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OS ROMPEDORES DA ALVORADA VOLUME II


OS ROMPEDORES DA ALVORADA A NARRATIVA DE NABÍL DOS PRIMEIROS DIAS DA REVELAÇÃO BAHÁ'Í

"Nós nos manteremos firmes, com a vida na mão, inteiramente resignados à Sua vontade, para que talvez, através da benevolência de Deus e de Sua graça, esta Letra revelada e manifesta possa oferecer a vida em holocausto no caminho do Ponto Primaz, o Mais Excelso Verbo." BAHÁVLLÁH

TRADUZIDO DO ORIGINAL PERSA PARA O INGLÊS POR SHOGHI EFFENDI

VOLUME II

1990 EDITORA BAHÁ'Í


© Copyright Assembléia Espiritual Nacional dos Bahá'ís do Brasil 1990 Editora Bahá'í do Brasil Todos os direitos reservados. Título original em inglês: "The Dawn-Breakers" Tradução de Leonora S. Armstrong

1^ edição Rio de Janeiro 1990 ISBN: 85-320-0001-0 Obra Completa (E) ISBN: 85-320-0003-7 Obra Completa (B) Capa de: Neissan Monadjem

Editora Bahá'í do Brasil Rua Eng9 Gama Lobo, 267 - Vila Isabel 20551 Rio de Janeiro, RJ, Brasil


Para A Folha Mais Sagrada Última Sobrevivente de uma Idade Heróica e Gloriosa Dedico esta Obra em Sinal de um Grande Débito de Gratidão e Amor


ÍNDICE Relação das Ilustrações

9

Capítulo XIV A Viagem de Mullá Husayn a Mázindarán

11

Capítulo XV A Viagem de Táhirih de Karbilá a Khurásán

19

Capítulo XVI A Conferência de Badasht

39

Capítulo XVII O Encarceramento do Báb na Fortaleza de Chihríq .

51

Capítulo XVIII O Interrogatório do Báb em Tabríz

59

Capítulo XIX A Revolta de Mázindarán

72

Capítulo XX A Revolta de Mázindarán (continuação)

123

Capítulo XXI Os Sete Mártires de Teerã

178


Capítulo XXII A Revolta de Nayríz

212

Capítulo XXIII Martírio do Báb

244

Capítulo XXIV A Revolta de Zanján

271

Capítulo XXV A Viagem de Bahá'u'lláh a Karbilá

328

Capítulo XXVI Atentado Contra a Vida do Xá e suas Conseqüências

342

Epílogo

399

Apêndice

419

Glossário

425


RELAÇÃO DAS ILUSTRAÇÕES (Veja caderno d e ilustrações entre as páginas 50 e 51) Fotos 1 e 2 — Casas nas quais Tahereh viveu em Qazvín Foto 3 — Povoado de Badasht Foto 4 — A biblioteca de Tahereh na casa de seu pai em Qazvín Foto 5 •—-O Sepulcro de Vahíd em Nayríz Foto 6 — Portal de Naw, em Teerã Foto 7 — O Howdah (liteira) persa Foto 8 — O Castelo de Chihríq Foto 9 — A casa ocupada pelo Báb em Urúmiyyih, a Balá-Khánih, (X) mostrando o quarto onde Ele ficou, (parte de cima, à direita) Foto 10 — Násiri'd-Din Sháh na infância, mostrando Mirzá Abu'lQásim, o Qá'im-Maqám à sua direita e Háji Mirzá Aqási à sua esquerda, e na extrema esquerda (X), em pé, Manúchihr Khán, o Mu'tamidu'd-Dawlih Fotos 11 e 12 — O Namáz-Khánih do Shaykhu'1-Islã de Tabriz, mostrando o canto (X) onde o Báb foi torturado com bastonadas Foto 13 — O Forte de Khájih Foto 14 — O quarto de Vahíd no forte Foto 15 — Násiri'd-Din Shá Foto 16 — A Casa de Bahá'u'lláh em Bagdá Foto 17 — O Santuário de Shaykh Tabarsí Foto 18 — Parte sul de Teerã onde os criminosos eram enforcados e onde ocorreram muitos martírios de bahá'ís. (X indica o local do Síyáh-Chál) Foto 19 — Plantas e croquis do Forte de Shaykh Tabarsí Foto 20 — Árvore da qual Mullá Husayn foi fuzilado Foto 21 — Mirzá Abú'-Tálib (companheiro de Quddús que sobreviveu ao combate de Shaykh Tabarsí)


Foto 22 — Casa de Kalantar em Teerã onde Tahereh foi confinada Fotos 23 e 24 — Vistas de Madrisih de Mirzá Zakí, em Bárfurúsh, o túmulo de Quddús Foto 25 — O Madrisiy-i-Sadr (Escola) em Teerã, (X indica a sala ocupada por Bahá'u'lláh) Foto 26 — O Sabzih-Maydán (praça do mercado) em Teerã Foto 27 — Vista do fosso que circunda Tabríz, onde foi jogado o corpo do Báb Foto 28 — Túmulos dos mártires de Nayríz Foto 29 — Casa de Vahíd em Nayríz Foto 30 — Mirzá Taqí Khán, o Amír-Nizám Foto 31 — Família bahá'í martirizada na Pérsia Fotos 32 e 33 — O rosário do Báb e o anel, com signo Fotos 34 e 35 — O Alcorão que pertencia ao Báb. Foto 36 — A praça do quartel em Tabríz onde o Báb foi martirizado. (X indica o local onde Ele foi suspenso e fuzilado) Foto 37 — Hájí Imán. (X indica um dos sobreviventes da batalha de Zanján) Foto 38 — O lugar dos martirizados em Nayríz Foto 39 — Mapa da Pérsia Fotos 40 e 41 — Vila de Afchih, próxima de Teerã. A casa de Bahá'u'lláh é vista através das árvores (à esquerda, na parte superior da foto) Foto 42 — Crentes reunidos em volta do corpo de um mártir Foto 43 — Vista do jardim de llkhání onde Tahereh foi martirizada Fotos 44 e 45 — Vestidos usados pelas senhoras persas em meados do século XIX (à esquerda, para a casa e à direita, para fora de casa) Foto 46 — Vista geral de Tákur, em Mazindarán Fotos 47 e 48 — Ruínas da Casa de Bahá'u'lláh, originalmente pertencente ao Vazír, Seu pai, em Tákur, Mazindarán Foto 49 — O Hadíqatu'r-Rahmán, onde as cabeças dos mártires de Nayríz estão enterradas


CAPÍTULO XIV A VIAGEM DE MULLÁ HUSAYN A MÁZINDARÁN 'Ali Khán convidou cordialmente Mullá Husayn a se demorar alguns dias em sua casa antes de sua partida de Máh-Kú. Expressou um desejo ardente de lhe prover de toda facilidade para sua viagem a Mázindarán. Mullá Husayn, entretanto, recusou adiar sua partida ou se valer dos meios de conforto que 'Ali Khán tão devotadamente colocara à sua disposição. Fiel às instruções que havia recebido, ele parou em toda cidade e aldeia que o Báb lhe dissera deveria ser visitada, reunindo os fiéis, transmitindo-lhes o amor e as saudações de seu bem-amado Mestre, restaurando-lhes a confiança, animando novamente seu zelo e os exortando a permanecerem firmes em Seu caminho. Em Teerã teve ele mais uma vez o privilégio de entrar na presença de Bahá'u' lláh e de receber de Suas mãos aquele sustento espiritual que o capacitou a enfrentar, com tão indomável coragem, os perigos que contra ele, com tanta ferocidade, acometeram nos dias finais de sua vida. De Teerã, Mullá Husayn procedeu a Mázindarán, em ansiosa expectativa de testemunhar a revelação do tesouro oculto, segundo lhe prometera seu Mestre. Quddus estava nesse tempo morando em Bárfurúsh, na casa que pertencera originariamente a seu próprio pai. Associava-se livremente às pessoas de todas as classes e pela meiguice de seu caráter e pelo largo âmbito de seus conhecimentos, havia con11


quistado o afeto e a irrestrita admiração dos habitantes dessa cidade. Ao chegar, nesta cidade Mullá Husayn foi diretamente à casa de Quddús, por quem foi recebido com carinho. O próprio Quddús atendeu a seu hóspede, fazendo o possível para provê-lo de qualquer coisa que parecesse necessária a seu conforto. Com as próprias mãos removeu o pó e lavou a pele empolada de seus pés. Ofereceu-lhe o lugar de honra na companhia de seus amigos reunidos e lhe apresentou, com reverência extrema, cada um dos crentes que aí afluíram a fim de recebê-lo. Na noite de sua chegada, assim que os crentes convidados para o jantar a fim de conhecerem Mullá Husayn haviam retornado as suas casas o anfitrião, virando-se a seu hóspede, perguntou se queria esclarecê-lo mais detalhadamente sobre suas experiências íntimas com o Báb na fortaleza de Máh-Kú. "Muitas e diversas," respondeu Mullá Husayn, "foram as coisas que ouvi e testemunhei durante os nove dias de minha associação com Ele. Falou-me das coisas relativas a Sua Fé, tanto direta como indiretamente. Nenhuma instrução definida deu-me Ele, porém, quanto ao curso que eu deveria prosseguir quanto a propagação de Sua Causa. Tudo o que me disse foi isto. 'Em teu caminho a Teerã, deverias visitar os crentes em cada cidade e aldeia pela qual passares. De Teerã deves proceder a Mázindarán, pois aí jaz oculto um tesouro que a ti será revelado, um tesouro que desvelará a teus olhos o caráter da tarefa que és destinado a cumprir.' De Suas alusões pude eu, embora indistintamente, perceber a glória de Sua Revelação e discernir os sinais da futura ascendência de Sua Causa. De Suas palavras inferi que seria exigido, afinal, o sacrifício de mim próprio, indigno que sou, em Seu caminho. Pois em ocasiões anteriores, sempre que me despedia de Sua Presença, o Báb me assegurava invariavelmente que eu haveria de ser chamado ainda outra vez a Seu encontro. Desta vez, porém, ao pronunciar Suas palavras de despedida, nenhuma promessa me fez nesse sentido, nem se referiu à possibilidade de eu estar com Ele face a face jamais neste mundo. 'A Festa do Sacrifício,' foram Suas últimas palavras a mim, 'rapidamente se aproxima. Levanta-te, envida os máximos esforços e não permites que coisa alguma te detenha 12


de atingir teu destino. Uma vez alcançado teu destino, prepara-te para Nos receber, pois Nós também dentro em breve te seguiremos.' Quddús perguntou se trouxera algum dos escritos de seu Mestre e, ao ser informado que com ele nenhum tinha, apresentou a seu hóspede as páginas de um manuscrito que tinha em seu poder, pedindo-lhe que lesse determinadas passagens. Assim que havia lido uma página desse manuscrito, submeteu-se seu semblante a uma transformação súbita e completa. Suas feições mostravam uma indefinível expressão de admiração e surpresa. O elevado estilo, a profundidade — acima de tudo, a influência penetrante das palavras que acabava de ler, lhe agitaram intensamente o coração e de seus lábios evocaram os maiores elogios. Pondo de lado o manuscrito, disse: "Bem posso perceber que o Autor destas palavras tirou Sua inspiração daquele Manancial que é imensuravelmente superior às fontes donde se deriva comumente a erudição dos homens. Com isto quero testemunhar de todo coração meu reconhecimento da sublimidade dessas palavras e minha inquestionável aceitação da verdade por elas revelada." Pelo silêncio guardado por Quddús, bem como pela expressão que seu semblante demonstrava, Mullá Husayn se convenceu de que ninguém, senão seu anfitrião poderia ter escrito essas palavras. Instantaneamente levantou-se de seu assento e, em pé, com cabeça curvada, no limiar da porta, declarou com reverência: "O tesouro oculto do qual o Báb falou jaz agora desvelado diante de meus olhos. Sua luz já dissipou as trevas da perplexidade e dúvida. Embora meu Mestre esteja oculto em meio às fortalezas nas montanhas de Adhirbáyján, o sinal de seu esplendor e a revelação de Seu poder estão manifestos diante de mim. Encontrei em Mázindarán o reflexo de Sua glória." Quão grave, quão assombroso o erro de Hájí Mírzá Aqásí! Esse ministro néscio imaginara futilmente que, condenando o Báb a uma vida de exílio desesperador num recanto remoto e isolado de Adhirbáyján, ele assim conseguisse ocultar dos olhos de seus compatriotas aquela Chama do imorredouro Fogo de Deus. Longe estava ele de perceber que, ao colocar num monte a Luz de Deus, estava 13


ajudando a lhe difundir o brilho e proclamar a glória. Pelos seus próprios atos, pelos seus espantosos cálculos errôneos, em vez de ocultar dos olhos dos homens aquela Chama celestial, ele a fez sobressair ainda mais e ajudou a lhe incrementar o ardor. Como era eqüitativo, por outro lado, Mullá Husayn, e quão aguçado e seguro seu juízo dentre aqueles que o haviam conhecido e visto, nenhum poderia, por um momento sequer, questionar a erudição desse jovem, seu encanto, sua alta integridade e espantosa coragem. Tivesse ele, após a morte de Siyyid Kázim, se declarado o prometido Qá'im, os mais distintos entre seus co-discípulos teriam unanimemente reconhecido sua pretensão e se submetido à sua autoridade. Mullá Muharnmad-i-Mámáqání, aquele célebre e erudito discípulo de Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, depois de conhecer em Tabríz por intermédio de Mullá Husayn as pretensões da nova Revelação, não fizera a seguinte declaração: "Tomo Deus como meu testemunho! Se essa pretensão do Siyyid-i-Báb tivesse sido feita por esse mesmo Mullá Husayn, eu, em vista de suas notáveis características e da amplidão de seus conhecimentos, teria sido o primeiro a campear pela sua causa e proclamá-la a todos. Como ele, entretanto, se dignou de se subordinar a outra pessoa, deixei de ter confiança em suas palavras e tenho recusado responder a seu apelo." E Siyyid Muhammad-Baqir-i-Rashtí, ao ouvir Mullá Husayn tão bem resolver as perplexidades que desde tanto tempo lhe afligia a mente, não deu testemunho de suas altas realizações em tão fervorosos termos como estes: "Eu, que me queria imaginar capaz de confundir e silenciar Siyyid Kázim-i-Rashtí, percebi, quando primeiro conheci e conversei com aquele que se diz ser apenas seu humilde discípulo, quão lastimavelmente havia eu errado em meu juízo. De tal força parece ser dotado esse jovem que, se ele declarasse ser o dia a noite, eu ainda acreditaria ser ele capaz de deduzir provas que demonstrassem concludentemente aos olhos dos eruditos sacerdotes a verdade de sua afirmação." Na mesma noite em que foi levado ao encontro do Báb, Mullá Husayn, embora de início consciente de sua própria infinita superioridade e predisposto a menosprezar as pretensões avançadas pelo filho de um obscuro mercador de 14


Shiráz, não deixou de perceber, assim que seu anfitrião principiara a desenvolver Seu tema, os incalculáveis benefícios latentes era Sua Revelação. Com entusiasmo abraçou ele Sua Causa e desdenhosamente abandonou qualquer coisa que pudesse impedir seus próprios esforços para compreendê-la devidamente e lhe promover efetivamente os interesses. E ao lhe ser concedida, no devido tempo, a oportunidade de apreciar a transcendente sublimidade dos escritos de Quddús, Mullá Husayn, com sua costumeira sagacidade e inerrante juízo, foi capaz, outrossim, de estimar o verdadeiro valor e mérito daqueles dons especiais de que tanto a pessoa como as palavras de Quddús foram dotadas. A vastidão de seus próprios conhecimentos adquiridos minguava até se tornar insignificante em face das virtudes oriundas de Deus, que a tudo abrangiam, demonstradas pelo espírito desse jovem. Nesse mesmo momento hipotecou ele sua imorredoura lealdade àquele que tão poderosamente espelhava o esplendor de seu próprio bem-amado Mestre. Sentiu ser sua primeira obrigação subordinar-se inteiramente a Quddús, seguir-lhe as pegadas, conformar-se a sua vontade e lhe garantir por todos os meios em seu poder o bem-estar e a segurança. Até a hora de seu martírio, Mullá Husayn permaneceu fiel a sua promessa. Na deferencia extrema que daí em diante mostrava a Quddús, ele era motivado somente por uma firme e inalterável convicção da realidade daqueles dons sobrenaturais que tão claramente o distinguiam dos outros co-discípulos. Não houve outra consideração que o induzisse a mostrar tamanha deferencia e humildade em sua conduta para com alguém que parecia ser apenas seu igual. O aguçado discernimento de Mullá Husayn rapidamente apreendia a magnitude do poder que nele jazia latente, e a nobreza de seu caráter o impelia a demonstrar de um modo digno seu reconhecimento dessa verdade. Tal foi a transformação efetivada na atitude de Mullá Husayn para com Quddús que os crentes que se reuniram na manhã seguinte em sua casa admiraram-se extremamente ao verem o hóspede que na noite anterior ocupara o lugar de honra, e sobre quem foram prodigalizadas tanta bondade e hospitalidade, havia cedido seu lugar a seu anfitrião e agora estava em pé, em seu lugar, no limiar, numa 15


atitude de completa humildade. As primeiras palavras que, na companhia dos crentes reunidos, Quddús dirigiu a Mullá Husayn, foram as seguintes: "Agora, nesta mesma hora, deves te levantar e, armado com a vara da sabedoria e do poder, silenciar a hoste dos maus conspiradores que se esforçam por desacreditar o belo nome da Fé de Deus. Deves enfrentar aquela multidão e lhes confundir as forças. Na graça de Deus deves por tua confiança e as suas maquinações considerar uma tentativa fútil de obscurecer o esplendor da Causa. Deves entrevistar o Sa'ídu'1-Ulamá, aquele notório tirano, de coração falso, e destemidamente desvelar diante de seus olhos as características distintas desta Revelação. Daí deveras proceder a Khurásán. Na cidade de Mashhad, deves construir uma casa de tal modo projetada que possa não só servir como nossa residência particular, como também fornecer facilidades adequadas para a recepção de nossos convidados. Para lá, breve deveremos viajar e naquela casa residir. Para lá deveras convidar cada alma receptiva que esperemos possa ser guiada ao Rio da vida eterna. Nós as prepararemos e admoestaremos a formarem grupos e proclamarem a Causa de Deus." Mullá Husayn partiu no dia seguinte na hora do nascer do sol a fim de entrevistar o Sa'ídu'1-Ulamá. Sem assistente, inteiramente só, procurou sua presença e lhe transmitiu, assim como Quddús mandara, a Mensagem do novo Dia. Com intrepidez e eloqüência pleiteou, em meio aos discípulos reunidos, a Causa de seu bem-amado Mestre, exortando-o a demolir aqueles ídolos esculpidos pela sua própria vã fantasia e sobre seus fragmentos esmiuçados plantar o estandarte da guia Divina. Apelou a ele que desembaraçasse sua mente dos credos do passado que a agrilhoavam e se apressasse, livre e sem empecilho, para as orlas da salvação eterna. Com característico vigor, superou cada argumento com o qual aquele feiticeiro enganador procurava refutar a verdade da Mensagem Divina e expôs, por meio de sua lógica irrespondível, as falácias de cada doutrina que ele tentava propor. Acometido pelo medo de que a congregação de seus discípulos se reunisse unanimemente em volta da pessoa de Mullá Husayn, o Sa'ídu'1-Ulamá, recorreu ao mais desprezível dos estratagemas, lançando mão da mais 16


abusiva linguagem na esperança de salvaguardar a integridade de sua posição. Arremessou suas calúnias na face de Mullá Husayn e, desdenhando com altivez as provas e os testemunhos aduzidos pelo seu oponente, asseverou confiantemente, sem a mínima justificação de sua parte, a futilidade da Causa que ele fora chamado para abraçar. Assim que Mullá Husayn percebeu sua completa incapacidade para apreender o significado da Mensagem que ele lhe trouxera, levantou-se de seu assento e disse: "Meu argumento não logrou despertar-vos de vosso sono de negligência. Meus atos nos dias vindouros vos provarão o poder da Mensagem que vos dignastes a desprezar." Falou com tal veemência e emoção que o Sa'ídu'1-Ulamá se sentiu completamente confundido. Tão grande foi a consternação de sua alma que nem pôde responder. Virou-se então Mullá Husayn a um membro desse auditório que parecia haver sentido a influência de suas palavras e o incumbiu de relatar a Quddús as circunstâncias dessa entrevista. "Diga-lhe," acrescentou, 'Desde que não me mandaste especificamente procurar vossa presença, determinei-me a partir de imediato para Khurásán. Procedo à execução em sua totalidade daquelas coisas que me instruístes a fazer.' " Sozinho e com o coração inteiramente desligado de tudo menos de Deus, Mullá Husayn partiu em sua jornada a Mashhad. Seu único companheiro enquanto trilhava seu caminho a Khurásán, foi o pensamento de cumprir fielmente os desejos de Quddús, e o que tão somente o sustentava era a consciência de sua infalível promessa. Foi diretamente à casa de Mírzá Muhammad-Baqir-i-Qá'íní e dentro em breve conseguiu comprar na vizinhança dessa casa em BáláKhíyábán um terreno no qual começou a erigir a casa que fora mandado a construir e à qual deu o nome de Bábíyyih, nome esse que continua a ter até o tempo presente. Pouco depois de ser a casa terminada, Quddús chegou em Mashhad e residiu nessa casa. Um ininterrupto fluxo de visitantes, a quem a energia e o zelo de Mullá Husayn haviam preparado para a aceitação da Fé, manava para a presença de Quddús, reconhecia a pretensão da Causa e espontaneamente se alistou sob sua bandeira. A infalível vigilância com a qual Mullá Husayn laborava na difusão do conheci17


mento da nova Revelação e a maneira magistral de que Quddús edificava seus aderentes, cujo número sempre crescia, causaram uma onda de entusiasmo que varreu toda a cidade de Mashhad e cujos efeitos se espalharam rapidamente dos confins de Khurásán. A casa de Bábíyyih breve se converteu em um centro de reunião para uma multidão de devotos que estavam inflamados com uma resolução inflexível de demonstrar por todos os meios em seu poder as grandes inerentes energias de sua Fé.

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CAPÍTULO XV A VIAGEM DE TÁHIRIH DE KARBILÁ A KHURÁSÁN Assim que se aproximava a hora marcada, quando, segundo as dispensações da Providência, haveria de ser rompido o véu que ainda ocultava as verdades fundamentais da Pé, flamejou no coração de Khurásán uma chama de tal intensidade consumidora que os mais formidáveis obstáculos no caminho do reconhecimento final da Causa se dissipavam e esvaiam (1). Esse fogo tamanha conflagração ateou nos corações dos homens que os efeitos de seu poder vivificador se sentiam nas províncias mais remotas da Pérsia. Obliterou todo traço das desconfianças e dúvidas que haviam persistido ainda nos corações dos crentes e até então os impedido de apreender a plena medida da glória da Causa. O decreto do inimigo condenara a isolamento perpétuo Aquele que era a personificação da beleza de Deus, procurando por este meio extinguir para sempre a chama de Seu amor. A mão da Oni(1) "Ninguém se sentirá surpreendido ao saber", escreve Clement Huart, "que a nova seita se difundiu mais rapidamente em Khurásán que em qualquer outra parte. Khurásán tem sido singularmente afortunada pois sempre tem oferecido um terreno muito propício para novas idéias. É desta província que saíram muitas revoluções que produziram mudanças fundamentais no Oriente Muçulmano. Basta recordar que foi em Khurásán que se originou a idéia da renovação persa depois da conquista dos árabes. Foi também ali que se organizou o exército que, sob as ordens de Abú-Muslim, colocou os Abasidas sobre o trono dos Califas ao derrotar a aristocracia de Meca que o havia ocupado desde o advento dos Umayyad". ("La Religion do Báb", pp. 18-19).

