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O Tempo na Idade MĂŠdia


Luiz Gonzaga Teixeira

O Tempo na Idade Média

São Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda Capa Míriam Duarte Teixeira Diagramação Jacilene Moraes Revisão Valéria Macedo Priscila Loiola

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ _____________________________________________________________________________ T267t Teixeira, Luiz Gonzaga O tempo na Idade Média: reflexões sobre topologia e epistemologia da mentalidade medieval/ Luiz Gonzaga Teixeira. - 1. ed. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-628-0 1. História antiga. 2. Idade Média - História. I. Título. 13-00196 CDD: 909 CDU: 94(100) _____________________________________________________________________________ 16/04/2013 16/04/2013 _____________________________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

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Índice

APRESENTAÇÃO ....................................................................... 7 Capítulo 1 O QUE TEMPO E ESPAÇO SEPARAM: O MEIO.................... 9 Capítulo 2 O DETALHISMO....................................................................... 40 Capítulo 3 O LISO E O MARCADO........................................................... 78 Capítulo 4 TAXONOMIAS........................................................................... 93 Capítulo 5 RETORNO E REPETIÇÃO..................................................... 111 Capítulo 6 A REPETIÇÃO DO PASSADO: NOSTALGIA....................... 125 Capítulo 7 O INDIVÍDUO E O COLETIVO.......................................... 146


Capítulo 8 TEMPO CÍCLICO E LINEAR: MORTE E RESSURREIÇÃO................................................... 189 Capítulo 9 TIPOS DE TEMPO.................................................................. 224 APÊNDICE Capítulo 10: Apêndice I TOPOLOGIA: sugestões para um verbete de dicionário......................................... 269 Capítulo 11: Apêndice II Treze hipóteses de base............................................... 318 BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL.................................................. 333


Apresentação

Este livro corresponde a um capítulo, o terceiro, da minha tese de doutorado, apresentada na Universidade de São Paulo (USP), no dia 6 de abril de 1999, tese que tinha o título de Topologia do pensamento medieval: reflexões. O orientador foi Hilário Franco Júnior, que, sem dúvida, contribuiu bastante com a firmeza com que acompanhou todo o processo. A pesquisa foi financiada pela FAPESP (Fundação de Auxílio à Pesquisa do Estado de São Paulo), que interviu de forma positiva através de um consultor, cujo nome nunca me foi revelado, e a quem, por isso, infelizmente, não posso dar os devidos créditos. Este texto passou por uma grande reelaboração, reorganização, revisão, e uma pequena ampliação, embora o texto aqui apresentado trabalhe praticamente com os mesmos conceitos apresentados por ocasião da defesa. A minha tese de doutorado procurou esclarecer alguns conceitos topológicos simples, com a ajuda do ambiente da mentalidade medieval. Esses conceitos são: alto e baixo, parte e todo, o tempo e o cinismo (entendido como a distância entre o sujeito e seu próprio discurso). Cada conceito desenvolvido em um capítulo separado. O terceiro capítulo, sobre o tempo, para que fosse mais bem compreendido, exigia o acréscimo de alguns conceitos de outros capítulos e o acréscimo de um apêndice.

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Capítulo 1

O QUE TEMPO E ESPAÇO SEPARAM: O MEIO

As pessoas nem sempre enxergam com clareza que temos, entre o agora e o depois ou futuro, ou entre o eu e um objetivo, um tempo, recheado de obstáculos e de técnicas. Não é exato dizer que o tempo ou o espaço separam um sujeito do seu objeto ou que separam dois momentos, o correto é que esse meio separa e relaciona ambas as coisas, pois o negativo e o positivo atuam simultaneamente. O meio é as duas coisas ao mesmo tempo, separa e une. A linha que liga o começo ao fim pode ser concebida como um espaço ou como um segmento do tempo. Como funciona essa maneira de pensar em que não está claro que o tempo está no meio, que ele separa e une, que é uma divisória e uma ponte? Como funciona a imediação1, tanto a absoluta quanto a relativa?

