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Na sombra da cordilheira O s sobreviventes da ditadura



Na sombra da cordilheira O s sobreviventes da ditadura Edson Luiz Dias Cardoso

São Paulo – 2015


Copyright © 2015 by Editora Baraúna SE Ltda.

Jacilene Moraes

Capa

Diagramação Felippe Scagion Revisão

Natália Silveira

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ 261s Cardoso, Edson Luiz Dias Na sombra da cordilheira/Edson Luiz Dias Cardoso. - 1. ed. - São Paulo: Baraúna, 2014. ISBN 978-85-437-0171-4 1. Romance brasileiro. I. Título. 14-18713 CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 ________________________________________________________________ 16/12/2014 16/12/2014

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“...perfecto distingo lo negro del blanco, en el alto cielo su fondo estrellado, y en las multitudes el hombre que yo amo.� (Gracias a la vida — Violeta Parra)


“São Paulo, Capital, 31 de março de 1964.” Estamos vivendo estes dias com a vida profundamente marcada. Eu digo isso, porque acabara de eclodir o Golpe Militar. Ouço vozes sussurradas entre os mais velhos. As crianças são escondidas nos quartos para não ouvir a conversa dos adultos. Sou curioso e muito audacioso. Fico atrás da porta. Escuto, mas não compreendo. Enquanto conversam, alguns tomam café, outros, chá. Não compreendo bem o que se passa. De uma coisa tenho certeza: não é coisa boa. De manhã saí para buscar pão e leite. Vi tanques e carros da polícia que transitavam pelas ruas, antes tão pacatas. Não consigo entender. Nunca fizeram exercícios militares por aqui. Por que agora? Será que querem aprender técnica nova? Não sei. Mas eu gosto do que vejo. Canhões, metralhadoras, soldados de prontidão... Eu faço assim com os meus soldadinhos de chumbo. Crio estratégias de combate, que só eu acabo ganhando-a sempre. Meu irmão menor, Pedrinho, chora. Diz que não quer mais brincar e que eu o engano sempre. Eu, porém, digo que os irmãos mais velhos devem ganhar sempre, pra poder manter a superioridade. Digo que ele é bobo, pego o brinquedo e guardo. É meu. Sem o meu consentimento, ele não pode brincar. Faço isso para demonstrar minha autoridade sobre ele. Eu tenho treze anos e ele, dez. Logo, faço isso quanto e quando quiser. Não é assim que os adultos fazem com as crianças? Meu pai diz que faz como o patrão manda. Sempre. Final de tarde. Algumas andorinhas rodopiam e pousam nos galhos das árvores mais altas e que chegam 6


a encurvá-las quando centenas resolvem escolher uma delas como a preferida. Todos os anos, nessa época, elas passam por aqui, fugindo do frio no hemisfério norte, e todos aproveitam para se divertir, vendo-as fazendo piruetas, rasgando o céu como lanças ou dando voos rasantes, até pousar e começar tudo de novo. É bonito ver as coreografias que fazem todas ao mesmo tempo. Ou quase. Algumas parecem que precisam se mostrar mais. Será rebeldia? Enquanto centenas voam para um lado, dois ou três escapam pelo outro, mas sempre veem ao mesmo lugar. Às vezes acontece um pequeno desastre. Não com as andorinhas, mas conosco, curiosos. Esquecemos que elas não precisam pousar para aliviar seus intestinos. De vez em quando ouve-se o grito de um que foi metralhado pelo cocô preto e branco bem nas costas. É uma gargalhada só. Todos acham engraçado, menos o infeliz que foi alvejado. Mesmo assim, tudo acaba em festa e brincadeira. Quando escurece tudo se acalma. Em casa, jantamos eu, meu irmão e meus pais. Eles falam pouco. Meu pai fala de algo do seu serviço na fábrica. Minha mãe olha, mas não fala muito. Eu e meu irmão às vezes brincamos. A mãe ralha, dizendo que não é hora para brincadeiras, nos convida a jantar rápido e ir pra cama. Digo-lhe que preciso de ajuda numa lição da escola. Meu pai diz que me ajudará. Fazemos isso, enquanto minha mãe lava a louça. Depois vou para o quarto dormir. Mas não tenho sono. Escuto vozes. Levanto pé ante pé. Um casal conversa com os meus pais. Percebo que estão um tanto nervosos, mas contidos. Falam baixo. Parece que ninguém deve saber do que se trata. Aproximo em silêncio por detrás da porta. 7