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potência, entretanto, num tempo em que a hoste de malfeitores contra Ele maquinava obscuramente, estava assiduamente ocupada em lhes confundir as intrigas e nulificar os esforços. Na província no extremo leste da Pérsia, o Todo-Poderoso, através da mão de Quddús, ateou um fogo que ardia com a mais intensa chama nos peitos do povo de Khurásán. E em Karbilá, além dos confins ocidentais dessa terra, Eie acendera a luz de Táhirih, luz esta destinada a difundir seu esplendor sobre a Pérsia toda. De leste e oeste desse país, a voz do Invisível convocou aquelas grandes luzes gêmeas para se apressarem a ir à terra de Tá (2), lugar do alvorecer da glória, a casa de Bahá'u'lláh. Ele mandou que cada uma procurasse a presença daquela Estrela Dalva da Verdade e se movesse em volta de Sua pessoa, que buscasse seu conselho, dobrasse Seus esforços e preparasse o caminho para Sua Revelação vindoura. Segundo o decreto Divino, nos dias em que Quddús residia ainda era Mashhad, foi revelada da pena de Báb uma Epístola dirigida a todos os crentes da Pérsia, na qual se exortou a todo aderente leal da Fé a "apressar-se a ir à Terra de Khá," a província de Khurásán (3). A notícia dessa alta injunção espalhou-se com admirável rapidez e despertou entusiasmo universal. Chegou aos ouvidos de Táhirih, que, nesse tempo, residia em Karbilá e envidava todo esforço para estender o âmbito da Fé que ela esposara (4). Deixara sua cidade natal de Qazvín e havia, após a morte de Siyyid Kázim, chegado naquela cidade santa, esperando ansiosamente testemunhar os sinais que o falecido siyyid pre(2) Teerã. (3) "Acredita-se", escreve o tenente-coronel P.M. Sukes, "que o décimo-segundo Imame nunca morreu, porém no ano 260 D. H. (1873 A. D.) desapareceu ocultando-se milagrosamente e que reaparecerá no Dia do Juízo na mesquita de Gawhar-Shád em Mashhad, para ser aclamado o Mihdí, o "Guia", e para reinar com justiça a terra." ("A History of Pérsia", vol. 2, p. 45). (4) Segundo Muhammad Mustafá (p. 108), Táhirih chegou a Karbilá no ano de 1263 D. H., visitou Kúfih e o distrito circunvizinho e estava ocupada na difusão dos ensinamentos do Báb. Ela compartilhou os escritos de Seu Mestre com as pessoas que conheceu, entre os que se encontrava Seu comentário sobre a Sura de Kawthar.

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dissera. Em páginas anteriores temos visto como, instintivamente, ela fora levada a descobrir a Revelação do Báb e como, espontaneamente, havia reconhecido sua verdade. Sem advertência ou convite percebeu pairar sobre a cidade de Shíráz a luz do alvorecer da prometida Revelação e se sentiu impelida a escrever sua mensagem e hipotecar sua fidelidade Àquele que era o Revelador dessa luz. A resposta imediata do Báb à declaração de fé que ela, sem haver atingido Sua presença, foi movida a fazer, lhe animou o zelo e vastamente aumentou a coragem. Ela se levantou para difundir em toda parte Seus ensinamentos, denunciou veementemente a corrupção e a perversidade de sua geração, advogou destemidamente uma revolução fundamental nos hábitos e modos de seu povo (5). Seu espírito indomável foi vivificado pelo fogo de seu amor pelo Báb e a glória de sua visão atingiu realce ainda maior com a descoberta das inestimáveis bênçãos latentes em Sua Revelação. A intrepidez inata e a força de seu caráter foram aumentadas centuplicadamente por sua inabalável convicção da vitória final da Causa que ela abraçara; e sua ilimitada energia foi revitalizada por seu reconhecimento do valor permanente da Missão que ela se havia levantado para defender. Todos que a conheciam em Karbilá ficaram encantados por sua mágica eloqüência e sentiam a fascinação de suas palavras. Ninguém podia resistir ao seu encanto; poucos po(5) "Foi entre a sua própria família que ela ouviu falar, pela primeira vez, da pregação do Báb em Shiráz e aprendeu o significado de suas doutrinas. Este conhecimento ainda que incompleto e imperfeito, lhe agradou plenamente; começou a ter correspondência com o Báb e logo aceitou todas as suas idéias. Não se conformou com uma simpatia passiva, mas, confessou abertamente a fé de Seu Mestre. Não só denunciou a poligamia como também o uso do véu e mostrou seu rosto descoberto em público com grande assombro e escândalo de sua família e de todo muçulmano sincero, porém com muitos aplausos de muitos concidadãos os quais compartilhavam seu entusiasmo e cujo número crescia como conseqüência de sua pregação. Seu tio, o doutor, seu pai um jurista e seu marido trataram por todos os meios que adotasse pelo menos uma conduta mais discreta e de maior reserva. Ela os repreendeu com argumentos inspirados por uma fé que não era capaz de plácida resignação". (Conde de Gobineau, "Les Religions et les Philosophies dans 1'Asie Centrale", pp. 137-138).

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diam escapar ao contágio de sua crença. Todos davam testemunho de suas extraordinárias características, maravilhavam-se de sua personalidade assombrosa e se convenciam da sinceridade de suas convicções. Ganhou-se para a Causa, por seu intermédio, a honrada viúva de Siyyid Kázim, nativa de Shíráz e a primeira entre as mulheres de Karbilá a reconhecer sua verdade. Tenho ouvido Shaykh Sultán descrever sua extrema devoção a Táhirih, a quem ela reverenciava como guia espiritual e estimava como sua afetuosa companheira. Ele era também fervoroso admirador do caráter da viúva do Siyyid, a cuja meiguice de modos prestava muitas vezes um ardente tributo. "Tal era sua amizade para Táhirih," freqüentemente se ouvia Shaykh Sultán comentar, "que com extrema relutância consentia que essa heroína, que estava hospedada em sua casa, se ausentasse, nem sequer por uma hora, de sua presença. Tão grande devoção de sua parte não deixou de excitar a curiosidade e vivificar a fé de suas amigas, tanto persas como árabes, que constantemente a visitavam em sua casa. No primeiro ano de sua aceitação da Mensagem, ela subitamente adoeceu e depois de passarem três dias, assim como fora no caso de Siyyid Kázim, partiu dessa vida. Entre os homens que em Karbilá entusiasticamente abraçaram a Causa do Báb mediante os esforços de Táhirih, havia um certo Shaykh Sálih, árabe residente dessa cidade, que foi o primeiro a derramar seu sangue no caminho da Pé em Teerã. Tão profusa era Táhirih em seus elogios de Shaykh Sálih que alguns suspeitavam ser seu grau igual ao de Quddús. Shaykh Sultán era também um dos que caiu sob o fascínio de Táhirih. Ao regressar de Shíráz, identificou-se com a Fé, audaz e assiduamente lhe promovendo os interesses e fazendo o possível para executar as instruções e desejos de Táhirih. Outro admirador foi Shaykh Muhammad-i-Shibil, pai de Muhammad-Mustafá, árabe nativo de Bagdá, que se destacava entre os ulemás dessa cidade. Com o apoio desse grupo escolhido de defensores firmes e capazes, Táhirih logrou inflamar a imaginação e alistar a lealdade de um número considerável dos habitantes persas e árabes do Iraque, a maioria de quem foi por ela induzida 22


a aliar-se com os irmãos da Pérsia que breve seriam chamados para amoldarem com suas façanhas o destino da Causa de Deus e com seu sangue vital lhe selar o triunfo. O apelo do Báb, originariamente dirigido à Seus seguidores na Pérsia, foi dentro em breve transmitido aos aderentes de Sua Fé no Iraque. Gloriosamente respondeu Táhirih. Seu exemplo foi seguido de imediato por grande número de seus admiradores fiéis, todos os quais expressaram sua prontidão para viajar de imediato a Khurásán. Os ulemás de Karbilá tentaram dissuadi-la de empreender essa jornada. Táhirih, logo percebendo o motivo que os induzia a oferecer-lhe tal conselho e consciente de seus maus desígnios, dirigiu a cada um desses sofistas uma longa epístola na qual assinalou seus próprios motivos e expôs a dissimulação por parte deles (6). De Karbilá ela procedeu a Bagdá (7). Uma delegação representativa, composta pelos líderes de maior capacidade (6) Segundo Samandar (manuscrito, p. 9), a razão principal da agitação da população de Karbilá e que os induziu a acusar Táhirih perante o governador de Bagdá foi sua audaz ação de não observar o aniversário do martírio de Husayn que se comemorava nos primeiros dias do mês de Muharram na casa do extinto Siyyid Kázinr em Karbilá e celebrar em seu lugar o dia do nascimento do Báb, que caiu no primeiro dia do mesmo mês. Diz-se que pediu a sua irmã e parentes que largassem o luto e em seu lugar usassem vestidos alegres, desafiando abertamente os costumes e tradições do povo para essa ocasião. (7) Segundo Muhammad Mustafá (pp. 108-9), Táhirih ia acompanhada pelos seguintes discípulos e companheiros quando chegou a Bagdá: Mullá Ibráhím-i-Mahallatí, Shaykh Salih-i-Karímí, Siyyid Ahmad-i-Yazdí (o pai de Siyyid Husayn, o amanuense do Báb). Siyyid Muhammad-i-Báyigání, Shaykh Sultáni-Karbilá'í, a mãe de Mullá Husayn e sua filha, a esposa de Mirzá Hádíy-i-Nahrí e sua mãe. Segundo o "Kashfu'l Ghitá" (p. 94) a mãe e irmã de Mullá Husayn encontravam-se entre as senhoras e discípulos que acompanharam Táhirih em sua viagem de Karbilá à Bagdá. Ao chegarem alojaram-se na casa de Shaykh Muhammad-ibn-i-Shiblu'l-'Araqí, depois do qual foram transladados, por ordem do governador de Bagdá, à casa de Mutfí, Siyyid Mahmúd-i-Álúsí, o renomado autor do célebre comentário intitulado "Rúhú'1-Ma'áni" à espera da chegada de novas instruções do Sultão em Constantinopla. O "Kashfu'1-Ghitá" acrescenta ainda (p. 96) que o "Rúhu'1-Ma'ání' relata haver encontrado referências a conversa que o Muftíuls teve com Táhirih a quem ele dirigiu, segundo se diz as seguintes palavras: "O Qurratu'1-Ayn! Juro por Deus que compartilho vossa crença. No entanto, sinto apreensão pelos sabres da família de "Uthmán". "Ela foi dire-

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entre as comunidades xiita, sunita, cristã e judaica, procurou sua presença e tentou convencê-la da loucura de suas ações. Ela, entretanto, pode lhes silenciar os protestos e os espantou com a força de seu argumento. Desiludidos e confusos, retiraram-se, profundamente conscientes de sua própria impotência (8). Os ulemás de Kirmánsháh receberam Táhirih com respeito e lhe ofereceram vários presentes em sinal de sua estima e admiração (9). Em Hamadán (10), porém, os líderes eclesiásticos da cidade estavam divididos em sua atitude tamente à casa de Muftí perante o qual defendeu sua crença e sua conduta com grande habilidade. A questão era se devia deixar de seguir com seus ensinamentos. Foi primeiro submetida ao Páshá de Bagdá e depois ao governo central, como conseqüência foi ordenada a sair do território turco. ("A Traveller's Narrative", Nota Q., pp. 214-215). (8) Segundo Muhanrmad Mustafá (p. 111), as seguintes pessoas acompanharam a Táhirih desde Khániqín (na fronteira da Pérsia) até Kirmánsháh: Shaykh Sálih-i-Karímí, Shaykh Muhammad-i-Shibil, Shaykh Sultán-i-Karbila'í, Siyyid Ahmad-i-Yazdí, Siyyid Muhammad-i-Báyigáni, Siyyid Mushin-i-Kázimí, Mullá Ibráhím-i-Mahallátí e mais ou menos trinta crentes árabes. Permaneceram três dias na aldeia de Karand, onde Táhirih proclamou intrepidamente os ensinamentos do Báb e obteve muito êxito em despertar o interesse de toda a classe de pessoas na nova revelação. Mil e duzentas pessoas se ofereceram como voluntárias, segundo é dito, para segui-la e fazer o que ele lhes pedisse. (9) Segundo Muhammad Mustafá (p. 112), foi recebida com entusiasmo quando chegou a Kirmánsháh. Príncipes, 'ulemás e oficiais do governo se apressaram em ir visitá-la e se mostraram profundamente impressionados por sua eloqüência, sua intrepidez, sua vasta erudição e a força de seu caráter. O comentário sobre a Sura de Kawthar que havia sido revelado pelo Báb foi lido em público e traduzido. A esposa do Amír, o governador de Kirmánsháh se achava entre as senhoras que conheceram a Táhirih e a ouviram expor os ensinamentos sagrados. O próprio Amír junto com sua família aceitaram a verdade da Causa e deram testemunho de sua admiração e afeto por Táhirih. Segundo Muhammad Mustafá (p. 116), Táhirih permaneceu dois dias na aldeia de Sahnih em seu caminho à Hamadán, onde foi homenageada com uma recepção não menos entusiasta que a que foi feita na aldeia de Karand. Os habitantes da aldeia imploraram que se lhes permitisse reunir os membros da sua comunidade e que se reunissem em conjunto com seus seguidores para a difusão e promoção da Causa. No entanto, ela lhes aconselhou que permanecessem, louvou e bendisse seus esforços e seguiu viagem a Hamadán. (10) Segundo "Memoriais of the Faithful" (p. 275), Táhirih permaneceu dois meses em Hamadán.

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para com ela. Alguns poucos tentaram secretamente provocar o povo e lhe minar o prestígio; outros foram movidos a lhe elogiar abertamente as virtudes e aplaudir a coragem. "Compete-nos," declararam de seus púlpitos esses amigos, "seguirmos seu nobre exemplo e lhe pedir, reverentemente, que nos desvende os mistérios do Alcorão e resolva as complexidades deste Livro Sagrado. Pois nossas mais altas realizações são apenas uma gota em comparação com a imensidade de seu conhecimento." Enquanto Táhirih estava em Hamadán, vieram vê-la aquelas pessoas que seu pai, Hájí Sálih, havia mandado de Qazvín para lhe dar boas vindas e lhe solicitar, em seu nome, que visitasse sua cidade natal e prolongasse sua estada entre eles (11). Embora relutante, ela consentiu. Antes de partir, disse àqueles que a haviam acompanhado do Iraque que procedessem a sua terra natal. Entre estes se achavam Shaykh Sultán, Shaykh Muhammadi-Shibil e seu jovem filho, Muhammad-Mustafá, 'Abid e seu filho Násir, a quem se deu subseqüentemente o nome de Hájí 'Abbás. Aqueles de seus companheiros que antes residiam na Pérsia, tais como Siyyid Muhammad-i-Gulpáyigání, cujo pseudônimo era Tá'ír e a quem Táhirih dera o riõme de Pata'1-Malíh, e outros também, foram aconselhados a regressar a seus lares. Somente dois de seus companheiros com ela permaneceram — Shaykh Sálih e Ibráhím-i-Gulpáyigání, ambos os quais sorveram da taça do martírio, o primeiro em Teerã e o outro em Qazvín. De seus próprios parentes, Mírzá Muhammad-'Alí, uma das Letras dos Viventes e seu cunhado e Siyyid 'Abdu'1-Hádí, que fora noivo de sua filha, viajaram com ela por todo o caminho de Karbilá a Qazvín. Assim que chegou na casa de seu pai, seu primo, o arrogante e falso Mullá Muhammad, filho de Mullá Taqí, que se estimava como sendo, depois de seu pai e seu tio, o de maior capacidade entre todos os mujtahids da Pérsia, mandou certas senhoras de seu próprio lar para persuadirem a Táhirih a transferir sua residência da casa de seu pai para a dele. "Que digam a meu presunçoso e arrogante parente," foi sua resposta audaz às mensageiras: "Se tivesse sido (11) Segundo Muhammad Mustafá (p. 117), entre os que haviam sido enviados desde Qazvín se encontravam os irmãos de Táhirih.

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seu desejo realmente ser um par e companheiro fiel para. mim, teria se apressado a me encontrar em Kartailá e a pé guiado meu howdah (12) por todo o caminho até Qazvín. Eu, enquanto viajávamos juntos, o teria despertado de seu sono de negligência e lhe mostrado o caminho da verdade. Mas isto não tinha que ser. Passaram-se três anos desde nossa separação. Nem neste mundo nem no próximo poderei eu jamais associar-me a você que já está afastado de minha vida para sempre". Esta resposta tão austera e inexorável incitou tanto Mullá Muhammad como seu pai a uma explosão de fúria. De imediato pronunciaram-na herege e se esforçaram dia e noite para lhe minar a posição e macular a fama. Táhirih defendia-se veementemente e persistia em expor a depravação de seu caráter (13). Seu pai, um homem pacífico e equitativo, deplorava essa disputa acrimoniosa e se esforçou para efetuar uma reconciliação e harmonia entre eles, mas falharam seus esforços. Continuou esse estado de tensão até o tempo em que, no princípio do mês de Ramadán, no ano de 1263 A.H. (14), chegou em Qazvín um certo Mullá 'Abdu'lláh, nativo de Shíráz e fervoroso admirador tanto de Shaykh Ahmad como de Siyyid Kázim. Subseqüentemente, durante seu julgamento em Teerã, na presença do Sáhib-Díván, esse Mullá 'Abdu'lláh contou o seguinte: "Nunca fui babí convicto. Quando cheguei em Qazvín, estava em viagem a Máh-Kú, onde pretendia visitar o Báb e investigar a natureza de Sua Causa. No dia de minha chegada em Qazvín, percebi que a cidade estava em grande tumulto. Assim que passei pelo mercado vi um bando de homens brutais que haviam privado um (12) Veja glossário. (13) "Como podia uma mulher, na Pérsia, onde a mulher é considerada uma criatura tão débil e sobretudo em uma cidade como Qazvín, onde o clero possuía uma influência tão grande, onde os ulemás atraíam, por seu número e importância toda a atenção do governo e do povo, — como era possível que ali precisamente sob circunstâncias tão desíavorá veis, pudesse uma mulher organizar um grupo tão forte de hereges? Ali ocorre uma questão que desconcerta inclusive ao historiador persa Sipir, já que tal acontecimento não tinha precedentes!" (Journal Asiatique. 1866, tomo 7, p. 474). (14) 13 de agosto — 12 de setembro de 1847 A. D.

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homem de seu turbante e seus sapatos, amarrado em volta de seu pescoço o turbante, pelo qual o arrastavam pelas ruas. Uma multidão enfurecida atormentava-o com ameaças, pancadas e maldições. 'Sua ofensa imperdoável,' disseram-me em resposta à minha indagação, 4é que ele se atreveu a elogiar em público as virtudes de Shaykh Ahmad e Siyyid Kázim. Em conseqüência, Hájí Mullá Taqí, o Hujjátu'1-Islám, o pronunciou herege e decretou sua expulsão da cidade.' "Espantou-me a explicação que deram. Como poderia um shaykh, pensei comigo, ser considerado herege e julgado digno de tratamento tão cruel? Desejoso de certificar-me da verdade desse boato através do próprio Mullá Taqí, procedi a sua escola e lhe perguntei se havia realmente pronunciado contra ele tal condenação. 'Sim,' retrucou, impassível, 'o deus a quem o falecido Shaykh Ahmad-i-Baharayhí adorava é Um deus em quem eu jamais poderei crer.' Tanto a ele como a seus seguidores considero as próprias personificações do erro. Senti-me impelido naquele mesmo momento a bater-lhe no rosto na presença de seus discípulos aí reunidos. Restringi-me, no entanto, e fiz votos de, se Deus quiser, lhe furar os lábios com meu dardo, para que nunca mais pudesse pronunciar tal blasfêmia. "Logo saí de sua presença e dirigi meus passos ao mercado, onde comprei um punhal e uma lâmina de lança do mais aguçado e fino aço. Escondi-os em meu peito, prontos para satisfazer a paixão que dentro de mim ardia. Aguardando minha oportunidade, entrei, uma noite, no masjid onde ele costumava dirigir a congregação em prece. Esperei até a hora da alvorada, quando vi uma mulher idosa entrar no masjid, levando um tapete, o qual estendeu sobre o assoalho do mihráb (15). Pouco depois vi Mullá Taqí entrar sozinho, andar para o mihráb e oferecer sua oração. Cautelosa e quietamente, eu o segui e fiquei em pé atrás dele. Enquanto se prostrava no chão, eu precipitei-me sobre ele, tirei minha lâmina de lança e a mergulhei em seu pescoço. Ele deu um alto grito. Joguei-o de costas e, desembainhando meu punhal, eu o enfiei bem fundo em sua boca. (15)

Veja glossário. 27


Com o mesmo punhal o bati em vários lugares no peito e no lado, e o deixei sangrando no mihráb. "Subi imediatamente ao telhado do masjid, donde presenciei o frenesi e a agitação da população. Uma multidão precipitou-se a entrar e, pondo-o numa maça, o transportou até sua casa. Não podendo identificar o assassino, o povo aproveitou da oportunidade para satisfazer seus instintos mais vis. Lançaram-se um contra outro, com violência atacando e acusando-se mutuamente na presença do governador. Ao saber que numerosas pessoas inocentes haviam sido sujeitadas a graves injúrias e aprisionadas, fui impelido pela voz de minha consciência a confessar meu ato. Assim procurei a presença do governador e lhe disse: 'Se eu vos entregar em suas mãos o autor desse assassinato, prometereis pôr em liberdade todas as pessoas inocentes que estão sofrendo em seu lugar?' Assim que dele obtivera a necessária afirmação, lhe confessei que eu havia cometido o ato. Ele de início não se dispôs a acreditar em mim. A meu pedido, chamou a velhinha que estendera o tapete no mihrab, mas recusou convencer-se pela evidência por ela dada. Fui finalmente conduzido ao leito de Mullá Taqí, que estava prestes a falecer. Logo que me viu, reconheceu minhas feições. Em sua agitação, ele me apontou com o dedo, indicando que eu o atacara. Assinalou seu desejo de que eu fosse retirado de sua presença. Pouco depois, expirou. Eu fui preso imediatamente, sentenciado de assassinato e aprisionado. O governador, entretanto deixando de cumprir sua promessa, não libertou os presos." Agradou-se muito o Sáhib-Díván da franqueza e sinceridade de Mullá 'Abdu'lláh. Deu ele pois, ordens secretas a seus guardas para permitirem que escapasse da prisão. À hora de meia-noite, o prisioneiro se refugiou na casa de Rida Khán-i-Sardár, que havia recentemente se casado com a irmã do Sipah-Sálár e nesta casa ele permaneceu escondido até a grande luta de Shaykh Tabarsí, quando se determinou a participar da sorte dos heróicos defensores do forte. Ele, bem como Rida Khán, que o seguiu até Mázindarán, sorveu, afinal, da taça do martírio. As circunstâncias do assassinato levaram à fúria a ira dos legítimos herdeiros de Mullá Taqí, que agora se deter28


minaram a tomar vingança de Táhirih. Conseguiram que ela fosse confinada estritamente na casa de seu pai e incumbiram aquelas mulheres que eles haviam escolhido para vigiála, de não permitirem que sua cativa saísse de seu quarto exceto a fim de fazer suas abluções diárias. Acusaram-na de haver sido realmente a instigadora do crime. "Ninguém, senão tu," asseveraram, "és culpada pelo assassinato de nosso pai. Tu emitiste a ordem de assassinato." Aqueles que foram tomados presos e confinados, eles os conduziram a Teerã, onde os encarceraram na casa de um dos kad-khudás (16) da capital. Os amigos e herdeiros de Mullá Taqí espalharam-se em todas as direções, denunciando seus cativos como repudiadores da lei do Islã e exigindo para eles a pena de morte imediata. Bahá'u'lláh, que nesse tempo residia em Teerã, foi informado da lastimável situação desses prisioneiros que haviam sido os companheiros e defensores de Táhirih. Como Ele já conhecia o kad-khudá em cuja casa estavam encarcerados, decidiu visitá-los e intervir por eles. Aquele oficial avarento e falso bem consciente da generosidade extrema de Bahá'u'lláh, na esperança de obter para si vantagens pecuniárias substanciais, exagerou muito o infortúnio que sobreviera aos infelizes prisioneiros. "Estão destituídos das mais exíguas necessidades da vida," insistia o kad-khudá. "Estão famintos e suas roupas são miseravelmente inadequadas." Bahá'u'lláh deu assistência financeira imediata para seu alívio e solicitou ao kad-khudá a amenizar a severidade da disciplina sob a qual eram confinados. Este consentiu a que fossem aliviados alguns poucos que não podiam suportar o peso opressivo de suas correntes, e para os outros fez o possível para lhes suavizar o rigor de seu encarceramento. Incentivado por avareza, informou seus superiores da situação e deu ênfase ao fato de terem alimentos, bem como dinheiro, fornecidos regularmente por Bahá'u'lláh para aqueles aprisionados em sua casa. Esses oficiais foram por sua vez tentados a derivar da liberalidade de Bahá'u'lláh toda vantagem possível. Chamaram-No a sua presença, protestaram contra Sua ação, acusaram-No de cumplicidade no ato pelo qual os cativos ha(16)

Veja glossário.

