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Cรกtila


Nadia Alves

Cรกtila Sรฃo Paulo 2013


Copyright © 2013 by Editora Baraúna SE Ltda Capa e Projeto Gráfico Aline Benitez Revisão Cristiane Martini Diagramação Monica Rodrigues

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________

A481c

Alves, Nadia Cátila/ Nadia Alves. - São Paulo: Baraúna, 2013. ISBN 978-85-7923-686-0 1. Romance brasileiro. I. Título 13-1268.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

28.02.13 01.03.13

043108

________________________________________________________________ Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br

Rua da Glória, 246 — 3º andar CEP 01510-000 — Liberdade — São Paulo - SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Agradecimentos

Por toda a ajuda e incentivo, sou muito grata às seguintes pessoas: Ao meu marido e meus filhos por tolerar minhas ausências. Às minhas amigas Margareth de Godoi e Margareth Padilha Simões, pela paciência e exaustivas conversas. A Wagner Ramos de Quadros por também “viajar” na ideia.


Século XX 8h - Manhã de novembro

Ao longe vejo algumas placas de restaurantes, cafés, e outra lá no céu bem grande, pintada de preto em fundo branco, com as significativas palavras: “Bem vindo ao Pináculo Santa Fé”. Realmente é uma sorte que poucos têm. Muitos viverão muitas vidas para conseguir chegar aqui... Eu, sentado dentro do meu carro confortável, esperando na porta do Serviço de Água e Esgoto, porque abriram um buraco imenso em frente ao meu casarão, bem onde há a única passagem para carros. Lembro-me agora de meu tio dizendo que distração de alguns é ficar sentado no muro vendo os outros caírem numa rua de lama em dia de feira. (É hilário, porém depressivo o antagonismo que nos cerca...). Pináculo Santa Fé está longe de ser um lugar místico como o Tibet, Mongólia e Índia, mas encontra-se por aqui muitos visionários, bruxos, gurus etc... Terra prometida... talvez. Poderia citar inúmeras pessoas que acreditaram nisso, mas hoje limito-me ver a questão como mero expectador. Cátila  7


Depois de ter resolvido o problema do buraco na rua, que foi fechado, percebi que não adiantou muito a reclamação, porque a rua não é asfaltada e choveu no mesmo dia, e eu fiquei ilhado no final de semana, não podendo ir às minhas frequentes reuniões na “Comunidade Alfa”. Passei o domingo jogando xadrez com o meu amigo e vizinho. Por volta das 20h Washington recebeu a visita da missionária Maria Nepomuceno, mulher gorda, antipática e decidida. Meu amigo fazia parte de outra Comunidade, e embora não fosse permitido, mesmo assim éramos amigos. Quando ele me apresentou à missionária, fui obrigado a mentir dizendo que eu também fazia parte da Comunidade Angular Reestruturada, de uma outra cidade. Sabíamos as regras, entendíamos a lei, e por isso foi uma mentira válida diante das circunstâncias. Limitei-me a ouvir a conversa, sem dela participar, para não revelar a ignorância dos fatos. Ela olhava-me fundo. Parecia saber, parecia desconfiar e, conforme narrava alguns casos, olhava-me de esguelha como se esperasse um sinal, um olhar desconcertado, para enfim flagrar-me na mentira. Washington, percebendo a situação, interrompeu-lhe a narrativa, servindo chá e biscoitos, e ela sucumbiu pelo estômago, esquecendo-se por completo de sua mirabolante história de fé e de coragem. Fui salvo pelo estômago, pois daí em diante passamos à troca de receitas e maneiras diversas de fazer chá, algo que sabíamos e fazíamos em comum. (É incrível que mesmo nas atropeladas divergências temos sempre sutilezas em comum, graças ao bom Deus).

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O tempo das chuvas começara... Retomávamos o cotidiano após as festas de fim de ano. Dias ensolarados com finais de tardes sombrios — essa era a característica das montanhas. Washington, meu amigo, sentia-se muito deprimido. Também pudera: era só, mesmo participando assiduamente em sua Comunidade, ainda assim faltava-lhe a família, pais e irmãos. Nunca me contou como foi a irreparável perda dos seus, mas eu podia perceber em seus olhos a distância entre sua alma melancólica e seu corpo. Eu tinha a visão, podia ver através da alma, distinguindo sempre a lucidez da loucura humana. O que quebrava esta letargia era as minhas visitas políticas e filosóficas à casa de Genésico Dantas, uma mistura de aristocrata do terceiro mundo, com algo de mago ou feiticeiro expulso do paraíso. Tipo misterioso, embora não o único no Pináculo Santa Fé, era o mais interessante de ser observado. Fui indicado pela Comunidade para visitá-lo. Não era bem o que gostava de fazer, era como se executasse um serviço sujo. Parecia-me espionagem em prol dos interesses comunitários. A princípio tive que parecer interessado em suas aulas. Acabei por adquirir uma certa confiança de Genésico Dantas, uma certa cumplicidade. Ensinava-me com desvelo, desde interpretação de sonhos, profecias, até exercícios de desdobramento, círculos mágicos, poder da mente, auto-realização etc... Meu vizinho — Washington — condenava radicalmente tais práticas, mas acabou cedendo e me acompanhando, sem poder ser visto nas reuniões de sexta-feira na casa do mago-aristocrata.

