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Curimatê Um ensaio sobre a tolerância



Curimatê Um ensaio sobre a tolerância

Maurício Cerqueira Lima

São Paulo – 2015


Copyright © 2015 by Editora Baraúna SE Ltda.

Jacilene Moraes

Capa

Diagramação Camila C. Morais Revisão

Natália Silveira

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ L699c Lima, Maurício Cerqueira Curimatê: um ensaio sobre a tolerância/Maurício Cerqueira Lima. - 1. ed. São Paulo: Baraúna, 2015. ISBN 978-85-437-0293-3 1. Romance brasileiro. I. Título. 15-20532 CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3 ________________________________________________________________ 03/03/2015 04/03/2015

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua da Quitanda, 139 – 3º andar CEP 01012-010 – Centro – São Paulo – SP Tel.: 11 3167.4261 www.EditoraBarauna.com.br Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem a expressa autorização da Editora e do autor. Caso deseje utilizar esta obra para outros fins, entre em contato com a Editora.


Esclarecimento

Esta é uma obra de ficção livremente inspirada na verdadeira história do povo Mapuche, habitante da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina, também conhecidos como Araucanos. O personagem principal tem sua inspiração na história emocionante e verdadeira do índio chileno Lautaro. O cenário pode ser o da colonização espanhola das Américas entre os séculos XV e XVI, mas não houve um compromisso rigoroso com uma pesquisa histórica. Mesmo assim, foram respeitados alguns fatos para que a ficção não destoasse do contexto real. Muitas palavras do vocabulário Tupi-guarani da nação indígena existente no Brasil foram usadas por não estar disponível (pelo menos não ao alcance) ao idioma do povo Mapuche. A mitologia apresentada, bem como os costumes e tradições são, a maior parte, fictícias, embora


tenha havido inspiração em alguns dos mitos e crenças dos indígenas brasileiros. Curimatê é a história do homem em sua busca pela compreensão do significado da palavra liberdade, mas é também uma reflexão crítica sobre a tolerância. Maurício Cerqueira Lima, 10/04/2014


Para minha m達e Cleuza



Selvagem

Capítulo I

Tembérê correu por cima do grande tronco caído no chão, pulou pelo lado da pedra redonda e deu de cara com a capivara. Quase sem ação, o bicho voltou pelo caminho da ida, percorrendo as mesmas pegadas que deixou para trás. Tembérê deu três passos à esquerda, prendeu a respiração, esticou bem o arco apurando a pontaria e largou a flecha acertando-o bem no meio do pescoço. Respirou aliviado enquanto esperava a presa terminar de espernear e bradar. Encostou-se no tronco olhando a caça e sorriu orgulhoso. — Berra saguaçu1! Tembérê ainda não é homem, mas já caça e pesca. Seu nome significa lábio amigo, porque seu pai queria que ele sempre tivesse uma palavra de 1 Olho grande

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consolo para as pessoas. Na comunidade onde vive, algumas vezes, o nome que se dá ao filho não quer dizer nada, é apenas um som; outras o nome representa um desejo do pai, uma esperança. Assim era ele, filho de um guerreiro valioso, da tribo dos Ananuetê, povo valente que vivia ao longo do rio Ybaka, que quer dizer céu azul, mergulhado numa enorme mata que o abrigava e protegia. Curimatê, que também já é quase homem, chegou logo depois. Respirava forte por causa da corrida. — Cadê o bicho, pegou? Você sempre chega primeiro! Lamentou, deitando por terra, arco e flechas ao ver a capivara já abatida. Tembérê largou o arco e começou a procurar um galho forte para amarrar a caça e dividir o transporte do peso com o primo, consolando-o. — Existe uma caça para cada caçador Curimatê. Você não pegou essa, vai pegar outra. Somente peça a anhanga2 para que você seja sempre o caçador e não a caça. Inconsolável o rapaz pega uma tira de cipó forte e começa a ajudar a amarrar a capivara, jogando uma parte da corda por cima para fazer a alça que prenderia no galho. Tembérê sorriu como quem quer mudar de assunto, ajudando a unir as patas dianteiras do animal. — Vamos ter uma grande lua hoje. Muitas estrelas no céu e histórias do velho Nhutuperê. Queria que ele contasse aquela do grande Antã, o guerreiro que correu atrás da onça várias luas, até que ele mesmo se tornou uma estrela. 2

