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A idade dos homens


Adailton Ferreira

A idade dos homens

S達o Paulo 2012


Copyright © 2012 by Editora Baraúna SE Ltda Capa Aline Benitez Imagem Adailton Ferreira Diagramação Thaís Santos Revisão Bianca Briones

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ ________________________________________________________________ F439i Ferreira, Adailton A idade dos homens / Adailton Ferreira. - São Paulo : Baraúna, 2012. ISBN 978-85-7923-635-8 1. Romance brasileiro. I. Título. 12-8287.

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

12.11.12 21.11.12 040692 ________________________________________________________________

Impresso no Brasil Printed in Brazil DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À EDITORA BARAÚNA www.EditoraBarauna.com.br Rua da Glória, 246 — 3º andar CEP 01510-000 Liberdade — São Paulo — SP Tel.: 11 3167.4261 www.editorabarauna.com.br


Para LaĂ­sa, Felipe e Aline, a todo instante.


“Para aqueles que veem em tudo o que lá não está” (Fernando Pessoa)


“ — Seja feliz, homem! Mas que diabo está esperando tanto?! Melchior, em meio a este grito da consciência, pensou no que poderia consistir sua felicidade. Pensou em Madalena e o que conseguiu reviver foi somente uma vontade de beijar outra vez, intensamente, uma mulher. Pensou em Nina, nos sobrinhos, e consentiu que se realmente os visse de novo, o que poderia assaltá-lo senão um assustador deslumbramento? O tempo, este imortal deus entre todos os deuses, mediador incontestável de todas as felicidades, só havia lhe deixado um caminho para que pudesse se considerar feliz...”


Primeira parte A praça da infância — Sim, sim, isto é bem possível sim; existem tantos mistérios em torno de tudo que nos cerca, que quem sabe não há um outro povo, um outro mundo, com seres bem diferentes do que somos... — e Melchior se calou, um tanto confuso diante da estranha pergunta feita por Letícia, e depois de retirar o lenço do bolso e enxugar a testa molhada, apontou para o sol como se estivesse fazendo reverência a um grande amigo: — Olhem para aquele que agora me umedece a testa, quem ousaria dizer por quanto tempo ainda, e há quantos milênios, ele vem se desgastando por nós, nos proporcionando energia, calor, fogo, e o mais importante, esperança e vida. — Minha mãe também disse uma coisa: que tudo que se aproxima dele se derrete na mesma hora. É verdade? — Indiscutivelmente que sim, meu pequeno Clemente. Sua mãe tem toda a razão. Chegar próximo demais do sol é impossível a qualquer um de nós. Viraríamos cinzas antes de um piscar de olhos. — Minha mãe também disse, num dia de calor desses, que o mundo vai se acabar em brasa, que tudo vai

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arder em fogo. É verdade, Melchior? — perguntou outra criança, um jovenzinho chamado Bartolomeu, que na altura dos seus quase oito anos de idade, insinuava na voz a preocupação de um homem sério. Melchior surpreendeu-se. Como explicar a tal criatura que o mundo em seu corpo só, ou seja, na dimensão física da Terra que conhecemos, era impossível concebê-lo ardendo em labaredas, como se o inferno houvesse se estancado sobre os homens a lhes torrar impiedosamente os lombos. Sim, e ainda havia o inferno para ser explicado. Marlene, uma menininha de nem mesmo sete anos, na última conversa que ambos tiveram, quis saber a todo custo, detalhe a detalhe, de um horrendo buraco que ela temia tanto. Melchior, antes, quis saber se fora a mãe que lhe descrevera a cratera com tal assombro. Ela disse que sim, que tinha sido a mãe, uma recatada senhora jovem, carola fervorosa da igreja do padre Ananias. — Escute, adorável pequena, — ponderou Melchior — todo lugar que seus olhos enxergarem as coisas mais horríveis que possam existir, pode ser considerado o inferno. — Então o Zezé “corcunda”, que fica parado na frente da igreja, aquele do qual toda criança tem medo, é também do inferno? — perguntou Marlene. Melchior riu, despejadamente. A analogia que havia feito entre inferno e coisas horríveis, sem dúvida alguma, não parecia ser das mais justificáveis, mas a capacidade daquela criança de relacionar o medo que sentia — da figura do velho Zezé — com o que imaginava existir no inferno, era desconcertante. Melchior apressou-se em