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viam sido condenados. "O kad-khudá," replicou Bahá'u'lláh. "defendeu diante de Mim a causa deles e discorreu longamente sobre seus sofrimentos e suas necessidades, Ele próprio deu testemunho de sua inocência e a Mim apelou por ajuda. Em retribuição pelo auxílio que, em resposta a seu convite, me senti impelido a prestar, vós agora me acusais de um crime do qual sou inocente." Esperando intimidar Bahá'u'lláh com ameaças de punição imediata, recusaram permitir que Ele regressasse a Sua casa. O encarceramento ao qual teve que sujeitar-se foi a primeira aflição que sobreveio a Bahá'u'Uáh no caminho da Causa de Deus, o primeiro aprisionamento que sofreu por causa de Seus bem-amados. Permaneceu em cativeiro por poucos dias, até que Já'far-Quli Khán, irmão de Mírzá Áqá Khán-i-Núrí, que mais tarde foi nomeado Grão Vizir do Xá e alguns outros amigos intervieram por Ele e, ameaçando o kad-khudá em linguagem severa, conseguiram efetivar Sua libertação. Aqueles responsáveis por Seu encarceramento haviam confidentemente esperado receber, como recompensa por Sua liberdade, a soma de mil túmáns (17), mas breve descobriram que tinham que se conformar com a vontade de Já'far-Qulí Khán sem esperança de receberem, nem dele, nem de Bahá'u'lláh, a mínima remuneração. Com desculpas profusas e grande pesar, renderam as suas mãos seu Cativo. Os herdeiros de Mullá Taqí estavam, entrementes, envidando todo esforço para vingar o sangue de seu distinto parente. Não satisfeitos com aquilo que já haviam feito, dirigiram seu apelo ao próprio Muhammad Sháh tentando conquistar sua simpatia para sua causa. Diz-se haver o Xá respondido do seguinte modo: "Vosso pai, Mullá Taqí, seguramente não poderia ter tido pretensão de ser superior ao Imame 'Ali, Comandante dos Fiéis. E ele não instruiu a seus discípulos que, caso caísse vítima da espada de Ibn-i-Mulham, o assassino, tão somente, deveria expiar com sua morte seu ato, que nenhum outro, senão ele, deveria ser morto? Por que não deve o assassinato de vosso pai ser vingado de modo semelhante? Declarai a mim seu assassino e emitirei (17)

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Veja glossário.


minhas ordens para ele ser entregue em vossas mãos para que lhe possais infligir o castigo merecido." A atitude inflexível do Xá induziu-os a abandonar as esperanças que haviam nutrido. Declararam Shaykh Sálih o assassino de seu pai, conseguiram prendê-lo e ignominiosamente o mataram. Foi ele o primeiro a derramar seu sangue no solo da Pérsia no caminho da Causa de Deus, o primeiro daquela gloriosa companhia destinada a selar com seu sangue vital o triunfo da santa Fé de Deus. Enquanto o conduziam à cena de seu martírio, sua face ardia de zelo e júbilo. Apressou-se ao pé do cadafalso e foi ao encontro de seu algoz como se estivesse dando boas vindas a um amigo querido de toda a vida. Caiam incessantemente de seus lábios palavras de triunfo e de esperança. "Rejeitei," exclamou ele com exultação, ao se aproximar seu fim, "as esperanças e as crenças dos homens desde o momento em que Te reconheci, Tu que és minha Esperança e minha Crença!" Seus restos mortais foram enterrados no pátio do santuário do Imame Zádih Zayd em Teerã. O ódio insaciável que animava aqueles responsáveis pelo martírio de Shaykh Sálih impeliu-os a procurarem ainda mais instrumentos para a execução de seus desígnios. Hájí Mírzá Aqásí, a quem o Sáhib-Díván lograra convencer da conduta pérfida dos herdeiros de Mullá Taqí, recusou atender seu apelo. Não dissuadidos por causa de sua recusa, submeteram seu caso ao Sadr-i-Ardibílí, homem notoriamente presunçoso e um dos mais arrogantes entre os chefes eclesiásticos da Pérsia. "Vede," argüiram, "a indignidade que foi infligida àqueles cuja função suprema é guardar a integridade da Lei. Como podeis vós, que sois seu expoente ilustre e principal, permitir que tão grave afronta para sua dignidade permaneça impune? Sois realmente incapaz de vingar o sangue daquele ministro do Profeta de Deus que foi trucidado? Não compreendeis que o próprio ato de ser tolerado tão abominável crime soltaria uma torrente de calúnia contra aqueles que são os principais repositórios dos ensinamentos e preceitos de nossa Fé? Vosso silêncio não haverá de encorajar os inimigos do Islã a demolirem a estrutura que vossas próprias mãos ergueram? E, em conseqüência, vossa própria vida não será posta em perigo?" 31


O Sadr-i-Ardibílí ficou gravemente apreensivo e em sua impotência procurou seduzir seu soberano. Dirigiu a Muhammad Sháh o seguinte pedido: "Humildemente queria eu implorar a Vossa Majestade que permitais que os cativos acompanhem os herdeiros daquele líder martirizado em sua volta a Qazvín, a fim de que estes, de sua espontânea vontade, lhes possam publicamente perdoar sua ação e facilitar a recuperação de sua liberdade. Tal gesto de sua parte haverá de lhes realçar consideravelmente a posição e conquistar a estima de seus compatriotas." O Xá, completamente inconsciente dos malévolos desígnios daquele astucioso conspirador, acedeu de imediato a seu pedido, mas na condição expressa de que lhe fosse enviada de Qazvín uma declaração escrita informando-lhe que a condição dos prisioneiros após sua libertação era inteiramente satisfatória e que não haveria probabilidade de lhes sobrevir qualquer dano no futuro. Mal foram os cativos entregues nas mãos dos malfeitores, quando estes se puseram a satisfazer seus sentimentos de ódio implacável para com eles. Na primeira noite depois de haverem sido entregues aos seus inimigos. Hájí Asadu'Uáh, irmão de Hájí Alláh-Vardí e tio paterno de Muhammad-Hádí e Muhammad-Javad-i-Parhádí, conhecido mercador de Qazvín que havia adquirido uma reputação por piedade e integridade tão alta como a de seu ilustre irmão, foi cruelmente morto. Bem sabendo que em sua própria cidade natal não lhe poderiam infligir o castigo que desejavam, determinaram-se a tirar-lhe a vida enquanto em Teerã, de um modo que os protegesse de suspeita de assassinato. Na hora de meia-noite perpetraram o ato ignominioso e, na manhã seguinte, anunciaram que doença fora a causa de sua morte. Seus amigos e conhecidos, em sua maioria nativos de Qazvín, nenhum dos quais pudera descobrir o crime que havia extinguido uma vida tão nobre, concederam-lhe um enterro digno de sua posição. Os outros de seus companheiros, entre eles Mullá Táhiri-Shírází e Mullá Ibráhím-i Mahallatí, ambos muito estimados por sua erudição bem como por seu caráter, com selvageria foram assassinados logo após sua chegada em Qazvín. A população inteira, que havia sido assiduamente instigada antes, clamava por sua execução imediata. Um bando de 32


facínoras desavergonhados, munidos de facas, espadas, lanças e machados, investiram contra eles e os despedaçaram com tão desenfreada barbaridade que entre seus membros espalhados não se encontrava nenhum fragmento sequer para sepultura. Deus misericordioso! Atos de tão incrível selvageria foram perpetrados numa cidade como Qazvín, que se orgulha do fato de que nada menos de cem dos mais eminentes eclesiásticos do Islã residem dentro de seus portões e, no entanto, nenhum se encontrava entre todos os seus habitantes para levantar a voz em protesto contra tão revoltantes assassinatos! Ninguém parecia questionar seu direito de perpetrar atos tão iníquos e vergonhosos. Ninguém parecia perceber a incompatibilidade absoluta entre tais atos ferozes cometidos por aqueles que se diziam os repositórios únicos dos mistérios do Islã e a conduta exemplar daqueles que primeiro manifestaram ao mundo a sua luz. Ninguém se sentiu impelido a exclamar com indignação: "ó malvada e perversa geração! A que profundezas de infâmia e vergonha vos baixastes! As abominações das quais fostes autores não excederam em sua desumanidade os atos dos mais vis dos homens? Não quereis reconhecer que nem a ferocidade dos animais selvagens do campo nem a de qualquer coisa que se mova sobre a Terra, jamais igualou aquela que distingui vossos atos? Por quanto tempo haverá de durar vossa negligência? Não é vossa crença que a eficácia de toda oração congregacional depende da integridade daquele que dirige essa oração? Não tendes declarado repetidas vezes que nenhuma dessas orações é aceitável aos olhos de Deus, a menos que e antes que, o imame por quem a congregação é dirigida haja purgado de todo traço de malícia o seu coração? E, no entanto, aqueles que instigam a perpetração de tais atrocidades e nelas participam, não os julgais os verdadeiros dirigentes de vossa Fé, as próprias personificações da eqüidade e da justiça? Não foi as suas mãos que entregastes as rédeas de vossa Causa e não os considerastes os mestres de vossos destinos?" A notícia desse ultraje chegou a Teerã e se espalhou com espantosa rapidez por toda a cidade. Hájí Mirzá Aqásí protestou veementemente. "Em qual passagem do Alcorão," 33


dizem haver ele exclamado, "em qual tradição de Maomé, se justificou o massacre de várias pessoas a fim de vingar o assassinato de uma só?" Muhammad Sháh também expressou forte desaprovação da conduta pérfida do Sadr-iArdibíií e seus confederados. Denunciou-lhe a covardia, baniu-o da capital e o condenou a uma vida de obscuridade em Qum. Essa degradação de seu posto causou satisfação imensa ao Grão Vizir, que havia até então laborado em vão para efetivar sua queda, e a quem essa súbita retirada aliviou das apreensões que a extensão de sua autoridade inspirara. Sua própria denúncia do massacre de Qazvín foi motivada não tanto pela sua simpatia com a Causa das vítimas indefesas, como pela esperança de envolver Sadr-iArdibílí em tais embaraços que inevitavelmente o tivessem de desonrar aos olhos de seu soberano. O fato de não haver o Xá e seu governo infligido castigo imediato aos malfeitores os encorajou a procurar ainda mais meios de satisfazer seu implacável ódio aos seus oponentes. Dirigiram agora a atenção à própria Táhirih e resolveram que ela sofresse de suas mãos a mesma sorte que aos companheiros sobreviera. Enquanto ainda presa, Táhirih, assim que foi informada dos desígnios de seus inimigos, dirigiu a seguinte mensagem a Mullá Muhammad, que sucedera à posição do seu pai e estava agora reconhecido como o Imame Jum'ih de Qazvín: " 'De bom grado com as bocas extinguiriam a luz de Deus, mas Deus só desejava aperfeiçoar Sua luz, embora os infiéis a abominem (18).' Se minha Causa é a Causa da Verdade, se o Senhor a quem adoro não for outro, senão o Deus Uno e Verdadeiro, Ele, antes de haverem passado nove dias, me livrará do julgo de vossa tirania. Se Ele falhar, se não efetivar minha libertação, estareis livres para agirdes como desejardes. Havereis estabelecido irrevogavelmente a falsidade de minha crença." Mullá Muhammad, reconhecendo sua incapacidade para aceitar um desafio tão audaz, não se dignou de tomar conhecimento algum dessa mensagem e tentou por todos os meios astutos executar seu propósito. (18)

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Alcorão, 9:33.


Naqueles dias, antes de soar a hora por Táhirih fixada para sua libertação, Bahá'u'lláh indicou Seu desejo de livrála do cativeiro e trazê-la a Teerã. Determinou-se a estabelecer, aos olhos do adversário, a verdade das palavras de Táhirih e a frustrar os ardis que os inimigos haviam concebido para sua morte. Assim, pois, foi chamado a Sua presença Muhammad Hádíy-i-Farhádí, a quem foi confiada a tarefa de efetivar a transferência imediata de Táhirih à própria residência de Bahá'u'lláh em Teerã. MuhammadHádí foi incumbido de entregar à esposa, Khátún-Ján, uma carta selada e lhe dar instruções para seguir, disfarçada como mendiga, para a casa em que Táhirih estava confinada e entregar em suas mãos a carta, depois do qual deveria esperar um pouco na entrada da casa, até que Táhirih viesse e então apressar-se em a levar e a confiar aos cuidados dele. "Assim que Táhirih estiver em tua companhia," exortou Bahá'u'lláh ao emissário, "deveras partir imediatamente para Teerã. Nesta noite mesma, expedirei às cercanias do portão de Qazvín um subordinado meu com três cavalos, os quais levarás e permanecerás em lugar que será por ti escolhido fora dos muros de Qazvín. A esse lugar deveras conduzir Táhirih, onde montarão os cavalos e, por um caminho pouco freqüentado, esforçar-te a alcançar na hora do amanhecer as imediações da capital. Logo que se abrirem os portões, deveras entrar na cidade e seguir logo a Minha casa. A máxima cautela deve ser exercida para que a identidade de Táhirih não seja revelada. O Todo-poderoso haverá seguramente de te guiar os passos e te cercar de Sua infalível proteção." Fortificado por essa afirmação de Bahá'u'lláh, Muhammad-Hádí prontamente partiu a fim de levar a cabo as instruções que receberá. Sem que qualquer empecilho o obstruísse, desempenhou sua tarefa, hábil e fielmente, conseguindo entregar Táhirih com segurança, na hora marcada, na casa de seu Mestre. Seu súbito e misterioso desaparecimento de Qazvín encheu de consternação amigos e inimigos igualmente. Inútil foi sua busca nas casas durante toda a noite, e frustrados foram seus esforços por encontrá-la. Até os mais céticos entre os oponentes ficaram atônitos diante do cumprimento da predição por ela pronunciada. Alguns 35


poucos vieram a perceber o caráter sobrenatural da Fé por ela esposada e, contentes, aquiesceram em suas pretensões. Mírzá 'Abdul'1-Vahháb, seu próprio irmão, naquele mesmo dia admitiu a verdade da Revelação, mas pelos atos subseqüentemente deixou de demonstrar a sinceridade de sua crença (19). A hora que Táhirih fixara para sua libertação já a encontrou seguramente estabelecida à sombra protetora de Bahá'u'lláh. Bem sabia ela em cuja presença fora admitida; profundamente consciente estava do caráter sagrado da hospitalidade que tão benevolamente lhe havia sido concedida (20). Assim como acontecera com sua aceitação da Fé proclamada pelo Báb, quando ela, sem ser admoestada ou chamada, saudou Sua Mensagem e lhe reconheceu a verdade, do mesmo modo percebia ela por seu próprio conhecimento intuitivo, a futura glória de Bahá'u'lláh. Foi no ano de 1260, enquanto em Karbilá, que em suas odes se referiu a seu reconhecimento da Verdade a ser por Ele revelada. A mim mesmo foram mostrados em Teerã, na casa de Siyyid Muhammad, a quem Táhirih denominara Fata'1-Malíh, os versos que por seu próprio punho escrevera, cada (19) Segundo o "Kashfu'1-Ghitá" (p. 110), Mullá Ja'far-i-Vá'iz-iQazvín declarou que Mullá Husayn conheceu a Táhirih em Qazvín na casa de Áqá Hádí que provavelmente não é outro senão Muhairrmad Hádíy-i-Farhádí que foi encarregado por Bahá'u'lláh para levar Táhirih à Teerã. Diz-se que o encontro foi feito antes do assassinato de Mullá Táqí. (20) 'Abdu'1-Bahá relata em "Memoriais of the Faithful" (p. 306) as circunstâncias de uma visita feita por Vahíd a Táhirih enquanto esta se encontrava em casa de BaháVlláh em Teerã. "Táhirih", escreve ele, "escutava detrás de uma cortina as palavras de Vahíd que falava com fervor e eloqüência sobre os sinais e versículos que atestavam o advento da nova Manifestação. Eu era então uma criança e estava sentado sobre seu colo enquanto ela seguia a exposição dos extraordinários testemunhos que fluíam incessantemente dos lábios deste homem erudito. Recordo-me muito bem, como ela, de súbito, o interrompeu e elevando sua voz declarou com veemência: 'Oh Yahyá! Deixe que as ações, e não as palavras, sejam um testemunho de vossa fé, se sois um homem de verdadeira erudição. Deixe as vãs repetições de tradições do passado por quanto é chegado o dia de serviços e ações decididas. Agora é o momento de mostrar os verdadeiros sinais de Deus, de rasgar os véus da vã fantasia, de promover a Palavra de Deus e de sacrificarmo-nos em Seu caminho. Deixe que as ações, não as palavras, sejam nosso adorno.' "

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letra dos quais dava eloqüente testemunho de sua fé nas exaltadas Missões tanto do Báb como de Bahá'u'lláh. Ocorre nessa ode o seguinte verso: "A fulgência da Beleza de Abhá penetrou o véu da noite; eis as almas dos que O amam, dançando, feitas partículas de pó na luz que de Sua face lampejou!" Foi por estar firmemente convicta do invencível poder de Bahá'u'lláh que se sentiu impelida a pronunciar com tanta confiança sua predição e a lançar na face dos inimigos seu desafio tão audaz. Nada menos que uma fé inabalável na infalível eficácia desse poder a teria induzido nas mais tenebrosas horas de seu cativeiro, a asseverar com tamanha coragem e certeza que estava próxima sua vitória. Poucos dias após a chegada de Táhirih em Teerã, Bahá'u'lláh decidiu mandá-la a Khurásán na companhia dos crentes que estavam se preparando para ir a essa província. Ele também se determinara a deixar a capital e seguir na mesma direção alguns dias depois. Assim, pois, chamou Aqáy-i-Kalím e lhe disse que tomasse de imediato as medidas necessárias para assegurar a transferência de Táhirih, com sua acompanhante, Qánitih, a um lugar fora do portão da capital, donde, mais tarde, procederiam a Khurásán. Preveniu-o que exercesse extremo cuidado e vigilância para que os guardas estacionados na entrada da cidade e que tinham ordens de não permitirem a passagem de mulheres pelos portões sem uma licença, não descobrissem sua identidade e lhe impedissem a partida. Tenho ouvido Aqáy-i-Kalím contar o seguinte: "Pondo nossa confiança em Deus, saímos montados, Táhirih, sua acompanhante e eu, a um lugar nas imediações da capital. Nenhum dos guardas estacionados no portão de Shimirán fez a mínima objeção, nem indagaram eles a respeito de nosso destino. A uma distância de dois farsangs (21) da capital, apeamos no meio de um pomar abundantemente abastecido de água e situado ao pé de uma montanha e em cujo centro havia uma casa que parecia completamente abandonada. Indo a procura do proprietário, encontrei por acaso um velho ocupado em regar suas plantas. Em res(21)

Veja glossário.

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posta a minha pergunta, explicou ele que uma disputa surgira entre o dono e seus inquilinos, em conseqüência da qual os ocupantes haviam abandonado o lugar. 'Pediu-me o dono,' acrescentou, 'que guardasse a propriedade até se resolver a disputa.' Muito me contentou essa informação e o convidei a participar conosco de nosso almoço. Quando mais tarde decidi ir a Teerã, ele consentiu em vigiar e proteger Táhirih e sua acompanhante. Ao entregá-las a seu cuidado, eu lhe assegurei que voltaria àquela noite, eu mesmo, ou enviaria uma pessoa de confiança a quem eu seguiria na manhã seguinte com todos os requisitos para a viagem a Khurásán. "Ao chegar em Teerã, mandei para onde estava Táhirih, Mullá Báqir, uma das Letras dos Viventes com um acompanhante. Informei Bahá'u'lláh de sua partida, sã e salva, da capital. Muito O contentou a informação que Lhe dei e Ele denominou aquele pomar 'Bágh-i-Jannat' (22). 'Aquela casa', comentou, 'foi providencialmente preparada para sua recepção, a fim de que nela fossem acolhidos os bem-amados de Deus.' "Demorou-se sete dias Táhirih, nesse lugar, depois do qual partiu, acompanhada de Muhammad-Hasan-i-Qazvíní, de sobrenome Fatá e alguns outros, em direção a Khurásán. Ordenou-me Bahá'u'lláh que arranjasse tudo para sua partida, providenciando qualquer coisa que pudesse ser necessária para a viagem."

(22)

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"Jardim do Paraíso".


