Page 1

CARREIRA INTERNACIONAL BOB GREINER


Nota do autor: os diálogos em inglês foram versados para o português, para manter sua autenticidade. bobgreiner@bol.com.br

C A PA

Criação, direção de arte e produção: Bob Greiner. Fotografia: Eduardo Santaliestra. Computação gráfica: Daverson Marcel.


E

sta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos e nomes reais terá sido mera coincidência.


D

edico este livro Ă Lybia Lagreca (in memoriam), que foi mĂŁe verdadeira sem nunca ter dado a luz.


A

gradeço o apoio de três pessoas que sempre confiaram em mim e com quem eu sempre pude contar nos momentos mais difíceis de minha vida: me, myself and I.


CAPÍTULO I

Q

– ualquer garoto faz, o cacete! A frase explodiu no peito do homem sentado na imensa e confortável cadeira, por trás da imponente mesa de vidro, fazendo com que suas costas colassem no encosto acolchoado. Um passarinho dentro de uma gaiola, tendo um gato com o focinho colado na grade e as patas enfiadas por entre a mesma em sua direção, não estaria tão desconfortável. Além do mais, os tolos não costumam saber detectar muito bem a diferença entre uma nuvem passageira e uma tempestade eminente, até que seja tarde demais. Porém, qualquer idiota é capaz de sentir o óbvio desprazer de uma situação crítica. E como a surpresa tempera bem o medo! E se é que, realmente, medo tem cheiro, o empresário dono da firma de arquitetura em que Carlos Alberto trabalhava, acabava de exalar esse aroma tão raro. –Vê direito como fala comigo, meu chapa! Você, além de ser mão de vaca e grosso, é burro pra cacete! Se você acha que qualquer garoto faz o que eu faço, passa ali na favela do Pé Queimado, pega um monte de pivete e bota pra fazer projeto a troco de merenda, que você ganha mais! O homem parecia que estava no cinema assistindo a um filme de terror: colado na cadeira com os olhos esbugalhados, mudo e estático. 1


B O B

G R E I N E R

Ao mesmo tempo, o colarinho de sua camisa parecia ter encolhido uns três centímetros em questão de segundos. O nó da gravata parecia ter se transformado num cadeado, segurando uma pesada corrente ao redor de seu pescoço. O ar condicionado funcionava perfeitamente, mas a sensação que ele tinha era de estar numa sauna. O empresário, que devia ter em torno de 50 anos, mas se vestia e agia como se tivesse menos de 30, não compreendia o que estava acontecendo. De repente, parecia que ele havia voltado no tempo, era criança de novo e estava tomando um pito por ter feito alguma malcriação. Alguma coisa estava errada. E o escudo invisível que deveria separar patrão de empregado? Como assim? Qualquer um teria medo de perder o emprego por muito menos. Mas o jovem, que estava de pé a sua frente, subitamente parecia muito maior do que os seus 1,90 m e muito mais maduro e determinado do que seus 25 anos pudessem lhe permitir ser. Com certeza ele não parecia estar mais preocupado em perder o emprego do que estaria de perder uma moeda. O mais incrível é que ele parecia ter orgulho de sua atitude e até estar gostando da situação. –E tem mais o seguinte: já engoli sapo que chega nessa firma de merda! Eu nem sei como é que pode ter tanto otário pra jogar projeto de casa na mão de um incompetente como você! Você é capaz de pôr um bidê na sala de estar e uma lareira no banheiro, e ainda por cima assinar embaixo! Carlos Alberto olhava tão fundo nos olhos do patrão que este podia jurar que estava lhe doendo a vista. O homem estava tão completamente dominado, que se estivesse com um revólver nas mãos, não teria coragem de mover um músculo para disparar o gatilho, nem mesmo de pensar em mover. –Olha aí ô arquiteto-por-curso-de-correspondência: eu não trabalho mais pra filho da puta que nem você por dinheiro nenhum do mundo, muito menos por essa mixaria que você me paga! Ele caminhou até a porta, colocou a mão na maçaneta e virou para que esta abrisse e pudesse deixar a sala. Então virou os ombros e o pescoço para trás em direção ao dono da firma, que parecia ter acabado de ter sido salvo de um naufrágio, lhe dirigiu um olhar cordial, com um meio sorriso nos lábios e, com o tom mais suave que sua voz grave lhe permitia, completou: 2


