Nioac 15

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Nioac Almir Lage

São Paulo 2016


Copyright © 2016 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa

Nome do Capista

Diagramação

Jacilene Moraes

Revisão

Raquel Sena

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ ________________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil

DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Quitanda, 139 – 3º andar CEP 01012-010 – Centro – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br


Nioac é, antes de tudo, a paixão e glória de um seleto grupo de brasileiros que corajosamente souberam honrar e amar sua pátria.

A saga de irmãos brasileiros na maior odisseia de todos os tempos. Submetidos ao terror imposto pelo astuto inimigo, sobreviveram a mais cruel de todas as batalhas. Narrado pelo nosso protagonista, baseado em seu memorial sobre a guerra do Paraguai.

Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da Guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidaban. Machado de Assis (Crônicas, 1897)


Para entender a “Retirada da Laguna” Com a Campanha da Tríplice Aliança cada vez mais acirrada, uma coluna expedicionária, em abril de 1865, partiu de Santos (SP), para apoiar as tropas que se encontravam em Mato Grosso, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago. Novos soldados foram arregimentados pelo caminho, totalizando uma força de 3 mil homens. Recebendo ordens de seguir para Coxim (MS), a coluna lá ficou, ilhada pelas inundações, até junho de 1866. Durante esse tempo, foi reduzida a cerca de 2 mil soldados, atingida pela fome e enfermidades. Ao morrer o comandante Drago, assumiu a chefia da tropa o coronel Carlos de Morais Camisão. A 11 de janeiro de 1866, iniciou-se o deslocamento para Nioaque (MS), localidade escolhida como base de operações. A coluna lá chegou com cerca de 1.300 homens. O coronel Camisão decidiu cruzar o rio Apa, adentrar o território paraguaio e conquistar a região de Bela Vista. Orientada pelo guia José Francisco Lopes, a coluna seguiu avante. Mas, sem meios de transporte, foi-lhe muito difícil ultrapassar os rios e pântanos com os trens de combate e as peças de Artilharia. As forças adversárias, obrigadas a recuar, destruíram tudo o que pudesse servir aos soldados brasileiros: nem comida, nem água, nem pousada havia para os combatentes. O coronel Camisão rumou para a Fazenda Laguna, a fim de conseguir mantimentos e proporcionar repouso à tropa.


Sob a perseguição furiosa do adversário, foi ordenada a retirada, sob as agruras da fome, da sede, da terra calcinada pelo fogo que era ateado aos campos, da fumaça que causava profundas irritações pulmonares, das tormentas que tornavam impossível a locomoção no território pantanoso. Não havia munição nem alimentos, e a coluna prosseguia com o cólera e outras enfermidades ceifando inúmeras vidas. Sem meios para cuidar dos doentes e feridos, estes foram deixados no campo. Os sobreviventes marcharam, com dificuldade, até uma fazenda, onde foram encontradas laranjas para alimentação dos soldados. A duras penas, a coluna chegou a Laguna. Mas Camisão e o guia Lopes, vítimas dos sofrimentos causados pela árdua marcha, não chegaram a esse destino. Assim como quase a metade dos bravos que iniciaram a Retirada. (fonte: http:// www.exercito.gov.br/VO/169/laguna.htm)



Sumário Capítulo I - Mandiocas fritas............................11 Capítulo II - Transe infernal.............................19 Capítulo III - Sagrado dever..............................27 Capítulo IV - Patria morum..............................31 Capítulo V - O baú.............................................37 Capítulo VI - Finalmente Nioac........................47 Capítulo VII - Momentos...................................53 Capítulo VIII - Ao Apa.......................................63 Capítulo IX - Rumo a Bela Vista.......................71 Capítulo X - Frente a frente com o inimigo.....81 Capítulo XI - Missão cumprida.........................93


Capítulo XII - Laguna......................................105 Capítulo XIII - Pausa para o chá....................115 Capítulo XIV - Batalha de Baiendë................119 Capítulo XV - Machorra.................................131 Capítulo XVI - A Batalha de Nhandipá........139 Capítulo XVII - Fome, fogo e frio...................149 Capítulo XVIII - Deus existe!..........................161 Capítulo XIX - Canindé...................................171 Capítulo XIX - Canindé...................................185 Capítulo XX - Nioac.........................................187 Epílogo...............................................................203


Capítulo I

Mandiocas fritas

Lá fora, soprava o vento em todas as direções, exceto aquele que através de minha janela provocava o tecido que compunha uma das partes da cortina do meu quarto, iam e vinham sobre o parapeito, acompanhando as golfadas de ar trazidas pelo fluxo e refluxo da brisa, perfumando-o com cheiro de terra molhada. Pelo que imaginava, com mera observação aos suaves raios de sol que lentamente iam perdendo seu brilho, e ainda iluminavam as paredes opostas às janelas, deveriam ser aproximadamente lá pelas seis horas da tarde do segundo sábado de março de 1920. Inerte, sobre uma cama confortavelmente arrumada e cheirosa, aguardava meus derradeiros momentos de contemplação e meditação, apelando por meio de minhas orações ao piedoso divino que, se possível, concedesse a graça de receber minha pobre alma nos jardins do sagrado éden; se, pelos pecados que cometi, 11


não merecesse sua misericórdia, a devida punição deveria ser mais do que a sua sábia justiça. Enfim, preparava-me para em breve ocasião o encontro com a grande verdade. Deu-me, prazerosamente, grande vontade de respirar de novo aquele ar, como se fosse a última vez que o sentia penetrar em meus pulmões, agora cansados e ressentidos pelo tempo e pelas agressões que sofreu ao longo de tantos anos. Quebrando o silêncio, o som do relógio de parede da sala de visitas anunciava exatamente com as seis badaladas, o que correspondiam às dezoito horas, aquela magnífica tarde de verão quase outono. Interessante... Tantas e quantas vezes vivi tardes de verão, mas, que me recorde, nunca como nesta hora deste dia, sentia minha mente se deslocar de meu corpo franzino a cada minuto, sem dor nem sofrimento, tornava-se cada vez mais volátil e solta, dava a impressão de acompanhar os sopros de ar que invadiam o meu quarto. Mal podia senti-lo, que apoiado sobre um colchão macio e travesseiros tufados, serviam de molde às partes opostas de minha cabeça e pescoço. O assoalho estava limpo, a madeira do piso brilhante e, através do reflexo do espelho de meu guarda-roupa, pude observar que embaixo e ao lado de minha cama, à minha direita, sobre o tapete de pano, estava meu par de chinelos de couro fofo, aquele que havia ganhado no ano anterior do neto que leva o mesmo nome que o meu, Augusto. Do quarto, ouvi o som do portão de ferro da entrada do jardim se abrindo, um pouco enferrujado pela falta de arrumação, em seguida uma batida forte na por12


ta da sala que dá para a varanda. Era, pela hora, minha única filha e seu filho mais moço de 10 anos, o Augustinho, juntos vieram para substituir a minha empregada no seu final de labuta diária. Sob hipótese alguma me deixavam sozinho em casa, havia sempre uma companhia amiga e solidária. Logo após terem entrado, percebi que conversavam em tom pouco audível, sussurravam, talvez para não me incomodar, era natural considerando-se o meu estado de saúde, devidamente prejudicado pelo envelhecimento. Os passos no assoalho indicavam que vinham em direção ao meu quarto, abri os olhos para recepcioná-los, em seguida abriram com cuidado a porta procurando evitar fazer ruído que incomodasse. Besteira, da minha parte eram sempre bem-vindos sob qualquer circunstância. A presença de meus familiares sempre surtia efeito benéfico sobre minha delicada saúde, preferia estar com eles em minha casa do que ficar a mercê de algum asilo ou sanatório. Assim que entraram perceberam que eu estava acordado e, devagar, foram se aproximando, meu neto me beijou a mão direita, e minha filha beijou-me a testa carinhosamente. Que saudades! Passavam quase todas as noites comigo desde que adoeci, adorava saber que não me encontrava velho e abandonado. Minha filha sempre foi muito meiga comigo, seus filhos haviam herdado esse dom. Adorava recebê-los todos os domingos para almoçarmos em família. Passamos juntos o Natal e Ano-Novo desde seu casamento com Gregório, órfão de pai desde o nascimento, competente e dedicado médi13


co militar, filho de um grande amigo e companheiro... Que Deus o tenha... − Papai, como passou o dia hoje? − perguntou-me com peculiar simplicidade. − Vovô conta uma história? − pedia com tom eufórico meu pequeno Augusto. − Deixa seu avô descansar! − Descansar do quê? Passei o dia descansando, como o faço já há muito − respondi-lhe sem arrogância. − Depois do jantar então o senhor conta a história que tanto Augustinho está pedindo, combinado? − Está certo então, fica assim combinado. Augustinho, depois da refeição, prometido? Balançou a cabeça para cima e para baixo como quem havia concordado com a proposta. Levantei-me da cama para me dirigir à copa com a bondosa ajuda de Madalena, que ofereceu seus braços para servir de apoio às minhas trêmulas mãos. Ao ficar de pé ainda senti aquele ligeiro mal-estar de quem havia ficado deitado quase que o dia todo, meu joelho esquerdo ainda sentia a maldita ferida cicatrizada à fogo, era só aguardar, que mais um instante a dor passaria, logo poderia caminhar com minhas próprias pernas, aquelas mesmas que me levaram até o inferno e dele me tirou para a glória e honra. Ao me aproximar da cozinha senti um cheirinho agradável da sopa de couve com farinha de milho, inhame e bacon, que Glorinha havia deixado antes de sair. Augustinho se sentou à minha direita e Madalena à minha frente do outro lado da mesa. Logo nos servimos, meu neto, sem cerimônia, mergulhou sua 14


colher nas mandiocas fritas feitas na manteiga, seu tira-gosto favorito, eram crocantes e salgadas a gosto do seu maior apreciador. Adorava vê-lo comer com aquele apetite fugaz, dava-me a impressão de que gostava não só de mandiocas fritas, mas, principalmente, de estar em minha casa ao meu lado e juntamente com sua mãe. Madalena não o repreendia por isso, desta feita, eu muito menos. Aliás, como eram gostosas aquelas mandiocas fritas preparadas pela Glorinha, minha leal e fraterna empregada. Durante a refeição conversamos sobre vários assuntos, eu e Madalena, com alguma interferência bem-vinda de meu netinho, querendo saber o que era isto ou aquilo. Trocamos algumas ideias sobre atualidades colhidas nos jornais e nas ruas, coisas como a guerra da Europa que deixou muitos em condições miseráveis por lá, a difícil situação da Alemanha e seu pobre povo, também comentamos alguma coisa sobre a agitação provocada nas ruas, insatisfações com o presidente, o sistema, os artistas estavam divulgando novas linguagens para as artes, parecia que algo de novo estava para nascer no Brasil, toda a gente estava irrequieta, muitas coisas aconteciam ao mesmo tempo, mal dava para saber de um fato e já se sabia de outro logo em seguida, bons motivos para as manchetes dos jornais. O mundo depois da guerra europeia, a que passou a ser chamada de guerra Mundial, estava mudando muito, só não se sabia ao certo se a mudança seria para melhor. Durante nosso diálogo, lembrei Madalena que as guerras não trazem nenhum benefício e que nunca há vencedores, apenas sofrimento, cadáveres e mortos-vivos, 15


Nioac Almir Lage

São Paulo 2016


Copyright © 2016 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa

Almir Lage

Diagramação

Jacilene Moraes

Revisão

Raquel Sena

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ L17n Lage, Almir Nioac / Almir Lage. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2016. ISBN 978-85-437-0655-9 1. Romance brasileiro. I. Título. 16-35301

CDD: 869.3 CDU: 821.134.3(81)-3

________________________________________________________________ 08/08/2016 10/08/2016 Impresso no Brasil Printed in Brazil

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Rua da Quitanda, 139 – 3º andar CEP 01012-010 – Centro – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br


A saga de irmãos brasileiros na maior odisseia de todos os tempos. Submetidos ao terror imposto pelo astuto inimigo, sobreviveram a mais cruel de todas as batalhas. Narrado pelo nosso protagonista, baseado em seu memorial sobre a guerra do Paraguai.

Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da Guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidaban. Machado de Assis (Crônicas, 1897)


Para entender a “Retirada da Laguna” Com a Campanha da Tríplice Aliança cada vez mais acirrada, uma coluna expedicionária, em abril de 1865, partiu de Santos (SP), para apoiar as tropas que se encontravam em Mato Grosso, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago. Novos soldados foram arregimentados pelo caminho, totalizando uma força de 3 mil homens. Recebendo ordens de seguir para Coxim (MS), a coluna lá ficou, ilhada pelas inundações, até junho de 1866. Durante esse tempo, foi reduzida a cerca de 2 mil soldados, atingida pela fome e enfermidades. Ao morrer o comandante Drago, assumiu a chefia da tropa o coronel Carlos de Morais Camisão. A 11 de janeiro de 1866, iniciou-se o deslocamento para Nioaque (MS), localidade escolhida como base de operações. A coluna lá chegou com cerca de 1.300 homens. O coronel Camisão decidiu cruzar o rio Apa, adentrar o território paraguaio e conquistar a região de Bela Vista. Orientada pelo guia José Francisco Lopes, a coluna seguiu avante. Mas, sem meios de transporte, foi-lhe muito difícil ultrapassar os rios e pântanos com os trens de combate e as peças de Artilharia. As forças adversárias, obrigadas a recuar, destruíram tudo o que pudesse servir aos soldados brasileiros: nem comida, nem água, nem pousada havia para os combatentes. O coronel Camisão rumou para a Fazenda Laguna, a fim de conseguir mantimentos e proporcionar repouso à tropa.


Sob a perseguição furiosa do adversário, foi ordenada a retirada, sob as agruras da fome, da sede, da terra calcinada pelo fogo que era ateado aos campos, da fumaça que causava profundas irritações pulmonares, das tormentas que tornavam impossível a locomoção no território pantanoso. Não havia munição nem alimentos, e a coluna prosseguia com o cólera e outras enfermidades ceifando inúmeras vidas. Sem meios para cuidar dos doentes e feridos, estes foram deixados no campo. Os sobreviventes marcharam, com dificuldade, até uma fazenda, onde foram encontradas laranjas para alimentação dos soldados. A duras penas, a coluna chegou a Laguna. Mas Camisão e o guia Lopes, vítimas dos sofrimentos causados pela árdua marcha, não chegaram a esse destino. Assim como quase a metade dos bravos que iniciaram a Retirada. (fonte: http:// www.exercito.gov.br/VO/169/laguna.htm)



Sumário Capítulo I - Mandiocas fritas............................11 Capítulo II - Transe infernal.............................19 Capítulo III - Sagrado dever..............................27 Capítulo IV - Patria morum..............................31 Capítulo V - O baú.............................................37 Capítulo VI - Finalmente Nioac........................47 Capítulo VII - Momentos...................................53 Capítulo VIII - Ao Apa.......................................63 Capítulo IX - Rumo a Bela Vista.......................71 Capítulo X - Frente a frente com o inimigo.....81 Capítulo XI - Missão cumprida.........................93


Capítulo XII - Laguna......................................105 Capítulo XIII - Pausa para o chá....................115 Capítulo XIV - Batalha de Baiendê................119 Capítulo XV - Machorra.................................131 Capítulo XVI - A Batalha de Nhandipá........139 Capítulo XVII - Fome, fogo e frio...................149 Capítulo XVIII - Deus existe!..........................161 Capítulo XIX - Canindé...................................171 Capítulo XX - Nioac.........................................185 Epílogo...............................................................201


Capítulo I

Mandiocas fritas

Lá fora, soprava o vento em todas as direções, exceto aquele que através de minha janela provocava o tecido que compunha uma das partes da cortina do meu quarto, iam e vinham sobre o parapeito, acompanhando as golfadas de ar trazidas pelo fluxo e refluxo da brisa, perfumando-o com cheiro de terra molhada. Pelo que imaginava, com mera observação aos suaves raios de sol que lentamente iam perdendo seu brilho, e ainda iluminavam as paredes opostas às janelas, deveriam ser aproximadamente lá pelas seis horas da tarde do segundo sábado de março de 1920. Inerte, sobre uma cama confortavelmente arrumada e cheirosa, aguardava meus derradeiros momentos de contemplação e meditação, apelando por meio de minhas orações ao piedoso divino que, se possível, concedesse a graça de receber minha pobre alma nos jardins do sagrado éden; se, pelos pecados que cometi, 11


não merecesse sua misericórdia, a devida punição deveria ser mais do que a sua sábia justiça. Enfim, preparava-me para em breve ocasião o encontro com a grande verdade. Deu-me, prazerosamente, grande vontade de respirar de novo aquele ar, como se fosse a última vez que o sentia penetrar em meus pulmões, agora cansados e ressentidos pelo tempo e pelas agressões que sofreu ao longo de tantos anos. Quebrando o silêncio, o som do relógio de parede da sala de visitas anunciava exatamente com as seis badaladas, o que correspondiam às dezoito horas, aquela magnífica tarde de verão quase outono. Interessante... Tantas e quantas vezes vivi tardes de verão, mas, que me recorde, nunca como nesta hora deste dia, sentia minha mente se deslocar de meu corpo franzino a cada minuto, sem dor nem sofrimento, tornava-se cada vez mais volátil e solta, dava a impressão de acompanhar os sopros de ar que invadiam o meu quarto. Mal podia senti-lo, que apoiado sobre um colchão macio e travesseiros tufados, serviam de molde às partes opostas de minha cabeça e pescoço. O assoalho estava limpo, a madeira do piso brilhante e, através do reflexo do espelho de meu guarda-roupa, pude observar que embaixo e ao lado de minha cama, à minha direita, sobre o tapete de pano, estava meu par de chinelos de couro fofo, aquele que havia ganhado no ano anterior do neto que leva o mesmo nome que o meu, Augusto. Do quarto, ouvi o som do portão de ferro da entrada do jardim se abrindo, um pouco enferrujado pela falta de arrumação, em seguida uma batida forte na por12


ta da sala que dá para a varanda. Era, pela hora, minha única filha e seu filho mais moço de 10 anos, o Augustinho, juntos vieram para substituir a minha empregada no seu final de labuta diária. Sob hipótese alguma me deixavam sozinho em casa, havia sempre uma companhia amiga e solidária. Logo após terem entrado, percebi que conversavam em tom pouco audível, sussurravam, talvez para não me incomodar, era natural considerando-se o meu estado de saúde, devidamente prejudicado pelo envelhecimento. Os passos no assoalho indicavam que vinham em direção ao meu quarto, abri os olhos para recepcioná-los, em seguida abriram com cuidado a porta procurando evitar fazer ruído que incomodasse. Besteira, da minha parte eram sempre bem-vindos sob qualquer circunstância. A presença de meus familiares sempre surtia efeito benéfico sobre minha delicada saúde, preferia estar com eles em minha casa do que ficar a mercê de algum asilo ou sanatório. Assim que entraram perceberam que eu estava acordado e, devagar, foram se aproximando, meu neto me beijou a mão direita, e minha filha beijou-me a testa carinhosamente. Que saudades! Passavam quase todas as noites comigo desde que adoeci, adorava saber que não me encontrava velho e abandonado. Minha filha sempre foi muito meiga comigo, seus filhos haviam herdado esse dom. Adorava recebê-los todos os domingos para almoçarmos em família. Passamos juntos o Natal e Ano-Novo desde seu casamento com Gregório, órfão de pai desde o nascimento, competente e dedicado médi13


co militar, filho de um grande amigo e companheiro... Que Deus o tenha... − Papai, como passou o dia hoje? − perguntou-me com peculiar simplicidade. − Vovô conta uma história? − pedia com tom eufórico meu pequeno Augusto. − Deixa seu avô descansar! − Descansar do quê? Passei o dia descansando, como o faço já há muito − respondi-lhe sem arrogância. − Depois do jantar então o senhor conta a história que tanto Augustinho está pedindo, combinado? − Está certo então, fica assim combinado. Augustinho, depois da refeição, prometido? Balançou a cabeça para cima e para baixo como quem havia concordado com a proposta. Levantei-me da cama para me dirigir à copa com a bondosa ajuda de Madalena, que ofereceu seus braços para servir de apoio às minhas trêmulas mãos. Ao ficar de pé ainda senti aquele ligeiro mal-estar de quem havia ficado deitado quase que o dia todo, meu joelho esquerdo ainda sentia a maldita ferida cicatrizada à fogo, era só aguardar, que mais um instante a dor passaria, logo poderia caminhar com minhas próprias pernas, aquelas mesmas que me levaram até o inferno e dele me tirou para a glória e honra. Ao me aproximar da cozinha senti um cheirinho agradável da sopa de couve com farinha de milho, inhame e bacon, que Glorinha havia deixado antes de sair. Augustinho se sentou à minha direita e Madalena à minha frente do outro lado da mesa. Logo nos servimos, meu neto, sem cerimônia, mergulhou sua 14


colher nas mandiocas fritas feitas na manteiga, seu tira-gosto favorito, eram crocantes e salgadas a gosto do seu maior apreciador. Adorava vê-lo comer com aquele apetite fugaz, dava-me a impressão de que gostava não só de mandiocas fritas, mas, principalmente, de estar em minha casa ao meu lado e juntamente com sua mãe. Madalena não o repreendia por isso, desta feita, eu muito menos. Aliás, como eram gostosas aquelas mandiocas fritas preparadas pela Glorinha, minha leal e fraterna empregada. Durante a refeição conversamos sobre vários assuntos, eu e Madalena, com alguma interferência bem-vinda de meu netinho, querendo saber o que era isto ou aquilo. Trocamos algumas ideias sobre atualidades colhidas nos jornais e nas ruas, coisas como a guerra da Europa que deixou muitos em condições miseráveis por lá, a difícil situação da Alemanha e seu pobre povo, também comentamos alguma coisa sobre a agitação provocada nas ruas, insatisfações com o presidente, o sistema, os artistas estavam divulgando novas linguagens para as artes, parecia que algo de novo estava para nascer no Brasil, toda a gente estava irrequieta, muitas coisas aconteciam ao mesmo tempo, mal dava para saber de um fato e já se sabia de outro logo em seguida, bons motivos para as manchetes dos jornais. O mundo depois da guerra europeia, a que passou a ser chamada de guerra Mundial, estava mudando muito, só não se sabia ao certo se a mudança seria para melhor. Durante nosso diálogo, lembrei Madalena que as guerras não trazem nenhum benefício e que nunca há vencedores, apenas sofrimento, cadáveres e mortos-vivos, 15


as partes envolvidas saem mutiladas e arrependidas. Até quando haveríamos de testemunhar barbáries e assassinatos? Em nome de quem? Para qual razão? Diziam ter sido aquela uma guerra inevitável e que poria fim a todas as guerras. Só vivendo para crer... Retiramo-nos da copa e me dirigi ao lavabo para a higiene após a refeição, para posteriormente encontrar-me com meu netinho em meu quarto, enquanto Madalena daria trato à louça na cozinha. Augustinho já me aguardava ansioso, estava sentado na cabeceira da minha cama, como de costume, para ouvir mais uma de minhas histórias, perguntando-me: − E, então, vovô, qual vai ser a história de hoje? − Calma, filho, hoje vou lhe contar uma bem longa, daquelas que seus ouvidos vão ficar calejados, mas é para você guardar no seu coração, pois se trata da história de um pedaço da minha vida e, como você já está com quase onze anos, espero que se lembre para sempre, para um dia, quem sabe, contá-la aos seus filhos e, mais ainda, até para os seus netos. Meu netinho de súbito arregalou seus olhinhos, pensando certamente, com o que haveria de ser? Não seria uma história de reis, princesas, dragões e cavaleiros, quanto a isso ele estava certo, tudo isso não poderia existir, dessa vez seria uma feita da verdade. Madalena interrompe por um momento, servindo-me uma xícara de chá de erva-doce, deliciosamente preparada por ela, sob os caprichos aprendidos com sua mãe, minha saudosa e eternamente amada Thereza, quem guardo em meu coração saudosista e apaixonado. 16


Faço pausa para saborear meu chá e seu odor traz à minha mente a imagem de Thereza, era seu chá preferido, por isso o fazia com capricho e perfeição. Foi-se há oito anos para o convívio com o Senhor, depois de sofrer de uma forte pneumonia que a deixou muito abatida e debilitada; não conseguindo se recuperar, faleceu no hospital da Ordem Terceira do Carmo, centro do Rio de Janeiro, em maio de 1912. Minha vida a partir daí, mesmo na companhia de meus filhos, amigos sobreviventes ao tempo e parentes, nunca foi a mesma. Sinto até hoje o seu cheiro perfumado e me lembro da quão lisa era sua pele clara, suas mãos acariciavam minha barba para me fazer relaxar, e logo adormecia como um bebê em seus braços. Foi uma mulher brilhante, ofereceu-me quarenta e um anos de sua vida, muito inteligente e sábia educou e alfabetizou todos os nossos três filhos, tendo sofrido muito com a perda de nosso segundo filho, natimorto, posteriormente agraciada por Deus que lhe concedeu mais dois. Madalena, em seguida ao fato lamentável em nossa vida, veio ao mundo para nossa alegria e satisfação. Engraçado que, quando se perde um filho nessas condições, temos a impressão de estarmos sendo punidos pelo Criador, por algum motivo que não sabemos, daí surge uma incômoda depressão, somente superada pela fé em nossas crenças, jamais pela razão. Thereza apareceu em minha vida para o meu renascer, a tristeza que sinto com sua morte é equilibrada com os sentimentos deixados por ela em meu coração. Que Ele a ampare e guarde a sua alma com todo o carinho de que é merecedora. 17


Ao terminar a degustação do chá oferecido por Madalena, dirijo-me à minha cama e retorno a atenção ao meu querido netinho, percebo nesse instante como os seus olhos, a disposição, o brilho, o modo de olhar, são parecidos com os de Thereza. Augustinho, a história que vou lhe contar é sobre aqueles que deram suas humildes vidas para que as nossas ficassem eternamente livres. Para saber por quê, preste toda a atenção. − Mas, vovô, não entendi, como assim deram suas vidas pelas nossas? − Há pessoas que nascem com o dom de encarar a vida como uma missão e se reservam o direito de cumprir esta missão, essas pessoas são chamadas de heróis. E herói é aquele que sacrifica sua própria vida em benefício de outras, são magnânimos, briosos. Seu avô foi uma dessas. − Meu avô? − Sim, meu neto, seu avô Daniel, chegaremos nele em breve.

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Capítulo II

Transe infernal

Por volta de 1864, quando tinha apenas 19 anos as coisas não eram tão fáceis. Tínhamos que trabalhar muito e desde criança. Comecei com 10 anos a ajudar meu pai no empório, uma espécie de mercearia, à rua Direita, no largo de Santa Cruz, perto da igreja do Rosário, dali saía o nosso sustento, minha família dependia disso. Mamãe ficava em casa nos afazeres do lar com minha irmã, meus dois irmãos, sendo eu o mais moço, ajudávamos da mesma forma nas tarefas que envolviam os negócios de papai. A mercearia foi comprada de um português que desejava retornar à sua querida terra natal, Ilha da Madeira, que por admirar muito o caráter de papai, seu fiel ajudante, ofereceu-a a preço compatível com suas posses à época, devendo ainda alguns tostões que lhe foram enviados para Portugal, em prestações que levaram cinco anos para acabar. Assim era a vida naquela época... 19


A tarefa de ensinar as primeiras letras e a aritmética fundamental ficava por conta das mães, a iniciação para o trabalho era competência exclusiva dos pais, normalmente exigentes nesse sentido. Tínhamos a sorte de ter o próprio estabelecimento, pois com isso não dependíamos de buscar trabalho remunerado em outros lugares, o que nos trazia alguma segurança. O comércio não era lá essas coisas, mas dava para viver modestamente e de certa forma diria até bem, não nos faltava nada em casa e as contas estavam sempre em dia, papai era um homem que mantinha tudo sobre controle. A localização era perfeita no centro e próximo ao caís do porto, de onde vinha boa parte das mercadorias vendidas na mercearia. Nosso estabelecimento tinha como principais clientes os funcionários do governo imperial que trabalhavam e moravam nas proximidades, que, ao comprarem, preenchiam cartelas promissórias para pagamentos nos dias em que recebiam seus soldos. Meu irmão mais velho já planejava seu casamento e sonhava com a abertura de uma loja de tecidos, patrocinado pelos seus esforços de ter economizado um bom dinheiro ao longo de alguns anos de trabalho com papai. Nosso laborioso pai nos remunerava com comissões sobre as vendas, havia uma parte para cada um, na devida proporção equivalente à idade. Sempre nos falava: “A poupança traz a felicidade.” Deste modo, fomos educados a sempre guardar um pouco do que recebíamos. Aos 14 anos, eu já conseguia comprar algumas peças de roupas com meu próprio dinheirinho e adorava, aos domingos, após a missa, passear com meus amigos nas diversas praças do centro da cidade; aliás, ha20


via uma confeitaria próximo ao Largo do Passeio que era meu ponto dominical favorito, servia o melhor refresco de limão da cidade e tinha os melhores doces e confeitos. Certo domingo, cheguei até a ver o Imperador e sua imponente carruagem, cercado pela majestosa cavalaria de guarda. Ele parou junto ao largo, desceu da carruagem e acenou para o público presente, que aos berros deixou no ar um “Viva Dom Pedro II!” Nosso antigo imperador foi um homem justo e honesto aos olhos do povo simples e humilde. Guardo em memória, com profundo respeito, sua imagem. Abdicou do trono e se exilou na França para poupar o povo brasileiro de uma possível guerra civil, foi essa a impressão que tive na época. − Vovô, Dom Pedro II foi então um homem bom? − meu neto, interrompendo-me. − Mas não havia escravos no império? − perguntou-me com grande expressão de dúvida. − Vejo que você tem se dedicado aos estudos... Procurei assim explicar-lhe: − Já lhe disse que na memória do homem comum, como eu, Dom Pedro foi de fato um brasileiro, senão o maior deles, segundo o que escreveu um homem muito importante chamado Joaquim Nabuco. Quanto à escravidão, essa foi uma das heranças deixadas por Portugal após a independência, mas na regência de Pedro II houve a abolição da escravatura. Não foi fácil a abolição, mas, assim mesmo, aconteceu. Comentava-se muito à época que já havia passado da hora de libertar os escravos. Penso que cada cidadão deve procurar estudar o caso e tirar suas próprias conclusões. 21


− Mas... onde foi mesmo que eu parei? Há, lembrei-me! Bom homem foi aquele... Em 1864, as coisas ferviam lá pelo sul do Brasil, era com relação à questão do Uruguai, um país platino que faz fronteira com o Rio Grande do Sul. Desde que nasci, em 1845, o sul sempre foi motivo de muitas manchetes nos jornais, teve guerra e muita rebelião, chegou a ter uma que ficou conhecida por Guerra dos Farrapos. − Guerra dos Farrapos? Que engraçado o nome meu avô... Algumas risadas, de ambas as partes, alegraram por alguns instantes nossa história. − É esse o nome que deram para o conflito, além do outro que é Revolução Farroupilha. Já lá no nordeste teve uma outra, bem depois, com nome mais curioso ainda, que foi a Guerra dos Canudos, procure estudar a respeito. Sempre tivemos no Brasil esses tipos de conturbações e conflitos, mas foram muito bem domados, muitas vezes a custo de muita gente morta e ferida, todavia continuamos unidos e grandes, como um gigante, em nosso próprio território. No Uruguai já a algum tempo vivia-se uma guerra civil, isso afetava os interesses de negócios do Brasil com aquela região. O Brasil enviou tropas ao Uruguai, por pressão de fazendeiros gaúchos que trabalhavam nas terras daquele país, muitos alegavam terem sofrido saques e violências sem que o governo uruguaio tomasse as devidas providências. Deste modo, o império do Brasil, resolveu intervir. Mas os uruguaios que estavam no governo têm o presidente do Paraguai como aliado, 22


um ditador chamado Solano Lopes, que não tardou em preparar a retaliação, os paraguaios apreendem um navio brasileiro o Marquês de Olinda, em que estavam a bordo o presidente da província do Mato Grosso e sua comitiva, e pouco mais de um mês depois invade o Mato Grosso tomando o nosso Forte de Coimbra e várias outras cidades e vilas. Foi aí que começou a guerra mais odiosa, sangrenta e maldita de que já participou o nosso povo, a Guerra do Paraguai. A guerra que todos desejavam jamais ter acontecido. Nesse momento de contemplação com meu neto, por um instante, fico mudo. Do nada surgem sons diversos e desconexos trazidos por uma lembrança cheia de horrores, são tiros, explosões, gemidos, gritos, seguida de visões alucinantes com fogo, muita fumaça no ar, sangue, chuva, lama... Levo as mãos ao rosto e algumas lágrimas brotam em meus olhos. Repentinamente, desperto desse transe infernal ao som das batidas do relógio de parede existente na sala de visitas, anunciando vinte horas, oito suaves badaladas. − Vovô, o senhor está bem? Perguntou-me com preocupação. Por alguns segundos, nada ouvi, nada senti, exceto minhas recordações, minhas infernais lembranças daqueles duríssimos dias pelos quais passei. − Sim, estou bem agora, mas por alguns instantes meu corpo e mente se deixaram levar por lembranças das quais não gostaria mais de ser eterno prisioneiro. Uma fadiga enorme tomou conta de meu corpo e não hesitei em pedir para que fossemos nos preparar para 23


dormir, continuaria outro dia aquela história. Minha filha já estava pronta para levar meu neto para a cama, despedindo-se com um carinhoso boa-noite seguido de um beijo em minha testa. Após a troca da roupa pelo pijama, segui para o oratório onde fiz minhas preces carregadas de muita emoção. Pedi pelos meus companheiros que jazem nos pântanos e minha querida esposa, logo após, deitei-me em minha confortável cama, vindo a adormecer imediatamente. Não foi uma noite tranquila, algumas vezes meus pulmões incomodavam pela sensação de falta de ar, alguma taquicardia também, meu joelho doeu muito, quando me deu vontade de ir ao banheiro, não encontrava meu par de chinelos e acabei por urinar na roupa. Tive de trocar o pijama e com muita dificuldade, pois não estava enxergando direito com apenas a luz do abajur iluminando o meu quarto, não desejava provocar ruídos que despertassem minha filha no quarto ao lado onde dormia com Augustinho, certamente iria ao meu quarto em meu auxílio, conheço bem a minha filha e seus gestos caridosos para comigo. Pensei, por algum tempo, se meu neto não ficou um tanto quanto espantado com aquela minha inesperada reação. Lembrei-me de certa vez, com mais ou menos sua idade, ter passado quase que uma noite sem dormir preocupado com um mal-estar que meu pai havia sofrido no interior da loja, foi um mal súbito segundo ele, que haveria de não ser nada de mais, mesmo assim senti muito medo só de pensar que poderia ser algo muito grave. Meu corpo respondia com calafrios quando imaginava sua morte, foi terrificante. 24


Lá pelas tantas, após beber um copo d´água da moringa que ficava sobre meu criado mudo, sem ter nada o que fazer ou pensar, acabei novamente adormecendo, desta vez sem nenhuma interrupção. Dormi preocupado se poderia assistir à missa no dia seguinte, mas isso não me levou a perder parte do sono que me restava até completar a noite e alcançar a manhã do dia seguinte. Dormi como um bebê, não tive sonhos. Pelo menos que me recorde...

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Capítulo III

Sagrado dever

Acordei pela manhã do domingo seguinte com Gregório passando a mão sobre minha testa, acabava de retornar do seu habitual plantão médico no Hospital Militar, como sempre, aproveitava os domingos conosco. Sabia que desta forma garantia sua presença familiar em nosso meio, para realização de Madalena e seu primogênito, assim como para minha satisfação em poder sempre revê-lo. Gostaria de lembrar que Gregório Mendonça de Morais, ou melhor, Dr. Gregório, capitão médico militar, é filho de meu grande e já falecido amigo, se não o meu saudoso e fiel camarada Daniel Zebra de Morais. Dando-nos a honra de sua presença, Gregório preparou nosso café da manhã juntamente com Madalena, dialogavam muito e com apreciável bom humor, com a impressão de que realmente eram um casal muito feliz. Logo que deixaram pronta a mesa matinal, o aroma do 27


café tomou conta de meu humilde lar, adorava aquele odor, lembrava-me todas as manhãs que passei com minha amada Thereza. Adorava o seu café com broinhas de fubá. Conversávamos sobre os acontecimentos de rotina na política e no esporte, sobre os quais sempre adorei puxar uma prosa, passávamos bons momentos, enquanto meu neto deliciava-se com as geleias de Glorinha e seus biscoitinhos, alguns deliciosos feitos à base de manteiga. Após nosso delicioso café da manhã, preparamo-nos para à missa, dedicava-me com muito afinco às cerimônias do domingo para ter com Deus alguns momentos de profunda meditação e oração, fiel católico, nunca deixava de fazer minha peregrinação até a Igreja do Carmo, mesmo que me custassem alguns sacrifícios físicos, mas que resultassem no conforto da alma. Minha dedicação para com minha religião ainda era pouca, diante do milagre que Ele me concedeu ao poupar minha vida e de muitos companheiros meus que ousaram um dia conhecer as agruras do inferno. A razão de nossa existência devemos ao sagrado Pai, e, pelo milagre da vida que nos concedeu, a única coisa que nos resta é o agradecimento na forma de oração e amor ao próximo. É o que denomino de “sagrado dever”. Como de costume, a charrete de seu Manoel sempre à disposição e conduzia-me à Igreja. Desta forma podia trocar algumas palavras com o humilde ancião e amigo, que fazia à nossa viagem uma breve e agradável companhia, postava-se às sete em ponto junto ao portão enquanto acariciava seu leal equino. Ao chegarmos, despedi-me com votos de saúde e boa sorte dirigidos ao nosso velho amigo charreteiro, pois sem28


pre retornávamos da missa dominical à pé, com intuito de contemplar a cidade, seus habitantes e novos costumes. Monsenhor Guilherme veio ao meu encontro e, como sempre, perguntando-me sobre minha saúde e bem-estar, respondi-lhe que, segundo a graça de nosso senhor Jesus Cristo, continuava ótimo, cumprimentou com carinho meu genro e filha, espanando com a ponta dos dedos os cabelos muito lisos de meu neto. Também, seu fiel noviço, um afrodescendente bem encorpado, abraçava-me estampando cândido sorriso, e decorrente daquele gesto tão sincero fazia questão de beijar-lhe o rosto todas as vezes que nos encontrávamos. Eis alguns dos factuais motivos de dedicar-me com fé ao sagrado dever. Por simples curiosidade, observei que nas ruas da velha capital circulavam vários automóveis, alguns até muito barulhentos com suas buzinas estridentes. Gostava mesmo era das elegantes charretes e seus pomposos charreteiros, dos bondes puxados… burros simbolizavam a tradição e o bom gosto pelo conforto, já aqueles automóveis, esses, além dos ruídos constantes, eram perigosos. Não conseguia admitir a ideia de ver nosso mais bravo e elegante amigo, o cavalo, ser substituído aos poucos por aquelas máquinas de arrepiar. Durante a missa não me senti bem, tremia de um frio que corria meus ossos.

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Capítulo IV

Patria morum

Retornamos da Igreja em caminhada com uma certa demora, eu e minha inseparável bengala com cabo prateado, pois parava algumas vezes para me recuperar do cansaço. Nosso bem-estar se deu após um magnífico almoço de domingo. Celebramos nosso encontro familiar com uma extensa conversa curtida por muitos e agradáveis sorrisos. Os momentos de convívio com a família serão sempre os mais felizes nas muitas horas que passarão em nossa vida. Estávamos sentados ouvindo piano. Madalena executava uma linda valsa de Strauss. Lindo era o som do piano quando tocado àquela hora, passava das dezesseis horas, as andorinhas revoavam lá fora dançando pelos céus com suas álulas cor de noite. Nosso almoço foi um delicioso assado com batatas à moda portuguesa, acompanhado de um arroz com legu31


mes cozidos; um nobilíssimo e autêntico vinho do Porto enriqueceu nossa mesa. Augustinho descansava de sua ida e vinda à Igreja e de sua farta refeição, dormia como um querubim sobre o sofá cercado de polpudas almofadas, a música em seus ouvidos funcionou como um eficiente sonífero. Estar com meus mais próximos e estimados parentes era de fato uma coisa sublime, reconfortante e milagrosa. Deixei-me levar pelos suaves acordes daquele magnífico piano, que por muitos anos pertenceu à Thereza, não pude resistir... adormeci vagarosamente..., a alternância entre os sons graves e agudos executados em perfeita harmonia era acalento e afago ao meu velho corpo. Provavelmente o sono seria talvez efeito daquele vinho do Porto, trazido por Gregório, resultado de suas caçadas pelas adegas do Centro da cidade e das aristocráticas bodegas de São Cristóvão. Meus últimos pensamentos recordavam o dia em que todos os Souza Barroso, pais e filhos, saímos para tirar uma fotografia de família. Se não me engano, Madalena teria lá pelos seus seis ou cinco anos, queria de toda forma ser fotografada com sua boneca de pano sem o braço direito, que ela, quando mais nova, arrancou com um puxão ao tentar retirá-la de dentro de seu berço. Quis que ficasse sempre assim, faltando a parte destra da boneca, jamais permitindo que sua mãe ou qualquer outra pessoa a consertasse. Enquanto mergulhava num sono penetrante ouvia vozes, músicas, risos, tudo muito desconexo. Tinha a impressão de que os melhores momentos da minha vida 32


estavam passando quase que de uma única vez, em uma fração mínima do tempo. Como é possível aos humanos, depois de tantos anos de vida, guardar quantidade indeterminada de lembranças, verdadeira miríade sem fim? Meu corpo parecia flutuar e girar em torno da sala e seus ocupantes, via tudo de cima para baixo, distanciando-me cada vez mais... Um repentino sopro de vento invadiu naquele instante a sala, agitando o cortinado. Madalena interrompeu sua execução e foi fechar as janelas com a ajuda de Gregório. Ele percebeu que o céu, antes límpido e azul, tornara-se cinzento e úmido, provocando uma revoada sui generis de pássaros de toda espécie, daquelas que costumam sobrevoar os céus de uma cidade grande como é o Rio de Janeiro, e em sequência os cães da vizinhança começaram a emitir uivos como se lamentassem por algo em comum. Por intuição, virou-se e notou que seu sogro continuava imóvel na poltrona. Dado aos ligeiros acontecimentos, Augustinho estava sentado no sofá observando o correcorre de seus pais em direção às janelas. O relógio na parede indicava dezessete horas em ponto, quando então entoou cinco suaves badaladas. Gregório aproximouse e encostou seu ouvido direito sobre o peito de seu sogro, abriu-lhe o colete e a camisa que usava por baixo, Madalena a distância, entre a porta da sala e a poltrona, levou as mãos à boca; após a quinta badalada do carrilhão, Gregório virou seu rosto procurando por sua esposa, e anunciou o trágico diagnóstico: − Madalena, infelizmente tenho que dizer o pior... Um grito ecoou pela sala, 33


− Não! Não pode ser! Era a filha querida que desabafava sua dor. − Seu pai nada sofreu, não sentiu dor, que o bom Deus o tenha na terra dos justos. Madalena fez-se em prantos agarrada ao seu filho Augustinho, que certamente compreendia tudo e todos, evitou chorar para não sacrificar ainda mais a dor de sua sofrida mãe. Gregório carregou o corpo franzino do Dr. Augusto até o quarto e o deitou sobre sua própria cama. Procurou confortar sua esposa com um forte e emocionado abraço, adiantando-se nos procedimentos fúnebres que do fato lamentável seriam decorrentes. Dirigiu-se à sala, vestiu seu paletó, pôs o chapéu em sua cabeça e se despediu partindo com o intuito de tomar as necessárias providências. Em pouco tempo, à casa do Dr. Augusto, encontravam-se vários parentes e amigos, lá estavam todos os filhos e a única irmã ainda viva, para velarem seu corpo exposto em um caixão no centro da sala e iluminado por velas ao redor. Começavam a chegar várias mensagens póstumas e coroas de flores homenageando aquele que sempre se dedicou a homenagear. Numa delas constava a seguinte inscrição: “Dulce et decorum est por patria morum! - VGP”. Curioso por não conseguir decifrar a mensagem em latim, Augustinho foi de encontro ao seu pai e lhe pediu que dissesse o que ali estava escrito, respondendo-lhe Gregório: − O que ali se lê meu filho, traduzindo significa: “Como é doce e belo viver e morrer pela pátria!”. Ah, pátria! − exclamou Augustinho em pensamento. Era do que o seu avô mais falava nas suas histórias. 34


− Papai, o que significa VGP? − Veteranos da Guerra do Paraguai, bravos guerreiros, são honrados compatriotas que algum dia, nesse país, serão considerados como os verdadeiros brasileiros que construíram esta nação, para que eu, você, seus filhos e os filhos de seus filhos possam se orgulhar da terra que haverá de receber nossos ossos. O neto do Dr. Augusto sentiu que as palavras de seu pai continham a mesma força com a qual eram proferidas as de seu avô, quando dialogavam sobre as coisas de antigamente. As orações não cessavam, às vezes intercaladas por breves discursos feito pelos amigos inseparáveis e profundos admiradores. Um deles chegou a proclamar em voz alta “eis que perdemos o último de nossos bravos combatentes”, alguns sussurros se ouviam do tipo “muito bem dito, ele mereceu nosso total respeito, falemos francamente, foi um herói”, e outro, “foi um homem de muito valor, sempre apegado à família”.

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Capítulo V

O baú

Decorridos sete dias da morte do Dr. Augusto, Madalena e Gregório, após a missa de sétimo dia, puseram-se a desmontar o quarto do saudoso pai e sogro, com intuito de se desfazerem do imóvel, que por sinal era bastante antigo e o bairro já não mais abrigava o mesmo estilo e pompa da época do Império e prelúdio republicano. Havia um cômodo anexo à sala de visitas que era seu escritório de advocacia, lá estavam todos os seus preciosos livros, alguns quadros e inúmeras laudas de processos nos quais se debruçou toda a vida em defesa dos menos favorecidos. Vários casos foram defendidos pelo ilustre bacharel, em favor de seus companheiros veteranos da sanguinária Guerra do Paraguai, principalmente casos de pensão para viúvas dos veteranos, quando não reconhecidos pelo governo da República. Muito também se achou de manuscritos sobre romances e poemas dedicados principalmente à Dona The37


reza, sua adorada esposa. Próximo de um deles, havia uma moldura contornando duas lâminas de vidro, e no meio delas uma espécie de papiro com a inscrição de um poema feito a bico de pena em nanquim, que dizia: O Livro Bendito Senhor, aquele que semeia. Livros, livros a mão cheia e manda o povo pensar, pois um livro caindo n’alma é germe que faz a palma é chuva que faz o mar. Assinava nada mais ou nada menos que o famoso poeta abolicionista Castro Alves. Ao se debruçarem nas coisas do Dr. Augusto em seu quarto, notaram que a tarefa não seria nada fácil, muita coisa para juntar e outras para desprezar, tais como coleção de periódicos e boletins, publicações acadêmicas antigas, folhas soltas de alguns casos não desenvolvidos, e muito, muito mesmo. O guarda-roupa era imenso e pesado, várias peças de roupas como ternos, paletós, gravatas, sobretudo, casacos, em seu interior e curiosamente um baú de porte médio enfiado no fundo, bem escondido no fundo daquele imenso móvel de quarto. Pela posição que se encontrava, no mínimo chamava a atenção de qualquer um que desconhecesse sua existência, parecia com um daqueles baús de história de piratas contadas nos livros de ficção e aventuras. 38


Gregório e Madalena não resistiram à tentação de abri-lo e saber do seu conteúdo, o quanto antes fosse para não deixá-los mais curiosos do que já estavam. Eis que tomaram a decisão de fazê-lo, Madalena ainda teve tempo para uma observação sobre aquela peça, contava para seu marido que jamais soube da existência do baú, indagando sobre o motivo de seu pai nunca ter lhe falado sobre tal objeto. O que será que havia em seu interior que fosse motivo de mistério e inviolável segredo? Ambos retiraram o baú e o colocaram em cima da cama, sem muito custo, pois não pesava tanto quanto aparentava. Notaram que precisariam de uma chave para abri-lo, mas onde estaria a tal chave? Entreolharam-se e passaram a abrir todas as gavetas da cômoda, uma por uma e... nada da chave. Correram para o guarda-roupa e começaram a procurar nos bolsos de cada uma das calças, camisas, paletós e finalmente... nada de chave novamente. − Onde será que papai escondeu a chave do baú? – questionou Madalena com ar de suposição. − Quem sabe não está debaixo do colchão? − respondeu Gregório. Mas, após terem levantado o pesado colchão, nada encontraram. Seria provável estar a bendita chave no escritório do Dr. Augusto? Pois foram lá que iniciaram nova busca. Mas, apesar de todos os mexidos e remexidos, nada, de fato, nada conseguiram encontrar. Foram de volta para o quarto frustrados com o desaparecimento da tal chave. Ao chegarem Madalena se jogou na cama que em vida fora de seu estimado pai, 39


quando então o velho baú tombou para o lado e caiu no chão e de lado para a cama. Ao tentarem virar o já desdenhado volume, eis que notaram uma caixinha pregada no fundo, que ao ser pressionada abriu, e lá estava a tão almejada e cobiçada chave. Do tipo antiga mesmo, feita de ferro, pesada e um pouco grande para o padrão das chaves de sua época. Certamente que fazer uso dela seria o próximo passo, abrindo o baú e saber do seu conteúdo, mas Gregório fez ressalva se seria justo tomar conhecimento daquilo que seria um segredo de seu sogro, visto que a existência daquela preciosa peça não se tornou conhecida por nenhum dos filhos, mesmo Madalena sua companheira de todas as horas. Madalena, por sua vez, como boa mulher e movida por intensa curiosidade, discordava de seu marido e argumentou que, se seu pai desejasse que nenhuma pessoa encontrasse aquele baú, certamente teria queimado, destruído ou mesmo atirado no mar, coisa que não o fez em todos os anos de sua vida. Gregório pensativo alisou seu longo bigode e concordou com a posição defendida por sua esposa, afinal que mal faria àquela altura dos acontecimentos? Estaria o Dr. Augusto reservando alguma surpresa post mortem? Saberiam se abrissem logo aquela velharia guardada por seu sogro por um tempo inimaginável. O que poderia nele conter? Segredos de Estado, da vida pessoal de seus clientes ilustres? Tomaram a decisão de abrir e o fizeram sem receios. Colocaram o velho baú de volta à cama e, com as mãos trêmulas, denotando nervosismo, entraram com a chave na fechadura e giraram um quarto de volta à direita 40


e depois à esquerda duas vezes, ouvindo um leve estalar da mesma. Sem que retirassem a chave, forçaram a tampa convexa e revestida de couro para cima, após o rangido típico daquela que provavelmente ficou estática por algum tempo, miravam com olhos arregalados de surpresa para o interior daquela misteriosa caixa, imaginando ambos o que poderiam vir a descobrir. Completamente paralisados, após terem movido para trás toda a tampa que mantinha fechado o baú, deram por conta de seu conteúdo. Antes, porém, Madalena ficou perplexa e maravilhada com um certo enfeite costurado no feltro que revestia a parte interna da tampa, tratava-se de um brasão dos tempos do Império bordado com fios de ouro e prata, além de outros avios de fina e requintada costura. Madalena deslizou suavemente as pontas dos dedos da mão esquerda sobre a rica costura evidenciando seu interesse primeiro pelo rico detalhe estampado na contratampa. Pensava naquele instante o que aquilo poderia ter representado, ao longo de tantos anos, segundo os sentimentos de seu querido pai. Gregório observava com a calma que lhe era peculiar o comportamento contemplativo de sua esposa diante que acabara de achar. Certos de que muito mais teriam para apetecer a curiosidade ardente, passaram a vasculhar tudo que seus olhos encontravam. Muitas fotografias, inclusive uma da família quando Madalena teria por volta de cinco ou seis anos, abraçada a uma boneca de pano sem um dos braços. Também um pequeno álbum com algumas fotografias do tempo em que o Dr. Augusto foi militar no Corpo de Voluntários, junto com companheiros de caserna. 41


Enquanto o casal buscava tudo procurar, encontraram entre vários objetos um lenço de seda muito bem dobrado sobre um cachecol de lã, ambos com a insígnia ASB bordados em linha vermelha, várias moedas de cobre com a efígie de D. Pedro II espalhadas, muitas anotações, rascunho de cópias de processos e coisas do gênero, vários maços de cartas amarradas por barbantes, um machete devidamente embainhado, um cachimbo torto, uma pequena pistola de dois canos, e finalmente, por debaixo de tudo que poderia ser notado àquela hora, uma caixa marrom. Chamava a atenção àquela altura dos acontecimentos, pois, sendo de pouca profundidade, laqueada e com incrustações em marchetaria, medindo aproximadamente 30x15 centímetros, encontrava-se fechada por uma alça metálica dourada presa sob pressão a um tipo de pino feito também do mesmo material. Madalena, ao segurar com as mãos postas às laterais da pequena peça de madeira, gira inversamente e observa na base várias inscrições pouco nítidas, porém uma ainda permanecia compreensível onde se lia “su sangre y su alma para la gloria del Paraguay”, surge novamente a dúvida, o que poderia conter em seu interior? A roda da incerteza e da curiosidade tornava a girar em suas mentes. Seus corações palpitam por estarem mais uma vez diante de algo desconhecido e de um provável mistério, entreolham-se e desta feita Madalena põe nas mãos de Gregório o objeto. Nesse instante, suas expectativas são interrompidas pela campainha da porta principal. Gregório levanta-se com a pequena caixa nas mãos, pede para a esposa aguar42


dar enquanto vai atender ao chamado. Ao abrir a porta, nota que se trata de um funcionário da empresa dos correios e telégrafos, que lhe passa uma correspondência remetida pela Ordem dos Advogados do Brasil destinada aos familiares do Dr. Augusto. Dirigindo-se ao canto da sala, pôs a pequena caixa sobre o piano e abriu a carta com a delicadeza que merecia em respeito a memória de seu finado sogro. No documento, expressava-se, por parte daquela instituição, o profundo pesar pela perda do estimado amigo e colega advogado Dr. Augusto de Souza Barroso, em cuja Ata de última Assembleia, fez-se constar mensagem de pêsames ao distinto jurista. Após sua rápida leitura, passou a correspondência às mãos de Madalena. Enquanto ela lia atentamente as honras póstumas editadas pela Ordem, Gregório voltou à sala e pegou a caixa que havia deixado sobre o piano, retornando imediatamente ao quarto onde tudo de misterioso se passava naquelas últimas horas. O que poderia estar reservado para ambos no interior daquele pequeno baú! O badalar do velho marcador de horas anunciava exatamente a décima segunda hora do domingo, sétimo dia após o falecimento do memorável veterano. Sentados sobre a cama que serviu por muitos anos de confortável leito ao incansável ancião, o casal abriu lentamente a caixa e se deparou com três objetos, uma lupa, uma caneta bico de pena com a ponta extremamente ressecada pelo tempo e um livro, uma espécie de diário, em cuja capa encontrava-se escrito a palavra “NIOAC”, suas dezenas de páginas amareladas e desgastadas registravam milhares de palavras manuscritas à tinta. 43


Não muito distante da antiga residência do avô, no bairro do Rio Comprido, Augustinho brincava na casa de seus tios, irmão e cunhada de Madalena, no balanço amarrado num dos galhos fortes da mangueira que havia no quintal, quando, não mais que de repente, surgiu no meio de uma névoa um rapaz vestido em belo e engomado uniforme de campanha do exército imperial, calçado em botas reluzentes, segurando na mão esquerda um fuzil e na outra um pedaço de bandeira do antigo Império, notado pela inscrição de uma coroa sobre um brasão no interior do losango amarelo. O menino com muito assombro ao tentar pular do balanço caiu sobre os joelhos, e desesperado saiu correndo em direção à varanda, antes que atingisse àquela parte da casa, à sua frente surgiu do nada o jovem soldado que, parado como pálida estátua, lhe disse, entonando uma voz calma e suave, “saiba que já estou com seu avô, descansaremos em paz ao lado de Nosso Senhor, fique com Deus e jamais esqueça de Nioac”. Quando o menino mesmo assustado ia dirigir a pergunta, “mas quem é você e...?”, o rapaz deu meia-volta e partiu caminhando em direção ao nada até desaparecer. A partir de então, Augustinho não ficou mais assustado, uma certa tranquilidade tomou conta de seu corpo, e sua mente esvaziou-se de qualquer medo, mesmo não sabendo racionalizar o que se passara ali. Ficou gravada em sua memória as palavras do soldado e sua fisionomia, principalmente no detalhe que pode notar durante aquele breve encontro, o mensageiro possuía ao lado do olho esquerdo uma pequena cicatriz que seguia em direção ao pavilhão auditivo do ouvido do mesmo lado. 44


De volta ao quarto do falecido patriarca, seus pais se encontravam atônitos e com as ideias muito confusas em relação ao que acabara de ser revelado pelo destino. Gregório pressentia que o seu enigmático sogro, de alguma forma, planejara esta ocasião, e que aquele diário deveria chegar ao seu conhecimento e de sua família justamente do jeito que se deu, passo a passo, momento a momento, assim as emoções se justificariam e dariam mais ênfase ao teor do que foi propositado e deixado a mercê de nossas descobertas. Decidiram em sair para almoçar, àquela altura dos acontecimentos a fome lhes despertava o desejo, e depois passariam na casa de seus cunhados para buscar Augustinho e juntos retornarem à antiga casa do avô. A partir daquela hora, Gregório passou a dedicar seu tempo na profunda análise e interpretação da obra deixada por seu sogro. O que poderia nos revelar através de seus escritos? O que sabia a respeito dele era o trivial, que tinha sido um veterano de guerra nos tempos do império, muito amigo de sua falecida mãe, respeitoso jurista e que tudo fez pela sua educação e formação acadêmica, além, claro, de ser o genitor de sua querida e amada esposa. No breve retorno à casa de seu falecido sogro, acompanhado de Augustinho e Madalena, foram direto para o grande sofá próximo à cristaleira que ficava ao lado do piano, enquanto Gregório se dirigia ao quarto para, em seguida, retornar com o manuscrito de autoria do Dr. Augusto. Augustinho sentado no centro do sofá e abraçado à sua mãe, enquanto olhava para a capa daquele miste45


rioso objeto, mentalmente repetia o que conseguira ler NIOAC, em letras todas maiúsculas e em negrito; seu pai sentado em frente, cruzou as pernas com a direita sobre a esquerda, abriu a capa do livro, passando a ler em voz alta para que a família ouvisse. Seu pai e sua mãe já haviam contado sobre a descoberta durante o almoço, Augustinho também lhes relatou sobre o ocorrido no quintal da casa de seus tios, mas os pais pensaram se tratar de um sonho ou algo parecido, não deram muito crédito para não deixar o filho impressionado, achavam mesmo que o menino havia sonhado. Afinal, as crianças têm mesmo imaginação fértil. Em leitura, seu pai respirou fundo e repetiu o que lera inicialmente, “NIOAC – Uma história sobre a guerra do Paraguai, janeiro de 1912, aos meus filhos e netos e aos filhos destes”. Éramos todos ouvidos e mentes.

