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São Paulo – 2015

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Copyright © 2015 by Editora Baraúna SE Ltda.

Jacilene Moraes

Capa

Diagramação Felippe Scagion Revisão

Andrea Bassoto

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ N194q Nascimento, Maria O que é a vida? / Maria Nascimento. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2014. ISBN 978-85-437-0270-4 1. Romance brasileiro. II. Título. 14-18569 CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 ________________________________________________________________ 10/12/2014 11/12/2014

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua da Quitanda, 139 – 3º andar CEP 01012-010 – Centro – São Paulo – SP Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem a expressa autorização da Editora e do autor. Caso deseje utilizar esta obra para outros fins, entre em contato com a Editora.

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Sumário Infância . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Amiga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 A fazenda vizinha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Jesus é o caminho, a verdade e a vida . . . . . . . . . . . . . 15 Jesus disse: “Deixai vir a mim as criancinhas”. . . . . . . 16 O trem que vai... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Chora minha cidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 Perdoar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 Filhos para a vida inteira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 Escolaridade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 Festa dos bastões . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36 Vocacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Exposição das lágrimas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 A Lepra do Inferno. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 Café, Açúcar e Cigarro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Sexta-Feira Treze. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48 A Chuva e o Sol. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50 A Mãe é de todos nós. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52 Caminhar sobre a luz de Jesus . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 Súplica de conversão para todos os fins. . . . . . . . . . . . 54 Oficio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57 Ladainha da paz. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61

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Infância Criança que chorava e não brincava, Sofria e não sorria, era assim que eu vivia. Minha mãe saía para trabalhar, Meus irmãos não me suportavam. Minha boneca de artesanato de mim eles levavam. Eles eram perversos que doía, Minha boneca eles queriam Não para brincar, mas para me ver chorar. Meus irmãos tirando laranja verde do pomar Era o que tínhamos para lanchar E ainda não queriam me dar Só restava-me chorar A peste por lá passou, o sarampo nos derrubou, Foi como num filme de terror. Eu, enfraquecida, a febre não se afastou. Em seguida, minha mãe engravidou... No berço uma criança a chorar, E outra na barriga a chegar. A dor em mim aumentou, A doença não se afastou, Injeção, remédios e chá caseiro Tudo ela me dava no vale do medo, Nas lágrimas, o afeto e o desespero. 7

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Minha mãe para outro médico ela partia, Eu não entendia o que acontecia, Mas lembro que o médico dizia: “Essa menina está no fim dos dias”. Tudo eu superei. Tinha cinco anos, Deus pesava sua mão sobre mim, Preparando para o que estava por vir. Minha mãe iria viajar, para não mais voltar. O bispo vem crismar as crianças da região Em círculo, na rua o sol lindo a brilhar Eu não parava de chorar. É o sol, é um pássaro a cantar e meus olhos a lacrimejar. Lá estava também o capelão As nuvens pareciam de algodão Em algum momento caía algo do céu no meu coração Que ardia, eu não sabia o que Deus queria. Resistir às transgressões da alma A lágrima cessou e o fôlego apaziguou. A mente começou a pensar: quero estudar. Minha mãe dizia: “Sossega, menina. Tua hora vai chegar. Só com sete anos pode estudar”. Meu irmãozinho nascia e dias depois minha mãe adoecia. Depressão, distúrbio, limítrofe ou esquizofrenia? Doenças que têm suas características agressivas, Rude, complicada, parece pedra não lapidada. Minha mãe não conhecia o sistema acadêmico, Nem carteira escolar, no lápis ela sabia pegar. Era estilista sem estudar. Fazia enxoval para quem quisesse casar. 8

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Meu coração estava quebrado, extravasado Em ver minha mãe querendo sair De suas crises depressivas, parecia terra seca Árdua da caatinga ou mente fria? Ela não conhecia psiquiatria. Sois filha do céu Filha da luz Filha do dia, não das trevas O que me espera? Aquela linda mulher foi se tornando opaca, frágil, Depressiva, querendo fugir sem saber pra onde ir. Era dia ou noite? Tempo ou vento? Um certo dia Alguém se descuidou, minha mãe não suportou, Lançou álcool e ateou fogo em si mesma... Eu não chorava e nem sorria De perto eu não saía Todos despreparados estavam A família separada, longe de casa Eu longe dos meus Meu pai não mais o via Eu não aguentava mais Aquela agonia. Estava certo dentro de mim Que naquela noite eu fugiria. 9

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Dezoito horas o sol vai embora A noite se aproxima Em meu silêncio querendo ver o povo dormir Estava certo que iria fugir. Meu mundo caiu no chão, então tive uma visão Uma mulher me dizia Há perigo no caminho Um rio para atravessar, as correntezas podem te levar As lágrimas sufocaram meu rosto Suspiro profundo abalou meu mundo. No teatro de minha mente não existia camarim nem coxia Estava morta a mulher que tanto eu queria. Eu fazia tantas perguntas, tantas respostas, nenhuma me aquietava Minha mãe não mais voltava Era dois de junho de 1970 quando minha mãe foi embora Quatro dias depois eu fazia sete anos Hora de ir para escola Não havia ninguém para me levar Ali eu perdi o solo onde caminhar. A chuva lava. O fogo queima. O sal das lágrimas, nada se apaga Mãe, tu és fonte do meu jardim Água viva que jorra para o mar Para sempre vou te amar. Fui morar com estranhos, sem nenhuma esperança Agora ia cuidar de crianças O tempo passou e ninguém me procurou 10

