E tudo mentira 15

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É tudo

men TIRA



João Carlos Borges

É tudo

men TIRA São Paulo 2017


Copyright © 2017 by Editora Baraúna SE Ltda

Capa

Emília Adamo

Foto da capa

João Carlos Borges

Diagramação

Editora Baraúna

Revisão

Solange Sampaio e Adriane Gozzo

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ B731t Borges, João Carlos É tudo mentira / João Carlos Borges. - 1. ed. - São Paulo : Baraúna, 2017. il. ISBN: 978-85-437-0743-3 1. Conto brasileiro. I. Título. 16-38675 CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 ________________________________________________________________ 19/12/2016 20/12/2016 Impresso no Brasil Printed in Brazil

DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua Sete de Abril, 105 – Cj. 4C, 4º andar CEP 01043-000 – Centro – São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br


Introdução De certa feita, estava a contar um determinado caso para uns colegas, o que aconteceu há mais ou menos oito anos, na hora do almoço, no restaurante do local de trabalho, quando um dos colegas que estava em uma mesa próxima, ao ouvir o que estava a contar, disse: “Você é grande mentiroso”. O caso que havia contado aconteceu em Brasília, na SQS 310. Falei para ele que, caso fosse algum dia à Capital Federal, tirasse um tempo para ir até o bloco “A” da Superquadra citada, e, uma vez lá, perguntasse a alguém, empregado ou morador que estivesse lá desde os anos 70, se de fato havia ocorrido o que havia contado para o colega. Como vez por outra outros colegas e amigos pediam para contar casos parecidos com o da SQS 310, resolvi colocar tudo em livro, daí este “É tudo mentira”. O título era para ser “Cotidianos”, mas resolvi mudar pelo fato de terem me chamado de “mentiroso”, então achei melhor “É tudo mentira”. João Carlos Borges

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A alternativa Quando corretor de imóveis, toda vez que ia mostrar um imóvel fechado para um cliente, tinha por hábito chegar antes e abrir as janelas, para que o ambiente ficasse mais arejado. Daquela vez não foi diferente. Ao chegar no edifício, falei para o porteiro que, caso alguém me procurasse, dissesse que estaria no apartamento de número 110. Mal tinha acabado de enfiar a chave na fechadura, a porta do apartamento em frente foi aberta e uma mulher morena e baixinha, beirando uns 40 anos, apareceu e perguntou se eu era o novo proprietário. Eu disse que não, que era apenas o corretor. Em seguida, perguntou se conhecia o dono. Ao responder que não, ela disse que, para uma pessoa casada, ele levava uma vida no mínimo estranha, uma vez que só chegava em casa de madrugada. Disse-lhe que o cara era dono de um restaurante. Em seguida, nova pergunta: quis saber se eu tinha conhecimento do acontecido no apartamento. Quan7


do ia dar a resposta, uma voz masculina por trás dela falou: “Mulher, você não vai dizer o que aconteceu, vai?”, ao que ela respondeu: “O que é que tem o rapaz saber se todo mundo no edifício sabe e, além do mais, deu no rádio, na TV e no jornal?”. O que ela disse despertou minha curiosidade. Pedi um tempo, abri a porta, entrei no apartamento, abri as janelas e voltei para ouvir a história. Contou ela que numa tarde, por volta das 16h, a campainha tocou e, ao abrir a porta, deparou com uma senhora muito bem vestida, que após cumprimentá-la perguntou se era possível ir até seu sanitário, para, de lá, verificar pelo basculante se tinha luz acesa no sanitário do apartamento de sua filha, visto que a porta estava trancada e ninguém respondia ao chamado e às batidas. Após a permissão, a senhora se dirigiu ao sanitário e, ao ver que havia luz acesa no sanitário do apartamento, chamou a filha pelo nome, mas não obteve resposta. A pessoa que lá estava percebeu que, naquele momento, não havia ninguém no apartamento e, diante disso, saiu do sanitário. Para não topar com a senhora, usou como alternativa, já que estava no primeiro andar, sair pela janela, só que ao fazer isso, como estava de salto alto, escorregou no beiral do edifício e caiu sobre o carro de uma agente da polícia federal. Uma vez que o meu cliente não apareceu e eu tinha ouvido uma boa história, mais uma vez pedi licença à senhora, entrei no apartamento, fechei as janelas e fui embora. 8


Tão logo cheguei no escritório, o que aconteceu por volta das 15h, contei a história para o dono da imobiliária, que, após ouvi-la, disse: “Esqueci de te avisar que o apartamento é do genro daquele doutor lá da Câmara dos Deputados e do Hospital de Base, que resolveu, no dia do acontecido, levar uma conhecida dos tempos de solteiro para matar a saudade, o que fez após ter ouvido sua mulher dizer que, naquele dia, ia para a casa da mãe, o que evidentemente não aconteceu. O cara, para se livrar da sogra, mandou que a amiga se trancasse no sanitário e que não saísse de lá por nada. Assim que a amiga se trancou no sanitário, abriu a porta para a sogra e se mandou”.

