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Escolhas O amor tem dois lados


Nize Morais

Escolhas O amor tem dois lados

S達o Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa Ângela Luiz Revisão Daniel Vinicíus Diagramação Monica Rodrigues

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ _______________________________________________________________ M825e Morais, Nize Escolhas: o amor tem dois lados / Nize Morais. - São Paulo: Baraúna, 2012. ISBN 978-85-7923-650-1 1. Romance brasileiro. I. Título. 12-8813.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

30.11.12 05.12.12 041187 _______________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua da Glória, 246 - 3º andar CEP 01510-000 - Liberdade - São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Agradecimentos Quando nossos sonhos e desejos se realizam ficam mais intensos e especiais quando se tem que lutar com unhas e dentes, contra tudo e todos. Por isso este livro é como um terceiro filho para mim, já que Deus me deu a felicidade e a honra de ter dois, Rafael e Raíssa, simplesmente magníficos, a quem homenageio com seus nomes neste livro, e a meu marido e amigo, José Luiz que me ajudou neste “projeto”. Agradeço a muitos amigos que sempre estiveram e estão junto comigo nessa jornada, como meus irmãos Flávio e Cristina, e as irmãs do coração, Ângela, Bel, Carmen, Ana Lúcia, Gisele Rodrigues, (a distancia não me faz esquecer o seu coração de ouro), Vanessa Massoni, (minha filha de coração), Simoni Grossmann, (doçura e generosidade) e as minhas primeiras leitoras, Kátia Faleiro e Vanessa Vasconcelos, que foram minhas “cobaias” e grandes incentivadoras. A Leandro e Rômulo Bolivar, obrigada pela força. À Édna, Lia, Maria, Lena, Selma, Ione e Ary e toda sua família. Não poderia deixar de lembras dos amigos, que apesar de não estarem sempre comigo, foram e são muitos importantes na minha vida como dona Cely, Terezinha, Elza, seu Otacílo (in memoriam), Rubens, Leia, Vera,Tânia, entre outros, e à minha capista Ângela Luiz. Obrigado a todos os amigos que, graças a Deus, de alguma maneira passaram de forma especial na minha vida, como a inesquecível turminha da Alliance Française, Luiz Antônio, Deborah,


Janaina, Roberta, Aline, e toda a turma. Aos inesquecíveis professores, Carlos e Maria Lúcia. E por último, porém os mais importantes: a Deus e a meus pais, que cada um a seu modo me deram o que foi necessário de amor e exemplo de vida, para me tornar um ser humano digno e honesto. À minha mãe, que nos cercou sempre de amor e atenção, esquecendo-se até de si. A meu pai que nos ensinou que o céu não é limite, que podemos ir além com dedicação e trabalho. E aqui cheguei bem mais alto que o céu, para mim, na realização do meu sonho. Meu carinho especial também ao Zak, Raíssa, vó Mel, vô Vicent e a todos os personagens que criei, e que me fizeram rir e chorar pra escrever as suas vidas como muito amor e dedicação. E, claro, a Paris, que por mais que eu viva, nunca te esquecerei! Espero rever-te em breve, ma chérie.


Sumário O Início da Minha Tortura............................................. 9 Curiosidade............................................................... 18 O Verdadeiro Primeiro Beijo...................................... 29 Preparativos e Brigas.................................................. 45 Meu Irmão................................................................. 79 Problemas e Desavenças.......................................... 101 A Volta à Realidade................................................... 134 Cristiano e Vicent..................................................... 141 Delegado................................................................. 173 Enfim....................................................................... 185 Nova Vida................................................................ 209 Dor......................................................................... 219 Reencontros e Separações....................................... 233 Escolhas................................................................... 250 Nova Rotina............................................................ 275 Vidas que Seguem.................................................... 297 Meu aniversário...................................................... 315 Vidas Mudam e Seguem........................................... 335 Num Piscar de Olhos............................................... 347