1 Imediação (às vezes Mediação) é um dos conceitos que tem um tratamento pouco usual nesse livro, e que, por isso, pode causar alguma dificuldade ao leitor. Caso o leitor não ache necessário recorrer ao apêndice, onde o conceito é apresentado com um pouco mais de tempo, pode prosseguir a leitura tendo em mãos apenas uma definição operacional. Imediação é a mentalidade onde há dificuldade para compreender os meios, compreender os obstáculos, os instrumentos e os condicionantes para se atingir um determinado objetivo. Geralmente nas mentalidades imediadas as coisas acontecem por magia, ou por acaso. E Mediação, por oposição, é o que se afirma de uma mentalidade onde se compreende melhor que as coisas podem ser conseguidas, as dificuldades, que raramente algo acontece por acaso. 9


O problema Nosso problema aqui, em princípio, é primário. Uma das acepções de tempo e espaço é de um meio, algo que une ou que separa duas coisas, que está entre duas coisas. Quando eu penso no tempo como algo que falta para chegar o dia em que vou receber o salário deste mês, ou quando penso no espaço entre o “eu” e a esquina, quando penso no tempo que falta para eu atingir um objetivo um dia, ou no tempo e no espaço envolvidos em uma longa e cansativa viagem, o que tempo e espaço significam é algo parecido com uma linha entre dois pontos. Dois momentos, antes e depois, em uma ponta e na outra ponta de uma linha. Mesmo que uma pessoa nunca tenha ouvido falar em Topologia, e até mesmo em Geometria, é bem provável que na sua cabeça imediatamente ao ouvir palavras semelhantes se desenhe uma linha, como se fosse feita à mão, com um pontinho no começo e outro no fim. Em outra versão ligeiramente diferente, o tempo é a linha que liga o eu ao objeto, que pode ser vista como tempo ou como espaço. O tempo é representado como um espaço a ser percorrido, de tal forma que o tempo que levamos para percorrer esse espaço e o espaço são quase a mesma coisa. Pelo menos no desenho. Vendo o mesmo problema de um ponto de vista geométrico bastante diferente, podemos desenhar a linha que separa (duas coisas) como uma linha vertical, entre, separando dois campos, duas áreas. Ela funciona como uma fronteira entre dois campos. Aqui, no formato deste livro, não há espaço para analisar as diferenças entre essas duas linhas, a que une e separa dois pontos, e a linha que une e separa – a fronteira entre – dois campos. Apenas uma observação óbvia e primária: se colocarmos dois pontos, um em cada país, para ir de um ponto ao outro, é preciso passar sobre, ou por baixo, da fronteira. Pretendemos com a literatura medieval enriquecer e esclarecer (do ponto de vista matemático) essa questão. E vice-versa. Temos a pretensão e a esperança de que o esclarecimento e desenvolvimento desses conceitos e métodos topológicos tenham alguma serventia para os estudos sobre a Idade Média. Para nós, então, falar em tempo imediado parece, à primeira vista, uma contradição: se tempo significa o meio que une e separa, como pode haver 10