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Ficou perturbado na primeira reunião que presenciou. Não disse nada o meu amigo, em meio à palestra. Na saída, no carro, disse-me estupefato: — Você está louco, Dalmo? Este homem é louco! Sabe o que ele propôs? Tem ideia do que ele realmente é capaz? Ele diz ouvir os espíritos, conversar com os mortos! Afirma estar em dois lugares ao mesmo tempo! Como isso é possível? — Calma, Washington, não é bem assim... Você acredita em tudo? — Claro! Ele disse! — Não é porque ele disse que a coisa toda é verdade. — Está bem, onde você quer chegar, o que você pretende? — Assistir, meu caro amigo, este é o prazer real da vida. — Mas você não poderá sempre assistir. Ele quer nos testar, ele quer você. — Calma, Washington, vamos ver onde vai dar. Talvez não dê em nada, mas preciso ficar e saber ao certo quem ele é. — É um jogo perigoso. Você pode perder o pescoço, e eu posso perder o meu. — Vamos tomar uma xícara de chá. Quando você estiver calmo conversaremos mais a respeito. — Que frieza, Dalmo! Que frieza! Aliás, por falar em frieza, sua amiga Francis ligou. Disse que quer encontrá-lo. — Não posso, diga a ela que não posso. — Não acredito. Tão valente para algumas coisas e tão covarde nas coisas do coração. — Ora! Vejam quem fala! — Estou velho, mas você ainda pode.

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— Não, não posso. Ela fez sua escolha e eu a minha há muito tempo. — Nem tanto tempo assim... afinal, o que são dez anos? — Uma vida, meu caro, uma vida. Um dia triste de janeiro, Pináculo Santa Fé estava de luto... Dizia dona Dolores, proprietária da pensão “Casa da Noca”: — Quando o Diabo não vem, manda a Lau. Na verdade a cidade estava um pandemônio, gente chorando, lamentando, e outros correndo pela cidade para pagar as dívidas do defunto, dizendo sem constrangimento que o infeliz morrera em boa hora. “Sem dignidade” — diziam uns. “Deve ter se matado” — diziam outros. Ninguém sabia ao certo. A única coisa concreta que tínhamos era um morto em estado de putrefação devendo horrores ao banco. Muitos mistérios envolviam o caso, coisas que nunca saberemos, nem tampouco a família. Só uma coisa era certa — os controvertidos sentimentos que a morte provocara. Genésio Dantas tentou explicar a morte, passando a mão, com os olhos fechados, sobre o caixão. Disse que viu os dez últimos minutos do defunto, e então, abrindo os olhos num sobressalto, emendou apavorado: — Ele foi cortado! A Lei Divina o eliminou! Muitas pessoas ali presentes ficaram chocadas, olhando-o, e a mim, que o acompanhava, com um ar de incredulidade. Só concordaram com esta teoria os que foram logrados pelo defunto — podíamos ver em seus olhos que se a Lei Divina não o fizesse, eles o fariam.

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Tive a nítida impressão de que não estávamos em um enterro, e sim em uma execução. Parecia uma trágica comédia, onde um dos melhores amigos do morto chorava tanto que acabou distraído, sentando em cima de um formigueiro, sendo advertido por uma senhora dos seus setenta anos: — Moço, vai chorar ali, pois as formigas já estão em seu braço! Num ímpeto, o moço levantou-se batendo as mãos nas nádegas. Recompôs-se, olhou em volta e foi chorar em pé, debruçado numa mureta, lá ficando até a hora do sepultamento. Ouvimos casos inusitados no velório. Na hora da morte todos se comportam com igualdade, tal qual na hora da vida. Maria Nepomuceno não poderia deixar de estar presente fazendo suas virtuosas preces. O ser humano sempre se porta da mesma forma diante dos mistérios, perante o incognoscível. Foi o sepultamento mais interessante que assisti. Nos meus trinta e cinco anos de idade, nunca ouvi tantos casos e hipóteses a respeito do defunto. Na hora da última prece, fez-se um silêncio quase ecumênico. Uns pretendiam orar, outros rezar e alguns pulverizavam o salão com incenso e davam passes, como se o defunto não tivesse dono. Parecia um leilão de fé, até que Maria Nepomuceno levou a melhor quando, com sua sutileza mastodôntica, com o sotaque nordestino apelou para o Senhor dizendo: — Este morto é nosso e à terra ele pertence. Que sua alma vá aos céus e descanse em paz.

