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Chico e seu estado de espĂ­rito


Chico e seu estado de espírito

José Francisco Ferraz Luz

São Paulo 2011


Copyright © 2011 by Editora Baraúna SE Ltda Capa e Projeto Gráfico Aline Benitez Revisão Rita Rocha Contato com o autor: josefranciscoferrazluz@adv.oabsp.org.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ L994c

Luz, José Francisco Ferraz Chico e seu estado de espírito / José Francisco Ferraz Luz. - São Paulo : Baraúna, 2011. ISBN 978-85-7923-258-9 1. Ficção brasileira. I. Título. 11-0851.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

14.02.11 14.02.11

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Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua João Cachoeira, 632, cj.11 CEP 04535-002 Itaim Bibi São Paulo SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Sumário Alcoolismo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Arte. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 Capital e Trabalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Carnaval. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Casamento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Como conviver com um idiota. . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Desvendando o Xadrez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25 O que é Dignidade?. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 Discurso. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31 Erotismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 Fonógrafo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 Fraternidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 Genealogia dos Ferraz Luz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45 Glória. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 Herança. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 Que História é Essa?. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57 Homenagem ao Payão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 Biografia de meu Pai. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63 Idiota. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67 Igualdade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69 Jesus. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 71 Leitura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75 Liberdade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77


O Mestre da Discrição. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83 A Morte. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85 Museu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 Nossa Iniciação é um Nascimento?. . . . . . . . . . . . . . . 91 As Notas Musicais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95 O que a Virtude une a Morte não Separa. . . . . . . . . . 97 Oito de Março. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 99 Profano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101 O Relógio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103 Renúncia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107 Revolução Constitucionalista de 1932. . . . . . . . . . . 109 Por que houve a Revolução?. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 A Revolução Paulista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117 Ritual. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123 O Sagrado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125 Santo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127 São Paulo — 452 anos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131 Saúde. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139 O Segredo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 141 Sete de Setembro. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143 Sinopse da Torá . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147 Sobretudo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165 Vida. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 169 Zaqueu. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171


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Alcoolismo O alcoolismo é uma doença. Sua virose e seu uso são incentivados pela sociedade, por meio da mídia. O costume do álcool é que provoca a doença do alcoólatra. Ingerido habitualmente, passa a viciá-lo. Mas o alcoólatra não se admite como tal, porque se defende como usuário social. Entretanto, por experiência própria, digo que o alcoólatra é aquele que procura uma atividade social, não pela satisfação do evento, mas para um subterfúgio da ingestão etílica, justificando seu trago como uma saborosa degustação. Nas festas de aniversário, por exemplo, os convidados que gostam de beber só vão embora quando cessa a oferta do líquido inebriante. Não vejo, salve raríssimas exceções, alguém ficar no primeiro trago, na primeira taça ou dose. Quanto mais bêbado estiver o alcoólatra, mais ele quer ser servido, a começar pelo chorinho na dose, terminando com a saideira. Além do mal que causa a si próprio, ainda sugere aos menos avisados que é só um brinde. Mas o exemplo fica no superficial, os imitadores não sabem que a bebida mexe com o emocional, provocará o enjoo, e irá fazê-lo adormecer, que causará dor de cabeça, tontura e não será prazeroso como parece ao insinuador.

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É lamentável aos convivas o show que o ébrio promove na roda de amigos. O que lhe parece alegria é, na verdade, reação do que a propaganda prega. Embora sejam várias as fases do alcoolismo, o paciente não fica suscetível só a essa doença. Ele vai, com o tempo, dependendo da predisposição, sofrer de mal hepático, amnésia, encefalite, entre outras. Embora tudo pareça acontecer a longo prazo, o certo é que a ingestão diária, por si só, já é uma doença, embora não surja de imediato nenhuma dessas anomalias. Essa doença não é contagiosa, porém é contagiante pela propaganda enganosa, pela insistência da indústria de bebidas, pelo exemplo do “bom-humor” e da desinibição que os tímidos necessitam para dar os primeiros passos em suas iniciativas. Não é à toa que, nos lançamentos comerciais, leilões etc. se oferece bebida farta aos convidados, que acabam comprando gato por lebre. Quem toma consciência da própria dor quer se livrar da doença, mas muitas vezes não tem força de vontade. Procuram uma clínica, uma ONG, associações. E, quando conseguem “se curar”, tornam-se presa fácil de uma recaída, caso não sejam vigilantes, pois não existe cura, ela reside na psique do doente, que luta pela não-reincidência. O curioso dessa doença é que a quantidade que se ingere inicialmente é muito maior do que na convalescença, quando uma dose é o suficiente para deformar sua compostura. Isso mostra que não é a quantidade que faz a dependência, mas a sua ingestão cotidiana. Quem tiver dúvidas sobre a bebida, deve consultar A Bíblia em Provérbios e verá que o que digo não é novidade.

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Houve um presidente que vivia da bebida inebriante, e, quando indagado do por quê de seu hábito, respondeu com sua verve prolixa que “bebia porque é líquido, se fosse sólido comê-lo-ia”. Por fim, renunciou ao mandato, mas não à bebida. Como diz o caboclo na moda de viola, “é a marvada da pinga que me atrapaia!”.

