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De Analista a Ajudante


Genildo Silva Sousa

De Analista a Ajudante

S達o Paulo 2011


Copyright © 2011 by Editora Baraúna SE Ltda

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________

S696d

Sousa, Genildo Silva, 1964De analista à ajudante / Genildo Silva Sousa. - São Paulo : Baraúna, 2011. ISBN 978-85-7923-347-0 1. Sousa, Genildo Silva, 1964-. 2. Pessoal da área de processamento eletrônico de dados. I. Título. 11-4112. 05.07.11

CDD: 869.98 CDU: 821.134.3(81)-94 11.07.11

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________________________________________________________________ Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua Januário Miraglia, 88 CEP 04547-020 Vila Nova Conceição São Paulo SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br www.livrariabarauna.com.br


Meu nome é Genildo, no momento que resolvo contar algumas coisas sobre a minha vida, tenho 45 anos, completados ontem, 30 de agosto de 2009. Para preservar a identidade de algumas pessoas, trocarei os nomes, porque não existem duas verdades e como não quero ser processado e nem processar ninguém, vou agir assim. Eu trabalhava como prestador de serviços de TI, Tecnologia da Informação; para uma grande instituição estatal. Ei, você aí, não sorria, nem todos sabem o que é TI. Ao voltar do almoço, fui informado que haveria reunião às 14h00 no 4.º Bloco, piso térreo, com um dos coordenadores da estatal e todos deveriam estar presentes. Naquele pavimento ficava o setor de suporte; como aquele setor não poderia parar, então a reunião seria ali. Às 13h55 desci, pois trabalhava no 4.º Bloco piso superior. O “homem” já se encontrava no centro das atenções. Durante o dia, havia mais ou menos 30 pessoas no setor, entre homens e mulheres. Entre os homens, havia muitos “moleques” e as piadinhas eram corriqueiras, os murais muitas vezes, serviam mais para portar caricaturas, do que avisos. Às 14h20 o homem perguntou:


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— Estão todos aí? — Quase todos. — alguém respondeu. — Então vamos lá. — Respondeu ele — e prosseguiu. — Pois bem pessoal; estamos num processo de licitação e vocês sabem como essas coisas funcionam. Por favor, sejam razoáveis; não criem casos no momento da transição, pensem na empresa. Por outro lado, quero dizer que este processo será diferente dos anteriores, a estatal não vai exigir a quantidade de funcionários por setor, quem ganhar a concorrência, determinará essa quantidade, se a empresa vencedora achar que onde trabalham dez funcionários, dois conseguem realizar o serviço, o problema é da empresa, pois a estatal, não interferirá. — O problema é dela e nosso também — alguém respondeu. Ouviu-se risadas. — Nós não podemos fazer nada, o edital foi redigido assim. E começou; o burburinho; o homem pediu silêncio. Depois de mais algumas polêmicas, o homem encerrou a reunião. Saímos comentando o absurdo de pensarmos pelo lado da empresa. Eu estava naquela estatal há oito anos, já havia passado por duas empresas e duas cooperativas. A empresa que eu estava atualmente, era a terceira, que por sua vez, também participava da “concorrência”. Quando a empresa perdia a concorrência, o funcionário tinha de pedir a demissão, para permanecer prestando serviços na estatal, ou seja, a empresa saía, mas o funcionário continuava. O processo era como uma corrida e os boatos, a rádio peão, também corriam. Uns falavam uma coisa, 6


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outros falavam outra coisa; uns estavam mais ou menos informados, outros nem tanto. Cinco empresas estavam no páreo, incluindo a que trabalhávamos. Eu particularmente, “torcia” para a empresa atual, mas, pensava também que se fosse pelas novas diretrizes, qualquer empresa iria procurar se ajustar aos padrões. As coisas já estavam meio esquisitas no ambiente de trabalho. Estavam cortando as “regalias” aos poucos. Primeiro cortaram Orkut, depois, MSN e ultimamente a Internet. Se não dava nenhum “pau”, ficávamos o dia todo olhando um para a cara do outro. Os mais espertos, que tinham as melhores máquinas, assistiam um “filminho” ou ouviam música e os coitados que tinham aquelas “velharias”, ficavam feito bestas o dia todo. Tínhamos dois supervisores: um era administrativo e o outro era técnico. O administrativo era o “risadinha”: tapinha nas costas, soltava uma piadinha; vamos chamá-lo aqui de Nilton. O outro era sério gostava de tudo certinho: era o Reinaldo. E os boatos continuavam: — “Você soube da última? Não! Essa empresa que “a gente” tá trabalhando tá em quinto na disputa! — Tem uma multinacional que tá em primeiro. — Tem mais, o Nilton vai para outra empresa, já recebeu proposta e o Reinaldo será o nosso chefe, tanto técnico, quanto administrativo”. Pensei: — Legal, eu prefiro o Reinaldo. Certo dia, fui falar com o Reinaldo: — Hoje, não, Genildo, me procure amanhã pela manhã. No outro dia lá estava eu em frente ao quarto bloco, piso térreo. E os colegas passavam, olhavam, uns “FDP”s falavam: 7