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Capítulo VI

Finalmente Nioac

Continuando a leitura, Gregório repetia em boa voz aquilo que seus olhos fixavam com ardor... Queridos filhos, filhas e netos. Certo estou de que Gregório ou Madalena, senão ambos, hão de encontrar este que será meu maior tesouro deixado aos meus, minhas memórias nunca dantes reveladas a qualquer que seja, da qual fui prisioneiro por muitos e muitos anos. Serei fiel em minha narrativa buscando recordar de tudo um pouco, sobre os acontecimentos que pude experimentar por força de meu destino e, também, o de meus companheiros de expedição, naquela que foi a maior de todas as provações a que um ser humano poderia suportar. Durante a campanha do Paraguai, adquiri o hábito de redigir missivas a destinatário imaginário, isto devido ao fato de não saber se conseguiria sobreviver às agruras daquela que parecia uma 47


infindável jornada, ajudava-me a passar os dias, servindo-me como distração. Pois agora, vocês terão a oportunidade de ingressar nesse que foi o meu permanente pesadelo. ... Província do Mato Grosso, Império do Brasil, 24 de janeiro de 1867: Vila de Nioac. Desde o dia 1º de janeiro que o coronel Carlos de Moraes Camisão está no comando da coluna designada oficialmente por Corpo Expedicionário em Operações do Sul do Mato Grosso, da qual orgulhosamente faço parte desde que estou em exercício no exército brasileiro. Alistei-me, como voluntário da pátria, há dois anos com dezenove anos incompletos, com base no decreto Imperial 3.371, de 7/1/1865, e com quase vinte e um ainda não consegui ver o inimigo de frente, sequer nos flancos ou retaguarda. Nosso inimigo comum no momento é a mortal perneira, ou beribéri como a chamam nossos oficiais médicos, que já conseguiu ceifar alguns de nós, inclusive até oficiais, também o desabastecimento e o tempo que, quando não chove, faz um calor ardente. Servi na corte, inicialmente como praça de pré, durante alguns meses e depois fui designado para acompanhar os oficiais da Engenharia comandados pelo tenente-coronel Juvêncio, no posto de anspeçada, algo entre soldado e cabo; tinha como grande vantagem saber ler e escrever bem. Em Uberaba, fui incorporado ao 17º Batalhão de Voluntários, para completar o contingente que sofreu desfalque devido às deserções. Ainda que passado algum tempo, recordo-me da indignação 48


de minha mãezinha ao saber do meu alistamento, nosso diálogo foi regado por lágrimas: ... − Minha querida mãe, o Brasil conta com sua juventude, nós fomos agredidos e devemos reagir, quem senão nós? − Meu filho há tantos outros, e você está indo tão bem nos estudos, no trabalho com seu pai... − Bem sei, minha mãe, mas também meus colegas da Escola de Direito alistaram-se, chegamos até a fazer uma manifestação no Campo de Sant’Ana. − O que seu pai disse? − Não disse nada, apenas isso: “vá com Deus e se cuide”. − Não acredito, um pai sem juízo, sem sentimentos, que deixa seu próprio filho ir para uma guerra que nem sabe aonde. − Não vou senão pela causa, preciso de seu consentimento, o povo está todo nas ruas exigindo uma resposta enérgica do Imperador, a imprensa está como um leão a rugir. − Mas o Imperador só sabe criar problemas, antes era com o Uruguai agora com esse tal de Paraguai. − Mãezinha querida, o Imperador não faz outra coisa a não ser apagar incêndios, o senador Furtado cobra determinação. Imagine-se no lugar daqueles que foram prejudicados com a invasão no Mato Grosso, estão agora talvez passando fome e medo. Solano López é um usurpador, aproveitou-se da questão no Uruguai para se apropriar de parte do nosso território, seu propósito está mais do que claro. − De política e guerra não entendo nada, um coração de mãe só quer o bem para um filho. 49


− Como lhe disse é por uma causa, nossos irmãos brasileiros, nosso território, nosso país, nossa história de conquistas e lutas, não podemos deixar isso tudo de lado e fingir que a guerra não existe, muitos já derramaram o seu sangue para que o nosso povo se tornasse independente e soberano, não será justo esquecê-los agora. − Se é pela vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo e glória de Deus... − Pois o santíssimo juiz ao final deste acontecimento que entrará para a história saberá mostrar quem estava com a razão. Como posso te impedir dessa loucura? − Não é loucura, mamãe, é patriotismo, é o dever para com o meu povo e a história de meu povo, seguirei feliz por saber que tenho uma mãe como a senhora, que me dá toda a proteção de que necessito e me ampara em suas orações. − Mas muito medrosa, pois quem sabe quanto tempo pode durar uma guerra? − Não, cautelosa, e, se todos os voluntários tiverem uma mãe como a minha, ganharemos esta guerra em pouco tempo. Já estou nessa há dois anos e nem sinal de que está para acabar, esses paraguaios além de cometerem barbaridades são teimosos, poderiam ter terminado com isso desde Uruguaiana, os chefes da Tríplice Aliança estavam todos lá quando o general paraguaio se rendeu, o povo dele talvez prefira a paz. Porém caberá sempre ao El Supremo a decisão final, esse parece não medir sacrifícios e consequências de seus atos. 50


Nossa marcha até Nioac só nos têm trazido baixas e descontentamentos, muitos casos de deserções provam isso, desde Cochim não percebemos se é estratégico ficarmos vagando de lugarejo em lugarejo, poderíamos aguardar em alguma localidade bem abastecida de água e víveres, obter reforço de mais tropas que servissem para engrossar a Coluna e fortalecer defesas na fronteira. Comenta-se que o coronel Camisão deixou o forte de Corumbá na mão dos civis e deu no pé juntamente com o restante da tropa e o comandante coronel Carlos Oliveira. Segundo nossos informantes, Nioac fora abandonada em 2 de agosto de 1866, quando chegamos só encontramos casas abandonadas e destruídas, construções incendiadas e apenas a Igrejinha estava de pé. O coronel determinou nosso posicionamento numa matinha próxima ao Orumbeva, e algumas edificações que ainda se mantinham de pé serviram de hospital para os necessitados, enquanto no interior da Igreja manteve-se um depósito de munições. Nosso contingente era formado por paulistas, mineiros principalmente, goianos, amazonenses, paranaenses, cariocas e uma pequena tropa de mulheres, crianças e mercadores, que nos seguiam desde Santos em suas carroças ou no lombo de algumas mulas, além de alguns indígenas inimigos dos soldados guaranis. Mas quem passou a chamar mais a atenção da tropa foi o guia José Francisco Lopes, fazendeiro criador de gado há alguns anos no Mato Grosso, todavia natural da Vila de Pihum-i em Minas Gerais, este compartilhava com nosso comandante a todo tempo sobre configurações de terreno, distâncias aproximadas, víveres e 51


lembranças de seus familiares feitos prisioneiros nas mãos dos paraguaios após a maliciosa investida. Dentre alguns oficiais, destacava-se pela inteligência e compostura o tenente bacharel do Corpo de Engenheiros, Sr. Taunay. Durante nossa longa marcha consegui fazer muitos novos amigos na tropa, Antonio, o mais animado, o sargento Antero, que tinha o apelido de sabiá, pois vivia a cantar modas de sua terrinha, os soldados Adriano e Cândido, que não paravam de falar das mulheres, as vivandeiras e amásias que nos seguiam, sempre dispostas a oferecer um ombro acolhedor aos nossos corpos despojados pelo cansaço, ajudavam muito na tarefa de lavar, cozinhar e serviam de enfermeiras aos oficiais médicos nos hospitais de campanha improvisados nos acampamentos. Um rapaz também jovem como eu e com vinte anos, cujo aniversário se deu no último dezembro, fazia parte de meu batalhão e me acompanhava desde o Rio de Janeiro, tínhamos em comum o fato de sermos acadêmicos de Direito da mesma escola. Enquanto fui formado no Liceu, o camarada havia se formado no Colégio Imperial Pedro II. Seu nome era Daniel Zebra de Morais, também ocupando o posto de cabo. Como éramos muito falantes e sempre almejando apresentar bom humor diante da tropa, nos identificamos e começamos a trocar ideias a nosso respeito e sobre nossas famílias. Daniel tinha um sorriso largo no rosto, cabelos castanhos e os olhos azuis, sua pele muito clara ficara como cor de pimentão devido ao intenso sol ao qual estávamos sempre expostos, esbanjava juventude em seu semblante, todos o admiravam pela sua jovialidade e persistência diante dos acontecimentos. 52


Capítulo VII

Momentos

Nossa estada em Nioac serviu para elevar o moral dos praças, reavivar esperanças, aspirar glórias e atos de bravura, bem como, o entrosamento entre toda a tropa. O grosso do pessoal constituía-se de negros, pardos e mestiços. Toda essa gente vivia e convivia cordial e respeitosamente, os incidentes quando ocorriam eram de caráter exclusivamente particular, uma discussão ou outra a respeito de jogo ou política, muito raramente havia caso de agressão entre os praças, todos muito disciplinados e vivendo grande expectativa de finalmente poderem se encontrar com o famigerado inimigo. Os negros se esquivavam de participar das rodas entre os de peles mais claras, não que os evitássemos, mas por pura precaução diante do fato de terem sido escravos; tinham espírito corporativo e assumiam as tarefas com alto grau de desempenho, nunca reclamavam, jamais demonstravam cansaço senão 53


diante da extrema fadiga pela qual passamos na marcha de centenas de léguas e que culminou com uma epidemia mortal que tirou a vida de muitos dos nossos camaradas, e provocou sensível deserção. Já não contávamos com o mesmo contingente, estávamos em menor número que antes, e o tão prometido reforço nunca haveria de chegar. Antes de nossa partida, determinou assim o coronel Camisão que as mulheres e acompanhantes, com um pequeno número de soldados, comandados por um oficial, deveriam guardar posição na vila, e, se necessário fosse, embrenhar-se nas matas próximas para oferecer resistência ao inimigo, desde que assegurassem proteger mantimentos, alguma pólvora e cartuchos que serviriam como apoio ao retorno da coluna expedicionária. Após inúmeras conferências entre os oficiais e o guia Francisco Lopes, finalmente se decidiram por prosseguir rumo à fronteira, mesmo diante da escassez de víveres e do minguado gado existente. Nosso coronel era mesmo durão e queria vingança, apoiado pelo guia Lopes que desejava imensamente voltar a ver seus familiares que se encontravam nas mãos do maldito exército paraguaio. Partimos em 25 de fevereiro em formação ajustada com a vanguarda formada pelo 21º Batalhão de Infantaria, durante todo o trajeto de Minas até Mato Grosso, seguidos exercícios de ordem unida e treinamentos de combate foram empregados. Dos doze canhões La Hitte que trouxemos de São Paulo, dispúnhamos de apenas quatro, comandados pelo metódico e eficiente major Cantuária, cujos subordinados sempre demonstraram muito zelo. Nossos músicos animavam nossos corações 54


com as marchas de campanha. Nossos víveres estavam se escasseando, deslocamo-nos uma légua abaixo da vila de Nioac e tornamos a acampar. A tropa sentia falta das rotineiras refeições, alguns já sabiam até o que podiam comer do mato ou da pesca em alguns riachos. Em 2 de março nos encontrávamos à beira de um rio de nome Feio, onde permanecemos até o dia seguinte devido ao péssimo tempo que se apresentou no momento. No pantanal, o terreno é ligeiramente plano, com poucas elevações, muitos banhados cercam toda a região e, quando há chuva, pequenos riachos se transformam em grandes torrentes d’água, e os banhados, em grandes lagunas. A vegetação é pouco variável e as espécies vegetais são sempre repetitivas, muita variação de pássaros e animais selvagens, vez ou outra sobrevoavam sobre nossas cabeças bandos de maritacas, observamos também a existência de miríade de insetos e animais rastejantes, principalmente cobras; houve quem dissesse ter visto uma com mais de oito metros, provavelmente uma jiboia. Próximo aos rios há sempre abundante vegetação, e em alguns pastos nota-se clareiras cercadas de uma mata nativa e exuberante. O clima varia de intensidade muito rapidamente, de dia é quente e úmido, e a noite é fria, quando chove é extremamente fria. Ventos costumam soprar com grande intensidade se antecipando às chuvas, estas quando se precipitam do céu são acompanhadas pelos mesmos ventos de antes. Nossos sertões brasileiros são admiravelmente belos, pena que tal contemplação se dê em tempos de guerra, gostaria muito de um dia poder voltar para melhor apre55


ciar as paisagens que aqui são como coisas parecidas com contos sobre eldorados, terras longínquas e paradisíacas. O guia Lopes retornou de sua estância do Jardim com mais de duas centenas de cabeças de gado, para alegria e satisfação de todo o pessoal que se encontrava faminto e com estômagos a roncar como carro de boi. Acreditamos que isso se dera porque haveríamos de invadir o Paraguai, finalmente. No 4º deste mesmo mês, deslocamo-nos aproximadamente 80 km para o sul de Nioac, atingindo na tarde deste dia a colônia de Miranda, encontramos casas e plantações incendiadas. Houve neste dia uma tumultuada reunião entre os oficiais e comandantes, os chamado Conselho de Guerra. Diziam que o coronel Camisão desejava adentrar o Paraguai, mas que os jovens oficiais relutavam devido à escassez de víveres e munições. Alguns dos nossos ouvidores de pé de barraca, informavam-nos que eles já se tratavam aos gritos, que o tenente-coronel Galvão por várias vezes chegou a pedir calma no recinto e que o tenente Taunay punha-se a tudo ver, ouvir e escrever. Quando chegou a vez do tenente-coronel Juvencio falar, este declarou não ser favorável ao prosseguimento da coluna, visto serem medidas práticas a tomar dado as dificuldades existentes, já não dispúnhamos mais de nossa cavalaria. Os informantes chegavam com as notícias, cada vez mais preocupados com o desfecho da situação, afinal iríamos ou não invadir o Paraguai e impor a merecida revanche? A tropa estava ansiosa pela conclusão, pelo sentimento desses nem que fosse de56


baixo de tempestade, a ideia de segurar a posição era inconcebível, queríamos lutar e já! Foi no clímax da discussão que adentra pelo acampamento o ilustre guia Lopes com bom número de rezes apanhadas nos pastos de suas fazendas próximas, animando com isso toda a tropa, que o saudara com euforia. O tenente-coronel imediatamente saiu da barraca onde se reunia o conselho e retornou dizendo: ”Deixo viúva e seis órfãos, que terão como única herança um nome honrado!”. Terminada a Ata do Conselho, foram imediatamente comunicar ao coronel comandante da expedição, que muito se alegrou, pois era seu desejo particular desde o acontecimento já narrado sobre Corumbá, podia salvar a honra, moderadamente pôs-se a reunir com os demais oficiais para planejarem a incursão. Notei a todo tempo como o guia sr. Lopes observava o comportamento da oficialidade, mantinha-se sereno sobre seu cavalo, porém sem deixar de exibir um minúsculo sorriso de contentamento, que poderia ser pela oportunidade de tentar resgatar algum parente próximo. Permanecemos estacionados neste ponto até o dia 10 de abril. O comboio de carretas transportando mercadorias nos localizou e, com elas, as mulheres que haviam ficado em Nioac. Durante este período foram realizados diversos reconhecimentos, preparativos e treinamentos. Impressionante é que, quando nos reuníamos em volta do fogo, falávamos das coisas de casa, mesmo com o choro de alguns, não havia quem se deixasse abater, tudo pelo qual estávamos passando tinha um sentido, a defesa do Brasil e dos brasileiros. Chegamos a comentar se a guerra 57


já não estaria em seu final, que provavelmente nossa incursão poderia ser uma das últimas, pois quase não víamos presença do inimigo, exceto numa ocasião em que o tenente-coronel Juvencio e dois auxiliares localizaram um ponto conhecido por Retiro, e puderam constatar que ficaram ali por algum tempo um destacamento paraguaio de aproximadamente 100 homens. No começo de abril, meu 17º recebeu ordens de realizar reconhecimento além do ponto onde o 21º já havia alcançado. Retornamos dois dias após, sem nenhuma alteração com grande significado para o comando. Nesta noite, Daniel e eu apreciávamos as estrelas enquanto tomávamos uma meia porção de aguardente, comprada junto aos mercadores, que nos ajudava a aquecer os ossos. Foi quando ele me contou sobre um romance que surgiu no acampamento de Uberaba. Lá conheceu uma moça quatro anos mais nova, que acompanhava sua mãe no comboio de mercadores. Chamava-se Aurora, era órfã de pai desde os cinco anos e cresceu filha única. Tanto o pai, português, quanto a sua mãe trabalhavam na venda ambulante, corriam de vila em vila, aldeia em aldeia, a oferecer tecidos, mantimentos e milagrosas receitas para a cura de bicheira, febre, dor de cabeça, diarreia, tosse, bronquite... Daniel descrevia a moça como uma deusa grega, um mito, a fonte de todas as inspirações, a mais perfeita das mulheres, estava realmente apaixonado. Quando da nossa estada em Campinas, conseguimos assistir a um baile promovido pelos aristocratas da região em homenagem ao Corpo Expedicionário. Como 58


a entrada era apenas permitida apenas aos oficiais graduados, ajeitamo-nos como camaradas de dois capitães, uma espécie de ajudante. Permanecemos o tempo todo de pé próximos à saída dos fundos do casarão, que dava acesso ao pomar, dali podíamos observar tudo e todos, nos nossos uniformes de gala e botas lustradas que mais pareciam espelhos. Vimos quantas mulheres bonitas há por toda a parte do nosso Brasil, mas nenhuma chegou a encantar tanto a mim ou ao Daniel. Mesmo longe da minha Thereza, não podia esquecer de promessas feitas quando da ocasião do embarque no Rio de Janeiro para o porto de Santos; sabíamos que não importava o tempo que durasse a guerra, ela e eu tornaríamos a nos encontrar, sob a graça e proteção de nosso padrinho Santo Antônio, para então depois realizar o nosso grande sonho. No 10 de abril, o corneteiro dá o toque de alvorada com o nascer do sol. Levanto-me ainda com os músculos tensos e doloridos devido aos exercícios e treinamentos do dia anterior, o coronel era mesmo exigente com os preparativos de combate, não nos deixava morcegar. Descanso mesmo só à noite à beira da fogueira. Daniel e eu depois de lavar as mãos e os rostos apressadamente nos apresentamos de pé em posição de sentido, após endireitarmo-nos em nossos uniformes e botas, fielmente acompanhados de nossa dama miniè, nosso inseparável fuzil, capotes, patronas e barretinas. Depois da chamada do sargento Antero, fizemos fila para a ração matinal. Reingressamos nas filas para recebimento da munição, ração, farinha, rapadura, charque... Notava que Daniel já havia reparado na presença de Aurora, que se encontrava 59


sob a sombra de uma palmeira, numa elevação de diminutas dimensões. A brisa da manhã soprava seus cabelos, e seu sorriso alvo combinava com o azul-celeste ao fundo, lentamente levou a palma da mão direita aos lábios e fez o gesto característico de quem manda um beijo ao vento na direção onde se encontrava Daniel, este levantou a mão que carregava o fuzil e lhe deu adeus com a outra. Assim que Daniel correu para se juntar ao seu grupamento, ainda pude perceber que Aurora levava as duas mãos ao rosto como quem esconde um choro, uma dor, a dor da saudade. Para todo e qualquer soldado a missão é certa, porém a certeza de seu retorno só a Deus pertence. Nossa partida se deu com um garbo magnífico, todo o Corpo Expedicionário estava imponente, os músicos não paravam de executar hinos, a bandeira do 17º tremulava sob um esplêndido céu pantaneiro, nossa marcha se deu como verdadeiro espetáculo, nosso coronel orgulhoso emitia ordens, finalmente tinha um exército bem treinado e disciplinado. Os negros estufavam os peitos e pisavam forte o chão, sentiam-se homens livres e capazes, erguiam suas cabeças e seguravam com firmeza seus fuzis, orgulhava-me de estar servindo junto dessa gente tão valorosa, minha família nunca teve escravos, meus professores em grande maioria eram abolicionistas; a artilharia movia em perfeita ordem seus canhões e perfilavam suas bandeirolas à frente das peças. O coronel seguia com os ares do mundo, dono de si e seguro da situação, tinha homens à sua frente dispostos a lutar e morrer, se preciso fosse, pela glória do Império e orgulho do Brasil. A tirania de López para nosso coro60


nel tinha seus dias contados, “não há mal que dure para sempre”, é o que deveria estar pensando. Viva D. Pedro II! Viva o Brasil! Bradava a tropa. No dia 11 de abril, surge uma surpresa! O 17º Batalhão se encontrava em reconhecimento com o fiel guia, assim que retornamos ouvimos comentários a respeito de terem encontrado o filho de José Francisco Lopes junto a um grupo fugitivo do jugo paraguaio, tendo este sido chamado às pressas pelo comandante Camisão em sua barraca. Assim que retornamos com o guia, ele também foi chamado à barraca do coronel. Vimos quando o filho de Lopes saiu da barraca e foi receber seu pai, o encontro dos dois foi algo extremamente comovente, enquanto se abraçavam, ambos se entregaram aos prantos. Uma cena inesquecível aquela. Logo depois, Lopes monta em seu cavalo, estende a mão direita ao filho e lhe dá a benção e segue em direção aos postos avançados. Toda a tropa se sentiu sensibilizada diante daquela cena tão humana e cristã. Qual homem naquele lugar e naquela hora não se lembrou de sua família... Distante dos nossos, encravados e quase perdidos no sertão do centro-oeste, na caça ao inimigo, como a guerra apesar de todos os males pode produzir fato tão marcante quanto aquele.

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Capítulo VIII

Ao Apa

Ao chegarmos no acampamento com o guia Lopes, e após ele finalmente ter encontrado seu filho, um grande grupo de praças no quartel improvisado gritava solenemente “ao Apa!, ao Apa!”. Logo ficamos sabendo que se tratava da decisão do comandante de seguir rumo à fronteira e romper o Paraguai adentro. Dava para perceber que não somente o precursor Lopes e o coronel Camisão ansiavam pela ida ao território paraguaio, mas também boa parte da tropa. Aquela manifestação seguida de euforia só vinha corroborar com as expectativas de alguns dos oficiais. Confesso que ainda tinha algumas dúvidas a respeito, a fama de guerreiros perspicazes e denodados dos soldados paraguaios havia de ser sempre considerada. Durante toda a marcha de Miranda a Nioac, havíamos constatado sua presença por meio dos rastros de destruição deixados aos olhos de 63


quem por lá transitasse, dando mostras de sua determinação e capacidade de ataque. Nossos camaradas tinham em mente que tudo o quanto poderiam fazer em nome do povo brasileiro seria dar-lhes a merecida lição em seu próprio território, nosso orgulho ferido seria vingado em solo guarani. Todavia não contávamos com significativo contingente para isso, além de marcharmos sobre um terreno desconhecido e inóspito, sem cavalaria, pois seus cavalos foram vítimas da peste equina em Miranda. Aos 13 de abril, seguimos adiante, com o 17 na retaguarda seguidos do material, comércio e mulheres, este em grupo bastante elevado, e o gado. Daniel marchava ao meu lado, sempre otimista dizia que o Deus dos exércitos estava conosco e que não tínhamos o que temer, as coisas haveriam de sair conforme os oficiais planejavam. Lembro-me naquela ocasião de debater com Daniel sobre a incursão: − E então, Daniel, o que tens pensado a respeito da invasão? − Olha, Augusto, Deus é sábio, trouxe-nos até aqui e não por outro motivo que não seja o de provar a nossa bravura, a coragem do soldado brasileiro. − Mas não dispomos de cavalaria nem homens suficientes, lembra-se? O filho do Lopes afirmou ao coronel de que o destacamento paraguaio aguardava reforços que viria acompanhado de um oficial de alta patente, isso carece de achar que deverá entrar em ação possivelmente algum batalhão ou regimento. − Mas o que tu farias se fosses o comandante, ficarias na retranca? 64


− Bem, ser o comandante é outra situação, primeiramente ele dispõe de meios e informações os quais não chegam até o nosso conhecimento, é difícil analisar desta forma. − Mas, então, na tua conjectura de cabo do 17º de Voluntários, o que achas melhor para a Coluna e todo o comboio? − Talvez ordenasse permanecer baseado em Nioac até receber os reforços prometidos pelo presidente do Mato Grosso, aí, sim, depois planejaria a invasão com mais recursos, tempo e informações. − Não haveria também os paraguaios de ganhar tempo e reunir maior número de elementos e realizar uma contra ofensiva mais vantajosa? − Sim, certamente, mas em nosso território, pois que estaríamos em vigilância constante. Se déssemos a sorte de batê-los em retirada, passaríamos a ser os caçadores e não a caça. Devemos sempre procurar nos impor e não o contrário. − Pensas que em solo paraguaio a vantagem é deles? − Sempre será, não há como não considerar este fato. − Augusto, tu és sempre muito cauteloso, serás um bom advogado um dia, tenho certeza disto, mas, como tu mesmo disseste anteriormente, “ser comandante é outra situação”. − Bem sabes, meu caro. − Deus há de intuir e iluminar as mentes de nossos líderes e saberão o que fazer nos limites do que é correto, ademais não há pelo que temer, o que tiver de acontecer será. 65


− Espero, Daniel, espero... Deus seja louvado em sua sábia determinação sobre o que será de nossas vidas então. − Deus é pai e generoso, louvado seja. − Não nos esqueçamos de que o nosso Deus é também o Deus de nossos inimigos. Passamos a marchar sobre pequenos planaltos e depressões em paralelo, avançando sobre a campina. Em 19 de abril, tendo marchado a tropa de forma a alternar os grupamentos nas posições de dianteira, flancos e retaguarda de nossa coluna, ocupava a vanguarda o 21º Batalhão, com ordens de não se distanciar em demasia do corpo da tropa, entretanto por distração dos líderes de grupamentos, acabamos por nos distanciar uns dos outros, fato provocado pela empolgação verificada em nosso pessoal. Ao chegarmos ao Taquaraçu encontramos a ponte recém-destruída pelos inimigos, sinal de que estavam não muito distantes. Nossa Engenharia tratou de reconstruí-la em pouco mais de uma hora de eficazes esforços. Daniel se oferecera como voluntário para o tenente Catão Roxo, sob a permissão de nosso oficial, comandante capitão Muzzi, com intuito de minimizar o máximo o tempo de reconstrução. Além de Daniel, outros praças também o fizeram. Fiquei como sentinela avançada durante esse tempo sobre uma colina recheada de palmeiras, deitado de bruços com o fuzil à minha frente, a tarde mal começara e o Sol se punha a pino. Dado instante, percebi que do meio da mata, distante um quarto de légua do ponto onde me encontrava, passava a galope um cavalariano em uniforme paraguaio. Retornei ao encontro imediato do tenente Rafael Tobias, que comandava o destacamento 66


avançado, e este se pôs a informar nosso comandante coronel Camisão. Este determinou imediato retorno à marcha de supressão sobre o inimigo. Nas poucas léguas à frente, nossa vanguarda estacionou diante de um pelotão de cavaleiros guaranis que os observavam meticulosamente a menos de meia légua, as demais unidades logo se aproximaram da vanguarda. Por ser Sexta-Feira Santa, hesitou nosso comandante a dar ordem de ataque, nossos inimigos ficaram postados a mirar nosso contingente e perplexos pelo número de homens que encontraram, esperavam que fosse uma quantidade bem maior, cinco ou seis mil talvez. Daniel indignava-se com o fato. − Vejam como são presunçosos esses paraguaios, sentam-se à sombra das palmeiras e nos desprezam como se fossemos um bando de idiotas. − Calma, Daniel, é só um jeito de nos provocar, se estivessem em maior número teriam nos atacado certamente. − Bárbaros é o que são, pilham, degolam e estupram. Não muito depois ouvimos um estrondo de uma das nossas peças La Hitte, era a resposta dada pelo tenente Marques da Cruz, que acabara de lançar uma granada que se espatifou no pé de uma das palmeiras em que nossos inimigos se recostavam, indo causar um verdadeiro reboliço entre os guaranis. Outra e mais outra, vimos os soldados inimigos retirarem-se a galope apressados em todas as direções. Toda a gente delirou em nosso meio, demonstrando apreço pela eficácia de nossa artilharia, dando mostras ao destemido inimigo de que éramos poucos, porém determinados. 67


Seguimos em direção às margens do Apa. Lá chegando, nosso comandante pediu que lhe servissem um copo com a água deste que era o divisor entre as duas nações beligerantes. Nossos soldados atravessaram o rio e se colocaram a gritar que iriam tomar o Paraguai. Foi-nos dado ordens para acampar à margem brasileira. No dia seguinte pela manhã, retiramo-nos avançando sobre a margem direita do Apa, eis que nos encontrávamos na vanguarda distantes do restante da coluna, liderada pelo tenente-coronel Enéas Galvão, quando então sobreveio um intenso e furioso ataque da cavalaria inimiga sobre nossas posições, que naquele momento faziam reconhecimento à fazenda da Machorra, em solo ainda brasileiro. Um determinado grupo de soldados do Paraguai punham-se a reduzir a cinzas a fazenda. Um pelotão de atiradores foi destacado a se posicionar sobre a ponte e fazer fogo ao inimigo com o objetivo de protegê-la, não teve outra alternativa o comandante inimigo a não ser mandar retirar seus cavaleiros e bater em debandada deixando no campo alguns corpos dos seus companheiros mortos. Apesar de estarem em bom número, ordenadamente se puseram a desaparecer da mesma forma como surgiram. Depois que a poeira baixou procurei localizar Daniel que havia se posicionado como um dos que foram à ponte defender a posição. − Daniel! − exclamei agitando o braço para que me encontrasse no meio do Batalhão. − Aqui, Augusto. − Como estás? 68


− Por enquanto bem! Sem nenhum arranhão. Respirei aliviado, pois era meu melhor amigo e camarada naquela longa provação. Rezava para que nada nos acontecesse, haveríamos de dar muitas risadas um dia numa das tabernas chiques de São Cristóvão, quando recordaríamos aqueles duros dias pelos quais passamos e ainda estaríamos por atravessar. O coronel Camisão chegou com o restante da coluna e estes gritando “vivas!” ao nosso pessoal, veio apressado quando percebeu que nos distanciamos em demasia e ouviu os estampidos de nossas miniè. Alguns índios que nos acompanhavam iniciaram o saque sobre os corpos dos paraguaios mortos na pequena batalha, imediatamente reprimida por ordens de nosso honrado comandante, que por ser fiel religioso da Santa Igreja Católica repugnava tais barbaridades. Respeito para com os cadáveres é o que ordenava, por serem bravos defensores de suas causas, mesmo que estas não sejam por nós compartilhadas, o soldado morto é o estandarte da glória, seja de qual bandeira for. Naquela data, pela primeira vez, refleti sobre como seriam as mães daqueles que ali deixaram seus ossos, não muito diferente das nossas, pois que eram cristãos como nós, cultuavam o valor da família e o de Deus como nosso pai e criador. Fizemos levantamento das condições como ficaram as edificações da fazenda, umas duas ou três se reduziram a cinzas, as demais continuaram de pé. A fazenda da Machorra próximo ao Apa, após a invasão paraguaia, recebeu tratamento por parte do governo paraguaio vindo a denominar-se fazenda do Marechal, por 69


ter o ditador tirano se apropriado desta de modo não legítimo, encontrando-se além da histórica fronteira no lado brasileiro. Muitas ervas, plantações de batatas, mandioca e aviário estavam aí destinados agora ao nosso farto rancho. Quando pude finalmente me encontrar com Daniel, disse-lhe: − Esta é uma prova de nossa valentia e coragem, aqueles que duvidam de nossa capacidade de resposta há de perceber que temos fibra. As orações e preces das mães brasileiras parecem ser poderosas, estamos a umas poucas centenas de metros do Paraguai e até agora agradecemos ao Senhor por estarmos vivos e sãos. O nosso 17 é bravo na luta e duro na queda. − Pois, Augusto, disseste bem as tuas palavras, deixou-me com mais coragem.

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Capítulo IX

Rumo a Bela Vista

Aos 21 de abril de 1867, pela manhã, os corneteiros iniciaram pelo toque de seus clarins, a marcha que daria prosseguimento à invasão tão pretendida pelos que assim almejavam. Avançar sobre o forte de Bela Vista exigia entrar em território inimigo, cuja missão elevava os ânimos mesmo daqueles menos propensos. Prepararam os uniformes e cambiaram as bandeiras surradas pela intempérie, reluziam novas a verdejar o azul-celeste dos céus de nosso imenso Brasil, partimos em marcha cadenciada. Em seguida, transpúnhamos o Apa. A vegetação no ambiente era outra desde a Machorra, não mais a gramínea, tipo pasto, mas um tipo de erva daninha que seco e tão crescido dificultava o trânsito, eram campos de qualidade um tanto quanto inferiores. Os atiradores que flanqueavam nossa coluna dispuseram-se a dar talhos e derrubá-las pelo corte de seus afiados facões. 71


O 20º Batalhão de Infantaria, unidade da província de Goiás atuava na dianteira da coluna, desde a travessia do Apa, sobrepondo-se a este um pelotão de batedores comandados pelo alferes Miró; avistávamos Bela Vista logo à frente, sentíamos debaixo de nossos pés o solo Paraguaio. O guia Lopes galgava à frente em sua montaria subtraída dos paraguaios pelo grupo que acompanhava seu filho, imbuído de sua necessidade de vingança, face ao sequestro de sua mulher, recordava-se das cenas flagradas sobre as atrocidades do inimigo, que nos foram provados serem comuns por parte dos beligerantes guaranis cada vez que mais avançávamos. Daniel com um silvo de seu assovio postado do lado oposto em que me encontrava no quadrado em marcha, chamou-me a atenção para mostrar o que se via à frente por sobre a macega, rolos de fumaça cinza despencavam-se em direção às nuvens saindo por detrás das instalações do forte. Informado pelos batedores, o coronel se pôs em grande pressa a encontrar a vanguarda, foi-nos dada a ordem de nos deslocarmos em marcha acelerada. Encontramo-nos sobre um elevado do terreno que se encontrava próximo à vila de Bela Vista e seu estratégico forte. Vimos à distância de mira, quando alguns civis retiravam-se dos arredores com grande agitação, alguns a pé, outros a cavalo, e de como deixavam tudo a arder, inclusive as estacas de madeira do forte. O forte se encontrava completamente desguarnecido e desprotegido, evacuado à vista de nossa presença e aproximação. Gabava-nos de ser os primeiros a pisar no sertão norte do território paraguaio, imaginem o que sentíamos ao 72


ocuparmos posição em Bela Vista? Orgulho nos enchia o peito, porém com a cautela merecida, afinal pretendíamos combater no terreno do inimigo. Enquanto fitávamos a olhar o que se sucedia naquele inóspito ambiente, ao pé de imensos buritis do alto do morro, postavam-se cavaleiros em sentinela a vigiar-nos montados em seus robustos cavalos. Se quisessem poderiam nos atacar, em vez disso nos espreitavam a distância segura. Certo de que tomamos o forte e ocupamos a posição estratégica de Bela Vista, confiante o coronel passou a denominar a tropa, antes coluna expedicionária, de “Forças em Operações no Norte do Paraguai”, despachando seus ofícios com essa qualificação. Minhas correspondências que saíram pelo malote do exército, com destino à casa de meus pais no Rio de Janeiro, levavam como timbre essa mesma marca. Como toda a tropa havia passado o Apa, foi dada a ordem de baixar acampamento no lado sul do Forte, no qual ficamos por alguns dias. Houve até um momento em que tentativas de conciliação foram feitas pelo comando da Força em relação ao outro lado, mas infrutíferas, na qual o nosso comandante foi alvo de grosseiras provocações, como o fato de receber uma carta em couro com os seguintes dizeres: “Avança, crânio pelado! Mal-aventurado general que espontaneamente vem procurar o túmulo. Creem os brasileiros estar em Concepcion − cidade mais ao sul ribeirinho do rio Paraguai – para as festas; os nossos ali os esperam com baionetas e chumbo”, segundo o que nos relatou um camarada do tenente-coronel Galvão. 73


Os dias e as noites se passaram calmos, mas sempre observados e vigiados pelos nossos guardiões da tropa paraguaia. Certa noite, diante de uma fogueira cercada de miríade de insetos voadores que se deixavam atrair por sua luminosidade, cujas labaredas aqueciam nossos franzinos corpos, resultado dos esforços empreendidos até aquela localidade desde Nioac, descansávamos do serviço da guarda e nos fartávamos no consumo de uma mísera parte da ração de farinha, sal e rapadura, quando ali reunidos uma breve interação surgiu. Lembro-me do soldado Vicente, natural de Diamantina, que fica ao norte da província de Minas Gerais, contar seus causos sobre a sua terra em especial a festa de despedida oferecida pelas autoridades daquela Vila, eis uma passagem no mínimo hilariante, contou-nos ele: − Sabem a do Alemão? − questionou-nos Vicente. − Não! − todos os presentes exclamaram − Não sabemos. Alemão era o apelido dado ao soldado Rastack, de origem prussiana, também um voluntário que se apresentou com seus 32 anos e que vivia em Diamantina com sua família. Muito boa gente, era muito falante, com sotaque arrastado, demonstrando-se tímido às vezes. Continuou o soldado Vicente: − Lá pelo dia 2 de abril, antes de nossa partida para Ouro Preto, todos se reuniram em praça pública para a despedida dos Voluntários, havia desde mocinhas e moleques até altas autoridades políticas e da Igreja, muita gente importante junto com nossos familiares, todo o povo da redondeza estava lá. 74


− Nessa hora todo mundo aparece! − exclamou um dos ouvintes. − Pois é, sempre assim... Mas o melhor de tudo é que, depois de todo o falatório e pompa, veio a compensação, um tanto de coisa pra comer e beber que nem dava conta de tudo. Tinha arroz branquinho, tutu, frango ensopado, assados de leitões e perus, farofa, saladas, vinho, cachaça, muita coisa mesmo. Foi servido na praça e nos reunimos em torno de grandes mesas. − Pára de falar em comida, Vicente, assim você acaba nos matando de fome! As gargalhadas partiram de todos naquele momento. O clima era de harmonia. − Daí vocês não sabem do que aconteceu depois. Os Voluntários satisfeitos puseram-se a cantar, pois Diamantina é a terra das cantorias. Algumas autoridades aproveitaram mais uma vez para o “peço a palavra”, e desta vez foi muito cansativo. Quando nosso comandante resolveu intervir e determinou ao corneteiro que juntasse a tropa, que sem muita experiência alinhou-se desordenadamente. Foi quando perguntou: “Quem dentre todos os Voluntários não deseja partir para o Mato Grosso invadido, que dê passo à frente...” Na roda o silêncio se fez ouvir, outros tantos já haviam se juntado ao grupo tal o interesse pelo causo de Vicente. − Nenhum de nós iria cometer o infortúnio de voltar atrás depois de tanta comemoração, quem se atreveria? A tropa fez que perdesse a língua e se tornou imóvel. Do meio da moçada aparece o Alemão que se adianta postando-se cara a cara com nosso rigoroso comandante, ajeitando o seu uniforme largo e frouxo. 75


− Nossa, que coragem essa do Alemão! − um infeliz do outro lado da fogueira comentou. − Silêncio! Deixa o homem continuar, sô. O comandante, não acreditando no que via, ainda mais por se tratar de um descendente de europeus, bravos guerreiros, imaginou logo o que poderia acontecer com o restante da coluna. Fitou profundamente seus olhos nos de Rastack e perguntou: “O que o traz aqui?” Respondeu-lhe: − Meu bom e nobre comandante, seria possível antes de seguir para a linha de frente, de pousar diante da morte que me aguarda, conseguir mais alguns pedaços de leitão com tutu, que esta muito apetitoso? − Sorridente o comandante repetiu em alto brado: ELE QUER MAIS LEITÃO COM TUTU! − E o alívio foi geral e a descontração por todo lado. Muitas risadas foram ouvidas àquele momento. Sucederam vários causos com base sempre nos dias de apresentação dos voluntários. Fazíamos questão de expor nossas risadas, mesmo diante do quadro de penúria que se mostrava cada vez mais degradante. Assim é o brasileiro, um forte e persistente otimista cuja esperança é inabalável, pois nossa terra assim nos ensinou. Alguns se recordavam da família que haviam deixado e lembravam com bom ânimo o desejo de tornar a vê-los. Vários desses meus companheiros tiveram seus ossos enterrados em lugares bem distantes de seus lares, jamais retornaram... Dado instante aproximou-se de mim o fiel companheiro Daniel. − Como está meu bom amigo Augusto? 76


− Dentro do que poderíamos chamar de bom, está tudo bem, e você? − Acabo de ver Aurora! − Como ela está? − Muito preocupada com os acontecimentos, também a sua mãe. Os soldados lhes levam notícias ruins, sobre as incertezas do nosso comandante e coisas do gênero. − Como assim? − Sabes que nosso coronel é movido pelo desejo de vingança, retaliação é o que ele pretende, mas tem certeza de que seu inimigo deve ser respeitado. − Afirmas que nosso comandante está diante de um dilema? Mais ou menos assim. Tem um nome a zelar e vidas a preservar. − Creio que o coronel não pensa e age sozinho, há o seu estado-maior para discutir ações e efeitos. − Augusto, tu que és tão crítico, responda-me: confias na liderança de nosso comandante, achas que o coronel sabe o que está fazendo? − Meu estimado Daniel, não cabe a mim julgar atos de nossos líderes, foram treinados para o exercício do comando e o cumprimento do dever, entretanto não podemos desconsiderar que comandantes são feitos de carne e osso, assim como nós. Cumpre-nos seguir suas ordens, pois delas decorrem nossos destinos. − Mas, Augusto, se um ato impróprio ou descabido tomar frente a uma determinada situação? − Estamos sujeitos até mesmo a isto. Mas devemos confiar, fomos instruídos a combater, não se vence uma 77


guerra com a crença voltada à incerteza. Nossa pátria confia em nós assim como devemos confiar em nossos companheiros. Minha vida depende disso assim como a sua e de todos aqui. − Entendi, meu ilustre amigo. − Agora, Daniel, conte-me mais sobre sua amada. − Ah, sim, falar de Aurora renova a esperança! Ao confessar seu amor por Aurora, Daniel se revela como um príncipe apaixonado somente representado nos clássicos romances, ardente, gracioso, um verdadeiro Romeu shakespeariano. Eis que interrompe nosso saudável diálogo o bom sargento. − Poupem seus fôlegos com tanta conversa! Amanhã teremos longa jornada e dura missão a cumprir, melhor seria dormirem o quanto ainda podem. Estava mais do que certo, todos tratamos de seguir suas ordens sem tagarelar. Exceto Juvêncio que não parava de reclamar das dores nos pés, estavam cobertos de bolhas por todos os lados. Nosso sargento o encaminhou para uma de nossas vivandeiras que se tornara especialista em cura pelas ervas. Um bom banho morno de matinho nos pobres pés doídos haveria de acalmá-lo por algum tempo. Gemidos mesmo acanhados eram comuns no acampamento, nossos médicos pouco podiam realizar, pois o estoque de medicamentos se tornava cada vez mais diminuto. Aí é que apareciam as benzedeiras e curandeiras de toda ordem, alguns casos até que conseguiam aliviar os sofrimentos, porém, em sua grande maioria, não. 78


A noite era propícia para os desanimados partirem ao encontro de seus destinos na mata, desertavam qual bando de andorinhas em dia de tempestade. Pobres mortais, seus dias estavam encurtados, pois paraguaio nenhum tolera covardes. Os índios ficavam agrupados meio que na periferia do acampamento, preferiam a convivência entre os seus iguais e falavam apenas o dialeto nativo, evitavam se fazer entender por meio do português, idioma que poucos dominavam. Já nossos negros estavam mais integrados com o restante da tropa. Finalmente começavam a perceber que todos estavam no mesmo barco, a vida de um dependia da vida do outro. Diante do inimigo em nossa mira, com seus projéteis zunindo sobre nossas cabeças e o sabre descendo seco em nossos corpos, encontramo-nos lado a lado como irmãos, a sua sobrevivência dependerá da minha e o contrário é verdadeiro, sabemos ser o herói um do outro, sabemos o verdadeiro significado da palavra amigo. As guerras servem para reforçar os valores que muito dos homens conhecem, reprisam momentos da história cujo clamor é a fraternidade. Haveremos de compreender um dia que reside neste sentimento a base para a solução para todos os problemas do mundo. Quando este dia chegar, mesmo que durem muitas décadas, nos comportaremos como membros de uma só família e guiados por único pai. Não viverei para contemplar, apenas espero desfrutar do paraíso que farei por merecer, se assim Ele nos permitir. 79


Não havia como negar, aquela altura dos acontecimentos todos se perguntavam sobre o porquê de estarmos ali, tanta provação tanto sofrimento... Bela Vista seria apenas o começo.

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Capítulo X

Frente a frente com o inimigo

Finalmente notávamos cada vez mais próxima a presença das tropas inimigas, houve até um contato por meio de mensagens entre nossos comandantes. De certo, cada qual fez a sua parte em pelo menos tentar persuadir o seu oponente. Mas a busca pelo heroísmo crescia no coração dos comandantes, o jogo de morte seria inevitável àquele momento da história. Urge que o sangue de ambos os exércitos haveria de banhar aquelas belas planícies. Deixamos Bela Vista e às margens do Apa-mi, com toda a tropa sobressaltada, recebemos a notícia de que deveríamos marchar para Laguna, mais adentro no território paraguaio, Daniel e eu nos encontrávamos em estado de alerta. Imediatamente após a notícia ter chegado à tropa, isto já em 30 de abril, recebemos a missão de

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ingressar em patrulha precursora. Aprontamos nosso material de campanha, pouca coisa nos restava, Daniel saiu em disparada para despedir-se de Aurora. Ao retornar, disse-me que sua amada o fez prometer de que voltaria vivo, como se isso pudesse ser cumprido... Nosso destacamento constituído por doze homens postou-se de joelhos e seus soldados rezaram três “Pai Nosso” e três “Ave Maria”, levantamo-nos, abraçamo-nos, formamos fila e marchamos adiante com armamentos aos ombros e bornais à cintura. Ao olhar para trás, percebi que toda a tropa se reunia para formação dos quadrados com canhões à frente, o silêncio era sacro. Os incansáveis paraguaios se encontravam a nossa volta, observando-nos como predadores à espera do melhor momento. Uma incursão a Laguna exigia destreza e coragem, não nos faltava, porém era de víveres que precisávamos, a comida minguava e também a água potável. Nossa esperança seria encontrar tudo isso na estância, pois, segundo as informações de nosso guia, encontrar fartura seria mais do que líquido e certo. Iríamos combater para não extinguirmos a expedição de fome e sede, tragédia essa... e não se morrendo de fome, morre-se pelo fio da espada. Morrer era o certo, enquanto viver seria a dúvida. Mas dentre nós que não havíamos desertado ou ficado para trás e para sempre, tínhamos o desejo de morrer lutando e com todas as glórias que nos conduziriam ao descanso e à paz eterna. Valorosos éramos, teimosos também, jamais covardes ou descrentes do amor à pátria, nosso destino estava abraçado à missão que nos impunham. 82


A patrulha, após marcha forçada de algumas léguas adiante, recebeu ordens de nosso tenente que determinou estacionar e explorar o perímetro. Daniel e eu fomos encarregados de zelar pela ala oeste do grupamento, aonde deveríamos atingir um mato adentro cercado por moitas e pequenos arbustos, porém densa vegetação cercada de vastas planícies de campos desprotegidos, para o caso da Expedição sofrer algum ataque. Não posso deixar de relatar a respeito dos ruídos que faziam meu estômago vazio, condicionados à ração de farinha, rapadura e sal. Preocupava-me a fome, pois a tristeza vinha junta. Por muitas noites sonhei com os caldos que mamãe fazia, seus pratos típicos e deliciosos quitutes. Alimentava-me em sonhos, pois a realidade era outra, quase não defecava e havia perdido muito peso devido às longas marchas e da ostensiva fome. O Sol a pino esquentava nosso fardamento, bem surrado e gasto, e fazia aumentar a sensação térmica percebida pelos nossos corpos. O mato rasgava a pele das mãos e do rosto, atravessávamos a maioria das vezes agachados afastando com os fuzis os galhos e folhas. Daniel não demonstrava cansaço, sua vontade de combater era maior, parecia um astuto felino embrenhando-se naqueles matos em busca de sua merecida presa. Confesso que não tinha a mesma disposição, a fome era meu maior inimigo, não mais os paraguaios. Alcançamos o ponto determinado e fizemos então uma parada. Havia um pequeno gramado e nos sentamos debaixo de uma pequena árvore parecida com uma mangueira, boa sombra e o ar fresco nos refazia. Aproveitei para 83


tomar uma golada do meu saco d’água, Daniel fez o mesmo. Olhei para cima e vi um céu azul com poucas nuvens e pássaros, deixei o vento suave beijar o meu rosto e secar as gotas de suar que escorriam por minhas têmporas. Nossa missão ali era levantar informações a respeito do entorno, sabíamos que o inimigo não se encontrava distante, e nossas tropas não poderiam ser pegas de surpresa por eventual desconhecimento do terreno e da movimentação adversária. Para nossa surpresa ouvimos vozes e um relinchar de cavalo. Atentos que estávamos nos deitamos abraçados aos nossos fuzis e rastejamos alguns metros mais à frente, por entre matos nossos olhos fitaram um pequeno grupo de seis homens e cinco cavalos, um deles estava descalço e trajando roupas civis aos pedaços, sentado ao lado deles sem nada fazer ou falar. Quatro deles conversavam em idioma guarani, e o mais alto observava ao longe com a mão à altura da testa. Quando se comunicavam com o maior deles, usavam a língua espanhola. Chegamos a ouvir qualquer coisa que pudéssemos entender, falavam de reforços e mencionavam insultos aos brasileiros. Aproximamos-nos para melhor entender o que diziam, com o cuidado de não delatarmos nossa presença aos contrários, alguma informação poderia ser útil ao nosso comandante. Diziam eles, daquilo que meus ouvidos entenderam: − Los brasileños son muy tontos, pensar eso pueden asustarse con un grupo de soldados inexpertos y temerosos. [Os brasileiros são muito estúpidos, pensar que podem nos intimidar com um bando de soldados inexperientes e medrosos.] 84


− Ciertamente, mi capitán. − Pronto nosotros tendremos refuerzos del sur y nosotros acabaremos con todos ellos. [Em breve teremos reforços dos sul e acabaremos com todos eles.] − Nadie no seguirá siendo mi capitán, nosotros los eliminaremos. [Nao sobrará ninguém, meu capitão, vamos eliminá-los.] − Sí, pero antes de que ellos tengan que sentir el peso de nuestras espadas y la rabia de nuestras personas. [Sim, mas antes eles têm de sentir o peso de nossas espadas e o furor de nosso povo.] − Mi capitán tiene razón, los brasileños convencidos se humillarán. [Meu capitão tem razão, os convencidos brasileiros serão humilhados.] Tratava-se de um grupo de observadores, pude concluir com o diálogo que um era oficial e os demais subalternos. Mas e o civil? Quem era? O que fazia ali? O sujeito do tipo baixinho e gordo com quem o oficial dialogava, aproximou-se do civil e lhe deu um chute nas pernas, como se isto o fizesse se vingar de algo. Deveríamos tentar alguma coisa, apesar de sermos inferior em número? Senti um tremendo frio na espinha. Instintivamente continuamos na mesma posição tentando compreender mais o que conversavam, sem dar nas vistas deles. Houve que dado momento, por nossa sorte ou azar, um soldado virou-se e se pôs a caminhar em nossa dire85


ção, parando pouquíssimos metros adiante. Abaixou-se e colocou sua arma no chão, afrouxou o cinturão e abriu a calça com o intuito de urinar, quando então... ele nos viu! Saímos como um relâmpago em disparada detrás das moitas com as baionetas à frente, os olhos do inimigo estatelados e atônitos fecharam-se após o cravar de nossas armas em seu peito, o alarme foi dado e um tiro disparado por parte de um deles, nem sei onde foi parar. Como nossos fuzis estavam prontos, atiramos em dupla e cada um acertou um deles, bala certeira e única. Avançamos em direção ao oficial que tirou sua pistola do coldre apontando para o rosto daquele indefeso civil, quase à distância de queima roupa. Meu Deus! Ele vai atirar... pensei. Aceleramos o passo, mas de nada adiantou, estava feito, o pobre coitado tomou um tiro em cheio no meio da testa. Covardia pura. Coisas da guerra. A distância nos impediu de evitar a execução daquele infeliz, mais uma dúzia de passos e teríamos conseguido. Paramos diante do corpo do pobre coitado e deixamos o oficial bater em retirada montado em seu fiel cavalo, nada podíamos fazer, enquanto os outros animais puseram-se a disparar espantados em galopes assim que o barulho do primeiro estampido cortou a calma do lugar. − Maldita nossa guerra, quantas mortes ainda presenciarei até que chegue a minha! − desabafou Daniel. Impressionou-me nossa ação precisa e coordenada, parecia treinada e combinada corajosamente para o momento. − Meu caro, se nossa hora não foi essa, acredito eu que será difícil uma nova oportunidade para o cruel anjo 86


da morte ceifar as nossas vidas, ficará para uma próxima, quem sabe bem distante da data de hoje. Esse não foi um bom dia para morrer. − É, Augusto... dessa vez Deus foi nosso escudo. − Daniel, você ouviu o que disse o civil antes de morrer? − Ouvi, sim, algo como “piedade... não me mate” e em português. − Isso mesmo, Daniel, pelo jeito era brasileiro. Fizemos uma revista nos pertences dos soldados mortos, mas nada de importante foi encontrado. Em seguida, marchamos de volta ao ponto de encontro do destacamento patrulha. Durante nosso retorno, fomos conversando sobre a importância da vida, e como ela é curta e delicada, sendo assim porque os homens se matam e pouco caso faz dela? O que nos impele a procurar a morte em campo de batalha? Que força propulsora é esta a nos estimular ao óbito? Como enxergar dignidade na morte daquele que se esvai? A guerra é interessante em certos momentos, por ser sinônimo de morte nos faz pensar sobre a vida, não tão propriamente seu lado romântico, mas o lado prático, ou seja, quem vive hoje poderá não estar vivo amanhã. Nossos corações não são mais os mesmos e viveremos para contar toda a tragédia humana que por aqui se deu. Mais à tarde, chegamos ao encontro da nossa patrulha e nos reunimos em círculo para relato dos acontecimentos. Nossos companheiros ficaram admirados com a iniciativa que tomamos e seu resultado imediato. O 87


tenente nos prometeu que iria relatar o caso aos seus superiores e solicitar uma menção no diário da Expedição. Certamente que nossa intenção de atacar não era o de promover ato de bravura ou ser citado, mas nos sentimos obrigados pelo simples fato de salvarmos as nossas vidas. Quanto aos outros deslocamentos, todos foram unânimes em alegar evidências de que o inimigo estava por toda parte, praticamente a nossa frente, preparado para o bote da serpente. Mas por que não tomavam a iniciativa para o combate? O terreno era de conhecimento deles, possuíam bons cavalos e um contingente considerável – indaguei ao meu superior, que instantaneamente deu-me a seguinte resposta: − Soldado, está no diálogo que tiveram a oportunidade de ouvir a resposta que procuras, eles aguardam reforços, pois acreditam que nossa Expedição deve receber acréscimos, em função de nosso avanço ousado e até mesmo, eu diria, atrevido. A coluna expedicionária é parte do Exército Imperial, este por sua vez sempre foi respeitado em nosso continente devido a sua história de conquistas e tamanho. Se convocarmos dezenas, se apresentarão milhares; se clamarmos por milhares certamente que milhões atenderão ao chamado em nossos quartéis. − Senhor tenente, com vossa permissão para que eu possa perguntar. − Perfeitamente anspeçada, à vontade. − Não estaria no caso que nosso astuto inimigo melhor faria nos deixar morrer de fome e doença, poupando assim os seus em possível confronto, posto que com fome não se trabalha e nem se vive, tirando 88


proveito para si dos nossos pertences e armamentos após nossa total falência? − Percebo na tua pergunta anspeçada que tu és curioso, e antes, muito inteligente. Se o comandante do exército paraguaio pensar como tu acabas de indagar, provavelmente lograria êxito, sem suprimentos não se ganha uma guerra. Porém, a questão é um pouco diferente, qual seja, quanto tempo levaria? Com isso não daria chance ao nosso exército de repor seu contingente, aumentando assim a presença de brasileiros na área, obrigando-os a deslocar tropas que se encontram em combate no sul, região mais necessária? Nesse entendimento, desconhecedor que é a respeito da nossa capacidade de deslocamento e reposição, por precaução solicitou reforços aos seus superiores, com o propósito de esmagar o quanto antes a nossa coluna e readquirir suas posições na fronteira. Concluindo, devemos continuar a marcha. − Tenente, um último pedido de esclarecimento. − Vá em frente, meu rapaz, mas não devemos nos deter por muito tempo nessa conversa. − Grato, meu oficial. A pergunta é com relação à fome que estamos passando, não seria um grande empecilho? − Sabemos disso, Augusto, mas confiamos na crença de que o soldado brasileiro é filho da honradez e da perseverança, tal como é o povo de seu país. O tenente Raymundo Monteiro era muito admirado e diante de sábias palavras silenciei, fiquei a refletir seu conteúdo e me entreguei de corpo e alma à causa que me transformou num bravo e valente soldado do Império do Brasil. Afinal de contas, nosso inimigo natural nos mo89


lestava sem considerar hierarquia ou posto de comando, desde Nioac. O medo de morrer de fome superou o temor pela guerra, daí nossa determinação em alcançarmos a estância de Laguna. Antes de retornarmos à tropa, o sargento Antero Vaz solicitou aos demais um mensageiro voluntário com a missão de fazer chegar às mãos do coronel o relatório do tenente. Como era esta a minha função, apresentei-me de pronto seguido por Daniel que justificou seu ato. − Tenente, peço permissão para acompanhar o mensageiro com a missão de protegê-lo durante o seu deslocamento. Respondeu o tenente após ter ajeitado o boné em sua cabeça: − Permissões concedidas, aprontem-se imediatamente. Dirigi-me ao nobre amigo Daniel dizendo-lhe que não havia necessidade para tal ato, pois correria sério risco, e sua permanência junto à patrulha seria de maior valia. − Deixa o discurso para depois que alcançarmos a coluna. Aurora me aguarda, afinal nada nos acontecerá, lembra-se? Prometi-lhe que retornaria vivo, e é o que vou fazer. Ficou determinado pelo tenente que sairíamos no pôr do sol, com escolta de mais dois homens até a distância de mais ou menos meia légua. Teríamos toda a noite para o traslado até que alcançássemos a coluna, isso se nosso inimigo não percebesse. Recebemos nosso quinto de munição e ração após termos enchido nossos cantis com água de um riacho próximo. A patrulha permaneceria no local até o amanhecer. O sargento me entregou a mensagem dentro de 90


um canudo de papelão, seguido de algumas recomendações e um afetuoso tapinha nos ombros. − Te cuida, rapaz. Segue sempre em frente e não olhe para trás. Deus te guie. Chegado o pôr do sol, fiz o sinal da cruz e parti, acompanhado de Daniel e mais dois soldados, Cassimiro e Cypriano. A cantoria dos pássaros marcou aquele momento em minha memória, parecia ovação de despedida. O entardecer ficou amarelado no horizonte com poucas nuvens no céu, e o ar começava a refrescar, os últimos pássaros que retornavam aos seus ninhos vergavam suas asas vagarosamente, tudo estava muito calmo e sereno, não parecia que uma guerra estava acontecendo. A sensação desesperada de fome havia passado; foi substituída pela incerteza provocada pela ocasião. Saudades do cafuné da mamãe e sua comidinha.

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Capítulo XI

Missão cumprida

Formamos fila, com Cypriano na dianteira que fixava os olhos em tudo que pudesse, enquanto Cassimiro, o último depois de mim, cuidava da retaguarda. Vencemos os arbustos e a mata cerrada sem dificuldades, pois conhecíamos o caminho de volta até o descampado. Nesse trecho, o perigo se mostrava presente, entre uma mata e outra havia uma vasta região descoberta que poderia nos denunciar facilmente para o inimigo à espreita. Com uma colina a ser vencida, nossa escolta deveria nos acompanhar pelo menos até o outro lado do terreno. Fizemos uma rápida parada antes da colina, Cypriano e eu estávamos apertados para urinar. Os outros dois ficaram de vigia enquanto esvaziávamos nossas bexigas. Que alívio! Prosseguimos em seguida, sem dizer uma só palavra. A claridade de antes se transformou em escuridão num pestanejar de olhos, acompanhada de rajadas inter93


mitente de ventos. Lembro-me da sacudida das folhas e dos galhos das árvores, assoviavam a cada lufada. O prenúncio na mudança do ambiente poderia nos beneficiar. Finalmente chegamos até o outro lado da colina, quando então fizemos pausa para observar o que se passava. Nada de anormal foi possível detectar, exceto as fortes rajadas que aumentavam de intensidade e provocava desagradável sensação térmica, nossos uniformes estavam bem surrados e minha túnica havia perdido par de botões, meus borzeguins estavam sempre úmidos, por isso meus pés sentiam também o frio chegando. Eu apeei da mochila a manta e a enrolei em meus ombros, depois tornei a apoiá-la em minhas costas. Daniel fez o mesmo, com o intuito de prevenir contra uma possível variação brusca de temperatura, que era muito comum naquela região. Muitas vezes os dias se alternavam entre calor úmido e frio chuvoso. O que nos protegia a saúde eram os chás das ervas encontradas pelo caminho e preparados com muito zelo por algumas das mulheres que vieram com a coluna em caravana de mascates e familiares de soldados. Algumas, pela curandice, ficaram famosas por tratar com sucesso dos males mais frequentes, como por exemplo, a diarreia e a cefaleia, sem falar nos reumatismos provocados pela marcha sempre forçada dia após dia, desde Uberaba até aqueles rincões. O pessoal da artilharia que o diga, perderam parte da tração animal e estavam a carregar os canhões quase que nas costas. Bravura, coragem, patriotismo e determinação não faltavam àqueles amazonenses, pois o major Cantuária sempre se apresentou como homem 94


muito perspicaz e dotado de grande agudeza de espírito para com o seu grupamento. Mesmo tendo passado por lamaçais com suas preciosas peças La Hitte, não deixou de lhes dar a devida manutenção; sempre limpas e prontas para a ação em combate. Enquanto pensava em coisas que me ajudassem a distrair no caminho e fazer de conta que não estava numa guerra, Daniel à frente, mais ou menos cinco passos de mim, levantou com rapidez o braço direito e fez sinal de parada imediata, “alto”, o diálogo era proibitivo durante a correria rumo ao acampamento de nossos camaradas, em seguida nos deitamos em posição de defesa. Tasquei o mato sem querer, e o vigor de meu gesto fez sangrar meu lábio inferior, aguentei firme, pois não podia me mexer até que soubesse o motivo de tal comando. Não percebia nada naquele instante e julguei que meu companheiro estivesse mais agitado do que eu. O canudo que eu carregava com a mensagem fazia pressão em minha barriga, mas não podia me virar, incômodo suportável. Daniel pôs-se a rastejar até detrás de um tronco caído na mata e fez gesto com a mão para que eu o acompanhasse, fiz o mesmo e me coloquei ao seu lado direito. Apontado com o nariz pediu que espiasse sobre o tronco na direção nordeste. A escuridão, verdadeiro breu, impedia que de imediato pudesse avistar alguma coisa, fiquei a procurar torcendo para que Daniel estivesse vendo coisas à toa. Poderia ser um animal, a maioria sai à noite para caçar, poderia também ser o vento que sacudia bastante a vegetação local, mas afinal o que poderia ter visto o meu fiel guardião. 95


Olhei com expressão de dúvida para Daniel e dei de ombros, mas ele insistiu em apontar novamente como o fez da vez anterior. Levantei um pouco mais minha cabeça e aí sim percebi seu temor, estávamos na retaguarda de uma tropa de quatorze homens a cavalo, dois deles com uniforme de oficial e um apenas em traje civil, os demais identificamos como um sargento e dez soldados. Estavam fazendo o quê, afinal? Sabíamos que paraguaios haviam por toda parte, mas naquele ponto seria pouco provável, colocavam-se entre nossa patrulha e a Coluna brasileira, o que poderia destacar o desconhecimento deles em relação as nossas posições, mais provável seria que estivessem em missão de reconhecimento. Diante da incerteza provocada pela situação, não poderíamos enfrentá-los e nem tão pouco ficarmos detidos até que se fossem, tínhamos como propósito e destino entregar a mensagem ao coronel Camisão por volta do amanhecer, caso contrário poderíamos comprometer a segurança da Coluna que havia decidido adentrar no Paraguai rumo a Laguna, e necessitavam da nossa preciosa informação confirmando a suspeita com relação à presença da força inimiga em todos os arredores, suas posições, contingente e modalidade. Não poderíamos subestimá-los, o conhecimento do terreno lhes era favorável, e o fator surpresa poderia ser aplicado em qualquer momento. Daniel e eu tínhamos como inesperados inimigos o tempo, o clima, a vegetação e certamente aqueles inesperados paraguaios. O rufar de tambores soava em minha mente. 96


Como previsto, começava a chover pingos grossos e gelados, e o vento aumentava de intensidade, dando mais sensação de frio e desconforto aos meus cansados ossos. Poderia algo mais vir a acontecer? Pensei meio amedrontado. Afinal, sentir medo é natural aos homens, covardia é outra coisa, não desejava estar ali, gostaria mesmo era de estar junto à tropa, em grupo nos sentimos mais seguros e amparados pelo espírito de corpo. Nosso precário treinamento não previa situações como aquela, mas porque reclamei se fui um voluntário da pátria, disposto a enfrentar o inimigo onde quer que ele esteja e em qualquer circunstância, meu corpo e minha vida já não mais me pertenciam, fui um soldado, e soldados têm por destino o combate. Dez minutos naquela posição e parecia que hora já havia passado, nossos inimigos enfiados nos capotes se protegiam da chuva debaixo de uma árvore, enquanto nós os observávamos sem mexer um único membro de nosso úmido corpo. A chuva aumentava e com ela também o vento. Não podíamos ficar mais tempo naquela posição, Daniel mostrando-se apreensivo, apontou-me com a mão esquerda o caminho que devíamos tomar, urge que pelo bem da tropa precisávamos sair dali em segurança. Fomos de rastejo apalpando o mato molhado pela chuva. Ouvimos um relinchar, quando olhamos para trás um dos soldados paraguaios havia saído a galope debaixo da tempestade. Assim que nos distanciamos o suficiente para nos mantermos fora do alcance de nossos inimigos, nos le97


vantamos e partimos em correria. O caminho a ser tomado deveria ser um pouco diferente daquele que tínhamos planejado, mas não muito fora da rota, daria para corrigir o rumo mais adiante quando em maior segurança. Tornamos a caminhar ofegantes depois da corrida, muitas dificuldades foram encontradas até aquele ponto, o uniforme completamente encharcado, a mochila ensopada pesava mais que o normal; protegia debaixo da túnica o canudo com a mensagem para o coronel. Passamos a ter de driblar o lamaçal, não havia muita escolha ou era uma ou outra, de qualquer jeito a lama já fazia parte do cenário torturante daquela noite, iluminada pelos clarões dos relâmpagos ao som dos seus trovões. Passo após passo e parecia que não saíamos do lugar, devíamos estar andando em círculos, fizemos parada forçada em meio à tempestade, não dava para continuar com aquele tempo, tornou-se impossível o deslocamento. Aguardamos no fim da mata à beira do próximo descampado. Deitei-me de barriga para cima e deixei que as gotas de chuva, que roçavam de leve as folhas, caíssem em minha boca. Tudo estava molhado, o fuzil miniè, o uniforme, a mochila e o canudo de papelão com a mensagem enrolada em seu interior. Sussurrando perguntei a Daniel se porventura tinha ideia de quanto tempo deveríamos ali permanecer, respondeu-me que assim que a chuva acalmasse seria mais prudente, dado a sua certeza, para o momento concordei. Tornei a beber água da chuva, assim como fazia quando era criança. Enquanto isso, minha memória foi estimulada e me lembrei de mamãe, papai e meus irmãos, o que deveriam estar fazendo àque98


la hora, não nos comunicávamos fazia tempo, o último correio foi em Uberaba. Daniel se deitou ao meu lado e imitou meu gesto infantil. Naquela guerra já tinha visto o bastante para envelhecer pelo menos mais dez anos dos meus quase vinte e dois. Três meses na Expedição do Mato Grosso e vi homens que choraram feito crianças, vi mulheres ficarem viúvas de uma hora para outra, vi doenças e sofrimento, carne humana dilacerada e exposta, fome de dar nó no estômago. Vi camaradas se refugiarem no mato como se encontrassem lá a solução para todo o mal que lhes afligia, os desertores. O que estaria ainda por vir somente ao Nosso Senhor foi revelado. Apesar da grande tormenta que se seguiu por mais de uma hora, que finalmente acalmou, deixando-nos prosseguir então, saímos com destino traçado. Depois da tempestade, agora era a lama que nos impedia de seguir ligeiro ao rumo certo. Alguns passos e nos metíamos em poças com lama até os tornozelos, inúmeros lagos haviam se formado. Vencer o descampado parecia ser missão quase impossível. Quando estávamos perto de atingir a mata próxima de um ribeirão, eis que de repente saiu do nada, do meio da escuridão, um cavaleiro paraguaio. Seu cavalo relinchou e elevou os membros dianteiros para cima apoiado em suas patas traseiras, o cavaleiro em disparada veio em nossa direção de espada em punho, Daniel e eu nos deslocamos para o lado permitindo que o animal passasse entre nós. O soldado reverteu o galope e retornou novamente, desta vez na minha direção, elevou seu sabre e des99


ceu com vigor assim que me alcançou, desviei sua espada para o lado com o toque de meu fuzil, que interceptou o golpe. Mais umas duas ou três tentativas do cavalariano quando um disparo de Daniel atingiu em cheio aquele que nos atacava. Lentamente seu corpo foi caindo do cavalo que fugiu em disparada assustado pelo estampido, no chão jazia um soldado inimigo, não um homem, apesar de humano, nossos sentimentos se resumiam a lutar pela sobrevivência, defender-se de um ataque é valer-se da legítima defesa. Estávamos numa guerra. Aceleramos nossos passos com o propósito de nos protegermos mata adentro, pois o tiro pode ser ouvido a distância e permitiu que o pelotão, antes observado, nos alcançasse. Agora a fuga foi mais que necessária, muitos deles contra apenas nós dois. Ambos com o coração na garganta, a mata cortando nosso uniforme, o dorso das mãos e o rosto, corríamos sem olhar para lado algum, somente para a frente e adiante. Tínhamos que escapar da perseguição, certamente se nos tivessem feito presos seriam implacáveis, tortura com direito a exposição dos restos mortais em tronco de alguma macaubeira. Já tínhamos visto corpos esquartejados ao longo do caminho, desde Nioac. O que nos salvou foi a mata e a escuridão, algumas vezes chegamos a ouvir seus gritos e o desbaste do mato feito pelos sabres paraguaios. Tínhamos a vantagem de estar a pé e eles a cavalo, o animal refugava diante do lodaçal e da mata cerrada. Com lama até o pescoço, por assim dizer, vencemos mais um obstáculo à nossa missão, acredito terem 100


os guaranis desistido de nos perseguir, devido à hora e às dificuldades do terreno, por isso, segundo meus cálculos, atingiríamos a acampamento da tropa dentro em breve. E, sendo assim, chegamos ao marco de referência, qual seja, o conjunto de buritis, por volta das quatro da manhã. Cansados da correria, descansamos um pouco, aproveitamos para beber água de cantil e molhar pedaços do nosso uniforme nas poças d’água para limparmos o sangue de nossas mãos e rostos. Machucados pelo corte do capim alto e galhos dos arbustos umedecidos pela chuva passada. Vida de cão aquela, lutava-se pelo dia seguinte. Seguimos adiante, munidos de coragem por sairmos vitoriosos da perseguição. Outro descampado e mais um pouco teríamos pela frente nosso posto de vigias, mais uma parada, pouca coisa, apenas para refrescar e tomar mais um gole d’água. Seguimos em marcha pelo descampado quando ouvimos um disparo de fuzil, olhamos para trás e avistamos o grupo que nos perseguiu pouco antes, estava quase para clarear, corremos a frente e rápido, com toda a energia que nos restava, eles se encontravam a cavalo, e nós a pé, a desvantagem era nossa. Correr sempre em frente foi a nossa salvação, pois mais algumas centenas de metros se encontrava o nosso posto de vigias, mas os cavalos em galope encurtavam nossas distâncias. Corri como uma lebre que foge da águia, como um roedor que foge de seu predador, corria como nunca, mas as minhas pernas dava sinal de fadiga e diminuí a passada, Daniel procurou 101


me motivar dizendo que faltava pouco até chegarmos no posto. Lembro-me que assim se deu: − Corra, Augusto, corra, falta pouco, corra! − Não estou aguentando... minhas pernas... estão pesadas... − Corra, não pare! − Vá, Daniel. Eu vou atrasá-los! − Não faça isso, corra! Não aguentei e caí de cara no gramado, Daniel mais à frente também parou. Joguei o canudo que continha a mensagem para a frente, com o intuito de que Daniel o pegasse e desse conta de entregá-lo ao seu destinatário. Daniel retornou e pegou o canudo, veio até mim e me colocou de barriga em seu ombro esquerdo, segurando o seu fuzil e o meu com a mão direita com a alça do canudo transpassando seu braço. − Não, Daniel, deixe-me aqui e siga com a mensagem! − Vou te levar comigo. − Vamos morrer! − Não. Quando estava prestes a dar tudo por terminado, ouço gritos e tiros, são os índios guaicurus e terenas, nossos aliados, que haviam nos avistado e correram por trás dos cavalarianos guaranis saídos da mata. Suas flechas, tiros e gritos assustaram nossos perseguidores e os fizeram bater em retirada, não havia o que fazer, eram mais de trinta indígenas, a quem os paraguaios muito temiam. À nossa frente, assim que no avistaram, nossos camaradas de prontidão no posto saíram atirando na direção do pelotão inimigo, estávamos salvos. Daniel 102


diminuiu sua corrida, colocou-me no chão e desmaiou devido à fadiga. O dia estava clareando naquele 30 de abril, o sol ao longe despontava seus primeiros raios da manhã, o horizonte era belo, a passarada dava sinais de vida, os índios gritavam comemorando a retirada do inimigo e nossos companheiros de caserna davam o merecido atendimento a Daniel. Aquela foi uma cena inesquecível, meu amigo mostrou-se ser um verdadeiro herói, ofereceu sua vida em sacrifício, por mim e pela pátria. Apresentei-me aos companheiros do posto, eram caçadores do 21º Batalhão de Infantaria, comandados pelo major Gonçalves, de serviço na guarda, dois deles me acompanharam até a presença de nosso ilustre comandante coronel Camisão. Estava acordado e acompanhado do tenente Taunay com quem trocava algumas sugestões, fiz-lhe a continência, apresentei-me reportando-o minhas ordens e lhe passei o canudo com a mensagem. Respondeu a minha continência, pegou o objeto e se dirigiu para o interior de sua barraca com o tenente Taunay, solicitando que eu ali aguardasse. Mais uns minutos e saiu, com a mão estendida me cumprimentou pelo que havia feito. − Valoroso, leal e correto, és um verdadeiro voluntário da Pátria. Estávamos aguardando por estas informações, são de grande importância para nossos planos. Agora vá descansar e parabenize seu amigo por mim. Ordenou ao seu ajudante de ordens que nos desse ração extra e se possível alguma carne. Fartei-me naquele dia, um pedaço a mais de carne, arroz, batatas cozidas, 103


farinha e chá de raízes, com direito a repouso. Afinal, praticamente não tínhamos nada para comer, exceto quando o bom guia Francisco Lopes nos conseguia algum gado. O corneteiro executou toque de alvorada, e a tropa começou a se espreguiçar. Era um novo dia que estava surgindo, e um a mais em nossas vidas.

