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O Poรงo


Chris Ribeiro

O Poรงo

Sรฃo Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda Capa e Projeto Gráfico Aline Benitez Revisão Valéria Macedo

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ————————————————————— R368p Ribeiro, Chris O poço / Chris Ribeiro. - 1. ed. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-699-0 1. Romance brasileiro. I. Título. 13-00143

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 -------------------------------------------------------------------------------15/04/2013 15/04/2013 —————————————————————

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Glória, 246 - 3º andar CEP 01510-000 - Liberdade - São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


A meu filho Arthur William


SENHORAS E SENHORES

O P O Ç O ... Se afaste ao sair... Se conseguir sair...

Tributo à Arte de James Taylor Compositor e músico americano


Capítulo I Na escuridão do silêncio nada se vê, nada além do silêncio que alimenta a própria imaginação. No silencio, o frio se faz presente; no entanto, não é comum a ser sentido através da pele, frio diferente que foge a toda e qualquer definição dos sentidos despertos, algo indecifrável para a sensação tátil, pois o frio do silêncio é quente; necessário para manter a vida, contrariando o que se tem ao redor das possibilidades de estar bem mais próximo do fim. Indescritível tanto quanto é real a sensação por dentro e por fora indo do cerne aos poros — o frio da escuridão. Lugar esquecido, onde a vida persiste em seu plano de dimensões desconhecidas para a mente limitada em seu momento de suspensão daquilo que ainda não é possível mensurar ou traçar hífens entre o que é e o que será. Mundo obscurecido por sons de silêncio; ausência de vibrações de ondas audíveis, sons apenas do escuro, úmido, quente, tenebroso, última ou primeira fronteira com a qual todo homem deve se ver frente a frente antes de tomar consciência do velho mundo. O âmago por dentro da própria razão da existência. 9


Um mundo esquecido, longe da concepção dos padrões da natureza humana dada a sua natureza própria de apenas e tão somente sentir através dos órgãos espalhados ao longo do canal de suas sensibilidades. Mas, que nem por isso deixa de ser tão real quanto qualquer outra realidade fictícia fora da compreensão daquilo que se tem no mundo palpável e visível. Enquanto ainda não é dado a perceber nada além dos sentidos se mantém vivo;, é o mistério, o ponto onde se começa a caminhada, a saga de cada um, a escalada que começa e recomeça sempre para cima e para baixo, enquanto houver ação, enquanto houver sensação, enquanto houver mundos para ser habitados em todos os patamares e níveis — senhoras e senhores — O POÇO. Obstáculos em todos os lados, geometrizando a forma geométrica do cone imperfeito, escuro e infinito como no princípio. Pedras naturais sobrepostas umas as outras delimitando a imensidão do infinito. Sempre úmido, pela corrente de líquidos que brotam incessantes através dos poros e das frestas do encontro de uma pedra com a outra. O limiar onde se é permitido ficar dentro do túnel é a superfície. Ali centenas, milhares de cabeças disputam um lugar à tona, uns sobre os outros, outros sobre os uns, o desejo imortal da sobrevivência, que se recusa a deixar a vida partir ainda que estando sob condição tão irreal da existência. No mar do Poço, um mar de cabeças se confunde passando a integrar e fazer parte como peça ativa, como grãos de areia, essência insubstanciada, daquilo que conhecemos — O POÇO. Formação rochosa de pedras mal lapidadas umas so-

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brepostas as outras revestindo por completo as paredes internas do túnel do Poço, formando um grande paredão de um longo túnel sem fim, nem para cima nem para baixo. Das paredes úmidas e lodosas vem a sensação do frio-quente, e da escuridão reinante vem o profundo som do silêncio-audível. A sensação — a sensação é única razão de se estar vivo, sentir é tudo o que se pode estando dentro do Poço. Sentir algo, a única noção do que seja a sobrevida. Ainda que preso, atrelado ao império da escuridão onde reina a solidão, o silêncio, o vazio de intenções, não sendo dado a ninguém nenhum tipo de privilégio ou condições especiais, no Poço, todos são iguais e nivelados, todos embaixo, todos para baixo. Abismo, profano, medonho, sem fim, mal vindos ao Poço. Algum lugar fora da compreensão humana — um mundo paralelo, um plano desconhecido, algo que foi esquecido, ou que nunca existiu. Provavelmente arquitetado por alguma mente mais avançada ou primitiva daquilo que na filosofia dos homens compreende como sendo obra de Deus — ou ainda mais apropriadamente seja fruto da obra do Maligno — desde que o homem tenha feito para si mesmo algo a merecer tal sortilégio. O mundo de dores a que se refere a Gênesis da criação humana. O homem descobre por fim a origem do mal, todo o mal, isso é o Poço. No patamar onde a água se acumula pessoas flutuam, aos milhares, milhões, apenas as cabeças de fora do limite da água — isso é o limbo, onde se encontram os corpús-

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culos minúsculos, pontos quase imperceptíveis, ocupando todas as dimensões do espelho formado pelo nível da superfície. Além do espelho, ainda existe o Poço, aquém do espelho ainda persiste o Poço, onde ninguém deseje seguir nem em uma nem em outra direção. Por conta disso, todos se esforçam por se manterem na flor, na superfície, no limite menos lodoso do interior do túnel. A luta pela sobrevida começa ali, no limbo; nenhum ponto deseja sumir de vez através da superfície, todos anseiam por se manter à tona, lutando com tudo que tem — e isso é quase nada — uns contra os outros a se manterem na superfície, onde ainda pode a imaginação escapar em suspiros. Para o alto, para cima, muito além da escuridão, fora dos domínios e da atmosfera do Poço. É um lugar sem definição para os padrões do mundo tangível, onde não existe luz — não existe som, senão aqueles já conhecidos do choque das cabeças e braços erguidos em luta constante a se manterem à tona, do lodo, nas pedras e o limo escorrendo entre as fendas, o ringue da luta pela sobrevida — vigésimo round, trigésimo round, milésimo round, milionésimo round... O breu total, profunda escuridão, tornando o Poço ainda mais tenebroso e sinistro que se poderia imaginar a vã filosofia de alguém imortal, por assim ser, advém a sensação de ainda estar vivo. Apenas os imortais podem resistir; apenas aquele que se recusam a perder a última fronteira da essência podem ainda nutrir em si mesmo um fio tênue de remotas esperanças, algo incompreensível para aqueles que entregues já se foram para sempre. Sem forças para se manterem na superfície além

