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MEMÓRIAS DE UM BRASILEIRO INSIGNE(FICANTE)


Gérson de Araújo Matos

MEMÓRIAS DE UM BRASILEIRO INSIGNE(FICANTE)

São Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Capa Monica Rodriguês Diagramação Jacilene Moraes Revisão Vanise Macedo CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ M381m Matos, Gérson de Araújo. Memórias de um brasileiro insigne(ficante)/ Gérson de Araújo Matos. - 1. ed. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-837-6 1. Matos, Gérson de Araújo, 1940-. 2. Homens - Brasil - Biografia. I. Título. 13-05503 CDD: 929.2 CDU: 929.52 ________________________________________________________________ 25/09/2013 27/09/2013 ________________________________________________________________ Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua da Glória, 246 – 3º andar CEP 01510-000 – Liberdade – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


DEDICATÓRIA A minha mãe, Rosentina de Araújo Matos (D. Ló), falecida em 28 de junho de 1996. Mulher simples, cujos ensinamentos nortearam a minha vida. A meu pai, José Rocha de Matos, a quem não tive a felicidade de conhecer melhor, pois Deus levou-o para sua companhia quando eu tinha apenas quatro anos. A meu irmão, Joelson Araújo Matos, residente em Itabuna‒Bahia, exemplo de honestidade e de inteligência, em quem me espelhei para enfrentar os desafios que a vida me impôs. A meu Padrasto, Antonio Cardoso dos Santos, falecido em 1968, que não mediu esforços para nos proporcionar uma vida digna, dentro das suas escassas possibilidades. Aos meus irmãos do primeiro matrimônio do meu pai: Adeval, Dazinha (única ainda em nosso meio), Gracinha, Naná, Vavá e Walkíria. A tio Isaías, também em outra dimensão, professor abnegado, que despertou em nós o interesse pelo estudo. A tio Jeremias, cuja bondade proporcionou uma mudança drástica em nossas vidas. Que Deus o conserve na sua glória! ***


Em especial, dedico este livro a minha querida esposa, Marinalva Gama da Silva Matos, companheira inseparável, em todos os momentos do nosso convívio de 35 anos, e a nossa filha, Ana Cecília Gama da Silva Matos, a quem desejo muita sorte, saúde e discernimento para saber se conduzir neste mundo conturbado.


SUMÁRIO Prefácio........................................................................ 9 I - Um salto para o desconhecido - 1940.................... 11 II - Rumo a Santa Helena - 1944/1946...................... 14 III - Deixando a cidade - 1947/1955.......................... 24 IV - A fazenda Catongo - 1956/1959......................... 52 V - De volta para a cidade - 1960............................... 57 VI - Reflexões sobre os momentos político e econômico do Brasil - 1985/1990............................ 70 VII - Reflexões sobre os momentos político e econômico do Brasil - 1991/1994............................ 78 VIII - Reflexões sobre os momentos político e econômico do Brasil - 1995/2002............................ 86 IX - Reflexões sobre os momentos político e econômico do Brasil - 2003/2006.......................... 114 X - Reflexões sobre os momentos político e econômico do Brasil - 2007/2012.......................... 129


Outras reflexões do autor, escritas no período compreendido entre os anos de 1998 a 2010, não publicadas........135 Ratada ou Rataiada?............................................. 135 Antes que seja tarde demais.................................. 139 Um voto de confiança........................................... 143 O preço da incompetência.................................... 148 Amarga confissão.................................................. 153 Carta ao Presidente da República.......................... 155 Uma historinha para crianças que muitos adultos não entenderam........................................ 162 O Autor................................................................... 169