um tempo imediado, quer dizer, sem meio? Ou que não é – ou que não está – no meio? Exatamente: um tempo que não tem consciência do meio, de ser um meio. E se não tem consciência, não se dão muitos dos atributos do meio, como, por exemplo, as mudanças que produz nos personagens; sobretudo o envelhecimento. O tempo passa e os personagens não envelhecem. O tempo, como qualquer relação, deveria pôr o problema da diferença; é o que parece à primeira vista. O que mudou entre os dois momentos, o início e o fim? O que há de lá que não há de cá e que justifica até mesmo que se vá daqui pra lá? O tempo imediado evidentemente é um tempo. Ele passa, o tempo está passando, disso ninguém duvida nem deixa de perceber. Mas, contraditoriamente, não se põe com clareza para o pensamento o problema da mudança, como se depois de ter passado algum tempo, o mundo, o eu, as coisas não tivessem mudado. É como se todos os tempos no mundo passassem igualmente, sem diferença entre o que se passa em um lugar e no outro. A ponto de que chegamos a nos perguntar: mas, então, o que é passar? O tempo é um processo que atinge tudo por dentro ou é algo - como um trem - que passa e assim nada muda? Que passa lá fora ou aqui dentro? A imagem é de um trem se movimentando em uma paisagem imutável. É exatamente esse contraste que é fundamental no quadro em que algo passa por dentro de um meio parado. Ou não é nada, nada que passe objetivamente, mas apenas uma necessidade interna das coisas de mudar e envelhecer? A versão mais imediada tende para algo que passa, que é em si uma entidade mítica, enquanto tudo em volta permanece inalterado. E a visão mais mediada se aproxima do contrário, de que não há tempo, que tempo é apenas uma imagem didática para dizer que os personagens e o mundo passaram por um processo. A imagem mais radicalmente imediada é de que o tempo, assim como tudo em volta, não muda também. O tempo é um deus, um personagem instável, perturbador; características que compõem a sua personalidade. As ideias que apresentamos neste parágrafo caracterizam o tempo imediado: (1) As duas coisas separadas por espaço e tempo não apresentam clara essa separação, estão compactadas, o começo e o fim estão unidos; ou (2) estão de tal maneira separadas, cada qual na sua individualidade, unicidade, incomparabilidade, que não tem lugar a tarefa de ligá-las com uma ponte; (3) relacionar uma coisa com outra é um problema trágico, nacional, divino, imenso, que se põe, mas não no quadro linear e individualista em que esse 11


problema deva ser resolvido (por mim, principalmente); as dificuldades são tão grandes que não se põe o problema de encontrar uma solução. Ou matematizando mais: no primeiro caso não há consciência de que haja um problema ou que se possa construir uma ponte ligando as duas margens do rio, porque o rio ou a separação não aparecem, e se, não há rio, não pode haver ponte. No segundo caso, as duas margens estão em dois universos tão únicos e incomunicáveis que nem se pode cogitar em uma ponte. E no terceiro caso, de imediação mais amena, a ponte é um problema para forças imensas e outras, incontroláveis e incompreensíveis, às vezes, de solução já dada de graça. Apresenta-se antes como conteúdo da arte ou da religião e não com a estrutura técnica. Nesse último caso, a situação pode ser ideologicamente muito parecida com os dois primeiros, porque exige com maior clareza a dissuasão de qualquer pretensão de solução que se ponha para mim, por nós, por um sujeito que faça um projeto com determinados instrumentos. Em alguns momentos deste livro, devemos parar, estabelecer uma parada metodológica e afirmar, ao mesmo tempo em que pedimos a anuência do leitor: acabamos de fazer um progresso. Alguma coisa foi esclarecida para um olhar topológico. Ou seja, determinamos um ponto que parece claro e que, portanto, exige uma discussão, uma resposta, uma menção ou um questionamento. Agora, precisamente, trata-se de um destes momentos em que parece que temos um progresso topológico, um ponto claro, inclusive um ponto que é candidato a ser estabelecido: de que há três tipos de imediação, aqueles que apontamos no último parágrafo, inexistência do meio, meio intransponível e meio o qual depende de forças outras, distantes, incompreensíveis. Há uma forma de pensar relacionada com esse tipo de tempo: quando o nosso interesse está em mostrar a especificidade de cada objeto e não em comparar para ver o que têm ou não em comum. Essa atitude intelectual é conhecida, em grandes linhas, como metafísica. Ou seja, o pensamento imediado, nesse sentido, está interessado em um objeto de cada vez, o seu olhar não se dirige para o meio entre dois objetos. Esse pensamento imediado não leva ao difícil problema de refletir sobre o outro (eu em oposição ao outro), mas olha para mim ou para o outro um de cada vez e me vê e ao outro cada qual em um mundo seu, isolado. Essa última hipótese pretende contribuir para uma melhor compreensão do que se chama metafísica. O conceito de metafísica está entre os mais importantes da filosofia e também tem interesse para a Topologia. Nossa 12


