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Liberdade


Francisco Almeida Prado Rocha de Siqueira

Liberdade

S達o Paulo 2010


Copyright © 2010 by Editora Baraúna SE Ltda Capa e Projeto Gráfico Alline Benitez Imagem de capa Thereza Salles Castro tsallescastro@hotmail.com

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ --------------------------------------------------------------------------------

S628l

Siqueira, Francisco Almeida Prado Rocha Liberdade/ Francisco Almeida Prado Rocha de Siqueira. - São Paulo: Baraúna, 2010. ISBN 978-85-7923-182-7 1. Ficção policial brasileira. I. Título. 10-2187.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

13.05.10 23.05.10

019183

-------------------------------------------------------------------------------Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua João Cachoeira, 632, cj.11 CEP 04535-002 Itaim Bibi São Paulo SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Dedico este livro à memória de meu pai; ao magistrado culto e honesto, ao professor do Direito e das coisas da vida, ao melhor amigo Dedico-o também à minha mãe, mulher inteligente e caridosa, a quem sempre recorri nos momentos mais difíceis Por fim, dedico-o à minha esposa e aos meus filhos, síntese da minha alegria e razão de viver.

Meus agradecimentos a Maria Helena Bárbara de Carvalho Por toda ajuda e incentivo


“Une injustice, faite à un seul, est un menace pour tous les outres”. Montesquieu


Parte I

O Crime


Capítulo I

Outubro de 1997

Matheus caminhava já por umas três horas, ladeando as bordas do imenso lago. Normalmente, estaria apreciando a sua beleza, olhando o fluir de suas águas claras ou o doce nadar dos cisnes brancos, que aqui e ali passavam majestosos. Neste dia, porém, não via nada a sua frente. Não enxergava o lago, nem as pessoas, nem o ambiente em volta. Consumia-lhe toda a atenção, o passo irreversível que iria dar. Iria praticar um crime. Talvez houvesse o derramamento de sangue ou a perda de vidas. Estranhamento a sua própria morte não o preocupava tanto. Por que? Indagava-se. Como chegara a tal ponto? O seu senso de justiça, inato e poderoso, travara uma longa batalha consigo mesmo, ao fim da qual vencera o sentimento de raiva; o desejo de vingança. No início, quando o seu ex-companheiro de prisão, falou-lhe sobre o lucrativo seqüestro que mudaria suas vidas, proporcionando-lhes o dinheiro que “jamais con-

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seguiriam juntar na vida”, Matheus chegou a achar até engraçada a idéia, não lhe dando a menor importância. Juan, todavia, era um homem persistente e sagaz, sabendo ser convincente. Ao perceber que o dinheiro não motivaria o colega para aquela empreitada, utilizou-se de um traiçoeiro recurso: o passado de Matheus, que ele conhecia muito bem, como ninguém mais. Nos anos juntos na prisão, Matheus foi lhe contando as injustiças pelas quais passara e que o conduziram de forma inexorável ao beco onde se encontrava. - Que perspectivas você tem Matheus? Quer ficar carregando pacotes, limpando cozinhas ou manobrando carros pelo resto da vida? Não quer usufruir das coisas boas? Não quer “ser respeitado”? Você acha que alguém vai se preocupar? Esqueça amigo, as grades de um presídio não se abrem jamais. Só a “grana”, “muita grana”, pode consertar isto. Com o tempo e com as seguidas confirmações dos vaticínios de Juan, a prática do crime idealizado começou a parecer como a única saída; como o solitário meio de redenção dos pecados não cometidos. Por fim, estabeleceu-se uma confusão profunda de valores na mente de Matheus e, na névoa que se formou, ele passou a acreditar no “crime justo”, numa ação reparadora de todos os erros sociais e judiciais que sofrera. Alguém que soubesse a estória toda, um ser onisciente; Deus ou um manipanso qualquer, iria entendê-lo, darlhe os ouvidos que a sociedade negara. Assim, racionalmente, Matheus aderiu ao plano delituoso incipiente, para aperfeiçoá-lo, corrigi-lo e tor-