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PREFÁCIO A ideia de escrever este pequeno livro surgiu no momento em que iniciei o curso de Comunicação Social, na Faculdade de Comunicação e Turismo Hélio Alonso, no Rio de Janeiro, no segundo semestre de 1978. Desde aquela época até o presente, já lá se vão 35 anos. Não anotei o momento exato em que comecei a escrevê-lo. Entretanto, estou seguro de que os primeiros esboços tiveram início no ano de 1982. A princípio, o objetivo era simplesmente registrar as minhas memórias, tão só e unicamente no que se referisse a mim. Eu havia lido alguns livros de memórias de autores brasileiros importantes, como Pedro Nava, Érico Veríssimo e Graciliano Ramos, e interessei-me por esse gênero literário. Não tenho a pretensão de publicar uma obra literária ao estilo dos eminentes autores que li, pois sou iniciante na arte de lidar com as palavras escritas e, como tal, não teria capacidade para tanto. Tento apenas, utilizando meus modestos conhecimentos da Língua e da Literatura Brasileiras, apresentar, numa narração simples, fatos de alguns momentos da minha vida, que, mesmo consciente da infinita insignificância que eles representam no universo da existência humana, acredito valer a pena para satisfazer meu desejo de exprimi-los.


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Num segundo momento, porém, diante das inúmeras estimulações a mim impostas, direta ou indiretamente, deliberadas ou não, e que eu não tive a mínima intenção de suscitá-las, vi-me compelido a exteriorizar o meu ponto de vista em relação aos acontecimentos que envolviam não só o meu círculo de relacionamentos, mas também (e principalmente) todo o povo brasileiro, em determinados momentos da História do nosso país. Daí, a necessidade de acrescentar às memórias uma segunda parte, como forma de apêndice. Esta, no entanto, alicerçada em anotações realizadas no momento em que os fatos aconteciam, o que, certamente, não levará nosso quase opúsculo a desmerecer o título de memórias. Gérson de Araújo Matos Salvador (BA), 10 de fevereiro de 2013.


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I UM SALTO PARA O DESCONHECIDO - 1940 Há nove meses, eu vinha esperando aquele momento, embora não o aguardasse com ansiedade. Não tinha a mínima ideia do que iria encontrar ao transpor a cortina que separava o meu camarim do mundo exterior, nem qual seria o papel que eu desempenharia naquele cenário desconhecido, de modo que não estava empolgado com o acontecimento, mas apenas curioso. Não me preocupava também a incerteza de que faria uma representação satisfatória, pois a peça me fora imposta sem que sequer tivesse lido o script. O fato estava consumado e, ainda que eu quisesse, não poderia evitá-lo. Só me restava obedecer à ordem do Diretor e entrar em cena. Descerrou-se, finalmente, a cortina; saltei para o palco. Fui exposto, pela primeira vez, a uma plateia que me aplaudia com entusiasmo. O momento era realmente de grande expectativa. — É homem! — exclamou a parteira, exultante. — É a cara do pai! — disse outra voz que parecia sair de uma fila mais atrás. E ali estava eu, indefeso, inseguro, em meio àquela manifestação de júbilo, sem saber por onde começar a representação. Era uma segunda-feira de final de outono;


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uma chuva fina, intermitente, já denunciava a proximidade do inverno. Do outro lado do oceano, naquele 17 de junho de 1940, outros atores desempenhavam um papel exatamente inverso ao meu. Já haviam cumprido a sua missão e abandonavam o palco, porém sob os aplausos de um público muito maior, sob o troar de canhões e o espocar de bombas devastadoras, lançadas pelo inimigo. Estávamos em plena Segunda Guerra Mundial. A França, prestes a capitular ante o fogo cerrado dos alemães; as tropas inglesas, aliadas, batiam em retirada, perseguidas pelo exército alemão. A Sétima Divisão Panzer, comandada pelo General Rommel, encontrava-se a algumas milhas do ancoradouro da Península de Cherbourg, no momento em que zarpara o último navio da esquadra britânica que retirou de Dunquerque as tropas aliadas. Mais de 20 mil soldados poloneses e mais de 130 mil britânicos foram evacuados de todos os portos franceses. A retirada dos aliados do território francês, no entanto, não impediu que muitos fossem massacrados. Mais de três mil soldados sucumbiram quando o navio “Lancastria”, com cinco mil homens a bordo, preparava-se para levantar âncora do porto de St. Lazaire e foi bombardeado pela esquadrilha aérea alemã. O palco no qual eu iria representar era totalmente diverso do que acabei de descrever. Encontrava-me numa imensa embarcação, firmemente atracada ao Continente Sul Americano, cuja tripulação e passageiros consideravam-se plenamente seguros, livres da turbulência da