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Capítulo XII

Laguna

Passei quase todo o dia dormindo em barraca improvisada, deixei o uniforme estendido no varal e recebi de um mascate peças novas, meio amarrotadas, mas de bom tamanho. Deviam ser as últimas, pois muitos dos soldados trajavam peças rasgadas e encardidas. Como o soldado brasileiro, em sua humildade, é capaz de servir aos seus comandantes com honradez, demonstrando capacidade para a improvisação a qualquer custo, sua estima própria denotava civismo e disciplina elevada. Há muito não se cometia infrações ou deserções, encontravam-se ajustados e entregues ao destino que lhes cumpria executar. A sorte de cada um de nós já estava apregoada, nosso capelão bem disse num dos cultos: “Deus escolheu cada um de vós para seu instrumento de compaixão, a guerra une os fiéis em torno de uma nobre causa”. 105


Encontrei-me nesse mesmo dia com Daniel e aproveitei a oportunidade para lhe perguntar sobre o que ou a quem se devia a certeza de que não morreríamos nas mãos vingativas dos nossos perseguidores paraguaios, ele simplesmente disse: − Lembra-se de que havia prometido a Aurora que voltaria vivo? Acreditei nisso com tamanho afinco que meu corpo nada sentia, apenas obedecia à minha alma. Meu amor por essa menina me faz sentir forte e quase imortal! Depois de tamanha carga de nervos não faltaram risos para comemorar nosso retorno. Daniel sempre alegre e brincalhão esboçava ares de menino travesso. Nossos companheiros de missão na patrulha do dia anterior haviam retornado sãos e salvos. Com uma nova noite se aproximando, a troca da guarda noturnal a caminho, todos nos posicionamos para o merecido descanso, alguns ficaram à beira das fogueiras de prosa com civis. Vez ou outra quebravam o silêncio as risadas de mulheres que se divertiam com jovens soldados, e eles até que faziam por merecer. Procurei pelos camaradas mineiros do 17 e Daniel, mas quanto a este, nem um sinal de vida. Deixei para depois e fomos experimentar uma nova cachaça que apareceu não se sabe até hoje de onde. Uma prosinha mineira regada à cachaça, não tem coisa “meiór seu”. Surgiu até uma promessa, a de quem se salvasse daquele inferno haveria de conduzir a flâmula do 17 até as mãos do Arcebispo da cidade de Mariana, perto de Ouro Preto. Muitos dos camaradas tinham origem na Força Policial 106


da província de Minas Gerais, calejados com a disciplina e o rigor militar, gozavam de bom humor sempre. Assim como passa o céu e a terra, aquela noite não foi diferente. Com o toque dos clarins, anunciou-se uma nova alvorada. A preguiça era tamanha, mas o dever clama, e o soldado não deve dar as costas às obrigações diárias. Muita mansa foi aquela noite, portanto todos estavam bem dispostos e animados. Ao sair da barraca, o sol fresco que tocou a minha face fez pausa para minha prece, agradeci por estar vivo e pedi a Deus que não me abandonasse e que cuidasse de todos, não me esquecendo, é claro, dos meus queridos pais e irmãos. A bandeira do Império ainda estava lá, tremulava sem parar no pau que servia de mastro fincado ao centro do acampamento, dando provas de que o brasileiro é corajoso e audacioso, naquele pedaço de chão a soberania do povo brasileiro se firmava. Os corneteiros nos chamavam para a formatura, haveria revista de equipamento e uniforme com declaração do comandante para a ordem o dia. A tropa perfilada e alinhada, mesmo destroçada pelas intempéries, ainda mantinha o garbo e a pura disciplina da gente de guerra brasileira. Brava gente, muitos deixaram seus corpos esparramados ou enterrados nas planícies daquele belo país, jamais retornaram aos lares, sonhavam com um futuro melhor para si e para os familiares, morreram jovens ainda. 107


Segundo as palavras do coronel, tínhamos pela frente muita ação, nosso destino seria um lugarejo conhecido por Estância da Laguna, algo do tipo de uma fazenda com criação de gado e pomares. Diziam que era lá que Solano Lopes, El Ditador, costumava tirar alguns dias de calma e solidão, devendo, portanto, ter boa acomodação, uma espécie de residência de veraneio. Formamos cada qual em sua unidade, com a disposição em quadrados escoltados pelos canhões, no centro o Estado Maior, seguida da comitiva de civis e mascates. Alternando na vanguarda entre os Batalhões ativos, o 17º Voluntários da Pátria era um deles. Do início da marcha até a chegada ao chapadão, de onde avistávamos Laguna, tudo transcorreu em branda calmaria. Antes de dar sequência às nossas ações, houve parada para toda a tropa. Alguns soldados a cavalo, acompanhados pelo guia Lopes, percorreram os arredores da localidade alvo. Ao retornarem trouxeram um pedaço de papel e entregaram ao comandante, que o leu em voz alta, dizia assim: “Desventurado general que aqui vem procurar seu túmulo, porque o leão do Paraguai rugirá, altivo e sedento de sangue, contra o invasor”. Blasfemou nosso inimigo. Nossa chegada já era esperada. Na ocupação de Laguna, muitos nos aguardavam de espada em punho, foi o Batalhão de vanguarda incumbido da aproximação, apoiados pela artilharia do major Cantuária. O combate iminente entre as tropas se daria nos arredores da Estância. Cerca de seiscentos dos nossos, incluindo uns trinta índios, chefiados pelo tenente Querino, de ori108


gem indígena, abriram o confronto após terem sido recebidos à bala e tiros de canhão. Deslocamentos rápidos com resposta de nossa artilharia que logo desmobilizou a do inimigo, tudo conforme o planejado aconteceu, e a sorte nos favoreceu. Nosso pessoal mostrava-se aguerrido e desejoso de ocupar logo a Laguna, assim que foi dado o toque de avançar os guaranis recuaram sob uma rajada de fogo em suas costas. A cada disparo de um dos nossos canhões, certeiros em sua maioria, o entusiasmo se renovava com gritos de “Viva! Viva!”. Setecentos e tantos do lado paraguaio e nos saímos vitoriosos naquele combate, apenas um companheiro morto, enquanto do lado adversário chegamos a contar oitenta cadáveres. Ao retornarem junto à Coluna, todos esboçavam sorrisos, para muita alegria dos índios, que se fartaram com os espólios retirados dos paraguaios mortos. Camisão determinou que acampássemos na Estância, àquela altura nossas tropas já haviam sido rebatizadas de Forças em Operações no Sul do Mato Grosso para Forças em Operações no Norte do Paraguai. E a ordem assim foi cumprida, não nos opondo resistência, então avançamos mais meia légua na esperança de encontrarmos o tão sonhado gado, mas apenas algumas cabeças nossos caçadores conseguiram reunir, que contou com a ajuda do leal guia Lopes. Não haviam nos deixado nada que prestasse, tocaram fogo em tudo e espalharam todo o rebanho. O resultado foi que vencemos mais um confronto armado com o inimigo, isso nos deu ânimo, todavia o tão sonhado gado que serviria para nos alimentar e reforçar a 109


tração animal para nossas carroças e canhões, esse o grande e forte motivo a nossa incursão, não se realizou. Nos planos do coronel, havia a intenção de avançar sobre a Vila de Concepción, mais ou menos trinta quilômetros à frente, porém sem víveres e munição suficiente a decisão razoável seria partir, reaver a caminho de volta a Nioac, antes que os paraguaios retornassem com reforço de seu contingente e caíssem em cima de nós com a vantagem da quantidade. A refrega anterior tinha sido mais do que convincente. Corria ao pé de ouvido que Camisão desejava vingança pelo malogro quando da sua retirada de Corumbá sem que se oferecesse resistência às tropas paraguaias invasoras, sua honra precisava ser refeita. Natural que fosse resistir a mais uma retirada, não seria a primeira. Eu, sinceramente, admirava a postura de nosso comandante, sempre rígido e disciplinado, exigindo da tropa a mesma conduta. Afinal, em Corumbá ele obedeceu às ordens do coronel Carlos Augusto de Oliveira, retirando seu batalhão de artilharia para longe do fogo dos invasores, o fato lamentável é que os civis habitantes da Vila ficaram a mercê dos paraguaios. Após breve reunião do Conselho, ficou decidido que sairíamos de Laguna com destino a Nioac, tal como já prevíamos. A dificuldade seria maior, pois já tínhamos que perdido bastante gente e animais de tração, sem desejar recordar a falta de ração. Ficamos estacionados em Laguna por sete dias, até que em 8 de maio partimos. Vale lembrar um episódio inusitado que se deu, lá pelo dia 4 apareceu como do nada um italiano de nome 110


Saraco, fornecedor do exército, que despontou com sua presença e mais quatro carroças de mantimentos e mercadorias. Já o tínhamos visto em Goiás, mas aparecer ali, e do nada, surpreendeu-nos ainda que causasse muita euforia. A venda foi farta, deu para aliviar as pressões, apesar dos preços acima do convencional. Trouxe consigo muito sal, arroz e farinha. Os índios se interessavam mais pelos presentes, as mulheres pelas águas de cheiro e as crianças alimentavam-se dos doces. Homem de muita conversa e de exagerado senso de humor para a ocasião. Laguna serviu também para maior aproximação de Daniel com Aurora, que em meio aos dissabores da guerra, sempre ajeitaram um tempinho para ficarem a sós. A mãe da jovem já não mais implicava tanto, encarou o romance como coisa de moços de coração mole. Contudo Daniel havia me procurado numa noite para desabafar sua preocupação em relação à moça, a paixão havia passado dos limites, seus sentimentos eram de amor profundo, lamentava-se por não poder oferecer maior segurança, e me confidenciou terem tido relações íntimas os dois. As circunstâncias não colaboravam às mulheres que engravidavam, ainda mais em meio a uma guerra em que faltava o básico para a sobrevivência. Sugeri-lhe que procurasse seu comandante de Batalhão e solicitasse deste uma autorização para breve entrevista com o coronel, cujo assunto a ser tratado seria o casamento entre ele e Aurora. Nosso diálogo foi franco: − Certamente, Augusto, não pretendo abusar de Aurora, um homem deve assumir por todos os seus atos. 111


− Isso mesmo, Daniel, pensando assim e te conhecendo como conheço é que sugeri o casamento, tu és um homem de muita fibra. − Apenas coloco em dúvida se ela me quer para seu esposo, se não é apenas um caso passageiro. − Duvido muito que ela deva pensar assim, tem boa educação e demonstra carinho imenso por ti. Mesmo porque o namoro vem desde Miranda, já faz um tempo. − Mas se algo me acontecer... Não desejaria que ela tão jovem ficasse só. − Segue o teu destino, entrega-te a Deus em tuas orações e peça proteção em dobro para ti e tua menina. − Certamente que farei isso, mas devo conversar com ela primeiro antes de tomar qualquer decisão. A mãe dela deve primeiramente dar a sua permissão, caso contrário, nada feito. − Duvido muito que uma mãe vá se recusar de autorizar a mão da filha em casamento para um jovem e galante soldado do Império. Não esqueças, depois disso tudo voltaremos aos estudos e completaremos nosso curso, temos um futuro pela frente. − É, Augusto, é isso mesmo, obrigado pelos conselhos, és um grande amigo. Partimos em 8 de maio de 1867, numa manhã alva e pálida com algumas nuvens no céu. No fim da tarde do dia anterior, Daniel se casara com Aurora sob a celebração do capelão, teve a mim como padrinho, numa cerimônia simples, cheia de entusiasmos por parte de nossos camaradas que ainda conseguiram alguns adornos para enfeitar o altar improvisado, muita cantoria em vol112


ta da fogueira e algumas doses de cachaça, ofertados pelo mascate italiano. Daniel ganhou de seu comandante uma noite de folga para desfrutar de sua lua de mel. Laguna não seria mais a mesma, pois os brasileiros a haviam deixado além de incólume, também o registro de que somos um povo dado à alegria e aos prazeres que a vida nos outorga, mesmo em dias difíceis como aqueles. O Corpo Expedicionário era constituído em sua maioria de voluntários, filhos de todos os rincões de nossa terra, havia paulistas, cariocas, goianos, mineiros, mato-grossenses, amazonenses e paranaenses; índios, negros, brancos, pardos e mulatos; homens, mulheres e crianças algumas nascidas durante a expedição; abastados e humildes; monarquistas e republicanos; católicos e protestantes. Todos traziam consigo venerado amor pelo Brasil e desejo de expulsar os invasores de nosso território. Éramos um povo em luta por uma causa comum, com a crença de que nosso Imperador compactuava com os mesmos ideais. A marcha iniciada foi o 17 para a retaguarda. O caminho de volta não seria fácil, o adversário se preparava para a revanche, reunia a tropa para a peleja, sabíamos que a qualquer hora eles viriam nos confrontar. As mulheres passaram a marchar ao lado das fileiras e o comandante não se importunou com isso. Mostrava-se mais apreensivo com o corpo de caçadores desmontados que havia mandado seguir adiante, não podia perdê-los de vista, era nossa vanguarda. Quem quer que esteja na vanguarda, este será o primeiro a receber o fogo inimigo, devendo o comandante providenciar reforço imediato 113


para não perder a linha de defesa, fundamento clássico na estratégia militar. Muito desejava retornar ao meu lar, não sabia se conseguiria, por isso mantinha sempre comigo um diário de campanha. Novos combates aconteceriam, Nioac estava longe demais.

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Capítulo XIII

Pausa para o chá

Logo pela manhã ao cruzarmos um primeiro riacho, uma das peças da artilharia caiu n’água, dando muito trabalho ao pessoal e deixando furioso o coronel. Isso fez com que atrasasse algumas horas a nossa marcha, permitindo-nos uma pausa. Aproveitei para me reunir a um grupo de soldados da cavalaria que desfrutava de um bom chá de ervas, apropriado para prevenir contra diarreias. De gosto amargo, porém de muita eficácia. Daniel fora escalado para corpo da guarda, vigiava o flanco. Nossos amigos da cavalaria não eram lá de muita conversa, mas deixaram de lado as formalidades da caserna e se dispuseram a puxar uma prosa. − E então, voluntário, como se aventurou nessa? − Alistei-me por achar que estaria sendo útil a minha pátria servindo ao exército. Quase todos os meus 115


amigos fizeram isso. Não podíamos ficar sem tomar uma iniciativa. − Tu és de onde? Perguntou-me aquele que se dizia mais antigo entre eles. − Sou do Rio de Janeiro, da capital mesmo. − E como veio parar aqui? − Vim como escolta de mensageiro e acabei em Uberaba sendo incorporado ao 17º de Ouro Preto. Bom o chá..., um pouco quente..., também um pouco amargo..., mas o importante é que previne e cura. − Isso mesmo anspeçada, vai tomando que tem bastante pra todos nós. − E vocês são de onde? − A maioria aqui é de Goiás. Entramos nessa porque a grana é boa, tinha boia da boa e roupas engomadas, e se algo nos acontecer a viúva ainda fica com a pensão. As risadas não podiam deixar de acontecer. − Mas me digam aí, como é servir na cavalaria sem cavalo? − Fica difícil, muitos dos nossos animais morreram vitimados por doenças e fadiga, sem ração apropriada morrem mesmo. Somos caçadores a cavalo sem cavalo, dá para entender? Novas gargalhadas descontraíram ainda mais o diálogo. − Seu chá acabou deseja mais um pouco? Desta vez foi o mais moço quem se dirigiu a mim. − Não, obrigado, quem sabe mais à tarde. Agradeço muito pela oportunidade de trocar uma prosa com vosmecê. − Isso se o coronel nos deixar um pouco mais à vontade, precisamos de uma folga, seguimos na vanguarda o tempo todo, é preciso variar mais a escala de serviço. 116


Referiu-se um outro deles, o de poucos dentes na boca. − Concordo, todos estão bem cheios disso aqui, viemos para expulsar e nos defender contra os invasores e nos tornamos um. − Mas amigo, a melhor defesa não é o ataque? Temos de dar o troco neles, custe o que custar, baixar a crista e a arrogância do inimigo faz parte do jogo. Novamente o mais antigo. − É, nisso você tem razão, a guerra é um jogo. E um jogo de vida ou de morte. − Rapaz esperto você, nesse jogo se ganhamos ficamos vivos, mas se perdemos..., adeus! A regra número um é ganhar, mesmo não importando como, a vida de todos está em risco, a minha e a sua, precisamos ser uma família, cada qual deve zelar pelo outro. Fez-se pausa para uma breve reflexão. − Senhores. Mais uma vez muito obrigado pelo chá e pela prosa, fico lhes devendo. O dever clama por minha presença. − Não há de que, rapaz, esteja sempre à vontade. Dediquei-lhes uma continência, correspondida por todos, peguei meus pertences e segui em direção a minha companhia. Sempre medito sobre a guerra. Suas causas não são lá essas coisas, mas as consequências são fatos incomparáveis em nossas vidas. Os sentidos da amizade e da ajuda ao próximo se tornam mais evidentes, e é aí que nos sentimos humanos na acepção estrita da palavra. Dependemos de cada um dos viventes que estão ao nosso lado, sem a ajuda mútua fracassamos e diante da possibilidade do fracasso 117


a morte. Em guerra, nos perguntamos frequentemente: “Estarei vivo amanhã?”. Depois de muita exaustão, conseguimos nos reorganizar e conduzir, com muita pompa, a Coluna adiante. A vitória sobre o intrépido inimigo deu-nos ânimo e coragem de sobra, toda a gente deixava a questão da fome como um caso a ser resolvido em breve. O importante era estarmos unidos e perseverantes em nossos propósitos de retornarmos a salvo. Bendita a Mãe misericordiosa, que nos ampara na desgraça e nos acalenta na bonança, estando sempre ao nosso lado. Tenho a destacar que até a presente data os enfermeiros do Batalhão 17 sempre se mostraram corajosos e muito bondosos para com os enfermos. Todo o possível é feito na tentativa de curá-los ou diminuir a dor e o desgastante sofrimento. O corpo de saúde que servia à Coluna foi de grande importância à nossa sobrevivência, apesar dos recursos estarem praticamente esgotados em algumas áreas e escassos em outras, devido, principalmente, às doenças contraídas durante a marcha até o Mato Grosso. Valiam-se de seus conhecimentos técnicos e do improviso material, as ambulâncias viviam repletas e as barracas lotadas de moribundos. Muitos dos nossos morreram sem ver o inimigo, sem sequer dar um tiro ou golpe de espada, tombaram no cumprimento do dever, simplesmente. Seguimos com fé em Deus e na crença de que nossos superiores estavam imbuídos da certeza do regresso, fariam de tudo para que a missão fosse cumprida.

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Capítulo XIV

Batalha de Baiendê

Tínhamos de retornar a Nioac, pois o Mato Grosso ainda invadido dependia da proteção de nossa Coluna. Sem víveres o suficiente, sem água potável, sem medicamentos, pouca munição, tropa exausta, restava-nos alcançar em tempo hábil o destacamento que nosso comandante havia designado para guardar a Vila e, ainda, servir de possível reforço ao corpo expedicionário. O Corpo de Caçadores Desmontados seguia à dianteira, quando ouvimos disparos contínuos das armas, haviam naquele momento sido interceptados e emboscados, próximo a um capão rodeado de mato, pela infantaria paraguaia ali posicionada a nossa espera. Houve no restante da tropa tamanha surpresa que quase nos causara a perda de um batalhão, muita confusão entre os civis, tendo alguns se separado dos demais para saírem em correria na expectativa de apoiar os Caçadores. 119


Graças à interferência de nosso líder maior, reagrupamo-nos e nos dirigimos ao local da disputa, com as ordens de formarmos quadrados acompanhados dos canhões La Hitte. O sentimento de grupo falava mais alto, ansiávamos pela assistência imediata, mas o desespero poderia comprometer a segurança de todos, logo nos reunimos e nos posicionamos conforme havíamos treinado insistentemente, baionetas à frente com marcha acelerada. Os brasileiros foram corajosos mediante a investida, lançaram-se sobre as tropas inimigas provocando o seu recuo, todavia os contras se reagrupavam e tornavam a aplicar novos golpes, que agora contavam com a ajuda de uma pequena tropa de cavalaria. Camisão imediatamente tomou a decisão de enviar uma Companhia e uma peça de artilharia com a missão de dar a cobertura à unidade atacada, enquanto o grosso da tropa deslocava-se em direção ao local da refrega sem desproteger a retaguarda, que poderia ser alvo fácil caso houvesse a dispersão. Marchamos a passos largos, sob a ausculta das próprias batidas do coração. Quando chegamos como tropa de reforço, encontramos ainda alguns de nossos soldados pipocando tiros na direção da força hostil que haviam batido em retirada, o canhão havia feito aquilo que se esperava, acertou-os no meio da guarnição obrigando-os a se dispersar, cavaleiros paraguaios solidários buscavam dar cobertura aos seus camaradas que fugiam a pé. O céu cobria-se de fumaça negra, o cheiro de pólvora invadia as narinas. Graças à chegada apressada e em bom tempo da unidade que havia sido deslocada anteriormente pelo coronel, não falta120


ram cartuchames para a fuzilaria. Após o último tiro, por alguns segundos, o silêncio tomou conta do ar... Ouviu-se então um grito desesperado de mulher que corria aos prantos berrando pelo nome de seu dileto marido, ao encontrá-lo esparramado sobre o campo, debruçou-se em soluços implorando-lhe que voltasse à vida, nada poderia ser feito em favor daquele fiel soldado, encharcado de sangue e perfurado pelos sabres guaranis, havia acabado de doar a Pátria o seu maior bem, a própria vida. Poucos dos nossos tombaram no cumprimento do dever naquela data, perdas maiores sofreram os paraguaios, e nossos feridos logo se recuperaram, mas jamais esqueceremos da luta que travaram os combatentes do Corpo de Caçadores Desmontados, muitas histórias foram contadas pelos que sobreviveram a esta dura campanha, não nos esqueceremos do valoroso capitão José Rufino e do heroico soldado Laurindo José Ferreira, este, mesmo debaixo de uma saraivada de golpes, não se importou com os ataques e defendeu a si e a seus camaradas com apenas um dos braços, que quase lhe fora arrancado por uma lança inimiga, manteve sua posição e ainda ganhou precioso tempo para a chegada de outros bravos combatentes. Como muitos corpos inimigos cobriam o gramado, os índios aproveitaram para promover suas costumeiras pilhagens sobre os cadáveres, mas diante da aversão que possuíam pelos soldados de Solano Lopes resolveram esquartejá-los, causando a ira e revolta do coronel Camisão. Como bom servo de Deus, jamais permitiria aquilo sobre o seu comando, era selvageria demais para os seus 121


costumes; imoral e arrepiante é o que convém descrever pelo momento. Por serem índios e nossos aliados, não lhes cabia nenhuma pena, apenas a repreensão enfática, o que foi prontamente acatado. Alguns dos possantes cavaleiros paraguaios conseguiram arrastar, por meio de cordas, alguns corpos de volta as suas tropas. Em nossas fileiras, perdemos 14 camaradas, e outros tantos feridos, alguns com mais gravidade outros com menos, nada que nossa compaixão por eles não pudesse oferecer o devido cuidado. O pessoal do serviço médico não cessava de trabalhar, muitos passavam as noites de plantão na assistência aos necessitados; contávamos também com a abnegação de algumas mulheres, inclusive Aurora esposa de Daniel. Devo registrar que a participação das mulheres foi de fundamental importância no contexto de nossa jornada, muitas chegaram a pegar às armas quando viam seus homens tombarem feridos, houve o caso de uma senhora que rasgou a barra da saia para servir de curativo ao soldado cambaleante que havia sido alvejado no pescoço, em seguida lhe tomou o fuzil e disparou contra uma meia dúzia de raivosos inimigos, tendo acertado um deles levando-o à morte imediata, pois o projétil lhe varou o peito. Após o referido feito, ainda se dispôs a conduzir o soldado até a retaguarda para que este recebesse os urgentes atendimentos. Interpelada pelo nosso comandante qual era o seu nome, ela simplesmente respondeu-lhe Maria, e insistindo pediu-lhe o seu sobrenome, ao qual respondeu: “Maria Preta, meu sinhô, escrava fugitiva não tem sobrenome não”. O coronel chocado com a cena, disse-lhe: “Pois agora tens, vai se 122


chamar Maria do Brasil, e a partir deste momento, considere-se livre sob a minha responsabilidade e proteção”. Quão valorosa é nossa gente, mesmo se considerarmos as deserções, afinal até no exército de Napoleão a debandada aconteceu, o mais importante é que os fortes não arredaram da luta na defesa da nobre Pátria, nosso inimigo já percebia o poder de resistência que possuíamos e a capacidade esmerada de combater. Um pelotão de voluntários foi formado para as tarefas fúnebres, sem solenidade ou pompa, enterramos nossos mortos em terra hostil. Eu e Daniel presenciamos uma cena comovente, quando vimos um dos oficiais se curvar e depositar na cova, com suas mãos feridas em combate, seu jovem irmão chamado Bueno, um voluntário paulista, morto em ação. Bravos combatentes que jamais tornarão a ver a Pátria, e que por ela deram as suas vidas, que Deus os tenha... Encontrei-me com Daniel assim que as coisas se acalmaram, ele estava bem, um pouco revoltado com a perda dos companheiros, e também um pouco preocupado com o futuro da Coluna, especialmente com Aurora. No decorrer de nossa conversa, foi-nos possível refletir sobre os acontecimentos. − Daniel, vejo que estás muito preocupado. − Sim, Augusto, quantas vidas mais irão nos levar, estarei entre estas? Aurora precisa de mim, sua situação é desconfortável para a ocasião, estamos alguns meses em ação e parece que já se foram dez anos de minha vida. − Não podemos nos esquecer que estamos em guerra. A guerra é cruel, muitas vezes torturante, um inferno 123


como Dante descreveu, mas é assim a guerra. Coragem, meu bom amigo, és valente, saberás como se proteger. − Agradeço por ter um amigo como você, Augusto. − Nada tens a agradecer, afinal quem salvou a minha vida? − Não fiz mais do que um dever. − Fostes além do dever, expôs a tua vida na defesa da minha. − Ora, Daniel, acredito que tu farias a mesma coisa por mim. − Sem dúvida, meu irmão, por aqui parece que todos depositamos nossas vidas uns nas mãos dos outros, mas no nosso caso eu diria até que eu daria a minha vida na defesa da tua. Hoje você precisa muito mais da tua vida que eu da minha. − Como assim, Augusto? − Ora, quem em breve será pai afinal de contas? − Isso me deixa mais preocupado ainda. − Bobagem, fé no Criador e amor no coração te levarão para casa, aí teus pais poderão conhecer a linda Aurora e o bebê. − Mas como evitar a morte se ela nos persegue sem descanso? − No teu caso, eu diria que tens de evitar o risco o quanto puderes, deixar de lado o ímpeto, o furor, e se dedicar ao cumprimento restrito das obrigações, poupe-se dos atos impulsivos. − Reconheço minha intrepidez, mas eu me alistei para o combate e não para fugir dele. − Não é bem isso que eu disse. Acho que me farei entender de outra forma. Preste bem a atenção para a 124


resposta à minha pergunta. O que é mais importante em tua vida daqui para a frente, o combate com o inimigo invasor ou a tua amada Aurora? Daniel pensou por alguns segundos e me respondeu: − Aurora, é claro, sei que, se eu perdê-la, jamais me perdoarei, nem aqui na terra e muito menos no céu ou para onde for a minha alma. − É isso, meu bom amigo. Serás um bom soldado assim como um bom companheiro para Aurora, ela se orgulhará muito de ti por dedicares parte da tua vida à pátria e a outra parte à família. O homem responsável é aquele que zela pelo seu trabalho e honra a família que possui. Nada mais digno para o marido do que o respeito pela mulher amada. − Augusto, como já disse outras vezes, tuas palavras me confortam, mas preciso mais do que as sábias declarações de um valoroso amigo. − E de que precisas? − De uma promessa tua se for possível. − Qual seria!? Em que posso lhe ser tão útil? − Se acaso algo de trágico vier a me acontecer, gostaria que protegesse Aurora e o bebê. − Algo de trágico! − Sim, é bem verdade o que acabastes de falar, mas minha vida, nossas vidas estão em constante perigo, isto é, se eu vier a morrer antes de acabar a guerra atenderia o meu pedido? − Bom, primeiramente estamos conjecturando sobre hipóteses; logo, é possível como também passível de pouca probabilidade. Mas digamos que eu diga sim. 125


− Minh’alma descansará em paz, esteja onde estiver. Segurei minha fala por alguns segundos, percebi que Daniel realmente estava tenso com a incerteza do amanhã, todavia não poderia deixar de lhe estender a mão em apoio aos seus sentimentos. Levantei-me do chão onde estávamos sentados e respondi: − Daniel, tenha o meu total apoio, minha promessa será dívida de honra para o resto de minha vida, contudo tenho a confiança em Deus de que eu jamais terei de cumpri-la. Meu leal amigo agradeceu-me em prantos, suas lágrimas representavam quase que uma despedida. Não sei ao certo porque se sentia assim, sempre foi muito corajoso e otimista nas situações mais difíceis pelas quais passamos. Encontrava-se com os nervos abalados desde o último combate, presenciamos muitas mortes e sofrimentos causados por carnes dilaceradas e corpos ensanguentados. A corneta mandava que nos reuníssemos à tropa, rompendo a tristeza gélida que abalava nossas mentes. Poucos se dispunham a conversar, a maioria andava de um lado para o outro como se nada tivessem para fazer. Antes de me juntar ao meu Batalhão, solicitei do sargento permissão para procurar um enfermeiro que pudesse aliviar as dores que sentia nos pés. É que minhas bolhas haviam se transformado em crateras sangrentas e ardiam como pimenta. Com a permissão concedida, fui ao encontro do primeiro enfermeiro que me apareceu pela frente, era um paulista de cabelos e olhos claros, com sotaque bem típico, que de pronto me ofereceu uma pomada para alívio das dores e conforto dos pés, cedendo-me o pote. 126


Ao retornar ao Batalhão, recebi a informação de que o 17 e uma peça La Hitte foi posto à retaguarda, formamos mais uma vez o típico quadrado para dar proteção ao conjunto da tropa e marchamos com o propósito de acamparmos às margens do Apa-mi. Fomos seguidos quase que todo o tempo pela cavalaria paraguaia, algumas vezes se aproximavam tanto que dava para um dos nossos disparar, com o efeito de dispersar e afastar o inimigo, e em resposta alguns projéteis passavam por nossa Coluna sem que se produzissem algum fato. Ao atingirmos uma região cheia de imensas poças de água lodosa, já que as planícies tinham essa característica, os canhões paraguaios nos receberam com fogo de calibre 3, dispusemos nossos batalhões e companhias em formação de defesa em garantia às carroças e o pouco gado que conduzíamos. Mais uma vez houve chance para uma grande demonstração de perícia da nossa artilharia, que de início pôs um dos canhões inimigos fora de ação, a cada tiro certeiro nossa soldadesca bradava vivas. Competiam os oficiais da artilharia pela melhor pontaria, competição essa vantajosa para todos nós. Por fim, sem que nos dessem trégua, mandou o coronel Camisão que prosseguíssemos na retirada. Seguimos por mais ou menos duas léguas sob um sol escaldante, sem que o inimigo nos desse chance para descansarmos. Alguns de seus projéteis atingiram um dos nossos, vitimando-o. Quando nos aproximamos das matas do Apa-mi, recebemos mais outra carga de saraivada de projéteis 3, que estavam bem posicionados dessa vez. Com muito cus127


to, conduzimos nossos canhões para elevações acima dos deles e respondemos ao fogo. Após uma hora de disparos intermitentes, nossos La Hitte ponto 4, fizeram calar as baterias paraguaias. Seus projéteis causaram algumas poucas baixas, sem efeito mortífero, fazendo-se mais efetivos na disparada de nosso gado, posteriormente recuperado no todo pelo velho e bom mineiro guia Lopes. O Batalhão 20 de Goiás mostrou-se valente e audaz ao apoiar o serviço de nossas baterias. Enquanto durava a peleja entre baterias, o coronel despachou um destacamento de engenharia com a missão de restabelecer a passagem sobre o Apa-mi. De pronto nossos engenheiros foram bem eficazes, tendo passado pela ponte improvisada em primeiro lugar o coronel Camisão e seu Estado-Maior. Às margens do Apa-mi, a temperatura estava um pouco mais amena, o matagal refrescava o ar que soprava de uma margem a outra. Enquanto atravessava a ponte vi que uma enorme cobra deslizava sinuosamente na superfície do rio, apresentando comportamento completamente despreocupado com o que se passava por ali, dando a entender que a Mãe Natureza não deixava em abandono a sua criação. Além da margem direita, estavam os persistentes paraguaios, estes haviam atravessado num ponto mais abaixo do nosso, e sua cavalaria já podia ser vista em maior número, bem provável que receberam reforços. Postaramse mais ao longe com o propósito de somente nos observar, pois a noite já se anunciava e um combate noturno não seria de melhor agrado para eles, tal qual para nós. 128


As ordens seriam de vigilância plena na retaguarda, flancos e vanguarda do acampamento. Se é que poderíamos chamar aquela concentração de acampamento, pois nenhuma barraca fora armada, devido ao extremo cansaço que tínhamos. Dormimos em grupos uns sobre os outros, cobertos pelo fardamento e alguma manta ou capote, nenhum de nós deixava de ter à mão as suas armas e sobre os rostos os seus chapéus, visto que o sereno era por demais úmido tal qual uma chuva fina. Lá pelas tantas, se deu um rebate falso, alguém de vigia gritou: “Cavalaria inimiga!”, e todos se puseram a dar tiros a esmo sem que pudesse ver o que se passava; os animais em pânico levantavam muita poeira e produziam ruídos característicos. Logo que souberam da divertida confusão, iniciada por algum espertalhão, muitas gargalhadas foram ouvidas, devolvendo-nos a calma e a segurança no acampamento. Todos voltaram aos seus grupos e muito exaustos deitaram-se para dormir. Daniel dormia abraçado com Aurora, ao pé da carroça, cobertos por um poncho negro, e a luz cor de prata do luar iluminava o contorno de seus corpos. Assim assistindo aquela imagem, fiz orar a Deus..., mas o sono... tomou conta... de mim. No belo raiar do novo dia partimos, logicamente como não poderia deixar de ser, acompanhados por nossos impertinentes observadores que, também descansados, puseram-se em marcha.

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Capítulo XV

Machorra

Se logo de manhãzinha estávamos bem dispostos, também o inimigo se colocava na condição de franco atirador. Bombardeavam nossa vanguarda e salpicavam projéteis sobre os flancos, mas nada de sério ocasionou. Alguns dos nossos se punham a responder aos ataques com disparos de fuzil, chegando a alvejar com tiro certeiro os mais afoitos deles. Comentou-se que, dentre os cadáveres que jaziam no solo, um era de brasileiro desertor que passou para o lado paraguaio. Pobre coitado, como fugitivo não poderia reintegrar-se à tropa, seria punido de morte, muito menos ter a chance de retornar ao seu distante lar. Aqueles que desistiram de lutar em nossas fileiras e eram capturados pelos inimigos, não dispunham de muita opção, ou lutavam com eles contra os brasileiros ou sofriam com a pena de degola. Continuamos na marcha sorrateira, passo após passo, e minha preocupação com a possibilidade de sermos 131


atacados em massa aumentava. Deveríamos ter ficado em Laguna ou talvez evitado a incursão no território inimigo? As dúvidas brotavam em minha mente. Não teria sido por motivo torpe que o coronel nos conduziria à invasão para termos de nos retirar em seguida, houve motivo justo para a ação beligerante. Procurava respostas que pudessem esclarecer tal decisão. De certo o inimigo promovia a tática do esgotamento de forças, tencionava não destruir a Coluna com o propósito de se apoderar de nosso material bélico e do que lhes poderia ser útil, por isso optaram em nos atacar timidamente. Por sua vez, conscientizaram-se da verdade nua e crua de que nós brasileiros podíamos entrar e sair de seu território quando e como quiséssemos. Ao sul do Paraguai, havia a inexpugnável e intransponível fortaleza de Humaitá, que se encontrava bloqueada por forças navais da tríplice aliança, uma invasão pelo sul acabaria de vez com a resistência paraguaia, enquanto o norte, mais frágil, cederia a uma invasão por parte das forças do Império, desde que planejada adequadamente com boa logística e homens bem preparados. Deve ter pensado assim nosso líder maior ao transpor o Apa em direção a Laguna, uma vez que fosse possível com a Coluna Expedicionária, certamente outros corpos do exército se serviriam das informações por nós conquistadas a ferro e fogo. Além do mais, deixar o inimigo se preocupar com as suas defesas possibilita ao oponente ganhar tempo no intento de atacar. Ouvi algumas vezes um oficial ou outro, em conversa informal, declarar que devíamos estacionar a tropa 132


e aguardar por reforços e suprimentos que viriam de Nioac e Miranda. Mas o coronel pensava o contrário, que nossa força estaria sendo aguardada em Nioac com munição, pessoal e víveres, portanto deveríamos chegar a qualquer custo naquele lugarejo, antes que resultasse no “tarde demais”. Naquele intervalo de tempo, não recebíamos mensageiros do lado brasileiro desde que atingimos Bella Vista. O coronel era uma grande pessoa, tudo que fazia almejava a nossa segurança e bem-estar, confiávamos nele e em todo o oficialato, a prova disso foi a sua atitude para com os índios após o combate em Apa-mi, demonstrando ser um homem sensível e cristão. Sujeito assim é do tipo que não abandona um camarada ferido em campo de batalha. Devíamos confiar na sua experiência para que nos conduzisse seguros e salvos a Nioac. Após transpormos, sob a resistência inimiga, um vale próximo a Bella Vista, deu ordem o coronel de nos estabelecermos ali, na mesma manhã do dia 9. Precisávamos maquinar e rever os planos. Os mais moços não se contentavam com o fato de nos retirarmos sem que se conquistassem honras e glórias mais valorosas. Indispensável citar o diálogo que se deu entre alguns deles, de graduação entre soldado e cabo: − Sabem de uma coisa, devíamos ter ficado em Laguna até que chegassem mais homens. − É, podíamos, mas o fato é que não temos munição suficiente. − Seria o caso de atacarmos as posições paraguaias e nos servirmos do que eles tinham por lá. 133


− Não devia ser muita coisa. O tal do major Urbieta não nos atacou por não ter gente para isso, se tivesse certamente teria o prazer em acabar conosco. − Eu já penso diferente, acredito que o certo seria nós termos ficado em Nioac e fazer vigilância na fronteira com o Paraguai. −Eu também penso assim, concordo com ele. − Que nada gente, saímos de tão longe só para coçar saco num lugarejo à toa? Não tem sentido. Eu me alistei para lutar! Quero voltar para casa com o peito cheio de medalhas. − Meu rapaz, evite dar uma de herói fora de hora, a sua chance vai chegar, mais cedo ou mais tarde esses paraguaios vão cair de forra em cima de nós. Pensas que nossa presença aqui é bem-vinda? − O que interessa é nossa vitória. Que eles saibam quem são os brasileiros de verdade. − Uai, gente, essa prosa tá ficando afiada, num tá? Gargalhadas de todos romperam o ar que ainda se encontrava fresco. − Óia, gente, eu só me alistei pruquê a paga é boa. Cês tão pensando que vim pra morrer, tô fora! Desertar não deserto não, sou da roça, caboclo humilde, mas sou honesto, se me pagam pra mata índio paraguaio eu mato, senão eles é que dão fim ni nóis. Esse negócio de medalha e honra pode fica pro cês tudo, eu quero memo é meus cobre pra podê compra minha terrinha e depois prantá mio e mandioca, se dé pr’umas vaquinha também meió ainda. Mais risadas se fizeram presente. − Falou a sabedoria do sertão! 134


− Ninguém pensa no Brasil, estão sempre pensando em si mesmos. − E quem disso isso, amigo, se estamos aqui é porque no fundo sentimos o mesmo que vosmecê. Indignados com o que vimos e sabemos sobre esta guerra, todos estamos. Não é justo que um governante qualquer use toda a sua gente para tomar o que não lhe pertence, invadir terras vizinhas é crime, e é por isso que viemos aqui, nossa presença é sinônimo de justiça, representamos o interesse de todos os brasileiros, afinal por que ocupamos as praças e quarteirões exigindo do Imperador que declarasse a guerra!? − ATENÇÃO! Todos ficaram imediatamente em posição de sentido. Com a presença do tenente Rafael Tobias, às ordens. − Vejo que estão debatendo com propriedade acerca dos acontecimentos. Mas infelizmente vou ter de interrompê-los, é que o tenente coronel Antonio Enéias Galvão nos deu ordens para agrupar o Batalhão 17 e aguardar posterior pronunciamento, portanto solicito aos senhores que se preparem para a formação. − SIM, SENHOR! Resposta dada em voz alta e uníssona. − É pessoa vamu trabaiá sinão o home xinga nóis. Muito proveitoso aquele diálogo, dali surgiu uma declaração coletiva de vontade, a de que estávamos representando os interesses do povo brasileiro, um tanto quanto republicano, mas útil para o momento. De fato o povo do Brasil, do norte ao sul e do leste ao oeste, mobilizou-se em defesa da Pátria, a quantidade de vo135


luntários era cada vez mais expressiva, e assim como eu muitos atenderam ao chamado. Próximo dali ouvia a conversa o nosso leal guia Lopes, sem dar palpite, pensativo olhando para o horizonte enrolava um cigarrinho de palha. Homem sofrido ficava a imaginar como estariam sua esposa e filhos, raptados pelos paraguaios. Já havia recuperado um deles, que surgiu do meio do mato e muito debilitado. Quando houve o reencontro com o pai a cena foi muito comovente, diziam alguns que o guia Lopes do alto de seu cavalo estendeu a mão, e o filho lhe beijou pedindo a benção, podia-se ver as lágrimas que rolavam sobre a face do velho guia que pediu ao seu primogênito que fosse procurar quem lhe fizesse alguns curativos e buscasse encontrar novas peças de roupas com os mascates. Machorra, um vilarejo invadido, distante aproximadamente dez quilômetros de Bella Vista, seria nosso próximo destino. A ordem para o deslocamento teria por propósito impedir que tropas inimigas mais numerosas pudessem nos alcançar, interpondo-se entre as nossas posições e o que seria a possibilidade de reforço proveniente do Mato Grosso, ainda resistia a esperança de ver chegar a qualquer momento mais homens, munição e comida. Eu, particularmente, nunca acreditei na hipótese de recebermos ajuda de quem quer que fosse até o regresso a Nioac, posto que o inimigo se encontrava distribuído por toda a região invadida, o que dificultava sua localização e consequente expulsão de nosso território, conheciam melhor o ambiente do que nós, por isso podiam repelir qualquer manobra de pequeno porte. 136


Surgiu em nosso acampamento um tenente de nome Vitor Batista, proveniente da colônia de Miranda acompanhado de uma dúzia de homens em sua escolta, soubemos que o motivo da sua vinda seria o de dar notícia ao coronel de que nada havia desde Nioac, em termos de tropas ou munição, e que alguns carreteiros nos aguardavam em Machorra, enquanto outros já haviam desistido de nos encontrar devido aos nossos combates com os paraguaios, acreditavam nunca mais tornar a nos ver. Infelizmente esse mesmo tenente veio a perder sua vida em missão originada pelo coronel, que delegou aos seus cuidados mensagem aos comerciantes de Machorra para que retornassem a Nioac, antes que fossem localizados pelos paraguaios interessados e capazes de se servirem em muito das mercadorias da qual dispunham, agravado pelo fato de que lhes poderia fazer algum mal. Sobreviveu apenas o filho do guia Lopes que conseguiu embrenhar-se por mata repleta de espinhos, despistando seus perseguidores, quando chegou até nós encontrava-se todo ensanguentado e quase despido. Esse fato nos causou profunda aflição e abatimento, ao coronel arrependimento e inquietação da consciência. Não podemos deixar de esquecer que cabe ao líder tomar decisões, o remorso por deixar de ter feito muitas vezes supera o de ter realizado, é o ônus que paga a quem esta no comando. Aos engenheiros lhes foi incumbido de preparar uma ponte para dar passagem sobre o Apa, mas o que melhor puderam fazer foi uma estreita pinguela. Na manhã do dia seguinte, tivemos de atravessar quase que a nado, transportamos nossas armas e pertences acima 137


de nossas cabeças, pois o nível das águas do rio havia baixado, com exceção das mulheres, oficiais, doentes e os músicos, para quem foi possível dar preferência à passagem pela pinguela. A estrutura foi desfeita por alguns dos soldados do tenente Catão Roxo, que ordenou cortassem as cordas de sustentação; não podiam os paraguaios dela se servirem. Levamos três longas horas para a passagem completa, incluindo a boiada e os canhões. Aproveitei à outra margem do rio, já em solo brasileiro, para fazer assepsia nos meus pés com a pomada recebida do enfermeiro, um dos borzeguins havia soltado parte da sola e o outro há muito não tinha o salto no calcanhar, andava meio manco e isso cansava ainda mais a minha marcha. Ficar descalço corria-se o risco de ter espetado na sola dos pés algum espinho, pois era muito comum caminharmos sobre mato espinhoso. Tomamos a dianteira da coluna na posição de vanguarda, enquanto marchávamos nossas mentes se despediam de Bella Vista, muitos dos nossos que participaram da invasão ao Paraguai neste ponto, não mais ali estavam, Despedimo-nos para sempre. Por volta do meio-dia, descemos por uma inclinada depressão do terreno para depois ter de subir e nos posicionarmos no caminho que nos conduziria a Machorra, o Sol mostrava-se escaldante.

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Capítulo XVI

A Batalha de Nhandipá

O que vou narrar a seguir diz respeito ao episódio mais importante que se deu entre todos os confrontos com o inimigo, trata-se do assalto a nossas tropas logo após a passagem do Apa, em território do Brasil, num grande descampado cercado por muitas árvores de copas densas, numa paisagem paradisíaca. Vou procurar ser o mais fiel possível naquilo que meus olhos puderam testemunhar. O acontecimento mudou em muito as nossas vidas e o destino do Corpo Expedicionário, dias terríveis seguiram-se a este. Aos 11 de maio de 1867 do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo, pouco depois das doze horas, marchando toda a Coluna, tinha na sua vanguarda o 17 de Voluntários, no qual eu me encontrava incorporado, tendo

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ao flanco direito o 20º Batalhão de Linha, no flanco esquerdo o Corpo de Caçadores Desmontados, e à retaguarda, o Batalhão de Linha nº 21, cada qual apoiado por uma peça de artilharia; ao centro, em duas colunas paralelas seguiam as carroças com mulheres, crianças e comerciantes, e entre elas tocava-se a boiada acompanhada pelos índios. Fechava todo o perímetro uma fileira de atiradores. Bem guarnecida estava, mantendo-se a clássica formação dos quadrados. Era um dia como os outros, céu claro com poucas nuvens e quase não ventava, muita área verde para percorrer, os pássaros não cantavam como também não os via voando, havia um silêncio incomum. Algo me dizia que estava para acontecer o imprevisível, premunição daquelas que agente acaba desenvolvendo por força da necessidade de se manter vivo. Tínhamos sofrido vários ataques e incômodos ao longo de nossa campanha, considerava-me um veterano. Amedrontado às vezes, mas o que é que se pode fazer com essa emoção, o medo é um mecanismo de autodefesa e aparece quando menos se espera, o segredo é deixá-lo vir e encará-lo de frente, o covarde é todo aquele que não reconhece o próprio medo. Pois bem, seguíamos a diante pela estrada que cortava a verdejante planície, como citei, um imenso campo gramado cercado por muitas árvores frondosas, quando saíram por detrás de quase todas elas, uma grande leva de soldados da infantaria paraguaia, atirando-se sobre nós aos gritos com expressões de toda a espécie, o Batalhão 17 assistiu o que poderia ser o seu derradeiro e extremo combate. A passagem forçada pela linha de atiradores, à 140


distância de uns sessenta ou setenta metros, permitiu que se aproximassem de nós a ponto de não sabermos o que fazer para repeli-los, uma vez que do outro lado estavam os nossos, se abríssemos fogo de certo iríamos atingi-los, foi no corpo a corpo que resistimos ao ataque, a isso quero me referir aos sabres e baionetas que espetavam e carneavam uns aos outros. Por um segundo achei que jamais sairia dali vivo, o elemento surpresa e o choque frontal foram de fato apavorantes. Os atiradores de nossas linhas iniciaram o contra-ataque pela retaguarda do raivoso inimigo, com tiros certeiros, que puseram fim a essa primeira parte da refrega. Eles recuaram para organizar um novo ataque, mas dessa vez com apoio da cavalaria e em maior número de homens da infantaria, surgiam de todos os lados, tratava-se de um ataque em massa. Nossos canhões formaram posição e começaram a repelir os golpes com uma chuva de granadas sobre, principalmente, a cavalaria que iniciava carga em direção os flancos. Com a sucessão de tiros dos La Hitte os animais saíram de nosso controle e começaram a fugir para todas as direções, provocando uma balburdia que desorientou a manobra inimiga. Seu comandante reorganizou o pessoal e iniciaram nova carga, dessa vez com mais precisão. Não podia acreditar no que estava se passando, era muita selvageria, o tilintar das espadas contra baionetas, o pisoteio dos cavalos, o sangue de ambos os lados sendo derramado em abundância, os gritos desesperados dos civis, o trovão dos canhões, mal dava conta de um e aparecia de imediato seu substituto, estávamos sendo atacados por todas as direções, parecia um verdadeiro 141


inferno o terror da guerra. Muitos dos cavaleiros paraguaios foram transpassados pelas baionetas do 21, pois estes se atiravam por cima do quadrado tentando romper a barreira. Os corneteiros não paravam de transmitir ordens, que lhes eram dadas por seus superiores, uma delas tornou-se muito eficaz, determinando aos atiradores que assumissem posições à retaguarda do grosso da tropa inimiga. Todos lutavam para salvar a si mesmos e meu comportamento não foi diferente do da maioria, entretanto agíamos em grupo. Após ter acabado de derrubar do cavalo um lanceiro que pretendia me ferir, desferindo-lhe um golpe com o cabo do fuzil, fui em sua direção com o intento de fincar a baioneta em seu peito, quando de raspão resvalou em meu joelho esquerdo uma bala de fuzil ou coisa parecida, senti uma forte ardência e caí apoiado no joelho recém-atingido, não pude completar o golpe sobre meu iminente inimigo, este se levantou e veio sobre mim empunhando uma faca que acabara de retirar de sua bota de cano longo, era um oficial de baixa patente, barba negra e cabelos longos da mesma cor são os detalhes que me recordo da aparência de meu carrasco, estava naquele momento destinado a encontrar-me com a morte. Ao parar diante de mim, aproveitando-se de minha frágil situação, com a finalidade de me ferir de morte, ergueu seu braço direito ao alto sobre minha cabeça e... por dois ou três segundos, ficou imóvel, posteriormente deixando seu corpo desabar sobre o meu. Percebi sangue em suas costas que brotava de uma perfuração do seu uniforme, olhei para a frente e vi Daniel de pé, próximo à carroça que 142


transportava Aurora, com uma pistola em punho acenar-me e pedir que corresse em sua direção, mais uma vez fui salvo pelo meu melhor amigo. Minha gratidão para com ele se tornara incomensurável. Empurrei o pesado corpo do jovem oficial para o lado, a fim de tirá-lo de cima de mim, e passei a mão no meu fuzil que serviria daqui em diante de arma e muleta. Ao levantar-me com o propósito de ir ao encontro de Daniel, quase caí, o ferimento começava a provocar muita dor além de impedir que me apoiasse novamente na perna esquerda. Durante meu esforço em alcançar o que seria um refúgio, notei estirada no chão, próxima ao corpo tombado de um dos nossos combatentes, a gloriosa bandeira do 17 de Voluntários, trazida pelas mãos de meus camaradas desde Ouro Preto até Laguna. Não podia deixar por menos, nosso estandarte merecia posição de destaque; enquanto a bandeira possa tremular, não haverá denodo que nos vença. Fui capengando até ela e a empunhei, levantando-a bem para o alto em meio a um céu cinzento, assumi de peito aberto o papel de porta bandeira do Batalhão. A cavalhada paraguaia iniciava retirada juntamente com os que estavam a pé, nossos atiradores ainda os perseguiram por alguns metros a mais, mas a urgência em reagrupar a tropa determinava que fosse interrompida a perseguição. Tiros de canhão, tanto quanto o das demais armas, foram cessando, acompanhados pelos toques das cornetas de cessar fogo. Deus do céu! Os corpos desvalidos dos combatentes feridos e mortos no confronto sobremaneira abarrotavam a planície. Muitos dos nossos ali 143


tombaram, maior ainda foram as baixas do inimigo que atacou corajosamente, mas de forma negligente quanto a obediência aos comandos de formações de ataque, deixaram-se levar pela ira em detrimento à disciplina tática. Os que ainda rastejavam ou agonizavam morriam em seguida, em consequência da gravidade dos ferimentos. Sem demagogia alguma, poderia retratar o quadro como o de uma verdadeira carnificina humana, corpos e pedaços de corpos quase que nus espalhados ao calor ardente do sol pantaneiro. Os índios desta vez se puseram a obedecer às ordens do coronel, evitando aproximação dos corpos mutilados, porém nosso contingente civil e principalmente as mulheres não pouparam a oportunidade de pilhagem dos infelizes. Tudo o quanto de valor e utilidade encontravam, sem cerimônia, levavam nesse saque mórbido e sanguinolento. Assisti impotente à toda essa tragédia, a que mais tarde os paraguaios chamaram de Batalha de Nhandipá. Nosso Batalhão sofrera muito com o ataque, pois ocupávamos a vanguarda, e pude ver o nosso bravo tenente Raymundo Monteiro ser vítima de sucessivos golpes de lanças, mesmo ferido e banhado em sangue pôde reagir e salvar-se dos seus cruéis inimigos. Ao ser conduzido em padiola pelos enfermeiros gritava: “vinguem minha morte!”. Graças ao bom Deus e à assistência certeira dos nossos enfermeiros, o tenente recuperou-se dos ferimentos, para a alegria de todo o 17º. Voltara ao meu encontro Daniel e Aurora com panos e aguardente para os curativos em meu ferimento. Fizeram-me deitar ao pé de uma das rodas da carroça e 144


colocaram sob minha cabeça um monte de palha. Aurora retirou de minha mão direita cuidadosamente a bandeira do 17, pois meus dedos se recusavam a largá-la. Meu joelho ardia muito e doía como se o tivessem arrancado da perna. Daniel iniciou os primeiros atendimentos, visto que o pessoal da saúde estava sobrecarregado. − Augusto, foi um tiro de raspão, mas seu joelho está abalado, parece ter perdido além da pele um pouco dos ligamentos, sangra muito. − Vejo que agora parece ter chegado a minha hora, como vou conseguir caminhar até Nioac? Aurora sentou-se atrás de mim e pôs minha cabeça em suas pernas, com um pano molhado enxugava minha testa e dizia: − Augusto, fique calmo que tudo ficará bem, Daniel é hábil enfermeiro você vai ver. − Tomara, Aurora, acredito que sim, mas meu destino a Deus pertence. − Com a ajuda Dele e nossa você vai ficar curado, fique tranquilo, Daniel sabe o que faz. Daniel interrompe: − Augusto você vai ter que aguentar firme, pois vou cauterizar sua ferida, sei como se faz, será dolorido mas vai salvá-lo. − Seja o que Deus quiser, Daniel, vai em frente. Vi quando ele pegou um cartucho e dele retirou a pólvora, esparramando-a sobre a abertura que a bala fizera em meu joelho, logo em seguida me pediu que mordesse um pedaço de couro. Não demorando mais que um minuto acendeu a pólvora com um graveto em chama, 145


fazendo subir uma bola de fumaça e queimar na carne minha ferida exposta. Em seguida, derramou uma caneca de aguardente sobre o ferimento queimado. Doeu tanto que não consegui gritar, apenas desfaleci. Quanto recobrei os sentidos já era noite, estava com o corpo todo molhado de suor e ao meu lado se encontravam Daniel e Aurora em plantão, que me perguntaram se me sentia bem, disse-lhes que sim e pedi água, sentia muita sede, minha boca estava seca completamente seca. Aurora levantou minha cabeça e pôs o cantil em minha boca, assim bebi do precioso líquido da vida. Seguimos mais algumas léguas adiante até acampar próximo a um riacho, não sem sermos incomodados pelo fogo intermitente do inimigo. Ainda aquela noite a mãe de Aurora conseguiu nos trazer uma sopa de batatas com farinha, que pude apreciar com muito gosto, acompanhado por um pedaço de pão. Ofereceu-me sua carroça para meu transporte por alguns dias até minha recuperação para a marcha. Daniel ficou encarregado de negociar meu afastamento da tropa com o tenente coronel Enéias Galvão, que deveria autorizar após opinião do oficial do corpo médico. Outrossim, nossos comandantes fizeram reunião para deliberação do que fariam, a partir do evento, com relação ao destino de nossa Coluna. Sabíamos que ficaríamos sem víveres por um bom tempo, pois nosso gado se dispensara sem que conseguíssemos reavê-lo, era vital para a tropa a posse desses animais, representava a sobrevivência de todos. Vencemos a Batalha com coragem e espírito de luta que brilhantemente demonstraram nossos solda146


dos, fora o combate de 11 de maio um marco em nossa retirada desde Laguna, mas não tínhamos ainda vencido por completo todos os percalços pelos quais ainda deveríamos passar. Passei toda a noite com calafrios e febre, Aurora e sua mãe não deixavam de me assistir com a atenção redobrada aos meus cuidados, tinha sempre à mão um cantil de água fresca e pedaços de pano para me enxugar o rosto. Quando adormecia, diziam elas que eu delirava, falando coisas sem nexo, repetindo nomes de pessoas que não conheciam; provavelmente nomes de meus entes próximos. Meu comandante, após a visita do Dr. Cândido Quintana, que atestou minha condição de convalescente e elogiou o trabalho de Daniel, autorizou minha permanência na carroça de Aurora para fins de recuperação da saúde, visto estarem lotadas as ambulâncias. A partir de então passei a ver parte da guerra de dentro de uma carroça, a outra parte se deve aos informes que Daniel zelosamente cuidava de me trazer. Aos 12 de maio, de manhãzinha, rompeu a Coluna, agora com itinerário diferente do anteriormente definido, conforme afirmava meu leal informante. − Augusto, dizem que tomaremos outro rumo para Nioac, os oficiais alegam que o inimigo deve ter conhecimento de nossos propósitos e nos aguardam com emboscadas. − Mas mal conhecemos o trajeto de volta!? − Estamos sendo guiados à fazenda Jardim do guia Lopes, que dizem tem muitas frutas e algum gado espalhado, podendo ser facilmente reunido. Após chegarmos 147


lá nos dirigiremos a Nioac por caminhos mais seguros e desconhecidos do inimigo. − Tomara Deus dê tudo certo e conforme planejam, afinal estamos famintos e exaustos, uma manobra arriscada sem sucesso colocaria a Coluna em risco certo. − Penso, Augusto, que nossos comandantes estejam certos, se continuarmos pelo caminho conhecido mais cedo ou mais tarde cairemos nas mãos dos paraguaios, que são hábeis nessas terras. Ainda seria mais arriscado permanecer onde estamos, sem víveres e com pouca munição, associado à incerteza de um reforço, selaríamos o nosso fim. − Você está certo, Daniel, arriscar por arriscar é melhor seguir o guia, seu propósito é o de salvar a própria pele e o da Coluna, pois sem ela ele jamais retornaria em segurança. Espero que saiba onde pisa, essas terras são perigosas para quem não conhece a região. Passado algum tempo, fui-me ajeitando no fundo da carroça entre abóboras, panelas, e um tanto de coisas. A cada sacudida era um “ai” ou “ui”, não podia reclamar da generosidade de Aurora e sua mãe, aliada aos cuidados que Daniel tinha por mim. Estava em melhores condições do que aqueles que estavam sendo transportados nas ambulâncias e nas macas. Aproveitei para rezar por aqueles que deixamos no campo de batalha, sequer tiveram cerimônia fúnebre, vieram de tão longe para nunca mais tornarem a ver seus lares. Um dos nossos mortos em ação, com uma bala que lhe atravessou as têmporas, foi o jovem com quem antes pude ter um diálogo, que certa vez nos disse: “Eu me alistei para lutar! Quero voltar para casa com o peito cheio de medalhas”. Deus o tenha. 148


Capítulo XVII

Fome, fogo e frio

É obvio que nossa missão ainda estava longe de terminar, enquanto não alcançássemos a vila de Nioac não poderíamos sequer sonhar com o reencontro frente aos nossos camaradas do outro lado da fronteira, em solo brasileiro. O comandante e seu estado-maior já não sabiam ao certo o caminho a ser tomado pela Coluna. Nossas crenças estavam depositadas no conhecimento que dispunha o guia Lopes, proprietário de uma fazenda de nome Jardim, tornara-se incansável andarilho pelas terras do Mato Grosso em busca de verdejantes pastagens naturais para o seu precioso gado. Nossa rota haveria de ser mudada com intuito de despistar sobre as intenções da Coluna, pois certamente os astutos invasores paraguaios já contavam com nossa retirada para os lados de Miranda e Nioac. Nossas espe149


ranças estavam todas depositadas na tomada de decisão de nossos superiores, no espírito de luta e capacidade de resistência de cada um dos integrantes daquela Expedição e na perseverança do nosso precioso guia. Os dias se passaram e meus ossos já pediam por mais atividade, não me agradava ficar a receber cuidados especiais, se comparado ao restante dos infelizes doentes que mal cabiam nas ambulâncias; Daniel e Aurora de tudo faziam para ajudar-me, e graças a isso e ao bom Deus o ferimento cicatrizava submetido às condições de razoável higiene. Aproveitava alguns momentos em que a marcha da Coluna era lenta e, apoiando em meu fuzil e escorado nos ombros de Daniel, caminhava o quanto minhas forças assim permitissem. A fome já dominava todo o pessoal, notava-se nas fisionomias cadavéricas de muitos dos companheiros que o desejo por uma refeição decente era unânime. Assim os dias se passaram, sonhamos com jantares que em nenhuma ocasião foi servido. A ração era escassa e não podíamos dispor senão de uma pequena parte de cada farelo de milho, quilo de farinha, pedaço de rapadura e carne. A matança dos animais de tração havia iniciado, a tropa mal esperava para a partilha, caíam de boca em cima das costelas dos bois com estes ainda agonizando sua baixa. O sangue era bebido cru, sem nenhum preparo do pessoal do rancho, as vísceras devoradas sem que fossem levadas a água fervida, disputavam-se alguns pedaços de carne como animais. O comandante exigiu civilidade da parte de alguns que exageravam na forma como se comportavam na distribuição da ração. Cenas comoventes 150


como aquelas justificavam nosso desvio de rota, que se propunha a passar pela fazenda do guia, prometendo-se algum gado e frutas da terra. Nossas marchas cruzavam riachos, lamaçais, lagoas rasas, densas matas. Havia muita água pelo caminho, mas poucas podiam servir ao nosso consumo e o ambiente se tornara cada vez mais insalubre. No céu azul-anil, por todo o trajeto, observava nossa odisseia bandos de tesourinhas, pequenos pássaros do tamanho dos pardais com penas na cauda em forma de “V” invertido, lembrando as lâminas de uma tesoura, por isso o nome. Pássaros de médio porte quando voavam sobre nossas cabeças eram abatidas com o propósito de servir de alimento. Poucas importâncias davam ao inimigo. O velho Lopes, acompanhado de seu valoroso filho e um oficial da engenharia, vez ou outra se distanciavam, buscavam reconhecimento da região onde nos encontrávamos. Certa ocasião nos deparamos com Lopes à vanguarda da Coluna sobre um monte revestido de capim baixo cujo topete se reclinava em sucessivas ondas de vento, mirando fixo na direção do horizonte... O que pensava ele naquele momento, parecia estar em dúvida ou tentava localizar algum sinal que lhe desse a certeza de que o caminho deveria ser aquele mesmo? Ficamos preocupados com a sua aparência, pois sem o sucesso do guia nossas chances seriam muito poucas, ninguém conhecia a região melhor do que o velho. Era um pedaço do Brasil esquecido por Deus e o Império, a engenharia não dispunha de mapas detalhados do sul do Mato Grosso, por isso pagamos alto preço para nos livrar daquela situação. 151


Entre esses dias, numa noite, resolvi encontrar-me com Daniel e Aurora que se ocupavam de cozinhar algumas raízes à beira da fogueira e fritar mandiocas. Encontravam-se sentados e abraçados com os olhares voltados para as labaredas ardentes das chamas que lambiam a sossegada noite. Iniciei a prosa: − Como está o casal de pombinhos? Perguntei-lhes com um carregado sorriso estampado no meu rosto magrelo. − Passamos bem, Augusto, e tu com esta ferida, passas bem, estas precisando de alguma coisa? Venha comer umas mandiocas que estamos acabando de fritar. − Não para o momento, Aurora, aliás somente tenho a agradecer a ti. Também sua gentilíssima mãe, um encanto de pessoa a quem sempre me colocarei à disposição. − Falando nisso, dona Elvira é mais que sogra é quase mãe para mim, tem me tratado como filho e faz quase o impossível para que nada me falte. Após o casamento de Daniel e Aurora, dona Elvira passou a ser uma pessoa menos ranzinza, muito prestativa para os dois nos dias de terrível provação. − Como tem passado os dias, Aurora? Fico preocupado contigo, estamos com carência de alimentos de qualidade para quem se encontra à espera de um bebê, sei que no início da gestação a fome aperta mais que o normal. − Não se preocupe, vou fazendo o que posso e me alimentando de algumas reservas que ficaram guardadas no fundo da carroça. Mamãe sempre precavida evitou consumir mais que o necessário. Algumas vezes, dada a 152


sua experiência com roça, colheu alguma coisa pelo caminho, ou para fazer chá ou para caldos. Tem servido para matar a fome. Ainda está só no começinho. − E então, Daniel, o que tens pensado sobre a guerra e nossa situação nela? − Creio, Augusto, que temos de alimentar sempre a esperança de nos sairmos bem dessa. Confio nas decisões tomadas pelo coronel Camisão. É um homem marcado pelo destino. Quando pôde combater o inimigo invasor, evitou, agora que tem o desejo e a coragem de fazê-lo as condições não ajudam. Alguns chegaram a comentar que nos usou para a sua revanche sobre os paraguaios, queria a todo custo vingar-se pela má reputação surgida após o episódio em Corumbá, quando abandonou sob as ordens do coronel Carlos Augusto de Oliveira a cidade invadida pelo inimigo. Lá não houve resistência, pois trataram de dar no pé antes mesmo da chegada dos guaranis. − Mas e tu, o que pensa a respeito desse fato envolvendo o nome do coronel? Busquei provocar o amigo com essa pergunta, esperando dele uma resposta corajosa. − Ora, Daniel, Camisão em Corumbá era subordinado ao comando do coronel Carlos, se não acatasse haveria repreensão. Obedeceu como todos os outros. Tanto é que foi nomeado pelo presidente do Mato Grosso comandante da Expedição, possui valor e fibra. Seu desejo de invadir o Paraguai na verdade foi convalidado pelo estado-maior da Coluna, e todos nós queríamos dar o troco nos paraguaios. Marchar o tanto que marchamos desde Uberaba e Nioac só para ficarmos acampados 153


em Dourados ou Miranda, qual graça teria para um voluntário como nós? Alistamos-nos não foi para lutar? Pois é, meu amigo, agora nos retiramos, mas depois outros retornarão com mais vontade ainda, e será assim até que ganhemos essa hedionda guerra. − Me impressiona, Daniel, é esse teu espírito de luta, essa tua vontade de colocar a mão no sabre e sair para combater. − É, Augusto, mas não podemos nos esquecer que a história do Homem é repleta de casos como esses que passamos aqui. A guerra é real, é parte daquilo que se espera daqueles que não tem disposição para o entendimento. Evita-se, porém acontece. Se deixarmos nosso país à mercê do inimigo, breve não teremos mais um lar para criarmos nossos filhos e netos. Nós somos os brasileiros, eles são os paraguaios, portanto tenho que pensar como um brasileiro que teve sua casa invadida, seus bens saqueados e sua família ultrajada. Nossa soberania foi provocada. − Daniel, guerras são disputas de poder. Nós somos os fantoches nesse cenário! − Por que estás aqui, Augusto? − Ora, Daniel, acabei por me envolver com os movimentos e me alistei. − Teu coração mandou, não foi somente o nosso imperador. De repente percebestes que o movimento era uma parte de ti e que o exército de voluntários era um exército do povo. Que ser brasileiro é servir e honrar, não apenas estudar, trabalhar, casar e morrer. Quando arriscastes a vida por uma bandeira maltrapilha e suja, não o fizestes apenas pelo zelo, mas sim por uma causa, causa 154


essa que está simbolizada na flâmula do 17, que salvastes da destruição. Perder a bandeira seria para ti o mesmo que perder a causa que motivou a tua investida até aqui. Assim tu demonstrastes que és fiel a ti e ao País, e a toda essa gente de guerreiros da fronteira. Intervém em nosso diálogo Aurora, com o seguinte argumento: − Para mim que sou mulher essa conversa de guerra só assusta, prefiro a paz para poder ter tranquilidade de criar o meu filhinho. Daniel sabiamente interpelou Aurora, com os seguintes dizeres: − Mulheres também fazem parte da história das guerras. − Eu sei, Daniel, mas essa está demorando demais, e me dá medo. − Aurora, foi a guerra quem me trouxe aos teus braços e não será ela quem haverá de me tirar de ti. Em teus braços repousarei e adormecerei o sono dos bravos. Aurora aproximando o rosto de seu amado ao seu o beijou carinhosamente. − Mas que belo romance. Na guerra não testemunhamos somente o ódio, há tempo para o amor. − Bem, vamos deixar essa conversa de lado e aproveitar para comer a mandioca que ainda está quentinha e cheirosa. E Aurora nos serviu uma porção de mandiocas fritas, que por sinal estavam uma delícia! Como os dois estavam muito entretidos, resolvi “bater em retirada”. Apoiado no fuzil, caminhei à minha bar155


raca. Enquanto o sono não vinha aproveitei para meditar sobre nosso diálogo. Em especial refleti muito sobre o sentido de pátria e povo, e sobre isso conclui que pátria nada mais é do que um povo determinado a alcançar seu futuro, aquele que sabe aonde quer chegar, sem abandonar seus valores e os ensinamentos cristãos e não mede esforços para conseguir. A chuva nos dias subsequentes castigava nosso pessoal, a variação de temperatura era mortal. Depois de um extenuante dia vinha o temporal e com ele um estarrecedor frio. Muitos já se encontravam em estado de calamidade, enfraquecidos pela fome e abatidos pelo frio, pois mal tinham agasalhos e cobertas para sua proteção. Nosso comandante apelava para a solidariedade, pedindo-nos que dividíssemos mantas e barracas. Impressionava-me a disciplina do pessoal do corpo da artilharia, nunca abandonavam seus canhões, e sempre a limpá-los, seu transporte tornara-se difícil àquela altura devido à lama e ao acidentado terreno. O major Cantuária, perfeccionista e muito exigente, preocupava-se com seus subordinados como se filhos fossem. Lembro-me que pediu aos oficiais sob o seu comando que fizessem suas refeições após ser servido o rancho dos soldados, anspeçadas, cabos e sargentos, assim a tropa poderia se manter moralmente elevada. Sua barba longa e postura altiva faziam dele um oficial levado a sério e muito admirado também pelo comandante do meu 17, tenente coronel Enéas Galvão. Nas refregas não admitia demonstrações de covardia ou desobediência, tudo era feito conforme suas ordens. O cargo de ordenança era muitas das vezes disputado por 156


alguns soldados que consideravam um privilegio poder servi-lo pessoalmente. Já não tínhamos boa parte do contingente original, dos quase três mil, havia uma soma de pouco mais de mil e duzentas almas, contando com os civis que nos acompanhavam e índios nossos aliados. Uns desertaram, outros foram mortos em combate, mas a grande maioria mesmo morria era de doenças, primeiro a perneira e agora estava começando a aparecer casos da peste incurável de cólera morbus. Terrível ameaça iniciava desespero entre a tropa e os civis. O pessoal do corpo de saúde dispunha apenas da boa vontade, pois remédios e medicamentos estavam quase no final. Nova tática foi providenciada pelos inimigos, tratava-se de realizar densas queimadas com o propósito de espremer nossos flancos sobre o centro do quadrado. Não poderiam ser mais cruéis, desejavam nos asfixiar ou matar queimados. O fogo a nossa volta consumia o ar que se respira, provocando ardência nos pulmões e irritação nos olhos e narinas. Alguns soldados na tentativa de abrandar as chamas acabavam por ser tragados por elas, as labaredas chegavam a atingir uns vinte a trinta metros de altura, pois a mata seca é querosene para o fogo no mato. Crianças morriam sufocadas e mulheres davam sinal de extrema ansiedade, batiam no peito e recitavam orações com seus olhos em lágrimas mirando fixamente o céu. Nosso sofrimento ainda não tardava por aumentar, era tanto que certa noite em minhas orações cheguei a repetir a famosa exclamação do Cristo na cruz: Pai, Deus meu, porque me abandonaste! O que fizemos para merecer tamanha provação? 157


Quando conseguíamos dar a volta pelas labaredas, a cavalaria paraguaia nos atacava apoiada pela infantaria. Tínhamos de pôr em alinhamento rapidamente os atiradores e a bateria de canhões, assim que os La Hitte cuspiam fogo os soldados de Solano Lopes batiam em retirada. Faziam isso repetidas vezes durante o dia, à noite descansávamos das refregas, mas aí vinham as tormentas e com elas o vento frio e mórbido. Cabe ressaltar que boa parte dos homens marchava com os pés descalços, o frio úmido congelava as extremidades desprotegidas de qualquer agasalho. Para escrever à noite, eu aquecia os dedos na chama propagada pela vela que me servia de lâmpada. Nossos estômagos roncavam e bebíamos água da chuva. Antes matávamos por volta de vinte bois ao dia, agora se muito uns três ou quatro. A água que encontrávamos pelo caminho era totalmente salobra ou barrenta, imprópria para o consumo. Como já descrevi anteriormente a guerra é cruel, mais que tudo, implacável para com os desesperados, tínhamos de continuar nutrindo esperanças na esperteza do velho Lopes, este sim nos inspirava confiança e fé, passou a ser nosso líder, sem desmerecer a chefia do coronel Camisão, que por sua vez também nele passou a creditar mais confiança e poderes. Quando éramos atacados ou buscavam os paraguaios nos incendiar, o velho guia desviava nossa rota causando guinadas acertadas que ludibriavam as táticas do terrível inimigo. Sua crença maior era a de que nos encontraríamos mais seguros quando alcançássemos a fazenda Jardim, como já descrevi, que 158


aquela altura poderia ser rebatizada de Paraíso, ou ainda Sossego, coisa do gênero que servisse bem ao quadro de abandono que nos envolvia em espírito e matéria. Demonstrava ele grande admiração pelo 17 e pelo 20, constituído boa parte de conterrâneos seu. Era o que estávamos fazendo, seguíamos o guia antes que nosso mundo acabasse. Tomar o caminho de volta não seria bem o desafio, mas retornar sem ter de encarar o inimigo a cada légua vencida. Rodeavam-nos a distância sem perder de vista a maltrapilha Coluna, para deixar bem claro que estavam ali, na espreita, como o jacaré pantaneiro que sorrateiramente prepara sua presa para desferir o derradeiro ataque. O guia tratou de acertar com o coronel Camisão uma nova rota, desconhecida para ambas as partes beligerantes, concorrendo para o enorme sacrifício de todos, transposição de córregos e rios passaram a ser feitos em balsas improvisadas e com uma perda maior do tempo útil, lamaçal e mato se misturavam ao quadro caótico de nossa jornada. − Os canhões não podem ser deixados para trás, salvemos os canhões! Aos gritos nosso comandante dava instruções aos oficiais subalternos, enquanto tínhamos lama até os joelhos. O mato contribuía para cortar a sola dos pés, quando estes estavam livres do lodo e da lama.