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Deusa que protege os animais e as plantas


Disse Tembérê procurando consolar o amigo, atendendo a expectativa do seu nome (lábio amigo). Disse isso sorrindo e olhando para o céu, como quem sai de si mesmo para percorrer o vazio do espaço. — Será que um dia eu serei um grande caçador? – perguntou Curimatê. Tembérê silenciou, continuando a amarrar a caça. Cruzou olhares com o primo e disse. — Você será um grande guerreiro, porque seu pai também foi. Os velhos contam que ele morreu lutando contra os homens que falam difícil, enquanto nosso povo corria rio acima. Você sabe, já te disseram. — Meu pai se chamava Conehó, que significa sucuri ligeira. O que quer dizer Curimatê, Tembérê? Por que meu pai me deu esse nome? Ninguém nunca me disse. — Vamos suspender o bicho até a pedra, de lá a gente pode colocar a carga nos ombros. Desconversou Tembérê. Andaram alguns metros. Um silêncio inquietante tomou conta do caminho. Dia quente com muita umidade no ar; cheiro de onça grande por perto, um cheiro amarelo e azedo de onça. Tembérê voltou a falar. — Já faz muito tempo que nosso povo vive em paz, sem lutar contra os homens amarelos ou com outros índios. Pararam para descansar no pé de uma colina breve. Deitaram a caça no chão enquanto procuravam um percurso menos penoso. Um suor quente desceu pela fronte de Curimatê, que passava o dorso da mão nos olhos. Tembérê continuou a falar. — Nosso povo já teve que lutar muito, nessa terra em que nossos pais caçaram e antes deles nossos avós e 11


antes ainda todos os velhos que já se foram, formando as estrelas do céu que nos cobre e as grandes árvores que nos abrigam. Sou um pouco mais velho do que você e já vi o medo nos homens. Fez uma breve pausa olhando o vazio. — Curimatê quer dizer aquele que resiste, como uma grande árvore ou um rio que não seca, ou aquele que não se pode domar. Arrematou. Retomaram o fardo e iniciaram a subida lentamente, como quem prevê o cansaço do esforço que iriam fazer. Um vento forte começou a soprar contra o caminho, como quem pretende dificultar a jornada. Os índios apertaram os olhos para continuar a jornada. Tembérê prossegue dizendo. — Meu pai, irmão do seu pai, me disse que uma grande tempestade aconteceu sobre o nosso povo. Muitos guerreiros morreram. Homens de roupa colorida e da língua difícil chegaram do grande mar, fazendo Tupã-cinunga3. Seu pai foi um dos grandes guerreiros que venceu esses invasores. Ele disse ao meu pai que queria ver seu filho um guerreiro resistente, para proteger o nosso povo. A subida, embora aparentasse ser breve, revelou-se extenuante por conta do peso do animal. Os ombros dos rapazes doíam, obrigando-os a parar com poucos metros para mudar a posição da carga. O vento acalmou como quem perdoa, como quem quer ajudar. Tembérê continua com voz pacífica. 3 Som do trovão (Tu-pá, Tu-pã ou Tu-pana, golpe/baque estrondante), um efeito cuja causa o índio desconhecia e, por isso mesmo, temia.