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guerra e de outras intempéries, uma vez que, tinham certeza, o solo onde pisavam haveria de permanecer “deitado eternamente em berço esplêndido”. A certeza dessa segurança determinou que a maioria dos passageiros e dos tripulantes se tornasse um povo indolente, acomodado, preconceituoso, descumpridor de obrigações, altamente propenso à corrupção, a ponto de transformar a parte centro-oriental da América do Sul, um dos mais belos recantos deste continente, em uma gigantesca mancha negra de lama a enxovalhar as águas azuis e transparentes do Oceano Atlântico. E foi nesse contexto de nebuloso horizonte que fui inserido. Tenho certeza de que, se a mim coubesse decidir, teria ido parar em outras plagas. Obviamente não me foi dado escolher e aqui me encontro cumprindo determinações superiores. A verdade é que, no momento em que esses fatos estavam acontecendo, eu sequer tinha conhecimento da minha existência. Somente após o intervalo da peça, que durou mais ou menos quatro anos, comecei a perceber a realidade da minha história.


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II RUMO A SANTA HELENA - 1944/1946 A fonte que desce do alto da montanha sacia a sede dos que povoam o vale e não sente nenhum prazer com isto; o fruto da terra amadurece e se dá por inteiro, sem nada exigir em troca. Haverá na humanidade semelhante exemplo de amor?

Os animais caminhavam preguiçosamente. À frente, ia minha mãe, montada numa mula castanha, seguida pelo burro que conduzia a mim e a meu irmão, Joelson. Eu tinha apenas quatro anos; e ele, cinco. Cada um viajava dentro de um panacum pendurado na cangalha. Como Joelson pesava mais do que eu, colocaram uma pedra no panacum em que eu estava para equilibrar o peso. Assim, o burro poderia andar normalmente. Atrás, meu outro irmão mais velho, que vinha tangendo os animais, montava um animal possante, por nome Pacote. Santa Helena era o nome da fazenda de cacau que pertencia ao Dr. Sarmento. Ele era médico e clinicava em Itabuna, onde residia com minha irmã, Walkíria. Casados há alguns anos, não tinham filhos. Quase sempre, passavam os fins de semana na fazenda. Adeval, meu irmão mais velho, um dos seis filhos do primeiro casamento de meu pai, fora contratado por


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Dr. Sarmento para administrar a Santa Helena. Como meu pai havia falecido há poucos dias, deixando minha mãe viúva e sem recursos, lá íamos nós, no lombo dos animais, residir na fazenda com Adeval. O lugar era maravilhoso. A casa grande da sede, rodeada de varandas e assoalhada, erguia-se ao pé de uma ladeira muito inclinada e longa, toda gramada, no alto da qual se localizavam as menores, destinadas aos trabalhadores. Nós fomos morar em uma dessas. A casa grande ficava sempre fechada e só era aberta quando minha irmã vinha de Itabuna com o marido, nos fins de semana, ou para passar alguns dias de férias. A Santa Helena situava-se a algumas léguas do Jacarandá, um lugarejo existente na estrada entre Itabuna e Ilhéus. Partindo-se de uma dessas cidades, podia-se viajar de carro. Ao chegar a Jacarandá, deixava-se a estrada de rodagem e, daí para frente, só em lombo de animais. Além de Adeval, que era o administrador, havia muitos trabalhadores na fazenda. Desses, apenas Seu Floriano vem-me à lembrança, talvez porque era o mais amigo da família e também porque, aos sábados, domingos e feriados, fabricava tamancos de madeira para vender em Itabuna. Lembro-me perfeitamente dele escarranchado num tronco de madeira com uma plaina, a preparar as peças. Todas as manhãs, às sete horas, Adeval batia o pre1 go , avisando aos trabalhadores de que era hora de iniPrego – pedaço de trilho, de aproximadamente dois metros de comprimento, pendurado por um arame resistente numa haste de madeira. Ao ser atingido por outro pedaço de ferro, produz som 1

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Este não é um livro de ficção. Sua primeira parte trata da autobiografia de um brasileiro de origem humilde, que viveu sua infância e adoles...