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Arte A Arte é a expressão sensorial, manifestada através dos meios de comunicação. Ela pode ser concreta quando se revela por si só, pela interpretação lógica e cognitiva, ou abstrata, se depender do particular ponto de vista ou da sugestão subliminar. Como expressão sensorial, ela se manifesta preliminarmente através da audição. Porém, se não for esse o canal, passa pelo da visão. Às vezes, pela conjugação de ambos, simultaneamente, ou através do tato e da visão e, dependendo da arte, pela união da visão, audição, tato e paladar. A mais excelsa das manifestações é aquela que toca o sexto sentido, o espiritual. E, para alcançá-la, mister se faz passar pelos sentidos anteriores. O virtuoso é justamente aquele que consegue, através do dom, alcançar o sexto sentido, não só na sua execução como também na dos que o apreciam, quer sejam os artistas ou as artes. Por isso, a Arte é a revelação do espírito que consegue ocultar os mistérios das coisas. Consegue fazer do vidente normal um supernormal, onde a concepção da vida ordinária não alcança. É preciso dizer, através da paixão, algo que a indiferença nos diz no cotidiano. A Arte busca a unificação de todos os aspectos materiais da as-

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censão espiritual, iluminar com a luz sensitiva da terceira dimensão, na busca do seu ponto de fuga. Quando Miguel Ângelo pode dizer à sua escultura “Fale”, quando o surdo Beethoven conseguiu compor a Quinta Sinfonia, quando Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, conseguiu expor o seu Anjo Barroco ou os Profetas em pedra-sabão, tudo volta a ser mistério, que a alma pequena não consegue compreender. Como diria Fernando Pessoa, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Portanto, a Arte empresta sua razão de ser a todos os campos, até mesmo na arte de viver. Nós a buscamos nas relações pessoais, na natureza e na cultura em geral como meio de conjugá-la com a vida espiritual para responder a todos os nossos anseios.

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Capital e Trabalho O Capital é propriedade de D´us, que Criou todas as coisas (Gên. 1). O Trabalho é um Decreto Divino (Gên. 13,19). Vivíamos num Paraíso, no convívio de toda a Criação. Mas pecamos quando nos apropriamos do Próprio D´Ele. Essa apropriação indevida causou inveja, exploração do próximo, desrespeito ao trabalho do pastoreio, do agricultor, do artesão, do guardião e, enfim, a escravização. O Capital era a exploração do trabalho sem escambo, fazendo escravo do poder, que permitia o domínio da propriedade Divina como se sua fosse, desde o chão em que estava pisando até aquele avistado no horizonte, dizendo para si e para os seus dominados ser de sua propriedade o Próprio (que é de D´us). Essa ganância fazia o poderoso reinar e, à medida em que se fortalecia, através da sua milícia, invadia os acampamentos dos pastoreios e agricultores, fazendo-os reféns de seu domínio. Eram guerras de dominação. O Rei então fazia concessões para a aristocracia e a milícia à medida em que administrava o poder. Com a cunhagem do vil metal, passou-se a remunerar o trabalho de acordo com sua escassez e a produção de acordo com suas necessidades. Mas o poder taxava e im-

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punha comissão sobre o trabalho, a produção e a ocupação do solo e esse imposto não tinha limites, era cobrado de acordo com as necessidades e da vaidade do soberano. Seu poder, valorizado pela cunhagem da moeda, comprava os deuses e seus sacerdotes, remunerava com soldo sua milícia, atendendo toda a pirâmide do seu reinado. Mas os que estavam fora da corte tinham de fazer da vida doméstica meios de sobrevivência frente ao poder. A solução era a procriação como fonte de mão-de-obra. Criava-se, assim, a prole, a classe dos proletários, que viviam do trabalho mal remunerado, o que os motivava a ter mais filhos para aquinhoar um sal maior para sua comida. Era o salário, pagamento do trabalho. Surgiram então os artesãos, que satisfaziam a luxúria do poder, a oferenda dos crentes e os municiadores do capital através da arte. Eram os patrimônios artísticos e culturais dos cortesãos. Havia também aqueles que viviam do ócio: os que pensavam, meditavam, filosofavam mas não tinham soldo ou salário, nem praticavam o escambo. Entretanto, suas manifestações modificavam o mundo, criavam teses, inventavam instrumentos, defendiam pontos de vistas contraditórios a ponto de morrerem pelas ideias concebidas. Eram os defensores do Capital e do Trabalho. A propósito, nada melhor do que recordar Jean de La Fontaine e sua fábula da cigarra e da formiga. A cigarra, após ter cantado todo o verão, esqueceu-se de trabalhar pelo seu sustento no inverno. Foi então pedir socorro à formiga, que tinha o defeito de não gastar nem emprestar, mas somente juntar. Mas a cigarra propôs-se

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a pagar os juros e o capital, mas ouviu como resposta “já que cantavas, agora dance”. É a máxima que diz “quem pode manda, quem tem juízo obedece”. Ou seja, o capitalista manda o subserviente trabalhar. O Capital não é só o patrimônio, mas é também o trabalho em forma de investimento do capital, e o PIB de uma nação é calculado, entre outros fatores, de acordo com a produção, no trabalho que gera o manufaturado. Hoje, solidificada a instituição da propriedade, cai por terra a teoria da Propriedade Divina. Estamos num processo irreversível, porém, o trabalho não pode ser desvirtuado, pois continua sendo uma virtude que leva o homem, por meio dele, a elevar sua alma a D´us.

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