CAPÍTULO XVI A CONFERÊNCIA DE BADASHT Poucos dias depois de Táhirih iniciar sua jornada, Bahá'u'lláh ordenou a Aqáy-i-Kalím que completasse os necessários preparativos para Sua projetada partida para Khurásán. A seu cuidado entregou os membros de Sua família, pedindo-lhe que providenciasse tudo o que lhes pudesse assegurar bem-estar e segurança. Quando chegou em Sháh-Rúd, Bahá'u'lláh foi recebido por Quddús, que deixara Mashhad, onde residia e viera Lhe dar boas vindas ao saber de Sua aproximação. A província inteira de Khurásán estava, naqueles dias, passando pela angústia de uma violenta agitação. As atividades que Quddús e Mullá Husayn haviam iniciado, seu zelo, sua coragem, sua linguagem franca, despertaram o povo de sua letargia, acendendo nos corações de alguns os mais nobres sentimentos de fé e devoção e nos peitos de outros, provocando os instintos de apaixonado fanatismo e malícia. Numerosos inquiridores constantemente afluíam de todas as direções a Mashhad, ansiosamente procurando a residência de Muilá Husayn e sendo por ele conduzido à presença de Quddús. Muito breve a tais proporções se elevou seu número, que isso excitou a apreensão das autoridades. O chefe de polícia via com preocupação e consternação as multidões de pessoas agitadas que incessantemente afluíam a todas as partes da cidade santa. Em seu desejo de assegurar seus direitos, intimidar Mullá Husayn e induzi-lo a restringir o 39


âmbito de suas atividades, emitiu ordens para prender imediatamente o servo especial dele, de nome Hasan, e sujeitálo a tratamento cruel e ignominioso. Furaram-lhe o nariz, passaram uma corda pela incisão e com esta como cabresto, pelas ruas o conduziram e exibiram. Mullá Husayn estava na presença de Quddús quando lhe veio a notícia da aflição infame que a seu servo sobreviera. Receando que se tornasse pesaroso o coração de seu amado chefe, ao saber dessa triste ocorrência, levantou-se e se retirou em silêncio. Breve seus companheiros se reuniram a seu redor, expressaram sua indignação por aquele ataque atroz contra esse tão inocente seguidor de sua Fé e lhe solicitaram que vingasse o ultraje. Mullá Husayn tentou lhes mitigar a ira. "Não deixeis vos afligir e perturbar," exortava ele, "por causa da indignidade que sucedeu a Hasan, pois Husayn está ainda convosco e o entregará em vossas mãos são e salvo amanhã." Em face de tão solene afirmação, seus companheiros não se aventuraram a comentar mais. Ardiam-lhes os corações, entretanto, com impaciência para reparar aquela injúria amarga. Alguns afinal, decidiram juntar-se e levantar altamente, pelas ruas de Mashhad, o brado de "Yá Sáhibu 'z-Zamán!" (1), como protesto contra aquela repentina afronta à dignidade de sua Fé. Foi esse brado o primeiro de seu gênero a ser erguido em Khurásán em nome da Causa de Deus. A cidade retumbava com o som daquelas vozes. Os ecos de seus brados alcançaram até às regiões mais distantes da província, erguendo nos corações do povo em grande tumulto e foram o sinal para os tremendos acontecimentos destinados a vir no futuro. Em meio à confusão que se seguiu, aqueles que seguravam o cabresto pelo qual arrastavam Hasan pelas ruas, pereceram pela espada. Os companheiros de Mullá Husayn conduziram a sua presença o cativo já liberto e lhe informaram da sorte que havia sobrevindo ao opressor. "Recusastes," diz-se haver Mullá Husayn comentado, "tolerar as provações às quais foi Hasan sujeitado; como podereis vos reconciliar com o martírio de Husayn? (2)" (1) (2)

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"O Senhor da Época!" Um dos títulos do Qá'im prometido. Alusão a seu próprio martírio.


A cidade de Mashhad, que acabava de recuperar sua paz e tranqüilidade após a rebelião que o Sálár provocara, mergulhou-se novamente em confusão e angústia. O Príncipe Hamzih Mírzá estacionara com suas tropas e munições a uma distância de quatro farsangs (3) da cidade, pronto para enfrentar qualquer emergência que surgisse, quando, de repente, lhe veio a notícia desses novos distúrbios. De imediato expediu ele um destacamento à cidade, com instruções para obter a assistência do governador na apreensão de Muliá Husayn e conduzi-lo a sua presença. 'Abdu'l-'Alí KMn-i-Marághiyí, capitão da artilharia do príncipe, imediatamente interviu. "Julgo-me," apelou ele, "um dos que amam e admiram Mullá Husayn. Se vós pensais em lhe infligir qualquer mal, imploro-vos que tomeis minha vida e então procedais a executar vosso desígnio, pois eu, enquanto viver, não poderei tolerar o menor desrespeito para com ele." O príncipe, que bem sabia quanto necessitava desse oficial, sentiu-se muito embaraçado diante dessa inesperada declaração. "Também já encontrei Mullá Husayn," foi sua resposta, em sua tentativa de remover a apreensão de 'Abdul-'Alí Khán. "Eu também lhe nutro a maior devoção. Chamando-o a meu acampamento, espero restringir o âmbito dos distúrbios que têm sido provocados e salvaguardar sua pessoa." O príncipe então dirigiu a Mullá Husayn, por seu próprio punho, uma carta na qual mostrou quanto era desejável que transferisse sua residência por alguns dias a seu quartel e lhe assegurava seu sincero desejo de protegêlo contra os ataques de seus oponentes enfurecidos. Ordenou que sua própria tenda, belamente ornamentada, fosse erguida na vizinhança de seu acampamento e reservada para a recepção do hóspede esperado. Ao receber essa comunicação, Mullá Husayn a apresentou a Quddús, quem lhe aconselhou que respondesse ao convite do príncipe. "Nenhum mal te pode suceder," Quddús lhe assegurou. "Quanto a mim, nesta mesma noite partirei na companhia de Mírzá Muhammad-'Alíy-i-Qazvíní, uma das Letras dos Viventes, para Mázindarán. Queira Deus, tu também, mais tarde, chefiando uma grande companhia dos (3)

Veja glossário.

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fiéis e precedido pelos 'Estandartes Negros' partirás de Mashhad e virás a mim. Haveremos de nos encontrar em qualquer lugar que o Todo-poderoso tenha decretado." Jübilosamente Mullá Husayn respondeu. Prostrou-se aos pés de Quddús e lhe assegurou sua firme determinação de cumprir com fidelidade as obrigações que ele lhe impusera. Quddús abraçou-o afetuosamente e, beij ando-lhe os olhos e a testa, o entregou à infalível proteção do Todo-poderoso. Cedo naquela mesma tarde, Mullá Husayn, montando seu corcel, seguiu com dignidade e calma ao acampamento do Príncipe Hamzih Mírzá e foi cerimoniosamente conduzido por 'Abdu'-l'Alí Khán, que juntamente com vários outros oficiais fora designado pelo príncipe para ir a seu encontro e lhe dar boas vindas, à tenda que havia sido erigida especialmente para seu uso. Naquela mesma noite Quddús chamou a sua presença Mírzá Muhammad-Báqir-i-Qá'iní, que construíra o Bábíyyih, juntamente com alguns dos mais proeminentes dentre seus companheiros e os incumbiu de prestarem inquestionável lealdade a Mullá Husayn e lhe obedecerem em tudo o que ele desejasse que fizessem. "Turbulentas são as tempestades que estão a nossa frente," disse-lhes. "Os dias tensos, de violenta comoção, rapidamente se aproximam. Aderi a ele, pois em obediência a seu mando está vossa salvação." Com estas palavras despediu-se Quddús de seus companheiros e, acompanhado por Mirzá Muhammad-'Alíy-i-Qazvíní, partiu de Mashhad. Poucos dias depois, encontrou com Mírzá Sulaymán-i-Núrí, quem lhe informou das circunstâncias que atendiam a libertação de Táhirih de seu encarceramento em Qazvín, de sua viagem era direção a Khurásán e da subseqüente partida de Bahá'u'lláh da capital. Mírzá Sulaymán, bem como Mírzá Muhammad 'Ali, permaneceu na companhia de Quddús até que chegaram em Badasht. Alcançaram essa aldeia na hora do alvorecer e aí encontraram reunidas muitas pessoas a quem reconheceram como seus irmãos de crença. Decidiram, entretanto, continuar sua viagem e assim procederam diretamente a Sháh-Rúd. Quando se aproximavam dessa aldeia, Mírzá Sulaymán, que estava seguindo a uma distância atrás deles, encontrou Muhammad-i-Haná-Sáb, que estava viajando a Badasht. Ao 42


indagar sobre o objetivo dessa reunião, Mírzá Sulaymán foi informado de que Bahá'u'lláh e Táhirih, poucos dias antes, haviam deixado Sháh-Rúd para essa aldeia; que um grande número de crentes já havia chegado de Isfáhán, Qazvín e outras cidades da Pérsia, e esperavam acompanhar Bahá 'u'lláh em Sua projetada jornada a Khurásán. "Diga a Mullá Ahmad-i-Ibdál, que está agora em Badasht," disse Mírzá Sulaymán, "que nesta mesma manhã brilhou sobre vós uma luz cujo esplendor deixastes de reconhecer (4)." Bahá'u'lláh, logo que foi informado por Muhammad-iHaná-Sáb da chegada de Quddús em Sháh-Rúd, decidiu ir a seu encontro. Acompanhado por Mullá Muhammad-i-Mu' allim-i-Núrí, partiu a cavalo naquela mesma noite para essa aldeia e na manhã seguinte, na hora do nascer do sol, já havia regressado a Badasht com Quddús. Era o início do verão. Ao chegar, Bahá'u'lláh alugou três jardins, um dos quais designou exclusivamente ao uso de Quddús, outro separou para Táhirih e sua acompanhante e o terceiro reservou para si próprio. Aqueles que se haviam reunido em Badasht eram oitenta e um em número, todos os quais, desde o tempo de sua chegada até o dia de sua dispersão, foram hóspedes de Bahá'u'lláh. Todos os dias revelava Ele uma Epístola que Mirzá Sulaymán-i-Núrí entoava na presença dos crentes reunidos. A cada um conferiu Ele um novo nome. Ele Próprio foi daí em diante designado pelo nome de Bahá; à última Letra dos Viventes foi conferido o título de Quddús e a Qurratu'1-Ayn o título de Táhirih. O Báb subseqüentemente revelou uma Epístola especial a cada um dos que se haviam reunido em Badasht, dirigindose a cada um pelo nome que lhe fora recentemente conferido. Quando, em época posterior, alguns dos mais rígidos e conservadores dentre os co-discípulos se dignaram de acusar Táhirih de rejeitar indiscretamente as consagradas tradições do passado, o Báb, a quem foram dirigidas essas queixas, nos seguintes termos replicou: "Que haverei eu de dizer a respeito daquela a quem a Língua de Poder e Glória denominou Táhirih (a Pura)?" Cada dia dessa memorável reunião testemunhou a ab-rogação de mais uma lei e o repúdio a uma tradição desde (4)

Alusão a Quddús.

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muito estabelecida. Os véus que guardavam a santidade dos preceitos do Islã foram inexoravelmente rompidos e os ídolos que desde tanto tempo reclamavam a adoração de seus devotos cegos foram bruscamente demolidos. Qual a Fonte, porém, donde procediam essas inovações audazes e desafiadoras, ninguém sabia; qual a Mão que constante e infalivelmente lhes dirigia o curso, ninguém suspeitava. Até a identidade Daquele que conferira um novo nome a cada um dos congregados nessa aldeia permanecia desconhecida àqueles que os haviam recebido. Cada um conjeturava de acordo com seu grau de entendimento. Poucos, acaso alguns, tenuemente desconfiavam ser Bahá'u'lláh o Autor das modificações de vasto alcance que tão destemidamente se introduziam. Shaykh Abú-Turáb, um dos mais informados quanto à natureza dos desenvolvimentos em Badasht, contou — segundo dizem — o seguinte incidente: "Um mal estar, um dia, confinou Bahá'u'lláh a Seu leito. Quddús, ao saber de Sua indisposição, apressou-se logo a visitá-Lo. Quando foi conduzido a Sua presença, sentou-se à direita de Bahá'u'lláh. Os outros companheiros foram pouco a pouco admitidos a Sua presença e se agruparam a Seu redor. Mal se haviam reunido quando de repente entrou Muhammad-Hasan-i-Qazvíní, mensageiro de Táhirih, recém-denominada Fata'1-Qazvíni, que trazia a Quddús um convite premente de Táhirih para visitá-la em seu próprio jardim. 'Dela já me desliguei inteiramente,' foi sua resposta audaz e decisiva. 'Com ela me recuso a encontrar (5).' O mensageiro logo se retirou, mas breve veio novamente, reiterando a mesma mensagem e apelando para ele que lhe atendesse o chamado (5) Segundo o "Kashfu'1-Ghitá". Quddús e Táhirih haviam adotado uma decisão segundo a qual esta proclamaria publicamente o caráter independente da revelação do Báb e faria ênfases sobre as anulações das leis e regulamentos da Dispensação anterior. Por outro lado, Quddús devia opor-se a sua declaração e rechaçar com energia seus pontos de vista. Este acordo, eles fizeram, com o objetivo de mitigar os efeitos de uma proclamação tão desafiante e de tão vastas conseqüências e para prevenir os perigos que uma inovação tão surpreendente produziria, sem dúvida alguma (p. 212). Parece que Bahá'u'lláh adotou uma atitude neutra neste acordo pois quando ele terminasse Ele seria o promotor e a influência que controlava e dirigia esse episódio memorável em cada etapa de seu desenvolvimento.

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urgente. 'Ela insiste em vossa visita/ foram suas palavras. 'Se persistirdes em vossa recusa, ela mesma virá até vós.' Percebendo sua atitude inexorável, o mensageiro desembainhou a espada e a pôs aos pés de Quddús, dizendo: 'Recuso ir sem vós. Ou dignai-vos em me acompanhar à presença de Táhirih, ou me cortai a cabeça com esta espada.' 'Já declarei minha intenção de não visitar Táhirih,' retrucou Quddús irosamente. 'Disposto estou a ceder à alternativa que te dignaste a me apresentar.' "Muhammad-Hasan, que se sentara aos pés de Quddús, havia estendido o pescoço para receber o golpe fatal, quando de súbito a figura de Táhirih, adornada e desvelada, apareceu diante dos olhos dos companheiros reunidos. Consternação de imediato se apoderou da assembléia inteira (6). Atônitos estavam todos diante dessa repentina e totalmente inesperada aparição. Contemplar-lhe a face sem véu lhes era inconcebível. Até fitar sua sombra era coisa por eles julgada imprópria, desde que a consideravam a verdadeira encarnação de Fátimih (7), aos seus olhos o mais nobre emblema da castidade. "Quieta, silenciosamente e com a maior dignidade, Táhirih avançou e, indo em direção a Quddús, sentou-se a sua direita. Sua impertubável serenidade estava em nítido contraste com os semblantes assustados dos que lhe contemplavam a face. Medo, ira e perplexidade agitavam as profundezas de suas almas. Essa súbita revelação parecia haver lhes atordoado as faculdades. 'Abdu'1-Kháliq-i-Isfáhání tão severamente abalado estava que cortou sua garganta com as (6) Porém o efeito foi assombroso. A assembléia parecia haver sido atingida por um raio. Alguns ocultavam seus rostos com as mãos, outros se prosternaram, enquanto uns poucos cobriram suas cabeças com suas vestimentas para não ver o rosto de sua Alteza, A P u r a! Se era um pecado grave olhar o rosto de uma mulher desconhecida que passasse, que crime não seria permitir que a vista pousasse sobre uma que era tão santa! A reunião terminou no meio de um tumulto indescritível. Os insultos choveram sobre aquela que consideravam haver se portado de forma indecente ao proceder desse jeito e aparecer com seu rosto descoberto. Alguns asseguravam que havia perdido a razão, outros que era sem-vergonha e alguns, muito poucos, saíram em sua defesa". (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", pp. 283-284). (7) Filha de Maomé e esposa do Imame 'Ali.

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próprias mãos. Coberto de sangue e com gritos de agitação, fugia da face de Táhirih. Alguns outros, seguindo-lhe o exemplo, abandonaram os companheiros e renunciaram à sua Fé. Alguns foram vistos em pé mudos diante dela, confundidos com espanto. Quddús, entrementes, permanecera sentado em seu lugar, segurando na mão a espada desembainhada, enquanto o rosto demonstrava um sentido de ira inexpressível. Parecia estar esperando o momento em que pudesse infligir a Táhirih o golpe fatal. "Sua atitude ameaçadora, entretanto, não conseguia movê-la. Seu semblante mostrava aquela mesma dignidade e confiança evidenciadas no primeiro momento de sua aparição perante os crentes reunidos. Um sentimento de júbilo e triunfo agora lhe iluminava a face. Levantou-se ela de seu assento e, não impedida pelo tumulto que provocara nos corações de seus companheiros, começou a dirigir-se aos que restavam daquela assembléia. Sem a mínima premeditação e em linguagem que mostrava uma semelhança impressionante àquela do Alcorão, fez seu apelo com inigualável eloqüência e fervor profundo. Concluiu o discurso com este versículo do Alcorão: 'Verdadeiramente, em meio a jardins e rios haverão os piedosos de habitar, no assento da verdade, na presença do Rei potente.' Ao pronunciar estas palavras, lançou um olhar furtivo em direção tanto de Bahá'u'lláh como de Quddús, de tal maneira que os que isto presenciavam não podiam dizer a qual dos dois se referia. Imediatamente depois, declarou: 'Sou o Verbo que o Qá'im há de pronunciar, o Verbo que porá em debandada os chefes e nobres da Terra.' (8) "Virou-se então para Quddús e o repreendeu por haver deixado de cumprir em Khurásán o que ela julgara essencial ao bem-estar da Fé. "Estou livre para seguir as instâncias de minha própria consciência," retrucou Quddús. "Não estou sujeito à vontade e ao bel-prazer de meus companheiros. Retirando dele seu olhar, Táhirih convidou aqueles presentes a celebrarem de um modo digno esta grande ocasião. "Este dia é o dia de festividade e regozijo universal," acrescentou, "o dia em que os grilhões do passado são rompidos. (8)

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Veja Vol. I, p. 64.


Que os que participaram nesta grande realização se levantem e abracem uns aos outros." Aquele dia memorável e os que imediatamente o seguiram testemunharam as modificações mais revolucionárias na vida e nos hábitos dos seguidores reunidos do Báb. Seu modo de adorar passou por uma transformação súbita e fundamental. Foram irrevogavelmente rejeitadas as orações e cerimônias pelas quais aqueles devotos haviam sido disciplinados. Grande confusão, entretanto prevalecia entre aqueles que tão zelosamente haviam levantado a fim de advogar essas reformas. Alguns poucos condenavam uma mudança tão radical, como sendo a essência da heresia, e se recusaram a anular o que consideravam ser os invioláveis preceitos do Islã. Alguns aceitavam Táhirih como o juiz único e a única pessoa qualificada para demandar dos fiéis obediência implícita. Outros que denunciaram sua conduta aderiram a Quddús, a quem consideravam como o único representante do Báb, o único que tinha o direito de pronunciar sobre assuntos tão importantes. Ainda outros que reconheciam a autoridade tanto de Táhirih como de Quddús viam o episódio todo como uma provação mandada por Deus designada para separar o verdadeiro do falso e distinguir os fiéis dos desleais. A própria Táhirih se aventurou em algumas ocasiões a repudiar a autoridade de Quddús. "Julgo-o," dizem haver ela declarado, "um discípulo a quem o Báb me mandou edificar e instruir. Não o vejo a outra luz." Quddús, por sua parte, não deixou de denunciar Táhirih como "a autora de heresia" e aqueles que lhe advogavam as opiniões ele os estigmatizava como "as vítimas do erro". Esse estado de tensão persistiu por alguns dias até que Bahá'u'lláh interviu e, de Sua maneira magistral, efetivou uma reconciliação completa entre eles. Saneou Ele as feridas causadas por aquela controvérsia áspera e os esforços de ambos Ele dirigiu ao caminho do serviço construtivo (9). (9) "Foi esta ação audaz de Qurratu'1-Ayn que estremeceu os cimentos de uma crença literal na doutrina islâmica entre os persas. Pode-se afirmar que os primeiros frutos dos ensinamentos de Qurratu'-1Ayn não era outro senão o Heróico Quddús e que a eloqüente instrutora devia sua perspicácia, com certeza, a Bahá'u'lláh. Está claro que a suposição de que seu melhor amigo pudesse censurá-la é só uma deliciosa

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Atingira-se o objetivo daquela memorável reunião (10). O toque de clarim da nova Ordem soara. As convenções obsoletas que haviam agrilhoado as consciências dos homens foram audazmente desafiadas e intrepidamente abolidas. Desobstruíra-se o caminho para a proclamação das leis e dos preceitos destinados a conduzir a nova Era. Os que restavam dos companheiros congregados em Badasht decidiram, pois, partir para Mazindárán. Quddús e Táhirih sentaramse no mesmo howdah, (11) preparado para sua viagem por Bahá'u'lláh. No caminho, Táhirih cada dia compunha uma ode que, segundo suas instruções, era entoada por aqueles ironia". (Dr. T. K. Cheyne "The Reconciliation of Races and Religions" pp. 103-104). (10) "Sugere-se que a verdadeira causa da convocação desta assembléia foi de ansiedade pelo Báb e o desejo de conduzi-lo a um lugar seguro. No entanto, o ponto de vista mais aceito — que o tema do concilio foi a relação entre os Babís e a lei islâmica — é também mais provável". (Idem, pág. 80). "O objetivo da conferência era corrigir um mal entendido que se achava muito difundido. Muitos pensavam que o novo dirigente viria a cumprir, em um sentido mais literal, com a lei islâmica. Eles compreendiam, por certo, que Maomé tinha por objetivo trazer um reino universal de paz e justiça, porém pensavam que isto se devia levar a cabo caminhando por rios de sangue e com a ajuda dos juizes divinos. O Báb, por outro lado, movia-se, ainda que nem sempre em forma consistente, junto com alguns de seus discípulos, na direção da persuasão moral; sua única arma era "a espada do Espírito, que é a palavra de Deus". Ao surgir o Qá'im todas as coisas seriam renovadas. Porém o Qá'im estava a ponto de surgir e a única coisa que restava era se preparar para a sua vinda. J á não haveria mais distinções entre raças superiores e inferiores ou entre homens e mulheres. J á não seria o véu comprido e envolvente o emblema da inferioridade feminina. A mulher talentosa que se encontra entre nós tinha sua própria e característica solução ao problema... Diz-se em uma tradição que Qurratu'lAyn mesma assistiu à reunião com véu posto. Se assim foi, não perdeu tempo em desfazer-se dele e proclamar (segundo dizem) com uma fervorosa exclamação. "Eu sou o toque do clarim, eu sou a chamada da trombeta", i. e., "como Gabriel, quero despertar almas adormecidas". Diz-se também, que este curto discurso da intrépida mulher foi seguido pela recitação, por parte de Bahá'u'lláh, da Sura da Ressureição (75). Recitações desta natureza freqüentemente tem um efeito surpreendente. O significado íntimo disto era que a humanidade estava a ponto de entrar em novo ciclo cósmico, para o qual seriam indispensáveis um novo conjunto de leis e costumes". (Dr. T. K. Cheyne, "The Reconciliation. of Races and Religions", pp. 101-103). (11)

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Veja glossário.


