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Minha alma na fronteira


Mariana Komesu

Minha alma na fronteira

S達o Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda Capa AF Capas Diagramação Thais Santos Revisão Natalia Silveira

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ _______________________________________________________________ K85m Komesu, Mariana Minha alma na fronteira / Mariana Komesu. - São Paulo : Baraúna, 2012. ISBN 978-85-7923-634-1 1. Conto brasileiro. I. Título. 12-7857.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

25.10.12 01.11.12 040235 _______________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua da Glória, 246 — 3º andar CEP 01510-000 Liberdade — São Paulo — SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Dedicatória Dedico este livro à tia Beth, que me ensinou o valor das palavras, do amor ao próximo e a enxergar a beleza do mundo. E à Karen, por ter-me mostrado a perfeita imperfeição da vida e compartilhado comigo o amor de compreensão. “Nós não escolhemos quem vamos encontrar pelo caminho, mas escolhemos quem permanece em nossas vidas” (reflexos das escolas).


Prefácio Pequenina, Mariana começou a escrever com a ajuda da tia Beth que a presenteara com um caderno. Cursava, à época, a 1.ª série. Com alguns problemas emocionais guardados dentro de si, já na pré-adolescência, ouvia a tia Beth, pedagoga e psicóloga, a aconselhá-la: “escreva o que está sentindo”. Após a morte da sua incentivadora, Mariana começou a escrever contos de terror e peças teatrais trágicas, durante as aulas no Ensino Médio. Se, de início, o terror e o sofrimento atraíram-na, impregnando sua palavra, posteriormente, auxiliada por uma terapeuta, caminhou em direção à luz solar e, a partir daí, os sentimentos negativos cederam lugar à descontração, ao sorriso, ao amor. E faces de seu talento, até então adormecidas, despertaram. Conheci Mariana nas aulas de Literatura Portuguesa. No primeiro mês, timidamente, aproximou-se da minha mesa, sobraçando uns papéis que deixou comigo para que eu os lesse. Eram contos escritos por ela. O tempo da leitura chegou e, com surpresa prazerosa, observei, neles, qualidade textual, criatividade temática e estilística. Mariana chegara à Faculdade para abrilhantar o Curso de Letras. Logo surgiram textos criativos, peças

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teatrais escritas, dirigidas e encenadas por ela, biografias moldadas em verso. Percebera a jovem que nascera com o talento para a literatura. Licenciada, não parou de escrever. Em 2006 logrou alcançar o 13.º lugar no Concurso Literário Internacional, Editora Arnaldo Giraldo; o 8° lugar no Concurso Literário Internacional de 2008 (AG). Em 2010, participou do 1.º Concurso Literatura Viva, atividade-conjunta entre a Academia Linense de Letras e o Centro Universitário Católico Salesiano Auxilium. Classificou-se, em primeiro lugar na modalidade Poesia com o texto Presente, recebendo a Medalha José Saramago, em 2011. No mesmo ano, inscreveu-se no 1.º Concurso Nacional de Contos da Cidade de Lins, obtendo, por desempate, o segundo lugar. Em 2012, ocupa o 3°, no Concurso Literário Internacional (AG). Outras glórias lhe chegaram pela participação em concursos nacionais e internacionais. Os sucessos conquistados, somados aos incentivos dos leitores de seu Blog, animaram-na a reunir, em livro, o que já escrevera: contos, poesias, crônicas. Em entrevista, que me concedeu em 21de Abril do ano em curso, revela a autora: Essa obra deveria ser um desabafo total e desorganizado de uma vida atormentada. Eu resolvi, então, organizá-lo num livro que retratasse a fase da doença, da dor, do desespero, mas culminando no momento em que a Esperança deixa de ser inexistente e passa a chegar peque8

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nos raios de luz que entram devagar no coração, para mostrar a todos nós que não importa o quão fundo é o poço, basta olhar para cima e enxergaremos uma saída... É claro que, sem ajuda, é impossível e isso eu tive e tenho até hoje. E é claro eu acredito que existam muitas pessoas como eu neste mundo, que sofrem sem saber o porquê, que sentem medo de si mesmas e quero passar-lhes a mensagem: Ninguém precisa sofrer só. Há sempre alguém ou alguma coisa que nos ajuda a melhorar, a ir em frente e, para mim, concorreram três fatores: a terapia, a escrita e a música. (KOMESU, 2012). Interrogada a respeito do nível autobiográfico expresso na obra, esclarece: “Todo o livro é uma autobiografia em que não estão presentes fatores autobiográficos, como fatos da minha vida, como causas dos sentimentos. Há apenas os sentimentos, meus sentimentos, emoções, agradecimentos e minha evolução moral através da poesia”. (KOMESU, 2012) Mariana inspirou-se no Transtorno Borderline de Personalidade (TBP), doença caracterizada pelo limite entre a loucura e a sanidade. Borderline, termo designado em 1938 pelo psicanalista Adolph Stern, significa fronteiriço”. Declara a autora em entrevista “Foi, então, que

