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caçador da selva

“Humana”


Isaias Boruch

O

caçador da selva

“Humana”

São Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda Capa e Projeto Gráfico Aline Benitez Revisão Marcos Sosa Diagramação Monica Rodrigues CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________

B784c

Boruch, Isaias O caçador da selva “Humana”/ Isaias Boruch. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-689-1 1. Romance brasileiro. I. Título. 13-1544.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

12.03.13 13.03.13

043373

________________________________________________________________ Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

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Introdução Num tempo onde o individualismo egoísta reina, as pessoas vivem na ordem da selva. A “felicidade” pertence ao forte e ao esperto. Nietzsche, um filósofo alemão do século XIX, havia declarado que o homem perdeu sua verdadeira identidade, seu instinto animal, e todos devem voltar às origens, à lei da selva, onde o forte e o esperto dominam o fraco. Até esse autor, esta ideia não tinha sido depurada e explorada, e isso seria então, ao seu futuro, algo inevitável, pois afirmava ele que a natureza humana grita a tal fim e ela mesma despertará o lobo do homem, e esse será o homem do futuro. As ideias nitinianas ganham corpo e extensão. O homem tendencioso busca mais e mais o poder, o prazer e o ter, sem medir consequências, sem pensar no outro e assim, os homens, entre si, matam, roubam, usurpam e enganam, para conseguir tais paixões, deixando fluir de si o instinto animal, sem controle e sem piedade. Alguns unicamente para atingir status social, um lugar de destaque, outros por opção ou pressão social, como forma de tentar amenizar a dor da infelicidade existencial.


Sumário Introdução............................................................. 5 1ª Parte I Capítulo - Vidas? .....................................................9 II Capítulo - Na cidade grande.................................12 III Capítulo - De volta à terra natal...........................17 IV Capítulo - Se houver solidariedade.......................30 V Capítulo - Início de carreira...................................40 VI Capítulo - Vida nova............................................74

2ª Parte - Fragilidade social desperta o lobo do homem I Capítulo - Chaga social...........................................80 II Capítulo - A chegada da Polícia Federal em Falca..92 III Capítulo - Dia do caçador..................................109 IV Capítulo - Sanguessugas.....................................123 V Capítulo - Dia da caça.........................................133 VI Capítulo - O triunfo..........................................141


1ª Parte  I Capítulo

Vidas? Um tiro (thaal!!) em meio à grande plantação de milho. Um jovem adolescente a correr desesperado, em direção ao estampido. Lá está o corpo de um homem de meia idade, com cabelos grisalhos, caído sobre o chão a agonizar (nos últimos suspiros). Esse mesmo homem, que interrompe sua própria vida, com uma bala, saída da arma que segurava firme em sua mão, disparada contra seu peito. Em seguida, só se ouve, naqueles campos, o ecoar de um grito aflito: — Paai!! Meu pai, o que fizeste? O jovem, no impulso de querer salvar a vida de seu pai, joga-se ao chão frio, ao lado do moribundo, levanta a cabeça de seu herói no colo e tenta reanimar o agonizante, que está sangrando pelo furo da bala e também pela boca. O moribundo tenta balbuciar alguma coisa no ouvido do adolescente:

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— Meu filho? Meu filho? — Calma, papai! Calma! Responde o menino. Mas o moribundo insiste: — Ouça, meu filho, só me resta este momento, não tive outra escolha. Sua mãe, meu grande amor, está morta, por negligência médica, já faz alguns anos; o banco tirou nossa fazenda, por ocasião do empréstimo que fiz há algum tempo, quando tive o intuito de ampliar os negócios e, no entanto, chegamos ao caos, não tendo para onde ir, sem saber fazer outra coisa, a não ser plantar e colher. Minha idade, que já não é mais a de um aventureiro que vai em busca do recomeço... A dor e a vergonha foi tanta, que não tive outra escolha, a não ser tirar minha própria vida. O ferido dá umas tossidelas e acrescenta: — A fazenda não nos pertence mais. O governo já é dono, nos roubou, sem chances de negociação e defesa. — Calma, papai! Nós vamos vencer! Fala o filho tentando consolar o moribundo e desviar a dor e o desespero. O homem dá mais uma tossidela, espirrando sobre o colo do menino uma bola de sangue de sua boca, e com um murmúrio fala ainda mais baixinho: — Você ficará com sua tia, que mora na capital. Estudará muito e se tornará um grande homem, de muita inteligência, e prometerá a mim que vai lutar com todas as tuas forças por justiça. Sei que, de algum modo, acharás uma forma de limpar toda a sujeira social, a corrupção da política, dos governos e dos políticos iníquos que me roubaram; pois eles são os verdadeiros culpados, não pensam no próximo, mas só em seus interesses.

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— Me perdoa, meu filho? Perdoa-me? Justiça! Faça justiça! Expressou-se num balbuciado, já quase incompreensivo, e assim dá o último suspiro, em meio às lágrimas do filho, que se misturam com o sangue a escorrer à terra fria. Terra esta que sempre lhe deu vida.

