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Romance de

Daniel de Carvalho

S達o Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda Capa AF Capas Projeto Gráfico Aline Benitez Parecer Literário Ana Carolina Nonato Revisão Priscila Loiola

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ C321j Carvalho, Daniel de Jambalaya: um piracicabano na Luisiana/ Daniel de Carvalho. - 1. ed. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-877-2 1. Romance brasileiro. I. Título. 13-05501 CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 ________________________________________________________________ 25/09/2013 27/09/2013 ________________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Glória, 246 – 3º andar CEP 01510-000 – Liberdade – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Dedico este romance, Jambalaya, a minha querida e saudosa Neusa, que me deixou quando eu o escrevia. Com muitas lรกgrimas. O seu Dani.

Daniel de Carvalho Maio de 2013 Piracicaba - SP


1 Uma noite na choperia

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ma das choperias da Rua Carlos Botelho, em Piracicaba, já acolhia um bom número de frequentadores, embora fosse uma fria noite de junho de 2012. Os dois amigos Joel e Tomaz, que tinham acabado de chegar, ocuparam uma mesa bem próxima do palco. — Boa noite, senhores, desejam um aperitivo? — perguntou o garçom colocando o cardápio sobre a mesa. — Uma caipirinha de cachaça — pediu Joel. — Para mim também — disse Tomaz. Joel, um solteirão de 35 anos, e Tomaz, outro solteirão de 40, eram amigos fazia muitos anos. Sempre se relacionaram bem, embora fossem pessoas muito diferentes. Basta dizer que Joel era extremamente espiritualista, JambalayA - Um piracicabano na Luisiana

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enquanto Tomaz tinha fortes convicções materialistas. Joel era professor de inglês e experiente tradutor de textos técnicos em inglês-português. Tomaz, por sua vez, era professor e também pesquisador nas áreas de física e química. Havia um aspecto em especial que sempre suscitava acaloradas discussões entre eles. Joel era praticante de Viagens Astrais, fenômeno em que uma pessoa, segundo dizem, consegue deslocar seu Corpo Astral para outras localidades e até para outras épocas. Evidentemente, como materialista, Tomaz procurava convencer seu amigo de que tais viagens lhe aconteciam em sonhos, pois, a seu ver, não eram possíveis. Assim que o garçom trouxe as caipirinhas, Joel e Tomaz pediram os petiscos que já haviam escolhido enquanto conversavam. Pouco depois, quando o garçom voltou com os petiscos, perguntaram-lhe sobre o show daquela noite. — Esta noite vamos apresentar a cantora Carol e sua banda. O show deve começar daqui a pouco. — Qual é o gênero da banda? — perguntou Joel. — É bem diversificado, mas o repertório principal é o country. Assim que o garçom se afastou, Joel comentou: — Pena que elas não puderam vir! — Pois é. A Dayse teve que ir a São Paulo — comentou Tomaz. — E, como não se separam, a Cecília foi com ela — completou Joel. — Elas vão pernoitar na casa de um parente da Dayse. Só voltam amanhã — lembrou Tomaz.

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Joel sorriu. — Azar delas. Perderam esta noitada... Com a choperia completamente lotada, a banda se apresentou com grande sucesso, arrancando aplausos entusiasmados dos frequentadores. Pouco antes das duas da madrugada, a banda deu por encerrada a apresentação daquela noite. Como era costume, seus integrantes passaram a cumprimentar as pessoas de diversas mesas. Assim, depois de algum tempo, quando Joel e Tomaz já estavam pensando em deixar a choperia, a cantora aproximou-se da mesa deles. — Espero que tenham gostado da nossa banda... Imediatamente, Joel e Tomaz se levantaram para recebê-la. — Gostamos muito — assegurou-lhe Tomaz. — Você canta muito bem, Carol — Joel a elogiou. Ficaram os três sorrindo um para o outro até que Joel apressou-se a convidá-la para sentar-se e tomar um chope com eles. Carol aceitou e ficaram conversando por alguns minutos. Depois de comentar sobre as atividades da banda, Carol, mais por delicadeza, demonstrou interesse em conhecer melhor seus admiradores. — Sou professor de física e química — disse Tomaz. — Moro aqui em Piracicaba. Carol olhou para Joel esperando que ele também falasse. — Eu sou professor e tradutor inglês-português. Também moro em Piracicaba. — Tradutor??? — admirou-se Carol, arregalando os olhos e demonstrando surpresa.

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— Sim — confirmou Joel. — Faço traduções de textos técnicos para editoras, revistas, empresas... Carol nem esperou que Joel terminasse de falar. — Nossa! Eu estava mesmo querendo saber onde encontrar um tradutor inglês-português! — Então já encontrou — disse Joel com um sorriso amável. — Como você viu — explicou Carol —, eu canto músicas em inglês. E sempre faço questão de entender bem o significado das letras. — Faz muito bem — comentou Tomaz. — Entender o significado da letra ajuda a interpretar melhor. — Pois é — prosseguiu Carol —, e agora estou pensando em ensaiar uma antiga música country, chamada “Jambalaya on the Bayou”. Vocês conhecem? Os dois puxaram pela memória, mas foi Tomaz quem se recordou primeiro. — Ah, sim... Foi um grande sucesso de Hank Williams nos anos cinquenta. — Exatamente — confirmou Carol. — Eu tenho a letra dessa música, mas não consigo entender bem o significado. Por isso, queria um tradutor. — Mas você pode facilmente obter a tradução pelo Tradutor do Google — sugeriu Joel. — Eu já fiz isso, mas a tradução é feita ao pé da letra. Tem palavras que nem são traduzidas, permanecendo em inglês mesmo. E fica tudo sem sentido. Não dá pra entender... — Eu gostaria de fazer a tradução pra você — disse Joel —, mas eu sou tradutor de textos técnicos. Nunca traduzi textos literários e letras de músicas.