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Finalmente foi enterrado às 18h, rapidamente esquecido e nunca mais questionado. Semanas se passaram sem que nada mudasse. Permanecia a beleza indescritível das montanhas. A natureza era bondosa e a beleza imperava em Pináculo Santa Fé. O sol adentrava pelo quarto e a saudade de Francis apertava no meu peito. Lembrava-me de como foi belo o amor, como era belo o seu corpo que muitas vezes desfilava desnudo nos meus pensamentos. Num ímpeto peguei o telefone, mas sempre a razão era maior que a emoção, caindo por terra um reencontro. Assim permitia que o meu idealismo espiritual separasse tão intensa união. Bruscamente vesti minhas roupas, e saí batendo as portas, em busca de aventuras que só Pináculo Santa Fé poderia proporcionar-me. A caminho da cidade, após ter percorrido mais ou menos cinco quilômetros por caminhos sinuosos, dentro do mato, cheguei à praça central. Sentei para descansar, quando fui abordado por um senhor estranho de olhos azuis, fixos e estatelados, o qual me perguntou: — Você viu? Você sabe quem foi? Eu respondi mais do que depressa que não, mas o homem insistia e começava a falar mais alto, esbravejando: — Você viu o cachorro ou a cachorra que derrubou meu chapéu e jornal no chão? — Não, meu senhor! — respondi educadamente, hipnotizado por seus olhos azuis. — Você viu? Não minta! O cachorro ou a cachorra que derrubou meu chapéu e jornal no chão, quando eu, doente, venho a esta praça tomar o sol que Deus mandou a todos?

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Começou a juntar gente, pois o homem esbravejava e os seus olhos fixos penetravam em mim e sua voz quase me ensurdecia. Repetia várias vezes a mesma coisa, e de repente subiu num banco da praça, passando a gritar para a multidão, fitando-me fixamente e falando pausadamente: — Quem foi? O cachorro ou a cachorra que derrubou meu chapéu e jornal no chão! Fale, covarde, quem foi? Com o dedo inquiridor, e apontando para a multidão finalmente disse: — Quem foi o filho da puta? Em nome da Santa Madre Igreja, quem foi o cachorro ou a cachorra que derrubou meu chapéu e jornal no chão? Vou mandar prender e irá para o fogo do inferno. Fez-se um fúnebre silêncio, e então o homem desceu do banco, pegou o seu chapéu, jornal, e foi embora. Todos que ali estavam ficaram pasmos. Entreolhamo-nos com um ar de interrogação. De repente começamos a rir, quase que histericamente. Eu, que estava visivelmente nervoso, dei um suspiro de alívio e comentei com uma senhora que estava a meu lado: — Sanidade e loucura andam sempre juntas. Às vezes perdemos as rédeas e a razão pode fugir do controle... — É, e passamos por esta situação, completou a senhora, que parecia bem equilibrada. Pois bem. Parecia. Minutos depois começou a fazer cacoetes. Aparentemente entrando em depressão começou a chorar. Constatei então que aquele não era o meu dia. Saí da praça antes que fosse abordado por mais um maluco. Já tendo visto o suficiente por um dia, fui andar para acalmar-me. A uma distância de quinhentos metros da

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praça, em meio à multidão dispersa, quando pensei que estivesse a salvo, encontrei Aparecido Cruz, espumando pelo canto da boca. Pensei comigo — “Era só o que me faltava!”. Aparecido não deveria ser um nome e sim uma situação. Sua visão da vida era perturbada, caótica e apocalíptica. — Dalmo, você soube do incidente na praça? — Sim. — respondi sem nenhuma vontade. — Você sabia que o homem é totalmente desequilibrado porque foi expulso da Comunidade? — Não, não sabia. — Ouvi falar que ele era da Irmandade do Calvário. — Não sabia que também tinha esta aqui. — Pois é meu amigo. Ele agrediu um homem, acusando-o de ter derrubado seu chapéu e jornal no chão. Fim do mundo! Sempre digo, é o cataclisma! — Aparecido, será que foi isso mesmo que houve? — Foi, inclusive ele ofendeu uma senhora, e ela ficou tão descontrolada que começou a chorar. — Não me diga, Aparecido! — observei com ironia. — Você sabia que, num outro dia, ele bateu numa criança por ter olhado para ele? — Não, não sabia. — Este homem é perigoso, totalmente descontrolado. Tentou o suicídio sete vezes. — Sete? — Sim, sete. Acho que isto tem algum significado. — Quer dizer que se tivesse tentado quatro não teria? — Você sabe que não — disse ele, convicto e misterioso. — Ah! Sei? — retruquei com desdém. — Sim, nós já vimos isto antes.

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