hipótese seria: a metafísica não se interessa nem em comparar nem com relações, mas se fixa sobre um objeto de cada vez. Cada momento do tempo paira no ar, os diversos momentos não se ligam por um processo. Cada coisa não é vista como algo que só faz sentido dentro de uma totalidade. O pensamento metafísico, de fato, se interessa pela totalidade, mas não nesse significado: como algo que supera, engloba, dá sentido para cada uma de suas partes. As partes formando umas com as outras um conjunto estrutural, que é o todo. Não é nesse sentido. Na metafísica, cada parte se relaciona com a totalidade a partir de dentro, de uma profunda identidade. A parte e o todo estão relacionados porque o todo é a origem da parte e porque a parte, por isso, carrega dentro de si as marcas profundas da totalidade. Não se trata, portanto, propriamente de uma relação em sentido pleno. Por exemplo, um indivíduo não é homem por suas relações sociais, biográficas, institucionais, e sim porque carrega dentro de si as marcas ou características da humanidade.

O tempo de folhetim, o de repente, o acaso como coincidência Um, o tempo (imediado) serve fundamentalmente para organizar o texto em torno de encontros, desencontros, etc.; dois, esse tempo não submete o herói a um crescimento, a uma metamorfose ou a uma aprendizagem. É, nesse sentido, externo. Nós somos sempre os mesmos, em qualquer época (momento, idade). O tempo existe apenas para mostrar este de repente, providência, encontros e desencontros, coincidências, episódios... Quase deu certo, por pouco não deu errado, corridas, atrasos. Três, o tempo não é externo apenas ao herói, mas ele não introduz a ideia de transformação. Ele passa lá fora, aqui dentro nada acontece. Há dois espaços, um é aqui dentro, sem tempo, e o outro é lá fora, onde passa o tempo. E, quatro, o romance não muda temporalmente, não envelhece, não se torna, por exemplo, mais tranquilo, nem tem seu ritmo alterado em função, por exemplo, das mudanças que os fatos produziram na vida dos personagens. Bakhtin utiliza a expressão “tempo biográfico”. No entanto, essa expressão permite duas acepções bastante diferentes. Uma delas, simplista, formal, consiste em levar em conta o nascimento, aniversários, diversos eventos biológicos, tais como a primeira comunhão, ingresso na escola primária, etc., casamento e, por fim, a morte. Todavia, em outra acepção, a biografia essencial, por trás desses eventos externos, consiste no desenvolvimento, des13