que a acompanhavam, enquanto seguiam seu howdah. Montanha e vale escoavam os brados com os quais aquele grupo entusiástico, enquanto viajava a Mazindárán, saudava a extinção do velho Dia e o nascimento do Novo. De vinte e dois dias foi a duração da estada de Bahá'u'lláh em Badasht. Alguns poucos dos seguidores do Báb durante sua viagem a Mazindárán tentaram abusar da liberdade que o repúdio às leis e sanções de uma Fé obsoleta lhes conferira. Viram o ato sem precedentes da parte de Táhirih, o de abandonar o véu, como sinal para transgredir os limites da moderação e satisfazer seus desejos egoístas. Os excessos aos quais alguns poucos chegaram provocaram a ira do Todo-Poderoso e causou sua dispersão imediata. Na vila de Níyálá, passaram por penosas provações, sofrendo feridas severas nas mãos de seus inimigos. Essa dispersão extinguiu o mal que alguns irresponsáveis entre os aderentes da Fé haviam tentado incitar, e Lhe preservou imaculadas a honra e dignidade. Tenho ouvido o próprio Bahá'ulláh descrever esse incidente: "Estávamos todos reunidos na aldeia de Níyálá e descansando ao pé de uma montanha, quando, na hora do alvorecer, fomos repentinamente acordados pelas pedras que o povo da vizinhança estava jogando contra nós do cume da montanha. A ferocidade de seu ataque induziu nossos companheiros a fugir em terror e consternação. Vesti Quddús em minhas próprias roupas e o mandei a um lugar seguro, aonde eu pretendia ir a seu encontro. Ao chegar, vi que ele tinha ido embora. Não havia permanecido em Níyálá nenhum de nossos companheiros, exceto Táhirih e um jovem de Shíráz, Mírzá 'Abdu'lláh. A violência com que fomos agredidos havia trazido desolação a nosso acampamento. Pessoa alguma pude eu encontrar em cuja custódia pudesse entregar Táhirih, a não ser aquele jovem que, nessa ocasião, mostrou uma coragem e uma determinação verdadeiramente admiráveis. Espada em mão, destemido em face do selvagem assalto dos habitantes da aldeia, que precipitava para saquear nossa propriedade, ele avançou para deter a mão dos agressores. Embora ele mesmo estivesse ferido em várias partes do corpo, arriscava a vida para proteger nossa propriedade. Eu lhe mandei desistir de fazê-lo. Após haver cessado o tumulto, 49


aproximei-me de alguns dos habitantes da aldeia e pude convencê-los da crueldade e ignomínia de sua conduta. Subseqüentemente consegui recuperar uma parte de nossa propriedade saqueada." Bahá'u'lláh juntamente com Táhirih e sua acompanhante, seguiram para Núr. Shaykh Abú-Turáb foi por Eie escolhido para vigiá-la e garantir sua proteção e segurança. Entrementes se esforçavam os malfeitores para incendiar a ira de Muhammad Sháh contra Bahá'u'lláh e, apontando-O como principal instigador dos distúrbios de Sháh-Rúd e Mázindárán, conseguiu, afinal, induzir o soberano a mandar prendê-Lo. "Até agora," dizem haver o Xá irosamente comentado, "recusei sancionar qualquer culpa que lhe atribuíssem. O que motivou minha indulgência foi meu reconhecimento dos serviços que a meu país seu pai prestara. Desta vez, porém, me determinei a mandar executá-lo." Assim, pois, mandou um dos oficiais em Teerã dar instruções a seu filho que residia em Mázindárán para prender Bahá'u'lláh e conduzi-Lo à capital. O filho desse oficial recebeu a comunicação justamente no dia antes da recepção que prepara em homenagem a Bahá'u'lláh, a quem tinha grande devoção. Profundamente se afligiu, mas não divulgou a notícia a ninguém. Bahá'u'lláh, entretanto, percebeu sua tristeza e o aconselhou a colocar sua confiança em Deus. No dia seguinte, enquanto Bahá'u'lláh estava sendo acompanhado por Seu amigo a sua casa, encontraram um cavaleiro que vinha de Teerã. "Muhammad Sháh está morto!" Exclamou o amigo no dialeto de Mázindárán, voltando apressadamente a Ele, após breve conversação com o mensageiro. Tirou a intimação imperial e a mostrou. Perdera o documento sua eficácia. Aquela noite foi passada na companhia de seu hóspede numa atmosfera de ininterrupta calma e alegria. Nesse meio tempo havia Quddús caído nas mãos de seus oponentes e sido confinado em Sárí na casa de Mírzá Muhammad-Taqí, principal mujtahid daquela cidade. Os companheiros restantes, após sua dispersão em Níyálá, se haviam espalhado em várias direções, levando cada um de seus correligionários as notícias dos momentosos acontecimentos de Badasht. 50


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CAPÍTULO XVII O ENCARCERAMENTO DO BÁB NA FORTALEZA DE CHIHRÍQ O incidente de Níyálá ocorreu em meados do mês de Sha'bán, no ano de 1264 A.H. (1). Perto do fim desse mesmo mês, foi o Báb levado a Tabríz, onde sofreu nas mãos de Seus opressores uma injúria severa e humilhante. Essa deliberada afronta à Sua dignidade quase que sincronizou com o ataque dirigido pelos habitantes de Níyálá contra Bahá'u' lláh e Seus companheiros. Um foi apedrejado por um povo ignorante e pugnaz; o outro castigado a bastonada por um cruel e traiçoeiro inimigo. Relatarei agora as circunstâncias que levaram àquela odiosa indignidade que os perseguidores do Báb se dignaram de Lhe infligir. Segundo as ordens emitidas por Hájí Mírzá Áqásí, fora Ele transferido à fortaleza de Chihríq (2) e entregue à guarda de Yahyá Khán-i-Kurd, cuja irmã era esposa de Muhammad Sháh, a mãe de Náyi bu's-Saltanih. Estritas e explícitas instruções foram dadas pelo Grão-Vizir a Yahyá Khán, ordenando-lhe que a ninguém permitisse entrar na presença de seu Prisioneiro. Foi advertido especialmente que não seguisse o exemplo de 'Ali Khán-i-Máh(1) 3 de julho — 1.° de agosto de 1848 A. D. (2) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 18) o Báb permaneceu três meses na fortaleza de Chihríq antes de ser levado à Tabríz para ser examinado.

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Kú-í, que pouco a pouco havia sido levado a desatender as ordens recebidas (3). A despeito do caráter enfático dessa injunção e em face da inexorável oposição do onipotente Hájí Mirzá Aqásí, Yahyá Khán se achou impotente para seguir aquelas instruções. Ele também, logo veio a sentir a fascinação de seu Prisioneiro e, assim que entrou em contato com Seu espírito, se esqueceu do dever que lhe fora ordenado cumprir. Desde o início, o amor do Báb lhe penetrou o coração e conquistou todo o seu ser. Os curdos que viviam em Chihríq, e cujo fanatismo e ódio dos xiitas excediam a aversão que os habitantes de Máh-Kú lhes tinham, foram igualmente sujeitados à transformadora influência do Báb. Tal foi o amor por Ele ateado em seus corações que toda manhã antes de saírem para o trabalho diário, dirigiam os passos à Sua prisão e, fitando de longe a fortaleza que continha o Ente bem-amado, Lhe invocavam o nome e suplicavam Suas bênçãos. Prostravam-se no chão e procuravam refrescar suas almas com a lembrança D'Ele. Relatavam livremente, um ao outro, as maravilhas de Seu poder e glória e contavam os sonhos que davam testemunho do poder criador de Sua influência. A ninguém recusava Yahyá Khán entrada na fortaleza (4). Como Chihríq não tinha capacidade para acomodar o crescente número de visitantes que afluíam aos seus portões, facilitou-lhes a obtenção do alojamento necessário (3) "O Báb foi submetido a um confinamento mais limitado e rigoroso em Chihríq do que havia sido submetido em Máh-Kú. É por isto que costumava chamar àquela "A Fonte dos Castigos" (Jabal-iShadíd, sendo o valor numérico da palavra Shadíd — 318 — igual a da palavra Chiríq) e a esta última "A Montanha Aberta" (Jabal-i-Básit) ("A Traveller's Narrative", Nota L, p. 276). (4) "Ali como em todas as partes as pessoas se apinhavam ao seu redor. M. Mochenin disse em suas memórias referentes ao Báb: 'No mês de junho de 1850 (Não é mais provável que tenha sido em 1849?) havendo ido a Chihríq por questões de trabalho, vi o Bálá Khánih de cujas alturas o Báb ensinava sua doutrina. A multidão de assistentes era tão grande que o pátio não era suficiente grande para que coubessem todos; a maioria deles permanecia nas ruas e escutava com religioso encanto os versículos do novo alcorão. Pouco depois o Báb foi transferido para Tabríz para ser condenado a morte". (Journal Asiatique, 1866, tomo 7, p. 371).

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em Iskí-Shahr, a antiga Chihríq, situada à distância de uma hora da fortaleza. Quaisquer provisões requisitadas para o Báb eram compradas na velha cidade e transportadas à Sua prisão. O Báb, um dia, pedira que lhe fosse comprado algum mel, mas o preço pago lhe parecia exorbitante. Recusou-o, dizendo: "Mel de qualidade superior poderia ter sido comprado, sem dúvida, por um preço menor. Eu que sou vosso exemplo tenho sido mercador de profissão. Incumbe-vos em todas as transações seguir Meu modo. Não deveis fraudar vosso próximo, nem permitir que ele vos fraude. Tal foi o modo de vosso Mestre. Os mais astutos e capazes dos homens não O puderam enganar, nem Ele por Sua parte se dignava de agir de um modo pouco generoso para com as mais desprezíveis e desamparadas das criaturas." Insistiu em que o servo que fizera a compra voltasse e Lhe trouxesse um mel de qualidade superior e preço menos caro. Durante o cativeiro do Báb na fortaleza de Chihríq, acontecimentos de caráter assustador causaram ao governo grave inquietação. Breve se tornou evidente que alguns dos mais eminentes entre os siyyids, os ulemás e os oficiais de governo de Khuy haviam abraçado a Causa do Prisioneiro e se identificado completamente com Sua Fé. Entre estes se encontravam Mírzá Muhammad-'Alí e seu irmão Búyuk-Áqá, sendo ambos siyyids de distinto mérito que se haviam levantado com ardente fervor para proclamar sua Fé a toda espécie e classe de pessoas entre seus compatriotas. Uma corrente contínua de inquiridores e crentes confirmados fluía em ambas as direções entre Khuy e Chihríq, em conseqüência de tais atividades. Aconteceu nesse tempo que um proeminente oficial de grandes dotes literários, Mírzá Asadulláh, a quem mais tarde o Báb conferiu o título de Dayyán, e cuja veemente denúncia de Sua Mensagem havia frustrado todos os esforços por convertê-lo, teve um sonho. Ao acordar, determinou-se à não contá-lo a pessoa alguma e, fixando sua escolha em dois versículos do Alcorão, dirigiu ao Báb o seguinte pedido: "Concebi em minha mente três coisas definidas. Peço-vos que me reveleis sua natureza." A Mírzá Muhammad-'Alí se pediu que submetesse ao Báb esse pedido por escrito. Pou53


cos dias depois, recebeu uma resposta escrita pelo próprio punho do Báb, na qual expôs em sua totalidade as circunstâncias daquele sonho e revelou os textos exatos daqueles versículos. A exatidão dessa resposta efetivou uma súbita conversão. Embora não acostumado a andar a pé, Mírzá Asadu'lláh se apressou a subir por aquele caminho íngreme e pedregoso que conduzia de Khuy à fortaleza. Tentaram seus amigos induzi-lo a seguir a cavalo a Chihríq, mas ele recusou a oferta. Seu encontro com o Báb confirmou-o em sua crença e excitou aquele ardor abrasador que ele até o fim da vida continuou a manifestar. Nesse mesmo ano, expressara o Báb Seu desejo de que quarenta de Seus companheiros empreendessem, cada um, a composição de um tratado e procurassem, mediante versículos e tradições, estabelecer a validade de Sua Missão. De imediato Seu desejo foi obedecido e devidamente submetido à Sua presença o resultado de seus labores. O tratado de Mírzá Asadu'lláh ganhou a admiração incondicional do Báb e o mais alto grau, segundo Sua estimação. Conferiu-lhe o nome de Dayyán e em sua honra revelou o Lawh-i-Hurúfát,(5) no qual fez a seguinte afirmação: "Não tivesse o Ponto do Bayán(6) outro testemunho com o qual estabelecer Sua verdade, bastaria isto — haver Ele revelado uma Epístola como esta, uma Epístola que nem a maior quantidade de erudição poderia produzir." O povo do Bayán, que compreendeu mal o propósito que baseia essa Epístola, pensou que fosse uma mera exposição da ciência de Jafr(7). Quando, em época posterior, nos primeiros anos do encarceramento de Bahá'u'lláh na cidade-prisão de 'Akká, Jináb-i-Muball-igh, de Shíráz, pediu que desenredasse os mistérios dessa Epístola, foi de Sua pena revelada uma explicação que aqueles que interpretaram mal as palavras do Báb bem poderiam ponderar. Das afirmações do Báb aduziu Bahá'u'lláh irrefutável evidência provando que o aparecimento do Man-Yuzhiruhu'lláh(8) deis) (6) (7) (8)

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Literalmente "Epístola das Letras". Um dos títulos do Báb. As ciências da advinhação. Referência a Bahá'u'lláh. Veja glossário.


veria forçosamente ocorrer dentro de nada menos de dezenove anos após a Declaração do Báb. Desde muito havia o mistério do MustagháthO) frustrado as mentes mais prescrutadoras entre o povo do Bayán, provando-se um intransponível obstáculo para seu reconhecimento do Prometido. Nessa Epístola desvendara o próprio Báb aquele mistério; ninguém, entretanto, pôde compreender a explicação que Ele dera. Coube a Bahá'u'lláh desvelá-lo aos olhos de todos os homens. O incansável zelo demonstrado por Mírzá Asadu'lláh induziu seu pai, que era amigo íntimo de Hájí Mírzá Aqásí, a relatar-lhe as circunstâncias que conduziram à conversão de seu filho e lhe informar de sua negligência em cumprir com os deveres que o Estado lhe impusera. Estendeu-se sobre o fervor com que tão hábil servo do governo se levantara para servir a seu novo Mestre e o sucesso que havia coroado seus esforços. Mais uma causa de apreensão por parte das autoridades governamentais foi fornecida pela chegada em Chihríq de um dervixe que viera da índia e que ao encontrar com o Báb, admitiu a verdade de Sua Missão. Todos que conheceram esse dervixe, a quem o Báb denominara Qahru'-lláh, durante sua estada em Iskí-Shahr, sentiram o ardor de seu entusiasmo e foram profundamente impressionados pela tenacidade de sua convicção. Um crescente número de pessoas se enlevavam no encanto de sua personalidade e prontamente reconheciam o dominante poder de Sua Fé. Tal foi a influência que exercia sobre eles que alguns entre os crentes se inclinavam a considerá-lo um expoente da Revelação Divina, embora ele negasse totalmente tais pretensões. Freqüentemente se lhe ouvia relatar o seguinte: "Nos dias em que eu ocupava a exaltada posição de um nababo na Índia, o Báb me apareceu numa visão. Fixou em mim Seu olhar e me conquistou completamente o coração. Levantei-me e havia começado a segui-Lo quando me olhou atentamente e disse: 'De tuas roupas vistosas deves te despir, tua terra natal deves deixar e a pé apressar-te ao Meu encontro em Adhírbáyján. Em Chihríq atingirás o desejo de teu coração.' Segui-Lhe as instruções e alcancei agora minha meta." (9)

Veja glossário.

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A notícia do tumulto que aquele humilde dervixe pôde causar entre os líderes curdos em Chihríq chegou em Tataríz e daí foi comunicada a Teerã. Mal a notícia alcançara a capital, quando ordens foram emitidas para a transferência imediata do Báb para Tataríz, na esperança de se aliviar a agitação que sua prolongada residência naquela localidade havia provocado. Antes de alcançar Chihríq a notícia dessa nova ordem, já havia o Bata incumbido 'Azím de informar Qahru'lláh de Seu desejo de que ele regressasse à índia e lá consagrasse a vida ao serviço de Sua Causa. "Sozinho e a pé," ordenou Ele, "deve regressar para o lugar donde veio. Com o mesmo ardor e desprendimento com que realizou sua peregrinação a este país deve ele agora dirigir-se à sua terra natal e laborar incessantemente a fim de promover os interesses da Causa." Ordenou também que a Mírzá 'Abdu'1Vahháta-i-Turshízí, que residia em Khuy, desse instruções para seguir de imediato a Urúmíyyíh, onde, lhe disse, breve estaria com ele. O próprio 'Azím recebeu instruções para ir para Tabríz e lá informar Siyyid Ibráhim-i-Khalil de Sua chegada naquela cidade. "Dize-lhe", acrescentou o Báb, "que o fogo de Nimrod breve se acenderá em Tabríz, mas apesar da intensidade de sua chama, dano algum sucederá aos nossos amigos." Assim que Qahrulláh recebeu a mensagem de seu Mestre, de pronto se levantou para executar Seus desejos. A qualquer um que desejasse acompanhá-lo, dizia: "Jamais poderás suportar as durezas desta jornada. Abandona o pensamento de ir comigo. Haverias seguramente de perecer no caminho, visto que o Báb ordenou que eu voltasse sozinho para minha terra natal." A força constrangedora de sua resposta silenciou aqueles que pediam que lhes fosse permitido com ele viajarem. Recusou aceitar de qualquer pessoa dinheiro ou roupas. Sozinho, vestido nos mais pobres trajes, com taáculo em mão, andou a pé por todo o caminho de volta a seu país. Não se sabe o que em fim lhe sucedeu. Muhammad-'Alíy-i-Zunúzí, cognominado Anis, era um dos que conheceram a mensagem do Báb em Tabríz e se sentiu inflamado com o desejo de apressar-se a Chihríq e atingir Sua presença. Aquelas palavras haviam nele ateado um irreprimível anelo de se sacrificar em Seu caminho. 56


Siyyid 'Alíy-i-Zunúzí, seu padrasto, um notável de Tabríz, apresentou fortes objeções à sua partida da cidade e foi afinal induzido a confiná-lo em sua casa e vigiá-lo estritamente. O filho languescia nesse encarceramento desde o tempo em que o Bem-Amado chegara em Tabríz até ser levado de volta novamente à Sua prisão em Chihríq. Tenho ouvido Shaykh Hasan-i-Zunúzí relatar o seguinte: "Aproximadamente no mesmo tempo em que o Báb dispensou 'Azim de Sua presença, recebi Dele instruções para reunir todas as Epístolas disponíveis, por Ele reveladas durante Seu aprisionamento nas fortalezas de Máh-Kú e Chihríq, e entregá-las às mãos de Siyyid Ibráhim-i-Khalil, que então residia em Tabríz, solicitando-lhe que as escondesse e preservasse com o máximo cuidado. "Durante minha estada naquela cidade, eu muitas vezes visitava Siyyid 'Alíy-i-Zunúzí, que era parente meu, e freqüentemente o ouvia deplorar a triste sorte do filho. 'Parece haver perdido a razão', queixava ele amargamente. 'Ele por sua conduta, me tem trazido censura e opróbrio. Tenta acalmar a agitação de seu coração e o induza a ocultar suas convicções.' Todo dia que o visitava, testemunhava eu as lágrimas que de seus olhos continuamente choviam. Depois que o Báb havia partido de Tabríz, um dia quando fui vê-lo, admirei-me de notar o júbilo e contentamento que lhe iluminavam o semblante. Seu belo rosto estava engrinaldado de sorrisos enquanto avançava para me receber. 'Os olhos de meu Bem-Amado,' disse ele, enquanto me abraçava, 'viram este rosto, e estes olhos contemplaram Seu semblante.' 'Deixai-me,' acrescentou, 'dizer-vos o segredo de minha felicidade. Depois de haver o Báb sido levado de volta a Chihríq, enquanto eu jazia, um dia, confinado em meu quarto, a Ele voltei meu coração e nestas palavras supliquei: 'Tu vês, o' meu Mais-Amado, meu cativeiro e desamparo, e sabes com que ansiedade anelo contemplar Tua face. Com a luz de Teu semblante dissipa a treva que me oprime o coração.' Que lágrimas de agonizante pesar derramei naquela hora! Tão acabrunhado de emoção estava, que me parecia haver perdido a consciência. De súbito ouvi a voz do Báb, e eis que me chamava! Mandou-me levantar. Contemplei a majestade de Seu semblante, enovante Ele aparecia diante de mim. 57


Sorria enquanto olhava em meus olhos. Precipitei-me e me lancei aos Seus pés. 'Regozija-te,' dizia-me, 'aproxima-se a hora em que, nesta mesma cidade, serei suspenso diante dos olhos da multidão, e cairei vítima ao fogo do inimigo. A ninguém escolherei senão a ti, para participar Comigo da taça do martírio. Assegura-te de que esta promessa que te dou será cumprida. Enlevou-me a beleza daquela visão. Ao voltar a mim, senti-me imerso num oceano de júbilo, um júbilo cujo esplendor todas as tristezas do mundo jamais poderiam obscurecer. Aquela voz continua a ressoar em meus ouvidos. Aquela visão sobre mim paira durante o dia, bem como nas horas da noite. A memória daquele inefável sorriso já dissipou a solitude de minha prisão. Estou firmemente convencido de que não mais se pode adiar a hora em que há de ser cumprida Sua promessa.' Exortei-o a ser paciente e esconder suas emoções. Ele me prometeu não divulgar aquele segredo, e se incumbiu de exercer para com Siyyid 'Ali a máxima tolerância. Apressei-me a assegurar ao pai sua determinação, e consegui que o libertasse de seu encarceramento. Esse jovem, até o dia de seu martírio, continuou a associar-se aos pais e parentes, num estado de completa serenidade e alegria. Tal foi sua conduta para com amigos e parentes que, no dia em que ofereceu sua vida por seu Bem-amado, todo o povo de Tabríz chorou e por ele expressou seus lamentos."

