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Olívia no Reino da Chabilândia


Dirceu Martins Alves

Olívia no Reino da Chabilândia

São Paulo 2010


Copyright © 2010 by Editora Baraúna SE Ltda Ilustrações de Capa e miolo Éder Max Projeto Gráfico Aline Benitez Revisão Vanessa da Silva

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

________________________________________ A477o Alves, Dirceu Martins Olívia no reino da Chabilândia / Dirceu Martins Alves. - [2.ed.]. - São Paulo: Baraúna, 2010. ISBN 978-85-7923-197-1 1. Ficção brasileira. I. Título. 10-4089.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

17.08.10 26.08.10

021089

________________________________________ Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua João Cachoeira, 632, cj.11 CEP 04535-002 Itaim Bibi São Paulo SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Olívia no Reino da Chabilândia

Vai sem cuidado a sorte de surpresas que a vida nos reserva. Hoje pela manhã recebi no meu despacho, sem saber por vias de quem, um pacote de escritos para os quais me pedem a gentileza de escrever um prefácio. São folhas digitadas em computador, datilografadas à máquina, intercaladas com manuscritos de cartas, bilhetes e páginas arrancadas de diários. A princípio não me pareceu que tivessem a menor ordem interna e que se tratava de alguma brincadeira. Talvez mais uma do meu compadre, o poeta aqui do bairro. Cheguei a ir de sala em sala perguntando se alguém não havia visto um sujeito estranho andando pelos corredores. Alguém teria notado a presença de um homem que anda vestido com uma longa

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capa negra, toda rota. Sempre mascando chicletes. Coitada da comadre, anda tendo que se virar. Ela me disse que o compadre já quase não vai cantar os seus versos nas feiras dos bairros vizinhos de Guaianases, São Mateus ou São Miguel, para arrecadar o dinheirinho do pão nosso de cada dia. Agora ele deu para escrever em prosa e passa os dias em casa tentando imitar a arte de Rabelais, outro compadre nosso. Como não pude averiguar nada, voltei ao maço de folhas e fui lendo as primeiras linhas, agora com mais atenção. De repente, me senti tomado pela curiosidade, mesclada com uma estranha necessidade de pôr tudo em ordem, que me moveram até a última palavra. Começa assim: “Quem passa pela Estrada do Lageado e vê as três torres do Conjunto São Bernardo, cercadas por muros altos, bem no centro do Bairro da Chabilândia, pode até pensar que é apenas um condomínio. Mas nós, os seus fiéis súditos, sabemos que é a fortaleza da Rainha Olívia.” 6


No bilhete diz que a pessoa virá buscar a resposta amanhã à tarde. Estou ansioso para saber quem será. A minha maior curiosidade é saber se a ordem narrativa é essa que segue ou se eu não embaralhei as folhas tentando entender do que se tratava. Se a nossa conversa confirmar a história que me parece estar narrada nesse emaranhado de folhas, penso não só escrever o prefácio, mas recomendar esses originais ao Sr. D. M. A., meu editor. Dr. Sanches Sarabugres

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Aviso

Era uma menina que foi até a biblioteca pública do reino procurar livros para aprender a escrever. Folheou vários manuais de redação e de estilo, mas eles pareciam todos muito complicados para ela. De repente, num livro para estudantes ela encontrou duas páginas que lhe serviram. Numa dizia que a crônica é um tipo de texto que se escreve para contar uma história de algum lugar, ou um conjunto de fatos que ocorreram durante um tempo determinado. Na outra dizia que diário é o texto escrito de maneira pessoal, subjetiva, sobre fatos e sentimentos da nossa vida e da vida das pessoas. Daí eu pensei que seria legal juntar as duas coisas e escrever uma crônica diário ou um diário crônica sobre o meu