C A R R E I R A

I N T E R N A C I O N A L

–Ah... Só tem uma coisa que eu já ia me esquecendo... – e aumentando o volume da voz, fazendo voltar a expressão arrogante a seu rosto e saboreando as palavras, concluiu: –Vai pra puta que te pariu! Bateu a porta atrás de si com força suficiente para fazer tremer toda a estrutura das divisórias que compunham a sala da diretoria da empresa e saiu. Carlos Alberto, na verdade, não estava tão alterado como acabara de demonstrar há pouco. Ele tinha o dom de controlar suas emoções mesmo num momento de raiva como aquele e dar a impressão de ter perdido o controle de si, mas no fundo estava quase como que seguindo um script escrito por ele mesmo para desopilar o fígado. Calmo, também não se podia dizer que ele estava. O que ele sentia era um misto de satisfação consigo próprio pela maneira como reagira, com revolta pela maneira com que as coisas se desenrolavam em geral. Uma certa falta de paciência para lidar com esse tipo de situação por tantas vezes seguidas também era evidente. Ele havia se formado em 1981, há três anos, e esse já era o sétimo emprego que ele perdia. Essa rotina já estava se tornando insuportável. O emprego até que não era o maior problema. Ele tinha talento, nunca teve dificuldade com o trabalho em si, fazia tudo rápido e muito bem feito. Arranjaria outra colocação sem muita dificuldade. Difícil era aguentar a prepotência e a arrogância dos patrões, para mantê-lo. Pior ainda era chegar em casa e escutar aquela mesma ladainha do pai e da mãe, que o tratavam como se ainda fosse criança. Tinha saído de casa quando estava no penúltimo ano da faculdade, mas há pouco tempo havia voltado, temporariamente. E desde então sua posição na casa estava mais enfraquecida do que nunca. O pai se sentia no direito de controlar a vida do filho único, como nunca conseguira controlar sua própria. Mas agora ele não queria pensar em nada disso. Enfiou a chave no tambor da motocicleta e virou, e ainda no mesmo movimento correu a mão até o extremo direito do guidão, apertando o botão de partida com o polegar ao mesmo tempo em que virava a manopla do acelerador para baixo, fazendo o escapamento quatro em um da Honda 750 Bol D’or roncar gostoso. Saiu da garagem do casarão 3


B O B

G R E I N E R

onde ficava a firma em que ele já não trabalhava mais. Cruzou a calçada, descendo a guia rebaixada, e depois de uma rápida olhada de canto de olho para a esquerda, baixou a moto para direita acelerando forte e sumindo pela avenida Pacaembu em direção à Paulista. A cidade de São Paulo se oferecia sedutoramente como consolo.