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CAPÍTULO XVIII O INTERROGATÓRIO DO BÁB EM TABRÍZ O Báb, antecipando a hora de Sua aflição que se aproximava, havia dispersado Seus discípulos reunidos em Chihríq e, com serena resignação, aguardava a ordem que haveria de chamá-Lo a Tabríz. Aqueles a cuja custódia Ele fora entregue julgaram que não seria aconselhável passar pela cidade de Khuy, situada no caminho à capital de Adhirbáyján. Decidiram ir via Urúmiyyih e assim evitar as demonstrações que o tão excitado povo de Khuy provavelmente faria como protesto contra a tirania do governo. Quando o Báb chegou em Urúmiyyih, Malik Qásim Mírzá O recebeu cerimoniosamente e Lhe concedeu a mais calorosa hospitalidade. Em Sua presença, o príncipe Lhe mostrava deferência extraordinária e se recusava a tolerar o mínimo desrespeito por parte daqueles que tinham permissão para vir ao Seu encontro. Numa certa sexta-feira, quando o Báb ia ao banho público, o príncipe, tendo curiosidade de provar a coragem e o poder de seu Hóspede, deu ordens ao cavalariço que Lhe oferecesse um dos seus cavalos mais selvagens para montar. O servo apreensivo de que o Báb sofresse algum mal, secretamente se aproximou Dele e tentou induzi-Lo a recusar montar um cavalo que fizera tombar os mais corajosos e hábeis cavaleiros. "Não receieis," foi Sua resposta. "Paze como te foi mandado e confia-Nos aos cuidado do TodoPoderoso." Os habitantes de Urúmiyyih, havendo sindo infor59


mados da intenção do príncipe, haviam enchido a praça pública, ansiosos de testemunhar o que ia suceder ao Báb. Logo que o cavalo Lhe foi trazido, aproximou-se dele calmamente e, segurando a rédea que o servo lhe oferecera e acariciando-o meigamente, pôs o pé no estribo. O cavalo permaneceu imóvel a Seu lado, como se consciente do poder que o dominava. A multidão que presenciou esse mais inusitado espetáculo maravilhou-se do comportamento do animal. As suas mentes simples, esse extraordinário incidente parecia nada menos que um milagre. Em seu entusiasmo se apressaram a beijar o estribo do Báb, mas foram impedidos pelos guardas do príncipe, que receavam que tão grande ímpeto do povo Lhe fizesse algum mal. O próprio príncipe, que havia acompanhado seu Hóspede a pé até as proximidades do banho, antes de chegarem à entrada, foi por Ele solicitado a regressar a sua residência. Por todo o caminho, os lacaios do príncipe se esforçavam para conter o povo que, de todos os lados, se apressava para obter um vislumbre do Báb. Ao chegar, dispensou Ele todos que O haviam acompanhado, com exceção do servo particular do príncipe e Siyyid Hasan, os quais esperavam na antecâmara e Lhe assistiram enquanto se despia. Ao regressar do banho, montou o mesmo cavalo e foi aclamado pela mesma multidão. O príncipe, a pé, veio a Seu encontro e O conduziu a sua residência. Mal o Báb deixara o banho, apressou-se o povo de Urúmíyyih para levar, até a última gota, a água que Lhe havia servido para as abluções. Grande agitação prevalecia nesse dia. O Báb, ao observar essas evidências de irrestrito entusiasmo, lembrou-se da bem-conhecida tradição, comumente atribuída ao Imame 'Ali, Comandante dos Fiéis, a qual se refere especificamente a Adhirbáyján. O lago de Urúmíyyih •— afirma essa mesma tradição em suas passagens concludentes — ferverá, transbordará as margens e inundará a cidade. Ao ser informado subseqüentemente de como a grande maioria do povo, por sua espontânea vontade, se levantara para proclamar sua completa lealdade a Sua Causa, comentou Ele calmamente: "Pensam os homens que, quando dizem 'Acreditamos', serão deixados em paz e não serão 60


postos à prova? (1)" Este comentário foi plenamente justificado pela atitude assumida para com Ele por esse mesmo povo ao chegar a notícia do horrendo tratamento por Ele recebido em Tabríz. Dentre aqueles que com tanta ostentação haviam professado sua fé nele, mal existia um punhado que, na hora da provação, perseverasse em sua lealdade a Sua Causa. Destacava-se entre estes, Mullá Imám-Vardí, a tenacidade de cuja fé ninguém, salvo Mullá Jalíl-i-Urúmí, nativo de Urúmíyyih e uma das Letras dos Viventes, podia exceder. A adversidade outro efeito não teve, senão o de intensificar o ardor de sua devoção e reforçar sua crença na justiça da Causa que ele abraçara. Mais tarde atingiu a presença de Bahá'u'liáh, a verdade de Cuja Missão ele prontamente reconheceu e para a promoção da qual se esforçou com o mesmo zelo fervoroso que havia caracterizado suas tentativas anteriores de promover a Causa do Báb. Em reconhecimento de seus serviços de longa data, ele, bem como sua família, foi honrado com numerosas Epístolas da pena de Bahá'u'lláh, nas quais Ele lhe elogiava as realizações e invocava as bênção do Onipotente sobre seus esforços. Com inalterável determinação continuou ele a lidar para promover a Fé, até atingir mais de oitenta anos, quando partiu desta vida. As descrições dos sinais e maravilhas que os inumeráveis admiradores do Báb haviam testemunhado foram breve transmitidos de boca a boca e incentivaram uma onda de entusiasmo sem precedentes que se espalhou com espantosa rapidez sobre o país inteiro. Varreu Teerã e incitou os dignitários eclesiásticos do reino a envidarem contra Ele novos esforços. Tremiam eles diante do progresso de um Movimento que, se lhe fosse permitido seguir o curso, breve engolfaria — tinham certeza — as instituições das quais dependia sua autoridade, ainda mais, sua própria existência. Viam por todos os lados crescentes evidências de uma fé e uma devoção tais como eles próprios não haviam podido evocar, de uma lealdade que atacara desde mesmo a raiz da estrutura erguida por suas próprias mãos e que todos os recursos a seu dispor não haviam até então conseguido minar. (1)

Alcorão, 29:2.

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Tabríz, especialmente, passava pelas dores de desenfreada agitação. A notícia da iminente chegada do Báb inflamara a imaginação de seus habitantes e acendera a animosidade mais feroz nos corações dos líderes eclesiásticos de Adhirbáyján. Somente estes, dentre todos os habitantes de Tabríz, se abstiveram de participar nas demonstrações com as quais uma população agradecida aclamava a volta do Báb a sua cidade. Tamanho era o fervor do entusiasmo popular que aquela notícia evocara, que as autoridades decidiram hospedar o Báb num lugar fora dos portões da cidade. Somente àqueles com quem Ele desejava encontrar, foi concedido o privilégio de se aproximarem Dele. A todos os demais foi estritamente proibido o acesso. Na segunda noite após Sua chegada, o Báb chamou a Sua presença 'Azím e, durante a conversação com ele, asseverou enfaticamente Sua pretensão de não ser outro, senão o prometido Qá'im, porém encontrou relutância em admitir, sem reservas, esta pretensão. Percebendo sua agitação interior, Ele disse: "Amanhã, na presença do Valí'Ahd (2) e em meio aos ulemás e notabilidades da cidade reunidos, proclamarei Minha Missão. Quem quer que se sinta inclinado a Mim exigir outro testemunho, além dos versículos que tenho revelado, deverá do Qá'ím de sua vã fantasia buscar satisfação." Tenho ouvido 'Azím dar o seguinte testemunho: "Naquela noite estava eu profundamente perturbado. Permaneci acordado e irrequieto até a hora do nascer do sol. Assim que havia oferecido a prece matinal, no entanto, percebi que uma grande transformação sobreviera a mim. Uma nova porta parecia haver se descerrada e estava aberta diante de minha face. Breve vinha nascendo em mim a convicção de que, se eu fosse leal a minha fé em Maomé, o Apóstolo de Deus, deveria por força também reconhecer sem reservas as pretensões avançadas pelo Báb e me submeter, sem receio ou hesitação, a qualquer coisa que Ele se dignasse a decretar. Esta conclusão aliviou meu coração agitado. Apresseime em ir ao Báb e Lhe pedir perdão. 'É mais uma evidên(2)

62

O herdeiro

ao trono.


cia da grandeza desta Causa,' disse Ele, 'que até 'Azím (3) tivesse se sentido tão extremamente perturbado e abalado pelo seu poder e pela imensidade de sua pretensão.' 'Assegurai-vos,' acrescentou, 'a graça do Todo-Poderoso vos capacitará a fortalecer o pusilânime e tornar firmes os passos de quem vacila. Tão grande será vossa fé que, se o inimigo vos mutilasse o despedaçasse o corpo, na esperança de diminuir por um jota ou til o ardor de vosso amor, não conseguiria atingir seu objetivo. Vós, sem dúvida, nos dias vindouros, havereis de encontrar face a face Aquele que é o Senhor de todos os mundos e participar do júbilo de Sua presença.' Estas palavras dissiparam as trevas de minhas apreensões. Daquele dia em diante, jamais um traço sequer de medo ou agitação lançou sobre mim sua sombra." A detenção do Báb fora dos portões de Tabríz nada adiantava para acalmar a agitação que reinava na cidade. Toda medida de precaução, toda restrição que as autoridades haviam imposto, serviu para agravar uma situação que já se tornara ominosa e ameaçadora. Hájí Mírzá Áqásí emitiu suas ordens para a convocação imediata dos dignitários eclesiásticos de Tabríz na residência oficial do governador de Adhirbáyján para o expresso propósito de acusar o Báb publicamente e procurar os meios mais efetivos para a extinção de Sua influência. Hájí Mullá Mahmúd, intitulado o Nizámu'l-'Ulamá, que era tutor de Násiri'd-Dín Mírzá, o Valí'Ard (4), Mullá Muhammad-i-Mámáqání, 'Alí-Asghar, o Shaykhu'1-Islám e muitos dos mais distintos shaykhs e doutores de divindade estavam entre aqueles reunidos para esse fim (5). O próprio Násiri'd-Dín Mírzá assistiu essa reunião. Coube a presidência a Nizámu'l-'Ulamá' quem, logo que se iniciara o processo, encarregou um oficial do exército, em (3) Literalmente significa "O Grande". (4) Nascido em 17 de julho de 1831; começou a reinar em setembro de 1848; faleceu em 1896: "Este príncipe saiu de Teerã para regressar a seu governo em 23 de janeiro de 1848. Como seu pai faleceu em 4 de setembro, regressou para assumir o título de Sháh em 18 de setembro desse mesmo ano". (A. L. M. Nicolas — "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 243, nota 195). (5) "A Traveller's Narrative", p. 19, menciona ainda o nome de Mirzá Ahmad, o Imame Jum'ih.

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nome da assembléia, de introduzir o Báb em sua presença. Uma multidão de gente havia, nesse meio tempo, assediado a entrada do salão e, com impaciência, aguardava o momento em que Lhe pudesse vislumbrar a face. Tão grande era o número dos que se apressavam para a frente, que teve de ser forçada uma passagem para Ele através daqueles aglomerados junto do portão. Ao chegar, o Báb observou que cada assento naquele salão estava ocupado, salvo um só, reservado este para o Valí-'Ahd. Saudou a assembléia e, sem a mínima hesitação, procedeu a ocupar aquele assento vazio. A majestade de Seu porte, a expressão de pujante confiança que pousava em Sua fronte — acima de tudo o espírito de poder que se irradiava de todo o Seu ser, pareciam por um momento haver esmagado a alma do corpo daqueles a quem Ele saudara. Um silêncio profundo, misterioso, caia de súbito sobre eles. Nem uma só alma naquela distinta assembléia se atreveu a murmurar uma palavra sequer. Finalmente, a quietude que sobre eles pairava foi interrompida pelo NizámuVUlamá. "Quem pretendes ser," perguntou ele ao Báb, "e qual a mensagem que trouxeste?" "Eu Sou," três vezes exclamou o Báb, "Eu Sou, Eu Sou, o Prometido! Sou Aquele cujo nome há mil anos invocais, a cuja menção vos tendes levantado, cujo advento tendes ardentemente desejado presenciar, e a hora de cuja Revelação tendes suplicado a Deus que apressasse. Verdadeiramente, digo, incumbe aos povos, tanto do Oriente como do Ocidente, obedecerem Minha Palavra e hipotecar lealdade a Minha pessoa." Ninguém se aventurou a responder, exceto Mullá Muhammad-i-Mámáqání, um líder da comunidade shaykhí, que havia sido, ele mesmo, discípulo de Siyyid Kázím. Foi ele cuja infidelidade e insinceridade o siyyid havia em lágrimas observado, e a perversidade de cuja natureza ele havia deplorado. Shaykh Hasan-i-Zunúzí, que ouvira Siyyid Kázim fazer essas críticas, me relatou o seguinte: "Admirei-me muito do tom de sua referência a Mullá Muhammad e tinha curiosidade de saber qual seria sua futura conduta para merecer tais expressões de pena e condenação de seu mestre. Antes de descobrir sua atitude nesse dia para com o Báb, eu não percebia o grau de sua arrogância e cegueira. Eu estava em pé, juntamente com 64


outras pessoas fora do salão e pude acompanhar a conversação daqueles que estavam dentro. Mullá Muhammad estava sentado à esquerda do Valí-'Ahd. O Báb ocupava um assento entre eles. Imediatamente depois de haver Ele se declarado O Prometido, um sentimento de reverência se apoderou dos presentes. Silenciosos, confusos, baixaram as cabeças. A palidez de seus rostos traía a agitação de seus corações. Mullá Muhammad, aquele renegado zarolho, de barba branca, repreendeu-O com insolência, dizendo: 'Tu, miserável e imaturo moço de Shiráz! Já convulsionaste e subverteste o Iraque; agora desejas provocar tumulto igual em Adhirbáyján?' 'Vossa Senhoria,' replicou o Báb, 'não vim aqui de Minha própria vontade. Fui chamado a este lugar.' 'Silêncio,' retrucou furiosamente Mullá Muhammad, 'tu perverso e desprezível seguidor de Satanás!' 'Vossa Senhoria,' respondeu outra vez o Báb, 'mantenho o que já declarei.' "O NizámuVUlamá achou melhor desafiar abertamente Sua Missão. 'A pretensão que avançastes,' disse ao Báb, 'é estupenda; deve necessariamente ser sustentada pela mais incontrovertível evidência.' 'A mais poderosa e mais convincente evidência da verdade da Missão do Profeta de Deus,' respondeu o Báb, 'é, deve-se admitir, Sua própria Palavra. Ele mesmo é testemunho desta verdade: "Não lhes é suficiente Nós havermos feito descer a Ti o Livro?" (6) O poder de aduzir tal evidência foi a Mim concedido por Deus. Dentro do espaço de dois dias e duas noites, declaro-vos, poderei revelar versículos tão numerosos que igualarão ao Alcorão inteiro'. 'Descrevei oralmente, se dizeis a verdade,' pediu o Nizámul-TJlamá, 'o procedimento desta reunião em linguagem que se assemelhe à fraseologia dos versículos do Alcorão de modo que o Vali-'And e os sacerdotes aqui congregados possam dar testemunho da verdade de vossa pretensão.' O Báb prontamente acedeu a seu desejo. Mal havia Ele pronunciado as palavras, 'Em nome de Deus, o Misericordioso, o Compassivo, louvores Àquele que criou os céus e a Terra,' quando Mullá Muhammad-i-Mámáqání interrompeu, chamando-Lhe a atenção a uma infração das regras de gramática. 'Esse nosso Qá'ím, por si próprio designado,' (6)

Alcorão 29:51.

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exclamou ele com arrogante desdém, 'desde mesmo o início de seu discurso demonstra sua ignorância das regras mais rudimentares da gramática!' 'O próprio Alcorão,' argüiu o Báb, 'de modo algum concorda com as regras e convenções correntes entre os homens. A Palavra de Deus jamais poderá se sujeitar às limitações de Suas criaturas. Não, as regras e os cânones adotados pelos homens foram deduzidos do texto da Palavra de Deus e nela se baseiam. Esses homens têm descoberto, nos próprios textos daquele Livro Sagrado, nada menos que trezentos exemplos de erros gramaticais, semelhantes àquele que agora tendes criticado. Desde que era a Palavra de Deus, outra alternativa não tiveram, senão resignarem-se a Sua Vontade (7)." "Repetiu, Ele então, as mesmas palavras que Ele havia pronunciado, às quais Mullá Muhammad fez, outra vez, a mesma objeção. Pouco depois, outra pessoa aventurou-se a dirigir ao Báb esta pergunta: 'A qual tempo, pertence a palavra Ishtartanna'? Em resposta citou o Báb este versículo do Alcorão: 'Longe esteja a glória de teu Senhor, o Senhor de toda grandeza, daquilo que eles Lhe imputam e paz esteja sobre Seus Apóstolos! E louvores a Deus, o Senhor dos mundos.' Imediatamente depois, levantou-se e saiu da reunião (8)." (7) "Alguém fizera uma objeção a gramática ou sintaxe desses versos. Esta objeção é vã, porque as regras gramaticais devem ser deduzidas dos versículos e não os versículos escritos em cumprimento com as regras da gramática. Não tenho dúvida alguma que o Mestre destes versículos negou estas regras e negou inclusive que as usou alguma vez". ("Le Bayán Persan", vol. 1, pp. 45-46). (8) "E quanto aos relatos muçulmanos, aqueles que temos perante nós não levam a marca da verdade, parecem ser falsificações. Sabendo o que sabemos do Báb, é provável que ele teve melhor argumentação e que os doutores e funcionários que assistiram a reunião não estavam dispostos a admitir seu próprio fracasso". (Dr. T. K. Cheyne, "The Reconciliation of Races and Religions", p. 62). "É dfícil saber até que ponto pode-se dar crédito a mencionada narração (a versão muçulmana do exame do Báb em Tabríz). É provável que as perguntas que estão anotadas nelas — e certamente algumas são suficientemente frívolas e inclusive indecentes — foram perguntadas; porém ainda que o Báb possivelmente não pudesse respon dê Ias, é mais que provável que, como afirma o "Taríkh-i-Jadíd", guardou um digno silêncio e não fez as absurdas afirmações que lhe atri-

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Desagradou seriamente ao Nizámu'l-'Ulamá, a maneira como fora conduzida a reunião. "Como é vergonhosa," ouviu-se ele mais tarde exclamar, "a descortesia do povo de Tabríz! Qual seria a relação possível entre aqueles fúteis comentários e questões tão importantes, tão momentosas?" Alguns outros, igualmente, se sentiam inclinados a denunciar o tratamento infame que o Eáb nessa ocasião recebera. Mullá Muhammad-i-Mámáqání, entretanto, persistia em suas veementes denúncias. "Advirto-vos," protestou altamente, "se permitirdes que esse moço siga irrestrito suas atividades, dia virá em que a população inteira de Tabríz se haja aglomerado em volta de seu estandarte. Se, ao chegar esse dia, ele significar seu desejo de que todos os ulemás de Tabríz, inclusive o próprio Valí-'Ahd, sejam expulsos da cidade e que ele tão somente, assuma as rédeas da autoridade civil e eclesiástica, nenhum de vós que agora vedes com apatia sua causa, se sentirá capaz de lhe fazer oposição efetiva. A cidade inteira ainda mais, toda a província de Adhirbáyján, o apoiará unanimente." As denúncias persistentes desse mau conspirador excitaram as apreensões das autoridades de Tabríz. Aqueles que seguravam nas mãos as rédeas do poder aconselharam-se sobre as medidas mais efetivas a serem tomadas a fim de resistir ao progresso de Sua Fé. Insistiam alguns na opinião de que, em face do óbvio desrespeito que o Báb mostrara ao Valí-'Ahd, ocupando-lhe o lugar sem sua permissão, e haver deixado de obter o consentimento do presidente da reunião quando se levantou para sair, deveria Ele ser novamente chamado a uma reunião igual e receber das mãos de seus membros um castigo humilhante. Násiri'd-Dín Mírzá, buem os escritores muçulmanos. Mas eles faziam danos a sua própria causa já que desejando provar que o Báb não possuia sabedoria sobrehumana, o apresentavam como exibindo uma ignorância que dificilmente podemos dar crédito. Que todo o exame foi uma farsa, que a sentença havia sido pronunciada de antemão, que não se fez nenhum esforço sério para compreender a natureza e provas das pretensões do Báb e de sua doutrina e que desde o princípio até o final se seguiu um curso sistemático de intimidação, ironia e burla, me parecem ser fatos que estão provados tanto pelos relatos maometanos como babís destes exames inquisitivos". ("A Traveller's Narrative", Nota M, p. 290).

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porém, recusou concordar com tal proposta. Decidiu-se, afinal, fosse o Báb levado à casa de Mírzá 'Alí-Asghar, que era tanto o Shaykhu'l Islám de Tabríz como um siyyid, e das mãos do guarda pessoal do governador recebesse a punição merecida. O guarda recusou-se atender a esse pedido, preferindo não se intrometer numa questão que a seu ver coubesse somente aos ulemás da cidade. O Shaykhu'1-Islám resolveu infligir, ele próprio, o castigo. Chamou o Báb a sua casa e, com sua mão, onze vezes aplicou as varas aos Seus pés (9). (9) É o seguinte o relato do Dr. Cormick de suas impressões pessoais de Mirzá Alí-Muhammad, o Báb, extraídas de cartas escritas por ele ao Rev. Benjamim Labaree D. D. (O Dr. Cormick era um médico inglês que havia residido longo tempo em Tabríz onde gozava de alta consideração. O documento foi comunicado ao professor E. G. Browne, da Universidade de Cambridge pelo Sr. W. A. Shedd que escreveu a respeito uma carta datada de 1.° de março de 1911: "Estimado Professor Browne, estou revisando os papéis de meu pai (o extinto Rev. J. H. Shedd, D. D. da Missão Americana em Urúmíyyih, Pérsia, da mesma missão que o Dr. Benjamim Labaree), e encontrei algo que penso qua pode ser de valor histórico. Não tenho livros aqui nem tampouco os tenho em lugar perto daqui para poder certificar-me se este fragmento de testemunha tem sido utilizado ou não. Penso que provavelmente não e estou seguro que não posso fazer nada melhor que enviá-los ao Senhor, com a esperança que os utilize como melhor lhe pareça. Da •autenticidade dos documentos não pode haver dúvidas". "Você me solicita detalhes de minha entrevista com o fundador da seita conhecida como Babís. Nada de importante sucedeu na entrevista já que o Báb se deu conta que eu havia sido enviado com dois médicos persas para ver se estava em seu juízo são ou se era só um louco, para decidir sobre a sua sentença de morte ou não. Sabendo isto se mostrou pertinaz a contestar qualquer pergunta que se lhe fazia. A todas as perguntas nossas só respondia com um suave olhar enquanto que em voz doce e melodiosa entoava, o que suponho terem sido, alguns hinos. Outros dois Siyyids seus amigos íntimos, também estavam presentes e posteriormente foram sentenciados a morte junto com ele, havia também dois oficiais do governo. Só em uma ocasião se dignou a responder-me quando lhe disse que não era muçulmano e tinha desejo de saber algo sobre sua religião já que podia sentir-me inclinado a aceitá-la. Olhoume com muita atenção quando lhe disse isso e respondeu que não tinha dúvida alguma que todos os europeus aceitariam a sua religião. Nosso informe ao Sháh nesse instante foi no sentido de não tirarlhe a vida. Algum tempo depois foi morto por ordem do AmírNizám Mirzá Taqí Khán. Depois de nosso informe só o submeteram ao carrasco, que durante uma advertência, não sei se intencionalmente ou

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Naquele mesmo ano, esse tirano insolente foi atacado de paralisia e, após haver sofrido a dor mais excruciante, teve uma morte miserável. Seu caráter traiçoeiro, ávaro e ambicioso era reconhecido universalmente pelo povo de Tabríz. Notoriamente cruel e sórdido, era temido e detestado pelo povo que gemia sota seu julgo e orava por libertação. As circunstâncias abjetas de sua morte lembraram tanto aos amigos como aos oponentes o castigo que deve necessariamente esperar aqueles a quem nem o temor a Deus nem a voz da consciência pode deter de se comportarem com tão pérfida crueldade para com seus semelhantes. Depois de sua morte, foram abolidas em Tabríz as funções do Shaykhu'1Islám. Tal foi sua infâmia que o próprio nome da instituição à qual se associara veio a ser abominado pelo povo. E no entanto, seu comportamento, por mais vil e traiçoeiro que fosse, não foi o único exemplo da conduta nefária que caracterizava a atitude dos dirigentes eclesiásticos, entre seus conterrâneos, para com o Bata. Quão lastimavelmente têm eles errado e quão longe se desviado do caminho não, lhe deu um golpe no rosto com um pau destinado a seus pés, o que lhe produziu uma grande ferida e inchação na face. Ao lhe perguntarem se deviam trazer um cirurgião persa para tratá-lo, expressou o desejo que mandassem buscar a mim e em conseqüência o tratasse durante alguns dias, porém durante as entrevistas relacionadas a isso nunca pude chegar ao auge de ter uma conversa confidencial com ele, já que sempre se encontravam presentes funcionários do governo por ser ele um prisioneiro. Mostrou-se muito agradecido pela atenção que lhe dispensava. Era um homem muito suave, de aspecto delicado, de estatura b a x a e extremamente ruivo para um persa, com voz suave e melodiosa que me chamou muito a atenção. Como era um Siyyid vestia a indumentária desta seita, como o faziam também seus dois companheiros. De resto, todo o seu aspecto e atitude o predispunham a seu favor. De sua doutrina não ouvi nada de seus próprios lábios mesmo percebendo que em sua religião havia certa similaridade com o cristianismo, e tão pouco existe a opressão à mulher que atualmente se observa". Em relação a este documento o Professor Browne escreveu o seguinte: "O primeiro destes dois documentos é muito valioso já que dá a impressão pessoal produzida pelo Báb durante seu período de encarceramento e sofrimento, sobre uma mente ocidental culta e imparcial. Muito poucos cristãos ocidentais devem ter tido a oportunidade de ver e aos menos conversar com o Báb e não sei de nenhum outro que tenha deixado escrito suas impressões" (E. G. Browne "Materials for the Study of the Babí Religion", pp. 260-262, 264).