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reino. Já tinha uma história começando a me cutucar por dentro da cabeça. Então a menina começou a folhear os vários livros da biblioteca pública e da pequena biblioteca que o pai dela mantinha numa única estante colocada no canto da sala. Ela queria ver uma maneira de organizar os escritos. Nas prateleiras de baixo, onde ficam os volumes mais pesados, ela viu num livro bem grosso uma maneira simples de organizar os capítulos. Agora é começar a contar a história que as ideias já estão na cabeça e as regras já estão na mão. – Comece a escrever que a história vem! Não é o que dizem os professores? Aviso. Eu já comecei a contar. Escrever é equilibrar as palavras para que elas venham com a gente no zig zag do jogo da amarelinha. Preciso encontrar o meu jeito. Vou contando em voz alta, depois arrumo tudo na palavra escrita. Então, escute! Escute o som do berimbau dim dim dim – e o auxilio do pandeiro – toc toc toc 10


Berimbau está anunciando O som das patas dos cavalos pocotoc pocotoc pocotoc Quem vem lá, no galope dos cavalos? Atenção guerreiros! Berimbau está anunciando dim dim dim – pocotoc pocotoc pocotoc Será a legião com os 12 valentes da França? Todos os súditos, atenção! Berimbau está anunciado dim dim dim – pocotoc pocotoc pocotoc Será a guarnição de soldados portugueses? Atenção capoeira! Berimbau está avisando No barulho que vem nas patas dos cavalos dim dim dim – pocotoc pocotoc – pocotoc Será a escolta da Rainha Olívia? Berimbau está anunciando É dia de festa: dim dim dim Que abram os portões!

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pocotoc pocotoc pocotoc Berimbau está anunciando – dim dim dim... dim dim dim – dim dim dim dim dim dim (Retirado do Diário da Olívia)

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De como a menina passou a ser nossa heroína

Olívia era uma menina que vivia feliz com os seus pais e os seus dois irmãos no seu bairro, bem longe do centro da cidade. Olívia vivia feliz é modo de dizer, porque eu quero contar uma fase da vida dela. Na verdade ela ainda é feliz. Muito feliz! Muito traquina e imaginativa também. Nós, da turma do Edifício São Bernardo, nunca vamos esquecer os seus inventos. Nem as broncas que levamos por causa dela e muito menos as alegrias que vivemos em sua companhia. Quando o conjunto habitacional São Bernardo ficou pronto a minha família se mudou para lá. Muitas outras famílias se mudaram também. A família da Olívia foi uma que chegou no mesmo dia em que a

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minha. Em poucos meses havíamos ocupado todos os apartamentos das três torres que formam o conjunto habitacional. Não havia muros entre as torres, apenas jardins, garagens, escadas, muitas escadas. O terreno é todo inclinado, por isso havia muitas escadas para descer e escadas para subir também. Na verdade as escadas para descer eram as mesmas que serviam para subir. Mas essa não é a história das escadas. Como nós duas chegamos no mesmo dia ao novo local de moradia e tínhamos ambas a mesma idade, ficamos logo amigas. Eu faço aniversário em setembro, sou de libra. E ela faz aniversário em julho, é de câncer. Os nossos signos se combinaram logo no início. Tem gente que não acredita em horóscopo, mas eu acho que acreditar um pouquinho não faz mal. Todo mundo pode ter a sua opinião. Por que os astros que já viveram muito mais tempo do que nós, não podem ter opinião? Ah, ia me esquecendo de dizer: eu tinha nove anos e ela também tinha nove, claro. 14


A gente costumava dizer que nós duas juntas tínhamos dezoito anos. A gente era de maior. E a mãe dela sempre gritava corrigindo: “Não é de maior. Já falei que é maior de idade que se fala.” Acho que a Olívia falava errado só para provocar a mãe dela. Ela nunca foi do tipo de pessoa que demora em aprender as coisas. Quando eu colocava em dúvida alguma ideia dela, se deveríamos ou não fazer alguma brincadeira nova, ou brincar em tais lugares não recomendados, ela sempre dizia: – Eu sou a mais velha. Eu decido – E ela sempre decidia mesmo. Não importava se tinha meninos brincando junto com as meninas. Era ela quem decidia se a hora era de parar o pega-pega e passar para a corrida de bicicletas ou para as manobras de patins pelas escadarias. A turma logo passou a chamá-la de rainha: “chegou a nossa rainha.” Pela idade, ela deveria ter sido chamada de princesa, mas ninguém pensou em princesa. Acho que foi porque para ter princesa precisa ter rainha antes. Foi assim que de uma menina desconhecida, em pou-

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Olívia no Reino da Chabilândia