***************** Já eram mais de três horas da madrugada e Carlos Alberto já tinha circulado por toda área sofisticada dos Jardins, tomado várias vodcas com soda em bares da moda, como também outros tantos rabos de galo em botecos de esquina, e dançado um pouco numa casa noturna da região. Mas para ele a noite estava apenas começando. Por mais que bebesse, isso não atrapalhava seu desempenho na motocicleta. Era como se a moto fosse a extensão de seu corpo. E se ele ainda estava longe de trançar as pernas, cair da moto é que ele não iria. Subiu a rua Augusta e cruzou a avenida Paulista em direção ao centro da cidade. Com o vento forte provocado pela velocidade lhe batendo no rosto, fazendo lacrimejar seus olhos, entrou à esquerda na altura da Praça Roosevelt e em seguida, já na Nestor Pestana, parou em cima da calçada do lado esquerdo da rua, quase na esquina. Depois de uma última acelerada, desligou a moto com estilo. Desmontou e não deu mais do que alguns passos para estar em frente à porta da boate Vilt. O porteiro imediatamente abriu a porta, sorrindo como se tivesse visto seu artista favorito chegando para fazer um show. –Tá que tá, hein, Charlie? Hoje vai precisar de umas três pra dar conta do homem! – cumprimentou o porteiro, tratando-o pelo apelido. –Tudo sob controle, né, meu irmão? – respondeu ele ao mesmo tempo em que apertava a mão do porteiro em três tempos, mas num só ritmo. O Vilt era uma boate de viração de classe alta, de propriedade da estonteante Vânia, a maior dama da noite de São Paulo desde que Lana, dona do famoso La Lizorni, havia pendurado as calcinhas. Lá rolava tudo que mais apetecia a um heterossexual notívago: striptease, show de sexo ao vivo, filmes de sexo explícito, além de possuir, sem dúvida alguma, as 4


C A R R E I R A

I N T E R N A C I O N A L

jovens prostitutas mais atraentes da cidade. Pelo menos duas para cada cliente, é claro. A casa estava cheia. Apesar de ser dia de semana, as pessoas se esbarravam umas nas outras enquanto circulavam naquela área totalmente afrodisíaca, não maior do que uma boa sala de visitas. O som rolava alto e a fumaça de cigarro envolvia todo o local. As meninas da casa usavam roupas que as deixavam sexy sem, porém, revelar completamente as partes corpóreas que estavam para locação. A frequência era variada: jovens que iam só para olhar, sem coragem ou dinheiro para sair com ninguém; homens de meia idade vestidos conservadoramente; novos ricos cheios de correntes de ouro; gente cafona; gente distinta; alguns bem arrumados; uns tímidos; outros exageradamente descontraídos. Charlie não se enquadrava em nenhuma dessas categorias. Andava muito bem vestido para ser tomado por um malandro da noite e, ao mesmo tempo, era muito esperto para ser confundido com um desses playboys de araque. Além do mais, ele tinha intelecto. Era único. Por isso gostava de andar sozinho. Assim que atingiu o balcão, Charlie foi logo pedindo uma vodca com gelo e, ao mesmo tempo, ia sentindo a gostosa sensação provocada pelo par de seios que roçavam no seu braço direito, enquanto duas mãos macias circundavam seu bíceps. –E aí, filhinha? Como é que tá o movimento? Já fez sua noite? – disse Charlie, enquanto examinava o que tinha ao seu lado. Pela maneira como falava, imediatamente ficava claro que não se tratava de um cliente comum, fazendo com que sua interlocutora parasse de representar. A sensação de ter encontrado um velho amigo que sabia exatamente o que era a vida de quem literalmente suava para ganhar o pão de cada dia era inerente. Ela não era de se jogar fora. Não tinha mais do que vinte e poucos anos. –Tamos aí, né, meu lindo? Hoje só fiz mesmo pro leite do menino. Uma só, e foi logo que eu cheguei. Já tô justinha de novo! –Quer dizer que você tá disposta, né, safada? –Com a corda toda, gatão! Charlie deu uma risada de satisfação ao mesmo tempo em que atravessava o braço ao redor da cintura da jovem de vida fácil, alcançando 5