— A polícia não pode fazer isso — fala o homem, com muita raiva. — Isso é contra qualquer princípio! — completa a mulher. — Temos que nos cuidar. É muito perigoso. Além do mais temos filhos pequenos — pondera a minha mãe. Eu gostaria de saber. É algo grave. Muito grave. O que está acontecendo? A polícia está só fazendo manobras. Eu acho muito bonito. Quando crescer, quero ser policial. Vestir aquela farda verde-oliva, com aqueles coturnos... O revólver impõe muito respeito. Imagino-me marchando... Empunhando um revólver... Pessoas me cumprimentando por isso. Na manhã seguinte minha mãe me acordou, como sempre às seis e meia da manhã. Me ajudou a vestir o uniforme, depois tomei o café e fui para a escola, a umas quatro quadras de onde moro. Hoje tem aula de História. Não sei se gosto mais da matéria ou da professora. Ela é muito bonita. Olhos verdes, pele morena e cabelos pretos, até os ombros. Eu ‘viajo’ nas suas aulas. Ela fala de um jeito, que dá a impressão que fazemos parte daquele fato que está nos contando. Hoje eu vi no banheiro da escola, alguns meninos do ginásio. Estavam com uma revista e riam muito. Não sei o que deve ter de tão engraçado. Quando passei por eles, ficaram quietos. Um deles a escondeu debaixo da camisa. Fiz o meu xixi e saí. Voltaram a folheá-la enquanto eu saía e faziam comentários sobre o que viam. Voltei para casa. Naqueles dias não se via muito movimento pelas ruas. Parecia que a cidade estava meio mor8


ta. Viam-se algumas senhoras apressadas, alguns homens, também apressados. Estavam indo às suas casas para o almoço. Ah, vi também vários policiais parados em algumas esquinas. Sempre com suas espingardas. Não deve ser nada de mais. De vez em quando, ouço meus pais falando de bancos e lojas sendo assaltadas. Deve ser por isso. Para dar proteção e evitar que isso continue acontecendo. Cheguei. A minha casa está com a porta entreaberta. Como sempre esteve. Minha mãe nunca trancava a porta da rua. Só quando íamos dormir. Entrei e vi que algumas coisas estavam fora de lugar. Fui até a cozinha. Minha mãe, meu pai e meu irmão não estão. Chamo, ninguém atende. Escuto o ranger da porta abrindo. Corro para ver. É a nossa vizinha, dona Ana. Pede para acompanhá-la, pois meus pais precisaram sair, e pediram que ela tomasse conta de mim e do meu irmão. Fui sem esboçar alguma reação. Obediência em primeiro lugar, segundo minha mãe. Encontrei meu irmão. Estava almoçando. Seus olhos estão vermelhos. Chorou. Pergunto por quê. — Danilo, vieram uns homens e levaram o pai e a mãe — choraminga. — Por quê? Quem eram? — pergunto meio assustado. — Uns homens vestidos com roupas de soldado — responde Pedrinho. Pego meu irmão pelo ombro. Consolo-o. Como irmão mais velho, quero cuidar dele. Protegê-lo. Passaram alguns meses. Meus pais ainda não voltaram. Perguntei à nossa vizinha, por que meus pais ainda não voltaram. Ela então respondeu que eles foram visitar um parente que mora muito longe e que está muito 9


mal. Eu não consigo entender. Eles nunca nos deixaram sozinhos... Mesmo quando tinham algo muito pequeno a fazer, nos levavam junto. Diziam que os filhos devem acompanhar sempre seus pais, assim aprendem melhor. Amanhã é outro dia. Vou dormir. Brinquei muito e estou cansado. Meu irmão e eu dormimos numa cama de solteiro, no quarto dos fundos da casa desta família que nos acolheu. Eles são muito gentis conosco. Quase não falam nada. Percebo, porém, que a mulher nos trata como filhos e nos olha sempre como muito carinho. Às vezes percebo que ela tem pena da gente. Não consigo entender o porquê. Temos casa, pai, mãe, comida... Não entendo. No dia seguinte fui à escola. A professora fala. Não consigo prestar atenção. Acho que estou preocupado. Algo me diz que as coisas não estão bem. Estou com saudades do meu pai e da minha mãe. O carinho, a atenção deles me faz falta. Ultimamente, meu irmão chora mais do que de costume. — Por que você chora? — Estou triste — lamenta, choramingando. — Mas por quê? O pai e a mãe vão voltar logo — tento acalmá-lo. — Eles não voltam mais — fala com tanta veemência que me assusta. — Cala a boca, moleque. Você não sabe o que está falando — grito. — Aqueles homens malvados, vestidos com as roupas de soldado bateram no rosto do pai.Eles falavam palavrões. Fiquei com medo. Me escondi atrás do armário. A conversa com meu irmão me deixou chateado e intrigado. O que foi que meus pais fizeram? Sempre nos 10


