradição, para o Monte Silêncio, no cultivo interno em meio a paz e harmonia da natureza. Quando em época das grandes festas no reino organizavam-se rodeios e combates simulados entre os jovens em idade para tal, Oskolú sempre fora concitado pelo pai a participar ativamente das brincadeiras e jogos, mas principalmente das simulações de combate. Oskolú, nas primeiras vezes, sentira-se tímido, ao mesmo tempo excitado com a novidade. O fato de medir força e destreza, além de arrojo e coragem com os melhores rapazes do reino, era-lhe grato, não para 10


ver quem eram os melhores através de tola competição, senão para buscar maior estímulo para os seus rotineiros treinamentos marciais. O príncipe, obediente que era à sabedoria que sabia possuir o pai, passivo e cordato ia e deixava ver a todos como era ágil e forte seu corpo, e perfeito seus instintos e reflexos na arte de combater. Modesto e delicado, o nobre rapaz nunca se vangloriava quando o adversário não lhe estava à altura; pronto estava, igualmente, a reconhecer as qualidades e as virtudes deste. Por isso era respeitado pelos oponentes, os quais demonstravam se sentirem honrados quando eram eventualmente derrotados por tal cavaleiro. Mas Oskolú, embora ocultasse ao pai, sabia que sua natureza era quietista, nada afeita aos desígnios do soldado. Contrariamente, sabia, a vida calma e recolhida do asceta é que o atraíra sempre. Um dia disse isso mesmo ao pai. O rei fitou seriamente seu amado e único filho e puxando-o a si, como sempre gostava de fazer, estreitou-o e disse: – A paz é o apanágio da nossa dinastia; nosso povo ama a ordem e a tranquilidade; aqui a guerra é um assunto estranho às nossas conversas, muitas gerações nasceram e se foram sem sofrer os males e inquietações que ela traz! No entanto – prosseguia o consciente monarca – as artes marciais são cultivadas entre nós desde épocas imemoriais: os mansos não podem chegar à indolência de se deixarem subjugar e serem cruelmente explorados; têm que saber se defender! Por isso tivemos o cuidado de cultivar entre nós 11


as chamadas artes marciais. Temos exímios mestres nessa matéria, e cuidamos disso com zelo. Como você vê, estou ficando velho, prestes a lhe passar o trono, e ainda hoje não descuro das minhas práticas com as armas, ofício, aliás, saudável e estimulante. Um dos maiores deveres de um monarca é proteger seu povo, garantindo-lhe a integridade e o bem-estar. O exemplo vem de cima. O rei tem de ser o mais bem preparado guerreiro! Reinando se faz o preciso, tudo a bem dos súditos, mesmo a nefasta guerra! A vida é insegura, a insegurança reina, e cada homem, no ofício que lhe cabe, deve dar pleno e perfeito desempenho dele! O rei responde, não escolhe, cumpre o seu ofício prontamente, não vacila, não se leva em conta! Se chamado a ser juiz numa causa, avalia, pesa, esquadrinha, ausculta, sente, consulta e com o máximo de precaução sentencia; é economista, diplomata, sacerdote, conselheiro, e quantas mais funções seja necessário, buscando desempenhá-las o mais impecavelmente possível! Ora, também a guerra acontece... Então o rei é um guerreiro! Põe-se à frente dos seus e vai à luta, sem ódio, sem ambições, sem motivações inferiores, veladas muitas vezes por desculpas e pretextos vergonhosos e descabidos, tais como levar cultura e civilidade a outros povos, quando não horrorosos credos! Oskolú ouvia o pai atentamente, sabia que não podia perder uma sequer das suas palavras; bebia-as com veneração e respeito. – Mas – prosseguia o sábio rei sem afetação – quando o reino é ameaçado, primeiro busca evitar o conflito 12


