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Grilo Green


Rose Freire

Grilo Green

S達o Paulo 2014


Copyright © 2014 by Editora Baraúna SE Ltda Capa Monica Rodriguês Diagramação Camila C. Morais Revisão Daniel Vinícius

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ F935g Freire, Rose Grilo Green/Rose Freire. - [1. ed.] - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-757-7 1. Romance brasileiro. I. Título. 13-05510 CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 ________________________________________________________________ 25/09/2013 27/09/2013 ________________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Glória, 246 – 3º andar CEP 01510-000 – Liberdade – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


1 - O regresso

Pela janela, uma bela moça muito alva de cabelos ruivos e lisos, na altura dos ombros, olhava as nuvens passarem pela asa do avião com grande ansiedade, e por está tão perto de casa seu coração batia mais forte. Lágrimas caíam de seus olhos verdes. Num reflexo da luz contra o vidro da janela, um brilho surgia mais forte que a luz do Sol. Ela tinha certeza que o veria de novo. Num suspiro tão forte de alívio, sua mente trazia vários pensamentos de dor e tristeza da separação de Jósafa, seu irmão. Do seu lado, outra mocinha morena de cabelos pretos e cacheados na altura da cintura lia o livro Vidros Escuros, por um instante, passou a olhar também de forma esperançosa para a janela do avião. Visualizando um novo futuro. E as duas se olharam nos olhos pela primeira vez naquele ambiente de forma a se identificar. Ambas tinham perdido muita gente importante, e torciam que eles estivessem ainda lá, em sua terra natal. Essas moças voltavam de Portugal. Eram duas fugitivas da invasão a seu país. Depois de quatro anos exiGrilo Green • 5


ladas, após o ataque maciço de um grupo terrorista, elas perderam tudo casa, parentes, sonhos e paz. Como muitas outras famílias que fugiram sem levar nada. E no seu retorno, a maior preocupação das moças era encontrar seus parentes, pois elas perderam total contato com eles. Na grande fuga, muita gente se separou dos pais, dos irmãos, dos maridos, dos namorados e dos amigos. E muitas pessoas nunca mais reviram ninguém da família devido o grande dia de terror causado pelos adoradores dos Vitches. Era a primeira vez que essas duas moças se encontravam. Ambas moravam antes em Fortaleza, capital do Ceará, porém uma era de Manaus, mas seus pais eram cearenses, e havia se mudando quando pequena para o Ceará. Esta se chamava Duana Guerra, de 18 anos, estatura mediana de 1,70m. A outra nascera e se criara na capital cearense, a Clarisse Paes, de 27 anos, um pouco mais baixa, com 1,68m. Ambas nunca tinham se visto antes, mas algo as ligava. Elas não sabiam, mas existia um forte vínculo entre elas. Ao conversarem no avião, descobriram uma forte coincidência. — Desculpe, você esta chorando? — Não, sim... não. É apenas uma lágrima de saudade! — É... entendo! — Oi, meu nome é Clarisse! — Disse a moça ruiva com uma mudança rápida de feições. — Oi, Duana, prazer! — Você tem alguém no Brasil? — perguntou Clarisse, timidamente. — Sim, Ivo, meu irmão! — respondeu Duana.

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Duana pegou uma foto e mostrou a ela. — Como é? Você é irmã do Ivo? — perguntou Clarisse, notando certa semelhança com um amigo de longa data que perdera contanto há mais de 10 anos. — Sim! — respondeu Duana — você o conhece? De onde? — Puxa vida, eu o conheci quando tinha 16 anos, e ele, se não me engano, tinha 14 anos... eu acho... A gente chegou a sair umas duas vezes, quase namoramos escondidos, mas descobriram. — Ah, foi?! — Era uma boa época! — Hmmm! Nunca soube! — Foi quando a gente fazia um curso de inglês, foi por um curto período. — Vocês chegaram a namorar? — Sim, quer dizer, não exatamente. — Sim ou não? — Acho que posso dizer que chegamos a ‘ficar’, sim, pelo menos para mim ele foi meu namoradinho. — Tem certeza que foi com meu irmão?! — Porque o espanto? Ele não gostava da fruta? — Clarisse deu uma risadinha. — Porque Ivo não tinha permissão para namorar ninguém! — Pelo jeito seus pais eram muito rígidos, iguais aos meus, pois quando meus pais descobriram, não deixaram mais. Nunca entendi o motivo. — Você nem pode imaginar quanto! — E como vai o Ivo? Ele está bem? — perguntou