ensinaram a respeitar as pessoas. Falavam que nunca devíamos responder aos mais velhos. Saio com meu irmão até a calçada. Tento brincar com ele; o ânimo não vem. Não sei o que fazer. Tento me lembrar de alguma coisa. Faz tempo que não brinco, que nem me lembro mais das coisas, de como me divertir. De repente me vem à cabeça de que eu tenho em algum lugar um pião. Preciso achá-lo. Explico a Pedrinho como ele é, para que me ajude a procurá-lo. Remexo em gavetas, baús, debaixo da cama..., encontro-o na sapateira, dentro de uma botina velha do meu pai, que me trazem algumas recordações. Tem muita teia de aranha e o barbante está velho e quebradiço; procuro um pedaço. Foi fácil de achar junto com o material de costuras da minha mãe. O tempo de procura dessas coisas nos distraiu um pouco. Agora, começo a ensiná-lo como jogar o pião. Ele tem a mão pequena, não consegue segurá-lo direito. Ameaça chorar, não brincar... Eu tento animá-lo. Estou gostando de fazer isso. Estou me distraindo bastante. De verdade. Para que ele se anime, enrolo o barbante na ponta mais grossa do pião, passo-o pelo corpo bojudo e vou até a ponta metálica do outro lado. Vou enrolando, com gestos lentos, para mostrar ao Pedrinho como fazer. Um a um, vai-se enrolando, até cobrir quase todo o pião. Mostro que deve ser jogado, de preferência numa superfície lisa, num piso ou no chão de terra batida mesmo. Desde que esteja plana. Jogo o pião. Para decepção minha, o pião se enrola todo, dá umas voltas e sai desembestado e para. Tento explicar e digo que não é sempre que acertamos. E, claro,

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ponho a culpa no tempo que não brinco com o mesmo. Ele olha. Um misto de encantado e decepção; acho que confia em mim. Ele permanece atento. Jogo mais umas três e sempre errando. Na quarta vez, ele roda mais um pouco. Sorrimos inebriados de felicidade. E eu ainda estou mais aliviado. Não queria decepcionar o Pedrinho. Passou-se um pouco de tempo. Consegui fazer o pião rodar. Bailava elegantemente, como uma donzela num palco salpicado de estrelas multicoloridas, que piscavam e sorriam para nós. Pedrinho sentava próximo ao pião. Eu tomava cuidado para que ele não parasse aqueles volteios, que nos deixavam envoltos em magia. Eu rodopiava e ria. Meu irmão fazia o mesmo. Ria como eu nunca tinha visto antes. Até que cansamos. E voltamos à nossa realidade menos sorridente. Agora compreendo o motivo da minha falta de atenção. Tenho uma agonia dentro, que me corrói. Não sei a intensidade da dor, mas é constante. Sufoca. Oprime. Tenho visto as pessoas conversarem baixo, quase sussurrando. Há sempre conversas ao pé do ouvido. Percebo que existe uma apreensão muito grande estampada nos rostos; as pessoas sorriem, mas é algo forçado. Parece que a intenção é mais um disfarce de alguma verdade que paira no ar. Os dias continuam os mesmos. Sol, brisa e ocaso. Porém, percebo que não são tão calmos. Há algo que os adultos tentam esconder. Em todo lugar sinto que o ar não é dos melhores. Na escola os professores sussurram, em casa, idem. Mas eu me pergunto, quando meus pais voltam, e não encontro resposta. Só evasivas. Quando ia para a escola, passei em frente à banca de jornal. O que vi chocou profundamente. 12