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da eqüidade e justiça! Com quanto desdém rejeitaram os conselhos do Profeta de Deus e as admoestações dos Imames da Fé! Não declararam estes explicitamente, que, "se um Jovem de Baní-Háshim (10) se manifestasse e convocasse o povo a um novo Livro e a leis novas, todos deveriam se apressar a Ele e Lhe abraçar a Causa?" Embora tenham esses mesmos imames afirmado claramente que "a maioria de Seus inimigos serão os ulemás," esses homens cegos e ignóbeis, entretanto, preferiram seguir o exemplo de seus líderes e considerar a conduta deles o modelo da retidão e justiça. Seguem-lhes nas pegadas, implicitamente lhes obedecem as ordens e se julgam o "povo da salvação", os "eleitos de Deus" e os "guardiões da Verdade". De Tabríz levaram o Báb de volta a Chihríq, onde novamente foi entregue à guarda de Yahyá Khán. Seus perseguidores haviam tolamente imaginado que por meio de ameaças e intimidação O induziriam a abandonar Sua Missão. Aquela reunião deu ao Báb a oportunidade de expor enfaticamente, na presença dos mais ilustres dignitários congregados na capital de Adhirbáyján, as feições distintas de Sua pretensão, e de confutar, em linguagem resumida e convincente, os argumentos de Seus adversários. A notícia daquela momentosa declaração, que acarretara conseqüências de tão vasto alcance, espalhou-se rapidamente por toda a Pérsia e reanimou mais profundamente os sentimentos dos discípulos do Báb. Estimulou-lhes novamente o zelo, reforçou Sua posição e foi sinal para os tremendos acontecimentos que breve haveriam de convulsionar aquela terra. Mal regressara o Báb a Chihríq quando escreveu, em linguagem audaz e comovente, uma denúncia do caráter e da ação de Hájí Mírzá Aqásí. Nas passagens iniciais dessa epístola, intitulada o Khutbiy-i-Qahríyyih (11), o Autor se dirige ao Grão-Vizir nestes termos, "ó tu que desacreditaste em Deus e afastaste de Seus sinais a tua face!" Essa longa epístola foi enviada a Hujját, que estava, nesse dias, confinado em Teerã. Teve instruções para ir pessoalmente entregá-la a Hájí Mírzá Aqásí. (10) (11)

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Hásh'm era o bisavô de Maomé. Literalmente "Sermão da Ira".


Tive o privilégio de ouvir dos lábios de Bahá'u'lláh, enquanto na cidade-prisão de 'Akká, o seguinte relato: "Mullá Muhammad-'Alíy-i-Zanjání, pouco depois de haver entregue essa Epístola a Hájí Mírzá Aqásí, veio me visitar. Estava na companhia de Mírzá Masih-i-Núrí e alguns outros crentes quando ele chegou. Relatou as circunstâncias que acompanhavam a entrega da Epístola e nos recitou o texto inteiro, que tinha cerca de três páginas de comprimento e que ele havia decorado." O tom da referência de Bahá'u'lláh a Hujját indicou quão imensamente Lhe agradaram a pureza e nobreza de sua vida e quanto Ele lhe admirava a inabalável coragem, a vontade indômita, o desprendimento das coisas do mundo e a inalterável constância.

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CAPÍTULO XIX A REVOLTA DE MÁZINDARÁN No mesmo mês de Shah'bán que testemunhou as indignidades infligidas sobre o Báb em Tabríz e as aflições que sobrevieram a Bahá'u'lláh e Seus companheiros em Níyálá, Mullá Husayn regressou do acampamento do Príncipe Hamzih Mírzá a Mashhad donde iria proceder, sete dias depois, a Karbilá, acompanhado por qualquer pessoa que ele desejasse. O príncipe lhe ofereceu certa quantia para lhe custear as despesas da viagem, oferta essa que ele declinou, devolvendo o dinheiro com o pedido de que o despendesse em alívio dos pobres e necessitados. 'AbduVAlí Khán outrossim ofereceu prover todas as necessidades da projetada peregrinação de Mullá Husayn e expressou sua ansiedade de pagar as despesas de quem quer que ele escolhesse para acompanhá-lo. Tudo o que dele aceitou foram uma espada e um cavalo, ambos dos quais ele era destinado a utilizar com consumada habilidade e coragem, para repelir os assaltos de um inimigo traiçoeiro. Jamais poderá minha pena descrever adequadamente a devoção que Mullá Husayn incendiara nos corações do povo de Mashhad, nem tentar sondar a profundidade de sua influência. Sua casa, naqueles dias, era continuamente assediada por multidões de pessoas que, ansiosas, solicitavam que lhes fosse permitido acompanhá-lo na viagem que ele planejara. Mães traziam os filhos, irmãs os irmãos, e com lágrimas imploravam que os aceitasse como suas mais estimadas oferendas no Altar do Sacrifício. 72


Ainda estava Mullá Husayn em Mashhad quando veio um mensageiro que lhe trazia o turbante do Báb e lhe transmitiu a notícia de que um novo nome, o de Siyyid 'Ali, lhe fora conferido por seu Mestre. "Adorna tua cabeça," foi a mensagem, "com Meu turbante verde, emblema de Minha linhagem e, com o Estandarte Negro (1) desfraldado diante de ti, apressa-te a ir a Jazíriy-i-Khadrá (2) e preste teu auxílio a Meu bem-amado Quddús. Logo que lhe chegou essa mensagem, Mullá Husayn se levantou para executar o desejo de seu Mestre. Deixando Mashhad para um lugar situado à distância de um farsang (3) da cidade, içou o Estandarte Negro, colocou na cabeça o turbante do Báb, reuniu os companheiros, montou seu corcel e deu o sinal para sua marcha a Jazíriyi-i-Khadrá. Seus companheiros, em número duzentos e dois, entusiasticamente O seguiram. Aquele dia memorável foi o dia dezenove de Sha'bán, no ano de 1264 A.H. (4). Onde quer que parassem, em cada vila e aldeia pela qual passavam, Mullá Husayn e seus co-discípulos proclamavam destemidamente a mensagem do Novo Dia, convidavam o povo a lhe abraçar a verdade e escolhiam dentre aqueles que responderam a seu chamado alguns a quem pediam que a eles se juntassem nessa jornada. Na cidade de Níshápúr, Hájí 'Abdu'1-Majíd, pai de Badí (5), que era mercador muito conhecido, alistou-se sob a bandeira de Mullá Husayn. Embora sem rival o prestígio de seu pai como dono da mais célebre mina de turquesas de Níshápúr, abandonando todas as honras e todos os benefícios materiais que sua cidade natal lhe conferira, hipotecou sua lealdade incondicional a Mullá Husayn. Na vila de Míyámay, trinta entre os habitantes declararam sua fé e se uniram com aquela companhia. Todos eles, com exceção (1) (2) (3) (4) (5)

Veja página 96. Literalmente "Ilha Verde". Veja glossário. 21 de julho de 1848 A. D. Portador da Epístola de Bahá'u'lláh à Nássirí'd-Dín Sháh.

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de Mullá Isá, foram martirizados no forte de Shaykh Tabarsí (6). Chegando em Chashmih-'Alí, um lugar situado perto da cidade de Dámghán e na estrada para Mázindarán, Mullá Husayn decidiu interromper a viagem e lá demorar por alguns dias. Acampou à sombra de uma árvore grande, ao lado de um ribeirão. "Estamos no ponto onde se separam os caminhos," disse aos companheiros. "Aguardaremos Seu decreto quanto à direção que devemos tomar." Perto do fim do mês de Shavvál (7), surgiu uma ventania violenta que derrubou ura ramo grande daquela árvore, e com isso Mullá Husayn comentou: "A árvore da soberania de Muhammad Sháh, segundo a vontade de Deus, foi desarraigada e lançada em terra." No terceiro dia após haver ele pronunciado essa prediçao, um mensageiro em caminho para Mashhad, chegou de Teerã e anunciou a morte de seu soberano (8). No dia seguinte, a companhia determinou-se a partir para Mázindarán. Ao levantar-se para ir seu líder apontou na direção de Mázindarán e disse: "É este o caminho que conduz a nossa Karbilá. Quem quer que não esteja preparado para as grandes tribulações que jazem em nossa frente que agora se retire para sua casa e desista da viagem." Várias vezes repetia ele essa advertência e, enquanto se aproximava de (6) "Ele (Mullá Husayn) chegou primeiramente a Míyamay onde se reuniu com trinta Babís cujo chefe, Mirzá Saynu'1-Ábidín, aluno do extinto Shaykh Ahmad-i-Ahsá'í, era um cavalheiro de idade, piedoso e respeitado. Seu cu ; dado era tão grande que levou consigo a seu genro, um jovem de dezoito anos que havia casado com sua filha fazia poucos dias. 'Vem', lhe disse, 'vem comigo em minha última viagem. Vem, porque devo ser um pai verdadeiro para ti e fazer-te compartilhar a alegria da salvação verdadeira!" Partiram portanto e o ancião quis fazer a pé a viagem que o devia levar ao martírio." (A. L. M. Nicolas "Siyyid Ali Muhammad dit le Báb", p. 290). (7) 31 de agosto — 29 de setembro de 1848 A. D. (8) Muhammad Sháh fa^ceu na véspera de seis de Shavvál (4 de setembro de 1848 A. D.). Após o intervalo de aproximadamente dois meses, se organizou um governo provisório de quatro administradores sob a presidência da viúva do falecido Sháh. Finalmente, depois de muitas vacilações, permitiu-se ao herdeiro legal, o jovem Príncipe Násiri'd-Dín Mirzá governador de Ádh : rbáiján, ascender ao trono". (Journal Asiatique, 1866, Tomo 7, p. 367).

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Savád-Kúh, declarou explicitamente: "Eu, juntamente com setenta e dois de meus companheiros, sofrerei a morte por causa do Bem-Amado. Quem não puder renunciar ao mundo, que parta agora, neste mesmo momento, pois mais tarde não poderá escapar." Vinte de seus companheiros preferiram voltar, sentindo-se impotentes para resistir as provações às quais seu líder continuamente se referia. A notícia de que se aproximavam da cidade de Bárfurúsh alarmou o Sa'ídu'l-'Ulamá\ A vasta e crescente popularidade de Mullá Husayn, as circunstâncias que acompanhavam sua partida de Mashhad, o Estandarte Negro que flutuava diante dele — acima de tudo, o número, a disciplina e o entusiasmo de seus companheiros, combinaram para provocar o implacável ódio daquele mujtahid cruel e soberbo. Mandou ele que o pregoeiro convocasse o povo de Bárfurúsh ao masjid e anunciasse que seria feito por ele um sermão de tão momentosa conseqüência que nenhum aderente leal do Islã nas circunvizinhanças poderia perder a oportunidade de ouvi-lo. Uma imensa multidão de homens e mulheres se aglomerava no masjid, viu-o ascender ao púlpito, jogar no chão o turbante, rasgar a gola de sua camisa e lamentar a triste situação em que a Fé caíra. "Despertai," disse do púlpito em voz retumbante, "pois nossos inimigos estão em nossas próprias portas, prontos para extinguir tudo o que estimamos como puro e santo no Islã! Se deixarmos de lhes resistir, ninguém haverá de sobreviver a sua investida. Aquele que é o líder daquela banda veio sozinho um dia e assistiu minhas aulas. Desprezou-me completamente e me tratou com desdém marcante na presença de meus discípulos. Como eu me recusei a conceder-lhe as honras que ele esperava, levantou-se irosamente e me lançou seu desafio. Num tempo em que Muhammad Sháh estava sentado em seu trono e no auge de seu poder, esse homem teve a temeridade de me atacar com tanta amargura. E agora que a mão protetora de Muhammad Sháh foi subitamente retirada, que excessos não cometerá esse instigador de mal que ora avança, conduzindo sua banda selvagem? É dever de todos os habitantes de Bárfurúsh, tanto jovens como velhos, homens e também mulheres, munirem-se contra esses 75


abjetos destruidores do Islã e por todos os meios em seu poder lhes resistir a investida. Amanhã, na hora do alvorecer, levantai-vos todos e marchai adiante para lhes exterminar as forças." A congregação inteira se levantou em resposta a seu chamado. Sua apaixonada eloqüência, a inquestionável autoridade que sobre eles exercia, e o medo de perderem suas próprias vidas e bens, combinaram para induzir os habitantes dessa cidade a fazerem toda preparação possível para o esperado encontro. Muniram-se de toda arma que pudessem ou achar ou maquinar e, ao romper do dia saíram da cidade de Bárfurúsh, plenamente determinados a enfrentar e trucidar os inimigos da Fé e lhes saquear os bens (9). Assim que Mullá Husayn resolvera seguir pelo caminho que conduzia a Mázindarán, logo depois de oferecer sua oração matinal, ordenou ele que os companheiros se desfizessem de todas as possessões. "Deixai atrás todos os vossos pertences," exortou, "e contentai-vos com apenas os corcéis e as espadas, a fim de que todos possam testemunhar (9) "O ministro (Mirzá Taqí Khán), procedendo com a maior arbitrariedade, sem receber instruções nem solicitar autor ; zação, enviou ordens a todas as partes para que se castigasse e aplicasse penas aos Babís. Os governadores e magistrados encontraram pretextos para juntar fortunas e os funcionários médios para aumentar suas ganâncias; célebres doutores excitavam os homens desde o alto de seus púlpitos para que iniciassem um ataque geral; os poderes da lei religiosa e civil se juntaram e se esforçaram para erradicar e destruir a esta gente. Entretanto, esta gente não havia obtido ainda um conhecimento adequado e necessário dos princípios fundamentais e doutrinas ocultas dos ensinamentos do Báb e não compreenderam seus deveres. Seus conceitos e idéias se ajustavam às normas de antes e sua conduta e comportamento à forma antiga. As vias de acesso ao Báb estavam por demais fechadas e a chama da discórdia ardia visivelmente em todas as partes. Por ordem dos mais célebres doutores, o governo, e mais ainda o povo, inauguraram com irresistível poder uma onda de roubos e saques e estavam ocupados em castigar e torturar, em matar e destruir para que pudessem extinguir esta chama e debilitar estas pobres almas. Em cidades onde eram poucos numerosos, todos com as mãos amarradas, serviram de alimento para as espadas, enquanto que em cidades onde eram mais numerosos se levantaram em defesa própria de acordo com as antigas crenças já que lhes era impossível perguntar qual era seu dever e todas as portas estavam fechadas". ("A Traveller's Narrative", p. 34-5).

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vossa renúncia a todas as coisas terrenas e perceber que este pequeno grupo de companheiros eleitos de Deus nenhum desejo nutre de salvaguardar os próprios bens e muito menos de cobiçar os bens alheios." Instantaneamente todos eles obedeceram e, descarregando seus corcéis, se levantaram e jubilosamente o seguiram. O pai de Badí foi o primeiro a pôr de lado a sacola, que continha uma quantidade considerável de turquesas, as quais ele trouxera da mina pertencente ao seu pai. Uma só palavra de Muliá Husayn bastava para induzi-lo a jogar para o lado da estrada o que sem dúvida era seu maior tesouro e aderir ao desejo de seu líder. À distância de um farsang (10) de Bárfurúsh, Mullá Husayn e seus companheiros encontraram os inimigos. Uma multidão provida de armas e munição havia se aglomerado e lhes obstruía o caminho. Uma expressão feroz de selvageria pousava em suas faces, e as imprecações mais vis caiam incessantemente de seus lábios. Os companheiros, em face do tumulto desse povo irado, fizeram um movimento como se fossem desembainhar as espadas. "Ainda não," ordenou seu líder, "antes de o agressor nos forçar a nos proteger, não deverão nossas espadas sair das bainhas." Mal pronunciara ele estas palavras, quando contra eles se dirigiu o fogo do inimigo. Seis dos companheiros foram de imediato lançados ao chão. "Bem-amado líder," exclamou um deles, "nós nos levantamos e vos seguimos sem outro desejo senão o de nos sacrificarmos no caminho da Causa por nós abraçada. Permiti, nós vos suplicamos, que nos defendamos e não nos deixeis cair tão ignominiosamente vítimas do fogo do inimigo." "Não chegou ainda a hora," respondeu Mullá Husayn, "está ainda incompleto o número." Logo depois, uma ba^a penetrou o peito de um de seus companheiros, um siyyid de Yazd (11) que havia andado a pé todo o caminho (10) Veja glossário. (11) "A bala feriu a Siyyid Rida em seu peito e o matou instantaneamente. Era um homem de costumes simples, de convicções profundas e sinceras. Devido ao respeito que sentia por seu amo sempre o seguia a pé ao lado de seu cavalo, isto para servi-lo a todo o instante. (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 294).

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de Mashhad até aquele lugar e que era um de seus mais fortes esteios. Ao ver esse devotado companheiro cair morto aos seus pés, Mullá Husayn ergueu os olhos ao céu e orou. "Vê, ó Deus, meu Deus, a lastimável condição de Teus companheiros eleitos, e testemunha a acolhida que esse povo concedeu a Teus bem-amados. Sabes Tu que outro desejo não nutrimos senão o de guiá-los ao caminho da Verdade e lhes conferir o conhecimento de Tua Revelação. Tu Próprio ordenaste que defendêssemos nossas vidas contra os ataques do inimigo. Fiel a Teu mando, levanto-me agora com os companheiros para resistirmos a investida que contra nós lançaram (12)." Desembainhando a espada e esporeando o corcel para o meio do inimigo, Mullá Husayn acossou, com maravilhosa intrepidez, aquele que investira contra seu companheiro caído. O oponente, tendo medo de enfrentá-lo, refugiou-se atrás de uma árvore e, erguendo o mosquete, tentou proteger-se. Logo o reconhecendo, Mullá Husayn precipitou-se e com um só golpe cortou através do tronco da árvore, o cano do mosquete e o corpo de seu adversário (13). A força assom(12) "Ninguém deve ser morto por ser infiel, porque dar a morte a uma alma não forma parte da religião de Deus. . . ; e se alguém o ordena, não é nem nunca terá sido do Bayán e não pode haver pecado mais grave que este para Ele". ("O Bayán" veja "Journal of the Royal Asiatic Society", outubro 1889, art. 12, pp. 927-8). (13) "Porém a dor e a ira redobraram a força de Mullá Husayn que de um só golpe com sua arma partiu em dois o fuzil, o homem e a árvore". (Mirzá Jání acrescenta que o Bushrú'í utilizou sua mão esquerda nesta ocasião. Os próprios muçulmanos não duvidam da autenticidade deste relato). (A. L. M. Nicolas "Siyyid Alí-Muhammad dit le Báb", p. 295 e Nota 215). "Então Jináb-i-Babul'1-Báb se voltou dizendo: "Agora eles sabem que é nosso dever defendermo-nos, empunhou seu sabre e mostrando aquiescência no que Deus havia ordenado em Sua providência, começou a defender-se. Apesar de seu físico delgado e frágil e sua mão trêmula, mostrou tal valor e audácia neste dia que quem quer que tivesse olhos para discernir a verdade podia ver claramente que tal força e valor só poderia vir de Deus já que se encontravam além de toda a capacidade h u m a n a . . . Então vi Mullá Husayn desembainhar seu sabre e levantar seu rosto para o céu e o ouvi exclamar: "Oh! Deus, completei a prova para esta hoste, porém de nada tem servido". Então nos incentivou a atacar a direita e a esquerda. Juro por Deus que neste dia manejou seu sabre de tal forma que transcendia o poder humano. Só a cavalaria de Mázindarán se manteve firme e re-

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brosa desse golpe confudiu o inimigo e lhe paralisou os esforços. Todos fugiram em pânico, em face de tão extraordinária manifestação de destreza, de força e de coragem. Foi essa façanha a primeira de seu gênero a atestar a proeza e o heroísmo de Mullá Husayn, façanha essa que lhe ganhou os elogios do Báb. Quddús igualmente lhe prestou sua homenagem pela serena valentia que Mullá Husayn nessa ocasião exibiu. Diz-se que, ao receber a notícia, citou ele o seguinte versículo do Alcorão: "Assim não fostes vós que os matastes, mas Deus quem os matou; e aqueles dardos foram de Deus e não teus! Ele queria provar os fiéis por uma provação misericordiosa Dele Próprio procedente em verdade, Deus ouve, sabe. Sucedeu isso, para que Deus reduzisse ao nada a astúcia dos infiéis." Eu mesmo, enquanto em Teerã, no ano de 1265 A.H. (14), um mês após a conclusão daquela luta memorável de Shaykh Tabarsí, ouvi Mírzá Ahmad relatar as circunstâncias desse incidente na presença de alguns crentes, entre os quais Mírzá Muhammad-Husayn-i-Hakamíy-i-Kirmání, Hájí Mullá Ismá'íl-i-Faráhání, Mírzá Habídu'lláh-i-Isfáhání e Siyyid Muhammad-i-Isfáhání. Quando, em época subseqüente, visitei Khurásán e estava hospedado ria casa de Mullá Sádiq-i-Khurásání em Mashhad, onde eu fora convidado a ensinar a Causa, pedi a Mírzá Muhammad-i-Furúghí, na presença de alguns crentes, entre os quais Nabíl-i-Akbar e o pai de Badí, que me esclarecesse quanto ao verdadeiro caráter daquele espantoso relato. Enfaticamente replicou Mírzá Muhammad: "Fui eu mesmo testemunha daquele ato de Mullá Husayn. Não tivesse eu o visto com os próprios olhos, jamais teria acreditado." A propósito disso, o mesmo Mírzá Muhammad nos relatou o seguinte: "Após o combate de Vas-Kas, quando o Príncipe Mihdí-Qulí Mírzá, completamente derrotado, fugira da face cusou fugir. E quando Mullá Husayn encontrava-se em pleno fragor da batalha, perseguiu um soldado que fugia. O soldado se escondeu atrás de uma árvore e tratou de proteger-se com seu fuzil. Mullá Husayn aplicou um golpe tão forte com seu sabre que o partiu a ele, a árvore e ao fuzil em seis pedaços". (O "Tárikh-i-Jadíd", pp. 49, 107-8). (14) 1848-9 A. D.

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dos companheiros do Báb, o Amír-Nizám (15) severamente lhe repreendeu. 'Incumbi-vos/ ele lhe escreveu, 'da missão de subjugar um punhado de estudantes jovens, desprezíveis. Coloquei à vossa disposição o exército do Xá e, no entanto, permitistes que sofresse tão ignominiosa derrota. Que haveria vos sucedido, queria eu saber, tivesse eu a vós confiado a missão de derrotar as forças combinadas dos governos russo e otomano?" Achou o príncipe que seria bom entregar ao mensageiro os fragmentos do cano daquela espingarda rachada pela espada de Mullá Husayn, com instruções para apresentá-las, pessoalmente, ao Amír-Nizám. 'Tal é,' foi sua mensagem ao Amír, 'a força desprezível de um adversário que com um só golpe de sua espada demoliu em seis pedaços a árvore, o mosquete e quem o segurava.' "Tão convincente testemunho da força de seu oponente constituía, aos olhos do Amír-Nizám, um desafio do qual nenhum homem de sua posição podia deixar de tomar conhecimento. Resolveu ele reprimir o poder que, por um ato tão atrevido, procurara demonstrar-se contra suas forças. (15) Mirzá Taqí Khán rtimadu'd-Dawlih, Grão-vizir e sucessor de Hájí Mirzá Aqásí. Faz se a seguinte referência a ele em "A Traveller's Narrative" (p. 32-3) : "Mirzá Táqí Khán Amír-Nizám, que era primeiro ministro e regente principal, colheu no punho de seu despótico poder as rédeas dos assuntos da comunidade e esporeou o corcel da sua ambição na arena do capricho e possessão exclusiva. Este ministro era uma pessoa sem experiência e que carecia de consideração pelas conseqüências da ação; sedento de sangue e desavergonhado; estava sempre pronto e rápido no derramamento de sangue. Considerava que os castigos duros eram sinais de uma administração sábia e que a exortação severa, o sofrimento, a intimidação e o assustar as pessoas era um adiantamento para a monarquia. E como sua Majestade, o Rei, era muito jovem ainda, o ministro incutiu-lhe idéias estranhas e fez repicar o tambor do absolutismo na administração; por sua própria decisão, sem buscar a autorização da Presença Real ou de obter conselho de estadistas prudentes, deu ordem que se perseguissem os Babís, imaginando que fazendo uso da força arrogante podia erradicar ou suprimir questões desta natureza e que a severidade traria bons frutos; enquanto que o interferir com questões de consciência simplesmente as difunde mais e lhes dá maior força; enquanto mais se tenta extingui-las, mais intensamente arde a chama, sobretudo em questões de fé e religião que se difundem e adquirem influência enquanto se derrama sangue e afeta profundamente o coração dos homens".