Capítulo 1 O Início da Minha Tortura

Pisquei meus olhos por um segundo e ouvi minha vó que começou: — Era uma tarde de um dia muito gelado do mês de maio. Fui à feira como toda quinta-feira e já me ajeitava pra voltar pra casa, quando um moço mexeu comigo: “Coitadinha, o que fizeram com ela.” — Referindo-se à imensa barriga que carregava, que era seu pai. Quando minha avó começou a me narrar que ela estava numa feira com um barrigão de nove meses, minto, de sete, pois meu pai não esperou os nove pra nascer, pensei: não foi boa ideia me oferecer pra escrever as memórias dela. Tô ferrada, foi o mínimo que pensei naquele momento sentada na frente do meu notebook novinho, presente dela. Uma senhora de sessenta e muitos anos excitadíssima, dentro do possível, é claro, querendo me contar tudo o que havia se passado na sua vida. Eu, é claro, não estava nada animada, mas, era minha avó querida que fazia as minhas vontades e que tinha me dado o tão sonhado notebook. Como não havia jeito, o negócio era encarar o problema de frente e digitar o que ela pudesse se lembrar, e, Deus que me perdoe, se Ele ajudasse, a idade ia contar a meu favor e ela tal-

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vez se esquecesse de alguma coisa, muitas coisas, e quem sabe o livro viraria um pequeno diário, ou umas folhinhas apenas para ser guardadas de lembrança por ela. E um dia as acharíamos na gaveta, bem lá no fundo quando ela morresse e choraríamos muito, quem sabe?! Porque se estava frio lá naquele dia em maio, aqui, agora, o céu estava lindo e estava de férias e louca pra ir pro shopping. Deus perdoe meus pensamentos, aff! — Preste atenção, minha filha! — disse vovó. Se não você não vai aprender nada do que vou lhe contar! De que adianta ouvir ou ler se não se aprende nada de bom? Quando ouvimos, lemos algo, ou simplesmente vivemos, sempre temos que analisar e tirarmos o melhor da situação. É, ia ter que aprender mesmo a fazer isso, ver o lado bom de estarmos numa fazenda enorme só com velhos, porque meu irmão, é claro, ficou na capital com os colegas; já era maior de idade e não era obrigado, como eu, a passar férias no campo numa cidade que nem tinha Internet. Às vezes pensava que minha avó fazia aquilo de sacanagem, morar tão longe assim. Pô! Logo ela que era mulher culta, falava francês como nativa, não sei bem como, morar longe da civilização daquele jeito. Quando me dei conta minha avó já estava com uns biscoitinhos e com um suco que não sabia direito de que era, mas eram muito bons. — Pra você se concentrar de novo na nossa história, já que a senhorita está tão longe! — Desculpa, vó, é que estava com fome mesmo; a senhora adivinhou. Tentei me desculpar. Vovó era sempre doce, mesmo quando se zangava com a gente. Não era como papai e mamãe que gritavam e diziam: “É assim e pronto”. Não! Ela explicava o porquê de não se poder fazer isso ou aquilo, e sempre tinha bons argumentos que a gente acabava atendendo e obedecia. Vovó dizia que eram

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“os estresses” do dia a dia, que eles não faziam por mal”. Minha mãe, por sua vez, ficava puta da vida porque nós a ouvíamos e sempre concordávamos com vovó, que era sua sogra. Bom, então vovó começou a relatar como tinha sido o parto de meu pai, que nasceu de sete meses — apressado, o papai! — e que nunca teve muita saúde, já que tinha dado trabalho pra ela a vida toda. — Esse menino parecia que nem ia vingar, sempre ficava doente até mais ou menos os doze anos. Ruinzinho de comer, Nossa Senhora! Mas depois que começou a pegar corpo não parou mais. É hoje um “homão” forte como um touro. Eu perdi tanto sangue, mais tanto sangue, que fiquei anêmica e nunca mais pude doar sangue. — Vovó, vovó! — interrompi os seus pensamentos, pois ela já estava começando a se empolgar. — Acho que não fica bem chamar papai de “forte como um touro” no seu livro. Acho que ele não ia gostar por causa do chifre do animal, essas coisas de homem brasileiro, sabe como é. — Bobagem, minha filha, ele está forte mesmo. E por aqui quando um homem é forte, ele é forte como um touro. — OK! Mas depois a senhora vai explicar pra ele que o chifre foi ideia da senhora, não minha, senão fico até de castigo, sei lá. Melhor não ariscar perder outro final de semana por causa do chifre do papai, pensei. — Naquele ano fez muito frio, durante uma semana não pude dar banho no seu pai, porque senão podia ficar doente e até morrer — disse vovó. — Que exagero! — Não é não, minha filha! Seu pai era muito pequenino, e o médico disse pra só passar paninho úmido nele, pra não gripar. Ele cabia numa caixa de sapato.