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II Capítulo

Na cidade grande Adolescência

Os noticiários expõem: “Nosso país está doente; a violência aumenta cada dia mais e mais; a cultura está perdendo seu valor ético; o ensino nas escolas está cada vez menos acessível aos jovens de classe média e baixa, e o que ainda tem é de péssima qualidade; a religiosidade e a fé, todos os dias são acusadas de degradações e de fraquezas morais entre seus adeptos e crentes; o mundo está em guerra; as cadeias estão lotadas e sem estruturas para reabilitar seus detentos, que na maioria das vezes entram amadores e saem profissionais do crime; nosso país está banhado num lamaçal de corrupção, principalmente entre os próprios homens da lei; a polícia, a política e os governos, todos os homens, chefes e diretores, só se preocupam consigo e seus parentes. Algumas colunas de jornais declaram: ‘há necessidade de justiça social, de correção geral da sociedade, que grita e implora por ordem, ordem e ordem’.” Nesse clima de mal-estar social, que vive e completa sua adolescência, o jovem Têmis, junto de sua tia Eléia, numa cidade que não para. Cidade das violências

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cabais, das variedades culturais, mas também de boas e grandes oportunidades. Foi numa dessas oportunidades que Têmis embarcou, depois de muito esforço para concluir bem seus estudos colegiais. Com notas excelentes, em matérias distintas, e seu esforço e capacidade intelectual. Sua fama se destaca entre os professores e alunos e essa capacidade lhe garante uma bolsa de estudos, numa das maiores universidades do país. Assim, ele ganha a oportunidade de estudar filosofia e sociologia, matérias que ele mais admirava e buscava conhecer, pensando que lhe ajudariam a pôr em prática seus possíveis ideais, distintos de muitas correntes pensadoras da época. Sua aspiração é muito audaciosa. Ele idealiza uma possível reforma social, de um país que está a morrer, condenando seus próprios filhos a uma inversão de valores. Em busca de trabalho

Depois de concluídos os estudos acadêmicos e feito especialização em democracia e filosofia, Têmis toma seu caminho e sai em busca de trabalho, levando junto de si a intenção de ensinar e ajudar outros jovens a tomar consciência do futuro e formar um novo paradigma de pensamento e ação à sociedade. Pensava ele nas possíveis mudanças: — Temos de começar na raiz, nas famílias e nas escolas, em especial com os jovens. Aplicar uma teoria atraente, forte e bem segura, começando por mim mesmo e, em seguida, um a um espalhará pensamentos

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críticos, entre os responsáveis pelo amanhã. Assim, diagnosticar-se-ia a doença social e então interviriam todos os pensantes amistosos com um remédio forte e eficaz, diretamente nas células cancerosas da sociedade, promovendo a cura do corpo social. Têmis não foi bem aceito por alguns intelectuais e políticos da época, pois estes já tinham ouvido falar de seu destaque nas ciências humanas. Suas teorias eram imponentes e ousadas. Atingiam em cheio a teoria da “lei da selva”. Essa teoria, embora de forma oculta, é preferida por alguns intelectuais e políticos desse tempo, e por isso o ciúme toma conta dos mestres e chefes da “pólis”1, que o impedem de levar adiante seus ideais. Em sua tese de conclusão, tratou do tema “democracia participativa e justiça social”, batendo de frente com a ideia nitiniana “a lei da selva”, onde a força e a esperteza, como no mundo animal, permitem que vença o mais forte. Têmis vai contra esse pensamento, pois via ele o “aniquilamento e esgotamento” da verdadeira identidade humana, que está num clima de conflito e tensão o tempo todo. Bate nas portas de colégios públicos em busca de uma vaga para ensinar e aplicar suas teorias, mas os dirigentes, ao verem seu currículo e sua tese, até elogiam seu desenvolvimento e empenho, mas lhe negam vaga, alegando que já está completa a chapa de professores. Porém, na verdade, recusam por medo da ameaça que ele representa. Têmis nunca teve intenção e sede de poder, sempre fora aconselhado por seu mestre, que muito bem lhe orientou, a não usar seus conhecimentos e inteligência só para 1 14

Pólis: (do grego) cidade.


o benefício próprio, mas principalmente para o bem comum. Então junta o aconselhamento de seu mestre com o último pedido de seu pai e decide promover a justiça. Nos colégios particulares

Têmis, fatigado de correr atrás de emprego nas escolas públicas sem alcançar êxito, aconselhado por sua tia Eléia, vai às escolas particulares, com grande esperança de alcançar o tão sonhado primeiro emprego, na grande capital. Distribui seu currículo e até implora aos diretores que o aceitem como professor, nem que seja como auxiliar, mas todo seu esforço e empenho são inúteis, pois os colégios particulares estão demitindo funcionários, em vez de admitirem professores, por causa da pouca procura por parte de novos alunos. O desemprego e os baixos salários fizeram com que os pais, inseguros sobre o futuro, mantivessem seus filhos longe das escolas particulares, e todo esse impasse não deu a Têmis a chance do tão sonhado primeiro emprego. Na mídia

Na decepção de suas investidas, se vê sem rumo, a não ser uma única e última chance, os jornais e revistas, que circulam na grande metrópole. Pensou ele: — Escrever algumas colunas ao grande público, que tomará conhecimento de uma nova possibilidade de vida social, parece ser um bom caminho. Distribui então seus currículos a vários jornais e revistas da cidade, mas estes,

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Num tempo onde o individualismo egoísta reina, as pessoas vivem na ordem da selva, um jovem caminha em busca do conhecimento, estuda filosof...

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