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— O que você está fazendo aqui, volta pro seu setor, aqui não é sua área. De fato ali não era a minha área, mas poderia vir a ser. Olhei pela janela e não vi o Reinaldo, entrei no bloco e fui até a mesa de um colega e perguntei: — E o Reinaldo, você o viu hoje? — Até você tá procurando o Reinaldo? Tá todo mundo atrás dele, vai ser meio difícil. Finalmente o Reinaldo apareceu. Resolveu conversar comigo fora do bloco: — E aí, Genildo, tudo bem? — Quase tudo — respondi — Mas podemos melhorar. — O que você manda? — “Que é isso, eu não mando, eu peço. Sabe, não me leve a mal é que está rolando uns boatos por aí; que já tem ganhador da concorrência e você será uma espécie de superchefe, é verdade? — Bem eu não gosto deste negócio de boatos, mas realmente eu já fui “sondado” e as negociações estão avançadas. Mas nós viemos aqui falar de você, pode falar. — Pois é, Reinaldo, eu já estou aqui faz um tempo e nunca tive uma oportunidade. Não quero nada forçado e nada que eu não possa realizar. Eu tenho curso de CCNA, não tenho certificação, a faculdade também parei; pudera, entrando seis da manhã, como posso fazer faculdade morando em Ferraz? Eu fiquei sabendo que vai ter horário da madrugada no suporte, se você me der uma oportunidade, prometo que não vou decepcioná-lo. — Pode contar comigo, mas, eu vou cobrar; eu te coloco no suporte, mas, você tem que voltar pra faculda8


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de e ir atrás de uma certificação. — Verdade? Fico muito grato. — Aguarde daqui há alguns dias, vou “preparar o terreno” e te chamo, mas, por enquanto, não comente nada com ninguém, senão vai ter um monte de gente no meu pé. Terminamos a conversa e eu voltei para o meu setor como se tivesse ganho na loteria, não me aguentava de contentamento. Quando entrei na sala a “preposta”, sim, preposta: era uma mulher, aliás, uma “menina”, tinha 28 anos: Sabrina, perguntou: — Onde você estava? — Falando com o Reinaldo — respondi. — Sei não, você e o Reinaldo ultimamente... — É... estão muito amiguinhos — um “bedelho” observou. Para disfarçar respondi: — Comida de rabo, o que mais poderia ser? — Você veio neste fim de semana, retirar as fibras? — Não. — respondi. — Tá explicado. Acho que acreditaram na minha “mentira”. Bem, eu estava seguindo o que o Reinaldo me pediu. Fui para a sala de equipamentos, que é uma sala gelada, trânsito restrito e liguei para minha esposa: — Amor, deu certo, o Reinaldo prometeu me transferir e pediu que eu não contasse nada para ninguém. Só pediu que eu aguardasse um pouco. Minha esposa ficou muito contente e após falarmos mais algumas coisas, desligamos. 9


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E os dias se passaram e o negócio se concretizou. Vocês não têm noção como foram aqueles dias. Se eu tivesse úlcera, teria estourado. Acho que se passaram quinze dias, até que numa tarde de quinta-feira, o Reinaldo entrou na nossa sala. Ele já havia conversado com todo o suporte, só faltava mesmo o nosso setor TP; Teleprocessamento. Ele puxou uma cadeira e perguntou se todos estavam presentes, pois tivemos que esperar pelo turno da tarde 15h00 às 23h30, respondemos que sim, então ele começou: — Desculpem se deixei vocês por último. É que o suporte é um setor maior e tive que acertar muita coisa por lá. Temos novidades: por exemplo, quem fazia serviço de técnico, daqui pra frente, não será apenas técnico, fará também administrativo e vice-versa. Olhei para o lado dos técnicos, notei que alguns colegas torceram o nariz, olhei para o administrativo e percebi caras amarradas. Ele continuou: — Têm mais surpresas: teremos funcionário daqui que vai para outro setor e haverá novas contratações. Terça-feira que vem, por exemplo, o Genildo irá para o suporte. Neste momento percebi que o “bedelho”, o Rubens, ficou “fudido”. Me fuzilou com o olhar e observou: — “Porra”, meu, eu sou o último a saber das coisas. Vem cá, Reinaldo, por que você pediu pra mim, é assim mesmo que ele se expressa, fazer essa planilha de horário com o nome do Genildo e esse “baixinho” filho da mãe não me falou nada. — Eu pedi para o Genildo não comentar nada. Então o Reinaldo finalizou: — Pessoal, era isso que eu tinha para dizer. 10