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A banana e o pepino Banana não tem nada a ver com pepino, mas o que se passou no telhado do edifício Princesa Isabel, sito à rua Tupis, nº 255, no centro de Belo Horizonte, endereço no qual residi por dois anos, teve banana no início e meio, e pepino no fim. Um pouco antes do meio-dia, um dos técnicos de manutenção dos elevadores foi curtir uma sombra junto à casa de máquina do elevador, que servia aos apartamentos de final 2 e 3, quando pouco tempo depois, na janela do apartamento do zelador do edifício, do outro lado da rua, que ficava na cobertura, surgiu uma de suas filhas. O técnico, ao vê-la, fez um aceno, no que foi correspondido. Entusiasmado com a receptividade da moça, desceu o zíper do macacão e mostrou o pênis para ela, que mais uma vez mostrou-se receptiva. Diante disso, começou a masturbar-se, mas, quando estava na melhor, seu colega chegou chamando-o para ir almoçar. Fechou o macacão e acenou para a moça, dando a entender que após o almoço voltaria. Por volta das 13h30 voltou e, pouco tempo depois, a moça apareceu, tendo ele em seguida dado continui10


dade ao que tinha feito antes do almoço. De repente a mãe da moça apareceu, e esta, dando uma de santinha, mostrou-se indignada com o que estava a ver. A mãe pediu à filha que entretivesse o cara o tempo suficiente até a chegada da polícia. Enquanto a filha fazia sua parte, a mãe foi para o telefone e fez a denúncia. Pepino puro, o cara foi preso e demitido do emprego. Quanto à moça, assim como a mãe, que traía o marido sistematicamente, não era nenhuma santa. Mas, como nem mãe nem filha aos olhos do cara poderiam passar por devassas, sobrou para ele...

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A cafetina A mulher era cliente do escritório. Alugava dois apartamentos para instalar suas meninas, a maioria carioca, que serviam ao pessoal do primeiro escalão, incluindo aí ministros e altos funcionários de algumas embaixadas. A base era o Rio de Janeiro, onde ela residia e onde ficava grande parte das meninas. Em Brasília mantinha em torno de quatro ou cinco meninas, de maneira que, quando havia necessidade de mais, um avião do governo ia buscá-las no Rio, ocasião em que eram levadas diretamente para algum evento. Pois bem, a cafetina, por sinal gente muito fina, de bom trato e outras coisas mais, um dia levou duas das meninas para me apresentar. Mas ficou só nisso, já que o negócio era para o bolso de gente do governo ou de determinados empresários. Foi via cafetina que, antes mesmo de muita gente em Brasília, fiquei sabendo quem eram os matadores e estupradores da menina Ana Lídia, encontrada morta na Asa Norte. Dia seguinte ao ocorrido, ambos foram para Londres, tendo eles embarcado no Aeroporto do Galeão, o que foi visto por um dos primos de minha mãe. 12


A confissão Numa carona que dei para um dos sócios do escritório, que residia próximo à casa de meus pais, no trajeto, este me contou que no dia do seu casamento tinha deixado sua mulher na porta da igreja e foi se encontrar com uma garota, com quem mantinha um relacionamento sexual constante. Só foi pra casa uma semana depois, quando, segundo ele, já o suficiente saciado para encarar uma virgem, que não ia lhe satisfazer plenamente. Disse também que tinha um filho bastardo, fruto de outro relacionamento extraconjugal. A confissão devia-se ao fato de, quinze dias antes, a pedido do seu sócio, ter ido levar um dinheiro para sua mulher, uma vez que tinha ido passar o fim de semana com sua sócia e amante. Anos depois, conheceu uma loira e, em decorrência, separou-se da mulher e da amante e sócia.

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A dormida Saímos de Brasília para um carnaval no Rio, numa sexta feira, por volta das 18h30. Por volta das 24h, chegamos a Belo Horizonte, quando meu primo, que estava na direção, me entregou o carro para prosseguirmos viagem enquanto tirava uma soneca no banco traseiro do seu “Renault Gordini”. Tão logo assumi a direção, começou a chover e, na saída de Belô, a intensidade da chuva aumentou. Quando comecei a subida após a primeira ponte, depois do posto da Polícia Rodoviária Federal, a chuva aumentou mais ainda, fazendo com que eu tivesse que diminuir sensivelmente a velocidade, sendo que a visibilidade, que não estava boa àquela altura, piorou em função dos faróis altos dos veículos que trafegavam em sentido contrário, em sua maioria caminhões. No meio da subida, percebi que o asfalto tinha acabado. Parei o carro e saí para verificar e, ao fazer isso, notei que os veículos que vinham em direção contrária estavam passando ao largo e seguindo a uma certa distância do carro. Diante disso, andei para a parte traseira do carro e vi que havia uma placa indicando desvio à esquerda, que devido à baixa visibilidade 14


aliada à luz alta dos faróis dos caminhões eu não tinha visto. Antes de voltar ao carro, resolvi dar uma olhada mais à frente para ver o porquê do desvio. Após andar uns cinco metros, vi que, onde antes havia um tubo para passagem de água da encosta à esquerda, havia um grande buraco, do tamanho suficiente para caber um caminhão. Caso não tivesse parado, certamente iria cair lá. Voltei ao carro e toquei em frente. Meu primo não acordou. Por volta das 5h30, meu primo acordou e pediu para parar no primeiro posto de combustíveis. Parei em um que ficava distante mais ou menos 15 quilômetros da cidade de Barbacena. Ele desceu, foi até lá, lavou o rosto e tomou um café. Na volta, me perguntou as horas e onde estávamos. Respondi, e ele falou: “Estamos atrasados. Deixe-me pegar o carro para dar uma adiantada”. Falei que o atraso foi devido à forte chuva e ao tráfego. Passei para o lado do carona e ele pegou a direção. Cerca de 15 km depois de Barbacena, em uma subida à direita, vinham três caminhões. Quando passamos pelo primeiro, notei que estávamos bem próximo dele, dei uma olhada para meu primo e fiquei na minha. Quando demos início à passagem pelo segundo caminhão, a distância entre ele e nosso carro era de aproximadamente um palmo. Novamente olhei para meu primo, mas nem cheguei a voltar a cabeça para olhar em frente um barulho tipo toque num tambor chegou aos meus ouvidos e, quando dei por mim, estava em pé no asfalto, no meio da pista, meu primo sen15