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percebi que eu vivo na fronteira. Por essa razão o título: Minha alma na Fronteira”. O livro estrutura-se em três blocos: O primeiro apresenta o Monólogo do louco, ponto de partida para entrar no segundo momento. O segundo agrupamento, denominado As trevas enfeixa contos de terror, poesias lúgubres e pessimistas, crônicas sobre o vazio, precedidas estas de pequena introdução sobre a sua gênese e função catártica. O terceiro momento A caminho da luz contempla a fase solar: surgem contos, crônicas e poesias, textos mais poéticos, mais questionadores, sempre em busca de respostas e homenagens em palavras a pessoas significativas em sua vida. Os temas abordados mesclam-se: vão da loucura, do suicídio, da depressão, da psicose, da alucinação à esperança, ao carinho, aos desejos, ao amor, ao adeus. Nesses textos que constituem o livro de estreia Minha Alma na Fronteira emerge a escritora, com sua perplexidade nascente diante de temores que a avassalavam, de perguntas lançadas a si mesma ou ao cósmico, registradas em Fragmentos e pensamentos soltos, “Quem sou eu? Por que estou aqui? Qual é a razão de minha existência? Quando minha vida começou, se é que começou?” Movida pela indagação das causas etiológicas e teleológicas, Mariana busca sua essência, sua posição junto às pessoas e seu lugar na arte. Faz da palavra o instrumento para desencravar de seu eu interior a perplexidade dian-

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te da morte, da dor, das trevas e da angústia suicida. O medo é perscrutado; as experiências dolorosas, enfrentadas; os mistérios oníricos, explorados. E, nesse processo de autossondagem, torna suportáveis experiências pesadas, abre caminho para uma vida saudável, eliminando a ansiedade pessoal e a fobia social. Assim, reafirma sua autoestima e potencializa sua autoconfiança, diminui a angústia e a ansiedade, afasta o risco de comportamentos destrutivos. Muda o padrão de pensamento em relação a fatos traumáticos, alijando de si o desconforto. E confessa, claramente, ao lembrar-se da tia Beth: “Eu tive um anjo que me ensinou a ser forte, um anjo por quem fui amada, mas esse anjo se foi e levou consigo minha sanidade, minha vontade de viver.” (Fragmentos e pensamentos soltos), ou a perspectivar maduramente a realidade: “A tempestade dentro de cada um pode virar um chuvisco de verão”. (Trevas) e a reflexionar: “[...] é aprendendo a falar menos que dizemos tudo”. Como se vê a si mesma? Para a escalada da grande conquista do compreender-se e do conhecer-se, autocontempla-se e constata: “Criança eu, que não queria crescer, mas pela vicissitude da vida, fui obrigada a amadurecer sem perder por um instante a imagem do infante, pequeno a brincar de ser grande.” (Imperfeito). Semelhantemente, infância a adolescência deveriam ser intérminas: “Hoje, aqui, agora, eu digo adeus, adeus a quem fui, a quem tentei ser, a quem desejei um dia ser, mas que nunca realmente fui. Um adeus assim, simples-

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mente isso, um adeus à velha adolescência que eu desejava nunca ter fim.” (Carência,). E pondera os anos vividos por ela na fita métrica das expectativas: “Não somos tudo o que esperaram que fôssemos, nem o nada que pensávamos ser. Sou a palavra que redijo, sem esquecer-me do ser, mas não sendo ainda ninguém, aos poucos vou deixando pedaços pelo caminho, arrancando emoções das entranhas de quem um dia aventurou-se a me amar incondicionalmente”. (Trevas,). Autoavalia-se “Sou o espectro de mim mesma, um desenho inacabado da pessoa que quero ser...”. (Carência,). Abre seu livro com o Prefácio em que afirma “Sou a personificação da palavra inefável”. Como interpreta o relacionamento com os outros? Nas relações interpessoais, analisa o convívio com os outros, o que pode doar às pessoas ou delas receber: “se você sente a dor de minha ausência, então eu faço parte de sua existência e você da minha” (Fragmentos e pensamentos soltos). “Estou próxima de uma verdade, uma resposta para meus conflitos e, quando parece haver apenas o abismo, vejo no olhar de outros uma ponte que devo atravessar, mas temo o outro lado.” (Trevas,). Uma lágrima leva um segundo para escorrer do olhar de um amigo e é nesse segundo que eu paro o tempo e ouço a vida de quem quer mais vida, enquanto eu quero mais mortes. (Carência,). 12