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Saudade do meu pai... Meus irmãos eu não mais conhecia, Só sabia que existiam A saudade em meu peito parecia uma fogueira acesa Dentro de mim uma chama ardente Que saudade daquela gente. Fui seguindo arduamente meu instinto pelo deserto Procurando uma fonte sem nenhum horizonte Analfabeta, energia elétrica não conhecia. Rádio não ouvia, televisão não sabia que existia. Eu crescendo com um olhar sereno, no caminho, Esperando meu pai chegar em seu cavalo a galopar. Eu não tinha noção do tempo, Era só tempestade, trovões e ventos. Naquela casa não tinha mesa de jantar E nem cadeira para sentar. Aquela mulher falava mal de mim e me maltratava, Ao fim do dia o cansaço me fazia acreditar Que meu pai iria chegar, Sono, abandono, dormi, acordei. Tanta fome eu passei, Tanto cansaço, sem parar, Que nasceu um soluçar.

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Amiga Um certo dia fui à casa da minha vizinha visitar uma amiga E me assustei com o que vi Como alguém podia bater em uma criança de dez anos de tal forma? Pelo simples fato de não ser sua família, parente, sua gente, não ter seu sangue. Então, perguntei à minha amiga: “Por que você não vai embora, para a casa dos seus pais?”. Ela disse-me: “Não sei o caminho”. Eu já estava pronta para no dia seguinte levá-la à casa de seus pais Eu, com apenas dez anos, já era (correio) daquele lugar Aproveitamos que as duas jabiracas com quem morávamos não se falavam e partimos. Meu desejo era vê-la feliz, não pensei em mim No dia seguinte, caí na real. Não tinha mais amiga, pois ela era a única. Lembranças que nem o tempo apagou... Acho que neste dia o mundo parou. Por volta das dez horas, naquela manhã, eu estava debruçada na porteira. Uma nuvem de borboletas me cercava; elas eram de várias cores. Gruparam ao meu redor, uma cigarra que não parava de cantar. Um silêncio profundo em mim. 12

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As lágrimas desapareceram. Aquele dia nada fiz, nem chorei, nem sorri. As borboletas naquele espetáculo teatral, Parecia ser uma comédia; a cigarra deveria ser a trilha sonora. Ou era DEUS querendo me fazer sorrir? Perdão, SENHOR, eu não entendi, por isso não sorri. Aquela cigarra cantou, cantou e até morreu, Mas não me convenceu. Perdão, SENHOR, meu eu, não entendeu. Descobri que as lágrimas em mim fizeram-me assim. Umedeceram a minha alma, afagaram a minha tristeza, Lavaram meu coração e assim, a alegria se tornou permanente em meu rosto. Meus olhos choram. Sei que verei a Deus com meus próprios olhos.

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A fazenda vizinha Fui à fazenda vizinha buscar leite. As filhas do fazendeiro estavam felizes, Pois tinham ganhado presente do seu pai, e também do Papai Noel. Elas me perguntaram se eu havia ganhado presente do Papai Noel. Disse que não, elas perguntaram: “Ele não passou na sua casa?”. “Não”, respondi entristecida. Na verdade, eu não sabia quem era o Papai Noel, mas saí daquela fazenda indignada. Quem era esse cara chamado Papai Noel? Cara injusto! Eu, que nunca havia ganhado um presente, e ele não passou lá em casa? Achei que ele fosse parecido com a jararaca com quem eu morava, Que me dizia: “Criança sem família é como alimento estragado. Não serve para nada”. Mas em momento algum eu desejei aquele brinquedos. Meu mundo era outro. Nos porões da minha mente eu queria era gente Que me colocasse na escola, levasse-me à igreja, À catequese para fazer a Primeira Comunhão. Alguém que me desse atenção. Na verdade, eu não queria brinquedos, Mas alguém que penteasse meus cabelos. 14

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Jesus é o caminho, a verdade e a vida Na minha árvore genealógica materna foi embora muito cedo. Em apenas um ano perdi três pessoas da família, um tio, uma tia e minha mãe. E assim foram seguindo, hoje de oito tios só me restam dois. Não sei se é um sombrio da morte ou má sorte. Eles não tiveram tempo para cuidar dos filhos, Vê-los crescer e ser próprios frutos. Parece que eles tinham pressa de partir para o outro lado da vida. A vida é Jesus, Ele é o autor da vida, obra que não tem preço. Acho que nesse mundo eles não conheceram esse autor, por isso tamanha pressa. Ninguém jamais saberá descrever o que é a vida. São tantas coisas, uma planta a regar, uma árvore a balançar seus frutos que não caem. A vida daquele povo é um raikai.

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