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do bilionésimo round sucumbiram perante as forças da escuridão, tragados para sempre para abaixo da superfície e deles nada mais, além do vago que deixaram a ser ocupado pelos que ainda ali estão se mantendo na luta. Estar na superfície é a única chance, aguardando por uma nova oportuna oportunidade — ou seja — algo semelhante a um milagre. Somente por milagre, somente um milagre, pode aqueles que estão no limbo ansiar sair de onde estão, mas, somente por milagre. E dezenas, centenas, milhares, dos que permanecem lutando no limbo esperam e aguardam por esse milagre. Lutar e esperar, nunca entregar-se, manter-se no limbo é uma das condições a se manter na sobrevida no interior do Poço. Sem um milagre é impossível sair, sem o milagre é improvável escapar — isso é o Poço — o limite inferior, onde se encontram homens, mulheres, idosos e crianças grudados uns aos outros, agrupados uns sobre os outros, lutando por espaço, lutando entre si, para manterem-se com a cabeça para fora do limo, todos na mesma escuridão envolvente, todos passando pelo mesmo processo de purgação e juízo, aguardando por um milagre, enquanto ainda lhes restar forças para se manterem na superfície. No cenário bizarro e medonho, mergulhados todos, homens e mulheres, idosos e jovens lutam desesperados a manterem-se onde estão, única condição de sobrevida. Ninguém deseja afundar de vez no meio aquoso logo abaixo de seus queixos. As mãos erguidas para o alto simulando prece coletiva silenciosa à espera que logo o milagre aconteça; além de ser condição ímpar em se manter na superfície ocupando área ínfima do pouco espaço disponível, baixar os braços pode ser fatal, corre riscos em ser arremessado para baixo pela ação

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dos outros lado a lado, além de perder a oportuna oportunidade do milagre quando esse acontecer. Do alto, de cima, somente daí poderá vir a salvação. Algo sustentável, palpável, suficientemente capaz de erguer do limo os corpos sedentos por salvação. Em absoluto silêncio, permanecem todos na luta individual interminável, indefinido, impreciso, aguardando tão somente pela chegada do salvador, que vem de cima, do alto, descendo e saindo de dentro da escuridão. No Poço não existe nada, nada que antigas dimensões possam mensurar; tudo é parte de uma obra adimensional, atemporal, assolar. No Poço não existe tempo em suas dimensões mensuráveis, não há sinais que passe ou deixe de passar, tal estado inerte em que tudo se movimenta, poucos têm a noção de tempo, na total escuridão é tudo sempre igual. A monotonia faz tudo parecer igual e a falta de referências contamina a vontade daqueles que lutam e tentam manterem-se no limbo. Estacionários, gerando cada qual para si algum tipo de referência individual que sirva para mensurar o imensurável, ante a total falta de noção do que se tem a cima e embaixo, tornando o Poço ainda mais tenebroso e macabro jogando contra todos, a beira de perder-se a própria noção da existência. Ninguém sabe ao certo como ali chegou, e o caminho de saída é desconhecido por todos, não se troca palavras, todos alienados, cada qual agindo por si mesmo; ninguém sabe ao certo o que é tudo aquilo. Ainda que soubessem de nada ou quase nada adiantaria ou fa-

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ria qualquer diferença, em se estando no Poço, ninguém se toca, ninguém se fala, ninguém vê, tudo o que conseguem é lutar uns contra os outros a se manterem no limbo. Reina o silêncio de vozes e de palavras, os sons que são produzidos são os do próprio Poço ditando suas regras e leis — as leis do Poço. E todos que estando sob seu domínio saibam e cumpram condição ímpar para se manterem na esperança. Disso impera o silêncio, como uma das leis do Poço. Mas, às vezes, acontece um algo diferente a quebrar a rotina dos sons do silêncio... No limbo, na superfície do Poço, abre-se uma clareira; o único momento em que algo acontece na forma de forças sinergéticas, os que se encontram no limbo escutam... Mensuram e calculam o ponto onde será o impacto. Em sinergismo coletivo se espremem uns aos outros a dar espaço no limo ao que vem de cima. A quebra do silêncio anuncia a queda, através da escuridão o som cresce e cresce quebrando a inércia de quem permanece no limbo. Os que estão embaixo bem sabem o que significa: outro que vem; outro que cai; outro que chega. Outro que vai dividir o já tão delimitado e comprimido espaço no limbo. É um momento de perigo, existem riscos, um momento esperado, porém temeroso, o choque; o choque pode ser fatal. Quem desejaria ser alvo do impacto? Receber o impacto do peso sobre si do que vem de cima, o risco em ser arremessado de vez para abaixo do limbo sem chance de retornar. Um som, o silvo, anuncia a queda é o momento raro e único em que todos se esforçam num mesmo sentido, numa mesma intenção, espremen-

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Opoco15  

‘O Poço’ é o resultado de algumas indagações antigas, dúvidas inquietantes quando não se está na forma física. Uma viagem pelo imaginário de...

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