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— Credo em cruz, vó! Que exagero. Criança nenhuma nasce tão pequena assim! Minha avó viajando na “maionese”, como dizia papai. — Então vou lhe provar! — exclamou ela, já se levantando e, após pegar uma caixa daquelas bem decoradas e cafonas que geralmente toda avó tem, buscou, dentro dela, entre um monte de fotos antigas, uma em especial. Não pude crer! Pasma, de boca aberta foi pouco, pra descrever a cara de idiota que fiz, quando vi a foto de uma criança minúscula toda encolhida por causa do frio, dentro de uma caixa de sapato. E a caixa nem era tão grande assim. Realmente tive que concordar com minha avó, tínhamos que colocar a expressão “forte como um touro” para descrever papai, gostasse ele ou não dos chifres. A noite caiu e ficamos ali vendo as fotos de minha avó, Esmeralda. É, coitada, além de morar mal, tinha o nome um pouco diferente. Mas dificilmente alguém a chamava assim: pra gente ela era a vó Mel, como se fosse um doce mesmo. Algumas fotos me chamaram atenção, mas estava tão entediada que as guardei na memória e perguntaria algo sobre elas em outra data, ou melhor, em outra “sessão de tortura”. Algumas eram realmente lindas, como uma de minha vó lendo um livro numa rua bonitinha que eu não conseguia reconhecer apesar de achar encantadora. Bom, antes que pudesse perguntar onde ficava aquele lugar lindo, fomos interrompidas por minha mãe, com aquele jeitinho “todo meigo” de entrar de supetão, para anunciar o jantar. E como cheirava bem! Huuummm!Tudo ali naquele lugar longe de tudo, perto de p* nenhuma, porém, cheirava bem. Pelo menos isto. E como tudo tem um lado bom, fomos comer. O jantar foi como em qualquer família, todos falavam e comiam ao mesmo tempo, todos estavam felizes, até por al-

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guns momentos esqueci que minhas amigas estavam no shopping saboreando uma pizza deliciosa e azarando alguns meninos. Que meu pai não ouvisse meus pensamentos! Fui me deitar, pois estava um pouco cansada, havíamos chegado há dois dias e passamos um dia inteiro desfazendo malas, guardando as coisas e, no meu caso, passando pela tortura de escrever as memórias da vovó. Quando me lembrava que iria passar bastante tempo sendo torturada por minha avó querida que sempre fazia as minhas vontades, ah, me dava uma vontade de apertar o pescoço dela! Mas bastava vê-la pra que este pensamento fosse embora, ou então me lembrar de tudo o que ela já tinha me dado de presentes, sempre os melhores e mais caros. Mamãe sempre fazia algum comentário de que “não havia necessidade de se gastar tanto dinheiro”, ou que “iríamos estragar todos os presentes”, etc., etc. Mas vovó nem ligava, gastava mesmo. E ai de nós se não fosse ela, porque minha avó por parte de mãe, tadinha, era dura, dura, quase não participava da nossa vida. Além disso, nossos tios eram na maioria uns bebuns mal-casados que só viviam pensando em futebol e mulheres. Mas, no meio desse turbilhão de pensamentos, um em especial me voltava à mente já na cama onde estava toda agasalhada, quentinha, bebendo aquele chocolate quente que minha avó havia me trazido, e que não me deixava dormir: a foto. Quebrei a cabeça me perguntando por toda a noite onde deveria ficar aquele lugar lindo que deixara minha vó com aquela aparência maravilhosa de tranquilidade e felicidade? Estava dormindo um sono que parecia ter durado uns cinco minutos quando fui acordada por minha mãe, toda animada, gritando que deveríamos levantar, pois íamos andar a cavalo. Se olhar matasse, a minha mãe já estaria morta, estorricada e ou envenenada naquele momento. Estava cheia de sono,