por todos os meios, e se isso se mostra impossível, ele, o regente, é o primeiro a levantar sua espada e avançar! Agora essas palavras sábias e justas do pai bailavam-lhe na memória, seguidas das últimas do Mestre: – Vá e cumpra seu papel, não escolha! Oskolú, deixando na porta do templo o Mestre, caminhou lentamente até o mirante que permitia ver embaixo a capital do reino e as vastas terras que eram o seu domínio; suspirou fundo ao divisar à esquerda o Monte Silêncio, onde sabia estarem neste momento muitos dos seus amigos em retiro, na vida tranquila e rotineira dos monges, na meditação que traz o silêncio interior e a quebra de todas as ilusões. Depois desviou os olhos mais a oeste, donde vinha a ameaça de invasão e sentiu chegar a si a voz do pai e do Mestre; levou instintivamente a mão ao cabo da espada, a acarinhá-la pensativo e resoluto, sentindo que uma energia nova o buscava e invadia-lhe o coração, dando a seus olhos o breve cintilar de um relâmpago. Veio-lhe então à mente, claras e precisas, imagens de sua primeira experiência de expansão de consciência, aos dezesseis anos, (tinha agora vinte e cinco) na casa florestal do pai, onde ele desde menino se recolhia para estar só consigo e a natureza: Era de manhã e ele descia em passos leves e tranquilos – fazendo-a balançar – a delicada rampa de couro cru trançado que ligava ao chão o alto alpendre da sólida casa florestal. Príncipe querido, filho único do rei, homem que ao empunhar o cetro ainda muito jovem já mostrara que trazia consigo a consciência legítima da função de um 13


soberano, que para ele, mais que tudo, era ser o rei o pai do povo; que a sua inteligência era instrumento dado para cumprir essa rigorosa e bela função: cuidar do povo, desveladamente, como o honesto pastor ao rebanho que lhe coube. O robusto monarca, pois que era homem alto e vigoroso, trazia no rosto expressão tão acentuada de nobreza, que uma aura luminosa era invariavelmente vista em torno da sua soberba e bela feição; de calma inalterável e natural firmeza, tratava dos assuntos do reino com rara sabedoria. O filho era o seu orgulho; sabia-o superior desde o primeiro olhar, além do que, na véspera do seu nascimento, tivera um sonho que foi um bálsamo para o seu coração, que, aliás, já se inquietava pela vinda de um herdeiro, a quem pudesse, sem apreensões, passar as rédeas do seu tão amado reino: Sonhou que estando em sua sala de leitura, sozinho à noite, ouvira um grito alto e vibrante de pássaro... A grande janela, virada para o oriente, estava aberta para um céu claro, luminoso, a piscar miríades de diamantes azulados. O monarca, ouvindo o grito, ergueu-se, foi à janela e viu uma forma alada voando em direção ao castelo. Percebeu que o pássaro trazia uma aura dourada em torno de si e era de extrema beleza, todo o corpo recamado de penas multicoloridas, de longa cauda e soberba cabeça de falcão. O pássaro, ao vibrar o terceiro e harmonioso grito, já estava passando sobre a janela onde o rei, atônito, estava, e das longas garras, ornadas com anéis faiscan14


tes, deixou cair pequeno invólucro, o qual o rei, no sonho, apanhou instintivamente com ambas as mãos. O pássaro rompeu por sobre o castelo e sumiu... A noite fez-se mais clara; uma grande estrela aproximou-se e encheu tudo o que se podia ver de brilhante luz... Um galo cantou longe em enérgica voz e logo outros irromperam, um após outro, em maravilhosa sinfonia campestre por todo o reino. Mudo de espanto, trêmulo de emoção, o bom e justo homem olhava alternadamente a caixa em suas mãos e a noite que vibrava em doce repuxo de azulíssima luz... Depois, dando por si, levantou reverente a artística tampa, e lá estava: um grande diamante, que exposto atraiu para si todo o brilho da noite, ao mesmo tempo em que a fez brilhar mais... O rei acordou então com branda carícia da esposa sobre a fronte. Olhando-a carinhoso pousou a mão sobre sua barriga, fortemente intumescida, pronta para dar ao mundo o seu mágico fruto. O rei, depois de emocionado silêncio, recobrou-se e contou à esposa o sonho. A augusta senhora, feliz, deixou-se aninhar nos braços do esposo, sentindo a criança agitar-se no seu ventre, como se também o sonho tivesse ouvido. Amanhecendo, à sexta hora, na mais bela e radiosa manhã que o reino já vira, o menino nasceu! Grande foi o júbilo que a notícia provocou nos corações dos súditos, num fundo e uníssono suspiro coletivo de alívio e alegria, por saberem que o herdeiro viera, um belo e forte varão, o continuador, o tão esperado fruto 15