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Capítulo XVIII

Deus existe!

Alcançávamos no calendário cristão o 25 de maio, ou talvez o 26 não sei bem ao certo, pois esqueci-me de anotar a data nos manuscritos que hoje me servem de recursos para a construção deste livro de memórias. Estávamos quase na fazenda do guia. Além da fumaça, do fogo, das balas inimigas, da fome, da sede e do frio, agora surgia um adversário brutal e extremamente assassino que pretendia dizimar a todos nós, refiro-me à epidemia de cólera, essa praga que não tem cura e atinge a todos sem distinção, homens e mulheres tombavam após delirante sofrimento e agonizante partida para o mundo dos que já não habitam mais essa terra. Caracterizada pela diarreia, vômitos e cãibras por todo o corpo, deixa o doente prostrado com aparência cadavérica. Os praças eram carregados nos ombros por seus companheiros mais afetos, e os oficiais transportados 161


em macas improvisadas. Gemidos se faziam ouvir a todo instante, pois a enfermidade provoca muitas dores abdominais e excessiva sede no paciente atacado pela peste. Diariamente as baixas passaram a ser contadas em dezenas. Não tínhamos mais como enterrá-los, assim como fizemos com os primeiros que foram vitimados pela doença. Não podíamos lhes oferecer água ou comida, tudo que punham pela boca saía na forma de vômitos ou fezes líquidas esbranquiçadas. Cheguei a pensar que Deus nos abandonara naquele sertão pantaneiro, não havia graças as nossas preces, em vez disso, o capelão tinha o seu serviço redobrado. Transpomos um riacho de nome Cambaracê ao iniciar a noite, e aí foi o local onde o coronel determinou que deixássemos os coléricos, mais de 100, à mercê do inimigo. Foi colocada uma placa fincada na árvore que servia de abrigo para os infelizes, com os seguintes dizeres: “Compaixão para com os coléricos”. Daniel auxiliou no transporte de alguns deles até a sombra daquele denso vegetal lenhoso, que, para o momento, não me recordo bem o tipo de árvore que era, apenas da sua farta copa repleta de folhas e galhos. Mais tarde disse-me que deixou recado a alguns deles, de que retornaríamos para resgatá-los assim que chegássemos à fazenda do guia Lopes. A verdade é que a tropa sã já não dava mais conta de carregá-los, o atraso estava além do permitido e tínhamos centenas de almas a proteger em detrimento daqueles que estavam com os dias, ou talvez horas, contadas. De certo os paraguaios haveriam de ser piedosos com aqueles 162


que se encontravam em verdadeiro estado vegetativo, e a maioria se encontrava moribunda. Mas não foi o que se passou. Triste engano... Na manhã do dia seguinte, os comentários sobre os coléricos haviam chegado ao conhecimento da tropa. Deus meu, será verdadeira a tua existência? Tu permitiste que tamanha crueldade fosse exercida? Nossos inimigos não entenderam o que se pedia? Aquele ato produzia uma revolta em meu coração que jamais imaginava que fosse acontecer. A guerra deixava lugar para a carnificina e selvageria, o inferno tomava conta do sertão matogrossense. Nossos camaradas vitimados pela peste agora jaziam pelas mãos de seus algozes. Duro destino aquele... Alguns observadores que se esconderam no matagal nos relataram com detalhes a maldade cometida, não sobrara um só soldado brasileiro dentre os que foram deixados à sombra, todos foram fuzilados ou degolados. Para se ter a certeza da morte dos coléricos, o oficial paraguaio determinou que fossem espetados com as baionetas de seus fuzis. Matar aquele que não tem a capacidade de atacar, e que sequer ofereceu resistência, é crime. Portanto, um assassinato coletivo foi praticado, violando doutrinas e acordos internacionais, em desrespeito à própria humanidade e ao próprio estado de guerra. Toda a Coluna chorou naquele dia, nossas almas serão torturadas até que encontremos uma resposta para a cruel decepção. Alguns passaram a criticar duramente a ordem dada por alguém que buscava vingança e nos trouxe o desespero. − Mentecapto comandante, terás a tua hora, a morte ronda e não te perdoarás! − exclamou um dos nossos, revoltado com o acontecimento. 163


Durante um breve descanso que notoriamente se fazia necessário, formamos várias rodas de discussão sobre o fato. Daniel e eu nos encontramos envolvidos numa dessas rodas, e, como todos, precisávamos externar nossas mágoas e tristezas, pois o fato abalou em muito o moral da soldadesca. Iniciou a conversa um cabo paulista do 20º, de uns 30 anos, de nome parecido com Manuel ou Marques, coisa assim. − Somos cristãos, portanto jamais deveríamos ter deixado nossos compatriotas para trás. Muitos dos que estavam ali lutaram bravamente em nossa Coluna, mereciam mais consideração e respeito. − Por acaso alguém previu a situação? Muito menos o coronel, que pensou muito mais na tropa do que nos moribundos, esses já condenados pela natureza. Respondeu-lhe Daniel, e continuou: − Pois bem, não podíamos imaginar que fariam uma coisa dessas. O normal é que seguissem em frente e não dessem importância para os coléricos, pelo contrário, evitariam o contato com a peste. Nossa missão é retornar a Nioac, a qualquer custo! Se ficarmos retardando o passo, dará tempo aos paraguaios de reforçarem sua cavalaria, infantaria e artilharia. Acaso não somos nós os perseguidos? − Em parte, anspeçada, eu concordo contigo, mas na guerra não deixamos para trás um camarada ferido, moralmente somos obrigados a auxiliar qualquer um que necessite da nossa ajuda. Todos em nossa volta concordaram com o que o cabo acabara de dizer, Daniel recebera um golpe em seus argumentos. Mas prosseguiu... 164


− Meus amigos, o coronel não é Deus, portanto não faz milagres. Quero dizer com isso que comandar muitas vezes é sinônimo de calcular e arriscar. Se tivéssemos ficado lá, além dos coléricos teríamos agora muitos mortos, quem sabe até toda a Coluna estaria perdida. Não temos outra opção, é marchar em direção a Nioac ou morrer. Por um momento o silêncio se fez presente. − Em tempos de guerra devemos ser duros, mas sem perdermos a esperança. Dias melhores nos compensará de todo esse pesadelo em que nos metemos. Sejamos francos, se estamos vivos é porque nossa hora ainda não chegou e, quando chegar, antes uma morte honrosa que uma vida sem glórias. Aquele que sobreviver a essa odisseia terá muito que contar aos seus filhos e netos. Interrompeu um sargento que ouvia nossos comentários, para expressar um pouco de seu pensamento. Natural de Ouro Preto, pertencia ao corpo Policial Militar de Minas Gerais que integrava o 17 de Voluntários. Naquele instante, aproximou-se de nós Aurora, vindo ao encontro de Daniel, trajava vestes esfarrapadas e um lenço branco na cabeça que prendia os cabelos, como a grande maioria dos civis e alguns militares, cumprimentou a todos e pediu-lhe uma breve atenção para o que tinha a dizer. Daniel afastando-se do grupo foi ter com Aurora. − Daniel, sei que estás ocupado, que não devo me aproximar de ti quando estás em serviço, mas a coisa está ficando séria lá entre nós. Dizem que jamais chegaremos a lugar nenhum e que estamos girando em círculos, perdidos no caminho de volta. Que o coronel ficou sem juízo e que o guia enlouqueceu. 165


− Qual nada, Aurora, essa gente não tem o que falar e fica dizendo o que não sabe. Com base em qual prova alegam que estamos perdidos? Sequer conhecem a região! − Eu sei, Daniel, mas é que alguns chegaram a comentar que abandonarão a Coluna e seguirão por conta própria. Mamãe disse que se isto acontecer ela seguirá com os mascates. − Isso seria um grande erro, quase uma loucura. Enquanto permanecerem juntos a tropa, estarão seguros. Devem esperar um pouco mais para poderem compreender a manobra que estamos realizando, o caminho é outro, mas o destino é o mesmo. − Daniel, estou aflita por ti, os soldados paraguaios não dão trégua, a todo instante nos atacam, somente à noite nos permitem alguma paz. − À noite uma emboscada é mais difícil tanto para eles quanto para nós, montamos guarda em volta de todo o acampamento, eles preferem a luz do dia para nos atacar, mas estamos sempre preparados. Além do mais a chuva torna-se um empecilho para ambos. Fique um pouco mais sossegada, não se desespere, acalme-se que em poucos dias chegaremos ao nosso destino. − Estamos sem comida e sem água, precisamos reabastecer urgente, nossas crianças têm chorado muito. − Sei que está tudo muito próximo do caos, mas em breve chegaremos à fazenda do guia e teremos água para beber e alguma coisa para comer. Devemos ser fortes. Quanto às crianças, dê-lhes o que fazer para esquecerem um pouco da fome, nas noites de chuva recolha água para beber, use panelas, baldes, barris, o que puder para guardar um pouco dessa água. Ponha o restante do pessoal para arrancar algu166


mas raízes comestíveis que encontrarem, não comam carne crua nem bebam água insalubre, isso pode trazer doenças. Daniel e Aurora enquanto conversavam caminhavam lentamente em direção às carroças. Assim que terminaram se abraçaram e se beijaram, Aurora deslizou a mão sobre o rosto de Daniel e seguiu correndo de volta a sua gente. Ao retornar, Daniel nos contou o que havia conversado com Aurora, e combinamos que a partir daquela data marcaríamos um pouco mais a nossa presença entre os civis, isso lhes proporcionaria um pouco de sentimento de segurança. Os corneteiros dos batalhões tocavam em seus clarins a ordem de reagrupar. Os oficiais subalternos já nos acompanhavam na marcha a pé, suas botas de cano longo mostravam sinais de desgaste. Seguimos em direção a um ribeirão que tínhamos de transpor. Partes de nossas bagagens já haviam sido desprezadas, senão muito mais tempo perderíamos. Sabemos do filho do guia Lopes, não conseguira resistir à doença e veio a falecer. Chegamos à fazenda Jardim, após a travessia lenta do ribeirão do Prata, que se encontrava bem cheio, devido às chuvas. Fartos laranjais e palmitais aguardavam nossa chegada. O filho de Lopes fora aí enterrado, conforme pedido do próprio guia ao coronel Camisão. Mas a pior das notícias haveria de chegar como uma bomba, a de que o Coronel Camisão e o guia acabavam de contrair a doença. Nossos dois maiores líderes. A casa do guia e um barracão se encontravam bem danificados após a ocupação paraguaia, quando da invasão ao Mato Grosso. Foram deixados no barracão os comandantes e o guia, ambos demonstravam sinais de profunda agonia. 167


O médico, às pressas com algum medicamento ao atender o coronel, ouviu deste: − Doutor, trate dos soldados. Não se canse inutilmente comigo, sou homem morto. No dia 27, pela manhã, aproximou-se o inimigo com sua artilharia implacável, do outro lado do ribeirão. Pipocou o 17 que se encontrava à retaguarda. Fiquei por alguns minutos com a cara na lama me protegendo dos disparos, até o momento em que nossas La Hitte responderam ao fogo guarani com precisão, diminuindo-lhes a audácia. Alguns dos soldados paraguaios que conseguiram atravessar o ribeirão foram prontamente repelidos pelos homens do Batalhão 17, com tiro certeiro e combate corporal. Eu e mais alguns, ficamos por uma hora protegendo nossa margem, camuflados pelo matagal ribeirinho, meu joelho voltou a incomodar. Em seguida, continuamos nossa marcha, mais ou menos meia légua, até o miolo da área que compunha a fazenda Bom Jardim, ali baixamos acampamento. O coronel e o guia foram transportados desde a margem em reparos de peças de carroças, enquanto o tenente-coronel Juvêncio e os demais oficiais e inferiores, vitimados pela cólera, carregados em redes. Isso dava a noção do quão significativo era a existência do guia, fora tratado com status de comandante. Tentou fazer o possível o dr. Gesteira (o mesmo que tentou evitar que os coléricos fossem abandonados na clareira, mas acabou cedendo ao dever de militar em prejuízo do juramento ético), em relação ao caso do guia Lopes, não podendo agir contra a vontade divina, pois 168


este veio a falecer também no acampamento. O incansável pantaneiro, homem bom e honrado, escreveu seu nome na história desta guerra. Foi enterrado com honras de militar no centro do acampamento, em suas terras, e na sepultura lhe colocaram apenas uma rude cruz de madeira, era o que podíamos fazer. Nossa permanência na fazenda Bom Jardim deu a todos a esperança de que dias melhores estavam por vir. A laranja, este fruto milagroso, e o palmito retirado dos inúmeros palmitais da região, chegaram a curar alguns casos da doença e a tirar a sede de muitos. Poucas explicações para o caso, somente milagres curam doenças degenerescentes como a cólera. Como não havia sinais de gado na fazenda, a carne ainda estaria fora de nossa dieta. O moral havia se elevado, todos mais esperançosos e dispostos a agir no propósito de chegarmos a Nioac. Novamente encontrávamos forças para prosseguir. Diante do que conseguimos em relação ao que passamos, posso admitir com fé que Deus existe! Se algum dia, apenas um homem puder acreditar nesses relatos, sertir-me-ei honrado para sempre. A seguir, transcrição da cópia da Parte do tenente-coronel Galvão, comandante do 17º BVP, ao qual eu estava incorporado, datada no dia 28 de maio de 1867, que obtive junto ao Ministério da Guerra em 1878. ... Parte No. 30 – Quartel do Comando do Batalhão dezessete de Voluntários da Pátria, acampamento na Fazenda do Bom Jardim, vinte e oito de maio de mil oitocentos e sessenta e sete. Ilmo. Sr. e Exmo. Sr. Como me cumpre, par169


ticipo a V.Exa. que nos tiroteios dos dias quatorze, quinze, dezoito, dezenove e vinte do corrente mês, que tiveram lugar desde pela manhã até quatro horas da tarde, e nos de vinte e três, vinte e quatro e vinte e sete, o Batalhão de meu Comando que ora fazia a vanguarda, ora a retaguarda, e algumas vêzes franqueando as fôrças, portou-se sempre com firmeza e coragem, causando ao inimigo bastantes prejuízos. Prevaleço-me desta ocasião para cientificar a V.Exa. que o bravo Tenente Joaquim Matias de Assunção Palestino, ferido mortalmente no combate do dia onze, faleceu deixando na miséria sua pobre mulher e um filhinho, pelo que rogo a V.Exa. que obtenha do Govêrno Imperial a sua alta proteção para a sua pobre família deste oficial, digno de toda comiseração. E bem assim, não posso deixar em esquecimento o nome do distinto primeiro Cirurgião Doutor Manuel de Aragão Gesteira, que com a maior humanidade e ao lado sempre dos soldados feridos em número de vinte e nove, e de setenta e seis atacados de epidemia, deu as provas mais exuberantes de sua dedicação no curativo dos mesmos. Deus Guarde a V.Exa. Ilmo. e Exmo. Sr. Coronel Carlos de Morais Camisão, Comandante em Chefe das Forças em operações. Antônio Enéias Gustavo Galvão, Tenente-Coronel em Comissão Comandante. Está conforme. 2º Tenente Bacharel Alfredo d’Escragnolle Taunay, Secretário Militar. ... Assim posto, verifica-se a veracidade das informações que tenho registrado ao longo de meu fiel relato.

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Capítulo XIX

Canindé

Após a fatigável travessia do ameaçador rio Miranda, concluída graças ao destemido e corajoso capitão Rufino, a chegada à paradisíaca Fazenda do guia Lopes nos transmitiu certa euforia, isto porque temíamos que os paraguaios a ocupassem antes de nós e saqueassem tudo o quanto pudessem. Por fim, deparamo-nos com o quadro horripilante em que jaziam o tenente-coronel Juvêncio e o coronel Camisão, este, por sua vez, ainda expedia algumas ordens aos seus comandados, algumas porém sem nenhuma coerência racional devido ao seu estado lastimável de sofrimento e degeneração. Nossos médicos de tudo faziam para poder salvar-lhes as vidas, mas pouca esperança depositavam na recuperação plena de ambos. Com o propósito de reorganizar a disciplina em toda a Coluna Expedicionária, a autoridade quase havia se extinguido entre nós, o coronel determinou que os alimen171


tos encontrados fossem distribuídos igualitariamente sem que ninguém passasse por privação ou escassez. Os casos de cólera ainda não haviam cessado e prevíamos que mais uma leva de moribundos fosse deixada para trás, assim como fizemos próximo ao córrego Cambaracê. Estamos no 28 de maio, e neste dia faleceram algumas mulheres, que desprovidas de qualquer recurso se entregaram ao destino que lhes impunha. A aparência dos civis era de total miséria, não muito diferente da nossa, exceto o 20º que ainda mantinha alguma pompa e galhardia, considerando-se o quadro geral em que se encontrava a Coluna. Vários praças foram embrenhar-se na mata à procura de caça, e logo ouvimos disparos vindos de várias direções, e nos pusemos de pé, achando que poderiam ser os inimigos, mas a tranquilidade tornou a reinar após sabermos que alguns deles vinham retornando com animais e pássaros em suas mãos. Acampamos com a autorização de fazermos fogueiras, sabíamos que estávamos sendo vigiados e cercados, mas acreditávamos que os paraguaios temessem uma aproximação devido à epidemia. À noite aproveitei para procurar Daniel e Aurora com o intuito de beliscar uma porçãozinha de mandiocas fritas, que tão deliciosamente sabiam preparar; apesar de poucas, saciavam a fome que torturava nossos estômagos. Daniel se mostrou preocupado com Aurora, pois a cólera não deixava de causar novas vítimas. Na tentativa de acalmar meu nobre amigo, iniciei breve diálogo que versava sobre nossas vidas de outrora, antes da guerra. 172


− Meu caro, não podia imaginar que estaria numa situação como esta. Sabia que guerra era coisa dos infernos, mas o que passamos aqui é muito mais que isso. − Também confesso que não, Augusto, minha vida sempre foi muito tranquila, regrada por uma moral conservadora de família. Meus pais sempre evitaram que seus filhos fossem atingidos por qualquer má notícia, proporcionando um clima de muita paz e cordialidade. Eu e meus irmãos nunca discutimos por qualquer coisa que lembre, nossas principais ocupações foram sempre com os estudos. Mamãe desejava que fosse estudar medicina, mas preferi o estudo do Direito, pretendo me formar e advogar principalmente para os menos afortunados. − Que assim seja, Daniel, tu és muito capaz e de alma nobre, conseguirás o teu objetivo nesta vida. − Às vezes penso que não, que meu plano de vida é impossível de alcançar. Tenho passado por algumas experiências desagradáveis ultimamente, nem tenho comentado com Aurora, ela anda preocupada demais com outras coisas. − Experiências! Qual tipo de experiências? Não vai me dizer que andou tomando algum chá alucinógeno por aí. − Não, não é desse jeito que me refiro. − Qual então? − É através de sonhos, ou melhor, pesadelos que me espantam durante a noite. − Conte-me, Daniel... − Vejo um cavaleiro que sai do meio das nuvens vestido de preto, montado num cavalo negro, carregando uma bandeira branca em sua mão esquerda, em cujo 173


centro está o desenho de uma cruz cristã vermelha. De repente, ele cavalga em minha direção e, quando se aproxima ao meu lado, pede que eu o acompanhe. Eu o sigo numa floresta cercada de pontos de luzes coloridas até um casebre de madeira sem janelas, e ele pede que eu entre, eu faço o que manda. Quando estou no interior da habitação, a porta se fecha empurrada por um repentino vento, vejo que seu ambiente é maior que o tamanho da própria casa, e que um corredor enorme e tênue conduz a uma luz muito esbranquiçada e de claridade forte para os meus olhos. Ponho a mão sobre o rosto para me proteger da luz e, quando dou alguns passos em direção à fonte luminosa, a casa começa a pegar fogo; tento sair, mas não dou conta de abrir a porta, o fogo arde por todo lado e com ele um calor sufocante, que só aumenta e aumenta até... Aí eu acordo com o coração na garganta, com vontade de gritar, e com o rosto todo coberto de suor. − Isso pode ser devido aos incêndios nas matas provocados pelos paraguaios. Não será outra coisa senão o estresse de guerra. Procure relaxar, aproveite que sua bondosa Aurora está sempre por perto e converse com ela sobre o futuro, alimente esperanças em teu coração e no de tua mulher. Lembro-me que quando criança tinha muito medo de dormir no escuro, e minha mãezinha se deitava ao meu lado para contar histórias até que eu pegasse no sono. Então essa é a receita, relaxe. − Vou seguir o teu conselho, Augusto, acho que vai dar certo. Tu és forte e corajoso, mas mesmo os fortes têm seus momentos de instabilidade, não queiras assumir 174


tudo sozinho, divida alguma coisa com Aurora, ela só quer o bem para ti. − É, tens razão. Estou muito cansado agora e pretendo repousar um pouco, aproveitar a noite fresca sem chuva e sem escala de serviço. Boa noite, Augusto, até amanhã. − Até amanhã, Daniel, e tenha bons sonhos! Meu amigo se retirou deixando para trás um rastro de desconfiança para com o futuro. Afastei-me dali em direção ao posto da guarda que ficava do outro lado do acampamento, em alguns minutos eu assumiria minha escala de serviço numa noite muito agradável e calma para uma guerra. O dia amanheceu com o céu coberto de nuvens brancas, a passarada se apressava em procurar seus pares e alimentos para suas crias. Na calmaria da alvorada como era belo aquele lugar! Meus olhos viam no horizonte um sem-fim de belezas naturais, poderia ser o paraíso em outros tempos. Percebi que algumas mulheres caminhavam em direção ao rio, que havia baixado, com baldes e trouxas de roupas na cabeça e sabão numa das mãos, dirigiam-se ao Miranda com a esperança de lavar algumas peças, uma escolta do Batalhão de Caçadores acompanhava as matronas. Uma negrinha que balançava muito bem os seus quadris enquanto andava com a trouxa na cabeça, deixou-me um tanto excitado. Não tocava em uma mulher desde minha partida do Rio de Janeiro, ficara apenas com um beijo sorrateiro de Thereza e a lembrança que me dera, seu lenço encharcado de lágrimas e marcado pelo seu batom costumeiro. Tratei de seguir o exemplo e fui arrumar minha bagagem, antes passei na barraca do 175


tenente Taunay para lhe pedir algumas folhas de papel e o encontrei alegre e cantador, pois tinha conseguido fazer a barba naquela manhã. Mas o dia 29 não estava tão calmo assim, corria por todo canto que o coronel estava para entregar a alma para Deus ou o diabo, e que o tenente-coronel também se encontrava prestes a expirar. Por volta das oito horas, o coronel Camisão se levantou do estrado coberto com couro, apoiado no ombro do capitão Lago, e pediu ao seu ordenança que lhe passasse a espada e o cinturão com o revólver, assim o fez o ajudante fiel. Ao tentar afivelar o cinto, o coronel perdeu as forças e tombou para o lado, e ainda no chão murmurou nos ouvidos do capitão: “Façam seguir as forças, que vou descansar”. E imediatamente deu o seu suspiro derradeiro e mortal. Assim nos contou o ordenança do coronel. Às três da tarde há alguns metros dali, jazia o tenente-coronel Juvêncio comandante do Corpo de Engenheiros, bom homem e exemplo de clareza de pensamento, sereno e comedido. Ambos mereceram de todos uma cerimônia fúnebre oficial, sepultados que foram aos pés de uma grande árvore à margem esquerda do Miranda, que se deu por volta das seis da tarde. Que estas duas almas não tenham entregado suas vidas para o Brasil em vão, pois cumpriram corajosamente com o dever que lhes foi imposto pelo destino. Com a morte do coronel e quase que simultaneamente seu sucessor no comando por direito, houve razões legais para uma reunião de comandantes no sentido de escolher 176


um novo líder e seu imediato. Qual não foi a nossa surpresa que a escolha recaiu sobre o major Tomás Gonçalves, comandante do 21º, que congregava camaradas oriundos de São Paulo, Diamantina e da Província do Paraná. Nossa certeza era a de que o tenente-coronel Enéias Galvão assumisse o comando geral da Coluna Expedicionária, mas o conselho preferiu nomear o capitão mais antigo, pois o tenente-coronel Enéias ocupava cargo em comissão, sua patente de origem era a de tenente, enquanto a do major Tomás a de capitão. Coisas das leis militares que devemos obediência. Para mim foi bom assim, o tenente-coronel Enéias executava muito bem a função de comandante do 17, e muito carismático todos o admiravam. Para a surpresa de toda a Coluna, ainda naquela manhã, adentra em nosso acampamento nada mais do que um sobrevivente dos coléricos deixados no Cambaracê. Inimaginável acontecimento poderia se esperar! Foi por todos saudado e bajulado, tratado como herói, seu nome, o qual jamais poderia me esquecer, é Calixto. Sim, o cabo Calixto Andrade de Medeiros do 17º BVP, das Minas Gerais, companheiro de muitas prosas das quais tivemos à beira das fogueiras nos vários acampamentos desde Nioac. Foi conduzido por Daniel à noite do 26 ao grupo dos coléricos, e foi para ele que disse estarmos preparando uma emboscada para os paraguaios e depois retornaríamos, lembro-me do relato acabrunhado de Daniel. Chegou aos prantos e em estado deplorável, mas foi prontamente acolhido por todos e reincorporado ao 17 por ordem do major Tomás, então já declarado comandante da Coluna. 177


Daniel e eu fomos ao seu encontro, saudar-lhe pela vitória e o retorno aos bravos da Coluna. − Que bom que voltaste ao nosso 17 meu bom cabo Calixto, que Deus te proteja para sempre. Você tem sete vidas, é como gato do mato. − Não foi fácil não, Augusto, penei qual alma no purgatório, mas consegui escapar da crueldade daquela gente, comi capim e o pão que o diabo amassou. − Nada de contos agora, Calixto, prefiro que descanses, depois nos divertiremos sobre os horrores da guerra. − Daniel, acreditei em ti, pensei que fosses voltar com o pessoal para nos buscar. Mas agora entendo o teu gesto, vejo que a Coluna segue em frente. E o coronel, não vem me ver? − Calixto, infelizmente o coronel e o tenente-coronel Juvêncio se foram, a epidemia os matou como a tantos de nosso pessoal, inclusive o guia Lopes. − O quê?! Não acredito, bons homens aqueles, por que Deus nos castiga desse jeito? Não dá para entender, Augusto! − Agora Calixto tens que recuperar as forças, tente descansar e se alimentar de alguma coisa que trouxemos para ti, beba bastante da água da moringa. Amanhã nos encontramos novamente. − Obrigado, meus amigos, prazer em voltar a vê-los. − Da mesma forma, Calixto, o prazer é todo nosso. Boa noite! − Boa noite, Calixto. − Até amanhã, Augusto. Até amanhã, Daniel. No dia seguinte, o 30 de maio, expediu o novo comandante sua primeira ordem do dia, quais sejam: res178


taurar disciplina, reunir tropas e providenciar a passagem das peças da artilharia (estas se encontravam do outro lado da margem do Miranda), considerando a marcha para Nioac, a qualquer custo, a única salvação. Todos os casos considerados graves para a disciplina militar foram tratados com o máximo rigor, pois o major nisso fazia bom proveito quando ele pessoalmente era exemplo de disciplina. As cornetas passaram a tocar ordens de formação, em todo o acampamento, e respondiam aos nossos clarins na outra margem o corneteiro do Corpo de Caçadores. O brilho nos olhos tornamos a perceber estampado nos olhares dos militares e dos civis, avivava-se a Coluna. Os casos de cólera haviam reduzido bastante, parecendo que a dieta rica em laranjas da terra e os palmitos, transportados no cabo aéreo guiados por roldanas de uma margem para outra, fora providência divina. Se tivéssemos atrasado a marcha, provavelmente não estaríamos vivos, o rio que nos separa serve também como escudo contra os inimigos. O coronel Camisão tinha razão, não podíamos deter a marcha. Considerou nosso major comandante que os canhões deveriam ser transportados logo no início da manhã do dia 31, pois não haveriam de ficar como troféus para os paraguaios, isso seria um despropósito, completamente inadmissível. Os La Hitte são como nossos braços e pernas, estão incrustados na alma de nossa gente, e já fazem parte da história. Assim que o corneteiro anunciou a alvorada do dia seguinte, pusemo-nos de pé confiantes na realização segura das tarefas que nos aguardavam. Mesmo sabendo 179


que não seria nada fácil transportar canhões em troncos que funcionavam como balsas improvisadas. Dispomos da junta de bois para nos auxiliar na puxada das cordas que se prendiam à balsa e à primeira peça, somados a uns quinze homens de apoio. Esta primeira peça da artilharia afundou na correnteza do Miranda, mas logo conseguimos retirá-la com a força de tração, ela se soltou da lama e veio até a nossa margem. Gritos de euforia manifestavam nosso otimismo. Quanto à transposição da segunda peça, esta não foi muito eficaz, pois se soltou das amarras e foi parar no fundo do rio, não provocando maiores incidentes. Os oficiais da engenharia puseram-se a calcular e propor formas e meios para o resgate da peça afundada, caso não fosse possível deixariam para que no futuro alguma unidade militar viesse a resgatá-la. Vale ressaltar a grandiosidade no gesto do soldado do 21o, de nome Damásio, não sei se paranaense ou paulista; propôs um plano aos oficiais e estes cederam ao seu intuito. Sendo assim, este se pôs a mergulhar nas profundezas do rio Miranda, amarrado com uma corda na cintura e a ponta de outra presa entre os dentes, até que envolvesse uma parte da peça a amarração que fez com a corda que trazia na boca, isso após várias golfadas de ar no vaivém à superfície. Depois deu o sinal para que a moçada da margem puxasse a corda de amarração, enquanto outros o tiravam da água. Quase que perdidas as esperanças de reaver o canhão, quando brota a superfície em meio às espumas o saudoso La Hitte. Outras dezenas de vivas foram ovacionadas, pois o feliz empenho do praça do 21o nos ale180


grou. Concluímos até a tarde desse dia a passagem de duas das quatro peças. Na manhã do dia seguinte, no primeiro de junho, data de aniversário de minha irmã caçula, completamos a passagem das demais peças, uma vez que a experiência com os dois casos anteriores serviu para o aperfeiçoamento do processo de transporte. Tínhamos seguros e em nosso poder as quatro peças da artilharia. Desfizemos os cabos, que foram cortados, e seguimos ao encontro do restante da Coluna. Lembrando que os soldados, anspeçadas e cabos que participaram da operação foram voluntários para esta missão, eu fui um deles e me orgulho do valor da empreitada. Daniel montava guarda no acampamento. Formados em volta da espoliada casa do guia Lopes, deu-nos ordens de marcha nosso Major comandante, levávamos o quanto podíamos dos frutos retirados de sua fazenda e que muito nos serviram para curar, saciar a fome e a sede. O velho Lopes jamais será esquecido por todos os que participaram da retirada desde Laguna. Algumas centenas de metros à frente e ouvimos disparos em nossa retaguarda, o perspicaz inimigo ultrapassara a margem do Miranda e se punha em nossa direção a fim de nos causar algum atraso, que lhes seria útil e apropriado as suas manobras. Quanto mais demorávamos a chegar a Nioac, mais problemas teríamos de enfrentar. Mas não foi o caso, pois o eficiente capitão Delfino, do 21o de Infantaria, repeliu ao ataque rapidamente, ainda assim fomos obrigados a uma parada inesperada. Mal nos recolhemos, houve estranhamente o toque de marcha, já que a noite estava para cair. 181


Rapidamente nos aprontamos e nos conscientizamos da importância de chegarmos o quanto antes à Vila de Nioac. Marchamos durante à noite a passos dobrados. À vanguarda de nossa Coluna seguia o capitão Rufino, que conhecia a região melhor que outros oficiais. Com a escuridão, chegou também o prenúncio de uma tempestade, qual já tínhamos passado por muitas. Mas assim mesmo a marcha dobrada prosseguiu em detrimento aos interesses de alguns padioleiros, que mesmo revezando entre si manifestavam cansaço e ameaçavam deixar suas cargas. Poucos eram os doentes transportados, visto que a maioria havia falecido nos dias anteriores, e o caso de cólera diminuído bastante. O estado geral de saúde da tropa, segundo o dr. Quintana, alcançara melhora significativa após a estada na Fazenda Jardim. Ao chegar a informação sobre as intenções dos padioleiros ao Major Tomás, que se punha à vanguarda, se pôs a galope até eles, e ao se aproximar desembainhou sua espada em meio à capa esvoaçante, encontrando-os de joelhos e a lhes suplicar por piedade, prometendo que não cometeriam mais nenhum ato de insubordinação. Disse-lhes o comandante que a Coluna prosseguiria a todo custo, e que não havia lugar para os covardes. A disciplina foi restaurada graças ao comando rígido do Major comandante. Dali para frente, a ordem era de marchar em silêncio, e toda a Coluna obedeceu. Na alta madrugada, tivemos de reduzir a marcha, pois nossos batedores avistaram um acampamento de soldados paraguaios a poucos metros de onde nos encontrávamos. A tempestade e os trovões dificultavam nossas ob182


servações sobre os movimentos inimigos. Mesmo assim caímos sobre eles e com sorte obtivemos lucro na manobra, sequer ficaram para nos enfrentar. O acampamento possuía algum gado que reunimos e em seguida tratamos de carneá-lo no fogo em brasa, devidamente repartido entre militares e civis. O que sobrou foi apropriadamente armazenado nas carroças. Após o banquete, de grande valor, pusemo-nos novamente em marcha. Algumas vezes retardada pela artilharia que enfrentava dificuldades em trechos mais alagados, com eles o Batalhão da vanguarda que lhes servia de escolta. Acampamos as quatro da manhã, fatigados e exaustos. Meu joelho havia recuperado o bastante para não ter que me apoiar novamente em meu fuzil, e meus pés calçavam as botas que antes pendurava em meu pescoço. Logo às seis da manhã, os corneteiros de cada Batalhão transmitiam a ordem de formação para a marcha. Ainda bem que tínhamos nos alimentado o suficiente na madrugada, isso evitou que a fadiga nos atrasasse. O Batalhão 21 do capitão Delfino seguia com pompa, muito esmero e galhardia. Começamos a assoviar canções que antes eram executadas pelos músicos que, infelizmente, alguns deles, não tinham mais seus instrumentos, e outros haviam tombado vítimas da cólera. Conduta que alegrava a tropa e trazia ânimo aos nossos corações. Trajando fardamento quase completo, todas as unidades demonstravam ânimo e coragem. O meu 17 seguia na vanguarda Chegamos à margem do rio Canindé após a travessia de um longo trecho de mato cerrado já mais confiantes e seguros. Até aquele ponto, desde o último acampamento, 183


havíamos vencido nada mais nada menos que sete léguas. O sucesso de nossa marcha prenunciava nossa aproximação de Nioac. A informação serviu para comemorações e festividades, enquanto nos preparávamos para a travessia do dito rio. Brancos, negros, índios, civis, militares, homens, mulheres, crianças, idosos, mineiros, paulistas, cariocas, amazonenses, goianos, mato-grossenses, um único corpo, aquela Coluna era verdadeiramente o Brasil. Todos se abraçavam independentemente de suas diferenças étnicas, culturais ou religiosas. Deixamos de ser um bando de gente faminta e desesperada para retornarmos à condição de povo. As batalhas e as guerras terão o seu fim, mas os soldados permanecerão, alguns deles incólumes para proferirem seus testemunhos às futuras gerações.

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Capítulo XX

Nioac

Soubera que o jovem poeta republicano e abolicionista Castro Alves também se alistara nos Voluntários da Bahia, não soube de seu paradeiro após minha saída do Rio de Janeiro para Santos e depois Uberaba. Seus poemas encantaram toda uma geração de patriotas, republicanos e romancistas. Minha época foi muito influenciada por gente como ele, Machado, Nabuco e outros. Dificilmente seremos na vida aquilo que desejamos ser, entretanto esta guerra foi fundamentalmente decidida nas ruas, por meio da força do povo que a exigiu, principalmente os jovens, os estudantes e os trabalhadores, artistas e artesãos. Marchamos sobre toda a cidade do Rio de Janeiro, do Paço à Quinta, e exigimos do Império a declaração de guerra ao tirano e ditador Solano Lopes, que impôs a seu nobre povo sacrifícios que resultariam no caos. 185


Ao nos depararmos com um dos mascates encontrado morto e estirado à margem do Canindé, não tivemos a menor dúvida de que o comboio de suprimentos que nos aguardava havia sido interceptado pelas tropas paraguaias. Certamente se apropriaram da carga, além de ter dado fim a todos como de costume. Próximo ao seu corpo podíamos encontrar destroços das carroças e muita farinha com arroz misturada à lama, totalmente imprópria para o consumo humano. Mas eis que a soldadesca não titubeou ao pressentir encontrar algo para se comer; famintos e exaustos como se encontravam, avançaram na direção dos destroços, abandonando a formação. Quadro horripilante aquele, alguns se portaram como feras esfomeadas atirando-se com a cara na lama com a esperança de poder tirar dela um pouco da farinha ou arroz cru, empurravam uns aos outros e disputavam cada palmo no chão. Os oficiais em primeiro momento nada puderam fazer, a insubordinação se irradiava, e somente teve freios após a intervenção severa de um dos oficiais do 1º Corpo de Caçadores, de Goiás, o alferes Manuel Rodrigues Benfica, que chegou às vias de fato com um deles, intimidando-o com o revólver em punho e se declarando capaz de atirar em qualquer um que desobedecesse as ordens de seus oficiais. Foi então que se deram conta dos acontecimentos, cada qual se entreolhava com expressão de vergonha, quando um dos sargentos dessa mesma unidade gritou para que todos retornassem as suas posições de formação: FORMAR FILA! E todos se puseram de pé e as pressas ajeitaram-se lado a lado. Notei que nenhum negro ou índio participou da desor186


dem, como de costume eram muito disciplinados. Nosso comandante dera pouca importância ao fato, e assim que se aproximou da moçada esta já não mais se atrevia a dar demonstrações de criancices. Determinações dadas pelo comando fizeram ordens de marcha forçada, houvesse o que houvesse não poderíamos mais nos atrasar. Os corneteiros não paravam de transmitir ordens em seus clarins, fazendo-me recordar com saudade da banda de música que nos acompanhou desde Uberaba até a tomada de Bela Vista e Laguna. Infelizmente os garbosos músicos mineiros não resistiram à peste de cólera e tombaram vitimados em seu infortúnio. Vencemos nesse dia, com algumas dificuldades já anunciadas, nossa marcha a passo forçado até o rio Nioac. Estávamos a duas léguas do paradeiro prometido, era o 2 de junho. Já no dia seguinte, a pressa era ainda maior, pois no coração dos homens de fé há sempre espaço para a esperança, e como já tínhamos passado tudo de ruim que poderia nos acontecer, os sobreviventes daquela Expedição, dávamos graças a Deus por termos conseguido chegar até aquele ponto. Não obstante, detivemo-nos na travessia do Nioac por ordem do comandante. É que alguns batedores haviam encontrado rastros de cavalaria em uma das margens do rio, sugerindo que o inimigo estaria por perto e à espreita logo à frente. Dentre os inimigos, aqueles que se dispuseram a nos vigiar pela retaguarda foram sempre repelidos pelo fogo certeiro dos La Hitte, promovendo o seu distanciamento do núcleo da Coluna. Alguns dispa187


ros ao acaso foram feitos com o propósito de acerto de mira, isso nos deixava também mais seguros com relação ao afastamento dos olheiros que vigiavam nossos passos. Aproximamos-nos da Vila ao ponto de perceber alguns rolos de fumaça sobre o horizonte, certamente as marcas do incansável e perseverante perseguidor. O 21o na vanguarda foi posto em estado de atenção redobrada, durante a marcha sobre os campos alagados. Dado aos achados espalhados pela margem do rio, tínhamos como certa a presença do inimigo sobre aquela área. Eis que um certo indivíduo, para toda a surpresa do Batalhão, trajando uniforme paraguaio, veio em nossa direção; não titubeou a vanguarda em reprimir seu avanço solitário, com disparos de fuzil miniê, obrigando-o a deitar-se sobre o solo. Alguns segundos, e o desconhecido lentamente levantou o braço, e com a mão direita segurando um graveto, no qual havia um pano branco amarrado em sua extremidade, começou a agitá-lo de um lado para o outro. Não havendo repressão de nossa parte, levantou a cabeça e, em seguida, calmamente o tronco, tratava-se nada mais nada menos do que o mascate italiano de nome Saraco, aquele que havia trazido suas mercadorias até nosso acampamento antes da investida sobre Laguna. Tínhamos certo como morto, mas o gatuno italiano, que muito nos divertira em outros bons momentos, reabilita mais uma de suas vidas diante de nossos olhos, e para a alegria de todos. Fora bem recebido, em seguida conduzido ao comandante para que lhe fossem passadas algumas informações sobre a investida inimiga sobre a Vila. 188


Contara-nos que, por várias vezes, deu-se por morto para não sofrer desgraça na mão do inimigo, e que havia se separado do comboio em Miranda, logo destruído, donde passou a caminhar de Canindé a Nioac, sem saber bem onde estava, até que nos encontrou. Posto o inimigo fora de nossa rota e longe de nossas vistas, determinou o major o avanço sobre a tão almejada Vila de Nioac. Era o dia 4 de junho de 1867, dia inesquecível em nossas vidas, e em especial na minha. Esperávamos encontrar o oficial que fora designado pelo coronel Camisão como responsável por sua guarda, mas o que nos aguardava era somente destruição. O destacamento, conforme podíamos notar, havia deixado sua posição, sem que houvesse indícios de que alguma batalha ali pudesse ter acontecido. Nossa Coluna foi posta parte fora da Vila, espalhados em seu redor, e outra parte dividida em dois flancos que avançaram cautelosamente até o ponto de encontro que seria a Igreja, marco central da Vila, os índios e civis deixados fora do perímetro. O silêncio havia se manifestado, pois a existência de emboscada ou truques seria mortal, nossos olhos não deixavam de observar qualquer movimento hostil, podia ouvir com exatidão as batidas do meu coração. Daniel e eu integrávamos a mesma patrulha de ocupação, sendo que eu ficava de um lado da rua principal que avançava em direção ao centro, e Daniel, do outro lado dessa mesma rua. As casas se encontravam em estado deplorável, haviam sido saqueadas e destruídas, algum mobiliário se encontrava completamente danificado e atirado fora de 189


seus ambientes. Nenhuma alma encarnada, viva ou morta, fazia-se presente. O ambiente era terrível e retratava a crueldade da guerra, quantas famílias não foram prejudicadas, quantos lares não foram destruídos. Ao chegarmos num pequeno largo que dava de frente para a Igreja, pequena em suas proporções, notamos rastros de mantimentos que davam até sua entrada principal. Concluiu-se que nossas tropas antes de terem deixado a Vila poderiam ter guardado em seu interior os víveres e munições de que dispunham, e não foram deixados poucos. Nioac, que representou por muitos e muitos dias de nossa odisseia a esperança de um porto seguro, passou a figurar em nossas mentes como uma incógnita desesperadora, onde o infortúnio poderia resultar de nossa inocente presença. Com os homens reunidos no ponto de encontro, ficamos à espera de alguma ordem maior que nos levasse a desvendar o sinal deixado diante da Igreja. Se de certo, haviam lá deixado mantimentos e munição, para nós seria a glória de ter retornado a Nioac, pois saciaria a nossa fome e abasteceria nossas armas de farta munição. Como muito precavido era nosso bravo comandante major José Tomás Gonçalves, determinou diante de todos que devíamos circundar a Igreja e explorar seus arredores. Aquela que foi a singela e aconchegante Nioac de outros tempos, no dia de 4 de junho, não passava de uma pequena demonstração do que vem a ser o inferno. Nas ruas atrás da igreja encontramos vários cadáveres de alguns soldados que desertaram de nossa Coluna, com 190


sinais de tortura e extremo sofrimento, e de alguns civis, como por exemplo a de uma velha senhora que teve sua goela exposta e seus seios arrancados, cujo corpo estirado sobre a lama e sangue jazia como sinal de crueldade jamais vista. Uns foram mortos como animais em matadouro, outros pareciam ter destruído a si mesmos, como forma desesperadora de pôr fim àquilo que não mais lhes servia, a própria vida. Sinais de que vários crimes de guerra foram praticados. Restos de arroz e sal, este tão raro em nossa dieta, apareciam misturados à lama e queimados de propósito pelo invasor hostil, Nioac fora duplamente invadida, saqueada e destruída, sem que houvesse sinais de resistência por parte dos nossos. O dia estava por cerrar em seus horizontes e a ordem de acampar em terreno plano e seco, atrás dos arredores da Igreja, foi transmitida pelos sargentos de pelotões, obedecendo mando de nosso novo comandante. Um pelotão foi escalado para o enterro das vítimas. O inimigo havia desistido de nos perseguir dali para frente, pois a quinze léguas teríamos o encontro com tropas brasileiras em Aquidauana. Orgulhávamos-nos de ter conseguido chegar até Nioac. O comandante fez construir mastro para hastear o pavilhão nacional, que tremulou durante a nossa estada. Foram autorizadas várias fogueiras no interior do acampamento, isso nos deu sensação de conforto e segurança. Muitos grupos de prosa foram se formando em redor delas. As mulheres cantavam e dançavam, enquanto a soldadesca apreciava a demonstração de eufo191


ria e alegria, crianças corriam entre os adultos durante brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde. A paz reinava, mesmo que temporariamente. Quando retornava de meu posto de vigia, encontrei-me com Daniel e Aurora que caminhavam abraçados e com os cabelos molhados, vestígios do banho que haviam tomado no riacho próximo. Sorridentes me cumprimentaram e me perguntaram se eu já havia feito alguma refeição, respondi-lhes que não, pois estava retornando do serviço da guarda. Convidaram-me para desfrutar de algum jantar em sua companhia, sem vacilar aceitei. O diálogo se fez presente, assim posto: − Como vê nosso retorno a Nioac nos deu mais ânimo e esperanças, mesmo na guerra, Daniel, nem tudo esta perdido. − Creio que sim, Augusto, na guerra assim como na vida de modo geral. − Como será que contarão um dia a história desse episódio, no qual somos seus personagens? − Nem imagino, Augusto. Sequer lembrarão que aconteceu coisa desse gênero. − Hum... Duvido muito, Daniel, pois o tenente Taunay escreve muito sobre tudo que se passa, além é claro dos relatórios dos comandantes. − Mas, o povo chegará a tomar conhecimento da existência de tais documentos? − Isso somente a Deus pertence, e ao futuro. Certo é que estamos fazendo história, disso eu tenho certeza! Essa não será uma guerra como as outras, tudo leva a crer. Só espero que não dure muito, estou ansioso pelo retorno para o Rio de Janeiro. 192


− Augusto, tenho pensado muito sobre a duração de nossas vidas. Nesses últimos meses passamos por inúmeras dificuldades, que nunca imaginei existirem, sobrevivemos a todas, entretanto, sinto-me como se muitos anos de minha vida foram abreviados. − Como assim, Daniel? − É algo do tipo... Parece que estou no fim da vida. Uma sensação desagradável e desconfortante para a alma. − Ora, Daniel, já conversamos sobre isso! Decorre dos dias de terror e privações que nos são impostas pelo destino. Às vezes o sofrimento é tanto que pensamos ser o fim dos tempos. − Por exemplo, quando chegamos à Igreja, hoje à tarde, olhava atentamente para ela enquanto um pensamento estranho ocupava minha mente. Algo me fazia crer que ali seria o nosso destino final, não sabendo ao certo se para o bem ou para o mal. − Qual nada, Daniel, você deve estar é muito preocupado com o filho que irá nascer, daí a origem desses delírios. − É, pode até ser... Não comente nada sobre isso com Aurora. Nisso Aurora se aproxima com duas canecas de chá e dois pratos com muita verdura e alguma carne cozida. − Olha o que eu consegui para vocês, um banquete. − Que beleza! Uma maravilha de refeição. Como conseguiste a carne? − Foram distribuídas algumas partes dos bois que resgataram da caravana dos mascates, alguns animais se encontravam perdidos no meio da mata. As verduras foram achadas no quintal de uma casa, que certamente foi 193


esquecida pelos paraguaios. Eu e mamãe colhemos algumas para o jantar e distribuímos o resto para as outras mulheres, senão iria estragar tudo mesmo. E o chá é do que restou do estoque de ervas da mamãe. − Então o que estamos esperando, Augusto? Vamos nos deliciar, aproveite! − Aurora, não sei nem o que falar em agradecimento. − Augusto e Daniel, parem de tagarelar e comam. Vou ajudar mamãe com a distribuição da comida às crianças órfãs e depois eu volto para prosear com os dois. Bom apetite! − Aurora, agradeça a sua mãe em meu nome por gentileza. − Pode deixar, Augusto, eu faço, mas agora pelo amor de Deus, comam! Distanciou-se Aurora, indo na direção do grupo de civis que se encontrava no miolo do acampamento. − Daniel, Aurora foi para ti um achado de ouro. − Também penso assim, Augusto. Gostaria muito que nada me acontecesse para poder dar a Aurora a vida que ela merece ter. Ela me disse que gostaria de estudar e ser professora, trabalhar com a educação de crianças. Sempre se mostrou muito determinada e independente, sem perder a doçura e sua singela ternura. Que bela forma de terminar uma noite, com a certeza de que teríamos o dia seguinte. Contemplar a vida e a natureza é perceber que Deus existe, é encontrar no amor a razão e o sentido para a vida. Com a calmaria da noite anterior, marcada pelos risos, pelas prosas e no batuque contagiante dos negros 194


que serviam à Coluna, o toque da alvorada se fez presente com muito furor. Levantou-se acampamento com muita rapidez, e logo nosso comandante se encontrava à frente da tropa perfilada para cantarmos entusiasmados o hino do Império. Não houve soldado que não tivesse ajeitado seu uniforme, apresentaram-se no melhor dos trajes. Como ainda havia a questão da Igreja e seu interior, lembrando que algumas peças da banda de música e cartuchames haviam sido deixados lá da última vez que estivemos em Nioac, antes de nossa partida para Laguna, resolveu nosso comandante destacar uma companhia do 17 para averiguar a possibilidade de retirada do material existente, para que fosse reincorporado ao patrimônio do exército, e se possível os mantimentos e farta munição. O tenente da companhia entendeu que melhor seria realizar a tarefa por meio de alguns voluntários, reunindo com facilidade mais que uma dezena deles. Fiquei com a incumbência de vigiar a frente da capela, com alguns de meus camaradas, e Daniel, pasmem, apresentou-se como voluntário para explorar a Igreja e retirar de seu interior tudo o que fosse útil à Coluna. Daniel não dava as costas para o dever, mesmo com a preocupação sobre seu futuro lhe enchendo a cabeça. Iniciaram, então, a incursão à Igreja com a cautela necessária, explorando primeiramente as partes mais próximas da entrada principal. Observando que nenhum perigo iminente se apresentava, providenciaram a remoção de algumas caixas e peças de material de campanha, como ferramentas, lonas, instrumentos de montaria, enfim, coisas mais fáceis de transportar. Saíam como formi195


guinhas, um a um, em fila indiana, cada qual carregava nas costas ou nos braços aquilo que podiam levar. Tudo parecia estar sobre controle, quando resolveram verificar o que havia próximo do altar, mais adentro, estava escuro como breu, mas foram assim mesmo. Não obstante em acender uma tocha, eis que um pobre e infeliz soldado, mais afoito, saiu da capela e em seguida entrou com o brandão incandescente em sua mão. Logo em seguida ouvimos alguém gritar: − Pare, o chão está cheio de pólvora e essa coisa vai explodir com a Igreja! Alguns segundos e... Boom! Um estouro ensurdecedor que fez a terra tremer sob meus pés, atirando para fora alguns destroços. O fogo foi notado imediatamente após a explosão. Não deu tempo para nada, pois a sabotagem que foi deixada a nossa sorte fora muito bem preparada pelos paraguaios. Um gigantesco cogumelo de fumaça escura se formou sobre o teto da Igreja, indo reto ao encontro das nuvens que pairavam no céu. Ficamos espantados com a situação, pegou de surpresa todos os que ali estavam a mirar o desastre. Muita gente correu em nossa direção para tomar ciência do que tinha acontecido. Dois dos nossos foram arremessados para fora da edificação, atingindo o solo inertes, chamuscados pelas chamas. Preocupado com o que teria acontecido a Daniel, desloquei-me do posto, sem autorização, e fui correndo em direção à entrada principal da Igreja. Não dava para entrar devido ao excesso de fumaça e calor. Vi, quando apenas cinco homens conseguiram, por meios 196


próprios, sair daquele inferno, atirando-se para fora com as roupas em chamas, foram logo cercados pelos que ali se encontravam e lhes ofereceram ajuda. Por último, ainda assim, saiu quase nu, com parte da roupa grudada em sua pele, e todo escoriado devido à explosão e ao fogo, meu leal amigo Daniel. Apesar de ter pensado nele logo após a explosão, com imensa preocupação, confesso ter acreditado que ele poderia se salvar dessa, como o fez em muitas outras situações de perigo iminente. Daniel saiu cambaleante, veio em minha direção, e em seguida, antes que pudesse agarrá-lo com meus braços, caiu de joelhos sobre o solo com as mãos erguidas para o alto. Como se agradecesse a Deus por algo. Antes que deixasse seu tronco tombar para frente, cheguei em seu socorro e o amparei em minhas mãos. Virei seu pesado corpo para cima, apoiando-o em minha perna, notei que estava muito queimado, não somente o rosto e os braços, uma parte da pele do rosto desgrudava-se quando seus cabelos torrados se soltaram da cabeça. Começou a perder muito sangue pelo abdômen, devido à perfuração que provocou um pedaço de madeira de um dos caixotes da munição. Daniel abriu lentamente os olhos, e sussurrou em meus ouvidos: − Não foi em vão... Feliz estou por ter servido a minha pátria... Cuide de Aurora. Respondi-lhe: − Prometo, meu amigo, mas agora descanse. Logo apareceu Aurora que tinha sabido da sabotagem. Tomou Daniel para si, como a uma criança de colo, e chorando muito gritava: Daniel! Daniel! 197


Daniel apenas esperou por sua amada, não aguentou aos ferimentos e meu desventurado amigo acabou por morrer nos braços daquela a quem dedicou seus últimos e melhores dias. Desesperada, virou-se para mim e disse: − Augusto, não deixe ele morrer, eu não quero que ele morra! Abaixei-me e peguei em seus ombros para ajudá-la a se levantar. Sua pobre mãe, também aos prantos, agarrou a filha num abraço muito emocionante, e ambas choraram até o anoitecer. Enquanto isso, o próprio major reuniu muita gente para combater o fogo, não faltando quem o auxiliasse, civis ou militares. Foi feita uma fila da porta da Igreja, até o córrego próximo, que trocava de mão em mão baldes d’água. Quase uma hora depois e as chamas estavam debeladas, mas levara tudo que pôde, restando apenas alguma fumaça que se dissipava ao vento, espalhando-se pela Vila. Muita das coisas foram queimadas e reduzidas a destroços, nada se aproveitando. A tristeza tomou nossas almas, não houve quem não tivesse lamentado o acontecimento, muitos demonstraram indignação e outros apenas choravam. A revolta com o destino daquela dezena de fiéis camaradas não podia ser detida, sobreviveram a toda a retirada desde Laguna, para morrerem aqui, em Nioac, nosso porto que deveria ser mais que seguro. Jamais encontraremos explicações para tão trágico acontecimento. Naquela noite, por mais que tentasse, não consegui consolar Aurora. Prometi a sua mãe que não a deixaria 198


sem proteção, assim como fiz a Daniel. Combinamos que, quando terminada a guerra, eu a procuraria, não perderíamos o contato até então. Dona Elvira, aquela ocasião, disse-me que haveria de dar o nome de seu falecido marido ao neto, ainda por nascer, chamava-se Gregório, homem de muita coragem e bravura, assim como seu genro. Daniel foi sepultado em cova rasa, ao lado de seus camaradas que também foram vitimados pelo incêndio na Igreja. Na base de sua cruz, deixei uma inscrição feita a lápis, com os seguintes dizeres: dulce et decorum est por pátria morum. Os indígenas depositaram na cova de cada um deles um cocar de cacique, e os soldados negros cantaram durante toda a noite seus cânticos de louvação, como uma homenagem aos heróis. No dia seguinte, com o espírito mais sereno, fizemos formatura logo após a alvorada, onde teve nosso comandante grande desempenho como magnífico líder, ao proferir sinceras palavras sobre a atuação daqueles que deram suas vidas em troca da liberdade de seu povo. Encerando seu discurso com a seguinte frase: “A história, algum dia, haverá de enaltecer os nomes daqueles que corajosamente souberam doar suas vidas à causa da Pátria”. Dirigimo-nos em seguida, em macha acelerada, para Aquidauana. Antes que lá chegasse, recebi a ordem de acompanhar na escolta até Uberaba, o tenente Pinto de Souza e o alferes Sabino Fernandes, com a missão de seguirem para Santos, onde deveria estar nos aguardando um vapor de volta para a Corte no Rio de Janeiro. O propósito foi o de enviar ao Comando do Exército, um relato completo das operações da Coluna. 199


Fui desincorporado do 17 BVP e promovido por ofício ao posto de cabo. Cada um de nós recebeu uma montaria e farta porção de farinha, rapadura, charque, sal, açúcar e pó de café, encontrados pelas redondezas da Vila. Na despedida, procurei meus companheiros de Batalhão e lhes prometi estar em Mariana para o cumprimento da promessa, a de entregar nas mãos do Bispo a nossa devotada bandeira. Minha despedida de Aurora foi quase que solene, prometi que faria contato, durante e após a guerra. Segui ansioso para o Rio de Janeiro, afinal era lá o meu lar. A guerra ainda se prolongou por mais três anos depois de Nioac, parecia não ter fim.

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Epílogo O gigantesco navio de transporte de tropas fazia soa com vigor o sinal de embarque. VUUUUU! “Era a ordem que esperávamos há quase um ano.” Pensava o capitão de infantaria do Regimento Sampaio, Augusto Ferreira de Morais. Augustinho agora contava, no ano de 1944, com 34 anos e se preparava para embarcar para a Europa, juntamente com sua unidade, no navio da Marinha de Guerra Norte-Americano. Sentado à sombra de uma viatura, estacionado no pátio do porto do Rio, relia o livro deixado por seu avô, Nioac. Cerrando suas páginas, embrulhou-o numa sacola de pano e o enfiou no seu bornal. Augustinho seguia para a Guerra da Europa e iria enfrentar os soldados de Hitler, em terras desconhecidas e distantes de nosso País. O único propósito seria o de lutar, em conjunto com soldados de outras nações, pela soberania dos povos livres e pelo direito de sermos todos independentes. Seu grande ídolo sempre foi o seu avô, que lhe deixou como herança o espírito destemido, a honra e o amor por seu País, agora uma República; mas isso nada significa, pois a Pátria é o seu povo e sua bandeira, jamais sua

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forma ou sistema de governo. Augustinho apresentou-se como voluntário para a guerra, não aguardou ser convocado, isso logo após o torpedeamento de nossos navios mercantes, em águas brasileiras, pela Marinha nazista. Repetia com isso o gesto patriótico de seu avô, ou melhor, de seus avós. Também o pai de seu pai fora um honrado e heróico Voluntário. Antes de se apresentar para o desfile de despedida das tropas, que ocorreu no Centro da cidade do Rio de Janeiro, Augustinho foi à Praia Vermelha depositar flores junto ao monumento dos heróis da Retirada da Laguna. Em fileiras, coluna por um, subiam os soldados à rampa de acesso à embarcação, que jogava de um lado para o outro, face ao movimento do navio provocado pelas ondas serenas da baía da Guanabara. Augustinho ao subir a rampa, virou-se para trás para poder mais uma vez contemplar, rapidamente, a paisagem que haveria de gravar em sua mente, por todo o tempo em que tivesse de ficar ausente. O casario, os prédios, as montanhas, os pássaros, o céu... E o cheiro da terra e do mar. Pareceu ouvir naquele instante uma voz que vinha de longe: − Siga com Deus, meu neto. Algo semelhante à voz firme e altiva de seu avô, mas não, era apenas a sua imaginação. “Por mais terras que eu vá percorrer, não permita, Deus, que eu morra”, foram suas derradeiras orações na Igreja do Carmo. Lembrou-se da esposa e dos dois filhos, mas não titubeou, seguiu em frente, foi cumprir sua missão. FIM 202



Nioac Almir Lage

São Paulo 2016


Copyright © 2016 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa

Almir Lage

Diagramação

Jacilene Moraes

Revisão

Raquel Sena

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ L17n Lage, Almir Nioac / Almir Lage. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2016. ISBN 978-85-437-0655-9 1. Romance brasileiro. I. Título. 16-35301

CDD: 869.3 CDU: 821.134.3(81)-3

________________________________________________________________ 08/08/2016 10/08/2016 Impresso no Brasil Printed in Brazil

DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Quitanda, 139 – 3º andar CEP 01012-010 – Centro – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br


A saga de irmãos brasileiros na maior odisseia de todos os tempos. Submetidos ao terror imposto pelo astuto inimigo, sobreviveram a mais cruel de todas as batalhas. Narrado pelo nosso protagonista, baseado em seu memorial sobre a guerra do Paraguai.

Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da Guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidaban. Machado de Assis (Crônicas, 1897)


Para entender a “Retirada da Laguna” Com a Campanha da Tríplice Aliança cada vez mais acirrada, uma coluna expedicionária, em abril de 1865, partiu de Santos (SP), para apoiar as tropas que se encontravam em Mato Grosso, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago. Novos soldados foram arregimentados pelo caminho, totalizando uma força de 3 mil homens. Recebendo ordens de seguir para Coxim (MS), a coluna lá ficou, ilhada pelas inundações, até junho de 1866. Durante esse tempo, foi reduzida a cerca de 2 mil soldados, atingida pela fome e enfermidades. Ao morrer o comandante Drago, assumiu a chefia da tropa o coronel Carlos de Morais Camisão. A 11 de janeiro de 1866, iniciou-se o deslocamento para Nioaque (MS), localidade escolhida como base de operações. A coluna lá chegou com cerca de 1.300 homens. O coronel Camisão decidiu cruzar o rio Apa, adentrar o território paraguaio e conquistar a região de Bela Vista. Orientada pelo guia José Francisco Lopes, a coluna seguiu avante. Mas, sem meios de transporte, foi-lhe muito difícil ultrapassar os rios e pântanos com os trens de combate e as peças de Artilharia. As forças adversárias, obrigadas a recuar, destruíram tudo o que pudesse servir aos soldados brasileiros: nem comida, nem água, nem pousada havia para os combatentes. O coronel Camisão rumou para a Fazenda Laguna, a fim de conseguir mantimentos e proporcionar repouso à tropa.


Sob a perseguição furiosa do adversário, foi ordenada a retirada, sob as agruras da fome, da sede, da terra calcinada pelo fogo que era ateado aos campos, da fumaça que causava profundas irritações pulmonares, das tormentas que tornavam impossível a locomoção no território pantanoso. Não havia munição nem alimentos, e a coluna prosseguia com o cólera e outras enfermidades ceifando inúmeras vidas. Sem meios para cuidar dos doentes e feridos, estes foram deixados no campo. Os sobreviventes marcharam, com dificuldade, até uma fazenda, onde foram encontradas laranjas para alimentação dos soldados. A duras penas, a coluna chegou a Laguna. Mas Camisão e o guia Lopes, vítimas dos sofrimentos causados pela árdua marcha, não chegaram a esse destino. Assim como quase a metade dos bravos que iniciaram a Retirada. (fonte: http:// www.exercito.gov.br/VO/169/laguna.htm)



Sumário Capítulo I - Mandiocas fritas............................11 Capítulo II - Transe infernal.............................19 Capítulo III - Sagrado dever..............................27 Capítulo IV - Patria morum..............................31 Capítulo V - O baú.............................................37 Capítulo VI - Finalmente Nioac........................47 Capítulo VII - Momentos...................................53 Capítulo VIII - Ao Apa.......................................63 Capítulo IX - Rumo a Bela Vista.......................71 Capítulo X - Frente a frente com o inimigo.....81 Capítulo XI - Missão cumprida.........................93


Capítulo XII - Laguna......................................105 Capítulo XIII - Pausa para o chá....................115 Capítulo XIV - Batalha de Baiendê................119 Capítulo XV - Machorra.................................131 Capítulo XVI - A Batalha de Nhandipá........139 Capítulo XVII - Fome, fogo e frio...................149 Capítulo XVIII - Deus existe!..........................161 Capítulo XIX - Canindé...................................171 Capítulo XX - Nioac.........................................185 Epílogo...............................................................201


Capítulo I

Mandiocas fritas

Lá fora, soprava o vento em todas as direções, exceto aquele que através de minha janela provocava o tecido que compunha uma das partes da cortina do meu quarto, iam e vinham sobre o parapeito, acompanhando as golfadas de ar trazidas pelo fluxo e refluxo da brisa, perfumando-o com cheiro de terra molhada. Pelo que imaginava, com mera observação aos suaves raios de sol que lentamente iam perdendo seu brilho, e ainda iluminavam as paredes opostas às janelas, deveriam ser aproximadamente lá pelas seis horas da tarde do segundo sábado de março de 1920. Inerte, sobre uma cama confortavelmente arrumada e cheirosa, aguardava meus derradeiros momentos de contemplação e meditação, apelando por meio de minhas orações ao piedoso divino que, se possível, concedesse a graça de receber minha pobre alma nos jardins do sagrado éden; se, pelos pecados que cometi, 11


não merecesse sua misericórdia, a devida punição deveria ser mais do que a sua sábia justiça. Enfim, preparava-me para em breve ocasião o encontro com a grande verdade. Deu-me, prazerosamente, grande vontade de respirar de novo aquele ar, como se fosse a última vez que o sentia penetrar em meus pulmões, agora cansados e ressentidos pelo tempo e pelas agressões que sofreu ao longo de tantos anos. Quebrando o silêncio, o som do relógio de parede da sala de visitas anunciava exatamente com as seis badaladas, o que correspondiam às dezoito horas, aquela magnífica tarde de verão quase outono. Interessante... Tantas e quantas vezes vivi tardes de verão, mas, que me recorde, nunca como nesta hora deste dia, sentia minha mente se deslocar de meu corpo franzino a cada minuto, sem dor nem sofrimento, tornava-se cada vez mais volátil e solta, dava a impressão de acompanhar os sopros de ar que invadiam o meu quarto. Mal podia senti-lo, que apoiado sobre um colchão macio e travesseiros tufados, serviam de molde às partes opostas de minha cabeça e pescoço. O assoalho estava limpo, a madeira do piso brilhante e, através do reflexo do espelho de meu guarda-roupa, pude observar que embaixo e ao lado de minha cama, à minha direita, sobre o tapete de pano, estava meu par de chinelos de couro fofo, aquele que havia ganhado no ano anterior do neto que leva o mesmo nome que o meu, Augusto. Do quarto, ouvi o som do portão de ferro da entrada do jardim se abrindo, um pouco enferrujado pela falta de arrumação, em seguida uma batida forte na por12


ta da sala que dá para a varanda. Era, pela hora, minha única filha e seu filho mais moço de 10 anos, o Augustinho, juntos vieram para substituir a minha empregada no seu final de labuta diária. Sob hipótese alguma me deixavam sozinho em casa, havia sempre uma companhia amiga e solidária. Logo após terem entrado, percebi que conversavam em tom pouco audível, sussurravam, talvez para não me incomodar, era natural considerando-se o meu estado de saúde, devidamente prejudicado pelo envelhecimento. Os passos no assoalho indicavam que vinham em direção ao meu quarto, abri os olhos para recepcioná-los, em seguida abriram com cuidado a porta procurando evitar fazer ruído que incomodasse. Besteira, da minha parte eram sempre bem-vindos sob qualquer circunstância. A presença de meus familiares sempre surtia efeito benéfico sobre minha delicada saúde, preferia estar com eles em minha casa do que ficar a mercê de algum asilo ou sanatório. Assim que entraram perceberam que eu estava acordado e, devagar, foram se aproximando, meu neto me beijou a mão direita, e minha filha beijou-me a testa carinhosamente. Que saudades! Passavam quase todas as noites comigo desde que adoeci, adorava saber que não me encontrava velho e abandonado. Minha filha sempre foi muito meiga comigo, seus filhos haviam herdado esse dom. Adorava recebê-los todos os domingos para almoçarmos em família. Passamos juntos o Natal e Ano-Novo desde seu casamento com Gregório, órfão de pai desde o nascimento, competente e dedicado médi13


co militar, filho de um grande amigo e companheiro... Que Deus o tenha... − Papai, como passou o dia hoje? − perguntou-me com peculiar simplicidade. − Vovô conta uma história? − pedia com tom eufórico meu pequeno Augusto. − Deixa seu avô descansar! − Descansar do quê? Passei o dia descansando, como o faço já há muito − respondi-lhe sem arrogância. − Depois do jantar então o senhor conta a história que tanto Augustinho está pedindo, combinado? − Está certo então, fica assim combinado. Augustinho, depois da refeição, prometido? Balançou a cabeça para cima e para baixo como quem havia concordado com a proposta. Levantei-me da cama para me dirigir à copa com a bondosa ajuda de Madalena, que ofereceu seus braços para servir de apoio às minhas trêmulas mãos. Ao ficar de pé ainda senti aquele ligeiro mal-estar de quem havia ficado deitado quase que o dia todo, meu joelho esquerdo ainda sentia a maldita ferida cicatrizada à fogo, era só aguardar, que mais um instante a dor passaria, logo poderia caminhar com minhas próprias pernas, aquelas mesmas que me levaram até o inferno e dele me tirou para a glória e honra. Ao me aproximar da cozinha senti um cheirinho agradável da sopa de couve com farinha de milho, inhame e bacon, que Glorinha havia deixado antes de sair. Augustinho se sentou à minha direita e Madalena à minha frente do outro lado da mesa. Logo nos servimos, meu neto, sem cerimônia, mergulhou sua 14


colher nas mandiocas fritas feitas na manteiga, seu tira-gosto favorito, eram crocantes e salgadas a gosto do seu maior apreciador. Adorava vê-lo comer com aquele apetite fugaz, dava-me a impressão de que gostava não só de mandiocas fritas, mas, principalmente, de estar em minha casa ao meu lado e juntamente com sua mãe. Madalena não o repreendia por isso, desta feita, eu muito menos. Aliás, como eram gostosas aquelas mandiocas fritas preparadas pela Glorinha, minha leal e fraterna empregada. Durante a refeição conversamos sobre vários assuntos, eu e Madalena, com alguma interferência bem-vinda de meu netinho, querendo saber o que era isto ou aquilo. Trocamos algumas ideias sobre atualidades colhidas nos jornais e nas ruas, coisas como a guerra da Europa que deixou muitos em condições miseráveis por lá, a difícil situação da Alemanha e seu pobre povo, também comentamos alguma coisa sobre a agitação provocada nas ruas, insatisfações com o presidente, o sistema, os artistas estavam divulgando novas linguagens para as artes, parecia que algo de novo estava para nascer no Brasil, toda a gente estava irrequieta, muitas coisas aconteciam ao mesmo tempo, mal dava para saber de um fato e já se sabia de outro logo em seguida, bons motivos para as manchetes dos jornais. O mundo depois da guerra europeia, a que passou a ser chamada de guerra Mundial, estava mudando muito, só não se sabia ao certo se a mudança seria para melhor. Durante nosso diálogo, lembrei Madalena que as guerras não trazem nenhum benefício e que nunca há vencedores, apenas sofrimento, cadáveres e mortos-vivos, 15


as partes envolvidas saem mutiladas e arrependidas. Até quando haveríamos de testemunhar barbáries e assassinatos? Em nome de quem? Para qual razão? Diziam ter sido aquela uma guerra inevitável e que poria fim a todas as guerras. Só vivendo para crer... Retiramo-nos da copa e me dirigi ao lavabo para a higiene após a refeição, para posteriormente encontrar-me com meu netinho em meu quarto, enquanto Madalena daria trato à louça na cozinha. Augustinho já me aguardava ansioso, estava sentado na cabeceira da minha cama, como de costume, para ouvir mais uma de minhas histórias, perguntando-me: − E, então, vovô, qual vai ser a história de hoje? − Calma, filho, hoje vou lhe contar uma bem longa, daquelas que seus ouvidos vão ficar calejados, mas é para você guardar no seu coração, pois se trata da história de um pedaço da minha vida e, como você já está com quase onze anos, espero que se lembre para sempre, para um dia, quem sabe, contá-la aos seus filhos e, mais ainda, até para os seus netos. Meu netinho de súbito arregalou seus olhinhos, pensando certamente, com o que haveria de ser? Não seria uma história de reis, princesas, dragões e cavaleiros, quanto a isso ele estava certo, tudo isso não poderia existir, dessa vez seria uma feita da verdade. Madalena interrompe por um momento, servindo-me uma xícara de chá de erva-doce, deliciosamente preparada por ela, sob os caprichos aprendidos com sua mãe, minha saudosa e eternamente amada Thereza, quem guardo em meu coração saudosista e apaixonado. 16


Faço pausa para saborear meu chá e seu odor traz à minha mente a imagem de Thereza, era seu chá preferido, por isso o fazia com capricho e perfeição. Foi-se há oito anos para o convívio com o Senhor, depois de sofrer de uma forte pneumonia que a deixou muito abatida e debilitada; não conseguindo se recuperar, faleceu no hospital da Ordem Terceira do Carmo, centro do Rio de Janeiro, em maio de 1912. Minha vida a partir daí, mesmo na companhia de meus filhos, amigos sobreviventes ao tempo e parentes, nunca foi a mesma. Sinto até hoje o seu cheiro perfumado e me lembro da quão lisa era sua pele clara, suas mãos acariciavam minha barba para me fazer relaxar, e logo adormecia como um bebê em seus braços. Foi uma mulher brilhante, ofereceu-me quarenta e um anos de sua vida, muito inteligente e sábia educou e alfabetizou todos os nossos três filhos, tendo sofrido muito com a perda de nosso segundo filho, natimorto, posteriormente agraciada por Deus que lhe concedeu mais dois. Madalena, em seguida ao fato lamentável em nossa vida, veio ao mundo para nossa alegria e satisfação. Engraçado que, quando se perde um filho nessas condições, temos a impressão de estarmos sendo punidos pelo Criador, por algum motivo que não sabemos, daí surge uma incômoda depressão, somente superada pela fé em nossas crenças, jamais pela razão. Thereza apareceu em minha vida para o meu renascer, a tristeza que sinto com sua morte é equilibrada com os sentimentos deixados por ela em meu coração. Que Ele a ampare e guarde a sua alma com todo o carinho de que é merecedora. 17


Ao terminar a degustação do chá oferecido por Madalena, dirijo-me à minha cama e retorno a atenção ao meu querido netinho, percebo nesse instante como os seus olhos, a disposição, o brilho, o modo de olhar, são parecidos com os de Thereza. Augustinho, a história que vou lhe contar é sobre aqueles que deram suas humildes vidas para que as nossas ficassem eternamente livres. Para saber por quê, preste toda a atenção. − Mas, vovô, não entendi, como assim deram suas vidas pelas nossas? − Há pessoas que nascem com o dom de encarar a vida como uma missão e se reservam o direito de cumprir esta missão, essas pessoas são chamadas de heróis. E herói é aquele que sacrifica sua própria vida em benefício de outras, são magnânimos, briosos. Seu avô foi uma dessas. − Meu avô? − Sim, meu neto, seu avô Daniel, chegaremos nele em breve.

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Capítulo II

Transe infernal

Por volta de 1864, quando tinha apenas 19 anos as coisas não eram tão fáceis. Tínhamos que trabalhar muito e desde criança. Comecei com 10 anos a ajudar meu pai no empório, uma espécie de mercearia, à rua Direita, no largo de Santa Cruz, perto da igreja do Rosário, dali saía o nosso sustento, minha família dependia disso. Mamãe ficava em casa nos afazeres do lar com minha irmã, meus dois irmãos, sendo eu o mais moço, ajudávamos da mesma forma nas tarefas que envolviam os negócios de papai. A mercearia foi comprada de um português que desejava retornar à sua querida terra natal, Ilha da Madeira, que por admirar muito o caráter de papai, seu fiel ajudante, ofereceu-a a preço compatível com suas posses à época, devendo ainda alguns tostões que lhe foram enviados para Portugal, em prestações que levaram cinco anos para acabar. Assim era a vida naquela época... 19


A tarefa de ensinar as primeiras letras e a aritmética fundamental ficava por conta das mães, a iniciação para o trabalho era competência exclusiva dos pais, normalmente exigentes nesse sentido. Tínhamos a sorte de ter o próprio estabelecimento, pois com isso não dependíamos de buscar trabalho remunerado em outros lugares, o que nos trazia alguma segurança. O comércio não era lá essas coisas, mas dava para viver modestamente e de certa forma diria até bem, não nos faltava nada em casa e as contas estavam sempre em dia, papai era um homem que mantinha tudo sobre controle. A localização era perfeita no centro e próximo ao caís do porto, de onde vinha boa parte das mercadorias vendidas na mercearia. Nosso estabelecimento tinha como principais clientes os funcionários do governo imperial que trabalhavam e moravam nas proximidades, que, ao comprarem, preenchiam cartelas promissórias para pagamentos nos dias em que recebiam seus soldos. Meu irmão mais velho já planejava seu casamento e sonhava com a abertura de uma loja de tecidos, patrocinado pelos seus esforços de ter economizado um bom dinheiro ao longo de alguns anos de trabalho com papai. Nosso laborioso pai nos remunerava com comissões sobre as vendas, havia uma parte para cada um, na devida proporção equivalente à idade. Sempre nos falava: “A poupança traz a felicidade.” Deste modo, fomos educados a sempre guardar um pouco do que recebíamos. Aos 14 anos, eu já conseguia comprar algumas peças de roupas com meu próprio dinheirinho e adorava, aos domingos, após a missa, passear com meus amigos nas diversas praças do centro da cidade; aliás, ha20


via uma confeitaria próximo ao Largo do Passeio que era meu ponto dominical favorito, servia o melhor refresco de limão da cidade e tinha os melhores doces e confeitos. Certo domingo, cheguei até a ver o Imperador e sua imponente carruagem, cercado pela majestosa cavalaria de guarda. Ele parou junto ao largo, desceu da carruagem e acenou para o público presente, que aos berros deixou no ar um “Viva Dom Pedro II!” Nosso antigo imperador foi um homem justo e honesto aos olhos do povo simples e humilde. Guardo em memória, com profundo respeito, sua imagem. Abdicou do trono e se exilou na França para poupar o povo brasileiro de uma possível guerra civil, foi essa a impressão que tive na época. − Vovô, Dom Pedro II foi então um homem bom? − meu neto, interrompendo-me. − Mas não havia escravos no império? − perguntou-me com grande expressão de dúvida. − Vejo que você tem se dedicado aos estudos... Procurei assim explicar-lhe: − Já lhe disse que na memória do homem comum, como eu, Dom Pedro foi de fato um brasileiro, senão o maior deles, segundo o que escreveu um homem muito importante chamado Joaquim Nabuco. Quanto à escravidão, essa foi uma das heranças deixadas por Portugal após a independência, mas na regência de Pedro II houve a abolição da escravatura. Não foi fácil a abolição, mas, assim mesmo, aconteceu. Comentava-se muito à época que já havia passado da hora de libertar os escravos. Penso que cada cidadão deve procurar estudar o caso e tirar suas próprias conclusões. 21


− Mas... onde foi mesmo que eu parei? Há, lembrei-me! Bom homem foi aquele... Em 1864, as coisas ferviam lá pelo sul do Brasil, era com relação à questão do Uruguai, um país platino que faz fronteira com o Rio Grande do Sul. Desde que nasci, em 1845, o sul sempre foi motivo de muitas manchetes nos jornais, teve guerra e muita rebelião, chegou a ter uma que ficou conhecida por Guerra dos Farrapos. − Guerra dos Farrapos? Que engraçado o nome meu avô... Algumas risadas, de ambas as partes, alegraram por alguns instantes nossa história. − É esse o nome que deram para o conflito, além do outro que é Revolução Farroupilha. Já lá no nordeste teve uma outra, bem depois, com nome mais curioso ainda, que foi a Guerra dos Canudos, procure estudar a respeito. Sempre tivemos no Brasil esses tipos de conturbações e conflitos, mas foram muito bem domados, muitas vezes a custo de muita gente morta e ferida, todavia continuamos unidos e grandes, como um gigante, em nosso próprio território. No Uruguai já a algum tempo vivia-se uma guerra civil, isso afetava os interesses de negócios do Brasil com aquela região. O Brasil enviou tropas ao Uruguai, por pressão de fazendeiros gaúchos que trabalhavam nas terras daquele país, muitos alegavam terem sofrido saques e violências sem que o governo uruguaio tomasse as devidas providências. Deste modo, o império do Brasil, resolveu intervir. Mas os uruguaios que estavam no governo têm o presidente do Paraguai como aliado, 22


um ditador chamado Solano Lopes, que não tardou em preparar a retaliação, os paraguaios apreendem um navio brasileiro o Marquês de Olinda, em que estavam a bordo o presidente da província do Mato Grosso e sua comitiva, e pouco mais de um mês depois invade o Mato Grosso tomando o nosso Forte de Coimbra e várias outras cidades e vilas. Foi aí que começou a guerra mais odiosa, sangrenta e maldita de que já participou o nosso povo, a Guerra do Paraguai. A guerra que todos desejavam jamais ter acontecido. Nesse momento de contemplação com meu neto, por um instante, fico mudo. Do nada surgem sons diversos e desconexos trazidos por uma lembrança cheia de horrores, são tiros, explosões, gemidos, gritos, seguida de visões alucinantes com fogo, muita fumaça no ar, sangue, chuva, lama... Levo as mãos ao rosto e algumas lágrimas brotam em meus olhos. Repentinamente, desperto desse transe infernal ao som das batidas do relógio de parede existente na sala de visitas, anunciando vinte horas, oito suaves badaladas. − Vovô, o senhor está bem? Perguntou-me com preocupação. Por alguns segundos, nada ouvi, nada senti, exceto minhas recordações, minhas infernais lembranças daqueles duríssimos dias pelos quais passei. − Sim, estou bem agora, mas por alguns instantes meu corpo e mente se deixaram levar por lembranças das quais não gostaria mais de ser eterno prisioneiro. Uma fadiga enorme tomou conta de meu corpo e não hesitei em pedir para que fossemos nos preparar para 23


dormir, continuaria outro dia aquela história. Minha filha já estava pronta para levar meu neto para a cama, despedindo-se com um carinhoso boa-noite seguido de um beijo em minha testa. Após a troca da roupa pelo pijama, segui para o oratório onde fiz minhas preces carregadas de muita emoção. Pedi pelos meus companheiros que jazem nos pântanos e minha querida esposa, logo após, deitei-me em minha confortável cama, vindo a adormecer imediatamente. Não foi uma noite tranquila, algumas vezes meus pulmões incomodavam pela sensação de falta de ar, alguma taquicardia também, meu joelho doeu muito, quando me deu vontade de ir ao banheiro, não encontrava meu par de chinelos e acabei por urinar na roupa. Tive de trocar o pijama e com muita dificuldade, pois não estava enxergando direito com apenas a luz do abajur iluminando o meu quarto, não desejava provocar ruídos que despertassem minha filha no quarto ao lado onde dormia com Augustinho, certamente iria ao meu quarto em meu auxílio, conheço bem a minha filha e seus gestos caridosos para comigo. Pensei, por algum tempo, se meu neto não ficou um tanto quanto espantado com aquela minha inesperada reação. Lembrei-me de certa vez, com mais ou menos sua idade, ter passado quase que uma noite sem dormir preocupado com um mal-estar que meu pai havia sofrido no interior da loja, foi um mal súbito segundo ele, que haveria de não ser nada de mais, mesmo assim senti muito medo só de pensar que poderia ser algo muito grave. Meu corpo respondia com calafrios quando imaginava sua morte, foi terrificante. 24


Lá pelas tantas, após beber um copo d´água da moringa que ficava sobre meu criado mudo, sem ter nada o que fazer ou pensar, acabei novamente adormecendo, desta vez sem nenhuma interrupção. Dormi preocupado se poderia assistir à missa no dia seguinte, mas isso não me levou a perder parte do sono que me restava até completar a noite e alcançar a manhã do dia seguinte. Dormi como um bebê, não tive sonhos. Pelo menos que me recorde...

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Capítulo III

Sagrado dever

Acordei pela manhã do domingo seguinte com Gregório passando a mão sobre minha testa, acabava de retornar do seu habitual plantão médico no Hospital Militar, como sempre, aproveitava os domingos conosco. Sabia que desta forma garantia sua presença familiar em nosso meio, para realização de Madalena e seu primogênito, assim como para minha satisfação em poder sempre revê-lo. Gostaria de lembrar que Gregório Mendonça de Morais, ou melhor, Dr. Gregório, capitão médico militar, é filho de meu grande e já falecido amigo, se não o meu saudoso e fiel camarada Daniel Zebra de Morais. Dando-nos a honra de sua presença, Gregório preparou nosso café da manhã juntamente com Madalena, dialogavam muito e com apreciável bom humor, com a impressão de que realmente eram um casal muito feliz. Logo que deixaram pronta a mesa matinal, o aroma do 27


café tomou conta de meu humilde lar, adorava aquele odor, lembrava-me todas as manhãs que passei com minha amada Thereza. Adorava o seu café com broinhas de fubá. Conversávamos sobre os acontecimentos de rotina na política e no esporte, sobre os quais sempre adorei puxar uma prosa, passávamos bons momentos, enquanto meu neto deliciava-se com as geleias de Glorinha e seus biscoitinhos, alguns deliciosos feitos à base de manteiga. Após nosso delicioso café da manhã, preparamo-nos para à missa, dedicava-me com muito afinco às cerimônias do domingo para ter com Deus alguns momentos de profunda meditação e oração, fiel católico, nunca deixava de fazer minha peregrinação até a Igreja do Carmo, mesmo que me custassem alguns sacrifícios físicos, mas que resultassem no conforto da alma. Minha dedicação para com minha religião ainda era pouca, diante do milagre que Ele me concedeu ao poupar minha vida e de muitos companheiros meus que ousaram um dia conhecer as agruras do inferno. A razão de nossa existência devemos ao sagrado Pai, e, pelo milagre da vida que nos concedeu, a única coisa que nos resta é o agradecimento na forma de oração e amor ao próximo. É o que denomino de “sagrado dever”. Como de costume, a charrete de seu Manoel sempre à disposição e conduzia-me à Igreja. Desta forma podia trocar algumas palavras com o humilde ancião e amigo, que fazia à nossa viagem uma breve e agradável companhia, postava-se às sete em ponto junto ao portão enquanto acariciava seu leal equino. Ao chegarmos, despedi-me com votos de saúde e boa sorte dirigidos ao nosso velho amigo charreteiro, pois sem28


pre retornávamos da missa dominical à pé, com intuito de contemplar a cidade, seus habitantes e novos costumes. Monsenhor Guilherme veio ao meu encontro e, como sempre, perguntando-me sobre minha saúde e bem-estar, respondi-lhe que, segundo a graça de nosso senhor Jesus Cristo, continuava ótimo, cumprimentou com carinho meu genro e filha, espanando com a ponta dos dedos os cabelos muito lisos de meu neto. Também, seu fiel noviço, um afrodescendente bem encorpado, abraçava-me estampando cândido sorriso, e decorrente daquele gesto tão sincero fazia questão de beijar-lhe o rosto todas as vezes que nos encontrávamos. Eis alguns dos factuais motivos de dedicar-me com fé ao sagrado dever. Por simples curiosidade, observei que nas ruas da velha capital circulavam vários automóveis, alguns até muito barulhentos com suas buzinas estridentes. Gostava mesmo era das elegantes charretes e seus pomposos charreteiros, dos bondes puxados… burros simbolizavam a tradição e o bom gosto pelo conforto, já aqueles automóveis, esses, além dos ruídos constantes, eram perigosos. Não conseguia admitir a ideia de ver nosso mais bravo e elegante amigo, o cavalo, ser substituído aos poucos por aquelas máquinas de arrepiar. Durante a missa não me senti bem, tremia de um frio que corria meus ossos.

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Capítulo IV

Patria morum

Retornamos da Igreja em caminhada com uma certa demora, eu e minha inseparável bengala com cabo prateado, pois parava algumas vezes para me recuperar do cansaço. Nosso bem-estar se deu após um magnífico almoço de domingo. Celebramos nosso encontro familiar com uma extensa conversa curtida por muitos e agradáveis sorrisos. Os momentos de convívio com a família serão sempre os mais felizes nas muitas horas que passarão em nossa vida. Estávamos sentados ouvindo piano. Madalena executava uma linda valsa de Strauss. Lindo era o som do piano quando tocado àquela hora, passava das dezesseis horas, as andorinhas revoavam lá fora dançando pelos céus com suas álulas cor de noite. Nosso almoço foi um delicioso assado com batatas à moda portuguesa, acompanhado de um arroz com legu31


mes cozidos; um nobilíssimo e autêntico vinho do Porto enriqueceu nossa mesa. Augustinho descansava de sua ida e vinda à Igreja e de sua farta refeição, dormia como um querubim sobre o sofá cercado de polpudas almofadas, a música em seus ouvidos funcionou como um eficiente sonífero. Estar com meus mais próximos e estimados parentes era de fato uma coisa sublime, reconfortante e milagrosa. Deixei-me levar pelos suaves acordes daquele magnífico piano, que por muitos anos pertenceu à Thereza, não pude resistir... adormeci vagarosamente..., a alternância entre os sons graves e agudos executados em perfeita harmonia era acalento e afago ao meu velho corpo. Provavelmente o sono seria talvez efeito daquele vinho do Porto, trazido por Gregório, resultado de suas caçadas pelas adegas do Centro da cidade e das aristocráticas bodegas de São Cristóvão. Meus últimos pensamentos recordavam o dia em que todos os Souza Barroso, pais e filhos, saímos para tirar uma fotografia de família. Se não me engano, Madalena teria lá pelos seus seis ou cinco anos, queria de toda forma ser fotografada com sua boneca de pano sem o braço direito, que ela, quando mais nova, arrancou com um puxão ao tentar retirá-la de dentro de seu berço. Quis que ficasse sempre assim, faltando a parte destra da boneca, jamais permitindo que sua mãe ou qualquer outra pessoa a consertasse. Enquanto mergulhava num sono penetrante ouvia vozes, músicas, risos, tudo muito desconexo. Tinha a impressão de que os melhores momentos da minha vida 32


estavam passando quase que de uma única vez, em uma fração mínima do tempo. Como é possível aos humanos, depois de tantos anos de vida, guardar quantidade indeterminada de lembranças, verdadeira miríade sem fim? Meu corpo parecia flutuar e girar em torno da sala e seus ocupantes, via tudo de cima para baixo, distanciando-me cada vez mais... Um repentino sopro de vento invadiu naquele instante a sala, agitando o cortinado. Madalena interrompeu sua execução e foi fechar as janelas com a ajuda de Gregório. Ele percebeu que o céu, antes límpido e azul, tornara-se cinzento e úmido, provocando uma revoada sui generis de pássaros de toda espécie, daquelas que costumam sobrevoar os céus de uma cidade grande como é o Rio de Janeiro, e em sequência os cães da vizinhança começaram a emitir uivos como se lamentassem por algo em comum. Por intuição, virou-se e notou que seu sogro continuava imóvel na poltrona. Dado aos ligeiros acontecimentos, Augustinho estava sentado no sofá observando o correcorre de seus pais em direção às janelas. O relógio na parede indicava dezessete horas em ponto, quando então entoou cinco suaves badaladas. Gregório aproximouse e encostou seu ouvido direito sobre o peito de seu sogro, abriu-lhe o colete e a camisa que usava por baixo, Madalena a distância, entre a porta da sala e a poltrona, levou as mãos à boca; após a quinta badalada do carrilhão, Gregório virou seu rosto procurando por sua esposa, e anunciou o trágico diagnóstico: − Madalena, infelizmente tenho que dizer o pior... Um grito ecoou pela sala, 33


− Não! Não pode ser! Era a filha querida que desabafava sua dor. − Seu pai nada sofreu, não sentiu dor, que o bom Deus o tenha na terra dos justos. Madalena fez-se em prantos agarrada ao seu filho Augustinho, que certamente compreendia tudo e todos, evitou chorar para não sacrificar ainda mais a dor de sua sofrida mãe. Gregório carregou o corpo franzino do Dr. Augusto até o quarto e o deitou sobre sua própria cama. Procurou confortar sua esposa com um forte e emocionado abraço, adiantando-se nos procedimentos fúnebres que do fato lamentável seriam decorrentes. Dirigiu-se à sala, vestiu seu paletó, pôs o chapéu em sua cabeça e se despediu partindo com o intuito de tomar as necessárias providências. Em pouco tempo, à casa do Dr. Augusto, encontravam-se vários parentes e amigos, lá estavam todos os filhos e a única irmã ainda viva, para velarem seu corpo exposto em um caixão no centro da sala e iluminado por velas ao redor. Começavam a chegar várias mensagens póstumas e coroas de flores homenageando aquele que sempre se dedicou a homenagear. Numa delas constava a seguinte inscrição: “Dulce et decorum est por patria morum! - VGP”. Curioso por não conseguir decifrar a mensagem em latim, Augustinho foi de encontro ao seu pai e lhe pediu que dissesse o que ali estava escrito, respondendo-lhe Gregório: − O que ali se lê meu filho, traduzindo significa: “Como é doce e belo viver e morrer pela pátria!”. Ah, pátria! − exclamou Augustinho em pensamento. Era do que o seu avô mais falava nas suas histórias. 34


− Papai, o que significa VGP? − Veteranos da Guerra do Paraguai, bravos guerreiros, são honrados compatriotas que algum dia, nesse país, serão considerados como os verdadeiros brasileiros que construíram esta nação, para que eu, você, seus filhos e os filhos de seus filhos possam se orgulhar da terra que haverá de receber nossos ossos. O neto do Dr. Augusto sentiu que as palavras de seu pai continham a mesma força com a qual eram proferidas as de seu avô, quando dialogavam sobre as coisas de antigamente. As orações não cessavam, às vezes intercaladas por breves discursos feito pelos amigos inseparáveis e profundos admiradores. Um deles chegou a proclamar em voz alta “eis que perdemos o último de nossos bravos combatentes”, alguns sussurros se ouviam do tipo “muito bem dito, ele mereceu nosso total respeito, falemos francamente, foi um herói”, e outro, “foi um homem de muito valor, sempre apegado à família”.

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Capítulo V

O baú

Decorridos sete dias da morte do Dr. Augusto, Madalena e Gregório, após a missa de sétimo dia, puseram-se a desmontar o quarto do saudoso pai e sogro, com intuito de se desfazerem do imóvel, que por sinal era bastante antigo e o bairro já não mais abrigava o mesmo estilo e pompa da época do Império e prelúdio republicano. Havia um cômodo anexo à sala de visitas que era seu escritório de advocacia, lá estavam todos os seus preciosos livros, alguns quadros e inúmeras laudas de processos nos quais se debruçou toda a vida em defesa dos menos favorecidos. Vários casos foram defendidos pelo ilustre bacharel, em favor de seus companheiros veteranos da sanguinária Guerra do Paraguai, principalmente casos de pensão para viúvas dos veteranos, quando não reconhecidos pelo governo da República. Muito também se achou de manuscritos sobre romances e poemas dedicados principalmente à Dona The37


reza, sua adorada esposa. Próximo de um deles, havia uma moldura contornando duas lâminas de vidro, e no meio delas uma espécie de papiro com a inscrição de um poema feito a bico de pena em nanquim, que dizia: O Livro Bendito Senhor, aquele que semeia. Livros, livros a mão cheia e manda o povo pensar, pois um livro caindo n’alma é germe que faz a palma é chuva que faz o mar. Assinava nada mais ou nada menos que o famoso poeta abolicionista Castro Alves. Ao se debruçarem nas coisas do Dr. Augusto em seu quarto, notaram que a tarefa não seria nada fácil, muita coisa para juntar e outras para desprezar, tais como coleção de periódicos e boletins, publicações acadêmicas antigas, folhas soltas de alguns casos não desenvolvidos, e muito, muito mesmo. O guarda-roupa era imenso e pesado, várias peças de roupas como ternos, paletós, gravatas, sobretudo, casacos, em seu interior e curiosamente um baú de porte médio enfiado no fundo, bem escondido no fundo daquele imenso móvel de quarto. Pela posição que se encontrava, no mínimo chamava a atenção de qualquer um que desconhecesse sua existência, parecia com um daqueles baús de história de piratas contadas nos livros de ficção e aventuras. 38


Gregório e Madalena não resistiram à tentação de abri-lo e saber do seu conteúdo, o quanto antes fosse para não deixá-los mais curiosos do que já estavam. Eis que tomaram a decisão de fazê-lo, Madalena ainda teve tempo para uma observação sobre aquela peça, contava para seu marido que jamais soube da existência do baú, indagando sobre o motivo de seu pai nunca ter lhe falado sobre tal objeto. O que será que havia em seu interior que fosse motivo de mistério e inviolável segredo? Ambos retiraram o baú e o colocaram em cima da cama, sem muito custo, pois não pesava tanto quanto aparentava. Notaram que precisariam de uma chave para abri-lo, mas onde estaria a tal chave? Entreolharam-se e passaram a abrir todas as gavetas da cômoda, uma por uma e... nada da chave. Correram para o guarda-roupa e começaram a procurar nos bolsos de cada uma das calças, camisas, paletós e finalmente... nada de chave novamente. − Onde será que papai escondeu a chave do baú? – questionou Madalena com ar de suposição. − Quem sabe não está debaixo do colchão? − respondeu Gregório. Mas, após terem levantado o pesado colchão, nada encontraram. Seria provável estar a bendita chave no escritório do Dr. Augusto? Pois foram lá que iniciaram nova busca. Mas, apesar de todos os mexidos e remexidos, nada, de fato, nada conseguiram encontrar. Foram de volta para o quarto frustrados com o desaparecimento da tal chave. Ao chegarem Madalena se jogou na cama que em vida fora de seu estimado pai, 39


quando então o velho baú tombou para o lado e caiu no chão e de lado para a cama. Ao tentarem virar o já desdenhado volume, eis que notaram uma caixinha pregada no fundo, que ao ser pressionada abriu, e lá estava a tão almejada e cobiçada chave. Do tipo antiga mesmo, feita de ferro, pesada e um pouco grande para o padrão das chaves de sua época. Certamente que fazer uso dela seria o próximo passo, abrindo o baú e saber do seu conteúdo, mas Gregório fez ressalva se seria justo tomar conhecimento daquilo que seria um segredo de seu sogro, visto que a existência daquela preciosa peça não se tornou conhecida por nenhum dos filhos, mesmo Madalena sua companheira de todas as horas. Madalena, por sua vez, como boa mulher e movida por intensa curiosidade, discordava de seu marido e argumentou que, se seu pai desejasse que nenhuma pessoa encontrasse aquele baú, certamente teria queimado, destruído ou mesmo atirado no mar, coisa que não o fez em todos os anos de sua vida. Gregório pensativo alisou seu longo bigode e concordou com a posição defendida por sua esposa, afinal que mal faria àquela altura dos acontecimentos? Estaria o Dr. Augusto reservando alguma surpresa post mortem? Saberiam se abrissem logo aquela velharia guardada por seu sogro por um tempo inimaginável. O que poderia nele conter? Segredos de Estado, da vida pessoal de seus clientes ilustres? Tomaram a decisão de abrir e o fizeram sem receios. Colocaram o velho baú de volta à cama e, com as mãos trêmulas, denotando nervosismo, entraram com a chave na fechadura e giraram um quarto de volta à direita 40


e depois à esquerda duas vezes, ouvindo um leve estalar da mesma. Sem que retirassem a chave, forçaram a tampa convexa e revestida de couro para cima, após o rangido típico daquela que provavelmente ficou estática por algum tempo, miravam com olhos arregalados de surpresa para o interior daquela misteriosa caixa, imaginando ambos o que poderiam vir a descobrir. Completamente paralisados, após terem movido para trás toda a tampa que mantinha fechado o baú, deram por conta de seu conteúdo. Antes, porém, Madalena ficou perplexa e maravilhada com um certo enfeite costurado no feltro que revestia a parte interna da tampa, tratava-se de um brasão dos tempos do Império bordado com fios de ouro e prata, além de outros avios de fina e requintada costura. Madalena deslizou suavemente as pontas dos dedos da mão esquerda sobre a rica costura evidenciando seu interesse primeiro pelo rico detalhe estampado na contratampa. Pensava naquele instante o que aquilo poderia ter representado, ao longo de tantos anos, segundo os sentimentos de seu querido pai. Gregório observava com a calma que lhe era peculiar o comportamento contemplativo de sua esposa diante que acabara de achar. Certos de que muito mais teriam para apetecer a curiosidade ardente, passaram a vasculhar tudo que seus olhos encontravam. Muitas fotografias, inclusive uma da família quando Madalena teria por volta de cinco ou seis anos, abraçada a uma boneca de pano sem um dos braços. Também um pequeno álbum com algumas fotografias do tempo em que o Dr. Augusto foi militar no Corpo de Voluntários, junto com companheiros de caserna. 41


Enquanto o casal buscava tudo procurar, encontraram entre vários objetos um lenço de seda muito bem dobrado sobre um cachecol de lã, ambos com a insígnia ASB bordados em linha vermelha, várias moedas de cobre com a efígie de D. Pedro II espalhadas, muitas anotações, rascunho de cópias de processos e coisas do gênero, vários maços de cartas amarradas por barbantes, um machete devidamente embainhado, um cachimbo torto, uma pequena pistola de dois canos, e finalmente, por debaixo de tudo que poderia ser notado àquela hora, uma caixa marrom. Chamava a atenção àquela altura dos acontecimentos, pois, sendo de pouca profundidade, laqueada e com incrustações em marchetaria, medindo aproximadamente 30x15 centímetros, encontrava-se fechada por uma alça metálica dourada presa sob pressão a um tipo de pino feito também do mesmo material. Madalena, ao segurar com as mãos postas às laterais da pequena peça de madeira, gira inversamente e observa na base várias inscrições pouco nítidas, porém uma ainda permanecia compreensível onde se lia “su sangre y su alma para la gloria del Paraguay”, surge novamente a dúvida, o que poderia conter em seu interior? A roda da incerteza e da curiosidade tornava a girar em suas mentes. Seus corações palpitam por estarem mais uma vez diante de algo desconhecido e de um provável mistério, entreolham-se e desta feita Madalena põe nas mãos de Gregório o objeto. Nesse instante, suas expectativas são interrompidas pela campainha da porta principal. Gregório levanta-se com a pequena caixa nas mãos, pede para a esposa aguar42


dar enquanto vai atender ao chamado. Ao abrir a porta, nota que se trata de um funcionário da empresa dos correios e telégrafos, que lhe passa uma correspondência remetida pela Ordem dos Advogados do Brasil destinada aos familiares do Dr. Augusto. Dirigindo-se ao canto da sala, pôs a pequena caixa sobre o piano e abriu a carta com a delicadeza que merecia em respeito a memória de seu finado sogro. No documento, expressava-se, por parte daquela instituição, o profundo pesar pela perda do estimado amigo e colega advogado Dr. Augusto de Souza Barroso, em cuja Ata de última Assembleia, fez-se constar mensagem de pêsames ao distinto jurista. Após sua rápida leitura, passou a correspondência às mãos de Madalena. Enquanto ela lia atentamente as honras póstumas editadas pela Ordem, Gregório voltou à sala e pegou a caixa que havia deixado sobre o piano, retornando imediatamente ao quarto onde tudo de misterioso se passava naquelas últimas horas. O que poderia estar reservado para ambos no interior daquele pequeno baú! O badalar do velho marcador de horas anunciava exatamente a décima segunda hora do domingo, sétimo dia após o falecimento do memorável veterano. Sentados sobre a cama que serviu por muitos anos de confortável leito ao incansável ancião, o casal abriu lentamente a caixa e se deparou com três objetos, uma lupa, uma caneta bico de pena com a ponta extremamente ressecada pelo tempo e um livro, uma espécie de diário, em cuja capa encontrava-se escrito a palavra “NIOAC”, suas dezenas de páginas amareladas e desgastadas registravam milhares de palavras manuscritas à tinta. 43


Não muito distante da antiga residência do avô, no bairro do Rio Comprido, Augustinho brincava na casa de seus tios, irmão e cunhada de Madalena, no balanço amarrado num dos galhos fortes da mangueira que havia no quintal, quando, não mais que de repente, surgiu no meio de uma névoa um rapaz vestido em belo e engomado uniforme de campanha do exército imperial, calçado em botas reluzentes, segurando na mão esquerda um fuzil e na outra um pedaço de bandeira do antigo Império, notado pela inscrição de uma coroa sobre um brasão no interior do losango amarelo. O menino com muito assombro ao tentar pular do balanço caiu sobre os joelhos, e desesperado saiu correndo em direção à varanda, antes que atingisse àquela parte da casa, à sua frente surgiu do nada o jovem soldado que, parado como pálida estátua, lhe disse, entonando uma voz calma e suave, “saiba que já estou com seu avô, descansaremos em paz ao lado de Nosso Senhor, fique com Deus e jamais esqueça de Nioac”. Quando o menino mesmo assustado ia dirigir a pergunta, “mas quem é você e...?”, o rapaz deu meia-volta e partiu caminhando em direção ao nada até desaparecer. A partir de então, Augustinho não ficou mais assustado, uma certa tranquilidade tomou conta de seu corpo, e sua mente esvaziou-se de qualquer medo, mesmo não sabendo racionalizar o que se passara ali. Ficou gravada em sua memória as palavras do soldado e sua fisionomia, principalmente no detalhe que pode notar durante aquele breve encontro, o mensageiro possuía ao lado do olho esquerdo uma pequena cicatriz que seguia em direção ao pavilhão auditivo do ouvido do mesmo lado. 44


De volta ao quarto do falecido patriarca, seus pais se encontravam atônitos e com as ideias muito confusas em relação ao que acabara de ser revelado pelo destino. Gregório pressentia que o seu enigmático sogro, de alguma forma, planejara esta ocasião, e que aquele diário deveria chegar ao seu conhecimento e de sua família justamente do jeito que se deu, passo a passo, momento a momento, assim as emoções se justificariam e dariam mais ênfase ao teor do que foi propositado e deixado a mercê de nossas descobertas. Decidiram em sair para almoçar, àquela altura dos acontecimentos a fome lhes despertava o desejo, e depois passariam na casa de seus cunhados para buscar Augustinho e juntos retornarem à antiga casa do avô. A partir daquela hora, Gregório passou a dedicar seu tempo na profunda análise e interpretação da obra deixada por seu sogro. O que poderia nos revelar através de seus escritos? O que sabia a respeito dele era o trivial, que tinha sido um veterano de guerra nos tempos do império, muito amigo de sua falecida mãe, respeitoso jurista e que tudo fez pela sua educação e formação acadêmica, além, claro, de ser o genitor de sua querida e amada esposa. No breve retorno à casa de seu falecido sogro, acompanhado de Augustinho e Madalena, foram direto para o grande sofá próximo à cristaleira que ficava ao lado do piano, enquanto Gregório se dirigia ao quarto para, em seguida, retornar com o manuscrito de autoria do Dr. Augusto. Augustinho sentado no centro do sofá e abraçado à sua mãe, enquanto olhava para a capa daquele miste45


rioso objeto, mentalmente repetia o que conseguira ler NIOAC, em letras todas maiúsculas e em negrito; seu pai sentado em frente, cruzou as pernas com a direita sobre a esquerda, abriu a capa do livro, passando a ler em voz alta para que a família ouvisse. Seu pai e sua mãe já haviam contado sobre a descoberta durante o almoço, Augustinho também lhes relatou sobre o ocorrido no quintal da casa de seus tios, mas os pais pensaram se tratar de um sonho ou algo parecido, não deram muito crédito para não deixar o filho impressionado, achavam mesmo que o menino havia sonhado. Afinal, as crianças têm mesmo imaginação fértil. Em leitura, seu pai respirou fundo e repetiu o que lera inicialmente, “NIOAC – Uma história sobre a guerra do Paraguai, janeiro de 1912, aos meus filhos e netos e aos filhos destes”. Éramos todos ouvidos e mentes.

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Capítulo VI

Finalmente Nioac

Continuando a leitura, Gregório repetia em boa voz aquilo que seus olhos fixavam com ardor... Queridos filhos, filhas e netos. Certo estou de que Gregório ou Madalena, senão ambos, hão de encontrar este que será meu maior tesouro deixado aos meus, minhas memórias nunca dantes reveladas a qualquer que seja, da qual fui prisioneiro por muitos e muitos anos. Serei fiel em minha narrativa buscando recordar de tudo um pouco, sobre os acontecimentos que pude experimentar por força de meu destino e, também, o de meus companheiros de expedição, naquela que foi a maior de todas as provações a que um ser humano poderia suportar. Durante a campanha do Paraguai, adquiri o hábito de redigir missivas a destinatário imaginário, isto devido ao fato de não saber se conseguiria sobreviver às agruras daquela que parecia uma 47


infindável jornada, ajudava-me a passar os dias, servindo-me como distração. Pois agora, vocês terão a oportunidade de ingressar nesse que foi o meu permanente pesadelo. ... Província do Mato Grosso, Império do Brasil, 24 de janeiro de 1867: Vila de Nioac. Desde o dia 1º de janeiro que o coronel Carlos de Moraes Camisão está no comando da coluna designada oficialmente por Corpo Expedicionário em Operações do Sul do Mato Grosso, da qual orgulhosamente faço parte desde que estou em exercício no exército brasileiro. Alistei-me, como voluntário da pátria, há dois anos com dezenove anos incompletos, com base no decreto Imperial 3.371, de 7/1/1865, e com quase vinte e um ainda não consegui ver o inimigo de frente, sequer nos flancos ou retaguarda. Nosso inimigo comum no momento é a mortal perneira, ou beribéri como a chamam nossos oficiais médicos, que já conseguiu ceifar alguns de nós, inclusive até oficiais, também o desabastecimento e o tempo que, quando não chove, faz um calor ardente. Servi na corte, inicialmente como praça de pré, durante alguns meses e depois fui designado para acompanhar os oficiais da Engenharia comandados pelo tenente-coronel Juvêncio, no posto de anspeçada, algo entre soldado e cabo; tinha como grande vantagem saber ler e escrever bem. Em Uberaba, fui incorporado ao 17º Batalhão de Voluntários, para completar o contingente que sofreu desfalque devido às deserções. Ainda que passado algum tempo, recordo-me da indignação 48


de minha mãezinha ao saber do meu alistamento, nosso diálogo foi regado por lágrimas: ... − Minha querida mãe, o Brasil conta com sua juventude, nós fomos agredidos e devemos reagir, quem senão nós? − Meu filho há tantos outros, e você está indo tão bem nos estudos, no trabalho com seu pai... − Bem sei, minha mãe, mas também meus colegas da Escola de Direito alistaram-se, chegamos até a fazer uma manifestação no Campo de Sant’Ana. − O que seu pai disse? − Não disse nada, apenas isso: “vá com Deus e se cuide”. − Não acredito, um pai sem juízo, sem sentimentos, que deixa seu próprio filho ir para uma guerra que nem sabe aonde. − Não vou senão pela causa, preciso de seu consentimento, o povo está todo nas ruas exigindo uma resposta enérgica do Imperador, a imprensa está como um leão a rugir. − Mas o Imperador só sabe criar problemas, antes era com o Uruguai agora com esse tal de Paraguai. − Mãezinha querida, o Imperador não faz outra coisa a não ser apagar incêndios, o senador Furtado cobra determinação. Imagine-se no lugar daqueles que foram prejudicados com a invasão no Mato Grosso, estão agora talvez passando fome e medo. Solano López é um usurpador, aproveitou-se da questão no Uruguai para se apropriar de parte do nosso território, seu propósito está mais do que claro. − De política e guerra não entendo nada, um coração de mãe só quer o bem para um filho. 49


− Como lhe disse é por uma causa, nossos irmãos brasileiros, nosso território, nosso país, nossa história de conquistas e lutas, não podemos deixar isso tudo de lado e fingir que a guerra não existe, muitos já derramaram o seu sangue para que o nosso povo se tornasse independente e soberano, não será justo esquecê-los agora. − Se é pela vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo e glória de Deus... − Pois o santíssimo juiz ao final deste acontecimento que entrará para a história saberá mostrar quem estava com a razão. Como posso te impedir dessa loucura? − Não é loucura, mamãe, é patriotismo, é o dever para com o meu povo e a história de meu povo, seguirei feliz por saber que tenho uma mãe como a senhora, que me dá toda a proteção de que necessito e me ampara em suas orações. − Mas muito medrosa, pois quem sabe quanto tempo pode durar uma guerra? − Não, cautelosa, e, se todos os voluntários tiverem uma mãe como a minha, ganharemos esta guerra em pouco tempo. Já estou nessa há dois anos e nem sinal de que está para acabar, esses paraguaios além de cometerem barbaridades são teimosos, poderiam ter terminado com isso desde Uruguaiana, os chefes da Tríplice Aliança estavam todos lá quando o general paraguaio se rendeu, o povo dele talvez prefira a paz. Porém caberá sempre ao El Supremo a decisão final, esse parece não medir sacrifícios e consequências de seus atos. 50


Nossa marcha até Nioac só nos têm trazido baixas e descontentamentos, muitos casos de deserções provam isso, desde Cochim não percebemos se é estratégico ficarmos vagando de lugarejo em lugarejo, poderíamos aguardar em alguma localidade bem abastecida de água e víveres, obter reforço de mais tropas que servissem para engrossar a Coluna e fortalecer defesas na fronteira. Comenta-se que o coronel Camisão deixou o forte de Corumbá na mão dos civis e deu no pé juntamente com o restante da tropa e o comandante coronel Carlos Oliveira. Segundo nossos informantes, Nioac fora abandonada em 2 de agosto de 1866, quando chegamos só encontramos casas abandonadas e destruídas, construções incendiadas e apenas a Igrejinha estava de pé. O coronel determinou nosso posicionamento numa matinha próxima ao Orumbeva, e algumas edificações que ainda se mantinham de pé serviram de hospital para os necessitados, enquanto no interior da Igreja manteve-se um depósito de munições. Nosso contingente era formado por paulistas, mineiros principalmente, goianos, amazonenses, paranaenses, cariocas e uma pequena tropa de mulheres, crianças e mercadores, que nos seguiam desde Santos em suas carroças ou no lombo de algumas mulas, além de alguns indígenas inimigos dos soldados guaranis. Mas quem passou a chamar mais a atenção da tropa foi o guia José Francisco Lopes, fazendeiro criador de gado há alguns anos no Mato Grosso, todavia natural da Vila de Pihum-i em Minas Gerais, este compartilhava com nosso comandante a todo tempo sobre configurações de terreno, distâncias aproximadas, víveres e 51


lembranças de seus familiares feitos prisioneiros nas mãos dos paraguaios após a maliciosa investida. Dentre alguns oficiais, destacava-se pela inteligência e compostura o tenente bacharel do Corpo de Engenheiros, Sr. Taunay. Durante nossa longa marcha consegui fazer muitos novos amigos na tropa, Antonio, o mais animado, o sargento Antero, que tinha o apelido de sabiá, pois vivia a cantar modas de sua terrinha, os soldados Adriano e Cândido, que não paravam de falar das mulheres, as vivandeiras e amásias que nos seguiam, sempre dispostas a oferecer um ombro acolhedor aos nossos corpos despojados pelo cansaço, ajudavam muito na tarefa de lavar, cozinhar e serviam de enfermeiras aos oficiais médicos nos hospitais de campanha improvisados nos acampamentos. Um rapaz também jovem como eu e com vinte anos, cujo aniversário se deu no último dezembro, fazia parte de meu batalhão e me acompanhava desde o Rio de Janeiro, tínhamos em comum o fato de sermos acadêmicos de Direito da mesma escola. Enquanto fui formado no Liceu, o camarada havia se formado no Colégio Imperial Pedro II. Seu nome era Daniel Zebra de Morais, também ocupando o posto de cabo. Como éramos muito falantes e sempre almejando apresentar bom humor diante da tropa, nos identificamos e começamos a trocar ideias a nosso respeito e sobre nossas famílias. Daniel tinha um sorriso largo no rosto, cabelos castanhos e os olhos azuis, sua pele muito clara ficara como cor de pimentão devido ao intenso sol ao qual estávamos sempre expostos, esbanjava juventude em seu semblante, todos o admiravam pela sua jovialidade e persistência diante dos acontecimentos. 52


Capítulo VII

Momentos

Nossa estada em Nioac serviu para elevar o moral dos praças, reavivar esperanças, aspirar glórias e atos de bravura, bem como, o entrosamento entre toda a tropa. O grosso do pessoal constituía-se de negros, pardos e mestiços. Toda essa gente vivia e convivia cordial e respeitosamente, os incidentes quando ocorriam eram de caráter exclusivamente particular, uma discussão ou outra a respeito de jogo ou política, muito raramente havia caso de agressão entre os praças, todos muito disciplinados e vivendo grande expectativa de finalmente poderem se encontrar com o famigerado inimigo. Os negros se esquivavam de participar das rodas entre os de peles mais claras, não que os evitássemos, mas por pura precaução diante do fato de terem sido escravos; tinham espírito corporativo e assumiam as tarefas com alto grau de desempenho, nunca reclamavam, jamais demonstravam cansaço senão 53


diante da extrema fadiga pela qual passamos na marcha de centenas de léguas e que culminou com uma epidemia mortal que tirou a vida de muitos dos nossos camaradas, e provocou sensível deserção. Já não contávamos com o mesmo contingente, estávamos em menor número que antes, e o tão prometido reforço nunca haveria de chegar. Antes de nossa partida, determinou assim o coronel Camisão que as mulheres e acompanhantes, com um pequeno número de soldados, comandados por um oficial, deveriam guardar posição na vila, e, se necessário fosse, embrenhar-se nas matas próximas para oferecer resistência ao inimigo, desde que assegurassem proteger mantimentos, alguma pólvora e cartuchos que serviriam como apoio ao retorno da coluna expedicionária. Após inúmeras conferências entre os oficiais e o guia Francisco Lopes, finalmente se decidiram por prosseguir rumo à fronteira, mesmo diante da escassez de víveres e do minguado gado existente. Nosso coronel era mesmo durão e queria vingança, apoiado pelo guia Lopes que desejava imensamente voltar a ver seus familiares que se encontravam nas mãos do maldito exército paraguaio. Partimos em 25 de fevereiro em formação ajustada com a vanguarda formada pelo 21º Batalhão de Infantaria, durante todo o trajeto de Minas até Mato Grosso, seguidos exercícios de ordem unida e treinamentos de combate foram empregados. Dos doze canhões La Hitte que trouxemos de São Paulo, dispúnhamos de apenas quatro, comandados pelo metódico e eficiente major Cantuária, cujos subordinados sempre demonstraram muito zelo. Nossos músicos animavam nossos corações 54


com as marchas de campanha. Nossos víveres estavam se escasseando, deslocamo-nos uma légua abaixo da vila de Nioac e tornamos a acampar. A tropa sentia falta das rotineiras refeições, alguns já sabiam até o que podiam comer do mato ou da pesca em alguns riachos. Em 2 de março nos encontrávamos à beira de um rio de nome Feio, onde permanecemos até o dia seguinte devido ao péssimo tempo que se apresentou no momento. No pantanal, o terreno é ligeiramente plano, com poucas elevações, muitos banhados cercam toda a região e, quando há chuva, pequenos riachos se transformam em grandes torrentes d’água, e os banhados, em grandes lagunas. A vegetação é pouco variável e as espécies vegetais são sempre repetitivas, muita variação de pássaros e animais selvagens, vez ou outra sobrevoavam sobre nossas cabeças bandos de maritacas, observamos também a existência de miríade de insetos e animais rastejantes, principalmente cobras; houve quem dissesse ter visto uma com mais de oito metros, provavelmente uma jiboia. Próximo aos rios há sempre abundante vegetação, e em alguns pastos nota-se clareiras cercadas de uma mata nativa e exuberante. O clima varia de intensidade muito rapidamente, de dia é quente e úmido, e a noite é fria, quando chove é extremamente fria. Ventos costumam soprar com grande intensidade se antecipando às chuvas, estas quando se precipitam do céu são acompanhadas pelos mesmos ventos de antes. Nossos sertões brasileiros são admiravelmente belos, pena que tal contemplação se dê em tempos de guerra, gostaria muito de um dia poder voltar para melhor apre55


ciar as paisagens que aqui são como coisas parecidas com contos sobre eldorados, terras longínquas e paradisíacas. O guia Lopes retornou de sua estância do Jardim com mais de duas centenas de cabeças de gado, para alegria e satisfação de todo o pessoal que se encontrava faminto e com estômagos a roncar como carro de boi. Acreditamos que isso se dera porque haveríamos de invadir o Paraguai, finalmente. No 4º deste mesmo mês, deslocamo-nos aproximadamente 80 km para o sul de Nioac, atingindo na tarde deste dia a colônia de Miranda, encontramos casas e plantações incendiadas. Houve neste dia uma tumultuada reunião entre os oficiais e comandantes, os chamado Conselho de Guerra. Diziam que o coronel Camisão desejava adentrar o Paraguai, mas que os jovens oficiais relutavam devido à escassez de víveres e munições. Alguns dos nossos ouvidores de pé de barraca, informavam-nos que eles já se tratavam aos gritos, que o tenente-coronel Galvão por várias vezes chegou a pedir calma no recinto e que o tenente Taunay punha-se a tudo ver, ouvir e escrever. Quando chegou a vez do tenente-coronel Juvencio falar, este declarou não ser favorável ao prosseguimento da coluna, visto serem medidas práticas a tomar dado as dificuldades existentes, já não dispúnhamos mais de nossa cavalaria. Os informantes chegavam com as notícias, cada vez mais preocupados com o desfecho da situação, afinal iríamos ou não invadir o Paraguai e impor a merecida revanche? A tropa estava ansiosa pela conclusão, pelo sentimento desses nem que fosse de56


baixo de tempestade, a ideia de segurar a posição era inconcebível, queríamos lutar e já! Foi no clímax da discussão que adentra pelo acampamento o ilustre guia Lopes com bom número de rezes apanhadas nos pastos de suas fazendas próximas, animando com isso toda a tropa, que o saudara com euforia. O tenente-coronel imediatamente saiu da barraca onde se reunia o conselho e retornou dizendo: ”Deixo viúva e seis órfãos, que terão como única herança um nome honrado!”. Terminada a Ata do Conselho, foram imediatamente comunicar ao coronel comandante da expedição, que muito se alegrou, pois era seu desejo particular desde o acontecimento já narrado sobre Corumbá, podia salvar a honra, moderadamente pôs-se a reunir com os demais oficiais para planejarem a incursão. Notei a todo tempo como o guia sr. Lopes observava o comportamento da oficialidade, mantinha-se sereno sobre seu cavalo, porém sem deixar de exibir um minúsculo sorriso de contentamento, que poderia ser pela oportunidade de tentar resgatar algum parente próximo. Permanecemos estacionados neste ponto até o dia 10 de abril. O comboio de carretas transportando mercadorias nos localizou e, com elas, as mulheres que haviam ficado em Nioac. Durante este período foram realizados diversos reconhecimentos, preparativos e treinamentos. Impressionante é que, quando nos reuníamos em volta do fogo, falávamos das coisas de casa, mesmo com o choro de alguns, não havia quem se deixasse abater, tudo pelo qual estávamos passando tinha um sentido, a defesa do Brasil e dos brasileiros. Chegamos a comentar se a guerra 57


já não estaria em seu final, que provavelmente nossa incursão poderia ser uma das últimas, pois quase não víamos presença do inimigo, exceto numa ocasião em que o tenente-coronel Juvencio e dois auxiliares localizaram um ponto conhecido por Retiro, e puderam constatar que ficaram ali por algum tempo um destacamento paraguaio de aproximadamente 100 homens. No começo de abril, meu 17º recebeu ordens de realizar reconhecimento além do ponto onde o 21º já havia alcançado. Retornamos dois dias após, sem nenhuma alteração com grande significado para o comando. Nesta noite, Daniel e eu apreciávamos as estrelas enquanto tomávamos uma meia porção de aguardente, comprada junto aos mercadores, que nos ajudava a aquecer os ossos. Foi quando ele me contou sobre um romance que surgiu no acampamento de Uberaba. Lá conheceu uma moça quatro anos mais nova, que acompanhava sua mãe no comboio de mercadores. Chamava-se Aurora, era órfã de pai desde os cinco anos e cresceu filha única. Tanto o pai, português, quanto a sua mãe trabalhavam na venda ambulante, corriam de vila em vila, aldeia em aldeia, a oferecer tecidos, mantimentos e milagrosas receitas para a cura de bicheira, febre, dor de cabeça, diarreia, tosse, bronquite... Daniel descrevia a moça como uma deusa grega, um mito, a fonte de todas as inspirações, a mais perfeita das mulheres, estava realmente apaixonado. Quando da nossa estada em Campinas, conseguimos assistir a um baile promovido pelos aristocratas da região em homenagem ao Corpo Expedicionário. Como 58


a entrada era apenas permitida apenas aos oficiais graduados, ajeitamo-nos como camaradas de dois capitães, uma espécie de ajudante. Permanecemos o tempo todo de pé próximos à saída dos fundos do casarão, que dava acesso ao pomar, dali podíamos observar tudo e todos, nos nossos uniformes de gala e botas lustradas que mais pareciam espelhos. Vimos quantas mulheres bonitas há por toda a parte do nosso Brasil, mas nenhuma chegou a encantar tanto a mim ou ao Daniel. Mesmo longe da minha Thereza, não podia esquecer de promessas feitas quando da ocasião do embarque no Rio de Janeiro para o porto de Santos; sabíamos que não importava o tempo que durasse a guerra, ela e eu tornaríamos a nos encontrar, sob a graça e proteção de nosso padrinho Santo Antônio, para então depois realizar o nosso grande sonho. No 10 de abril, o corneteiro dá o toque de alvorada com o nascer do sol. Levanto-me ainda com os músculos tensos e doloridos devido aos exercícios e treinamentos do dia anterior, o coronel era mesmo exigente com os preparativos de combate, não nos deixava morcegar. Descanso mesmo só à noite à beira da fogueira. Daniel e eu depois de lavar as mãos e os rostos apressadamente nos apresentamos de pé em posição de sentido, após endireitarmo-nos em nossos uniformes e botas, fielmente acompanhados de nossa dama miniè, nosso inseparável fuzil, capotes, patronas e barretinas. Depois da chamada do sargento Antero, fizemos fila para a ração matinal. Reingressamos nas filas para recebimento da munição, ração, farinha, rapadura, charque... Notava que Daniel já havia reparado na presença de Aurora, que se encontrava 59


sob a sombra de uma palmeira, numa elevação de diminutas dimensões. A brisa da manhã soprava seus cabelos, e seu sorriso alvo combinava com o azul-celeste ao fundo, lentamente levou a palma da mão direita aos lábios e fez o gesto característico de quem manda um beijo ao vento na direção onde se encontrava Daniel, este levantou a mão que carregava o fuzil e lhe deu adeus com a outra. Assim que Daniel correu para se juntar ao seu grupamento, ainda pude perceber que Aurora levava as duas mãos ao rosto como quem esconde um choro, uma dor, a dor da saudade. Para todo e qualquer soldado a missão é certa, porém a certeza de seu retorno só a Deus pertence. Nossa partida se deu com um garbo magnífico, todo o Corpo Expedicionário estava imponente, os músicos não paravam de executar hinos, a bandeira do 17º tremulava sob um esplêndido céu pantaneiro, nossa marcha se deu como verdadeiro espetáculo, nosso coronel orgulhoso emitia ordens, finalmente tinha um exército bem treinado e disciplinado. Os negros estufavam os peitos e pisavam forte o chão, sentiam-se homens livres e capazes, erguiam suas cabeças e seguravam com firmeza seus fuzis, orgulhava-me de estar servindo junto dessa gente tão valorosa, minha família nunca teve escravos, meus professores em grande maioria eram abolicionistas; a artilharia movia em perfeita ordem seus canhões e perfilavam suas bandeirolas à frente das peças. O coronel seguia com os ares do mundo, dono de si e seguro da situação, tinha homens à sua frente dispostos a lutar e morrer, se preciso fosse, pela glória do Império e orgulho do Brasil. A tirania de López para nosso coro60


nel tinha seus dias contados, “não há mal que dure para sempre”, é o que deveria estar pensando. Viva D. Pedro II! Viva o Brasil! Bradava a tropa. No dia 11 de abril, surge uma surpresa! O 17º Batalhão se encontrava em reconhecimento com o fiel guia, assim que retornamos ouvimos comentários a respeito de terem encontrado o filho de José Francisco Lopes junto a um grupo fugitivo do jugo paraguaio, tendo este sido chamado às pressas pelo comandante Camisão em sua barraca. Assim que retornamos com o guia, ele também foi chamado à barraca do coronel. Vimos quando o filho de Lopes saiu da barraca e foi receber seu pai, o encontro dos dois foi algo extremamente comovente, enquanto se abraçavam, ambos se entregaram aos prantos. Uma cena inesquecível aquela. Logo depois, Lopes monta em seu cavalo, estende a mão direita ao filho e lhe dá a benção e segue em direção aos postos avançados. Toda a tropa se sentiu sensibilizada diante daquela cena tão humana e cristã. Qual homem naquele lugar e naquela hora não se lembrou de sua família... Distante dos nossos, encravados e quase perdidos no sertão do centro-oeste, na caça ao inimigo, como a guerra apesar de todos os males pode produzir fato tão marcante quanto aquele.