de zero, de uma identidade, de uma personalidade, psicológica, filosófica, ideológica, e de fatos que são incorporados, formando com a personalidade a biografia. Esses eventos que, então, devem ser do ponto de vista individual significativos e, também, o desenvolvimento de um histórico de relações, práxis, do estabelecimento de marcas, rastros, do mundo em mim e da minha ação no mundo. Evidentemente, a Imediação está mais relacionada com o primeiro tipo e tem dificuldades para conceber o segundo tipo. Isto é o que eu sou. Uma biografia/personalidade que só pode ser compreendida no tempo, embora não se confunda com ele. Vendo por um ângulo ligeiramente diferente, o narrador se angustia com duas limitações do tempo. Primeiro, o tempo dos personagens, como nos pesadelos, os desencontros e encontros, as esperas, e, segundo, com o tempo do texto; ele, narrador, não tem paciência, pretende passar rapidamente de um episódio a outro, em busca de mais aventuras. Como se a extensão das palavras, a necessidade de começar e concluir frases, explicações inevitáveis, tudo isso irritasse o narrador. Essa falta de paciência só aparece e só é possível formando um conjunto com outra característica: o leitor também está disposto a contribuir, preenchendo as lacunas com sua imaginação. Uma bela donzela é uma explicação suficiente quando um autor sem paciência está combinado com um leitor que colabora com a sua imaginação. Evidentemente, tal combinação só funciona com o recurso continuado a clichês. Curiosamente, nessa estrutura, embora o tempo seja adotado como um fio onde são dependurados os fatos, ele não é secundário. Aparentemente, o autor não tem paciência, “não tem tempo”, de analisar detidamente uma cena, por exemplo, de amor. Uma vez apresentada uma ideia, ele tem pressa de passar adiante. Nem ideias, nem análises, nem a exposição minuciosa e demorada, nem o saborear de uma situação: autor e leitor, às vezes até mesmo os personagens, correm em busca de emoções mais rápidas. Nesse caso, podemos não só nos apoiar decididamente em Bakhtin, mas remeter aos seus livros, particularmente Questões de literatura e estética: A teoria do romance2, pois aí se faz uma análise longa e detida dessa questão. “O ponto de partida da ação do enredo é o primeiro encontro do herói com a heroína e a repentina explosão de paixão entre eles; e o ponto de Mikhail Bakhtin, Questões de literatura e estética: A teoria do romance, São Paulo, UNESP/Hucitec, 1998.

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chegada da ação do enredo é a feliz união dos dois em matrimônio. Todas as ações do romance desenrolam-se entre os dois pontos. Tais pontos – polos da ação do enredo – são os acontecimentos essenciais na vida dos heróis; eles trazem em si o significado biográfico. Entretanto, o romance não é construído sobre eles, mas sim no que há (realiza-se) entre eles. Porém, não deve haver nada de essencial entre os dois pontos: o amor do herói e da heroína não desperta desde o início nenhuma dúvida, e esse amor permanece absolutamente inalterável no transcorrer de todo o romance, a castidade deles é preservada, o casamento no final do romance confunde-se naturalmente com o amor dos heróis, apaixonados desde o primeiro encontro no início do romance, exatamente como se entre esses dois momentos nada tivesse acontecido, como se o casamento tivesse sido realizado no dia seguinte ao encontro. Os dois momentos contíguos da vida biográfica e do tempo biográfico são concluídos de forma natural. A ruptura, a pausa, o hiato que surge entre os dois momentos biográficos diretamente contíguos e no qual se constrói justamente todo o romance, não entra na série biográfica temporal, encontra-se fora do tempo biográfico; ele não altera em nada a vida dos heróis, não acrescenta nada a suas vidas. Trata-se exatamente de um hiato extra temporal entre os dois momentos do tempo biográfico. Se o problema fosse outro, se, por exemplo, como resultado das experiências e das aventuras vividas, a paixão inicial e repentinamente surgida entre os heróis tivesse ficado mais forte, tivesse superado problemas ou adquirido novas qualidades de amor sólido e experimentado, ou que os próprios heróis tivessem se tornado adultos e melhores conhecedores um do outro, então teríamos diante de nós um tipo de romance bastante avançado e bem diferente do romance de aventuras europeu e, em absoluto, não seria o romance grego. Pois nesse caso, embora os polos do enredo permanecessem os mesmos (a paixão no início – o casamento no final), as próprias peripécias que retardam o casamento adquiririam sentido biográfico conhecido ou talvez psicológico, apresentar-se-iam implicados no tempo real da vida dos heróis, modificando-os e aos acontecimentos (fundamentais) das suas vidas. Mas no romance grego não acontece absolutamente nada disso: há um hiato puro entre os dois momentos do tempo biográfico, que não deixa nenhum vestígio no caráter e na vida dos heróis. Esse tempo do romance grego desconhece a duração do crescimento biológico elementar. Os heróis se encontram em idade de casamento no 15

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“O tempo na Idade Média” é um livro acadêmico, escrito como um capítulo de uma tese de doutorado na USP, mas é um livro de leitura relativam...