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— Mas ser guerreiro apenas não é o bastante. Um índio luta, resiste, consegue vencer o inimigo, mas é preciso mais, é preciso ser Antã para enfrentar o que pode acontecer amanhã, se o nosso lugar for invadido e perdermos as mulheres, os velhos, as crianças, a liberdade, a terra e tudo o que temos de sagrado. Tembérê parou um instante de andar e de falar. Já tinham atingido o alto da colina. Vislumbraram o vale por completo. Ao fundo era possível ver uma parte do povo em seus afazeres, enquanto crianças brincavam e corriam. Mais uma vez deitaram a caça no chão. Curimatê apertou um dos ombros que doía por causa do peso que carregava. Tembérê voltou a falar. — Curimatê também quer dizer selvagem. Aquele que não se pode domar nem submeter. Esse é o seu nome. Prosseguiram em silêncio na caminhada em direção à aldeia que nascera num vale cercado de árvores grandes, numa mata imensa que não se podia ver o fim. Acompanhando o mesmo sentido, o rio corre largo e abundante. O vento parou sua jornada e do céu cai uma fina camada de água que faz surgir no horizonte um arco íris não muito definido, porque o sol estava encoberto por muitas nuvens. Os raios solares parecem ficar presos nas gotas de água formando uma espécie de nuvem sobre a terra. As grandes árvores que circundam o perímetro com seus frutos pendentes dão uma sombra pródiga, tornando o clima mais agradável com a certeza de que ali a vida palpitava. Nesse cenário eles retomam a jornada carregando uma capivara enorme, quase do tamanho de um homem. Curimatê, pensativo, se conduzia maquinalmente pelo 13


caminho, com a carga nos ombros e um peso maior ainda em sua mente. Quando chega a caça, as mulheres tomam os seus cuidados para aprontar a comida, junto com raízes e farinhas. Ucuíty é o indiozinho que vem correndo alegre, acompanhando Curimatê, pulando e gritando: — Quem pegou? Quem Pegou? Quem Pegou? — Tembérê. — respondeu Curimatê. — Como foi, flecha ou Mundé?4— Flecha. — Quantas? — Uma. — Uma? Fez uma breve pausa de espanto. — E você, fez o quê? — Carreguei. — Chegou depois, né? — Cheguei. — Saia mais cedo quando for caçar com Tembérê, assim você chega junto com ele. — Eu saí cedo. Ele corre mais. Ucuíty vá subir numa árvore. — Disse Curimatê, já impaciente. O menino saiu sorridente. Há um clima de festa na aldeia. A lua vai estar cheia e a caça foi boa para os guerreiros, vai haver dança e cantigas pela noite. Os indiozinhos estão felizes porque a cada 4 Pedra escorada por pequenas traves entalhadas, a guisa de arapuca; a isca fica espetada na vareta que deslocada, faz desabar a laje, esmagando a caça. Anotamos dois tipos de mundé: um menor, para animais pequenos (roedores, etc.) e um grande utilizado para matar raposas, gatos, guaxinins.

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ocasião dessas, eles aprendem os segredos da selva através das histórias dos velhos e assim podem andar pelo mato sem medo. Curimatê vai descansar sentado numa esteira, olhando o movimento das pessoas e dali mesmo seu espírito viaja: vai com as ararajubas e os bicudos, deslizando pelo azul e entre as árvores, como quem homenageia a liberdade. Aqueles índios acreditavam que Nhanderuvuçu5 tinha criado o céu, a terra e o resto das coisas, inclusive o primeiro homem Nham, e a primeira mulher Apapuâ, mas eles se apaixonaram e logo se uniram, ficando todo o tempo olhando um para o outro, tal era a beleza de ambos. Passavam assim todo o dia e nem ofereciam uma farinha ou umas frutas a Nhanderuvuçu no altar dos livramentos. Por isso Nhanderuvuçu ficou furioso e resolveu dividir a vida em duas: a vida da terra e a vida das águas, foi quando criou o rio que corre por dentro do vale. Ali lançou a mulher, condenando-a a viver comendo apenas peixe e separada do homem. Quanto a ele, obrigou-o a caçar e pescar para sobreviver, podia ver a mulher dentro da água, mas não tocá-la. Um dia Nhanderuvuçu resolveu perdoar o casal e fez o arco-íris para enfeitar o céu, unindo a luz e a água. Desde então a mulher pôde sair da água e toda criança que nascia saía também da água de dentro da barriga da sua mãe. Essa a maior celebração da vida, que foi assim feita para que os homens jamais se esqueçam do perdão de Nhanderuvuçu. O Altar dos Livramentos era o lugar onde se colocavam oferendas ao criador de todas as coisas, como forma de agradecimento por ele ter voltado a reunir o homem e 5 Deus.

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