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Capítulo VIII

Ao Apa

Ao chegarmos no acampamento com o guia Lopes, e após ele finalmente ter encontrado seu filho, um grande grupo de praças no quartel improvisado gritava solenemente “ao Apa!, ao Apa!”. Logo ficamos sabendo que se tratava da decisão do comandante de seguir rumo à fronteira e romper o Paraguai adentro. Dava para perceber que não somente o precursor Lopes e o coronel Camisão ansiavam pela ida ao território paraguaio, mas também boa parte da tropa. Aquela manifestação seguida de euforia só vinha corroborar com as expectativas de alguns dos oficiais. Confesso que ainda tinha algumas dúvidas a respeito, a fama de guerreiros perspicazes e denodados dos soldados paraguaios havia de ser sempre considerada. Durante toda a marcha de Miranda a Nioac, havíamos constatado sua presença por meio dos rastros de destruição deixados aos olhos de 63


quem por lá transitasse, dando mostras de sua determinação e capacidade de ataque. Nossos camaradas tinham em mente que tudo o quanto poderiam fazer em nome do povo brasileiro seria dar-lhes a merecida lição em seu próprio território, nosso orgulho ferido seria vingado em solo guarani. Todavia não contávamos com significativo contingente para isso, além de marcharmos sobre um terreno desconhecido e inóspito, sem cavalaria, pois seus cavalos foram vítimas da peste equina em Miranda. Aos 13 de abril, seguimos adiante, com o 17 na retaguarda seguidos do material, comércio e mulheres, este em grupo bastante elevado, e o gado. Daniel marchava ao meu lado, sempre otimista dizia que o Deus dos exércitos estava conosco e que não tínhamos o que temer, as coisas haveriam de sair conforme os oficiais planejavam. Lembro-me naquela ocasião de debater com Daniel sobre a incursão: − E então, Daniel, o que tens pensado a respeito da invasão? − Olha, Augusto, Deus é sábio, trouxe-nos até aqui e não por outro motivo que não seja o de provar a nossa bravura, a coragem do soldado brasileiro. − Mas não dispomos de cavalaria nem homens suficientes, lembra-se? O filho do Lopes afirmou ao coronel de que o destacamento paraguaio aguardava reforços que viria acompanhado de um oficial de alta patente, isso carece de achar que deverá entrar em ação possivelmente algum batalhão ou regimento. − Mas o que tu farias se fosses o comandante, ficarias na retranca? 64


− Bem, ser o comandante é outra situação, primeiramente ele dispõe de meios e informações os quais não chegam até o nosso conhecimento, é difícil analisar desta forma. − Mas, então, na tua conjectura de cabo do 17º de Voluntários, o que achas melhor para a Coluna e todo o comboio? − Talvez ordenasse permanecer baseado em Nioac até receber os reforços prometidos pelo presidente do Mato Grosso, aí, sim, depois planejaria a invasão com mais recursos, tempo e informações. − Não haveria também os paraguaios de ganhar tempo e reunir maior número de elementos e realizar uma contra ofensiva mais vantajosa? − Sim, certamente, mas em nosso território, pois que estaríamos em vigilância constante. Se déssemos a sorte de batê-los em retirada, passaríamos a ser os caçadores e não a caça. Devemos sempre procurar nos impor e não o contrário. − Pensas que em solo paraguaio a vantagem é deles? − Sempre será, não há como não considerar este fato. − Augusto, tu és sempre muito cauteloso, serás um bom advogado um dia, tenho certeza disto, mas, como tu mesmo disseste anteriormente, “ser comandante é outra situação”. − Bem sabes, meu caro. − Deus há de intuir e iluminar as mentes de nossos líderes e saberão o que fazer nos limites do que é correto, ademais não há pelo que temer, o que tiver de acontecer será. 65


− Espero, Daniel, espero... Deus seja louvado em sua sábia determinação sobre o que será de nossas vidas então. − Deus é pai e generoso, louvado seja. − Não nos esqueçamos de que o nosso Deus é também o Deus de nossos inimigos. Passamos a marchar sobre pequenos planaltos e depressões em paralelo, avançando sobre a campina. Em 19 de abril, tendo marchado a tropa de forma a alternar os grupamentos nas posições de dianteira, flancos e retaguarda de nossa coluna, ocupava a vanguarda o 21º Batalhão, com ordens de não se distanciar em demasia do corpo da tropa, entretanto por distração dos líderes de grupamentos, acabamos por nos distanciar uns dos outros, fato provocado pela empolgação verificada em nosso pessoal. Ao chegarmos ao Taquaraçu encontramos a ponte recém-destruída pelos inimigos, sinal de que estavam não muito distantes. Nossa Engenharia tratou de reconstruí-la em pouco mais de uma hora de eficazes esforços. Daniel se oferecera como voluntário para o tenente Catão Roxo, sob a permissão de nosso oficial, comandante capitão Muzzi, com intuito de minimizar o máximo o tempo de reconstrução. Além de Daniel, outros praças também o fizeram. Fiquei como sentinela avançada durante esse tempo sobre uma colina recheada de palmeiras, deitado de bruços com o fuzil à minha frente, a tarde mal começara e o Sol se punha a pino. Dado instante, percebi que do meio da mata, distante um quarto de légua do ponto onde me encontrava, passava a galope um cavalariano em uniforme paraguaio. Retornei ao encontro imediato do tenente Rafael Tobias, que comandava o destacamento 66


avançado, e este se pôs a informar nosso comandante coronel Camisão. Este determinou imediato retorno à marcha de supressão sobre o inimigo. Nas poucas léguas à frente, nossa vanguarda estacionou diante de um pelotão de cavaleiros guaranis que os observavam meticulosamente a menos de meia légua, as demais unidades logo se aproximaram da vanguarda. Por ser Sexta-Feira Santa, hesitou nosso comandante a dar ordem de ataque, nossos inimigos ficaram postados a mirar nosso contingente e perplexos pelo número de homens que encontraram, esperavam que fosse uma quantidade bem maior, cinco ou seis mil talvez. Daniel indignava-se com o fato. − Vejam como são presunçosos esses paraguaios, sentam-se à sombra das palmeiras e nos desprezam como se fossemos um bando de idiotas. − Calma, Daniel, é só um jeito de nos provocar, se estivessem em maior número teriam nos atacado certamente. − Bárbaros é o que são, pilham, degolam e estupram. Não muito depois ouvimos um estrondo de uma das nossas peças La Hitte, era a resposta dada pelo tenente Marques da Cruz, que acabara de lançar uma granada que se espatifou no pé de uma das palmeiras em que nossos inimigos se recostavam, indo causar um verdadeiro reboliço entre os guaranis. Outra e mais outra, vimos os soldados inimigos retirarem-se a galope apressados em todas as direções. Toda a gente delirou em nosso meio, demonstrando apreço pela eficácia de nossa artilharia, dando mostras ao destemido inimigo de que éramos poucos, porém determinados. 67


Seguimos em direção às margens do Apa. Lá chegando, nosso comandante pediu que lhe servissem um copo com a água deste que era o divisor entre as duas nações beligerantes. Nossos soldados atravessaram o rio e se colocaram a gritar que iriam tomar o Paraguai. Foi-nos dado ordens para acampar à margem brasileira. No dia seguinte pela manhã, retiramo-nos avançando sobre a margem direita do Apa, eis que nos encontrávamos na vanguarda distantes do restante da coluna, liderada pelo tenente-coronel Enéas Galvão, quando então sobreveio um intenso e furioso ataque da cavalaria inimiga sobre nossas posições, que naquele momento faziam reconhecimento à fazenda da Machorra, em solo ainda brasileiro. Um determinado grupo de soldados do Paraguai punham-se a reduzir a cinzas a fazenda. Um pelotão de atiradores foi destacado a se posicionar sobre a ponte e fazer fogo ao inimigo com o objetivo de protegê-la, não teve outra alternativa o comandante inimigo a não ser mandar retirar seus cavaleiros e bater em debandada deixando no campo alguns corpos dos seus companheiros mortos. Apesar de estarem em bom número, ordenadamente se puseram a desaparecer da mesma forma como surgiram. Depois que a poeira baixou procurei localizar Daniel que havia se posicionado como um dos que foram à ponte defender a posição. − Daniel! − exclamei agitando o braço para que me encontrasse no meio do Batalhão. − Aqui, Augusto. − Como estás? 68


− Por enquanto bem! Sem nenhum arranhão. Respirei aliviado, pois era meu melhor amigo e camarada naquela longa provação. Rezava para que nada nos acontecesse, haveríamos de dar muitas risadas um dia numa das tabernas chiques de São Cristóvão, quando recordaríamos aqueles duros dias pelos quais passamos e ainda estaríamos por atravessar. O coronel Camisão chegou com o restante da coluna e estes gritando “vivas!” ao nosso pessoal, veio apressado quando percebeu que nos distanciamos em demasia e ouviu os estampidos de nossas miniè. Alguns índios que nos acompanhavam iniciaram o saque sobre os corpos dos paraguaios mortos na pequena batalha, imediatamente reprimida por ordens de nosso honrado comandante, que por ser fiel religioso da Santa Igreja Católica repugnava tais barbaridades. Respeito para com os cadáveres é o que ordenava, por serem bravos defensores de suas causas, mesmo que estas não sejam por nós compartilhadas, o soldado morto é o estandarte da glória, seja de qual bandeira for. Naquela data, pela primeira vez, refleti sobre como seriam as mães daqueles que ali deixaram seus ossos, não muito diferente das nossas, pois que eram cristãos como nós, cultuavam o valor da família e o de Deus como nosso pai e criador. Fizemos levantamento das condições como ficaram as edificações da fazenda, umas duas ou três se reduziram a cinzas, as demais continuaram de pé. A fazenda da Machorra próximo ao Apa, após a invasão paraguaia, recebeu tratamento por parte do governo paraguaio vindo a denominar-se fazenda do Marechal, por 69


ter o ditador tirano se apropriado desta de modo não legítimo, encontrando-se além da histórica fronteira no lado brasileiro. Muitas ervas, plantações de batatas, mandioca e aviário estavam aí destinados agora ao nosso farto rancho. Quando pude finalmente me encontrar com Daniel, disse-lhe: − Esta é uma prova de nossa valentia e coragem, aqueles que duvidam de nossa capacidade de resposta há de perceber que temos fibra. As orações e preces das mães brasileiras parecem ser poderosas, estamos a umas poucas centenas de metros do Paraguai e até agora agradecemos ao Senhor por estarmos vivos e sãos. O nosso 17 é bravo na luta e duro na queda. − Pois, Augusto, disseste bem as tuas palavras, deixou-me com mais coragem.

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Capítulo IX

Rumo a Bela Vista

Aos 21 de abril de 1867, pela manhã, os corneteiros iniciaram pelo toque de seus clarins, a marcha que daria prosseguimento à invasão tão pretendida pelos que assim almejavam. Avançar sobre o forte de Bela Vista exigia entrar em território inimigo, cuja missão elevava os ânimos mesmo daqueles menos propensos. Prepararam os uniformes e cambiaram as bandeiras surradas pela intempérie, reluziam novas a verdejar o azul-celeste dos céus de nosso imenso Brasil, partimos em marcha cadenciada. Em seguida, transpúnhamos o Apa. A vegetação no ambiente era outra desde a Machorra, não mais a gramínea, tipo pasto, mas um tipo de erva daninha que seco e tão crescido dificultava o trânsito, eram campos de qualidade um tanto quanto inferiores. Os atiradores que flanqueavam nossa coluna dispuseram-se a dar talhos e derrubá-las pelo corte de seus afiados facões. 71


O 20º Batalhão de Infantaria, unidade da província de Goiás atuava na dianteira da coluna, desde a travessia do Apa, sobrepondo-se a este um pelotão de batedores comandados pelo alferes Miró; avistávamos Bela Vista logo à frente, sentíamos debaixo de nossos pés o solo Paraguaio. O guia Lopes galgava à frente em sua montaria subtraída dos paraguaios pelo grupo que acompanhava seu filho, imbuído de sua necessidade de vingança, face ao sequestro de sua mulher, recordava-se das cenas flagradas sobre as atrocidades do inimigo, que nos foram provados serem comuns por parte dos beligerantes guaranis cada vez que mais avançávamos. Daniel com um silvo de seu assovio postado do lado oposto em que me encontrava no quadrado em marcha, chamou-me a atenção para mostrar o que se via à frente por sobre a macega, rolos de fumaça cinza despencavam-se em direção às nuvens saindo por detrás das instalações do forte. Informado pelos batedores, o coronel se pôs em grande pressa a encontrar a vanguarda, foi-nos dada a ordem de nos deslocarmos em marcha acelerada. Encontramo-nos sobre um elevado do terreno que se encontrava próximo à vila de Bela Vista e seu estratégico forte. Vimos à distância de mira, quando alguns civis retiravam-se dos arredores com grande agitação, alguns a pé, outros a cavalo, e de como deixavam tudo a arder, inclusive as estacas de madeira do forte. O forte se encontrava completamente desguarnecido e desprotegido, evacuado à vista de nossa presença e aproximação. Gabava-nos de ser os primeiros a pisar no sertão norte do território paraguaio, imaginem o que sentíamos ao 72


ocuparmos posição em Bela Vista? Orgulho nos enchia o peito, porém com a cautela merecida, afinal pretendíamos combater no terreno do inimigo. Enquanto fitávamos a olhar o que se sucedia naquele inóspito ambiente, ao pé de imensos buritis do alto do morro, postavam-se cavaleiros em sentinela a vigiar-nos montados em seus robustos cavalos. Se quisessem poderiam nos atacar, em vez disso nos espreitavam a distância segura. Certo de que tomamos o forte e ocupamos a posição estratégica de Bela Vista, confiante o coronel passou a denominar a tropa, antes coluna expedicionária, de “Forças em Operações no Norte do Paraguai”, despachando seus ofícios com essa qualificação. Minhas correspondências que saíram pelo malote do exército, com destino à casa de meus pais no Rio de Janeiro, levavam como timbre essa mesma marca. Como toda a tropa havia passado o Apa, foi dada a ordem de baixar acampamento no lado sul do Forte, no qual ficamos por alguns dias. Houve até um momento em que tentativas de conciliação foram feitas pelo comando da Força em relação ao outro lado, mas infrutíferas, na qual o nosso comandante foi alvo de grosseiras provocações, como o fato de receber uma carta em couro com os seguintes dizeres: “Avança, crânio pelado! Mal-aventurado general que espontaneamente vem procurar o túmulo. Creem os brasileiros estar em Concepcion − cidade mais ao sul ribeirinho do rio Paraguai – para as festas; os nossos ali os esperam com baionetas e chumbo”, segundo o que nos relatou um camarada do tenente-coronel Galvão. 73


Os dias e as noites se passaram calmos, mas sempre observados e vigiados pelos nossos guardiões da tropa paraguaia. Certa noite, diante de uma fogueira cercada de miríade de insetos voadores que se deixavam atrair por sua luminosidade, cujas labaredas aqueciam nossos franzinos corpos, resultado dos esforços empreendidos até aquela localidade desde Nioac, descansávamos do serviço da guarda e nos fartávamos no consumo de uma mísera parte da ração de farinha, sal e rapadura, quando ali reunidos uma breve interação surgiu. Lembro-me do soldado Vicente, natural de Diamantina, que fica ao norte da província de Minas Gerais, contar seus causos sobre a sua terra em especial a festa de despedida oferecida pelas autoridades daquela Vila, eis uma passagem no mínimo hilariante, contou-nos ele: − Sabem a do Alemão? − questionou-nos Vicente. − Não! − todos os presentes exclamaram − Não sabemos. Alemão era o apelido dado ao soldado Rastack, de origem prussiana, também um voluntário que se apresentou com seus 32 anos e que vivia em Diamantina com sua família. Muito boa gente, era muito falante, com sotaque arrastado, demonstrando-se tímido às vezes. Continuou o soldado Vicente: − Lá pelo dia 2 de abril, antes de nossa partida para Ouro Preto, todos se reuniram em praça pública para a despedida dos Voluntários, havia desde mocinhas e moleques até altas autoridades políticas e da Igreja, muita gente importante junto com nossos familiares, todo o povo da redondeza estava lá. 74


− Nessa hora todo mundo aparece! − exclamou um dos ouvintes. − Pois é, sempre assim... Mas o melhor de tudo é que, depois de todo o falatório e pompa, veio a compensação, um tanto de coisa pra comer e beber que nem dava conta de tudo. Tinha arroz branquinho, tutu, frango ensopado, assados de leitões e perus, farofa, saladas, vinho, cachaça, muita coisa mesmo. Foi servido na praça e nos reunimos em torno de grandes mesas. − Pára de falar em comida, Vicente, assim você acaba nos matando de fome! As gargalhadas partiram de todos naquele momento. O clima era de harmonia. − Daí vocês não sabem do que aconteceu depois. Os Voluntários satisfeitos puseram-se a cantar, pois Diamantina é a terra das cantorias. Algumas autoridades aproveitaram mais uma vez para o “peço a palavra”, e desta vez foi muito cansativo. Quando nosso comandante resolveu intervir e determinou ao corneteiro que juntasse a tropa, que sem muita experiência alinhou-se desordenadamente. Foi quando perguntou: “Quem dentre todos os Voluntários não deseja partir para o Mato Grosso invadido, que dê passo à frente...” Na roda o silêncio se fez ouvir, outros tantos já haviam se juntado ao grupo tal o interesse pelo causo de Vicente. − Nenhum de nós iria cometer o infortúnio de voltar atrás depois de tanta comemoração, quem se atreveria? A tropa fez que perdesse a língua e se tornou imóvel. Do meio da moçada aparece o Alemão que se adianta postando-se cara a cara com nosso rigoroso comandante, ajeitando o seu uniforme largo e frouxo. 75


− Nossa, que coragem essa do Alemão! − um infeliz do outro lado da fogueira comentou. − Silêncio! Deixa o homem continuar, sô. O comandante, não acreditando no que via, ainda mais por se tratar de um descendente de europeus, bravos guerreiros, imaginou logo o que poderia acontecer com o restante da coluna. Fitou profundamente seus olhos nos de Rastack e perguntou: “O que o traz aqui?” Respondeu-lhe: − Meu bom e nobre comandante, seria possível antes de seguir para a linha de frente, de pousar diante da morte que me aguarda, conseguir mais alguns pedaços de leitão com tutu, que esta muito apetitoso? − Sorridente o comandante repetiu em alto brado: ELE QUER MAIS LEITÃO COM TUTU! − E o alívio foi geral e a descontração por todo lado. Muitas risadas foram ouvidas àquele momento. Sucederam vários causos com base sempre nos dias de apresentação dos voluntários. Fazíamos questão de expor nossas risadas, mesmo diante do quadro de penúria que se mostrava cada vez mais degradante. Assim é o brasileiro, um forte e persistente otimista cuja esperança é inabalável, pois nossa terra assim nos ensinou. Alguns se recordavam da família que haviam deixado e lembravam com bom ânimo o desejo de tornar a vê-los. Vários desses meus companheiros tiveram seus ossos enterrados em lugares bem distantes de seus lares, jamais retornaram... Dado instante aproximou-se de mim o fiel companheiro Daniel. − Como está meu bom amigo Augusto? 76


− Dentro do que poderíamos chamar de bom, está tudo bem, e você? − Acabo de ver Aurora! − Como ela está? − Muito preocupada com os acontecimentos, também a sua mãe. Os soldados lhes levam notícias ruins, sobre as incertezas do nosso comandante e coisas do gênero. − Como assim? − Sabes que nosso coronel é movido pelo desejo de vingança, retaliação é o que ele pretende, mas tem certeza de que seu inimigo deve ser respeitado. − Afirmas que nosso comandante está diante de um dilema? Mais ou menos assim. Tem um nome a zelar e vidas a preservar. − Creio que o coronel não pensa e age sozinho, há o seu estado-maior para discutir ações e efeitos. − Augusto, tu que és tão crítico, responda-me: confias na liderança de nosso comandante, achas que o coronel sabe o que está fazendo? − Meu estimado Daniel, não cabe a mim julgar atos de nossos líderes, foram treinados para o exercício do comando e o cumprimento do dever, entretanto não podemos desconsiderar que comandantes são feitos de carne e osso, assim como nós. Cumpre-nos seguir suas ordens, pois delas decorrem nossos destinos. − Mas, Augusto, se um ato impróprio ou descabido tomar frente a uma determinada situação? − Estamos sujeitos até mesmo a isto. Mas devemos confiar, fomos instruídos a combater, não se vence uma 77


guerra com a crença voltada à incerteza. Nossa pátria confia em nós assim como devemos confiar em nossos companheiros. Minha vida depende disso assim como a sua e de todos aqui. − Entendi, meu ilustre amigo. − Agora, Daniel, conte-me mais sobre sua amada. − Ah, sim, falar de Aurora renova a esperança! Ao confessar seu amor por Aurora, Daniel se revela como um príncipe apaixonado somente representado nos clássicos romances, ardente, gracioso, um verdadeiro Romeu shakespeariano. Eis que interrompe nosso saudável diálogo o bom sargento. − Poupem seus fôlegos com tanta conversa! Amanhã teremos longa jornada e dura missão a cumprir, melhor seria dormirem o quanto ainda podem. Estava mais do que certo, todos tratamos de seguir suas ordens sem tagarelar. Exceto Juvêncio que não parava de reclamar das dores nos pés, estavam cobertos de bolhas por todos os lados. Nosso sargento o encaminhou para uma de nossas vivandeiras que se tornara especialista em cura pelas ervas. Um bom banho morno de matinho nos pobres pés doídos haveria de acalmá-lo por algum tempo. Gemidos mesmo acanhados eram comuns no acampamento, nossos médicos pouco podiam realizar, pois o estoque de medicamentos se tornava cada vez mais diminuto. Aí é que apareciam as benzedeiras e curandeiras de toda ordem, alguns casos até que conseguiam aliviar os sofrimentos, porém, em sua grande maioria, não. 78


A noite era propícia para os desanimados partirem ao encontro de seus destinos na mata, desertavam qual bando de andorinhas em dia de tempestade. Pobres mortais, seus dias estavam encurtados, pois paraguaio nenhum tolera covardes. Os índios ficavam agrupados meio que na periferia do acampamento, preferiam a convivência entre os seus iguais e falavam apenas o dialeto nativo, evitavam se fazer entender por meio do português, idioma que poucos dominavam. Já nossos negros estavam mais integrados com o restante da tropa. Finalmente começavam a perceber que todos estavam no mesmo barco, a vida de um dependia da vida do outro. Diante do inimigo em nossa mira, com seus projéteis zunindo sobre nossas cabeças e o sabre descendo seco em nossos corpos, encontramo-nos lado a lado como irmãos, a sua sobrevivência dependerá da minha e o contrário é verdadeiro, sabemos ser o herói um do outro, sabemos o verdadeiro significado da palavra amigo. As guerras servem para reforçar os valores que muito dos homens conhecem, reprisam momentos da história cujo clamor é a fraternidade. Haveremos de compreender um dia que reside neste sentimento a base para a solução para todos os problemas do mundo. Quando este dia chegar, mesmo que durem muitas décadas, nos comportaremos como membros de uma só família e guiados por único pai. Não viverei para contemplar, apenas espero desfrutar do paraíso que farei por merecer, se assim Ele nos permitir. 79


Não havia como negar, aquela altura dos acontecimentos todos se perguntavam sobre o porquê de estarmos ali, tanta provação tanto sofrimento... Bela Vista seria apenas o começo.

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Capítulo X

Frente a frente com o inimigo

Finalmente notávamos cada vez mais próxima a presença das tropas inimigas, houve até um contato por meio de mensagens entre nossos comandantes. De certo, cada qual fez a sua parte em pelo menos tentar persuadir o seu oponente. Mas a busca pelo heroísmo crescia no coração dos comandantes, o jogo de morte seria inevitável àquele momento da história. Urge que o sangue de ambos os exércitos haveria de banhar aquelas belas planícies. Deixamos Bela Vista e às margens do Apa-mi, com toda a tropa sobressaltada, recebemos a notícia de que deveríamos marchar para Laguna, mais adentro no território paraguaio, Daniel e eu nos encontrávamos em estado de alerta. Imediatamente após a notícia ter chegado à tropa, isto já em 30 de abril, recebemos a missão de

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ingressar em patrulha precursora. Aprontamos nosso material de campanha, pouca coisa nos restava, Daniel saiu em disparada para despedir-se de Aurora. Ao retornar, disse-me que sua amada o fez prometer de que voltaria vivo, como se isso pudesse ser cumprido... Nosso destacamento constituído por doze homens postou-se de joelhos e seus soldados rezaram três “Pai Nosso” e três “Ave Maria”, levantamo-nos, abraçamo-nos, formamos fila e marchamos adiante com armamentos aos ombros e bornais à cintura. Ao olhar para trás, percebi que toda a tropa se reunia para formação dos quadrados com canhões à frente, o silêncio era sacro. Os incansáveis paraguaios se encontravam a nossa volta, observando-nos como predadores à espera do melhor momento. Uma incursão a Laguna exigia destreza e coragem, não nos faltava, porém era de víveres que precisávamos, a comida minguava e também a água potável. Nossa esperança seria encontrar tudo isso na estância, pois, segundo as informações de nosso guia, encontrar fartura seria mais do que líquido e certo. Iríamos combater para não extinguirmos a expedição de fome e sede, tragédia essa... e não se morrendo de fome, morre-se pelo fio da espada. Morrer era o certo, enquanto viver seria a dúvida. Mas dentre nós que não havíamos desertado ou ficado para trás e para sempre, tínhamos o desejo de morrer lutando e com todas as glórias que nos conduziriam ao descanso e à paz eterna. Valorosos éramos, teimosos também, jamais covardes ou descrentes do amor à pátria, nosso destino estava abraçado à missão que nos impunham. 82


A patrulha, após marcha forçada de algumas léguas adiante, recebeu ordens de nosso tenente que determinou estacionar e explorar o perímetro. Daniel e eu fomos encarregados de zelar pela ala oeste do grupamento, aonde deveríamos atingir um mato adentro cercado por moitas e pequenos arbustos, porém densa vegetação cercada de vastas planícies de campos desprotegidos, para o caso da Expedição sofrer algum ataque. Não posso deixar de relatar a respeito dos ruídos que faziam meu estômago vazio, condicionados à ração de farinha, rapadura e sal. Preocupava-me a fome, pois a tristeza vinha junta. Por muitas noites sonhei com os caldos que mamãe fazia, seus pratos típicos e deliciosos quitutes. Alimentava-me em sonhos, pois a realidade era outra, quase não defecava e havia perdido muito peso devido às longas marchas e da ostensiva fome. O Sol a pino esquentava nosso fardamento, bem surrado e gasto, e fazia aumentar a sensação térmica percebida pelos nossos corpos. O mato rasgava a pele das mãos e do rosto, atravessávamos a maioria das vezes agachados afastando com os fuzis os galhos e folhas. Daniel não demonstrava cansaço, sua vontade de combater era maior, parecia um astuto felino embrenhando-se naqueles matos em busca de sua merecida presa. Confesso que não tinha a mesma disposição, a fome era meu maior inimigo, não mais os paraguaios. Alcançamos o ponto determinado e fizemos então uma parada. Havia um pequeno gramado e nos sentamos debaixo de uma pequena árvore parecida com uma mangueira, boa sombra e o ar fresco nos refazia. Aproveitei para 83


tomar uma golada do meu saco d’água, Daniel fez o mesmo. Olhei para cima e vi um céu azul com poucas nuvens e pássaros, deixei o vento suave beijar o meu rosto e secar as gotas de suar que escorriam por minhas têmporas. Nossa missão ali era levantar informações a respeito do entorno, sabíamos que o inimigo não se encontrava distante, e nossas tropas não poderiam ser pegas de surpresa por eventual desconhecimento do terreno e da movimentação adversária. Para nossa surpresa ouvimos vozes e um relinchar de cavalo. Atentos que estávamos nos deitamos abraçados aos nossos fuzis e rastejamos alguns metros mais à frente, por entre matos nossos olhos fitaram um pequeno grupo de seis homens e cinco cavalos, um deles estava descalço e trajando roupas civis aos pedaços, sentado ao lado deles sem nada fazer ou falar. Quatro deles conversavam em idioma guarani, e o mais alto observava ao longe com a mão à altura da testa. Quando se comunicavam com o maior deles, usavam a língua espanhola. Chegamos a ouvir qualquer coisa que pudéssemos entender, falavam de reforços e mencionavam insultos aos brasileiros. Aproximamos-nos para melhor entender o que diziam, com o cuidado de não delatarmos nossa presença aos contrários, alguma informação poderia ser útil ao nosso comandante. Diziam eles, daquilo que meus ouvidos entenderam: − Los brasileños son muy tontos, pensar eso pueden asustarse con un grupo de soldados inexpertos y temerosos. [Os brasileiros são muito estúpidos, pensar que podem nos intimidar com um bando de soldados inexperientes e medrosos.] 84


− Ciertamente, mi capitán. − Pronto nosotros tendremos refuerzos del sur y nosotros acabaremos con todos ellos. [Em breve teremos reforços dos sul e acabaremos com todos eles.] − Nadie no seguirá siendo mi capitán, nosotros los eliminaremos. [Nao sobrará ninguém, meu capitão, vamos eliminá-los.] − Sí, pero antes de que ellos tengan que sentir el peso de nuestras espadas y la rabia de nuestras personas. [Sim, mas antes eles têm de sentir o peso de nossas espadas e o furor de nosso povo.] − Mi capitán tiene razón, los brasileños convencidos se humillarán. [Meu capitão tem razão, os convencidos brasileiros serão humilhados.] Tratava-se de um grupo de observadores, pude concluir com o diálogo que um era oficial e os demais subalternos. Mas e o civil? Quem era? O que fazia ali? O sujeito do tipo baixinho e gordo com quem o oficial dialogava, aproximou-se do civil e lhe deu um chute nas pernas, como se isto o fizesse se vingar de algo. Deveríamos tentar alguma coisa, apesar de sermos inferior em número? Senti um tremendo frio na espinha. Instintivamente continuamos na mesma posição tentando compreender mais o que conversavam, sem dar nas vistas deles. Houve que dado momento, por nossa sorte ou azar, um soldado virou-se e se pôs a caminhar em nossa dire85


ção, parando pouquíssimos metros adiante. Abaixou-se e colocou sua arma no chão, afrouxou o cinturão e abriu a calça com o intuito de urinar, quando então... ele nos viu! Saímos como um relâmpago em disparada detrás das moitas com as baionetas à frente, os olhos do inimigo estatelados e atônitos fecharam-se após o cravar de nossas armas em seu peito, o alarme foi dado e um tiro disparado por parte de um deles, nem sei onde foi parar. Como nossos fuzis estavam prontos, atiramos em dupla e cada um acertou um deles, bala certeira e única. Avançamos em direção ao oficial que tirou sua pistola do coldre apontando para o rosto daquele indefeso civil, quase à distância de queima roupa. Meu Deus! Ele vai atirar... pensei. Aceleramos o passo, mas de nada adiantou, estava feito, o pobre coitado tomou um tiro em cheio no meio da testa. Covardia pura. Coisas da guerra. A distância nos impediu de evitar a execução daquele infeliz, mais uma dúzia de passos e teríamos conseguido. Paramos diante do corpo do pobre coitado e deixamos o oficial bater em retirada montado em seu fiel cavalo, nada podíamos fazer, enquanto os outros animais puseram-se a disparar espantados em galopes assim que o barulho do primeiro estampido cortou a calma do lugar. − Maldita nossa guerra, quantas mortes ainda presenciarei até que chegue a minha! − desabafou Daniel. Impressionou-me nossa ação precisa e coordenada, parecia treinada e combinada corajosamente para o momento. − Meu caro, se nossa hora não foi essa, acredito eu que será difícil uma nova oportunidade para o cruel anjo 86


da morte ceifar as nossas vidas, ficará para uma próxima, quem sabe bem distante da data de hoje. Esse não foi um bom dia para morrer. − É, Augusto... dessa vez Deus foi nosso escudo. − Daniel, você ouviu o que disse o civil antes de morrer? − Ouvi, sim, algo como “piedade... não me mate” e em português. − Isso mesmo, Daniel, pelo jeito era brasileiro. Fizemos uma revista nos pertences dos soldados mortos, mas nada de importante foi encontrado. Em seguida, marchamos de volta ao ponto de encontro do destacamento patrulha. Durante nosso retorno, fomos conversando sobre a importância da vida, e como ela é curta e delicada, sendo assim porque os homens se matam e pouco caso faz dela? O que nos impele a procurar a morte em campo de batalha? Que força propulsora é esta a nos estimular ao óbito? Como enxergar dignidade na morte daquele que se esvai? A guerra é interessante em certos momentos, por ser sinônimo de morte nos faz pensar sobre a vida, não tão propriamente seu lado romântico, mas o lado prático, ou seja, quem vive hoje poderá não estar vivo amanhã. Nossos corações não são mais os mesmos e viveremos para contar toda a tragédia humana que por aqui se deu. Mais à tarde, chegamos ao encontro da nossa patrulha e nos reunimos em círculo para relato dos acontecimentos. Nossos companheiros ficaram admirados com a iniciativa que tomamos e seu resultado imediato. O 87


tenente nos prometeu que iria relatar o caso aos seus superiores e solicitar uma menção no diário da Expedição. Certamente que nossa intenção de atacar não era o de promover ato de bravura ou ser citado, mas nos sentimos obrigados pelo simples fato de salvarmos as nossas vidas. Quanto aos outros deslocamentos, todos foram unânimes em alegar evidências de que o inimigo estava por toda parte, praticamente a nossa frente, preparado para o bote da serpente. Mas por que não tomavam a iniciativa para o combate? O terreno era de conhecimento deles, possuíam bons cavalos e um contingente considerável – indaguei ao meu superior, que instantaneamente deu-me a seguinte resposta: − Soldado, está no diálogo que tiveram a oportunidade de ouvir a resposta que procuras, eles aguardam reforços, pois acreditam que nossa Expedição deve receber acréscimos, em função de nosso avanço ousado e até mesmo, eu diria, atrevido. A coluna expedicionária é parte do Exército Imperial, este por sua vez sempre foi respeitado em nosso continente devido a sua história de conquistas e tamanho. Se convocarmos dezenas, se apresentarão milhares; se clamarmos por milhares certamente que milhões atenderão ao chamado em nossos quartéis. − Senhor tenente, com vossa permissão para que eu possa perguntar. − Perfeitamente anspeçada, à vontade. − Não estaria no caso que nosso astuto inimigo melhor faria nos deixar morrer de fome e doença, poupando assim os seus em possível confronto, posto que com fome não se trabalha e nem se vive, tirando 88


proveito para si dos nossos pertences e armamentos após nossa total falência? − Percebo na tua pergunta anspeçada que tu és curioso, e antes, muito inteligente. Se o comandante do exército paraguaio pensar como tu acabas de indagar, provavelmente lograria êxito, sem suprimentos não se ganha uma guerra. Porém, a questão é um pouco diferente, qual seja, quanto tempo levaria? Com isso não daria chance ao nosso exército de repor seu contingente, aumentando assim a presença de brasileiros na área, obrigando-os a deslocar tropas que se encontram em combate no sul, região mais necessária? Nesse entendimento, desconhecedor que é a respeito da nossa capacidade de deslocamento e reposição, por precaução solicitou reforços aos seus superiores, com o propósito de esmagar o quanto antes a nossa coluna e readquirir suas posições na fronteira. Concluindo, devemos continuar a marcha. − Tenente, um último pedido de esclarecimento. − Vá em frente, meu rapaz, mas não devemos nos deter por muito tempo nessa conversa. − Grato, meu oficial. A pergunta é com relação à fome que estamos passando, não seria um grande empecilho? − Sabemos disso, Augusto, mas confiamos na crença de que o soldado brasileiro é filho da honradez e da perseverança, tal como é o povo de seu país. O tenente Raymundo Monteiro era muito admirado e diante de sábias palavras silenciei, fiquei a refletir seu conteúdo e me entreguei de corpo e alma à causa que me transformou num bravo e valente soldado do Império do Brasil. Afinal de contas, nosso inimigo natural nos mo89


lestava sem considerar hierarquia ou posto de comando, desde Nioac. O medo de morrer de fome superou o temor pela guerra, daí nossa determinação em alcançarmos a estância de Laguna. Antes de retornarmos à tropa, o sargento Antero Vaz solicitou aos demais um mensageiro voluntário com a missão de fazer chegar às mãos do coronel o relatório do tenente. Como era esta a minha função, apresentei-me de pronto seguido por Daniel que justificou seu ato. − Tenente, peço permissão para acompanhar o mensageiro com a missão de protegê-lo durante o seu deslocamento. Respondeu o tenente após ter ajeitado o boné em sua cabeça: − Permissões concedidas, aprontem-se imediatamente. Dirigi-me ao nobre amigo Daniel dizendo-lhe que não havia necessidade para tal ato, pois correria sério risco, e sua permanência junto à patrulha seria de maior valia. − Deixa o discurso para depois que alcançarmos a coluna. Aurora me aguarda, afinal nada nos acontecerá, lembra-se? Prometi-lhe que retornaria vivo, e é o que vou fazer. Ficou determinado pelo tenente que sairíamos no pôr do sol, com escolta de mais dois homens até a distância de mais ou menos meia légua. Teríamos toda a noite para o traslado até que alcançássemos a coluna, isso se nosso inimigo não percebesse. Recebemos nosso quinto de munição e ração após termos enchido nossos cantis com água de um riacho próximo. A patrulha permaneceria no local até o amanhecer. O sargento me entregou a mensagem dentro de 90


um canudo de papelão, seguido de algumas recomendações e um afetuoso tapinha nos ombros. − Te cuida, rapaz. Segue sempre em frente e não olhe para trás. Deus te guie. Chegado o pôr do sol, fiz o sinal da cruz e parti, acompanhado de Daniel e mais dois soldados, Cassimiro e Cypriano. A cantoria dos pássaros marcou aquele momento em minha memória, parecia ovação de despedida. O entardecer ficou amarelado no horizonte com poucas nuvens no céu, e o ar começava a refrescar, os últimos pássaros que retornavam aos seus ninhos vergavam suas asas vagarosamente, tudo estava muito calmo e sereno, não parecia que uma guerra estava acontecendo. A sensação desesperada de fome havia passado; foi substituída pela incerteza provocada pela ocasião. Saudades do cafuné da mamãe e sua comidinha.

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Capítulo XI

Missão cumprida

Formamos fila, com Cypriano na dianteira que fixava os olhos em tudo que pudesse, enquanto Cassimiro, o último depois de mim, cuidava da retaguarda. Vencemos os arbustos e a mata cerrada sem dificuldades, pois conhecíamos o caminho de volta até o descampado. Nesse trecho, o perigo se mostrava presente, entre uma mata e outra havia uma vasta região descoberta que poderia nos denunciar facilmente para o inimigo à espreita. Com uma colina a ser vencida, nossa escolta deveria nos acompanhar pelo menos até o outro lado do terreno. Fizemos uma rápida parada antes da colina, Cypriano e eu estávamos apertados para urinar. Os outros dois ficaram de vigia enquanto esvaziávamos nossas bexigas. Que alívio! Prosseguimos em seguida, sem dizer uma só palavra. A claridade de antes se transformou em escuridão num pestanejar de olhos, acompanhada de rajadas inter93


mitente de ventos. Lembro-me da sacudida das folhas e dos galhos das árvores, assoviavam a cada lufada. O prenúncio na mudança do ambiente poderia nos beneficiar. Finalmente chegamos até o outro lado da colina, quando então fizemos pausa para observar o que se passava. Nada de anormal foi possível detectar, exceto as fortes rajadas que aumentavam de intensidade e provocava desagradável sensação térmica, nossos uniformes estavam bem surrados e minha túnica havia perdido par de botões, meus borzeguins estavam sempre úmidos, por isso meus pés sentiam também o frio chegando. Eu apeei da mochila a manta e a enrolei em meus ombros, depois tornei a apoiá-la em minhas costas. Daniel fez o mesmo, com o intuito de prevenir contra uma possível variação brusca de temperatura, que era muito comum naquela região. Muitas vezes os dias se alternavam entre calor úmido e frio chuvoso. O que nos protegia a saúde eram os chás das ervas encontradas pelo caminho e preparados com muito zelo por algumas das mulheres que vieram com a coluna em caravana de mascates e familiares de soldados. Algumas, pela curandice, ficaram famosas por tratar com sucesso dos males mais frequentes, como por exemplo, a diarreia e a cefaleia, sem falar nos reumatismos provocados pela marcha sempre forçada dia após dia, desde Uberaba até aqueles rincões. O pessoal da artilharia que o diga, perderam parte da tração animal e estavam a carregar os canhões quase que nas costas. Bravura, coragem, patriotismo e determinação não faltavam àqueles amazonenses, pois o major Cantuária sempre se apresentou como homem 94


muito perspicaz e dotado de grande agudeza de espírito para com o seu grupamento. Mesmo tendo passado por lamaçais com suas preciosas peças La Hitte, não deixou de lhes dar a devida manutenção; sempre limpas e prontas para a ação em combate. Enquanto pensava em coisas que me ajudassem a distrair no caminho e fazer de conta que não estava numa guerra, Daniel à frente, mais ou menos cinco passos de mim, levantou com rapidez o braço direito e fez sinal de parada imediata, “alto”, o diálogo era proibitivo durante a correria rumo ao acampamento de nossos camaradas, em seguida nos deitamos em posição de defesa. Tasquei o mato sem querer, e o vigor de meu gesto fez sangrar meu lábio inferior, aguentei firme, pois não podia me mexer até que soubesse o motivo de tal comando. Não percebia nada naquele instante e julguei que meu companheiro estivesse mais agitado do que eu. O canudo que eu carregava com a mensagem fazia pressão em minha barriga, mas não podia me virar, incômodo suportável. Daniel pôs-se a rastejar até detrás de um tronco caído na mata e fez gesto com a mão para que eu o acompanhasse, fiz o mesmo e me coloquei ao seu lado direito. Apontado com o nariz pediu que espiasse sobre o tronco na direção nordeste. A escuridão, verdadeiro breu, impedia que de imediato pudesse avistar alguma coisa, fiquei a procurar torcendo para que Daniel estivesse vendo coisas à toa. Poderia ser um animal, a maioria sai à noite para caçar, poderia também ser o vento que sacudia bastante a vegetação local, mas afinal o que poderia ter visto o meu fiel guardião. 95


Olhei com expressão de dúvida para Daniel e dei de ombros, mas ele insistiu em apontar novamente como o fez da vez anterior. Levantei um pouco mais minha cabeça e aí sim percebi seu temor, estávamos na retaguarda de uma tropa de quatorze homens a cavalo, dois deles com uniforme de oficial e um apenas em traje civil, os demais identificamos como um sargento e dez soldados. Estavam fazendo o quê, afinal? Sabíamos que paraguaios haviam por toda parte, mas naquele ponto seria pouco provável, colocavam-se entre nossa patrulha e a Coluna brasileira, o que poderia destacar o desconhecimento deles em relação as nossas posições, mais provável seria que estivessem em missão de reconhecimento. Diante da incerteza provocada pela situação, não poderíamos enfrentá-los e nem tão pouco ficarmos detidos até que se fossem, tínhamos como propósito e destino entregar a mensagem ao coronel Camisão por volta do amanhecer, caso contrário poderíamos comprometer a segurança da Coluna que havia decidido adentrar no Paraguai rumo a Laguna, e necessitavam da nossa preciosa informação confirmando a suspeita com relação à presença da força inimiga em todos os arredores, suas posições, contingente e modalidade. Não poderíamos subestimá-los, o conhecimento do terreno lhes era favorável, e o fator surpresa poderia ser aplicado em qualquer momento. Daniel e eu tínhamos como inesperados inimigos o tempo, o clima, a vegetação e certamente aqueles inesperados paraguaios. O rufar de tambores soava em minha mente. 96


Como previsto, começava a chover pingos grossos e gelados, e o vento aumentava de intensidade, dando mais sensação de frio e desconforto aos meus cansados ossos. Poderia algo mais vir a acontecer? Pensei meio amedrontado. Afinal, sentir medo é natural aos homens, covardia é outra coisa, não desejava estar ali, gostaria mesmo era de estar junto à tropa, em grupo nos sentimos mais seguros e amparados pelo espírito de corpo. Nosso precário treinamento não previa situações como aquela, mas porque reclamei se fui um voluntário da pátria, disposto a enfrentar o inimigo onde quer que ele esteja e em qualquer circunstância, meu corpo e minha vida já não mais me pertenciam, fui um soldado, e soldados têm por destino o combate. Dez minutos naquela posição e parecia que hora já havia passado, nossos inimigos enfiados nos capotes se protegiam da chuva debaixo de uma árvore, enquanto nós os observávamos sem mexer um único membro de nosso úmido corpo. A chuva aumentava e com ela também o vento. Não podíamos ficar mais tempo naquela posição, Daniel mostrando-se apreensivo, apontou-me com a mão esquerda o caminho que devíamos tomar, urge que pelo bem da tropa precisávamos sair dali em segurança. Fomos de rastejo apalpando o mato molhado pela chuva. Ouvimos um relinchar, quando olhamos para trás um dos soldados paraguaios havia saído a galope debaixo da tempestade. Assim que nos distanciamos o suficiente para nos mantermos fora do alcance de nossos inimigos, nos le97


vantamos e partimos em correria. O caminho a ser tomado deveria ser um pouco diferente daquele que tínhamos planejado, mas não muito fora da rota, daria para corrigir o rumo mais adiante quando em maior segurança. Tornamos a caminhar ofegantes depois da corrida, muitas dificuldades foram encontradas até aquele ponto, o uniforme completamente encharcado, a mochila ensopada pesava mais que o normal; protegia debaixo da túnica o canudo com a mensagem para o coronel. Passamos a ter de driblar o lamaçal, não havia muita escolha ou era uma ou outra, de qualquer jeito a lama já fazia parte do cenário torturante daquela noite, iluminada pelos clarões dos relâmpagos ao som dos seus trovões. Passo após passo e parecia que não saíamos do lugar, devíamos estar andando em círculos, fizemos parada forçada em meio à tempestade, não dava para continuar com aquele tempo, tornou-se impossível o deslocamento. Aguardamos no fim da mata à beira do próximo descampado. Deitei-me de barriga para cima e deixei que as gotas de chuva, que roçavam de leve as folhas, caíssem em minha boca. Tudo estava molhado, o fuzil miniè, o uniforme, a mochila e o canudo de papelão com a mensagem enrolada em seu interior. Sussurrando perguntei a Daniel se porventura tinha ideia de quanto tempo deveríamos ali permanecer, respondeu-me que assim que a chuva acalmasse seria mais prudente, dado a sua certeza, para o momento concordei. Tornei a beber água da chuva, assim como fazia quando era criança. Enquanto isso, minha memória foi estimulada e me lembrei de mamãe, papai e meus irmãos, o que deveriam estar fazendo àque98


la hora, não nos comunicávamos fazia tempo, o último correio foi em Uberaba. Daniel se deitou ao meu lado e imitou meu gesto infantil. Naquela guerra já tinha visto o bastante para envelhecer pelo menos mais dez anos dos meus quase vinte e dois. Três meses na Expedição do Mato Grosso e vi homens que choraram feito crianças, vi mulheres ficarem viúvas de uma hora para outra, vi doenças e sofrimento, carne humana dilacerada e exposta, fome de dar nó no estômago. Vi camaradas se refugiarem no mato como se encontrassem lá a solução para todo o mal que lhes afligia, os desertores. O que estaria ainda por vir somente ao Nosso Senhor foi revelado. Apesar da grande tormenta que se seguiu por mais de uma hora, que finalmente acalmou, deixando-nos prosseguir então, saímos com destino traçado. Depois da tempestade, agora era a lama que nos impedia de seguir ligeiro ao rumo certo. Alguns passos e nos metíamos em poças com lama até os tornozelos, inúmeros lagos haviam se formado. Vencer o descampado parecia ser missão quase impossível. Quando estávamos perto de atingir a mata próxima de um ribeirão, eis que de repente saiu do nada, do meio da escuridão, um cavaleiro paraguaio. Seu cavalo relinchou e elevou os membros dianteiros para cima apoiado em suas patas traseiras, o cavaleiro em disparada veio em nossa direção de espada em punho, Daniel e eu nos deslocamos para o lado permitindo que o animal passasse entre nós. O soldado reverteu o galope e retornou novamente, desta vez na minha direção, elevou seu sabre e des99


ceu com vigor assim que me alcançou, desviei sua espada para o lado com o toque de meu fuzil, que interceptou o golpe. Mais umas duas ou três tentativas do cavalariano quando um disparo de Daniel atingiu em cheio aquele que nos atacava. Lentamente seu corpo foi caindo do cavalo que fugiu em disparada assustado pelo estampido, no chão jazia um soldado inimigo, não um homem, apesar de humano, nossos sentimentos se resumiam a lutar pela sobrevivência, defender-se de um ataque é valer-se da legítima defesa. Estávamos numa guerra. Aceleramos nossos passos com o propósito de nos protegermos mata adentro, pois o tiro pode ser ouvido a distância e permitiu que o pelotão, antes observado, nos alcançasse. Agora a fuga foi mais que necessária, muitos deles contra apenas nós dois. Ambos com o coração na garganta, a mata cortando nosso uniforme, o dorso das mãos e o rosto, corríamos sem olhar para lado algum, somente para a frente e adiante. Tínhamos que escapar da perseguição, certamente se nos tivessem feito presos seriam implacáveis, tortura com direito a exposição dos restos mortais em tronco de alguma macaubeira. Já tínhamos visto corpos esquartejados ao longo do caminho, desde Nioac. O que nos salvou foi a mata e a escuridão, algumas vezes chegamos a ouvir seus gritos e o desbaste do mato feito pelos sabres paraguaios. Tínhamos a vantagem de estar a pé e eles a cavalo, o animal refugava diante do lodaçal e da mata cerrada. Com lama até o pescoço, por assim dizer, vencemos mais um obstáculo à nossa missão, acredito terem 100


os guaranis desistido de nos perseguir, devido à hora e às dificuldades do terreno, por isso, segundo meus cálculos, atingiríamos a acampamento da tropa dentro em breve. E, sendo assim, chegamos ao marco de referência, qual seja, o conjunto de buritis, por volta das quatro da manhã. Cansados da correria, descansamos um pouco, aproveitamos para beber água de cantil e molhar pedaços do nosso uniforme nas poças d’água para limparmos o sangue de nossas mãos e rostos. Machucados pelo corte do capim alto e galhos dos arbustos umedecidos pela chuva passada. Vida de cão aquela, lutava-se pelo dia seguinte. Seguimos adiante, munidos de coragem por sairmos vitoriosos da perseguição. Outro descampado e mais um pouco teríamos pela frente nosso posto de vigias, mais uma parada, pouca coisa, apenas para refrescar e tomar mais um gole d’água. Seguimos em marcha pelo descampado quando ouvimos um disparo de fuzil, olhamos para trás e avistamos o grupo que nos perseguiu pouco antes, estava quase para clarear, corremos a frente e rápido, com toda a energia que nos restava, eles se encontravam a cavalo, e nós a pé, a desvantagem era nossa. Correr sempre em frente foi a nossa salvação, pois mais algumas centenas de metros se encontrava o nosso posto de vigias, mas os cavalos em galope encurtavam nossas distâncias. Corri como uma lebre que foge da águia, como um roedor que foge de seu predador, corria como nunca, mas as minhas pernas dava sinal de fadiga e diminuí a passada, Daniel procurou 101


me motivar dizendo que faltava pouco até chegarmos no posto. Lembro-me que assim se deu: − Corra, Augusto, corra, falta pouco, corra! − Não estou aguentando... minhas pernas... estão pesadas... − Corra, não pare! − Vá, Daniel. Eu vou atrasá-los! − Não faça isso, corra! Não aguentei e caí de cara no gramado, Daniel mais à frente também parou. Joguei o canudo que continha a mensagem para a frente, com o intuito de que Daniel o pegasse e desse conta de entregá-lo ao seu destinatário. Daniel retornou e pegou o canudo, veio até mim e me colocou de barriga em seu ombro esquerdo, segurando o seu fuzil e o meu com a mão direita com a alça do canudo transpassando seu braço. − Não, Daniel, deixe-me aqui e siga com a mensagem! − Vou te levar comigo. − Vamos morrer! − Não. Quando estava prestes a dar tudo por terminado, ouço gritos e tiros, são os índios guaicurus e terenas, nossos aliados, que haviam nos avistado e correram por trás dos cavalarianos guaranis saídos da mata. Suas flechas, tiros e gritos assustaram nossos perseguidores e os fizeram bater em retirada, não havia o que fazer, eram mais de trinta indígenas, a quem os paraguaios muito temiam. À nossa frente, assim que no avistaram, nossos camaradas de prontidão no posto saíram atirando na direção do pelotão inimigo, estávamos salvos. Daniel 102


diminuiu sua corrida, colocou-me no chão e desmaiou devido à fadiga. O dia estava clareando naquele 30 de abril, o sol ao longe despontava seus primeiros raios da manhã, o horizonte era belo, a passarada dava sinais de vida, os índios gritavam comemorando a retirada do inimigo e nossos companheiros de caserna davam o merecido atendimento a Daniel. Aquela foi uma cena inesquecível, meu amigo mostrou-se ser um verdadeiro herói, ofereceu sua vida em sacrifício, por mim e pela pátria. Apresentei-me aos companheiros do posto, eram caçadores do 21º Batalhão de Infantaria, comandados pelo major Gonçalves, de serviço na guarda, dois deles me acompanharam até a presença de nosso ilustre comandante coronel Camisão. Estava acordado e acompanhado do tenente Taunay com quem trocava algumas sugestões, fiz-lhe a continência, apresentei-me reportando-o minhas ordens e lhe passei o canudo com a mensagem. Respondeu a minha continência, pegou o objeto e se dirigiu para o interior de sua barraca com o tenente Taunay, solicitando que eu ali aguardasse. Mais uns minutos e saiu, com a mão estendida me cumprimentou pelo que havia feito. − Valoroso, leal e correto, és um verdadeiro voluntário da Pátria. Estávamos aguardando por estas informações, são de grande importância para nossos planos. Agora vá descansar e parabenize seu amigo por mim. Ordenou ao seu ajudante de ordens que nos desse ração extra e se possível alguma carne. Fartei-me naquele dia, um pedaço a mais de carne, arroz, batatas cozidas, 103


farinha e chá de raízes, com direito a repouso. Afinal, praticamente não tínhamos nada para comer, exceto quando o bom guia Francisco Lopes nos conseguia algum gado. O corneteiro executou toque de alvorada, e a tropa começou a se espreguiçar. Era um novo dia que estava surgindo, e um a mais em nossas vidas.

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Capítulo XII

Laguna

Passei quase todo o dia dormindo em barraca improvisada, deixei o uniforme estendido no varal e recebi de um mascate peças novas, meio amarrotadas, mas de bom tamanho. Deviam ser as últimas, pois muitos dos soldados trajavam peças rasgadas e encardidas. Como o soldado brasileiro, em sua humildade, é capaz de servir aos seus comandantes com honradez, demonstrando capacidade para a improvisação a qualquer custo, sua estima própria denotava civismo e disciplina elevada. Há muito não se cometia infrações ou deserções, encontravam-se ajustados e entregues ao destino que lhes cumpria executar. A sorte de cada um de nós já estava apregoada, nosso capelão bem disse num dos cultos: “Deus escolheu cada um de vós para seu instrumento de compaixão, a guerra une os fiéis em torno de uma nobre causa”. 105


Encontrei-me nesse mesmo dia com Daniel e aproveitei a oportunidade para lhe perguntar sobre o que ou a quem se devia a certeza de que não morreríamos nas mãos vingativas dos nossos perseguidores paraguaios, ele simplesmente disse: − Lembra-se de que havia prometido a Aurora que voltaria vivo? Acreditei nisso com tamanho afinco que meu corpo nada sentia, apenas obedecia à minha alma. Meu amor por essa menina me faz sentir forte e quase imortal! Depois de tamanha carga de nervos não faltaram risos para comemorar nosso retorno. Daniel sempre alegre e brincalhão esboçava ares de menino travesso. Nossos companheiros de missão na patrulha do dia anterior haviam retornado sãos e salvos. Com uma nova noite se aproximando, a troca da guarda noturnal a caminho, todos nos posicionamos para o merecido descanso, alguns ficaram à beira das fogueiras de prosa com civis. Vez ou outra quebravam o silêncio as risadas de mulheres que se divertiam com jovens soldados, e eles até que faziam por merecer. Procurei pelos camaradas mineiros do 17 e Daniel, mas quanto a este, nem um sinal de vida. Deixei para depois e fomos experimentar uma nova cachaça que apareceu não se sabe até hoje de onde. Uma prosinha mineira regada à cachaça, não tem coisa “meiór seu”. Surgiu até uma promessa, a de quem se salvasse daquele inferno haveria de conduzir a flâmula do 17 até as mãos do Arcebispo da cidade de Mariana, perto de Ouro Preto. Muitos dos camaradas tinham origem na Força Policial 106


da província de Minas Gerais, calejados com a disciplina e o rigor militar, gozavam de bom humor sempre. Assim como passa o céu e a terra, aquela noite não foi diferente. Com o toque dos clarins, anunciou-se uma nova alvorada. A preguiça era tamanha, mas o dever clama, e o soldado não deve dar as costas às obrigações diárias. Muita mansa foi aquela noite, portanto todos estavam bem dispostos e animados. Ao sair da barraca, o sol fresco que tocou a minha face fez pausa para minha prece, agradeci por estar vivo e pedi a Deus que não me abandonasse e que cuidasse de todos, não me esquecendo, é claro, dos meus queridos pais e irmãos. A bandeira do Império ainda estava lá, tremulava sem parar no pau que servia de mastro fincado ao centro do acampamento, dando provas de que o brasileiro é corajoso e audacioso, naquele pedaço de chão a soberania do povo brasileiro se firmava. Os corneteiros nos chamavam para a formatura, haveria revista de equipamento e uniforme com declaração do comandante para a ordem o dia. A tropa perfilada e alinhada, mesmo destroçada pelas intempéries, ainda mantinha o garbo e a pura disciplina da gente de guerra brasileira. Brava gente, muitos deixaram seus corpos esparramados ou enterrados nas planícies daquele belo país, jamais retornaram aos lares, sonhavam com um futuro melhor para si e para os familiares, morreram jovens ainda. 107


Segundo as palavras do coronel, tínhamos pela frente muita ação, nosso destino seria um lugarejo conhecido por Estância da Laguna, algo do tipo de uma fazenda com criação de gado e pomares. Diziam que era lá que Solano Lopes, El Ditador, costumava tirar alguns dias de calma e solidão, devendo, portanto, ter boa acomodação, uma espécie de residência de veraneio. Formamos cada qual em sua unidade, com a disposição em quadrados escoltados pelos canhões, no centro o Estado Maior, seguida da comitiva de civis e mascates. Alternando na vanguarda entre os Batalhões ativos, o 17º Voluntários da Pátria era um deles. Do início da marcha até a chegada ao chapadão, de onde avistávamos Laguna, tudo transcorreu em branda calmaria. Antes de dar sequência às nossas ações, houve parada para toda a tropa. Alguns soldados a cavalo, acompanhados pelo guia Lopes, percorreram os arredores da localidade alvo. Ao retornarem trouxeram um pedaço de papel e entregaram ao comandante, que o leu em voz alta, dizia assim: “Desventurado general que aqui vem procurar seu túmulo, porque o leão do Paraguai rugirá, altivo e sedento de sangue, contra o invasor”. Blasfemou nosso inimigo. Nossa chegada já era esperada. Na ocupação de Laguna, muitos nos aguardavam de espada em punho, foi o Batalhão de vanguarda incumbido da aproximação, apoiados pela artilharia do major Cantuária. O combate iminente entre as tropas se daria nos arredores da Estância. Cerca de seiscentos dos nossos, incluindo uns trinta índios, chefiados pelo tenente Querino, de ori108


gem indígena, abriram o confronto após terem sido recebidos à bala e tiros de canhão. Deslocamentos rápidos com resposta de nossa artilharia que logo desmobilizou a do inimigo, tudo conforme o planejado aconteceu, e a sorte nos favoreceu. Nosso pessoal mostrava-se aguerrido e desejoso de ocupar logo a Laguna, assim que foi dado o toque de avançar os guaranis recuaram sob uma rajada de fogo em suas costas. A cada disparo de um dos nossos canhões, certeiros em sua maioria, o entusiasmo se renovava com gritos de “Viva! Viva!”. Setecentos e tantos do lado paraguaio e nos saímos vitoriosos naquele combate, apenas um companheiro morto, enquanto do lado adversário chegamos a contar oitenta cadáveres. Ao retornarem junto à Coluna, todos esboçavam sorrisos, para muita alegria dos índios, que se fartaram com os espólios retirados dos paraguaios mortos. Camisão determinou que acampássemos na Estância, àquela altura nossas tropas já haviam sido rebatizadas de Forças em Operações no Sul do Mato Grosso para Forças em Operações no Norte do Paraguai. E a ordem assim foi cumprida, não nos opondo resistência, então avançamos mais meia légua na esperança de encontrarmos o tão sonhado gado, mas apenas algumas cabeças nossos caçadores conseguiram reunir, que contou com a ajuda do leal guia Lopes. Não haviam nos deixado nada que prestasse, tocaram fogo em tudo e espalharam todo o rebanho. O resultado foi que vencemos mais um confronto armado com o inimigo, isso nos deu ânimo, todavia o tão sonhado gado que serviria para nos alimentar e reforçar a 109


tração animal para nossas carroças e canhões, esse o grande e forte motivo a nossa incursão, não se realizou. Nos planos do coronel, havia a intenção de avançar sobre a Vila de Concepción, mais ou menos trinta quilômetros à frente, porém sem víveres e munição suficiente a decisão razoável seria partir, reaver a caminho de volta a Nioac, antes que os paraguaios retornassem com reforço de seu contingente e caíssem em cima de nós com a vantagem da quantidade. A refrega anterior tinha sido mais do que convincente. Corria ao pé de ouvido que Camisão desejava vingança pelo malogro quando da sua retirada de Corumbá sem que se oferecesse resistência às tropas paraguaias invasoras, sua honra precisava ser refeita. Natural que fosse resistir a mais uma retirada, não seria a primeira. Eu, sinceramente, admirava a postura de nosso comandante, sempre rígido e disciplinado, exigindo da tropa a mesma conduta. Afinal, em Corumbá ele obedeceu às ordens do coronel Carlos Augusto de Oliveira, retirando seu batalhão de artilharia para longe do fogo dos invasores, o fato lamentável é que os civis habitantes da Vila ficaram a mercê dos paraguaios. Após breve reunião do Conselho, ficou decidido que sairíamos de Laguna com destino a Nioac, tal como já prevíamos. A dificuldade seria maior, pois já tínhamos que perdido bastante gente e animais de tração, sem desejar recordar a falta de ração. Ficamos estacionados em Laguna por sete dias, até que em 8 de maio partimos. Vale lembrar um episódio inusitado que se deu, lá pelo dia 4 apareceu como do nada um italiano de nome 110


Saraco, fornecedor do exército, que despontou com sua presença e mais quatro carroças de mantimentos e mercadorias. Já o tínhamos visto em Goiás, mas aparecer ali, e do nada, surpreendeu-nos ainda que causasse muita euforia. A venda foi farta, deu para aliviar as pressões, apesar dos preços acima do convencional. Trouxe consigo muito sal, arroz e farinha. Os índios se interessavam mais pelos presentes, as mulheres pelas águas de cheiro e as crianças alimentavam-se dos doces. Homem de muita conversa e de exagerado senso de humor para a ocasião. Laguna serviu também para maior aproximação de Daniel com Aurora, que em meio aos dissabores da guerra, sempre ajeitaram um tempinho para ficarem a sós. A mãe da jovem já não mais implicava tanto, encarou o romance como coisa de moços de coração mole. Contudo Daniel havia me procurado numa noite para desabafar sua preocupação em relação à moça, a paixão havia passado dos limites, seus sentimentos eram de amor profundo, lamentava-se por não poder oferecer maior segurança, e me confidenciou terem tido relações íntimas os dois. As circunstâncias não colaboravam às mulheres que engravidavam, ainda mais em meio a uma guerra em que faltava o básico para a sobrevivência. Sugeri-lhe que procurasse seu comandante de Batalhão e solicitasse deste uma autorização para breve entrevista com o coronel, cujo assunto a ser tratado seria o casamento entre ele e Aurora. Nosso diálogo foi franco: − Certamente, Augusto, não pretendo abusar de Aurora, um homem deve assumir por todos os seus atos. 111


− Isso mesmo, Daniel, pensando assim e te conhecendo como conheço é que sugeri o casamento, tu és um homem de muita fibra. − Apenas coloco em dúvida se ela me quer para seu esposo, se não é apenas um caso passageiro. − Duvido muito que ela deva pensar assim, tem boa educação e demonstra carinho imenso por ti. Mesmo porque o namoro vem desde Miranda, já faz um tempo. − Mas se algo me acontecer... Não desejaria que ela tão jovem ficasse só. − Segue o teu destino, entrega-te a Deus em tuas orações e peça proteção em dobro para ti e tua menina. − Certamente que farei isso, mas devo conversar com ela primeiro antes de tomar qualquer decisão. A mãe dela deve primeiramente dar a sua permissão, caso contrário, nada feito. − Duvido muito que uma mãe vá se recusar de autorizar a mão da filha em casamento para um jovem e galante soldado do Império. Não esqueças, depois disso tudo voltaremos aos estudos e completaremos nosso curso, temos um futuro pela frente. − É, Augusto, é isso mesmo, obrigado pelos conselhos, és um grande amigo. Partimos em 8 de maio de 1867, numa manhã alva e pálida com algumas nuvens no céu. No fim da tarde do dia anterior, Daniel se casara com Aurora sob a celebração do capelão, teve a mim como padrinho, numa cerimônia simples, cheia de entusiasmos por parte de nossos camaradas que ainda conseguiram alguns adornos para enfeitar o altar improvisado, muita cantoria em vol112


ta da fogueira e algumas doses de cachaça, ofertados pelo mascate italiano. Daniel ganhou de seu comandante uma noite de folga para desfrutar de sua lua de mel. Laguna não seria mais a mesma, pois os brasileiros a haviam deixado além de incólume, também o registro de que somos um povo dado à alegria e aos prazeres que a vida nos outorga, mesmo em dias difíceis como aqueles. O Corpo Expedicionário era constituído em sua maioria de voluntários, filhos de todos os rincões de nossa terra, havia paulistas, cariocas, goianos, mineiros, mato-grossenses, amazonenses e paranaenses; índios, negros, brancos, pardos e mulatos; homens, mulheres e crianças algumas nascidas durante a expedição; abastados e humildes; monarquistas e republicanos; católicos e protestantes. Todos traziam consigo venerado amor pelo Brasil e desejo de expulsar os invasores de nosso território. Éramos um povo em luta por uma causa comum, com a crença de que nosso Imperador compactuava com os mesmos ideais. A marcha iniciada foi o 17 para a retaguarda. O caminho de volta não seria fácil, o adversário se preparava para a revanche, reunia a tropa para a peleja, sabíamos que a qualquer hora eles viriam nos confrontar. As mulheres passaram a marchar ao lado das fileiras e o comandante não se importunou com isso. Mostrava-se mais apreensivo com o corpo de caçadores desmontados que havia mandado seguir adiante, não podia perdê-los de vista, era nossa vanguarda. Quem quer que esteja na vanguarda, este será o primeiro a receber o fogo inimigo, devendo o comandante providenciar reforço imediato 113


para não perder a linha de defesa, fundamento clássico na estratégia militar. Muito desejava retornar ao meu lar, não sabia se conseguiria, por isso mantinha sempre comigo um diário de campanha. Novos combates aconteceriam, Nioac estava longe demais.