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Clarisse, interessada. — Não sei, vim para encontrá-lo. — Tomara que sim. — Disse Clarisse. — Eu sempre achei estranho meu pai nunca deixar meu irmão namorar ninguém. — É estranho, não é?! — Estranho é nossa situação. A semelhança nas nossas famílias. — Pensei que fosse só lá em casa essa esquisitice. — disse Clarisse, rindo— Meu pai me deixava namorar, mas impedia o Jósafa, meu irmão mais novo de ficar e de namorar. Sempre papai o impedia de sair com as meninas. Já o Jonas, quando completou 14 anos, liberou geral. — Ah, é!? — Sim! Jósafa era muito animado e legal com todos, mas nunca ficou com ninguém, tudo porque meu pai não deixava, já meu irmão caçula, papai dava total liberdade para ele sair. Parecia uma marcação com Jósafa! — Por quê? — Não sei! Mas lembro bem que comigo, ele só pegou no meu pé uma vez, quando comecei um namorico com o Ivo, seu irmão. Ele me impediu até de olhar para ele. — Estranho! Meus pais também faziam isto. Toda vez que Ivo tinha um encontro, meu pai o prendia e não deixava ele sair. Eu achava aquilo o cúmulo do ridículo. — Por quê? Você soube? — Insistiu Clarisse. — Eu era pequena e não entendia muito das coisas. — Respondeu Duana. — Você tem quantos anos? Parece novinha! — Eu tenho 18, na época tinha 7, por isso não me

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interessava muito saber sobre este assunto de amor. — Então, nunca soube!? — Não, nunca! Se fôssemos nós, as mulheres, por querer ter mais cuidado, até que entenderia, mas meu irmão, já um rapaz crescido! Eles impediam de ele namorar! — Lamentou Duana. — É difícil de entender! Mas meu pai só prendia o Jósafa, nunca o Jonas. — Disse Clarisse pensativa. — Não entendo até hoje, o porquê de tanta proteção! De impedir o namoro... de ser contra as mulheres. Ivo era até vigiado! — O meu também nunca revelou o motivo de tanto impedimento com Jósafa. — Teve mais alguma coisa estranha na sua família? — Perguntou Duana. — Sim! — O quê? — O mais estranho foi o desaparecimento do Jósafa. — Não acredito! — espantou-se Duana. — Ele foi sequestrado? — Ele desapareceu, e apareceu misteriosamente. — Foi mesmo?! — Sim. — Vixe, Clarisse! Aconteceu algo semelhante ao Ivo. — O que houve com Ivo!? — Não sei se foi um sequestro, apenas sei que sumiu, e nunca mais apareceu. Ninguém pediu resgate. — O quê está me dizendo? O Ivo sumiu? — Sim! Faz algum tempo. — respondeu Duana com certo pesar na voz.