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Reconhece a importância de seres especiais cuja influência benéfica enriquece os demais: “Mas eis que surgem pessoas que celebram a vida e mostram que ainda há luz.” (Chegando à luz,). Nas canções de outrem, encontro a poesia que deixei de escrever, melodias que deixei de compor, sentimentos adormecidos que esqueci que havia em mim. As alegrias de outrem faço-as minhas por alguns minutos e saio da escuridão para viver [...] (Trevas,). Seres vivos ou visões operam o milagre do renascimento, restabelecendo a harmonia, quebrada, por vezes, pela morte: A voz amiga do misterioso passageiro trinta e um, cujo lar era a estrada, transformou em luz cada palavra proferida à companheira de viagem no ônibus fatídico, modificando o pensamento da jovem, levando-a crer em Deus e na vida. (O Passageiro). Carol, volta a casa e manifesta-se para o irmão e a mãe, (Meu anjo,). Em Um presente, a filha, afastada prematuramente da constelação familiar, presenteia a mãe com um cristal em formato do símbolo do infinito. Em O buraco a protagonista, menina de oito anos, em visita ao sítio dos tios, cai num buraco, dentro de um cristal e depara-se com o mundo das minúsculas fadas cuja espécie definhava, porque as crianças haviam esquecido a magia desses seres. A princesa, deprimida, prestes a falecer, é reanimada pelo beijo inocente e puro da Humana. E a magia do reino dessas sobrevive. Minha alma na fronteira

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Mariana questiona a noção de espaço: “O sentir-se pertencente a um lugar, esse lugar, parece tão longe de ser verdadeiro, sinto que não pertenço a lugar nenhum. Nem aqui, nem lá, como um papel em branco errante no vento, arrastado pra lá e pra cá, sem saber onde parar ou para aonde a vida o levará”. A fugacidade do tempo permeia seus textos: “A efemeridade do tempo esconde aqueles momentos que queremos paralisar e deixar viver um minuto em vinte e quatro horas. Aquele abraço, aquele sorriso, aquele olhar, aquela surpresa, aquela vitória”. Perscruta o impulso incontrolável, mágico que a arrasta à escrita. O ser humano alberga outra entidade — o talento? Analisa o dom que pulsa em si como uma realidade palpável que a habita. Ora se sente uma; ora, dupla: Coabitam o ser humano e a artista? Fundem-se? Separam-se? Quem permanece? Em Personalidade, registra: “Sou eu quem escreve estas linhas ou alguém que criei?”. O texto sobrevive ao seu criador. Diante da finitude do ser humano e da imortalidade de sua obra, observa em O contador de histórias,:” era o fim, o fim de um autor que deixara a sanidade e o mundo, mas continua imortal nas páginas de seus livros.” Conhece o poder das palavras e, também, a sua fragilidade: “Elas definem o ser, o eu profundo, o desespero 14

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da alma”. (Trevas,). “As palavras são livres no sentido mais amplo de liberdade em uma semântica infinita”. “Encontrei palavras nas horas mais silenciosas da minha vida, encontrei histórias nas mais vazias estradas, encontrei sentimentos, sentimentos que ainda me assustam se não fosse eu, quem então seria”? (Trevas). Em busca da palavra ideal para formalizar as suas respostas às questões que a atormentaram, depara com a fragilidade da concretude da palavra. Não lhe escapa a impotência vocabular para traduzir todos os matizes da vida humana na complexidade dos sentimentos que se entrecruzam no patamar do indizível, dialoga com os mestres com os quais seu estro convive e de cuja arte e pensamento se alimenta: Goethe, Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa, Byron, Keats, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, Neil Gaiman, William Blake, Caio Fernando Abreu e o pensador Kant. Discreta na sintaxe, obediente a cânones, a autora faz a língua portuguesa fluir, elegante e precisa, conduzindo o leitor, numa genuína esteira poética, sem sobressaltos, à emoção estética. As palavras, selecionadas com exatidão, pertencem à vertente culta; a terminologia técnica aflora, de quando em quando, tornando o texto mais hermético, v.g. filodoxia, filódico, afefóbico, hipofrenia, agorafobia... A adjetivação moderada e acessível empresta um tom natural aos nomes, rareando construções de acúmulo de qualificativos. Poetisa, Mariana expressa-se em versos, límpidos e originais, fazendo da simplicidade o ponto alto de sua comunicação fluente. Minha alma na fronteira

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Compreender que por mais que sintamo-nos sós, nunca realmente estamos sozinhos, e é a maior dificuldade para os mais torturados, os mais sof...

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