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A Pâmela interrompeu: — Eu não vou fazer serviço de técnico, não tem nada a ver comigo. — Se vocês tiverem alguma sugestão é só me procurar. — O Reinaldo concluiu e quando levantou-se da cadeira, pediu-me que o acompanhasse, pois iria me apresentar para o pessoal do suporte. Notei que noventa e nove por cento dos participantes me olharam com olhares diferentes. Misto de raiva e inveja, os piores sentimentos do mundo, só faltava a falsidade, aliás, esses três sentimentos pairavam sempre pelo ar. O Silvio, um colega do turno da tarde, que era técnico, também não gostou da ideia de ter que fazer serviços administrativos. Ele ficou com a cara amarrada o tempo todo.Lembro-me de ter ouvido, durante a reunião, quando ele questionou por que teria que fazer serviços administrativos e o chefe respondeu que isso era uma determinação da empresa. Assim que o chefe levantou-se para retirar-se da sala, o Silvio pegou uma folha de sulfite em branco e entrou para a sala dos equipamentos. Fomos então, eu e o Reinaldo, para o suporte, e lá, senti uma sensação esquisita, como eu não fosse bem vindo ali; pela maneira como fui recebido. Só três pessoas me motivaram a pensar diferente: a Janaina, que era líder da equipe, gente finíssima, uma espécie de mãezona para a turma, a Regina, uma moça muito legal e o Rômulo que me recebeu de braços abertos; quanto aos demais, é melhor não comentar. Quando retornei para o TP, o Silvio, ainda estava na sala de equipamentos, redigindo uma carta; dirigi-me até ele: 11


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— E aí, Silvião, legal? — Indaguei, como quem está mais interessado na carta. — Não, Gê, não tá nada legal. — Respondeu-me. — Estou pedindo minha demissão. — Caraca!Você tem certeza? — Sim, não tem outro jeito. Eu sou técnico; além do mais, não preciso nem te falar, não vou com a cara de muita gente aí. — Pense bem, Silvio, com um pouco de jogo de cintura “a gente” consegue as coisas. — Respondi-lhe. — Olha Gê, eu já sabia mais ou menos o que o Reinaldo iria falar, para mim não dá, há alguns dias atrás, eu discuti com uma dessas meninas e as outras se viraram contra mim. Agora vem essa notícia de que eu tenho que trabalhar com elas. Não vou e acabou, não estou morrendo de fome. — Você está de cabeça quente. Por que você não deixa para amanhã. Pense melhor, depois do expediente, depois de uma boa noite de sono. Não vai ficar a noite toda martelando isso. Amanhã é um outro dia e você verá que é bobagem, vai nos deixar? Pense bem, você já está aqui há muito tempo, a gente se conhece há mais de oito anos e tem gente aí que está há um, dois anos, você vai deixar se levar por isso? — Não adianta, Gê, já tomei minha decisão. A carta já está pronta e vou entregá-la para o Reinaldo. — Bem, a decisão é sua, saiba que eu te considero e sinto muito por isso. — Finalizei. O Silvio era um cara “fechadão”, sério, não era muito chegado a brincadeiras. A pessoa tinha que saber brincar com ele, senão, ele fechava a cara. Bem sucedido, estudava 12