B O B

G R E I N E R

suas nádegas e apalpando com firmeza, por cima do collant que ela usava agarrado no corpo. –Ainda é cedo, lindinha... Mas fica por perto que, quem sabe, eu te escalo – completou Charlie, pegando seu drinque com a mão esquerda e, em seguida, se dirigindo ao palco. Parou bem de frente ao mesmo, que não tinha mais de meio metro de altura. Os seios nus de uma das oito garotas que dançavam usando não mais do que uma calcinha minúscula e transparente, ficavam bem à altura de seus olhos, com a ajuda dos sapatos de salto alto. Que vista! Charlie esticou o braço com a palma da mão virada para cima e em direção à dançarina, que delicadamente apoiou a ponta dos dedos nela, enquanto balançava o corpo no ritmo da música, com sensualidade. –Mexe, gostosa... Mexe esse corpo! A frase fez com que a garota apertasse os olhos, passasse a língua ao redor dos lábios e contorcesse o quadril com mais ênfase, sem largar a mão de seu súbito parceiro. Tomou um gole de seu drinque e soltando a mão da moça com jeito, Charlie deu mais alguns passos paralelamente ao palco, sem deixar de passar em revista cada uma das outras sete dançarinas. Mais à vontade ele não estaria, nem na banheira de sua casa. Sentou-se a uma mesa na primeira fileira das que ficavam no fundo da boate. Seu olhar foi cruzando toda a extensão da pista de dança que ficava de fronte ao pequeno palco até encontrar uma negra clara de cabelos longos e encaracolados, loiros, porém escuros na raiz. Ela podia muito bem estar num desses calendários de parede de oficina mecânica, de tão bem feito que era o corpo. Movendo o indicador em direção a si mesmo, com o cotovelo apoiado na mesa e sem levantar a voz, disse com aquele seu ar de confiança: –Vem cá, filhinha, vem. Era como se tivesse jogado o anzol, fisgado o peixe e recolhido a linha. Ela já estava à sua frente e com uma das mãos na cintura, quando disse: –Ih... Não gosto de homem bonito... Acabo perdendo muito tempo, e tempo é dinheiro! –Senta aqui – retrucou Charlie, como se não tivesse escutado o que a garota acabara de dizer. 6


C A R R E I R A

I N T E R N A C I O N A L

Puxou a cadeira para trás, fazendo lugar para que ela pudesse sentar, e disse: –Como é seu nome? –Bartira – respondeu ela. –Bartira, minha filha, segura aqui na mala do pai, pra ver se você tem jeito pra assistente de executivo. Tô cansado de carregar minha mala pra cima e pra baixo – acrescentou Charlie, sorrindo de satisfação enquanto a jovem prostituta já deslizava os dedos por cima de sua calça, alisando o que estava em alto relevo. –Nossa! Que é isso? Outra perna, é? Muito grande essa sua mala. Desse jeito vou ter que cobrar dobrado! –Tô te falando que cansa... Tô precisando de uma secretária. – completou Charlie com uma gargalhada de prazer, enquanto sua companheira também ria. –Aproveita, filhinha, que não é qualquer uma que eu deixo pegar na minha mala! Quer uma birita? Tó... Experimenta a minha, enquanto não chega a sua – disse Charlie. Enfiou o dedo indicador no seu copo, dando uma remexida nas pedras de gelo, levando em seguida o dedo em direção à boca carnuda e vermelha de batom da jovem meretriz que estava ao seu lado. Esta entreabriu os lábios em forma de círculo, não mais que suficiente para a passagem apertada do dedo de Charlie, deixando raspar levemente os dentes ao mesmo tempo em que o massageava com a língua, enquanto o engolia por inteiro. Em seguida o tirava da boca, fechando levemente os olhos numa expressão sensual de prazer. Charlie terminou sua vodca e quando o garçom apareceu, disse-lhe para trazer um drinque para a moça. E enquanto levantava da cadeira, falou: –Olha, antes de ir com alguém, me dá um toque... Quem sabe a gente vai ver a parte... Voltou para a área do balcão, onde as meninas se aglomeravam. Encostou as costas, apoiando os cotovelos nas bordas estofadas de couro, semidobrando uma das pernas. Nesse momento, entrou uma morena de cabelos ondulados que passavam dos ombros, de vestido florido com uma fenda lateral até o quadril, apertado na cintura por um grande cinto 7

CARREIRA INTERNACIONAL  

Essa é a louca e adrenalizante história protagonizada pelo inquieto, inteligente e intempestivo Charlie La Rocca durante meados dos anos 80....