— Professora, o que é preso político? — Não sei — desconversa. –Mas onde você viu isso? — No jornal, na banca de revista. Estava escrito que várias pessoas foram presas. — Mas por que você pergunta essas coisas? — Meus pais desapareceram. Será que não foram presos? — Claro que não. Vamos para a sala, estamos atrasados. — Ela me puxa pela mão, quase correndo. Durante aquela aula, ela evitou os meus olhares. Percebi que ela estava nervosa. Errou várias vezes e pediu desculpas, também, várias vezes. Sempre fui muito atento aos detalhes das coisas. São poucas as que se passam despercebidas da minha famosa curiosidade. Algo me diz que existe algum problema e que não querem me contar. Sinto as pessoas arredias, com medo até de falar. Estou triste. Tenho saudade dos meus pais. Penso neles e tenho vontade de chorar. Claro que não diante do meu irmãozinho. Ele pode pensar que sou um covarde. Mas isso eu nunca fui. Mesmo assim, às vezes o coração aperta que chega até doer. Meus dias, ultimamente, é só um constante pensar. Ninguém fala o que se passa. Se pergunto, dizem que é assunto de adulto, que criança não deve se preocupar com isso. Perto da minha casa tem uma construção. Uma antiga fábrica de tijolo sem reboco. Abandonado, mas um prédio bonito. Gosto dele. Ao redor tem um gramado e mato um pouco crescido. É cercado de um muro antigo também, com vários buracos, por onde se passa até um adulto. Eu gosto de brincar no quintal dessa fábrica. Nos últimos dias, tenho ido com mais frequência. Aquele 13


silêncio é gostoso. Ali aproveito para desabafar e choro todas as minhas angústias. Estou aqui sentado, na porta dos fundos desta fábrica. Tem muitas pombas por aqui. Muitos arrulhos, ninhos e sujeiras também. Escuto conversas numa das salas. Já são seis horas da tarde. Nestes dias escurece mais rápido. Preciso voltar para o jantar, mas a curiosidade me leva até uma janela, que tem alguns vidros partidos. O que vejo, a princípio, não me assusta muito. Três homens conversam. Um outro está sentado numa cadeira, tão velha quanto este prédio. O homem está de cabeça baixa e só de cuecas. Ele tem marcas de sujeira pelo corpo. Parece que andou rolando pelo chão. — Onde estão seus companheiros? — fala um homem negro e alto. — Não sei — responde, sem levantar o rosto. — Fala, comunista safado — berra outro, dando baforadas no cigarro que fuma. — Não sei, não sei... –lamenta o homem. — Você vai falar ou morre — sentencia o terceiro homem, vestido com um terno preto e óculos escuros. — Já disse que não sei, caramba! — grita o homem sentado. — Fala direito, moleque! — esbofeteia o rapaz. – Você sabe do que somos capazes de fazer!!! Se você colaborar, poderá até se livrar desse sofrimento todo. Alivia o nosso lado também, afinal, temos outras coisas mais importantes a fazer. O rapaz que choraminga é bastante jovem. Deve ter no máximo vinte anos. De repente é arrancado da cadeira e em14


purrado até a parede. Arrancam sua cueca. Amarram um fio em suas pernas e tapam sua boca com esparadrapo. O rapaz olha assustadíssimo. Em pânico, melhor dizendo. Os homens parecem que gostam de ver o pavor estampado na cara do rapaz. Um dos homens, rindo, aperta o gatilho de um pequeno aparelho, parecido com a bateria de carro, com uma ponta de um fio elétrico preso ao corpo do prisioneiro. O rapaz estremece violentamente. Se debate. Depois um silêncio sepulcral toma conta do ambiente. Os homens olham e descem o corpo ao chão. Dão um chute, o rapaz geme. As mãos e a boca atadas. Gritar não pode. As mãos amarradas lhe impedem grandes movimentos. Um dos homens, baixinho, atarracado, arranca-lhe o esparadrapo da boca, com violência. — E aí, vai falar ou não? Permanece calado e recebe mais um chute na barriga. Geme profundamente, quase desfalecendo. — Fala, vermelho desgraçado. Vocês não são bons nisso? Fala agora. Mas fala o que queremos ouvir. Onde estão seus comparsas? Onde fica o esconderijo de vocês? Vai falando, vai falando. Não temos tempo pra ficar cuidando de marmanjo. Um dos homens vai até o rapaz, retira o pênis e faz xixi em cima dele. Aquele líquido o acerta em cheio. O rapaz se afoga e tosse muito. Todos riem até se fartar. Estão conseguindo, segundo eles, impor sua autoridade sobre aquele coitado. — Vejo que você não quer colaborar. Eu sinto muitíssimo o que vou fazer. Verdade. Me dói muito ter que fazer isso — fala, com um sorriso sarcástico. Enfia um trapo que estava ali pelo chão na boca do rapaz, que reluta para evitar. Recebe 15