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ná-lo factível. Em seu interior, contudo, algo lhe dizia estar errado; estar cegamente indo contra tudo aquilo no qual acreditara, indo contra si mesmo, contra o âmago do seu próprio ser. Coube a Matheus dar a palavra final entre as possíveis vítimas pré-selecionadas por Juan, todas ricas, com rotinas bem estabelecidas na vida diária e que circulavam sem seguranças particulares. A que mais lhe chamou a atenção foi uma mulher jovem e bonita, de nome Catherine Hazan. Não pelos seus dotes físicos, mas pela fortuna acumulada por seu marido e por seus hábitos relativamente simples e previsíveis. Ia praticamente aos mesmos lugares, as mesmas ruas e, na maioria das vezes, estava sozinha. Morava numa enorme mansão nos arredores de Genebra, indo ao centro da cidade pelo menos uma vez ao dia. Dirigia ela própria o seu automóvel e o estacionava em uma vaga na rua onde estivesse, saindo para passear a pé. Matheus começou a vigiá-la e em pouco tempo já conhecia seu itinerário, que incluía uma entrada na livraria, situada na Rue du Rhone, de onde saia algumas vezes em dez minutos, em outras após mais de duas horas. No roteiro constava ainda uma passagem pelo restaurante Möven Pück, às margens do Lac Lemán, no qual ela geralmente almoçava ou tomava uma xícara de café nos finais de tarde. Foi lá que Matheus a viu pela primeira vez. Com a fotografia dela no bolso, tirada de uma página de revista e com a indicação de Juan sobre onde ela costumava se sentar, ele foi também ao restaurante, por volta das 17h30 e ficou a espera de sua chegada.

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Quando ela entrou, Matheus esforçou-se para não olhá-la, mas ao ver de relance o seu perfil, manteve sem querer o olhar, observando-a colocar a bolsa na cadeira ao lado e sentar-se de um modo elegante. O garçom veio e ela o cumprimentou alegremente, falando-lhe algo de que ambos riram um pouco. Ele pareceu confirmar um pedido seu e se retirou. Matheus tomava ele próprio um café e fingia ler o jornal. Marcou em seu relógio o tempo que ela demoraria no restaurante e ficou pensando no local onde seria mais propício interceptá-la. Com toda a certeza, no pequeno trecho de estrada entre Genebra e a sua residência, o qual ele já percorrera inúmeras vezes nos últimos dias. Catherine Hazan pedira uma caneca de chocolate quente e demorou cerca de meia hora para tomá-la, absorta em ver os pedestres que circulavam à frente dos vidros da enorme janela, dando para o lago. Depois, pegou sua bolsa, tirando uma carteira e pôs uma cédula de dez francos sobre a mesa, levantando-se para ir embora. Fez um sinal ao garçom e se dirigiu à porta giratória, saindo do restaurante e do campo de visão de Matheus. Ele aguardou um pouco e, para não chamar a atenção, pediu mais uma xícara de café. Observou que instantes depois, um Bentley Continental esporte, da cor vinho, passava em frente à janela. Era o carro de Catherine Hazan e que seria facilmente identificado no momento da ação. Nos dias que se seguiram, Matheus foi ordenando mentalmente todas as etapas do plano, calculando as coi-

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sas que já deveriam providenciar, como o local do cativeiro, os veículos necessários, telefones celulares e o dinheiro para a operação. Destes detalhes e da escolha dos homens que participariam, Juan ficaria responsável. Certa tarde, quando ingressou no Mövenpick e dava uma olhada geral no ambiente para verificar se Catherine Hazan estava lá, surpreendeu-se ao dar de cara com ela, sentada logo na primeira mesa, na companhia de uma amiga. No momento em que seu cérebro a reconheceu, Matheus olhou-a bem nos olhos e ficou sem reação, parado no corredor de entrada. Um casal que vinha logo atrás, após esperar uns instantes, pediu licença para passar. Ele, desconcertado, seguiu em frente, indo até o fim do restaurante, onde, por fim, sentou-se. Os olhos verdes de Catherine Hazan e o sorriso que ela parecia ter nos lábios ficaram gravados na sua retina. Matheus pediu cinco decilitros de um vinho tinto e ficou ali bebericando, a refletir sobre as coisas da vida. Neste seu devaneio, imaginou como seria bom ter a seu lado uma mulher como Catherine Hazan, poder conversar com ela e fazer parte de sua agradável rotina. Após uns quarenta minutos e de ter bebido todo o vinho em jejum, pois sequer almoçara naquele dia, ele se levantou e foi andando em direção à mesa onde Catherine Hazan e a amiga haviam sentado. Por um átimo, pensou em cumprimentá-la, falarlhe qualquer coisa, talvez se apresentar; afinal ela era tão bonita. Em vez de seqüestrá-la, apenas conhecê-la. Quando chegou à mesa, olhou para Catherine Hazan como se fosse lhe fazer uma pergunta. Ela e a amiga

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