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corrigir o mal-entendido e também, ainda porque era possível, de retirar da mente daquela pequena a imagem compreensível, porém distorcida, em que ela via a imperfeição como feiura. Escolheu algumas palavras pensando serem oportunas para o momento: — Pequena Marlene, preste atenção; tudo o que pode parecer bonito não é necessariamente perfeito, aliás, a única diferença que há entre o feio e o bonito é a distância, é a diferença, em que nós mesmos nos dispomos a enxergá-los; ou seja, um cachorro raquítico, mirrado, pequeno, pode parecer feio diante dos seus olhos, mas aos olhos dos outros pode parecer o mais esplêndido dos cachorros; é o olhar da pureza, pequena, que nos permite ver cada coisa como ela é, e em particular a própria beleza de cada uma. Melchior parou refletindo. Olhou para a pequena que, pelo olhar, lhe indagava ainda muitas explicações. Mas que infelicidade enveredar por tais argumentos, pensou. E soltou, como se estivessem fugindo-lhes da boca as palavras, uma empurrando a outra: — O bonito é o mesmo que o feio e todo feio também é bonito; é isso, minha pequena: o feio, o horrível e o bonito existem somente dentro dos nossos olhos. Tudo é igual, assim também como o sol e as estrelas, veja lá — apontou, Melchior, para o astro, enxugando mais do que antes a testa úmida. Marlene se calou. Parecia finalmente ter entendido.

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Era quase o final da tarde. O grupo de nove crianças, assentadas ao seu redor, era observado de longe e muitos guardavam a mesma curiosidade, repetitivamente os mesmos olhares, apesar de que acontecia ser comum encontrar na praça tanta criança, no mesmo horário, rodeando sempre o mesmo homem. Era José Malaquias Melchior, o Velho. Não que ele fosse propriamente avançado na idade, estava apenas com quarenta e cinco anos, mas era pela sua fala de sílabas marcantes, suas palavras que pareciam querer sempre ensinar e sua paciência e afeto pelas crianças. De onde viera ninguém sabia ao certo. Era sabido que havia sido professor até a uma década antes noutra cidade, e que por uma deficiência irreversível em uma das vistas, fora forçado a aposentar-se prematuramente. Aos pais dos pequenos não restava dúvida: era uma pessoa de verdadeira candura; para as crianças era a novidade de todas as tardes, unânime; ou seja, cumpriam suas obrigações diárias (coisas de infância numa cidadezinha do interior), assim como tirar a roupa da escola, almoçar a comida toda, fazer lições de casa, tirar a sesta, e lá estavam ao redor de Melchior. A magia influía até mesmo a alguns adultos, e talvez por serem seres de uma classe de tão pouca voluntariedade, em comparação à ín-

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dole espontânea de toda criança, ficavam pelos bancos de longe observando, ou disfarçando mais próximos pela grama: o ouvido ao pé da orelha, a orelha na ponta do ouvido, e alguma palavra do Velho que era captada. Mas o júbilo era somente para os ouvidos ingênuos. — Quando eu crescer vou ser piloto de avião, só que meu avião vai passar bem longe do sol. Melchior vai um dia viajar comigo, não vai, Melchior? Melchior pediu silêncio para ouvir. Era Rosival. Rosival “Dindin”. Tinham lhe dado esse apelido por conta do seu sobrenome que se completava inteiro como “Divino do Nascimento”. Caminhava para os seus sete anos arrebatados e entre todos que Melchior conhecia, era o que mais lhe impressionava com sua história. Respondeu prontamente para o robusto, com alegria: — Claro, Dindin, e eu vou querer ir na cabine com você. Viajaremos o mundo, Dindin. Viajaremos o mundo! — Eu também posso ir no avião de Dindin com você, Melchior? — perguntou Marcelo, tão inquieto quanto à irmã Letícia ao seu lado, e o pedido foi com tal súplica, que negar-lhe por qualquer motivo, seria cometer o mais injusto dos pecados. — Sim, vai você, Marcelo; e vai também a Letícia — a menina deu um pulo de contentamento — e se o Robinson quiser ir, também pode ir. Nós o levaremos, não é mesmo, Dindin? Dindin disse que sim, engasgando no sopro da própria euforia. Robinson não levantou os olhos, continuou de cabeça baixa, e Melchior, que antes já havia percebido isso, continuou a observá-lo, diante das outras crianças

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