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Capítulo XIII

Pausa para o chá

Logo pela manhã ao cruzarmos um primeiro riacho, uma das peças da artilharia caiu n’água, dando muito trabalho ao pessoal e deixando furioso o coronel. Isso fez com que atrasasse algumas horas a nossa marcha, permitindo-nos uma pausa. Aproveitei para me reunir a um grupo de soldados da cavalaria que desfrutava de um bom chá de ervas, apropriado para prevenir contra diarreias. De gosto amargo, porém de muita eficácia. Daniel fora escalado para corpo da guarda, vigiava o flanco. Nossos amigos da cavalaria não eram lá de muita conversa, mas deixaram de lado as formalidades da caserna e se dispuseram a puxar uma prosa. − E então, voluntário, como se aventurou nessa? − Alistei-me por achar que estaria sendo útil a minha pátria servindo ao exército. Quase todos os meus 115


amigos fizeram isso. Não podíamos ficar sem tomar uma iniciativa. − Tu és de onde? Perguntou-me aquele que se dizia mais antigo entre eles. − Sou do Rio de Janeiro, da capital mesmo. − E como veio parar aqui? − Vim como escolta de mensageiro e acabei em Uberaba sendo incorporado ao 17º de Ouro Preto. Bom o chá..., um pouco quente..., também um pouco amargo..., mas o importante é que previne e cura. − Isso mesmo anspeçada, vai tomando que tem bastante pra todos nós. − E vocês são de onde? − A maioria aqui é de Goiás. Entramos nessa porque a grana é boa, tinha boia da boa e roupas engomadas, e se algo nos acontecer a viúva ainda fica com a pensão. As risadas não podiam deixar de acontecer. − Mas me digam aí, como é servir na cavalaria sem cavalo? − Fica difícil, muitos dos nossos animais morreram vitimados por doenças e fadiga, sem ração apropriada morrem mesmo. Somos caçadores a cavalo sem cavalo, dá para entender? Novas gargalhadas descontraíram ainda mais o diálogo. − Seu chá acabou deseja mais um pouco? Desta vez foi o mais moço quem se dirigiu a mim. − Não, obrigado, quem sabe mais à tarde. Agradeço muito pela oportunidade de trocar uma prosa com vosmecê. − Isso se o coronel nos deixar um pouco mais à vontade, precisamos de uma folga, seguimos na vanguarda o tempo todo, é preciso variar mais a escala de serviço. 116


Referiu-se um outro deles, o de poucos dentes na boca. − Concordo, todos estão bem cheios disso aqui, viemos para expulsar e nos defender contra os invasores e nos tornamos um. − Mas amigo, a melhor defesa não é o ataque? Temos de dar o troco neles, custe o que custar, baixar a crista e a arrogância do inimigo faz parte do jogo. Novamente o mais antigo. − É, nisso você tem razão, a guerra é um jogo. E um jogo de vida ou de morte. − Rapaz esperto você, nesse jogo se ganhamos ficamos vivos, mas se perdemos..., adeus! A regra número um é ganhar, mesmo não importando como, a vida de todos está em risco, a minha e a sua, precisamos ser uma família, cada qual deve zelar pelo outro. Fez-se pausa para uma breve reflexão. − Senhores. Mais uma vez muito obrigado pelo chá e pela prosa, fico lhes devendo. O dever clama por minha presença. − Não há de que, rapaz, esteja sempre à vontade. Dediquei-lhes uma continência, correspondida por todos, peguei meus pertences e segui em direção a minha companhia. Sempre medito sobre a guerra. Suas causas não são lá essas coisas, mas as consequências são fatos incomparáveis em nossas vidas. Os sentidos da amizade e da ajuda ao próximo se tornam mais evidentes, e é aí que nos sentimos humanos na acepção estrita da palavra. Dependemos de cada um dos viventes que estão ao nosso lado, sem a ajuda mútua fracassamos e diante da possibilidade do fracasso 117


a morte. Em guerra, nos perguntamos frequentemente: “Estarei vivo amanhã?”. Depois de muita exaustão, conseguimos nos reorganizar e conduzir, com muita pompa, a Coluna adiante. A vitória sobre o intrépido inimigo deu-nos ânimo e coragem de sobra, toda a gente deixava a questão da fome como um caso a ser resolvido em breve. O importante era estarmos unidos e perseverantes em nossos propósitos de retornarmos a salvo. Bendita a Mãe misericordiosa, que nos ampara na desgraça e nos acalenta na bonança, estando sempre ao nosso lado. Tenho a destacar que até a presente data os enfermeiros do Batalhão 17 sempre se mostraram corajosos e muito bondosos para com os enfermos. Todo o possível é feito na tentativa de curá-los ou diminuir a dor e o desgastante sofrimento. O corpo de saúde que servia à Coluna foi de grande importância à nossa sobrevivência, apesar dos recursos estarem praticamente esgotados em algumas áreas e escassos em outras, devido, principalmente, às doenças contraídas durante a marcha até o Mato Grosso. Valiam-se de seus conhecimentos técnicos e do improviso material, as ambulâncias viviam repletas e as barracas lotadas de moribundos. Muitos dos nossos morreram sem ver o inimigo, sem sequer dar um tiro ou golpe de espada, tombaram no cumprimento do dever, simplesmente. Seguimos com fé em Deus e na crença de que nossos superiores estavam imbuídos da certeza do regresso, fariam de tudo para que a missão fosse cumprida.

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Capítulo XIV

Batalha de Baiendê

Tínhamos de retornar a Nioac, pois o Mato Grosso ainda invadido dependia da proteção de nossa Coluna. Sem víveres o suficiente, sem água potável, sem medicamentos, pouca munição, tropa exausta, restava-nos alcançar em tempo hábil o destacamento que nosso comandante havia designado para guardar a Vila e, ainda, servir de possível reforço ao corpo expedicionário. O Corpo de Caçadores Desmontados seguia à dianteira, quando ouvimos disparos contínuos das armas, haviam naquele momento sido interceptados e emboscados, próximo a um capão rodeado de mato, pela infantaria paraguaia ali posicionada a nossa espera. Houve no restante da tropa tamanha surpresa que quase nos causara a perda de um batalhão, muita confusão entre os civis, tendo alguns se separado dos demais para saírem em correria na expectativa de apoiar os Caçadores. 119


Graças à interferência de nosso líder maior, reagrupamo-nos e nos dirigimos ao local da disputa, com as ordens de formarmos quadrados acompanhados dos canhões La Hitte. O sentimento de grupo falava mais alto, ansiávamos pela assistência imediata, mas o desespero poderia comprometer a segurança de todos, logo nos reunimos e nos posicionamos conforme havíamos treinado insistentemente, baionetas à frente com marcha acelerada. Os brasileiros foram corajosos mediante a investida, lançaram-se sobre as tropas inimigas provocando o seu recuo, todavia os contras se reagrupavam e tornavam a aplicar novos golpes, que agora contavam com a ajuda de uma pequena tropa de cavalaria. Camisão imediatamente tomou a decisão de enviar uma Companhia e uma peça de artilharia com a missão de dar a cobertura à unidade atacada, enquanto o grosso da tropa deslocava-se em direção ao local da refrega sem desproteger a retaguarda, que poderia ser alvo fácil caso houvesse a dispersão. Marchamos a passos largos, sob a ausculta das próprias batidas do coração. Quando chegamos como tropa de reforço, encontramos ainda alguns de nossos soldados pipocando tiros na direção da força hostil que haviam batido em retirada, o canhão havia feito aquilo que se esperava, acertou-os no meio da guarnição obrigando-os a se dispersar, cavaleiros paraguaios solidários buscavam dar cobertura aos seus camaradas que fugiam a pé. O céu cobria-se de fumaça negra, o cheiro de pólvora invadia as narinas. Graças à chegada apressada e em bom tempo da unidade que havia sido deslocada anteriormente pelo coronel, não falta120


ram cartuchames para a fuzilaria. Após o último tiro, por alguns segundos, o silêncio tomou conta do ar... Ouviu-se então um grito desesperado de mulher que corria aos prantos berrando pelo nome de seu dileto marido, ao encontrá-lo esparramado sobre o campo, debruçou-se em soluços implorando-lhe que voltasse à vida, nada poderia ser feito em favor daquele fiel soldado, encharcado de sangue e perfurado pelos sabres guaranis, havia acabado de doar a Pátria o seu maior bem, a própria vida. Poucos dos nossos tombaram no cumprimento do dever naquela data, perdas maiores sofreram os paraguaios, e nossos feridos logo se recuperaram, mas jamais esqueceremos da luta que travaram os combatentes do Corpo de Caçadores Desmontados, muitas histórias foram contadas pelos que sobreviveram a esta dura campanha, não nos esqueceremos do valoroso capitão José Rufino e do heroico soldado Laurindo José Ferreira, este, mesmo debaixo de uma saraivada de golpes, não se importou com os ataques e defendeu a si e a seus camaradas com apenas um dos braços, que quase lhe fora arrancado por uma lança inimiga, manteve sua posição e ainda ganhou precioso tempo para a chegada de outros bravos combatentes. Como muitos corpos inimigos cobriam o gramado, os índios aproveitaram para promover suas costumeiras pilhagens sobre os cadáveres, mas diante da aversão que possuíam pelos soldados de Solano Lopes resolveram esquartejá-los, causando a ira e revolta do coronel Camisão. Como bom servo de Deus, jamais permitiria aquilo sobre o seu comando, era selvageria demais para os seus 121


costumes; imoral e arrepiante é o que convém descrever pelo momento. Por serem índios e nossos aliados, não lhes cabia nenhuma pena, apenas a repreensão enfática, o que foi prontamente acatado. Alguns dos possantes cavaleiros paraguaios conseguiram arrastar, por meio de cordas, alguns corpos de volta as suas tropas. Em nossas fileiras, perdemos 14 camaradas, e outros tantos feridos, alguns com mais gravidade outros com menos, nada que nossa compaixão por eles não pudesse oferecer o devido cuidado. O pessoal do serviço médico não cessava de trabalhar, muitos passavam as noites de plantão na assistência aos necessitados; contávamos também com a abnegação de algumas mulheres, inclusive Aurora esposa de Daniel. Devo registrar que a participação das mulheres foi de fundamental importância no contexto de nossa jornada, muitas chegaram a pegar às armas quando viam seus homens tombarem feridos, houve o caso de uma senhora que rasgou a barra da saia para servir de curativo ao soldado cambaleante que havia sido alvejado no pescoço, em seguida lhe tomou o fuzil e disparou contra uma meia dúzia de raivosos inimigos, tendo acertado um deles levando-o à morte imediata, pois o projétil lhe varou o peito. Após o referido feito, ainda se dispôs a conduzir o soldado até a retaguarda para que este recebesse os urgentes atendimentos. Interpelada pelo nosso comandante qual era o seu nome, ela simplesmente respondeu-lhe Maria, e insistindo pediu-lhe o seu sobrenome, ao qual respondeu: “Maria Preta, meu sinhô, escrava fugitiva não tem sobrenome não”. O coronel chocado com a cena, disse-lhe: “Pois agora tens, vai se 122


chamar Maria do Brasil, e a partir deste momento, considere-se livre sob a minha responsabilidade e proteção”. Quão valorosa é nossa gente, mesmo se considerarmos as deserções, afinal até no exército de Napoleão a debandada aconteceu, o mais importante é que os fortes não arredaram da luta na defesa da nobre Pátria, nosso inimigo já percebia o poder de resistência que possuíamos e a capacidade esmerada de combater. Um pelotão de voluntários foi formado para as tarefas fúnebres, sem solenidade ou pompa, enterramos nossos mortos em terra hostil. Eu e Daniel presenciamos uma cena comovente, quando vimos um dos oficiais se curvar e depositar na cova, com suas mãos feridas em combate, seu jovem irmão chamado Bueno, um voluntário paulista, morto em ação. Bravos combatentes que jamais tornarão a ver a Pátria, e que por ela deram as suas vidas, que Deus os tenha... Encontrei-me com Daniel assim que as coisas se acalmaram, ele estava bem, um pouco revoltado com a perda dos companheiros, e também um pouco preocupado com o futuro da Coluna, especialmente com Aurora. No decorrer de nossa conversa, foi-nos possível refletir sobre os acontecimentos. − Daniel, vejo que estás muito preocupado. − Sim, Augusto, quantas vidas mais irão nos levar, estarei entre estas? Aurora precisa de mim, sua situação é desconfortável para a ocasião, estamos alguns meses em ação e parece que já se foram dez anos de minha vida. − Não podemos nos esquecer que estamos em guerra. A guerra é cruel, muitas vezes torturante, um inferno 123


como Dante descreveu, mas é assim a guerra. Coragem, meu bom amigo, és valente, saberás como se proteger. − Agradeço por ter um amigo como você, Augusto. − Nada tens a agradecer, afinal quem salvou a minha vida? − Não fiz mais do que um dever. − Fostes além do dever, expôs a tua vida na defesa da minha. − Ora, Daniel, acredito que tu farias a mesma coisa por mim. − Sem dúvida, meu irmão, por aqui parece que todos depositamos nossas vidas uns nas mãos dos outros, mas no nosso caso eu diria até que eu daria a minha vida na defesa da tua. Hoje você precisa muito mais da tua vida que eu da minha. − Como assim, Augusto? − Ora, quem em breve será pai afinal de contas? − Isso me deixa mais preocupado ainda. − Bobagem, fé no Criador e amor no coração te levarão para casa, aí teus pais poderão conhecer a linda Aurora e o bebê. − Mas como evitar a morte se ela nos persegue sem descanso? − No teu caso, eu diria que tens de evitar o risco o quanto puderes, deixar de lado o ímpeto, o furor, e se dedicar ao cumprimento restrito das obrigações, poupe-se dos atos impulsivos. − Reconheço minha intrepidez, mas eu me alistei para o combate e não para fugir dele. − Não é bem isso que eu disse. Acho que me farei entender de outra forma. Preste bem a atenção para a 124


resposta à minha pergunta. O que é mais importante em tua vida daqui para a frente, o combate com o inimigo invasor ou a tua amada Aurora? Daniel pensou por alguns segundos e me respondeu: − Aurora, é claro, sei que, se eu perdê-la, jamais me perdoarei, nem aqui na terra e muito menos no céu ou para onde for a minha alma. − É isso, meu bom amigo. Serás um bom soldado assim como um bom companheiro para Aurora, ela se orgulhará muito de ti por dedicares parte da tua vida à pátria e a outra parte à família. O homem responsável é aquele que zela pelo seu trabalho e honra a família que possui. Nada mais digno para o marido do que o respeito pela mulher amada. − Augusto, como já disse outras vezes, tuas palavras me confortam, mas preciso mais do que as sábias declarações de um valoroso amigo. − E de que precisas? − De uma promessa tua se for possível. − Qual seria!? Em que posso lhe ser tão útil? − Se acaso algo de trágico vier a me acontecer, gostaria que protegesse Aurora e o bebê. − Algo de trágico! − Sim, é bem verdade o que acabastes de falar, mas minha vida, nossas vidas estão em constante perigo, isto é, se eu vier a morrer antes de acabar a guerra atenderia o meu pedido? − Bom, primeiramente estamos conjecturando sobre hipóteses; logo, é possível como também passível de pouca probabilidade. Mas digamos que eu diga sim. 125


− Minh’alma descansará em paz, esteja onde estiver. Segurei minha fala por alguns segundos, percebi que Daniel realmente estava tenso com a incerteza do amanhã, todavia não poderia deixar de lhe estender a mão em apoio aos seus sentimentos. Levantei-me do chão onde estávamos sentados e respondi: − Daniel, tenha o meu total apoio, minha promessa será dívida de honra para o resto de minha vida, contudo tenho a confiança em Deus de que eu jamais terei de cumpri-la. Meu leal amigo agradeceu-me em prantos, suas lágrimas representavam quase que uma despedida. Não sei ao certo porque se sentia assim, sempre foi muito corajoso e otimista nas situações mais difíceis pelas quais passamos. Encontrava-se com os nervos abalados desde o último combate, presenciamos muitas mortes e sofrimentos causados por carnes dilaceradas e corpos ensanguentados. A corneta mandava que nos reuníssemos à tropa, rompendo a tristeza gélida que abalava nossas mentes. Poucos se dispunham a conversar, a maioria andava de um lado para o outro como se nada tivessem para fazer. Antes de me juntar ao meu Batalhão, solicitei do sargento permissão para procurar um enfermeiro que pudesse aliviar as dores que sentia nos pés. É que minhas bolhas haviam se transformado em crateras sangrentas e ardiam como pimenta. Com a permissão concedida, fui ao encontro do primeiro enfermeiro que me apareceu pela frente, era um paulista de cabelos e olhos claros, com sotaque bem típico, que de pronto me ofereceu uma pomada para alívio das dores e conforto dos pés, cedendo-me o pote. 126


Ao retornar ao Batalhão, recebi a informação de que o 17 e uma peça La Hitte foi posto à retaguarda, formamos mais uma vez o típico quadrado para dar proteção ao conjunto da tropa e marchamos com o propósito de acamparmos às margens do Apa-mi. Fomos seguidos quase que todo o tempo pela cavalaria paraguaia, algumas vezes se aproximavam tanto que dava para um dos nossos disparar, com o efeito de dispersar e afastar o inimigo, e em resposta alguns projéteis passavam por nossa Coluna sem que se produzissem algum fato. Ao atingirmos uma região cheia de imensas poças de água lodosa, já que as planícies tinham essa característica, os canhões paraguaios nos receberam com fogo de calibre 3, dispusemos nossos batalhões e companhias em formação de defesa em garantia às carroças e o pouco gado que conduzíamos. Mais uma vez houve chance para uma grande demonstração de perícia da nossa artilharia, que de início pôs um dos canhões inimigos fora de ação, a cada tiro certeiro nossa soldadesca bradava vivas. Competiam os oficiais da artilharia pela melhor pontaria, competição essa vantajosa para todos nós. Por fim, sem que nos dessem trégua, mandou o coronel Camisão que prosseguíssemos na retirada. Seguimos por mais ou menos duas léguas sob um sol escaldante, sem que o inimigo nos desse chance para descansarmos. Alguns de seus projéteis atingiram um dos nossos, vitimando-o. Quando nos aproximamos das matas do Apa-mi, recebemos mais outra carga de saraivada de projéteis 3, que estavam bem posicionados dessa vez. Com muito cus127


to, conduzimos nossos canhões para elevações acima dos deles e respondemos ao fogo. Após uma hora de disparos intermitentes, nossos La Hitte ponto 4, fizeram calar as baterias paraguaias. Seus projéteis causaram algumas poucas baixas, sem efeito mortífero, fazendo-se mais efetivos na disparada de nosso gado, posteriormente recuperado no todo pelo velho e bom mineiro guia Lopes. O Batalhão 20 de Goiás mostrou-se valente e audaz ao apoiar o serviço de nossas baterias. Enquanto durava a peleja entre baterias, o coronel despachou um destacamento de engenharia com a missão de restabelecer a passagem sobre o Apa-mi. De pronto nossos engenheiros foram bem eficazes, tendo passado pela ponte improvisada em primeiro lugar o coronel Camisão e seu Estado-Maior. Às margens do Apa-mi, a temperatura estava um pouco mais amena, o matagal refrescava o ar que soprava de uma margem a outra. Enquanto atravessava a ponte vi que uma enorme cobra deslizava sinuosamente na superfície do rio, apresentando comportamento completamente despreocupado com o que se passava por ali, dando a entender que a Mãe Natureza não deixava em abandono a sua criação. Além da margem direita, estavam os persistentes paraguaios, estes haviam atravessado num ponto mais abaixo do nosso, e sua cavalaria já podia ser vista em maior número, bem provável que receberam reforços. Postaramse mais ao longe com o propósito de somente nos observar, pois a noite já se anunciava e um combate noturno não seria de melhor agrado para eles, tal qual para nós. 128


As ordens seriam de vigilância plena na retaguarda, flancos e vanguarda do acampamento. Se é que poderíamos chamar aquela concentração de acampamento, pois nenhuma barraca fora armada, devido ao extremo cansaço que tínhamos. Dormimos em grupos uns sobre os outros, cobertos pelo fardamento e alguma manta ou capote, nenhum de nós deixava de ter à mão as suas armas e sobre os rostos os seus chapéus, visto que o sereno era por demais úmido tal qual uma chuva fina. Lá pelas tantas, se deu um rebate falso, alguém de vigia gritou: “Cavalaria inimiga!”, e todos se puseram a dar tiros a esmo sem que pudesse ver o que se passava; os animais em pânico levantavam muita poeira e produziam ruídos característicos. Logo que souberam da divertida confusão, iniciada por algum espertalhão, muitas gargalhadas foram ouvidas, devolvendo-nos a calma e a segurança no acampamento. Todos voltaram aos seus grupos e muito exaustos deitaram-se para dormir. Daniel dormia abraçado com Aurora, ao pé da carroça, cobertos por um poncho negro, e a luz cor de prata do luar iluminava o contorno de seus corpos. Assim assistindo aquela imagem, fiz orar a Deus..., mas o sono... tomou conta... de mim. No belo raiar do novo dia partimos, logicamente como não poderia deixar de ser, acompanhados por nossos impertinentes observadores que, também descansados, puseram-se em marcha.

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Capítulo XV

Machorra

Se logo de manhãzinha estávamos bem dispostos, também o inimigo se colocava na condição de franco atirador. Bombardeavam nossa vanguarda e salpicavam projéteis sobre os flancos, mas nada de sério ocasionou. Alguns dos nossos se punham a responder aos ataques com disparos de fuzil, chegando a alvejar com tiro certeiro os mais afoitos deles. Comentou-se que, dentre os cadáveres que jaziam no solo, um era de brasileiro desertor que passou para o lado paraguaio. Pobre coitado, como fugitivo não poderia reintegrar-se à tropa, seria punido de morte, muito menos ter a chance de retornar ao seu distante lar. Aqueles que desistiram de lutar em nossas fileiras e eram capturados pelos inimigos, não dispunham de muita opção, ou lutavam com eles contra os brasileiros ou sofriam com a pena de degola. Continuamos na marcha sorrateira, passo após passo, e minha preocupação com a possibilidade de sermos 131


atacados em massa aumentava. Deveríamos ter ficado em Laguna ou talvez evitado a incursão no território inimigo? As dúvidas brotavam em minha mente. Não teria sido por motivo torpe que o coronel nos conduziria à invasão para termos de nos retirar em seguida, houve motivo justo para a ação beligerante. Procurava respostas que pudessem esclarecer tal decisão. De certo o inimigo promovia a tática do esgotamento de forças, tencionava não destruir a Coluna com o propósito de se apoderar de nosso material bélico e do que lhes poderia ser útil, por isso optaram em nos atacar timidamente. Por sua vez, conscientizaram-se da verdade nua e crua de que nós brasileiros podíamos entrar e sair de seu território quando e como quiséssemos. Ao sul do Paraguai, havia a inexpugnável e intransponível fortaleza de Humaitá, que se encontrava bloqueada por forças navais da tríplice aliança, uma invasão pelo sul acabaria de vez com a resistência paraguaia, enquanto o norte, mais frágil, cederia a uma invasão por parte das forças do Império, desde que planejada adequadamente com boa logística e homens bem preparados. Deve ter pensado assim nosso líder maior ao transpor o Apa em direção a Laguna, uma vez que fosse possível com a Coluna Expedicionária, certamente outros corpos do exército se serviriam das informações por nós conquistadas a ferro e fogo. Além do mais, deixar o inimigo se preocupar com as suas defesas possibilita ao oponente ganhar tempo no intento de atacar. Ouvi algumas vezes um oficial ou outro, em conversa informal, declarar que devíamos estacionar a tropa 132


e aguardar por reforços e suprimentos que viriam de Nioac e Miranda. Mas o coronel pensava o contrário, que nossa força estaria sendo aguardada em Nioac com munição, pessoal e víveres, portanto deveríamos chegar a qualquer custo naquele lugarejo, antes que resultasse no “tarde demais”. Naquele intervalo de tempo, não recebíamos mensageiros do lado brasileiro desde que atingimos Bella Vista. O coronel era uma grande pessoa, tudo que fazia almejava a nossa segurança e bem-estar, confiávamos nele e em todo o oficialato, a prova disso foi a sua atitude para com os índios após o combate em Apa-mi, demonstrando ser um homem sensível e cristão. Sujeito assim é do tipo que não abandona um camarada ferido em campo de batalha. Devíamos confiar na sua experiência para que nos conduzisse seguros e salvos a Nioac. Após transpormos, sob a resistência inimiga, um vale próximo a Bella Vista, deu ordem o coronel de nos estabelecermos ali, na mesma manhã do dia 9. Precisávamos maquinar e rever os planos. Os mais moços não se contentavam com o fato de nos retirarmos sem que se conquistassem honras e glórias mais valorosas. Indispensável citar o diálogo que se deu entre alguns deles, de graduação entre soldado e cabo: − Sabem de uma coisa, devíamos ter ficado em Laguna até que chegassem mais homens. − É, podíamos, mas o fato é que não temos munição suficiente. − Seria o caso de atacarmos as posições paraguaias e nos servirmos do que eles tinham por lá. 133


− Não devia ser muita coisa. O tal do major Urbieta não nos atacou por não ter gente para isso, se tivesse certamente teria o prazer em acabar conosco. − Eu já penso diferente, acredito que o certo seria nós termos ficado em Nioac e fazer vigilância na fronteira com o Paraguai. −Eu também penso assim, concordo com ele. − Que nada gente, saímos de tão longe só para coçar saco num lugarejo à toa? Não tem sentido. Eu me alistei para lutar! Quero voltar para casa com o peito cheio de medalhas. − Meu rapaz, evite dar uma de herói fora de hora, a sua chance vai chegar, mais cedo ou mais tarde esses paraguaios vão cair de forra em cima de nós. Pensas que nossa presença aqui é bem-vinda? − O que interessa é nossa vitória. Que eles saibam quem são os brasileiros de verdade. − Uai, gente, essa prosa tá ficando afiada, num tá? Gargalhadas de todos romperam o ar que ainda se encontrava fresco. − Óia, gente, eu só me alistei pruquê a paga é boa. Cês tão pensando que vim pra morrer, tô fora! Desertar não deserto não, sou da roça, caboclo humilde, mas sou honesto, se me pagam pra mata índio paraguaio eu mato, senão eles é que dão fim ni nóis. Esse negócio de medalha e honra pode fica pro cês tudo, eu quero memo é meus cobre pra podê compra minha terrinha e depois prantá mio e mandioca, se dé pr’umas vaquinha também meió ainda. Mais risadas se fizeram presente. − Falou a sabedoria do sertão! 134


− Ninguém pensa no Brasil, estão sempre pensando em si mesmos. − E quem disso isso, amigo, se estamos aqui é porque no fundo sentimos o mesmo que vosmecê. Indignados com o que vimos e sabemos sobre esta guerra, todos estamos. Não é justo que um governante qualquer use toda a sua gente para tomar o que não lhe pertence, invadir terras vizinhas é crime, e é por isso que viemos aqui, nossa presença é sinônimo de justiça, representamos o interesse de todos os brasileiros, afinal por que ocupamos as praças e quarteirões exigindo do Imperador que declarasse a guerra!? − ATENÇÃO! Todos ficaram imediatamente em posição de sentido. Com a presença do tenente Rafael Tobias, às ordens. − Vejo que estão debatendo com propriedade acerca dos acontecimentos. Mas infelizmente vou ter de interrompê-los, é que o tenente coronel Antonio Enéias Galvão nos deu ordens para agrupar o Batalhão 17 e aguardar posterior pronunciamento, portanto solicito aos senhores que se preparem para a formação. − SIM, SENHOR! Resposta dada em voz alta e uníssona. − É pessoa vamu trabaiá sinão o home xinga nóis. Muito proveitoso aquele diálogo, dali surgiu uma declaração coletiva de vontade, a de que estávamos representando os interesses do povo brasileiro, um tanto quanto republicano, mas útil para o momento. De fato o povo do Brasil, do norte ao sul e do leste ao oeste, mobilizou-se em defesa da Pátria, a quantidade de vo135


luntários era cada vez mais expressiva, e assim como eu muitos atenderam ao chamado. Próximo dali ouvia a conversa o nosso leal guia Lopes, sem dar palpite, pensativo olhando para o horizonte enrolava um cigarrinho de palha. Homem sofrido ficava a imaginar como estariam sua esposa e filhos, raptados pelos paraguaios. Já havia recuperado um deles, que surgiu do meio do mato e muito debilitado. Quando houve o reencontro com o pai a cena foi muito comovente, diziam alguns que o guia Lopes do alto de seu cavalo estendeu a mão, e o filho lhe beijou pedindo a benção, podia-se ver as lágrimas que rolavam sobre a face do velho guia que pediu ao seu primogênito que fosse procurar quem lhe fizesse alguns curativos e buscasse encontrar novas peças de roupas com os mascates. Machorra, um vilarejo invadido, distante aproximadamente dez quilômetros de Bella Vista, seria nosso próximo destino. A ordem para o deslocamento teria por propósito impedir que tropas inimigas mais numerosas pudessem nos alcançar, interpondo-se entre as nossas posições e o que seria a possibilidade de reforço proveniente do Mato Grosso, ainda resistia a esperança de ver chegar a qualquer momento mais homens, munição e comida. Eu, particularmente, nunca acreditei na hipótese de recebermos ajuda de quem quer que fosse até o regresso a Nioac, posto que o inimigo se encontrava distribuído por toda a região invadida, o que dificultava sua localização e consequente expulsão de nosso território, conheciam melhor o ambiente do que nós, por isso podiam repelir qualquer manobra de pequeno porte. 136


Surgiu em nosso acampamento um tenente de nome Vitor Batista, proveniente da colônia de Miranda acompanhado de uma dúzia de homens em sua escolta, soubemos que o motivo da sua vinda seria o de dar notícia ao coronel de que nada havia desde Nioac, em termos de tropas ou munição, e que alguns carreteiros nos aguardavam em Machorra, enquanto outros já haviam desistido de nos encontrar devido aos nossos combates com os paraguaios, acreditavam nunca mais tornar a nos ver. Infelizmente esse mesmo tenente veio a perder sua vida em missão originada pelo coronel, que delegou aos seus cuidados mensagem aos comerciantes de Machorra para que retornassem a Nioac, antes que fossem localizados pelos paraguaios interessados e capazes de se servirem em muito das mercadorias da qual dispunham, agravado pelo fato de que lhes poderia fazer algum mal. Sobreviveu apenas o filho do guia Lopes que conseguiu embrenhar-se por mata repleta de espinhos, despistando seus perseguidores, quando chegou até nós encontrava-se todo ensanguentado e quase despido. Esse fato nos causou profunda aflição e abatimento, ao coronel arrependimento e inquietação da consciência. Não podemos deixar de esquecer que cabe ao líder tomar decisões, o remorso por deixar de ter feito muitas vezes supera o de ter realizado, é o ônus que paga a quem esta no comando. Aos engenheiros lhes foi incumbido de preparar uma ponte para dar passagem sobre o Apa, mas o que melhor puderam fazer foi uma estreita pinguela. Na manhã do dia seguinte, tivemos de atravessar quase que a nado, transportamos nossas armas e pertences acima 137


de nossas cabeças, pois o nível das águas do rio havia baixado, com exceção das mulheres, oficiais, doentes e os músicos, para quem foi possível dar preferência à passagem pela pinguela. A estrutura foi desfeita por alguns dos soldados do tenente Catão Roxo, que ordenou cortassem as cordas de sustentação; não podiam os paraguaios dela se servirem. Levamos três longas horas para a passagem completa, incluindo a boiada e os canhões. Aproveitei à outra margem do rio, já em solo brasileiro, para fazer assepsia nos meus pés com a pomada recebida do enfermeiro, um dos borzeguins havia soltado parte da sola e o outro há muito não tinha o salto no calcanhar, andava meio manco e isso cansava ainda mais a minha marcha. Ficar descalço corria-se o risco de ter espetado na sola dos pés algum espinho, pois era muito comum caminharmos sobre mato espinhoso. Tomamos a dianteira da coluna na posição de vanguarda, enquanto marchávamos nossas mentes se despediam de Bella Vista, muitos dos nossos que participaram da invasão ao Paraguai neste ponto, não mais ali estavam, Despedimo-nos para sempre. Por volta do meio-dia, descemos por uma inclinada depressão do terreno para depois ter de subir e nos posicionarmos no caminho que nos conduziria a Machorra, o Sol mostrava-se escaldante.

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Capítulo XVI

A Batalha de Nhandipá

O que vou narrar a seguir diz respeito ao episódio mais importante que se deu entre todos os confrontos com o inimigo, trata-se do assalto a nossas tropas logo após a passagem do Apa, em território do Brasil, num grande descampado cercado por muitas árvores de copas densas, numa paisagem paradisíaca. Vou procurar ser o mais fiel possível naquilo que meus olhos puderam testemunhar. O acontecimento mudou em muito as nossas vidas e o destino do Corpo Expedicionário, dias terríveis seguiram-se a este. Aos 11 de maio de 1867 do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo, pouco depois das doze horas, marchando toda a Coluna, tinha na sua vanguarda o 17 de Voluntários, no qual eu me encontrava incorporado, tendo

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ao flanco direito o 20º Batalhão de Linha, no flanco esquerdo o Corpo de Caçadores Desmontados, e à retaguarda, o Batalhão de Linha nº 21, cada qual apoiado por uma peça de artilharia; ao centro, em duas colunas paralelas seguiam as carroças com mulheres, crianças e comerciantes, e entre elas tocava-se a boiada acompanhada pelos índios. Fechava todo o perímetro uma fileira de atiradores. Bem guarnecida estava, mantendo-se a clássica formação dos quadrados. Era um dia como os outros, céu claro com poucas nuvens e quase não ventava, muita área verde para percorrer, os pássaros não cantavam como também não os via voando, havia um silêncio incomum. Algo me dizia que estava para acontecer o imprevisível, premunição daquelas que agente acaba desenvolvendo por força da necessidade de se manter vivo. Tínhamos sofrido vários ataques e incômodos ao longo de nossa campanha, considerava-me um veterano. Amedrontado às vezes, mas o que é que se pode fazer com essa emoção, o medo é um mecanismo de autodefesa e aparece quando menos se espera, o segredo é deixá-lo vir e encará-lo de frente, o covarde é todo aquele que não reconhece o próprio medo. Pois bem, seguíamos a diante pela estrada que cortava a verdejante planície, como citei, um imenso campo gramado cercado por muitas árvores frondosas, quando saíram por detrás de quase todas elas, uma grande leva de soldados da infantaria paraguaia, atirando-se sobre nós aos gritos com expressões de toda a espécie, o Batalhão 17 assistiu o que poderia ser o seu derradeiro e extremo combate. A passagem forçada pela linha de atiradores, à 140


distância de uns sessenta ou setenta metros, permitiu que se aproximassem de nós a ponto de não sabermos o que fazer para repeli-los, uma vez que do outro lado estavam os nossos, se abríssemos fogo de certo iríamos atingi-los, foi no corpo a corpo que resistimos ao ataque, a isso quero me referir aos sabres e baionetas que espetavam e carneavam uns aos outros. Por um segundo achei que jamais sairia dali vivo, o elemento surpresa e o choque frontal foram de fato apavorantes. Os atiradores de nossas linhas iniciaram o contra-ataque pela retaguarda do raivoso inimigo, com tiros certeiros, que puseram fim a essa primeira parte da refrega. Eles recuaram para organizar um novo ataque, mas dessa vez com apoio da cavalaria e em maior número de homens da infantaria, surgiam de todos os lados, tratava-se de um ataque em massa. Nossos canhões formaram posição e começaram a repelir os golpes com uma chuva de granadas sobre, principalmente, a cavalaria que iniciava carga em direção os flancos. Com a sucessão de tiros dos La Hitte os animais saíram de nosso controle e começaram a fugir para todas as direções, provocando uma balburdia que desorientou a manobra inimiga. Seu comandante reorganizou o pessoal e iniciaram nova carga, dessa vez com mais precisão. Não podia acreditar no que estava se passando, era muita selvageria, o tilintar das espadas contra baionetas, o pisoteio dos cavalos, o sangue de ambos os lados sendo derramado em abundância, os gritos desesperados dos civis, o trovão dos canhões, mal dava conta de um e aparecia de imediato seu substituto, estávamos sendo atacados por todas as direções, parecia um verdadeiro 141


inferno o terror da guerra. Muitos dos cavaleiros paraguaios foram transpassados pelas baionetas do 21, pois estes se atiravam por cima do quadrado tentando romper a barreira. Os corneteiros não paravam de transmitir ordens, que lhes eram dadas por seus superiores, uma delas tornou-se muito eficaz, determinando aos atiradores que assumissem posições à retaguarda do grosso da tropa inimiga. Todos lutavam para salvar a si mesmos e meu comportamento não foi diferente do da maioria, entretanto agíamos em grupo. Após ter acabado de derrubar do cavalo um lanceiro que pretendia me ferir, desferindo-lhe um golpe com o cabo do fuzil, fui em sua direção com o intento de fincar a baioneta em seu peito, quando de raspão resvalou em meu joelho esquerdo uma bala de fuzil ou coisa parecida, senti uma forte ardência e caí apoiado no joelho recém-atingido, não pude completar o golpe sobre meu iminente inimigo, este se levantou e veio sobre mim empunhando uma faca que acabara de retirar de sua bota de cano longo, era um oficial de baixa patente, barba negra e cabelos longos da mesma cor são os detalhes que me recordo da aparência de meu carrasco, estava naquele momento destinado a encontrar-me com a morte. Ao parar diante de mim, aproveitando-se de minha frágil situação, com a finalidade de me ferir de morte, ergueu seu braço direito ao alto sobre minha cabeça e... por dois ou três segundos, ficou imóvel, posteriormente deixando seu corpo desabar sobre o meu. Percebi sangue em suas costas que brotava de uma perfuração do seu uniforme, olhei para a frente e vi Daniel de pé, próximo à carroça que 142


transportava Aurora, com uma pistola em punho acenar-me e pedir que corresse em sua direção, mais uma vez fui salvo pelo meu melhor amigo. Minha gratidão para com ele se tornara incomensurável. Empurrei o pesado corpo do jovem oficial para o lado, a fim de tirá-lo de cima de mim, e passei a mão no meu fuzil que serviria daqui em diante de arma e muleta. Ao levantar-me com o propósito de ir ao encontro de Daniel, quase caí, o ferimento começava a provocar muita dor além de impedir que me apoiasse novamente na perna esquerda. Durante meu esforço em alcançar o que seria um refúgio, notei estirada no chão, próxima ao corpo tombado de um dos nossos combatentes, a gloriosa bandeira do 17 de Voluntários, trazida pelas mãos de meus camaradas desde Ouro Preto até Laguna. Não podia deixar por menos, nosso estandarte merecia posição de destaque; enquanto a bandeira possa tremular, não haverá denodo que nos vença. Fui capengando até ela e a empunhei, levantando-a bem para o alto em meio a um céu cinzento, assumi de peito aberto o papel de porta bandeira do Batalhão. A cavalhada paraguaia iniciava retirada juntamente com os que estavam a pé, nossos atiradores ainda os perseguiram por alguns metros a mais, mas a urgência em reagrupar a tropa determinava que fosse interrompida a perseguição. Tiros de canhão, tanto quanto o das demais armas, foram cessando, acompanhados pelos toques das cornetas de cessar fogo. Deus do céu! Os corpos desvalidos dos combatentes feridos e mortos no confronto sobremaneira abarrotavam a planície. Muitos dos nossos ali 143


tombaram, maior ainda foram as baixas do inimigo que atacou corajosamente, mas de forma negligente quanto a obediência aos comandos de formações de ataque, deixaram-se levar pela ira em detrimento à disciplina tática. Os que ainda rastejavam ou agonizavam morriam em seguida, em consequência da gravidade dos ferimentos. Sem demagogia alguma, poderia retratar o quadro como o de uma verdadeira carnificina humana, corpos e pedaços de corpos quase que nus espalhados ao calor ardente do sol pantaneiro. Os índios desta vez se puseram a obedecer às ordens do coronel, evitando aproximação dos corpos mutilados, porém nosso contingente civil e principalmente as mulheres não pouparam a oportunidade de pilhagem dos infelizes. Tudo o quanto de valor e utilidade encontravam, sem cerimônia, levavam nesse saque mórbido e sanguinolento. Assisti impotente à toda essa tragédia, a que mais tarde os paraguaios chamaram de Batalha de Nhandipá. Nosso Batalhão sofrera muito com o ataque, pois ocupávamos a vanguarda, e pude ver o nosso bravo tenente Raymundo Monteiro ser vítima de sucessivos golpes de lanças, mesmo ferido e banhado em sangue pôde reagir e salvar-se dos seus cruéis inimigos. Ao ser conduzido em padiola pelos enfermeiros gritava: “vinguem minha morte!”. Graças ao bom Deus e à assistência certeira dos nossos enfermeiros, o tenente recuperou-se dos ferimentos, para a alegria de todo o 17º. Voltara ao meu encontro Daniel e Aurora com panos e aguardente para os curativos em meu ferimento. Fizeram-me deitar ao pé de uma das rodas da carroça e 144


colocaram sob minha cabeça um monte de palha. Aurora retirou de minha mão direita cuidadosamente a bandeira do 17, pois meus dedos se recusavam a largá-la. Meu joelho ardia muito e doía como se o tivessem arrancado da perna. Daniel iniciou os primeiros atendimentos, visto que o pessoal da saúde estava sobrecarregado. − Augusto, foi um tiro de raspão, mas seu joelho está abalado, parece ter perdido além da pele um pouco dos ligamentos, sangra muito. − Vejo que agora parece ter chegado a minha hora, como vou conseguir caminhar até Nioac? Aurora sentou-se atrás de mim e pôs minha cabeça em suas pernas, com um pano molhado enxugava minha testa e dizia: − Augusto, fique calmo que tudo ficará bem, Daniel é hábil enfermeiro você vai ver. − Tomara, Aurora, acredito que sim, mas meu destino a Deus pertence. − Com a ajuda Dele e nossa você vai ficar curado, fique tranquilo, Daniel sabe o que faz. Daniel interrompe: − Augusto você vai ter que aguentar firme, pois vou cauterizar sua ferida, sei como se faz, será dolorido mas vai salvá-lo. − Seja o que Deus quiser, Daniel, vai em frente. Vi quando ele pegou um cartucho e dele retirou a pólvora, esparramando-a sobre a abertura que a bala fizera em meu joelho, logo em seguida me pediu que mordesse um pedaço de couro. Não demorando mais que um minuto acendeu a pólvora com um graveto em chama, 145


fazendo subir uma bola de fumaça e queimar na carne minha ferida exposta. Em seguida, derramou uma caneca de aguardente sobre o ferimento queimado. Doeu tanto que não consegui gritar, apenas desfaleci. Quanto recobrei os sentidos já era noite, estava com o corpo todo molhado de suor e ao meu lado se encontravam Daniel e Aurora em plantão, que me perguntaram se me sentia bem, disse-lhes que sim e pedi água, sentia muita sede, minha boca estava seca completamente seca. Aurora levantou minha cabeça e pôs o cantil em minha boca, assim bebi do precioso líquido da vida. Seguimos mais algumas léguas adiante até acampar próximo a um riacho, não sem sermos incomodados pelo fogo intermitente do inimigo. Ainda aquela noite a mãe de Aurora conseguiu nos trazer uma sopa de batatas com farinha, que pude apreciar com muito gosto, acompanhado por um pedaço de pão. Ofereceu-me sua carroça para meu transporte por alguns dias até minha recuperação para a marcha. Daniel ficou encarregado de negociar meu afastamento da tropa com o tenente coronel Enéias Galvão, que deveria autorizar após opinião do oficial do corpo médico. Outrossim, nossos comandantes fizeram reunião para deliberação do que fariam, a partir do evento, com relação ao destino de nossa Coluna. Sabíamos que ficaríamos sem víveres por um bom tempo, pois nosso gado se dispensara sem que conseguíssemos reavê-lo, era vital para a tropa a posse desses animais, representava a sobrevivência de todos. Vencemos a Batalha com coragem e espírito de luta que brilhantemente demonstraram nossos solda146


dos, fora o combate de 11 de maio um marco em nossa retirada desde Laguna, mas não tínhamos ainda vencido por completo todos os percalços pelos quais ainda deveríamos passar. Passei toda a noite com calafrios e febre, Aurora e sua mãe não deixavam de me assistir com a atenção redobrada aos meus cuidados, tinha sempre à mão um cantil de água fresca e pedaços de pano para me enxugar o rosto. Quando adormecia, diziam elas que eu delirava, falando coisas sem nexo, repetindo nomes de pessoas que não conheciam; provavelmente nomes de meus entes próximos. Meu comandante, após a visita do Dr. Cândido Quintana, que atestou minha condição de convalescente e elogiou o trabalho de Daniel, autorizou minha permanência na carroça de Aurora para fins de recuperação da saúde, visto estarem lotadas as ambulâncias. A partir de então passei a ver parte da guerra de dentro de uma carroça, a outra parte se deve aos informes que Daniel zelosamente cuidava de me trazer. Aos 12 de maio, de manhãzinha, rompeu a Coluna, agora com itinerário diferente do anteriormente definido, conforme afirmava meu leal informante. − Augusto, dizem que tomaremos outro rumo para Nioac, os oficiais alegam que o inimigo deve ter conhecimento de nossos propósitos e nos aguardam com emboscadas. − Mas mal conhecemos o trajeto de volta!? − Estamos sendo guiados à fazenda Jardim do guia Lopes, que dizem tem muitas frutas e algum gado espalhado, podendo ser facilmente reunido. Após chegarmos 147


lá nos dirigiremos a Nioac por caminhos mais seguros e desconhecidos do inimigo. − Tomara Deus dê tudo certo e conforme planejam, afinal estamos famintos e exaustos, uma manobra arriscada sem sucesso colocaria a Coluna em risco certo. − Penso, Augusto, que nossos comandantes estejam certos, se continuarmos pelo caminho conhecido mais cedo ou mais tarde cairemos nas mãos dos paraguaios, que são hábeis nessas terras. Ainda seria mais arriscado permanecer onde estamos, sem víveres e com pouca munição, associado à incerteza de um reforço, selaríamos o nosso fim. − Você está certo, Daniel, arriscar por arriscar é melhor seguir o guia, seu propósito é o de salvar a própria pele e o da Coluna, pois sem ela ele jamais retornaria em segurança. Espero que saiba onde pisa, essas terras são perigosas para quem não conhece a região. Passado algum tempo, fui-me ajeitando no fundo da carroça entre abóboras, panelas, e um tanto de coisas. A cada sacudida era um “ai” ou “ui”, não podia reclamar da generosidade de Aurora e sua mãe, aliada aos cuidados que Daniel tinha por mim. Estava em melhores condições do que aqueles que estavam sendo transportados nas ambulâncias e nas macas. Aproveitei para rezar por aqueles que deixamos no campo de batalha, sequer tiveram cerimônia fúnebre, vieram de tão longe para nunca mais tornarem a ver seus lares. Um dos nossos mortos em ação, com uma bala que lhe atravessou as têmporas, foi o jovem com quem antes pude ter um diálogo, que certa vez nos disse: “Eu me alistei para lutar! Quero voltar para casa com o peito cheio de medalhas”. Deus o tenha. 148


Capítulo XVII

Fome, fogo e frio

É obvio que nossa missão ainda estava longe de terminar, enquanto não alcançássemos a vila de Nioac não poderíamos sequer sonhar com o reencontro frente aos nossos camaradas do outro lado da fronteira, em solo brasileiro. O comandante e seu estado-maior já não sabiam ao certo o caminho a ser tomado pela Coluna. Nossas crenças estavam depositadas no conhecimento que dispunha o guia Lopes, proprietário de uma fazenda de nome Jardim, tornara-se incansável andarilho pelas terras do Mato Grosso em busca de verdejantes pastagens naturais para o seu precioso gado. Nossa rota haveria de ser mudada com intuito de despistar sobre as intenções da Coluna, pois certamente os astutos invasores paraguaios já contavam com nossa retirada para os lados de Miranda e Nioac. Nossas espe149


ranças estavam todas depositadas na tomada de decisão de nossos superiores, no espírito de luta e capacidade de resistência de cada um dos integrantes daquela Expedição e na perseverança do nosso precioso guia. Os dias se passaram e meus ossos já pediam por mais atividade, não me agradava ficar a receber cuidados especiais, se comparado ao restante dos infelizes doentes que mal cabiam nas ambulâncias; Daniel e Aurora de tudo faziam para ajudar-me, e graças a isso e ao bom Deus o ferimento cicatrizava submetido às condições de razoável higiene. Aproveitava alguns momentos em que a marcha da Coluna era lenta e, apoiando em meu fuzil e escorado nos ombros de Daniel, caminhava o quanto minhas forças assim permitissem. A fome já dominava todo o pessoal, notava-se nas fisionomias cadavéricas de muitos dos companheiros que o desejo por uma refeição decente era unânime. Assim os dias se passaram, sonhamos com jantares que em nenhuma ocasião foi servido. A ração era escassa e não podíamos dispor senão de uma pequena parte de cada farelo de milho, quilo de farinha, pedaço de rapadura e carne. A matança dos animais de tração havia iniciado, a tropa mal esperava para a partilha, caíam de boca em cima das costelas dos bois com estes ainda agonizando sua baixa. O sangue era bebido cru, sem nenhum preparo do pessoal do rancho, as vísceras devoradas sem que fossem levadas a água fervida, disputavam-se alguns pedaços de carne como animais. O comandante exigiu civilidade da parte de alguns que exageravam na forma como se comportavam na distribuição da ração. Cenas comoventes 150


como aquelas justificavam nosso desvio de rota, que se propunha a passar pela fazenda do guia, prometendo-se algum gado e frutas da terra. Nossas marchas cruzavam riachos, lamaçais, lagoas rasas, densas matas. Havia muita água pelo caminho, mas poucas podiam servir ao nosso consumo e o ambiente se tornara cada vez mais insalubre. No céu azul-anil, por todo o trajeto, observava nossa odisseia bandos de tesourinhas, pequenos pássaros do tamanho dos pardais com penas na cauda em forma de “V” invertido, lembrando as lâminas de uma tesoura, por isso o nome. Pássaros de médio porte quando voavam sobre nossas cabeças eram abatidas com o propósito de servir de alimento. Poucas importâncias davam ao inimigo. O velho Lopes, acompanhado de seu valoroso filho e um oficial da engenharia, vez ou outra se distanciavam, buscavam reconhecimento da região onde nos encontrávamos. Certa ocasião nos deparamos com Lopes à vanguarda da Coluna sobre um monte revestido de capim baixo cujo topete se reclinava em sucessivas ondas de vento, mirando fixo na direção do horizonte... O que pensava ele naquele momento, parecia estar em dúvida ou tentava localizar algum sinal que lhe desse a certeza de que o caminho deveria ser aquele mesmo? Ficamos preocupados com a sua aparência, pois sem o sucesso do guia nossas chances seriam muito poucas, ninguém conhecia a região melhor do que o velho. Era um pedaço do Brasil esquecido por Deus e o Império, a engenharia não dispunha de mapas detalhados do sul do Mato Grosso, por isso pagamos alto preço para nos livrar daquela situação. 151


Entre esses dias, numa noite, resolvi encontrar-me com Daniel e Aurora que se ocupavam de cozinhar algumas raízes à beira da fogueira e fritar mandiocas. Encontravam-se sentados e abraçados com os olhares voltados para as labaredas ardentes das chamas que lambiam a sossegada noite. Iniciei a prosa: − Como está o casal de pombinhos? Perguntei-lhes com um carregado sorriso estampado no meu rosto magrelo. − Passamos bem, Augusto, e tu com esta ferida, passas bem, estas precisando de alguma coisa? Venha comer umas mandiocas que estamos acabando de fritar. − Não para o momento, Aurora, aliás somente tenho a agradecer a ti. Também sua gentilíssima mãe, um encanto de pessoa a quem sempre me colocarei à disposição. − Falando nisso, dona Elvira é mais que sogra é quase mãe para mim, tem me tratado como filho e faz quase o impossível para que nada me falte. Após o casamento de Daniel e Aurora, dona Elvira passou a ser uma pessoa menos ranzinza, muito prestativa para os dois nos dias de terrível provação. − Como tem passado os dias, Aurora? Fico preocupado contigo, estamos com carência de alimentos de qualidade para quem se encontra à espera de um bebê, sei que no início da gestação a fome aperta mais que o normal. − Não se preocupe, vou fazendo o que posso e me alimentando de algumas reservas que ficaram guardadas no fundo da carroça. Mamãe sempre precavida evitou consumir mais que o necessário. Algumas vezes, dada a 152


sua experiência com roça, colheu alguma coisa pelo caminho, ou para fazer chá ou para caldos. Tem servido para matar a fome. Ainda está só no começinho. − E então, Daniel, o que tens pensado sobre a guerra e nossa situação nela? − Creio, Augusto, que temos de alimentar sempre a esperança de nos sairmos bem dessa. Confio nas decisões tomadas pelo coronel Camisão. É um homem marcado pelo destino. Quando pôde combater o inimigo invasor, evitou, agora que tem o desejo e a coragem de fazê-lo as condições não ajudam. Alguns chegaram a comentar que nos usou para a sua revanche sobre os paraguaios, queria a todo custo vingar-se pela má reputação surgida após o episódio em Corumbá, quando abandonou sob as ordens do coronel Carlos Augusto de Oliveira a cidade invadida pelo inimigo. Lá não houve resistência, pois trataram de dar no pé antes mesmo da chegada dos guaranis. − Mas e tu, o que pensa a respeito desse fato envolvendo o nome do coronel? Busquei provocar o amigo com essa pergunta, esperando dele uma resposta corajosa. − Ora, Daniel, Camisão em Corumbá era subordinado ao comando do coronel Carlos, se não acatasse haveria repreensão. Obedeceu como todos os outros. Tanto é que foi nomeado pelo presidente do Mato Grosso comandante da Expedição, possui valor e fibra. Seu desejo de invadir o Paraguai na verdade foi convalidado pelo estado-maior da Coluna, e todos nós queríamos dar o troco nos paraguaios. Marchar o tanto que marchamos desde Uberaba e Nioac só para ficarmos acampados 153


em Dourados ou Miranda, qual graça teria para um voluntário como nós? Alistamos-nos não foi para lutar? Pois é, meu amigo, agora nos retiramos, mas depois outros retornarão com mais vontade ainda, e será assim até que ganhemos essa hedionda guerra. − Me impressiona, Daniel, é esse teu espírito de luta, essa tua vontade de colocar a mão no sabre e sair para combater. − É, Augusto, mas não podemos nos esquecer que a história do Homem é repleta de casos como esses que passamos aqui. A guerra é real, é parte daquilo que se espera daqueles que não tem disposição para o entendimento. Evita-se, porém acontece. Se deixarmos nosso país à mercê do inimigo, breve não teremos mais um lar para criarmos nossos filhos e netos. Nós somos os brasileiros, eles são os paraguaios, portanto tenho que pensar como um brasileiro que teve sua casa invadida, seus bens saqueados e sua família ultrajada. Nossa soberania foi provocada. − Daniel, guerras são disputas de poder. Nós somos os fantoches nesse cenário! − Por que estás aqui, Augusto? − Ora, Daniel, acabei por me envolver com os movimentos e me alistei. − Teu coração mandou, não foi somente o nosso imperador. De repente percebestes que o movimento era uma parte de ti e que o exército de voluntários era um exército do povo. Que ser brasileiro é servir e honrar, não apenas estudar, trabalhar, casar e morrer. Quando arriscastes a vida por uma bandeira maltrapilha e suja, não o fizestes apenas pelo zelo, mas sim por uma causa, causa 154


essa que está simbolizada na flâmula do 17, que salvastes da destruição. Perder a bandeira seria para ti o mesmo que perder a causa que motivou a tua investida até aqui. Assim tu demonstrastes que és fiel a ti e ao País, e a toda essa gente de guerreiros da fronteira. Intervém em nosso diálogo Aurora, com o seguinte argumento: − Para mim que sou mulher essa conversa de guerra só assusta, prefiro a paz para poder ter tranquilidade de criar o meu filhinho. Daniel sabiamente interpelou Aurora, com os seguintes dizeres: − Mulheres também fazem parte da história das guerras. − Eu sei, Daniel, mas essa está demorando demais, e me dá medo. − Aurora, foi a guerra quem me trouxe aos teus braços e não será ela quem haverá de me tirar de ti. Em teus braços repousarei e adormecerei o sono dos bravos. Aurora aproximando o rosto de seu amado ao seu o beijou carinhosamente. − Mas que belo romance. Na guerra não testemunhamos somente o ódio, há tempo para o amor. − Bem, vamos deixar essa conversa de lado e aproveitar para comer a mandioca que ainda está quentinha e cheirosa. E Aurora nos serviu uma porção de mandiocas fritas, que por sinal estavam uma delícia! Como os dois estavam muito entretidos, resolvi “bater em retirada”. Apoiado no fuzil, caminhei à minha bar155


raca. Enquanto o sono não vinha aproveitei para meditar sobre nosso diálogo. Em especial refleti muito sobre o sentido de pátria e povo, e sobre isso conclui que pátria nada mais é do que um povo determinado a alcançar seu futuro, aquele que sabe aonde quer chegar, sem abandonar seus valores e os ensinamentos cristãos e não mede esforços para conseguir. A chuva nos dias subsequentes castigava nosso pessoal, a variação de temperatura era mortal. Depois de um extenuante dia vinha o temporal e com ele um estarrecedor frio. Muitos já se encontravam em estado de calamidade, enfraquecidos pela fome e abatidos pelo frio, pois mal tinham agasalhos e cobertas para sua proteção. Nosso comandante apelava para a solidariedade, pedindo-nos que dividíssemos mantas e barracas. Impressionava-me a disciplina do pessoal do corpo da artilharia, nunca abandonavam seus canhões, e sempre a limpá-los, seu transporte tornara-se difícil àquela altura devido à lama e ao acidentado terreno. O major Cantuária, perfeccionista e muito exigente, preocupava-se com seus subordinados como se filhos fossem. Lembro-me que pediu aos oficiais sob o seu comando que fizessem suas refeições após ser servido o rancho dos soldados, anspeçadas, cabos e sargentos, assim a tropa poderia se manter moralmente elevada. Sua barba longa e postura altiva faziam dele um oficial levado a sério e muito admirado também pelo comandante do meu 17, tenente coronel Enéas Galvão. Nas refregas não admitia demonstrações de covardia ou desobediência, tudo era feito conforme suas ordens. O cargo de ordenança era muitas das vezes disputado por 156


alguns soldados que consideravam um privilegio poder servi-lo pessoalmente. Já não tínhamos boa parte do contingente original, dos quase três mil, havia uma soma de pouco mais de mil e duzentas almas, contando com os civis que nos acompanhavam e índios nossos aliados. Uns desertaram, outros foram mortos em combate, mas a grande maioria mesmo morria era de doenças, primeiro a perneira e agora estava começando a aparecer casos da peste incurável de cólera morbus. Terrível ameaça iniciava desespero entre a tropa e os civis. O pessoal do corpo de saúde dispunha apenas da boa vontade, pois remédios e medicamentos estavam quase no final. Nova tática foi providenciada pelos inimigos, tratava-se de realizar densas queimadas com o propósito de espremer nossos flancos sobre o centro do quadrado. Não poderiam ser mais cruéis, desejavam nos asfixiar ou matar queimados. O fogo a nossa volta consumia o ar que se respira, provocando ardência nos pulmões e irritação nos olhos e narinas. Alguns soldados na tentativa de abrandar as chamas acabavam por ser tragados por elas, as labaredas chegavam a atingir uns vinte a trinta metros de altura, pois a mata seca é querosene para o fogo no mato. Crianças morriam sufocadas e mulheres davam sinal de extrema ansiedade, batiam no peito e recitavam orações com seus olhos em lágrimas mirando fixamente o céu. Nosso sofrimento ainda não tardava por aumentar, era tanto que certa noite em minhas orações cheguei a repetir a famosa exclamação do Cristo na cruz: Pai, Deus meu, porque me abandonaste! O que fizemos para merecer tamanha provação? 157


Quando conseguíamos dar a volta pelas labaredas, a cavalaria paraguaia nos atacava apoiada pela infantaria. Tínhamos de pôr em alinhamento rapidamente os atiradores e a bateria de canhões, assim que os La Hitte cuspiam fogo os soldados de Solano Lopes batiam em retirada. Faziam isso repetidas vezes durante o dia, à noite descansávamos das refregas, mas aí vinham as tormentas e com elas o vento frio e mórbido. Cabe ressaltar que boa parte dos homens marchava com os pés descalços, o frio úmido congelava as extremidades desprotegidas de qualquer agasalho. Para escrever à noite, eu aquecia os dedos na chama propagada pela vela que me servia de lâmpada. Nossos estômagos roncavam e bebíamos água da chuva. Antes matávamos por volta de vinte bois ao dia, agora se muito uns três ou quatro. A água que encontrávamos pelo caminho era totalmente salobra ou barrenta, imprópria para o consumo. Como já descrevi anteriormente a guerra é cruel, mais que tudo, implacável para com os desesperados, tínhamos de continuar nutrindo esperanças na esperteza do velho Lopes, este sim nos inspirava confiança e fé, passou a ser nosso líder, sem desmerecer a chefia do coronel Camisão, que por sua vez também nele passou a creditar mais confiança e poderes. Quando éramos atacados ou buscavam os paraguaios nos incendiar, o velho guia desviava nossa rota causando guinadas acertadas que ludibriavam as táticas do terrível inimigo. Sua crença maior era a de que nos encontraríamos mais seguros quando alcançássemos a fazenda Jardim, como já descrevi, que 158


aquela altura poderia ser rebatizada de Paraíso, ou ainda Sossego, coisa do gênero que servisse bem ao quadro de abandono que nos envolvia em espírito e matéria. Demonstrava ele grande admiração pelo 17 e pelo 20, constituído boa parte de conterrâneos seu. Era o que estávamos fazendo, seguíamos o guia antes que nosso mundo acabasse. Tomar o caminho de volta não seria bem o desafio, mas retornar sem ter de encarar o inimigo a cada légua vencida. Rodeavam-nos a distância sem perder de vista a maltrapilha Coluna, para deixar bem claro que estavam ali, na espreita, como o jacaré pantaneiro que sorrateiramente prepara sua presa para desferir o derradeiro ataque. O guia tratou de acertar com o coronel Camisão uma nova rota, desconhecida para ambas as partes beligerantes, concorrendo para o enorme sacrifício de todos, transposição de córregos e rios passaram a ser feitos em balsas improvisadas e com uma perda maior do tempo útil, lamaçal e mato se misturavam ao quadro caótico de nossa jornada. − Os canhões não podem ser deixados para trás, salvemos os canhões! Aos gritos nosso comandante dava instruções aos oficiais subalternos, enquanto tínhamos lama até os joelhos. O mato contribuía para cortar a sola dos pés, quando estes estavam livres do lodo e da lama.

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Capítulo XVIII

Deus existe!