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na USP, tinha um apartamento no centro de São Paulo e outro em Osasco, próximo ao local onde trabalhávamos, solteiro, tinha mais ou menos minha idade, 44 anos, à época; sem vícios, deveria ter uma quantia razoável guardada, pois pelo seu jeito, notava-se que ele não era extravagante. Depois de alguns desentendimentos com as mulheres do nosso setor; havia três mulheres: uma casada e duas solteiras. Cheguei a pensar que o Silvio era homossexual; em alguns capítulos mais adiante, vamos conhecê-lo melhor. Será que eu e mais algumas pessoas, estávamos enganados? Meu expediente terminava às 15h00, como fui além, por causa da reunião, perdi o fretado, então o Rubens me ofereceu carona. Havia um ônibus fretado, pago pela empresa em que nós éramos contratados; embarcávamos na frente da estatal, onde prestávamos serviço e o ônibus, nos deixava no metrô Barra Funda. Mas esse fretado tinha horários e o que eu utilizava, partia dali às 15h10, depois o próximo, só às 17h00, então eu aceitei a carona do colega, mas sei que ele queria saber mais detalhes da minha transferência para o Suporte. Eu sei que ele ficou “puto”, pois alguns dos técnicos já estavam de saco cheio do TP, há algum tempo. Aproveitei o trajeto, para dizer para ele não ficar chateado, pois o chefe me pediu que não comentasse nada com ninguém. Com toda “sinceridade do mundo”, ele me respondeu que não estava chateado, mas que ele também iria pedir, pelo menos para ir para a madrugada. Pensei comigo: — “Se ele não conseguir mudar de setor, ao menos muda de horário”. Que inveja da “porra”. Na sexta-feira, trabalhei em clima de festa e de despedida. Estava muito contente, finalmente poderia voltar 13


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para a faculdade. Havia uma “tradição”, lá no nosso setor: quando o funcionário entrava, no primeiro pagamento, ele tinha que pagar sorvete; aniversário, então como eu fui transferido, tive que pagar sorvete. Funcionava assim: ligava-se para a sorveteria e o sorvete era entregue naqueles potes grandes, lá na portaria. Quando o sorvete chegava, uma das recepcionistas ligava e a pessoa descia para buscar. Em cada prédio, havia uma copa, se o setor quisesse que todos participassem, para detonar o sorvete, era só pôr na copa, senão, fazia como nós, colocávamos numa mesa no nosso setor. Nós agíamos assim, porque havia potes menores e nosso setor era pequeno, logo, pedíamos potes menores e “devorávamos” entre nós. Eu não tinha do que me queixar. O ambiente de trabalho era agradável, tranquilo. Fico pensando por que algumas pessoas reclamavam! Tem gente que nunca está contente com nada. Havia uns invejosos; não estou me referindo apenas ao meu setor. Quando fui contratado em 2000, entrei com PJ (Pessoa Jurídica). Tinha que emitir nota fiscal todo mês, pagar contador, etc. Em 2006, a empresa que estava desde 2002, resolveu nos registrar, reduziu o salário, que ficou razoável. E certos indivíduos, ficavam sabendo quanto os técnicos contratados em 2000, ganhavam, daí a dor de cotovelo, sim, pois, havia funcionários que ganhavam menos, outros mais; disparidades. A culpa não era minha. Quando citei o termo “de saco cheio”, no meu caso era porque não saía daquilo, sempre a mesma coisa, mas o resto para mim , estava legal. Havia umas situações, e sempre há, que não me agradavam, mas daí eu ficar reclamando, isso não. Por exem14


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plo, eu pedia transferência para outro setor, justamente para poder voltar a estudar. Morava em Ferraz, trabalhava em Osasco, entrava às 6h00. Imagine, desde 2000 que eu acordava às 3h20, de terça à sábado, vocês não têm ideia de quantos e-mails já mandei para a companhia de trens, por atrasos, por incompetência e as respostas são as mais esdrúxulas; não sei se dou risadas ou se falo palavrões. Se eu lembrar, vou copiar uma das respostas e colar aqui, para que os senhores leitores também possam sorrir ou bufar como faço muitas vezes. Bom, voltando ao meu caso, como disse anteriormente, havia umas situações. Em 2004, mudei-me para Osasco, contra a vontade da minha esposa. Nossa casa, em Ferraz tinha 3 quartos, 2 suítes 1 com hidro, sala com 2 ambientes, garagem para 3 carros, um grande quintal para os nossos filhos: temos 1 menino e uma menina. Deixei essa casa, para morar numa casa em Osasco, que mal cabia nossos móveis: a mesa da sala de jantar, para 10 cadeiras, coloquei na sala e os sofás, coloquei numa varandinha ao lado; sorte que tinha vidro, senão iria molhar tudo. Para que a cama coubesse no quarto do casal e mais os dois guarda-roupas, tive que serrar a cama. Minha sorte, será? que sou baixinho: 1,58. Esta casa de Osasco, tinha 2 quartos, sala, cozinha e banheiro, que não era nem a metade do banheiro social lá da casa de Ferraz. A cozinha era menor que a nossa suíte, por isso, tivemos que deixar algumas coisas na área de serviço. A garagem para apenas 1 carro, e quando nós chegávamos com compras todo mundo sabia que fomos fazê-las. Na garagem de Ferraz, não; eu entrava de frente, manobrava no quintal e estacionava de ré, retirava as coisas do 15


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