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cansada da viagem, e a última coisa que gostaria de fazer naquele momento era subir em um cavalo. E minha mãe, numa agitação que dava gosto. Gosto de apertar o pescoço dela! Enfim, fui obrigada a subir naquele pulguento após o café e passamos a manhã toda passeando num lugar que eu definiria como o fim do mundo. Era tanto verde e tanto oxigênio que já estava me sufocando. Não havia poluição, era flor e frutas maduras pra todo lado. Meu pai se empolgou e achou de subir numa mangueira enorme e “danou” a jogar manga pra minha mãe e minha tia Cris que sempre viajava com a gente. Eles pareciam crianças, minha mãe até mijou de tanto rir. O negócio era meio engraçado mesmo. Meu pai,” o gordo feito um touro”, se achando com dez anos e pendurado numa mangueira, já contaminando minha mãe, que queria subir, mas estava pesada demais e não conseguia e se mijava de rir do meu lado. Minha tia, que era magrinha, já estava na copa da árvore e havia subido mais do que meu pai. Enchemos vários sacos com a fruta e levamos pra casa da vovó que fez uns sucos deliciosos com ela. Antes disso, é claro, passeamos por quase todo o lugar. Vi meus pais e minha tia querida quase terem um treco de tanta felicidade, enquanto só enxergava formiga me mordendo. Em resumo, um passeio memorável, daqueles que não se esquece tão cedo de tão medonho. Ah! Não posso deixar de registrar que a minha bunda estava doendo pra caramba. A última coisa que sabia era andar a cavalo e aí, já viu, a minha bunda era que “pagava o pato”. Na hora do almoço, e como esperava ansiosa a hora do almoço, porque não se tinha nada pra fazer naquele lugar a não ser comer, e como a minha vó cozinhava bem! Sem me dar conta, acabei comendo um monte de treco esquisito que fui lembrar o nome e aprender a cozinhar mais tarde. Mas, naqueles dias, a hora do almoço era uma experiência e tanto para mim.

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A comida da vovó tinha muito colorido e muitas frutas. Sempre comia muito, e ouvia minha mãe dizer: come menos, devagar, etc. etc.. — Deixe a menina comer — dizia meu pai. Tá de férias, passou de ano com boas notas, ao contrário do seu filho que só passa raspando e nem quer mais vir com a gente. — Nosso filho, nosso filho — disse mamãe, meio chateada. Ele não vem mais porque você não insiste com ele; além do mais, está bem grandinho pra vir pra casa da vovó passear no meio do mato sem civilização por perto. — Calma, gente, calma! Alice tem razão, meu filho! O menino já é homem, daqui a pouco vou ser bisavó. Ele tem a vida dele lá na capital. Não vamos discutir por causa disso, não é mesmo? Minha avó sempre dava razão à minha mãe. Eu ouvia o pessoal dizer que isto era a “política da boa vizinhança”. Não entendia muito bem, não, mas tudo bem. O importante é que estava com a barriga cheinha e ia ver TV no quarto da minha avó onde acabei cochilando, afinal não se tinha muita opção. Ai, que saudade do meu shopping! Peguei no sono e só fui acordar duas horas depois. Enquanto dormia viajei para onde minha avó estava sentada lendo o livro, na foto. Naquele banco, me vi como a minha avó, só que diante de mim havia um lindo rapaz de olhos e cabelos castanhos, com roupas esquisitas daquela época, me fotografando e sorrindo pra mim. De repente, minha mãe, mais uma vez, me acordou de supetão com aquele cuidado que só ela tinha, perguntando se não queria ir ao centro comercial com ela, meu pai e minha tia. Bom, de novo, assassinei minha mãe com os olhos. Depois refleti sobre o que seria pior, ficar ali sozinha com vovó, ou seguir rumo ao desconhecido com três velhos relembrando

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Escolhas - o amor tem dois lados.