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— Quando? — Há exatos 5 anos. — Duana respondeu com tristeza no olhar. — Verdade, que coincidência! — exaltou-se Clarisse. — Muita coincidência! — confirmou Duana. — Mas Jósafa voltou, quero dizer, ele fugiu dos bandidos. Ele não disse nada, o porquê do sumiço. — Então, ele está bem agora? — Não sei, ele ficou para trás na invasão. — E pegaram os bandidos na época? — Não. — respondeu Clarisse — E o Ivo foi salvo? — Não, nunca foi encontrado, nem vivo nem morto. Nada se soube se foi um sequestro, se fugiu de casa. Isso é o que me dá mais angústia. — Puxa, que horrível! — Bota horrível nisso! — Eu pensei que ele já tivesse casado, estava longe do país! Salvo! — Eu sempre procurei por ele, mas nada de notícia, nunca o encontrei. — Deve sofrer sua falta todo dia, não é? — Sim! E o seu irmão? — Felizmente Jósafa escapou ileso e continuou a vida, mas nunca revelou onde esteve nem como foi. — Puxa que bom que se salvou e ficou bem! — Não exatamente. — disse Clarisse com feições triste. — Ele ficou com traumas até a última vez que o vi, nunca foi mais o mesmo. — E seus pais? — Nem te conto, meus pais nem ligaram. Disseram

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apenas que Jósafa tinha dado uma escapulida. Ele passou uma semana fora sem dar notícias, e isto não era do feitio dele fazer este tipo de proeza. Sempre foi um cara muito certinho. — Talvez tenha arranjado uma namorada! — Não! — Foi curtir sem avisar com uma galera!? — insistiu Duana. — Não! — Por que não? Ele foi curtir a vida, pense, devido ser tão preso. — Menina, não foi isso, não! — disse Clarisse chateada. — Se não ele teria me contado, a gente era muito amigo. Ele me contava tudo! — Então, o que foi? — Não sei, mas depois disso ele ficou muito calado, sempre saía correndo por motivos estranhos, de uma hora para outra desaparecia e só o via noutro dia todo machucado. — Mas você teve sorte! — Sorte?! — Sim! O Ivo nunca mais voltou. — disse Duana, fungando. — Como é? — perguntou Clarisse surpresa. — Seus pais não pagaram o resgate? — Resgate? Não houve pedido nenhum, nem contato, nem busca! — É?! — Estou ainda a procurar por ele desde o dia que sumiu há 5 anos. Meus pais não levantaram um dedo para procurá-lo. — Ele não era querido?

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— Ao contrário, era o mais paparicado, o mais protegido. Tudo era para ele. Verdadeiramente o favorito. — Não entendo! — disse Clarisse, refletindo. — Coisas estranhas aconteciam lá em casa. Mas esta de não se importar com sumiço do Ivo bateu o recorde. — É! Que coisa horrível!? — disse Clarisse, meneando a cabeça . — É, sim! Nunca me conformei. — Pensei que estava atrás dele devido à fuga que separou muitas famílias, por causa do grande invasão dos Vitches que sequestraram muitas pessoas e mataram muita gente nas ruas. — Não, não! Meu irmão está sumido desde aquele tempo. E choro desde então por ele está longe de mim. Nós não éramos muito unidos, sempre brigávamos, eu tinha raiva dele por ganhar tudo que eu queria, e sempre negavam a mim, mas não queria o mal dele. Eu fui má com ele algumas vezes. Mas quero muito encontrá-lo para pedir perdão. — Não seja tão dura consigo mesma! Você era uma criança. — Eu me arrependo muito das brigas que tive com meu irmão. Nunca tive oportunidade de dizer que gostava dele. Eu sempre estava disputando algo, meus pais não ajudavam, até parecia que gostava de ver a gente discutir. — Que estranho! — Muito! Eles também nunca foram atrás de Ivo, parecia que eles sabiam onde ele estava e não ligava se Ivo estava bem ou não. — O que tem de errado com nossos pais? — inda-