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— É muito diferente? — perguntou Carol arregalando os olhos. — Muito — assegurou-lhe Joel. — Os textos técnicos são escritos num inglês objetivo, com palavras preferencialmente de raízes latinas. Não contêm expressões idiomáticas, gírias, nem utilizam sentido figurado como nos textos literários. — Que pena... Pensei que finalmente fosse conseguir a tradução... — lamentou-se Carol. Tomaz deu uma palmadinha no ombro de Joel e disse-lhe sorrindo: — Que é isso, Joel? Ajude a garota! Não é de fato sua especialidade, mas é claro que você consegue fazer. E olhando para Carol, Tomaz asseverou-lhe: — O Joel está sendo modesto. Ele fala inglês pra caramba. Traduz qualquer texto. — Eu pago! — prontificou-se Carol. Constrangido com essa oferta, Joel consertou a situação: — Não, não! Não se trata disso. Eu faço a tradução pra você. — Ahhh, que bom! — Pra quando você precisa? — Eu estou ansiosa para começar os ensaios, mas você traduz quando puder. Depois desse acordo, houve uma troca de cartões para que os três pudessem voltar a se comunicar posteriormente. — Eu vou mandar a letra pro seu e-mail — disse Carol enquanto se despedia. — Não é preciso. Eu localizo o “Jambalaya on the

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Bayou” no YouTube. Naquele momento, Joel não poderia imaginar a inacreditável aventura que lhe estava reservada devido à tradução que se dispusera a fazer.

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2 Jambalaya on the Bayou

o início da semana, depois de ter estado na choperia, Joel levantou-se bem cedo disposto a fazer logo a tradução do “Jambalaya on the Bayou” e enviá-la à Carol. Como aquela manhã estava gelada, contrariando seus hábitos, nem tirou o pijama e, depois do café, foi direto ao computador. Não lhe custou encontrar a música e a letra no YouTube. Imprimiu-a e logo se pôs a examiná-la. Com sua experiência no idioma inglês, percebeu de imediato que a letra fora escrita num inglês típico da Luisiana, estado norte americano onde houve muita influência do idioma francês. Tal influência deveu-se ao fato de que, antes de ser adquirida pelos Estados Unidos, a Luisiana pertencera à França. Além

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disso, o francês da Luisiana apresentava pequenas diferenças em relação ao francês original, sendo conhecido como Francês Cajun. O uso do Francês Cajun entrou em declínio, na Luisiana, no fim do século XIX, quando os americanos tomaram conta da região, impondo o inglês como língua dominante. Mas o inglês acabou assimilando muitas palavras e expressões do Francês Cajun. A letra do “Jambalya on the Bayou” foi escrita nesse inglês, como se pode ver a seguir: Jambalaya on the Bayou Hank Williams 1952 Goodbye Joe, me gotta go, me oh my oh! Me gotta go pole the pirogue down the bayou My Yvonne the sweetest one, me oh my oh! Son of a gun, we’ll have a big fun on the bayou Jambalaya and Crawfish Pie and File Gumbo Cause tonight I’m gonna see my ma cher ami oh Pick guitar fill fruit jar and be gay-o Son of a gun, we’ll have a big fun on the bayou Thibodaux, Fontaineaux, the place is buzzin’ Kinfolk come to see Yvonne by the dozen Dress in style and go hog wild, me oh my oh! Son of a gun, we’ll have a big fun on the bayou Settle down far from town get me a pirogue And I’ll catch all the fish in the bayou

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Swap my mon, to buy Yvonne what she need-oh Son of a gun, we’ll have a big fun on the bayou Depois de ler e reler a letra, Joel pôs se a ouvi-la diversas vezes na voz de seu compositor, Hank Williams. Isso o lembrou de já tê-la ouvido algumas vezes, embora a música tivesse sido um sucesso quando ele ainda nem houvera nascido. Como ponto de partida, Joel fez a tradução pelo tradutor do Google. Resultou numa tradução literal de palavra por palavra, não fazendo o menor sentido. Seria então necessário pesquisar mais profundamente tais frases e palavras. Lançou mão de suas dezenas de dicionários especializados e fez profundas pesquisas na internet. Depois de muitas averiguações, ajustou a tradução obtida no Google, conseguindo uma tradução não literal, mas uma tradução das ideias contidas na letra. Pouco antes do pôr do sol, Joel terminou a tradução e enviou-a imediatamente à Carol. Chegou a sentir pena de ter terminado. Gostara tanto de fazer aquele trabalho! “Jambalaya on the Bayou” despertara em Joel o desejo de saber mais sobre o povo da Luisiana daquela época e sobre a linguagem usada por Hank Williams. Pôs se a matutar: Como teria sido a vida das pessoas que supostamente tivessem passado por uma aventura como aquela da letra da música? Como teria sido o modo de falar daquela gente da Luisiana?

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