Alcançávamos no calendário cristão o 25 de maio, ou talvez o 26 não sei bem ao certo, pois esqueci-me de anotar a data nos manuscritos que hoje me servem de recursos para a construção deste livro de memórias. Estávamos quase na fazenda do guia. Além da fumaça, do fogo, das balas inimigas, da fome, da sede e do frio, agora surgia um adversário brutal e extremamente assassino que pretendia dizimar a todos nós, refiro-me à epidemia de cólera, essa praga que não tem cura e atinge a todos sem distinção, homens e mulheres tombavam após delirante sofrimento e agonizante partida para o mundo dos que já não habitam mais essa terra. Caracterizada pela diarreia, vômitos e cãibras por todo o corpo, deixa o doente prostrado com aparência cadavérica. Os praças eram carregados nos ombros por seus companheiros mais afetos, e os oficiais transportados 161


em macas improvisadas. Gemidos se faziam ouvir a todo instante, pois a enfermidade provoca muitas dores abdominais e excessiva sede no paciente atacado pela peste. Diariamente as baixas passaram a ser contadas em dezenas. Não tínhamos mais como enterrá-los, assim como fizemos com os primeiros que foram vitimados pela doença. Não podíamos lhes oferecer água ou comida, tudo que punham pela boca saía na forma de vômitos ou fezes líquidas esbranquiçadas. Cheguei a pensar que Deus nos abandonara naquele sertão pantaneiro, não havia graças as nossas preces, em vez disso, o capelão tinha o seu serviço redobrado. Transpomos um riacho de nome Cambaracê ao iniciar a noite, e aí foi o local onde o coronel determinou que deixássemos os coléricos, mais de 100, à mercê do inimigo. Foi colocada uma placa fincada na árvore que servia de abrigo para os infelizes, com os seguintes dizeres: “Compaixão para com os coléricos”. Daniel auxiliou no transporte de alguns deles até a sombra daquele denso vegetal lenhoso, que, para o momento, não me recordo bem o tipo de árvore que era, apenas da sua farta copa repleta de folhas e galhos. Mais tarde disse-me que deixou recado a alguns deles, de que retornaríamos para resgatá-los assim que chegássemos à fazenda do guia Lopes. A verdade é que a tropa sã já não dava mais conta de carregá-los, o atraso estava além do permitido e tínhamos centenas de almas a proteger em detrimento daqueles que estavam com os dias, ou talvez horas, contadas. De certo os paraguaios haveriam de ser piedosos com aqueles 162


que se encontravam em verdadeiro estado vegetativo, e a maioria se encontrava moribunda. Mas não foi o que se passou. Triste engano... Na manhã do dia seguinte, os comentários sobre os coléricos haviam chegado ao conhecimento da tropa. Deus meu, será verdadeira a tua existência? Tu permitiste que tamanha crueldade fosse exercida? Nossos inimigos não entenderam o que se pedia? Aquele ato produzia uma revolta em meu coração que jamais imaginava que fosse acontecer. A guerra deixava lugar para a carnificina e selvageria, o inferno tomava conta do sertão matogrossense. Nossos camaradas vitimados pela peste agora jaziam pelas mãos de seus algozes. Duro destino aquele... Alguns observadores que se esconderam no matagal nos relataram com detalhes a maldade cometida, não sobrara um só soldado brasileiro dentre os que foram deixados à sombra, todos foram fuzilados ou degolados. Para se ter a certeza da morte dos coléricos, o oficial paraguaio determinou que fossem espetados com as baionetas de seus fuzis. Matar aquele que não tem a capacidade de atacar, e que sequer ofereceu resistência, é crime. Portanto, um assassinato coletivo foi praticado, violando doutrinas e acordos internacionais, em desrespeito à própria humanidade e ao próprio estado de guerra. Toda a Coluna chorou naquele dia, nossas almas serão torturadas até que encontremos uma resposta para a cruel decepção. Alguns passaram a criticar duramente a ordem dada por alguém que buscava vingança e nos trouxe o desespero. − Mentecapto comandante, terás a tua hora, a morte ronda e não te perdoarás! − exclamou um dos nossos, revoltado com o acontecimento. 163


Durante um breve descanso que notoriamente se fazia necessário, formamos várias rodas de discussão sobre o fato. Daniel e eu nos encontramos envolvidos numa dessas rodas, e, como todos, precisávamos externar nossas mágoas e tristezas, pois o fato abalou em muito o moral da soldadesca. Iniciou a conversa um cabo paulista do 20º, de uns 30 anos, de nome parecido com Manuel ou Marques, coisa assim. − Somos cristãos, portanto jamais deveríamos ter deixado nossos compatriotas para trás. Muitos dos que estavam ali lutaram bravamente em nossa Coluna, mereciam mais consideração e respeito. − Por acaso alguém previu a situação? Muito menos o coronel, que pensou muito mais na tropa do que nos moribundos, esses já condenados pela natureza. Respondeu-lhe Daniel, e continuou: − Pois bem, não podíamos imaginar que fariam uma coisa dessas. O normal é que seguissem em frente e não dessem importância para os coléricos, pelo contrário, evitariam o contato com a peste. Nossa missão é retornar a Nioac, a qualquer custo! Se ficarmos retardando o passo, dará tempo aos paraguaios de reforçarem sua cavalaria, infantaria e artilharia. Acaso não somos nós os perseguidos? − Em parte, anspeçada, eu concordo contigo, mas na guerra não deixamos para trás um camarada ferido, moralmente somos obrigados a auxiliar qualquer um que necessite da nossa ajuda. Todos em nossa volta concordaram com o que o cabo acabara de dizer, Daniel recebera um golpe em seus argumentos. Mas prosseguiu... 164


− Meus amigos, o coronel não é Deus, portanto não faz milagres. Quero dizer com isso que comandar muitas vezes é sinônimo de calcular e arriscar. Se tivéssemos ficado lá, além dos coléricos teríamos agora muitos mortos, quem sabe até toda a Coluna estaria perdida. Não temos outra opção, é marchar em direção a Nioac ou morrer. Por um momento o silêncio se fez presente. − Em tempos de guerra devemos ser duros, mas sem perdermos a esperança. Dias melhores nos compensará de todo esse pesadelo em que nos metemos. Sejamos francos, se estamos vivos é porque nossa hora ainda não chegou e, quando chegar, antes uma morte honrosa que uma vida sem glórias. Aquele que sobreviver a essa odisseia terá muito que contar aos seus filhos e netos. Interrompeu um sargento que ouvia nossos comentários, para expressar um pouco de seu pensamento. Natural de Ouro Preto, pertencia ao corpo Policial Militar de Minas Gerais que integrava o 17 de Voluntários. Naquele instante, aproximou-se de nós Aurora, vindo ao encontro de Daniel, trajava vestes esfarrapadas e um lenço branco na cabeça que prendia os cabelos, como a grande maioria dos civis e alguns militares, cumprimentou a todos e pediu-lhe uma breve atenção para o que tinha a dizer. Daniel afastando-se do grupo foi ter com Aurora. − Daniel, sei que estás ocupado, que não devo me aproximar de ti quando estás em serviço, mas a coisa está ficando séria lá entre nós. Dizem que jamais chegaremos a lugar nenhum e que estamos girando em círculos, perdidos no caminho de volta. Que o coronel ficou sem juízo e que o guia enlouqueceu. 165


− Qual nada, Aurora, essa gente não tem o que falar e fica dizendo o que não sabe. Com base em qual prova alegam que estamos perdidos? Sequer conhecem a região! − Eu sei, Daniel, mas é que alguns chegaram a comentar que abandonarão a Coluna e seguirão por conta própria. Mamãe disse que se isto acontecer ela seguirá com os mascates. − Isso seria um grande erro, quase uma loucura. Enquanto permanecerem juntos a tropa, estarão seguros. Devem esperar um pouco mais para poderem compreender a manobra que estamos realizando, o caminho é outro, mas o destino é o mesmo. − Daniel, estou aflita por ti, os soldados paraguaios não dão trégua, a todo instante nos atacam, somente à noite nos permitem alguma paz. − À noite uma emboscada é mais difícil tanto para eles quanto para nós, montamos guarda em volta de todo o acampamento, eles preferem a luz do dia para nos atacar, mas estamos sempre preparados. Além do mais a chuva torna-se um empecilho para ambos. Fique um pouco mais sossegada, não se desespere, acalme-se que em poucos dias chegaremos ao nosso destino. − Estamos sem comida e sem água, precisamos reabastecer urgente, nossas crianças têm chorado muito. − Sei que está tudo muito próximo do caos, mas em breve chegaremos à fazenda do guia e teremos água para beber e alguma coisa para comer. Devemos ser fortes. Quanto às crianças, dê-lhes o que fazer para esquecerem um pouco da fome, nas noites de chuva recolha água para beber, use panelas, baldes, barris, o que puder para guardar um pouco dessa água. Ponha o restante do pessoal para arrancar algu166


mas raízes comestíveis que encontrarem, não comam carne crua nem bebam água insalubre, isso pode trazer doenças. Daniel e Aurora enquanto conversavam caminhavam lentamente em direção às carroças. Assim que terminaram se abraçaram e se beijaram, Aurora deslizou a mão sobre o rosto de Daniel e seguiu correndo de volta a sua gente. Ao retornar, Daniel nos contou o que havia conversado com Aurora, e combinamos que a partir daquela data marcaríamos um pouco mais a nossa presença entre os civis, isso lhes proporcionaria um pouco de sentimento de segurança. Os corneteiros dos batalhões tocavam em seus clarins a ordem de reagrupar. Os oficiais subalternos já nos acompanhavam na marcha a pé, suas botas de cano longo mostravam sinais de desgaste. Seguimos em direção a um ribeirão que tínhamos de transpor. Partes de nossas bagagens já haviam sido desprezadas, senão muito mais tempo perderíamos. Sabemos do filho do guia Lopes, não conseguira resistir à doença e veio a falecer. Chegamos à fazenda Jardim, após a travessia lenta do ribeirão do Prata, que se encontrava bem cheio, devido às chuvas. Fartos laranjais e palmitais aguardavam nossa chegada. O filho de Lopes fora aí enterrado, conforme pedido do próprio guia ao coronel Camisão. Mas a pior das notícias haveria de chegar como uma bomba, a de que o Coronel Camisão e o guia acabavam de contrair a doença. Nossos dois maiores líderes. A casa do guia e um barracão se encontravam bem danificados após a ocupação paraguaia, quando da invasão ao Mato Grosso. Foram deixados no barracão os comandantes e o guia, ambos demonstravam sinais de profunda agonia. 167


O médico, às pressas com algum medicamento ao atender o coronel, ouviu deste: − Doutor, trate dos soldados. Não se canse inutilmente comigo, sou homem morto. No dia 27, pela manhã, aproximou-se o inimigo com sua artilharia implacável, do outro lado do ribeirão. Pipocou o 17 que se encontrava à retaguarda. Fiquei por alguns minutos com a cara na lama me protegendo dos disparos, até o momento em que nossas La Hitte responderam ao fogo guarani com precisão, diminuindo-lhes a audácia. Alguns dos soldados paraguaios que conseguiram atravessar o ribeirão foram prontamente repelidos pelos homens do Batalhão 17, com tiro certeiro e combate corporal. Eu e mais alguns, ficamos por uma hora protegendo nossa margem, camuflados pelo matagal ribeirinho, meu joelho voltou a incomodar. Em seguida, continuamos nossa marcha, mais ou menos meia légua, até o miolo da área que compunha a fazenda Bom Jardim, ali baixamos acampamento. O coronel e o guia foram transportados desde a margem em reparos de peças de carroças, enquanto o tenente-coronel Juvêncio e os demais oficiais e inferiores, vitimados pela cólera, carregados em redes. Isso dava a noção do quão significativo era a existência do guia, fora tratado com status de comandante. Tentou fazer o possível o dr. Gesteira (o mesmo que tentou evitar que os coléricos fossem abandonados na clareira, mas acabou cedendo ao dever de militar em prejuízo do juramento ético), em relação ao caso do guia Lopes, não podendo agir contra a vontade divina, pois 168


este veio a falecer também no acampamento. O incansável pantaneiro, homem bom e honrado, escreveu seu nome na história desta guerra. Foi enterrado com honras de militar no centro do acampamento, em suas terras, e na sepultura lhe colocaram apenas uma rude cruz de madeira, era o que podíamos fazer. Nossa permanência na fazenda Bom Jardim deu a todos a esperança de que dias melhores estavam por vir. A laranja, este fruto milagroso, e o palmito retirado dos inúmeros palmitais da região, chegaram a curar alguns casos da doença e a tirar a sede de muitos. Poucas explicações para o caso, somente milagres curam doenças degenerescentes como a cólera. Como não havia sinais de gado na fazenda, a carne ainda estaria fora de nossa dieta. O moral havia se elevado, todos mais esperançosos e dispostos a agir no propósito de chegarmos a Nioac. Novamente encontrávamos forças para prosseguir. Diante do que conseguimos em relação ao que passamos, posso admitir com fé que Deus existe! Se algum dia, apenas um homem puder acreditar nesses relatos, sertir-me-ei honrado para sempre. A seguir, transcrição da cópia da Parte do tenente-coronel Galvão, comandante do 17º BVP, ao qual eu estava incorporado, datada no dia 28 de maio de 1867, que obtive junto ao Ministério da Guerra em 1878. ... Parte No. 30 – Quartel do Comando do Batalhão dezessete de Voluntários da Pátria, acampamento na Fazenda do Bom Jardim, vinte e oito de maio de mil oitocentos e sessenta e sete. Ilmo. Sr. e Exmo. Sr. Como me cumpre, par169


ticipo a V.Exa. que nos tiroteios dos dias quatorze, quinze, dezoito, dezenove e vinte do corrente mês, que tiveram lugar desde pela manhã até quatro horas da tarde, e nos de vinte e três, vinte e quatro e vinte e sete, o Batalhão de meu Comando que ora fazia a vanguarda, ora a retaguarda, e algumas vêzes franqueando as fôrças, portou-se sempre com firmeza e coragem, causando ao inimigo bastantes prejuízos. Prevaleço-me desta ocasião para cientificar a V.Exa. que o bravo Tenente Joaquim Matias de Assunção Palestino, ferido mortalmente no combate do dia onze, faleceu deixando na miséria sua pobre mulher e um filhinho, pelo que rogo a V.Exa. que obtenha do Govêrno Imperial a sua alta proteção para a sua pobre família deste oficial, digno de toda comiseração. E bem assim, não posso deixar em esquecimento o nome do distinto primeiro Cirurgião Doutor Manuel de Aragão Gesteira, que com a maior humanidade e ao lado sempre dos soldados feridos em número de vinte e nove, e de setenta e seis atacados de epidemia, deu as provas mais exuberantes de sua dedicação no curativo dos mesmos. Deus Guarde a V.Exa. Ilmo. e Exmo. Sr. Coronel Carlos de Morais Camisão, Comandante em Chefe das Forças em operações. Antônio Enéias Gustavo Galvão, Tenente-Coronel em Comissão Comandante. Está conforme. 2º Tenente Bacharel Alfredo d’Escragnolle Taunay, Secretário Militar. ... Assim posto, verifica-se a veracidade das informações que tenho registrado ao longo de meu fiel relato.

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Capítulo XIX

Canindé

Após a fatigável travessia do ameaçador rio Miranda, concluída graças ao destemido e corajoso capitão Rufino, a chegada à paradisíaca Fazenda do guia Lopes nos transmitiu certa euforia, isto porque temíamos que os paraguaios a ocupassem antes de nós e saqueassem tudo o quanto pudessem. Por fim, deparamo-nos com o quadro horripilante em que jaziam o tenente-coronel Juvêncio e o coronel Camisão, este, por sua vez, ainda expedia algumas ordens aos seus comandados, algumas porém sem nenhuma coerência racional devido ao seu estado lastimável de sofrimento e degeneração. Nossos médicos de tudo faziam para poder salvar-lhes as vidas, mas pouca esperança depositavam na recuperação plena de ambos. Com o propósito de reorganizar a disciplina em toda a Coluna Expedicionária, a autoridade quase havia se extinguido entre nós, o coronel determinou que os alimen171


tos encontrados fossem distribuídos igualitariamente sem que ninguém passasse por privação ou escassez. Os casos de cólera ainda não haviam cessado e prevíamos que mais uma leva de moribundos fosse deixada para trás, assim como fizemos próximo ao córrego Cambaracê. Estamos no 28 de maio, e neste dia faleceram algumas mulheres, que desprovidas de qualquer recurso se entregaram ao destino que lhes impunha. A aparência dos civis era de total miséria, não muito diferente da nossa, exceto o 20º que ainda mantinha alguma pompa e galhardia, considerando-se o quadro geral em que se encontrava a Coluna. Vários praças foram embrenhar-se na mata à procura de caça, e logo ouvimos disparos vindos de várias direções, e nos pusemos de pé, achando que poderiam ser os inimigos, mas a tranquilidade tornou a reinar após sabermos que alguns deles vinham retornando com animais e pássaros em suas mãos. Acampamos com a autorização de fazermos fogueiras, sabíamos que estávamos sendo vigiados e cercados, mas acreditávamos que os paraguaios temessem uma aproximação devido à epidemia. À noite aproveitei para procurar Daniel e Aurora com o intuito de beliscar uma porçãozinha de mandiocas fritas, que tão deliciosamente sabiam preparar; apesar de poucas, saciavam a fome que torturava nossos estômagos. Daniel se mostrou preocupado com Aurora, pois a cólera não deixava de causar novas vítimas. Na tentativa de acalmar meu nobre amigo, iniciei breve diálogo que versava sobre nossas vidas de outrora, antes da guerra. 172


− Meu caro, não podia imaginar que estaria numa situação como esta. Sabia que guerra era coisa dos infernos, mas o que passamos aqui é muito mais que isso. − Também confesso que não, Augusto, minha vida sempre foi muito tranquila, regrada por uma moral conservadora de família. Meus pais sempre evitaram que seus filhos fossem atingidos por qualquer má notícia, proporcionando um clima de muita paz e cordialidade. Eu e meus irmãos nunca discutimos por qualquer coisa que lembre, nossas principais ocupações foram sempre com os estudos. Mamãe desejava que fosse estudar medicina, mas preferi o estudo do Direito, pretendo me formar e advogar principalmente para os menos afortunados. − Que assim seja, Daniel, tu és muito capaz e de alma nobre, conseguirás o teu objetivo nesta vida. − Às vezes penso que não, que meu plano de vida é impossível de alcançar. Tenho passado por algumas experiências desagradáveis ultimamente, nem tenho comentado com Aurora, ela anda preocupada demais com outras coisas. − Experiências! Qual tipo de experiências? Não vai me dizer que andou tomando algum chá alucinógeno por aí. − Não, não é desse jeito que me refiro. − Qual então? − É através de sonhos, ou melhor, pesadelos que me espantam durante a noite. − Conte-me, Daniel... − Vejo um cavaleiro que sai do meio das nuvens vestido de preto, montado num cavalo negro, carregando uma bandeira branca em sua mão esquerda, em cujo 173


centro está o desenho de uma cruz cristã vermelha. De repente, ele cavalga em minha direção e, quando se aproxima ao meu lado, pede que eu o acompanhe. Eu o sigo numa floresta cercada de pontos de luzes coloridas até um casebre de madeira sem janelas, e ele pede que eu entre, eu faço o que manda. Quando estou no interior da habitação, a porta se fecha empurrada por um repentino vento, vejo que seu ambiente é maior que o tamanho da própria casa, e que um corredor enorme e tênue conduz a uma luz muito esbranquiçada e de claridade forte para os meus olhos. Ponho a mão sobre o rosto para me proteger da luz e, quando dou alguns passos em direção à fonte luminosa, a casa começa a pegar fogo; tento sair, mas não dou conta de abrir a porta, o fogo arde por todo lado e com ele um calor sufocante, que só aumenta e aumenta até... Aí eu acordo com o coração na garganta, com vontade de gritar, e com o rosto todo coberto de suor. − Isso pode ser devido aos incêndios nas matas provocados pelos paraguaios. Não será outra coisa senão o estresse de guerra. Procure relaxar, aproveite que sua bondosa Aurora está sempre por perto e converse com ela sobre o futuro, alimente esperanças em teu coração e no de tua mulher. Lembro-me que quando criança tinha muito medo de dormir no escuro, e minha mãezinha se deitava ao meu lado para contar histórias até que eu pegasse no sono. Então essa é a receita, relaxe. − Vou seguir o teu conselho, Augusto, acho que vai dar certo. Tu és forte e corajoso, mas mesmo os fortes têm seus momentos de instabilidade, não queiras assumir 174


tudo sozinho, divida alguma coisa com Aurora, ela só quer o bem para ti. − É, tens razão. Estou muito cansado agora e pretendo repousar um pouco, aproveitar a noite fresca sem chuva e sem escala de serviço. Boa noite, Augusto, até amanhã. − Até amanhã, Daniel, e tenha bons sonhos! Meu amigo se retirou deixando para trás um rastro de desconfiança para com o futuro. Afastei-me dali em direção ao posto da guarda que ficava do outro lado do acampamento, em alguns minutos eu assumiria minha escala de serviço numa noite muito agradável e calma para uma guerra. O dia amanheceu com o céu coberto de nuvens brancas, a passarada se apressava em procurar seus pares e alimentos para suas crias. Na calmaria da alvorada como era belo aquele lugar! Meus olhos viam no horizonte um sem-fim de belezas naturais, poderia ser o paraíso em outros tempos. Percebi que algumas mulheres caminhavam em direção ao rio, que havia baixado, com baldes e trouxas de roupas na cabeça e sabão numa das mãos, dirigiam-se ao Miranda com a esperança de lavar algumas peças, uma escolta do Batalhão de Caçadores acompanhava as matronas. Uma negrinha que balançava muito bem os seus quadris enquanto andava com a trouxa na cabeça, deixou-me um tanto excitado. Não tocava em uma mulher desde minha partida do Rio de Janeiro, ficara apenas com um beijo sorrateiro de Thereza e a lembrança que me dera, seu lenço encharcado de lágrimas e marcado pelo seu batom costumeiro. Tratei de seguir o exemplo e fui arrumar minha bagagem, antes passei na barraca do 175


tenente Taunay para lhe pedir algumas folhas de papel e o encontrei alegre e cantador, pois tinha conseguido fazer a barba naquela manhã. Mas o dia 29 não estava tão calmo assim, corria por todo canto que o coronel estava para entregar a alma para Deus ou o diabo, e que o tenente-coronel também se encontrava prestes a expirar. Por volta das oito horas, o coronel Camisão se levantou do estrado coberto com couro, apoiado no ombro do capitão Lago, e pediu ao seu ordenança que lhe passasse a espada e o cinturão com o revólver, assim o fez o ajudante fiel. Ao tentar afivelar o cinto, o coronel perdeu as forças e tombou para o lado, e ainda no chão murmurou nos ouvidos do capitão: “Façam seguir as forças, que vou descansar”. E imediatamente deu o seu suspiro derradeiro e mortal. Assim nos contou o ordenança do coronel. Às três da tarde há alguns metros dali, jazia o tenente-coronel Juvêncio comandante do Corpo de Engenheiros, bom homem e exemplo de clareza de pensamento, sereno e comedido. Ambos mereceram de todos uma cerimônia fúnebre oficial, sepultados que foram aos pés de uma grande árvore à margem esquerda do Miranda, que se deu por volta das seis da tarde. Que estas duas almas não tenham entregado suas vidas para o Brasil em vão, pois cumpriram corajosamente com o dever que lhes foi imposto pelo destino. Com a morte do coronel e quase que simultaneamente seu sucessor no comando por direito, houve razões legais para uma reunião de comandantes no sentido de escolher 176


um novo líder e seu imediato. Qual não foi a nossa surpresa que a escolha recaiu sobre o major Tomás Gonçalves, comandante do 21º, que congregava camaradas oriundos de São Paulo, Diamantina e da Província do Paraná. Nossa certeza era a de que o tenente-coronel Enéias Galvão assumisse o comando geral da Coluna Expedicionária, mas o conselho preferiu nomear o capitão mais antigo, pois o tenente-coronel Enéias ocupava cargo em comissão, sua patente de origem era a de tenente, enquanto a do major Tomás a de capitão. Coisas das leis militares que devemos obediência. Para mim foi bom assim, o tenente-coronel Enéias executava muito bem a função de comandante do 17, e muito carismático todos o admiravam. Para a surpresa de toda a Coluna, ainda naquela manhã, adentra em nosso acampamento nada mais do que um sobrevivente dos coléricos deixados no Cambaracê. Inimaginável acontecimento poderia se esperar! Foi por todos saudado e bajulado, tratado como herói, seu nome, o qual jamais poderia me esquecer, é Calixto. Sim, o cabo Calixto Andrade de Medeiros do 17º BVP, das Minas Gerais, companheiro de muitas prosas das quais tivemos à beira das fogueiras nos vários acampamentos desde Nioac. Foi conduzido por Daniel à noite do 26 ao grupo dos coléricos, e foi para ele que disse estarmos preparando uma emboscada para os paraguaios e depois retornaríamos, lembro-me do relato acabrunhado de Daniel. Chegou aos prantos e em estado deplorável, mas foi prontamente acolhido por todos e reincorporado ao 17 por ordem do major Tomás, então já declarado comandante da Coluna. 177


Daniel e eu fomos ao seu encontro, saudar-lhe pela vitória e o retorno aos bravos da Coluna. − Que bom que voltaste ao nosso 17 meu bom cabo Calixto, que Deus te proteja para sempre. Você tem sete vidas, é como gato do mato. − Não foi fácil não, Augusto, penei qual alma no purgatório, mas consegui escapar da crueldade daquela gente, comi capim e o pão que o diabo amassou. − Nada de contos agora, Calixto, prefiro que descanses, depois nos divertiremos sobre os horrores da guerra. − Daniel, acreditei em ti, pensei que fosses voltar com o pessoal para nos buscar. Mas agora entendo o teu gesto, vejo que a Coluna segue em frente. E o coronel, não vem me ver? − Calixto, infelizmente o coronel e o tenente-coronel Juvêncio se foram, a epidemia os matou como a tantos de nosso pessoal, inclusive o guia Lopes. − O quê?! Não acredito, bons homens aqueles, por que Deus nos castiga desse jeito? Não dá para entender, Augusto! − Agora Calixto tens que recuperar as forças, tente descansar e se alimentar de alguma coisa que trouxemos para ti, beba bastante da água da moringa. Amanhã nos encontramos novamente. − Obrigado, meus amigos, prazer em voltar a vê-los. − Da mesma forma, Calixto, o prazer é todo nosso. Boa noite! − Boa noite, Calixto. − Até amanhã, Augusto. Até amanhã, Daniel. No dia seguinte, o 30 de maio, expediu o novo comandante sua primeira ordem do dia, quais sejam: res178


taurar disciplina, reunir tropas e providenciar a passagem das peças da artilharia (estas se encontravam do outro lado da margem do Miranda), considerando a marcha para Nioac, a qualquer custo, a única salvação. Todos os casos considerados graves para a disciplina militar foram tratados com o máximo rigor, pois o major nisso fazia bom proveito quando ele pessoalmente era exemplo de disciplina. As cornetas passaram a tocar ordens de formação, em todo o acampamento, e respondiam aos nossos clarins na outra margem o corneteiro do Corpo de Caçadores. O brilho nos olhos tornamos a perceber estampado nos olhares dos militares e dos civis, avivava-se a Coluna. Os casos de cólera haviam reduzido bastante, parecendo que a dieta rica em laranjas da terra e os palmitos, transportados no cabo aéreo guiados por roldanas de uma margem para outra, fora providência divina. Se tivéssemos atrasado a marcha, provavelmente não estaríamos vivos, o rio que nos separa serve também como escudo contra os inimigos. O coronel Camisão tinha razão, não podíamos deter a marcha. Considerou nosso major comandante que os canhões deveriam ser transportados logo no início da manhã do dia 31, pois não haveriam de ficar como troféus para os paraguaios, isso seria um despropósito, completamente inadmissível. Os La Hitte são como nossos braços e pernas, estão incrustados na alma de nossa gente, e já fazem parte da história. Assim que o corneteiro anunciou a alvorada do dia seguinte, pusemo-nos de pé confiantes na realização segura das tarefas que nos aguardavam. Mesmo sabendo 179


que não seria nada fácil transportar canhões em troncos que funcionavam como balsas improvisadas. Dispomos da junta de bois para nos auxiliar na puxada das cordas que se prendiam à balsa e à primeira peça, somados a uns quinze homens de apoio. Esta primeira peça da artilharia afundou na correnteza do Miranda, mas logo conseguimos retirá-la com a força de tração, ela se soltou da lama e veio até a nossa margem. Gritos de euforia manifestavam nosso otimismo. Quanto à transposição da segunda peça, esta não foi muito eficaz, pois se soltou das amarras e foi parar no fundo do rio, não provocando maiores incidentes. Os oficiais da engenharia puseram-se a calcular e propor formas e meios para o resgate da peça afundada, caso não fosse possível deixariam para que no futuro alguma unidade militar viesse a resgatá-la. Vale ressaltar a grandiosidade no gesto do soldado do 21o, de nome Damásio, não sei se paranaense ou paulista; propôs um plano aos oficiais e estes cederam ao seu intuito. Sendo assim, este se pôs a mergulhar nas profundezas do rio Miranda, amarrado com uma corda na cintura e a ponta de outra presa entre os dentes, até que envolvesse uma parte da peça a amarração que fez com a corda que trazia na boca, isso após várias golfadas de ar no vaivém à superfície. Depois deu o sinal para que a moçada da margem puxasse a corda de amarração, enquanto outros o tiravam da água. Quase que perdidas as esperanças de reaver o canhão, quando brota a superfície em meio às espumas o saudoso La Hitte. Outras dezenas de vivas foram ovacionadas, pois o feliz empenho do praça do 21o nos ale180


grou. Concluímos até a tarde desse dia a passagem de duas das quatro peças. Na manhã do dia seguinte, no primeiro de junho, data de aniversário de minha irmã caçula, completamos a passagem das demais peças, uma vez que a experiência com os dois casos anteriores serviu para o aperfeiçoamento do processo de transporte. Tínhamos seguros e em nosso poder as quatro peças da artilharia. Desfizemos os cabos, que foram cortados, e seguimos ao encontro do restante da Coluna. Lembrando que os soldados, anspeçadas e cabos que participaram da operação foram voluntários para esta missão, eu fui um deles e me orgulho do valor da empreitada. Daniel montava guarda no acampamento. Formados em volta da espoliada casa do guia Lopes, deu-nos ordens de marcha nosso Major comandante, levávamos o quanto podíamos dos frutos retirados de sua fazenda e que muito nos serviram para curar, saciar a fome e a sede. O velho Lopes jamais será esquecido por todos os que participaram da retirada desde Laguna. Algumas centenas de metros à frente e ouvimos disparos em nossa retaguarda, o perspicaz inimigo ultrapassara a margem do Miranda e se punha em nossa direção a fim de nos causar algum atraso, que lhes seria útil e apropriado as suas manobras. Quanto mais demorávamos a chegar a Nioac, mais problemas teríamos de enfrentar. Mas não foi o caso, pois o eficiente capitão Delfino, do 21o de Infantaria, repeliu ao ataque rapidamente, ainda assim fomos obrigados a uma parada inesperada. Mal nos recolhemos, houve estranhamente o toque de marcha, já que a noite estava para cair. 181


Rapidamente nos aprontamos e nos conscientizamos da importância de chegarmos o quanto antes à Vila de Nioac. Marchamos durante à noite a passos dobrados. À vanguarda de nossa Coluna seguia o capitão Rufino, que conhecia a região melhor que outros oficiais. Com a escuridão, chegou também o prenúncio de uma tempestade, qual já tínhamos passado por muitas. Mas assim mesmo a marcha dobrada prosseguiu em detrimento aos interesses de alguns padioleiros, que mesmo revezando entre si manifestavam cansaço e ameaçavam deixar suas cargas. Poucos eram os doentes transportados, visto que a maioria havia falecido nos dias anteriores, e o caso de cólera diminuído bastante. O estado geral de saúde da tropa, segundo o dr. Quintana, alcançara melhora significativa após a estada na Fazenda Jardim. Ao chegar a informação sobre as intenções dos padioleiros ao Major Tomás, que se punha à vanguarda, se pôs a galope até eles, e ao se aproximar desembainhou sua espada em meio à capa esvoaçante, encontrando-os de joelhos e a lhes suplicar por piedade, prometendo que não cometeriam mais nenhum ato de insubordinação. Disse-lhes o comandante que a Coluna prosseguiria a todo custo, e que não havia lugar para os covardes. A disciplina foi restaurada graças ao comando rígido do Major comandante. Dali para frente, a ordem era de marchar em silêncio, e toda a Coluna obedeceu. Na alta madrugada, tivemos de reduzir a marcha, pois nossos batedores avistaram um acampamento de soldados paraguaios a poucos metros de onde nos encontrávamos. A tempestade e os trovões dificultavam nossas ob182


servações sobre os movimentos inimigos. Mesmo assim caímos sobre eles e com sorte obtivemos lucro na manobra, sequer ficaram para nos enfrentar. O acampamento possuía algum gado que reunimos e em seguida tratamos de carneá-lo no fogo em brasa, devidamente repartido entre militares e civis. O que sobrou foi apropriadamente armazenado nas carroças. Após o banquete, de grande valor, pusemo-nos novamente em marcha. Algumas vezes retardada pela artilharia que enfrentava dificuldades em trechos mais alagados, com eles o Batalhão da vanguarda que lhes servia de escolta. Acampamos as quatro da manhã, fatigados e exaustos. Meu joelho havia recuperado o bastante para não ter que me apoiar novamente em meu fuzil, e meus pés calçavam as botas que antes pendurava em meu pescoço. Logo às seis da manhã, os corneteiros de cada Batalhão transmitiam a ordem de formação para a marcha. Ainda bem que tínhamos nos alimentado o suficiente na madrugada, isso evitou que a fadiga nos atrasasse. O Batalhão 21 do capitão Delfino seguia com pompa, muito esmero e galhardia. Começamos a assoviar canções que antes eram executadas pelos músicos que, infelizmente, alguns deles, não tinham mais seus instrumentos, e outros haviam tombado vítimas da cólera. Conduta que alegrava a tropa e trazia ânimo aos nossos corações. Trajando fardamento quase completo, todas as unidades demonstravam ânimo e coragem. O meu 17 seguia na vanguarda Chegamos à margem do rio Canindé após a travessia de um longo trecho de mato cerrado já mais confiantes e seguros. Até aquele ponto, desde o último acampamento, 183


havíamos vencido nada mais nada menos que sete léguas. O sucesso de nossa marcha prenunciava nossa aproximação de Nioac. A informação serviu para comemorações e festividades, enquanto nos preparávamos para a travessia do dito rio. Brancos, negros, índios, civis, militares, homens, mulheres, crianças, idosos, mineiros, paulistas, cariocas, amazonenses, goianos, mato-grossenses, um único corpo, aquela Coluna era verdadeiramente o Brasil. Todos se abraçavam independentemente de suas diferenças étnicas, culturais ou religiosas. Deixamos de ser um bando de gente faminta e desesperada para retornarmos à condição de povo. As batalhas e as guerras terão o seu fim, mas os soldados permanecerão, alguns deles incólumes para proferirem seus testemunhos às futuras gerações.

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Capítulo XX

Nioac

Soubera que o jovem poeta republicano e abolicionista Castro Alves também se alistara nos Voluntários da Bahia, não soube de seu paradeiro após minha saída do Rio de Janeiro para Santos e depois Uberaba. Seus poemas encantaram toda uma geração de patriotas, republicanos e romancistas. Minha época foi muito influenciada por gente como ele, Machado, Nabuco e outros. Dificilmente seremos na vida aquilo que desejamos ser, entretanto esta guerra foi fundamentalmente decidida nas ruas, por meio da força do povo que a exigiu, principalmente os jovens, os estudantes e os trabalhadores, artistas e artesãos. Marchamos sobre toda a cidade do Rio de Janeiro, do Paço à Quinta, e exigimos do Império a declaração de guerra ao tirano e ditador Solano Lopes, que impôs a seu nobre povo sacrifícios que resultariam no caos. 185


Ao nos depararmos com um dos mascates encontrado morto e estirado à margem do Canindé, não tivemos a menor dúvida de que o comboio de suprimentos que nos aguardava havia sido interceptado pelas tropas paraguaias. Certamente se apropriaram da carga, além de ter dado fim a todos como de costume. Próximo ao seu corpo podíamos encontrar destroços das carroças e muita farinha com arroz misturada à lama, totalmente imprópria para o consumo humano. Mas eis que a soldadesca não titubeou ao pressentir encontrar algo para se comer; famintos e exaustos como se encontravam, avançaram na direção dos destroços, abandonando a formação. Quadro horripilante aquele, alguns se portaram como feras esfomeadas atirando-se com a cara na lama com a esperança de poder tirar dela um pouco da farinha ou arroz cru, empurravam uns aos outros e disputavam cada palmo no chão. Os oficiais em primeiro momento nada puderam fazer, a insubordinação se irradiava, e somente teve freios após a intervenção severa de um dos oficiais do 1º Corpo de Caçadores, de Goiás, o alferes Manuel Rodrigues Benfica, que chegou às vias de fato com um deles, intimidando-o com o revólver em punho e se declarando capaz de atirar em qualquer um que desobedecesse as ordens de seus oficiais. Foi então que se deram conta dos acontecimentos, cada qual se entreolhava com expressão de vergonha, quando um dos sargentos dessa mesma unidade gritou para que todos retornassem as suas posições de formação: FORMAR FILA! E todos se puseram de pé e as pressas ajeitaram-se lado a lado. Notei que nenhum negro ou índio participou da desor186


dem, como de costume eram muito disciplinados. Nosso comandante dera pouca importância ao fato, e assim que se aproximou da moçada esta já não mais se atrevia a dar demonstrações de criancices. Determinações dadas pelo comando fizeram ordens de marcha forçada, houvesse o que houvesse não poderíamos mais nos atrasar. Os corneteiros não paravam de transmitir ordens em seus clarins, fazendo-me recordar com saudade da banda de música que nos acompanhou desde Uberaba até a tomada de Bela Vista e Laguna. Infelizmente os garbosos músicos mineiros não resistiram à peste de cólera e tombaram vitimados em seu infortúnio. Vencemos nesse dia, com algumas dificuldades já anunciadas, nossa marcha a passo forçado até o rio Nioac. Estávamos a duas léguas do paradeiro prometido, era o 2 de junho. Já no dia seguinte, a pressa era ainda maior, pois no coração dos homens de fé há sempre espaço para a esperança, e como já tínhamos passado tudo de ruim que poderia nos acontecer, os sobreviventes daquela Expedição, dávamos graças a Deus por termos conseguido chegar até aquele ponto. Não obstante, detivemo-nos na travessia do Nioac por ordem do comandante. É que alguns batedores haviam encontrado rastros de cavalaria em uma das margens do rio, sugerindo que o inimigo estaria por perto e à espreita logo à frente. Dentre os inimigos, aqueles que se dispuseram a nos vigiar pela retaguarda foram sempre repelidos pelo fogo certeiro dos La Hitte, promovendo o seu distanciamento do núcleo da Coluna. Alguns dispa187


ros ao acaso foram feitos com o propósito de acerto de mira, isso nos deixava também mais seguros com relação ao afastamento dos olheiros que vigiavam nossos passos. Aproximamos-nos da Vila ao ponto de perceber alguns rolos de fumaça sobre o horizonte, certamente as marcas do incansável e perseverante perseguidor. O 21o na vanguarda foi posto em estado de atenção redobrada, durante a marcha sobre os campos alagados. Dado aos achados espalhados pela margem do rio, tínhamos como certa a presença do inimigo sobre aquela área. Eis que um certo indivíduo, para toda a surpresa do Batalhão, trajando uniforme paraguaio, veio em nossa direção; não titubeou a vanguarda em reprimir seu avanço solitário, com disparos de fuzil miniê, obrigando-o a deitar-se sobre o solo. Alguns segundos, e o desconhecido lentamente levantou o braço, e com a mão direita segurando um graveto, no qual havia um pano branco amarrado em sua extremidade, começou a agitá-lo de um lado para o outro. Não havendo repressão de nossa parte, levantou a cabeça e, em seguida, calmamente o tronco, tratava-se nada mais nada menos do que o mascate italiano de nome Saraco, aquele que havia trazido suas mercadorias até nosso acampamento antes da investida sobre Laguna. Tínhamos certo como morto, mas o gatuno italiano, que muito nos divertira em outros bons momentos, reabilita mais uma de suas vidas diante de nossos olhos, e para a alegria de todos. Fora bem recebido, em seguida conduzido ao comandante para que lhe fossem passadas algumas informações sobre a investida inimiga sobre a Vila. 188


Contara-nos que, por várias vezes, deu-se por morto para não sofrer desgraça na mão do inimigo, e que havia se separado do comboio em Miranda, logo destruído, donde passou a caminhar de Canindé a Nioac, sem saber bem onde estava, até que nos encontrou. Posto o inimigo fora de nossa rota e longe de nossas vistas, determinou o major o avanço sobre a tão almejada Vila de Nioac. Era o dia 4 de junho de 1867, dia inesquecível em nossas vidas, e em especial na minha. Esperávamos encontrar o oficial que fora designado pelo coronel Camisão como responsável por sua guarda, mas o que nos aguardava era somente destruição. O destacamento, conforme podíamos notar, havia deixado sua posição, sem que houvesse indícios de que alguma batalha ali pudesse ter acontecido. Nossa Coluna foi posta parte fora da Vila, espalhados em seu redor, e outra parte dividida em dois flancos que avançaram cautelosamente até o ponto de encontro que seria a Igreja, marco central da Vila, os índios e civis deixados fora do perímetro. O silêncio havia se manifestado, pois a existência de emboscada ou truques seria mortal, nossos olhos não deixavam de observar qualquer movimento hostil, podia ouvir com exatidão as batidas do meu coração. Daniel e eu integrávamos a mesma patrulha de ocupação, sendo que eu ficava de um lado da rua principal que avançava em direção ao centro, e Daniel, do outro lado dessa mesma rua. As casas se encontravam em estado deplorável, haviam sido saqueadas e destruídas, algum mobiliário se encontrava completamente danificado e atirado fora de 189


seus ambientes. Nenhuma alma encarnada, viva ou morta, fazia-se presente. O ambiente era terrível e retratava a crueldade da guerra, quantas famílias não foram prejudicadas, quantos lares não foram destruídos. Ao chegarmos num pequeno largo que dava de frente para a Igreja, pequena em suas proporções, notamos rastros de mantimentos que davam até sua entrada principal. Concluiu-se que nossas tropas antes de terem deixado a Vila poderiam ter guardado em seu interior os víveres e munições de que dispunham, e não foram deixados poucos. Nioac, que representou por muitos e muitos dias de nossa odisseia a esperança de um porto seguro, passou a figurar em nossas mentes como uma incógnita desesperadora, onde o infortúnio poderia resultar de nossa inocente presença. Com os homens reunidos no ponto de encontro, ficamos à espera de alguma ordem maior que nos levasse a desvendar o sinal deixado diante da Igreja. Se de certo, haviam lá deixado mantimentos e munição, para nós seria a glória de ter retornado a Nioac, pois saciaria a nossa fome e abasteceria nossas armas de farta munição. Como muito precavido era nosso bravo comandante major José Tomás Gonçalves, determinou diante de todos que devíamos circundar a Igreja e explorar seus arredores. Aquela que foi a singela e aconchegante Nioac de outros tempos, no dia de 4 de junho, não passava de uma pequena demonstração do que vem a ser o inferno. Nas ruas atrás da igreja encontramos vários cadáveres de alguns soldados que desertaram de nossa Coluna, com 190


sinais de tortura e extremo sofrimento, e de alguns civis, como por exemplo a de uma velha senhora que teve sua goela exposta e seus seios arrancados, cujo corpo estirado sobre a lama e sangue jazia como sinal de crueldade jamais vista. Uns foram mortos como animais em matadouro, outros pareciam ter destruído a si mesmos, como forma desesperadora de pôr fim àquilo que não mais lhes servia, a própria vida. Sinais de que vários crimes de guerra foram praticados. Restos de arroz e sal, este tão raro em nossa dieta, apareciam misturados à lama e queimados de propósito pelo invasor hostil, Nioac fora duplamente invadida, saqueada e destruída, sem que houvesse sinais de resistência por parte dos nossos. O dia estava por cerrar em seus horizontes e a ordem de acampar em terreno plano e seco, atrás dos arredores da Igreja, foi transmitida pelos sargentos de pelotões, obedecendo mando de nosso novo comandante. Um pelotão foi escalado para o enterro das vítimas. O inimigo havia desistido de nos perseguir dali para frente, pois a quinze léguas teríamos o encontro com tropas brasileiras em Aquidauana. Orgulhávamos-nos de ter conseguido chegar até Nioac. O comandante fez construir mastro para hastear o pavilhão nacional, que tremulou durante a nossa estada. Foram autorizadas várias fogueiras no interior do acampamento, isso nos deu sensação de conforto e segurança. Muitos grupos de prosa foram se formando em redor delas. As mulheres cantavam e dançavam, enquanto a soldadesca apreciava a demonstração de eufo191


ria e alegria, crianças corriam entre os adultos durante brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde. A paz reinava, mesmo que temporariamente. Quando retornava de meu posto de vigia, encontrei-me com Daniel e Aurora que caminhavam abraçados e com os cabelos molhados, vestígios do banho que haviam tomado no riacho próximo. Sorridentes me cumprimentaram e me perguntaram se eu já havia feito alguma refeição, respondi-lhes que não, pois estava retornando do serviço da guarda. Convidaram-me para desfrutar de algum jantar em sua companhia, sem vacilar aceitei. O diálogo se fez presente, assim posto: − Como vê nosso retorno a Nioac nos deu mais ânimo e esperanças, mesmo na guerra, Daniel, nem tudo esta perdido. − Creio que sim, Augusto, na guerra assim como na vida de modo geral. − Como será que contarão um dia a história desse episódio, no qual somos seus personagens? − Nem imagino, Augusto. Sequer lembrarão que aconteceu coisa desse gênero. − Hum... Duvido muito, Daniel, pois o tenente Taunay escreve muito sobre tudo que se passa, além é claro dos relatórios dos comandantes. − Mas, o povo chegará a tomar conhecimento da existência de tais documentos? − Isso somente a Deus pertence, e ao futuro. Certo é que estamos fazendo história, disso eu tenho certeza! Essa não será uma guerra como as outras, tudo leva a crer. Só espero que não dure muito, estou ansioso pelo retorno para o Rio de Janeiro. 192


− Augusto, tenho pensado muito sobre a duração de nossas vidas. Nesses últimos meses passamos por inúmeras dificuldades, que nunca imaginei existirem, sobrevivemos a todas, entretanto, sinto-me como se muitos anos de minha vida foram abreviados. − Como assim, Daniel? − É algo do tipo... Parece que estou no fim da vida. Uma sensação desagradável e desconfortante para a alma. − Ora, Daniel, já conversamos sobre isso! Decorre dos dias de terror e privações que nos são impostas pelo destino. Às vezes o sofrimento é tanto que pensamos ser o fim dos tempos. − Por exemplo, quando chegamos à Igreja, hoje à tarde, olhava atentamente para ela enquanto um pensamento estranho ocupava minha mente. Algo me fazia crer que ali seria o nosso destino final, não sabendo ao certo se para o bem ou para o mal. − Qual nada, Daniel, você deve estar é muito preocupado com o filho que irá nascer, daí a origem desses delírios. − É, pode até ser... Não comente nada sobre isso com Aurora. Nisso Aurora se aproxima com duas canecas de chá e dois pratos com muita verdura e alguma carne cozida. − Olha o que eu consegui para vocês, um banquete. − Que beleza! Uma maravilha de refeição. Como conseguiste a carne? − Foram distribuídas algumas partes dos bois que resgataram da caravana dos mascates, alguns animais se encontravam perdidos no meio da mata. As verduras foram achadas no quintal de uma casa, que certamente foi 193


esquecida pelos paraguaios. Eu e mamãe colhemos algumas para o jantar e distribuímos o resto para as outras mulheres, senão iria estragar tudo mesmo. E o chá é do que restou do estoque de ervas da mamãe. − Então o que estamos esperando, Augusto? Vamos nos deliciar, aproveite! − Aurora, não sei nem o que falar em agradecimento. − Augusto e Daniel, parem de tagarelar e comam. Vou ajudar mamãe com a distribuição da comida às crianças órfãs e depois eu volto para prosear com os dois. Bom apetite! − Aurora, agradeça a sua mãe em meu nome por gentileza. − Pode deixar, Augusto, eu faço, mas agora pelo amor de Deus, comam! Distanciou-se Aurora, indo na direção do grupo de civis que se encontrava no miolo do acampamento. − Daniel, Aurora foi para ti um achado de ouro. − Também penso assim, Augusto. Gostaria muito que nada me acontecesse para poder dar a Aurora a vida que ela merece ter. Ela me disse que gostaria de estudar e ser professora, trabalhar com a educação de crianças. Sempre se mostrou muito determinada e independente, sem perder a doçura e sua singela ternura. Que bela forma de terminar uma noite, com a certeza de que teríamos o dia seguinte. Contemplar a vida e a natureza é perceber que Deus existe, é encontrar no amor a razão e o sentido para a vida. Com a calmaria da noite anterior, marcada pelos risos, pelas prosas e no batuque contagiante dos negros 194


que serviam à Coluna, o toque da alvorada se fez presente com muito furor. Levantou-se acampamento com muita rapidez, e logo nosso comandante se encontrava à frente da tropa perfilada para cantarmos entusiasmados o hino do Império. Não houve soldado que não tivesse ajeitado seu uniforme, apresentaram-se no melhor dos trajes. Como ainda havia a questão da Igreja e seu interior, lembrando que algumas peças da banda de música e cartuchames haviam sido deixados lá da última vez que estivemos em Nioac, antes de nossa partida para Laguna, resolveu nosso comandante destacar uma companhia do 17 para averiguar a possibilidade de retirada do material existente, para que fosse reincorporado ao patrimônio do exército, e se possível os mantimentos e farta munição. O tenente da companhia entendeu que melhor seria realizar a tarefa por meio de alguns voluntários, reunindo com facilidade mais que uma dezena deles. Fiquei com a incumbência de vigiar a frente da capela, com alguns de meus camaradas, e Daniel, pasmem, apresentou-se como voluntário para explorar a Igreja e retirar de seu interior tudo o que fosse útil à Coluna. Daniel não dava as costas para o dever, mesmo com a preocupação sobre seu futuro lhe enchendo a cabeça. Iniciaram, então, a incursão à Igreja com a cautela necessária, explorando primeiramente as partes mais próximas da entrada principal. Observando que nenhum perigo iminente se apresentava, providenciaram a remoção de algumas caixas e peças de material de campanha, como ferramentas, lonas, instrumentos de montaria, enfim, coisas mais fáceis de transportar. Saíam como formi195


guinhas, um a um, em fila indiana, cada qual carregava nas costas ou nos braços aquilo que podiam levar. Tudo parecia estar sobre controle, quando resolveram verificar o que havia próximo do altar, mais adentro, estava escuro como breu, mas foram assim mesmo. Não obstante em acender uma tocha, eis que um pobre e infeliz soldado, mais afoito, saiu da capela e em seguida entrou com o brandão incandescente em sua mão. Logo em seguida ouvimos alguém gritar: − Pare, o chão está cheio de pólvora e essa coisa vai explodir com a Igreja! Alguns segundos e... Boom! Um estouro ensurdecedor que fez a terra tremer sob meus pés, atirando para fora alguns destroços. O fogo foi notado imediatamente após a explosão. Não deu tempo para nada, pois a sabotagem que foi deixada a nossa sorte fora muito bem preparada pelos paraguaios. Um gigantesco cogumelo de fumaça escura se formou sobre o teto da Igreja, indo reto ao encontro das nuvens que pairavam no céu. Ficamos espantados com a situação, pegou de surpresa todos os que ali estavam a mirar o desastre. Muita gente correu em nossa direção para tomar ciência do que tinha acontecido. Dois dos nossos foram arremessados para fora da edificação, atingindo o solo inertes, chamuscados pelas chamas. Preocupado com o que teria acontecido a Daniel, desloquei-me do posto, sem autorização, e fui correndo em direção à entrada principal da Igreja. Não dava para entrar devido ao excesso de fumaça e calor. Vi, quando apenas cinco homens conseguiram, por meios 196


próprios, sair daquele inferno, atirando-se para fora com as roupas em chamas, foram logo cercados pelos que ali se encontravam e lhes ofereceram ajuda. Por último, ainda assim, saiu quase nu, com parte da roupa grudada em sua pele, e todo escoriado devido à explosão e ao fogo, meu leal amigo Daniel. Apesar de ter pensado nele logo após a explosão, com imensa preocupação, confesso ter acreditado que ele poderia se salvar dessa, como o fez em muitas outras situações de perigo iminente. Daniel saiu cambaleante, veio em minha direção, e em seguida, antes que pudesse agarrá-lo com meus braços, caiu de joelhos sobre o solo com as mãos erguidas para o alto. Como se agradecesse a Deus por algo. Antes que deixasse seu tronco tombar para frente, cheguei em seu socorro e o amparei em minhas mãos. Virei seu pesado corpo para cima, apoiando-o em minha perna, notei que estava muito queimado, não somente o rosto e os braços, uma parte da pele do rosto desgrudava-se quando seus cabelos torrados se soltaram da cabeça. Começou a perder muito sangue pelo abdômen, devido à perfuração que provocou um pedaço de madeira de um dos caixotes da munição. Daniel abriu lentamente os olhos, e sussurrou em meus ouvidos: − Não foi em vão... Feliz estou por ter servido a minha pátria... Cuide de Aurora. Respondi-lhe: − Prometo, meu amigo, mas agora descanse. Logo apareceu Aurora que tinha sabido da sabotagem. Tomou Daniel para si, como a uma criança de colo, e chorando muito gritava: Daniel! Daniel! 197


Daniel apenas esperou por sua amada, não aguentou aos ferimentos e meu desventurado amigo acabou por morrer nos braços daquela a quem dedicou seus últimos e melhores dias. Desesperada, virou-se para mim e disse: − Augusto, não deixe ele morrer, eu não quero que ele morra! Abaixei-me e peguei em seus ombros para ajudá-la a se levantar. Sua pobre mãe, também aos prantos, agarrou a filha num abraço muito emocionante, e ambas choraram até o anoitecer. Enquanto isso, o próprio major reuniu muita gente para combater o fogo, não faltando quem o auxiliasse, civis ou militares. Foi feita uma fila da porta da Igreja, até o córrego próximo, que trocava de mão em mão baldes d’água. Quase uma hora depois e as chamas estavam debeladas, mas levara tudo que pôde, restando apenas alguma fumaça que se dissipava ao vento, espalhando-se pela Vila. Muita das coisas foram queimadas e reduzidas a destroços, nada se aproveitando. A tristeza tomou nossas almas, não houve quem não tivesse lamentado o acontecimento, muitos demonstraram indignação e outros apenas choravam. A revolta com o destino daquela dezena de fiéis camaradas não podia ser detida, sobreviveram a toda a retirada desde Laguna, para morrerem aqui, em Nioac, nosso porto que deveria ser mais que seguro. Jamais encontraremos explicações para tão trágico acontecimento. Naquela noite, por mais que tentasse, não consegui consolar Aurora. Prometi a sua mãe que não a deixaria 198


sem proteção, assim como fiz a Daniel. Combinamos que, quando terminada a guerra, eu a procuraria, não perderíamos o contato até então. Dona Elvira, aquela ocasião, disse-me que haveria de dar o nome de seu falecido marido ao neto, ainda por nascer, chamava-se Gregório, homem de muita coragem e bravura, assim como seu genro. Daniel foi sepultado em cova rasa, ao lado de seus camaradas que também foram vitimados pelo incêndio na Igreja. Na base de sua cruz, deixei uma inscrição feita a lápis, com os seguintes dizeres: dulce et decorum est por pátria morum. Os indígenas depositaram na cova de cada um deles um cocar de cacique, e os soldados negros cantaram durante toda a noite seus cânticos de louvação, como uma homenagem aos heróis. No dia seguinte, com o espírito mais sereno, fizemos formatura logo após a alvorada, onde teve nosso comandante grande desempenho como magnífico líder, ao proferir sinceras palavras sobre a atuação daqueles que deram suas vidas em troca da liberdade de seu povo. Encerando seu discurso com a seguinte frase: “A história, algum dia, haverá de enaltecer os nomes daqueles que corajosamente souberam doar suas vidas à causa da Pátria”. Dirigimo-nos em seguida, em macha acelerada, para Aquidauana. Antes que lá chegasse, recebi a ordem de acompanhar na escolta até Uberaba, o tenente Pinto de Souza e o alferes Sabino Fernandes, com a missão de seguirem para Santos, onde deveria estar nos aguardando um vapor de volta para a Corte no Rio de Janeiro. O propósito foi o de enviar ao Comando do Exército, um relato completo das operações da Coluna. 199


Fui desincorporado do 17 BVP e promovido por ofício ao posto de cabo. Cada um de nós recebeu uma montaria e farta porção de farinha, rapadura, charque, sal, açúcar e pó de café, encontrados pelas redondezas da Vila. Na despedida, procurei meus companheiros de Batalhão e lhes prometi estar em Mariana para o cumprimento da promessa, a de entregar nas mãos do Bispo a nossa devotada bandeira. Minha despedida de Aurora foi quase que solene, prometi que faria contato, durante e após a guerra. Segui ansioso para o Rio de Janeiro, afinal era lá o meu lar. A guerra ainda se prolongou por mais três anos depois de Nioac, parecia não ter fim.

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Epílogo O gigantesco navio de transporte de tropas fazia soa com vigor o sinal de embarque. VUUUUU! “Era a ordem que esperávamos há quase um ano.” Pensava o capitão de infantaria do Regimento Sampaio, Augusto Ferreira de Morais. Augustinho agora contava, no ano de 1944, com 34 anos e se preparava para embarcar para a Europa, juntamente com sua unidade, no navio da Marinha de Guerra Norte-Americano. Sentado à sombra de uma viatura, estacionado no pátio do porto do Rio, relia o livro deixado por seu avô, Nioac. Cerrando suas páginas, embrulhou-o numa sacola de pano e o enfiou no seu bornal. Augustinho seguia para a Guerra da Europa e iria enfrentar os soldados de Hitler, em terras desconhecidas e distantes de nosso País. O único propósito seria o de lutar, em conjunto com soldados de outras nações, pela soberania dos povos livres e pelo direito de sermos todos independentes. Seu grande ídolo sempre foi o seu avô, que lhe deixou como herança o espírito destemido, a honra e o amor por seu País, agora uma República; mas isso nada significa, pois a Pátria é o seu povo e sua bandeira, jamais sua

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forma ou sistema de governo. Augustinho apresentou-se como voluntário para a guerra, não aguardou ser convocado, isso logo após o torpedeamento de nossos navios mercantes, em águas brasileiras, pela Marinha nazista. Repetia com isso o gesto patriótico de seu avô, ou melhor, de seus avós. Também o pai de seu pai fora um honrado e heróico Voluntário. Antes de se apresentar para o desfile de despedida das tropas, que ocorreu no Centro da cidade do Rio de Janeiro, Augustinho foi à Praia Vermelha depositar flores junto ao monumento dos heróis da Retirada da Laguna. Em fileiras, coluna por um, subiam os soldados à rampa de acesso à embarcação, que jogava de um lado para o outro, face ao movimento do navio provocado pelas ondas serenas da baía da Guanabara. Augustinho ao subir a rampa, virou-se para trás para poder mais uma vez contemplar, rapidamente, a paisagem que haveria de gravar em sua mente, por todo o tempo em que tivesse de ficar ausente. O casario, os prédios, as montanhas, os pássaros, o céu... E o cheiro da terra e do mar. Pareceu ouvir naquele instante uma voz que vinha de longe: − Siga com Deus, meu neto. Algo semelhante à voz firme e altiva de seu avô, mas não, era apenas a sua imaginação. “Por mais terras que eu vá percorrer, não permita, Deus, que eu morra”, foram suas derradeiras orações na Igreja do Carmo. Lembrou-se da esposa e dos dois filhos, mas não titubeou, seguiu em frente, foi cumprir sua missão. FIM 202



Nioac Almir Lage

São Paulo 2016


Copyright © 2016 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa

Almir Lage

Diagramação

Jacilene Moraes

Revisão

Raquel Sena

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ L17n Lage, Almir Nioac / Almir Lage. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2016. ISBN 978-85-437-0655-9 1. Romance brasileiro. I. Título. 16-35301

CDD: 869.3 CDU: 821.134.3(81)-3

________________________________________________________________ 08/08/2016 10/08/2016 Impresso no Brasil Printed in Brazil

DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Quitanda, 139 – 3º andar CEP 01012-010 – Centro – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br


A saga de irmãos brasileiros na maior odisseia de todos os tempos. Submetidos ao terror imposto pelo astuto inimigo, sobreviveram a mais cruel de todas as batalhas. Narrado pelo nosso protagonista, baseado em seu memorial sobre a guerra do Paraguai.

Deus meu! Há pessoas que nasceram depois da Guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram, que se casam, que têm filhos e, não obstante, nasceram depois da batalha de Aquidaban. Machado de Assis (Crônicas, 1897)


Para entender a “Retirada da Laguna” Com a Campanha da Tríplice Aliança cada vez mais acirrada, uma coluna expedicionária, em abril de 1865, partiu de Santos (SP), para apoiar as tropas que se encontravam em Mato Grosso, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago. Novos soldados foram arregimentados pelo caminho, totalizando uma força de 3 mil homens. Recebendo ordens de seguir para Coxim (MS), a coluna lá ficou, ilhada pelas inundações, até junho de 1866. Durante esse tempo, foi reduzida a cerca de 2 mil soldados, atingida pela fome e enfermidades. Ao morrer o comandante Drago, assumiu a chefia da tropa o coronel Carlos de Morais Camisão. A 11 de janeiro de 1866, iniciou-se o deslocamento para Nioaque (MS), localidade escolhida como base de operações. A coluna lá chegou com cerca de 1.300 homens. O coronel Camisão decidiu cruzar o rio Apa, adentrar o território paraguaio e conquistar a região de Bela Vista. Orientada pelo guia José Francisco Lopes, a coluna seguiu avante. Mas, sem meios de transporte, foi-lhe muito difícil ultrapassar os rios e pântanos com os trens de combate e as peças de Artilharia. As forças adversárias, obrigadas a recuar, destruíram tudo o que pudesse servir aos soldados brasileiros: nem comida, nem água, nem pousada havia para os combatentes. O coronel Camisão rumou para a Fazenda Laguna, a fim de conseguir mantimentos e proporcionar repouso à tropa.


Sob a perseguição furiosa do adversário, foi ordenada a retirada, sob as agruras da fome, da sede, da terra calcinada pelo fogo que era ateado aos campos, da fumaça que causava profundas irritações pulmonares, das tormentas que tornavam impossível a locomoção no território pantanoso. Não havia munição nem alimentos, e a coluna prosseguia com o cólera e outras enfermidades ceifando inúmeras vidas. Sem meios para cuidar dos doentes e feridos, estes foram deixados no campo. Os sobreviventes marcharam, com dificuldade, até uma fazenda, onde foram encontradas laranjas para alimentação dos soldados. A duras penas, a coluna chegou a Laguna. Mas Camisão e o guia Lopes, vítimas dos sofrimentos causados pela árdua marcha, não chegaram a esse destino. Assim como quase a metade dos bravos que iniciaram a Retirada. (fonte: http:// www.exercito.gov.br/VO/169/laguna.htm)



Sumário Capítulo I - Mandiocas fritas............................11 Capítulo II - Transe infernal.............................19 Capítulo III - Sagrado dever..............................27 Capítulo IV - Patria morum..............................31 Capítulo V - O baú.............................................37 Capítulo VI - Finalmente Nioac........................47 Capítulo VII - Momentos...................................53 Capítulo VIII - Ao Apa.......................................63 Capítulo IX - Rumo a Bela Vista.......................71 Capítulo X - Frente a frente com o inimigo.....81 Capítulo XI - Missão cumprida.........................93


Capítulo XII - Laguna......................................105 Capítulo XIII - Pausa para o chá....................115 Capítulo XIV - Batalha de Baiendê................119 Capítulo XV - Machorra.................................131 Capítulo XVI - A Batalha de Nhandipá........139 Capítulo XVII - Fome, fogo e frio...................149 Capítulo XVIII - Deus existe!..........................161 Capítulo XIX - Canindé...................................171 Capítulo XX - Nioac.........................................185 Epílogo...............................................................201


Capítulo I

Mandiocas fritas

Lá fora, soprava o vento em todas as direções, exceto aquele que através de minha janela provocava o tecido que compunha uma das partes da cortina do meu quarto, iam e vinham sobre o parapeito, acompanhando as golfadas de ar trazidas pelo fluxo e refluxo da brisa, perfumando-o com cheiro de terra molhada. Pelo que imaginava, com mera observação aos suaves raios de sol que lentamente iam perdendo seu brilho, e ainda iluminavam as paredes opostas às janelas, deveriam ser aproximadamente lá pelas seis horas da tarde do segundo sábado de março de 1920. Inerte, sobre uma cama confortavelmente arrumada e cheirosa, aguardava meus derradeiros momentos de contemplação e meditação, apelando por meio de minhas orações ao piedoso divino que, se possível, concedesse a graça de receber minha pobre alma nos jardins do sagrado éden; se, pelos pecados que cometi, 11


não merecesse sua misericórdia, a devida punição deveria ser mais do que a sua sábia justiça. Enfim, preparava-me para em breve ocasião o encontro com a grande verdade. Deu-me, prazerosamente, grande vontade de respirar de novo aquele ar, como se fosse a última vez que o sentia penetrar em meus pulmões, agora cansados e ressentidos pelo tempo e pelas agressões que sofreu ao longo de tantos anos. Quebrando o silêncio, o som do relógio de parede da sala de visitas anunciava exatamente com as seis badaladas, o que correspondiam às dezoito horas, aquela magnífica tarde de verão quase outono. Interessante... Tantas e quantas vezes vivi tardes de verão, mas, que me recorde, nunca como nesta hora deste dia, sentia minha mente se deslocar de meu corpo franzino a cada minuto, sem dor nem sofrimento, tornava-se cada vez mais volátil e solta, dava a impressão de acompanhar os sopros de ar que invadiam o meu quarto. Mal podia senti-lo, que apoiado sobre um colchão macio e travesseiros tufados, serviam de molde às partes opostas de minha cabeça e pescoço. O assoalho estava limpo, a madeira do piso brilhante e, através do reflexo do espelho de meu guarda-roupa, pude observar que embaixo e ao lado de minha cama, à minha direita, sobre o tapete de pano, estava meu par de chinelos de couro fofo, aquele que havia ganhado no ano anterior do neto que leva o mesmo nome que o meu, Augusto. Do quarto, ouvi o som do portão de ferro da entrada do jardim se abrindo, um pouco enferrujado pela falta de arrumação, em seguida uma batida forte na por12


ta da sala que dá para a varanda. Era, pela hora, minha única filha e seu filho mais moço de 10 anos, o Augustinho, juntos vieram para substituir a minha empregada no seu final de labuta diária. Sob hipótese alguma me deixavam sozinho em casa, havia sempre uma companhia amiga e solidária. Logo após terem entrado, percebi que conversavam em tom pouco audível, sussurravam, talvez para não me incomodar, era natural considerando-se o meu estado de saúde, devidamente prejudicado pelo envelhecimento. Os passos no assoalho indicavam que vinham em direção ao meu quarto, abri os olhos para recepcioná-los, em seguida abriram com cuidado a porta procurando evitar fazer ruído que incomodasse. Besteira, da minha parte eram sempre bem-vindos sob qualquer circunstância. A presença de meus familiares sempre surtia efeito benéfico sobre minha delicada saúde, preferia estar com eles em minha casa do que ficar a mercê de algum asilo ou sanatório. Assim que entraram perceberam que eu estava acordado e, devagar, foram se aproximando, meu neto me beijou a mão direita, e minha filha beijou-me a testa carinhosamente. Que saudades! Passavam quase todas as noites comigo desde que adoeci, adorava saber que não me encontrava velho e abandonado. Minha filha sempre foi muito meiga comigo, seus filhos haviam herdado esse dom. Adorava recebê-los todos os domingos para almoçarmos em família. Passamos juntos o Natal e Ano-Novo desde seu casamento com Gregório, órfão de pai desde o nascimento, competente e dedicado médi13


co militar, filho de um grande amigo e companheiro... Que Deus o tenha... − Papai, como passou o dia hoje? − perguntou-me com peculiar simplicidade. − Vovô conta uma história? − pedia com tom eufórico meu pequeno Augusto. − Deixa seu avô descansar! − Descansar do quê? Passei o dia descansando, como o faço já há muito − respondi-lhe sem arrogância. − Depois do jantar então o senhor conta a história que tanto Augustinho está pedindo, combinado? − Está certo então, fica assim combinado. Augustinho, depois da refeição, prometido? Balançou a cabeça para cima e para baixo como quem havia concordado com a proposta. Levantei-me da cama para me dirigir à copa com a bondosa ajuda de Madalena, que ofereceu seus braços para servir de apoio às minhas trêmulas mãos. Ao ficar de pé ainda senti aquele ligeiro mal-estar de quem havia ficado deitado quase que o dia todo, meu joelho esquerdo ainda sentia a maldita ferida cicatrizada à fogo, era só aguardar, que mais um instante a dor passaria, logo poderia caminhar com minhas próprias pernas, aquelas mesmas que me levaram até o inferno e dele me tirou para a glória e honra. Ao me aproximar da cozinha senti um cheirinho agradável da sopa de couve com farinha de milho, inhame e bacon, que Glorinha havia deixado antes de sair. Augustinho se sentou à minha direita e Madalena à minha frente do outro lado da mesa. Logo nos servimos, meu neto, sem cerimônia, mergulhou sua 14


colher nas mandiocas fritas feitas na manteiga, seu tira-gosto favorito, eram crocantes e salgadas a gosto do seu maior apreciador. Adorava vê-lo comer com aquele apetite fugaz, dava-me a impressão de que gostava não só de mandiocas fritas, mas, principalmente, de estar em minha casa ao meu lado e juntamente com sua mãe. Madalena não o repreendia por isso, desta feita, eu muito menos. Aliás, como eram gostosas aquelas mandiocas fritas preparadas pela Glorinha, minha leal e fraterna empregada. Durante a refeição conversamos sobre vários assuntos, eu e Madalena, com alguma interferência bem-vinda de meu netinho, querendo saber o que era isto ou aquilo. Trocamos algumas ideias sobre atualidades colhidas nos jornais e nas ruas, coisas como a guerra da Europa que deixou muitos em condições miseráveis por lá, a difícil situação da Alemanha e seu pobre povo, também comentamos alguma coisa sobre a agitação provocada nas ruas, insatisfações com o presidente, o sistema, os artistas estavam divulgando novas linguagens para as artes, parecia que algo de novo estava para nascer no Brasil, toda a gente estava irrequieta, muitas coisas aconteciam ao mesmo tempo, mal dava para saber de um fato e já se sabia de outro logo em seguida, bons motivos para as manchetes dos jornais. O mundo depois da guerra europeia, a que passou a ser chamada de guerra Mundial, estava mudando muito, só não se sabia ao certo se a mudança seria para melhor. Durante nosso diálogo, lembrei Madalena que as guerras não trazem nenhum benefício e que nunca há vencedores, apenas sofrimento, cadáveres e mortos-vivos, 15


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