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gou Clarisse colocando a mão no queixo. — Não sei, mas vou descobrir. — disse Duana, determinada. — Algo me diz que tem haver com os Vitches. — disse Clarisse convicta. — Por quê? — Duana estranhou. — Não sei, eu somente sinto algo negro, algo oculto dentro de minha casa. Jósafa passou a escrever um diário. Um dia eu o peguei, li algumas frases sem nexos, e vi muitas vezes a palavra Vitches antes mesmo deles se mostrarem à sociedade e de fazeres aquelas atrocidades em público. — Hum! E então, seu irmão estava envolvido com eles? — Acho que sim, e meus pais também! Eles trabalhavam para uma empresa chamada VTC Incorporações Internacionais, que pertenciam aos Vitches. — A VTC? — disse Duana surpresa — Não pode ser? — Por que o espanto? — Não, não pode ser! Tem certeza que era deles? Meus pais também eram dessa empresa. — Parece que juntas temos chance de descobrir. — Clarisse supôs. — As armações dos nossos pais. — Prefiro não descobrir! Meus pais não eram bons comigo, mas eram meus pais, eu os amava. Não posso acreditar que eles eram associados com aqueles monstros. — O que houve com eles? — Fugimos juntos; nossa viagem foi bastante tranquila, por incrível que pareça. Vivíamos bem em Portugal, mas me deu uma vontade de procuram por Ivo... de repente sentir que ele estava vivo, mas eles não deixavam eu voltar ao Brasil. Foi quando morreram num acidente

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no mês passado. — Os dois de uma vez? — Sim. O carro perdeu o freio e capotou. Eu estava lá sozinha em casa quando recebi a notícia, e de imediato resolvi voltar para o Brasil. — Duana, infelizmente, acho que eles têm algo sim. Muita gente queria poder, riqueza fácil, inclusive os meus pais. — Não, os meus não! — Mas, com certeza os meus sim. E não se engane, Duana, se quer descobrir, você tem que ir até o fim, mesmo que sofra com a verdade. — É muito triste, não vou suportar a perda da honra deles também. Nem deveria pensar assim dos seus próprios pais. — reclamou Duana. — Eu é que sei! — E eles estão vivos? — Não! Houve uma mudança de humor lá em casa, depois que Jósafa voltou. Eles ficaram esquisitos, queriam tirar férias de repente. Pedi uma explicação, mas logo se arrumaram e foram viajar. Eu disse que não ia, tinha universidade, trabalho. Eles foram sem mim e Jósafa, mas levaram meu irmão menor de 14 anos, o Jonas. Foi quando retornei da aula, estava tudo escuro em casa. E quando acendi as luzes estavam os três mortos. — Foi um assalto? — Não. Foi queima de arquivo! — O quê!? — Esta vendo!? — Mas por quê? Os Vitches já tinha aparecido? — Não!

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— Qual a relação? — Não sei, mas parecia um castigo. Não gosto nem de lembrar, nós o achamos mortos na sala de casa, sem nenhum arranhão, mas estavam frios e com sinal na fronte. — Que sinal? — Parecia um V e dois 6 cortando o meio de cada traço da letra. E um dos seis estava ao contrário. — Desenha para mim? — Pediu Duana. — Oh! Era assim! — Clarisse desenhou num lenço de papel. — Já viu isto em algum lugar! — disse Duana, se lembrando. — Sim! Eu também me lembro. — Eu vi. Tinha nos relatórios da empresa VTC. Naqueles tinha um carimbo de mais confidenciais. — Viu como existe algo entre eles. — deduziu Clarisse. — Na época não fazia ideia do que seria, mas eram eles. Era o sinal deles quando se apossaram das principais cidades do Brasil. — Sério?! — Sim! Você se lembra, não é? Começou com a capital do país, Brasília, depois Belo Horizonte, São Paulo, Recife, Florianópolis, Salvador, Manaus, Rio de Janeiro, Goiânia e outras que não lembro, até que invadiram Fortaleza. — Por que aqui foi o último lugar a ser invadido? — Você não sabe o porquê? — Não! — Nunca soube do G.G.? — Gossip Girl? — Não! — disse Clarisse chateada — Claro que não.

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