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Não podendo, apesar do número preponderante de seus homens, derrotar Mullá Husayn e seus companheiros por meios normais e justificáveis, recorreu miseravelmente à traição e fraude como instrumentos para atingir seu propósito. Mandou o príncipe afixar seu selo ao Corão e hipotecar a honra de seus oficiais para que daí em diante se abstivessem de qualquer ato de hostilidade para com os ocupantes do forte. Por este meio pode ele induzi-los a depor as armas, e assim conseguiu ele infligir aos seus oponentes indefesos uma derrota ingloriosa e esmagadora. Tão notável exibição de destreza e força não pôde deixar de atrair a atenção de um número considerável de observadores cujas mentes se haviam mantido, até então, sem mácula de preconceito ou malícia. Evocou o entusiasmo de poetas que, em várias cidades da Pérsia, se sentiam inspirados a celebrar as façanhas do autor de um ato tão audaz. Seus poemas contribuíram à difusão do conhecimento daquele poderoso feito e à imortalização de sua memória. Entre aqueles que prestaram homenagem à valentia de Mullá Husayn, havia um certo Ridá-Qulí Khán-i-Lalih-Báshí, quem, no "Tárikh-i-Násirí" elogiou profusamente a prodigiosa força e inigualada destreza que haviam caracterizado aquele golpe. Aventurei-me a perguntar a Mírzá Muhammad-i-Furúghí se sabia que no "Násikhu't-Tavárík" fora mencionado o fato de haver Mullá Husayn, nos primeiros anos da mocidade, sido instruído na arte da esgrima, que adquirira sua proficiência só após considerável período de treinamento. "É pura invenção/' afirmou Mullá Muhammad. "Eu o conheço desde a infância, tendo tido associação com ele como colega de escola e amigo desde muito tempo. Nunca soube de ele possuir tamanha força e poder. Até me julgo superior quanto a vigor e resistência física. Tremia-lhe a mão enquanto escrevia, e muitas vezes expressava ele sua incapacidade de escrever tão completamente e com tanta freqüência como desejava. Isto lhe era um grande empecilho e até sua viagem a Mázindarán continuou ele a sofrer de seus efeitos. No momento em que desembainhou a espada, porém, para repulsar aquele ataque selvagem, um poder misterioso parecia havê-lo subitamente transformado. 81


Em todas as lutas subseqüentes, via-se ser ele o primeiro a avançar e esporear o corcel ao acampamento do agressor. Sem auxílio, enfrentava e combatia as forças combinadas de seus oponentes e ganhava, ele mesmo, a vitória. Nós, que o seguíamos da retaguarda, tínhamos de nos contentar com aqueles que já haviam sido incapacitados e enfraquecidos pelos golpes que eles haviam suportado. Bastava seu nome para aterrorizar os corações de seus adversários. Fugiam à menção dele; quando ele se aproximava, tremiam. Até mesmo aqueles que eram seus constantes companheiros emudeciam de admiração em face dele. Ficávamos atônitos diante da demonstração de sua força estupenda, sua vontade indômita e sua completa intrepidez. Todos nós estávamos convencidos de que ele cessara de ser o Mullá Husayn a quem havíamos conhecido e que nele residia um espírito que Deus, tão somente, poderia conferir. Este mesmo Mírzá Muhammad-i-Furúghí relatou a mim o seguinte: "Mal havia Mullá Husayn dado o golpe memorável contra seu adversário, quando desapareceu de nossa vista. Não sabíamos aonde fora. Somente seu servo, Qambar'Alí, pôde segui-lo. Ele mais tarde nos informou que seu mestre se precipitou contra os inimigos e com um só golpe de sua espada pode derrubar cada um dos que se atreveram a atacá-lo. Desapercebido das balas que sobre ele choviam, forçou passagem através das fileiras do inimigo e tomou rumo para Bárfurúsh. Seguiu diretamente à residência do Sa'ídu'l-'Ulamá, três vezes passou ao redor de sua casa e exclamou: 'Esse desprezível covarde que incitou os habitantes dessa cidade a travar guerra santa contra nós e ignomirúosamente se escondeu atrás das paredes de sua casa — que emerja de seu refúgio inglorioso! Que ele, pelo seu exemplo demonstre a sinceridade de seu apelo e a justeza de sua causa. Terá ele esquecido que quem prega uma guerra santa deve forçosamente marchar, à vanguarda de seus seguidores e pelos seus próprios feitos lhes incendiar a devoção e sustentar o entusiasmo?'" A voz de Mullá Husayn abafava o clamor da multidão. Os habitantes de Bárfurúsh renderam-se e breve ergueram o brado de, "Paz, paz!" Mal se levantara a voz da rendição 82


quando se fizeram ouvir de todos os lados as aclamações dos seguidores de Mullá Husayn que, naquele momento, apareceram, galopando em direção a Bárfurúsh. A exclamação de "Yá Sáhíbu'z-Zamán!" (16) que com altas vozes faziam ressoar, encheu de consternação os corações dos que a ouviram. Os companheiros de Mullá Husayn, que haviam abandonado a esperança de ainda o encontrar vivo, maravilharam-se ao vê-lo sentado ereto em seu cavalo, ileso e em nada afetado pela ferocidade daquela investida. Dele se aproximaram, reverentemente, e lhes beijaram o estribo. Na tarde daquele dia foi concedida a paz que os habitantes de Bárfurúsh imploraram. A multidão congregada ao seu redor, Mullá Husayn dirigiu estas palavras, "ó seguidores do Profeta de Deus e xiitas dos imames de Sua Fé! Por que vos levantastes contra nós? Por que julgais o derramamento de nosso sangue um ato meritório aos olhos de Deus? Temos nós alguma vez repudiado a verdade de vossa Fé? É essa a hospitalidade que o Apóstolo de Deus incumbiu Seus seguidores de conceder tanto aos fiéis como aos infiéis? Que fizemos nós para merecermos tal condenação de vossa parte? Considerai: eu só, sem outra arma, senão a espada, pude enfrentar a chuva de balas que sobre mim os habitantes de Bárfurúsh derramaram, e emergi incólume do meio do fogo com qual me assediaste. Tanto minha pessoa como meu cavalo escapou ileso de vosso ataque sobrepujante. Excetuando-se uma ligeira arranhadura recebida em minha face, fostes impotentes para me ferirem. Deus me protegeu e se dignou de estabelecer aos vossos olhos a ascendência de Sua Fé." Imediatamente depois, Mullá Husayn procedeu ao caravançarai de Sabzih-Maydán. Apeou e, em pé na entrada da estalagem, esperou a chegada de seus companheiros. Assim que se haviam reunido e acomodado nesse lugar, ele mandou buscar pão e água. Os comissionados para trazê-los voltaram com mãos vazias e lhe informaram que não conseguiram obter pão do padeiro nem água da praça pública. "Vós nos tendes exortado," disseram-lhe, "a pormos em Deus (16)

Veja glossário.

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nossa confiança e a Sua vontade nos resignarmos. 'Nada nos pode suceder salvo o que Deus nos destinou. Nosso Senhor leal é Ele; que em Deus ponham os fiéis sua confiança!'"(17) Mullá Husayn mandou fechar os portões do caravançarai. Reunindo seus companheiros, lhes solicitou que permanecessem congregados em sua presença até a hora do pôr do sol. Assim que a noite se aproximava, perguntou se qualquer um dentre eles estaria disposto a se levantar e, renunciando à sua vida por causa de sua Fé, ascender ao telhado da caravançarai e fazer soar o adhán(18). Um jovem alegremente respondeu. Mal caíram de seus lábios as palavras introdutórias de "Alláh-u-Akbar" quando de repente uma bala o atingiu e lhe causou a morte imediata. "Que se levante outro dentre vós," exortava Mullá Husayn, "e, com a mesmíssima renúncia, prossiga a oração que aquele jovem (17) Alcorão 9:52. (18) "O Babu'1-Báb", diz nosso autor, "desejava cumprir com um desejo religioso e, ao mesmo tempo dar um exemplo da firme convicção dos crentes, do seu desprezo pela vida, e mostrar ao mundo a impiedade e irreligiosidade dos assim chamados muçulmanos, para isso deu ordens a um de seus seguidores que subisse ao terraço e entoasse o adhán". (A. L. M. Nicolas "Siyyid 'Ali-Muhammad dit le Báb", pp. 295-29G). "Foi em Marand", escreve Lady Shell, "que ouvi pela primeira vez o adhán, ou chamada muçulmana à oração, que é tão solene e impressionante, especialmente quando se entoa bem já que é, em verdade, um cântico. Ele se voltou para Meca e pondo suas mãos abertas em sua cabeça, proclamou com voz forte e sonora: "Alláh-u Akbar", que repetiu quatro vezes; depois, "Ashhad-u-inna-Muhammadan-Rasu'lláh" — (Sou testemunha que Maomé é o Profeta de Deus) — duas vezes; logo "Sou testemunha que 'Ali, o Comandante dos Fiéis, é o amigo de D e u s " . . . O toque solitário de defuntos para o transporte dos mortos à sua última morada terrena, desperta, possivelmente por associação, idéias ds profunda solenidade; também o faz a trombeta que ressoa através do acampamento quanto acompanha o dragão a sua sepultura. . . O adhán produz outra impressão. Cria na mente sentimentos combinados de dignidade, solenidade e devoção, comparados com os quais o ruído das campainhas se tornam insignificantes. É importante escutar no silêncio da noite os primeiros tons da voz do Mu'ahdhir proclamando "Alláh-u-Akbar — Poderoso é o Senhor — sou testemunha que não há outro Deus senão Deus!" São Pedro e São Paulo juntos não podem produzir nada que se O iguale! ("Glimpses of Life and Maimers in Pérsia", pp. 84-85).

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não pôde terminar." Mais um jovem se pôs em pé e assim que pronunciara as palavras. "Dou testemunho de ser Maomé o Apóstolo de Deus," foi ele também lançado ao chão por outra bala do inimigo. Um terceiro jovem, a mando de seu líder, tentou completar a oração que os companheiros martirizados haviam sido forçados a deixar inacabada. Sofreu, igualmente, a mesma sorte. Assim que se aproximava do fim de sua oração e pronunciava as palavras "Não há Deus, senão Deus," ele, por sua vez, tombou morto. Ao cair o terceiro companheiro, decidiu Mullá Husayn abrir o portão da caravançarai e se levantar, juntamente com os amigos, para repelir esse inesperado ataque por um inimigo traiçoeiro. Com um salto montando o cavalo, deu o sinal para a investida contra os agressores que se haviam aglomerado em frente dos portões e enchido o Sabzih-Maydán. Com espada na mão e seguido de seus companheiros, conseguiu ele dizimar as forças que contra ele se haviam disposto. Aqueles poucos que escaparam de suas espadas fugiram diante deles em pânico, mais uma vez apelando por paz, mais uma vez implorando clemência. Ao anoitecer havia a multidão inteira desvanecido. O Sabzih-Maydán, que poucas horas antes transbordava com a massa fervente de adversários, estava agora abandonado. Aquietara-se o clamor da multidão. O Maydán e suas imediações, com os corpos dos trucidados neles esparzidos, apresentavam um triste e comovente espetáculo, cena esta que dava testemunho da vitória de Deus sobre Seus inimigos. Essa vitória(19) tão espantosa induziu alguns dos nobres e dirigentes do povo a intervirem junto a Mullá Husayn (19) "Sa'idu'1-Uiamá desejando acabar a qualquer custo, reuniu quantas pessoas pôde e atacou novamente a parte anterior do caravançarai. A luta já durava cinco ou seis dias quando apareceu "Abbás Qulí Khán Sardár-i-Lárijání". Enquanto, e desde que haviam iniciado as hostilidades, os Ulemás de Bárfurúsh exasperados pelas numerosas conversões que Kuddús havia feito na cidade (trezentas em uma semana, segundo admitem com reticência os muçulmanos), haviam levado o assunto perante o governador da província, Príncipe Khánlar Mirzá. No entanto ele não prestou atenção as suas queixas porquanto tinha muitas outras preocupações. A morte de Muhammad Sháh o preocupava muito mais que as disputas dos Mullás e fez preparativos para ir à Teerã

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suplicando que mostrasse misericórdia a seus concidadãos. Vieram a pé para lhe apresentarem a petição. "Deus é nossa Testemunha," imploravam, "de que nenhuma intenção alimentamos, senão a de estabelecer a paz e reconciliação entre nós. Permanecei sentado em vosso corcel por enquanto, até havermos explicado nosso motivo." Observando a sinceridade de seu apelo, apeou e os convidou para entrarem com ele no caravançarai. "Nós, diferentes do povo dessa cidade, sabemos como receber o estranho em nosso meio," disselhes, enquanto os mandava sentarem-se ao seu lado e pedia que lhes fosse servido chá. "O Sa'ídu'l-'Ulamá," responderam, "foi tão somente responsável por haver ateado o fogo de tanto dano. O povo de Básfurúsh de modo algum deveria ser implicado no crime por ele cometido. Que se esqueça agora do passado. Queríamos sugerir, no interesse de ambos os lados, que vós e vossos companheiros partais amanhã para Ámul. Bárfurúsh está na agonia de grande exeitamento; receamos que sejam novamente instigados a vos atacar." Mullá Husayn, embora insinuando não ser sincero o povo, acedeu a sua proposta; com a qual 'Abbás-Qulí Khán-i-Lárijání(20) e Hájí Mustafá Khán se levantaram juntos e juranpara render homenagem ao novo rei, cujos favores esperava granjear. Como fracassaram nesta tentativa e devido a pressão dos acontec : mentos, os Ulemás escreveram uma carta urgente ao chefe müitar da província, 'Abbas'-Qulí Khán-i-Lárijání. Este último não achou necessário preocupar-se, e enviou Muhammad Big Yávar (capitão), à frente de trezentos homens, para restabelecer a ordem. E foi assim que os muçulmanos começaram a atacar o caravançarai. A luta começou, porém se dez Babís eram mortos, um número infinitamente superior dos agressores caía por terra. Como a situação se prolongava 'Abbás Qulí Khán sentiu que devia ir pessoalmente para avaliar a situação." (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Ali Muhammad dit le Báb", pp. 296-7). (20) Gobineau o descreve nos seguintes termos: "Os nômades turcos e persas passam a vida caçando e às vezes lutando, e, freqüentemente falam da caça e da guerra. Não são tão valentes e foram bem descritos por Branttóme o qual, em sua experiência das guerras da sua época, encontrou aquela forma de valor que ele chamou de "coragem por um dia". Porém isto é o que são em forma muito reguiar e conseqüentemente, grandes faladores, grandes destruidores de cidades, grandes assassinos de heróis, grandes exterminadores de multidões, em outras palavras, ingênuos, muito abertos na expressão de seus sentimentos, muito violentos ao reagir a qualquer coisa que os provoque e muito

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do pelo Corão que com eles haviam trazido, solenemente declararam sua intenção de considerá-los seus hóspedes aquela noite e, no dia seguinte, de dar instruções a Khusraw-i-Qádí-Kalá'í(21) e a cem soldados de cavalaria para que lhes garantissem passagem segura através de Shír-Gáh. "A maldição de Deus e de Seus Profetas esteja sobre nós, tanto neste mundo como no vindouro," acrescentaram, "se jamais permitirmos que a vós ou a vossos companheiros seja infligido o menor mal." Logo depois de fazerem essa declaração, chegaram seus amigos que haviam ido buscar alimentos para os companheiros e forragem para os cavalos. Mullá Husayn mandou seus correligionários quebrarem seu jejum, já que nenhum deles nesse dia, que era sexta-feira, dia doze do mês de Dhi'l-Qa'dih(22), tomara qualquer alimento ou bebida desde a hora do alvorecer. Tão grande foi o número de notabilidades e seus acompanhantes que se amontoaram no caravançarai nesse dia que nem ele nem qualquer de seus companheiros haviam tomado o chá que ofereceram aos visitantes. Naquela noite, cerca de quatro horas após o pôr-do-Sol. Mulláh Husayn, juntamente com os amigos, jantou na companhia de 'Abbás-Qulí Khán e Hájí Mustafá Khán. No meio daquela mesma noite, o Sa'ídu'l-'Ulamá chamou Khusraw-iQádí-Kalá'í e confidencialmente lhe intimou seu desejo de que, a qualquer hora ou em qualquer lugar que ele mesmo decidisse, se apoderasse de todos os bens dos homens entregues a seu cuidado e que eles próprios, sem nenhuma exceção, fossem trucidados. "Não são eles seguidores do Islã?", perguntou Khusraw. "Essas mesmas pessoas, como eu já soube, não preferiram sacrificar três de seus companheiros a deixar inacabado o chamado à oração que haviam erguido? Como poderíamos nós, que nutrimos tais desígnios e perpetramos tais atos, ser considerados dignos deste divertidos. 'Abbás Qulí Khán-i-Lárijání, embora tenha família, era um tipo perfeito de nômade". (Conde de Religions et les Philosophies dans 1'Asie Centrale", p. (21) Um renomado indolente que freqüentemente t r a o governo. (22) 10 de outubro de 1848 A. D.

nascido em boa Gobineau, "Les 171). rebelava-se con-

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nome?" Aquele perverso desavergonhado insistiu em que suas ordens fossem fielmente obedecidas. "Mate-os," disselhe, enquanto apontava o pescoço com o dedo, "e não tenhais medo. Eu me terei por responsável pelo vosso ato. Eu, no Dia do Juízo, responderei a Deus em vosso nome. Nós que temos em nossas mãos o cetro da autoridade, estamos certamente melhor informados do que vós e podemos melhor julgar do modo mais eficaz de extirpar essa heresia." À hora do alvorecer, 'Abbás-Qulí Khán pediu que Khusraw fosse conduzido a sua presença, e lhe ordenou que exercesse a máxima consideração para com Muilá Husayn e seus companheiros, para lhes garantir passagem segura através de Shír-Gáh, e que recusasse qualquer remuneração que lhe quisessem oferecer. Khusraw fingiu submissão a essas instruções e lhe assegurou que nem ele nem os soldados de sua cavalaria relaxariam sua vigilância ou vacilariam em sua devoção a eles. "Ao regressarmos," acrescentou, "nós vos mostraremos sua própria expressão, por escrito, de sua satisfação com os serviços que lhe teremos prestado." Quando Khusraw foi conduzido por 'Abbás-Qulí Khán e Hájí Mustafá Khán e outros líderes representativos de Bárfurúsh à presença de Mullá Husayn e lhe foi apresentado, este comentou: " 'Se fizerdes bem, isso reverterá em vosso próprio benefício; se fizerdes mal, o mal a vós redundará (23).' Se esse homem nos tratar bem, grande será sua recompensa; e se agir traiçoeiramente para conosco, grande será sua punição. A Deus queríamos entregar nossa Causa e a Sua vontade estamos completamente resignados." Pronunciadas estas palavras, Mullá Husayn deu o sinal para a partida. Mais uma vez se ouviu Qambár-'Alí erguer o chamado de seu mestre: "Montai vossos corcéis, ó heróis de Deus!" — chamado esse que ele invariavelmente emitia em tais ocasiões. Ao som destas palavras, todos se apressaram a seus corcéis. Um destacamento da cavalaria de Khusraw marchou em sua frente. Seguiram-se imediatamente Khusraw e Mullá Husayn que, lado a lado, andavam montados no centro da companhia. Na retaguarda seguiram os (23)

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Alcorão, 17:7.


outros companheiros e, a sua direita e a sua esquerda, marchava o resto dos cem soldados da cavalaria, os quais Khusraw armara como instrumentos prontos para a execução de seu desígnio. Fora combinado que a companhia partisse cedo da manhã de Bárfurúsh e chegasse em Shír-Gáh no mesmo dia ao meio-dia. Duas horas após o nascer do sol, partiram para seu destino. Khusraw tomou intencionalmente o caminho da floresta o qual, julgava ele, melhor serviria seu propósito. Assim que nele haviam penetrado, Khusraw deu o sinal para ataque. Ferozmente seus homens se jogaram em cima dos companheiros, saqueando-lhes os bens, matando alguns, entre os quais o irmão de Mullá Sádiq e tomando presos os restantes. Logo que o grito de agonia e angústia lhe alcançou os ouvidos, Mullá Husayn parou e apeando, protestou contra a pérfida conduta de Khusraw. "A hora de meiodia já há muito passou", disse-lhe, "e ainda não atingimos nosso destino. Recuso proceder mais convosco; posso dispensar vossa guia e companhia e a de seus'homens," Virando-se a Qambar-'Alí, pediu-lhe que estendesse o tapete para a oração, a fim de que oferecesse suas devoções, Estava fazendo as abluções quando Khusraw, que também desmontara, chamou um de seus subordinados e o mandou informar a Mullá Husayn que, se ele queria chegar são e salvo a seu destino, lhe entregasse tanto sua espada como seu cavalo. Recusando responder, Mullá Husayn prosseguiu a oferecer sua oração. Pouco depois, Mírzá Muhammad-Taqíyi-Juvayníy-iSabzivárí, homem de talento literário e intrépida coragem, foi a um subordinado que estava preparando o qalyán (24) e lhe pediu que o deixasse levá-lo pessoalmente a Khusraw, pedido esse ao qual ele prontamente acedeu. Mírzá Muhammad-Taqí estava se baixando para acender o fogo do qalyán quando de súbito, metendo a mão no peito de Khusraw, retirou de suas vestes seu punhal e em suas vísceras o mergulhou até o cabo (25). (24) Veja glossário. (25) Segundo "A Traveller's Narrative" (p. 36) foi Mirzá Lutf'Ali, o secretário, quem desembainhou sua faca e apunhalou Krusraw.


Continuava Mullá Husayn a orar quando de novo foi erguido pelos seus companheiros o brado de "Yá Sáhibu'zZamán" (26). Precipitaram-se sobre seus maldosos agressores e, em uma só investida, derrubaram todos, salvo o subordinado que preparara o qalyán. Aterrorizado e indefeso, prostrou-se ele aos pés de Mullá Husayn e lhe implorou socorro. Foi-lhe dado o qalyán ornamentado de jóias que pertencia a seu mestre. Recebeu ele, então, ordens para regressar a Bárfurúsh e contar a 'Abbás-Qulí Khán tudo o que testemunhara. "Diga-lhe," disse Mullá Husayn, "quão fielmente Khusraw cumpriu sua missão. Aquele malvado falso imaginava totalmente que minha missão tivesse terminado, que tanto minha espada como meu cavalo tivessem desempenhado sua função. Pouco sabia que seu trabalho havia apenas começado, que antes de serem inteiramente executados os serviços que possam prestar, nem seu poder nem o poder de qualquer outro além dele, de mim os poderá tirar." Como a noite se aproximava, a companhia decidiu demorar-se nesse lugar até a hora da alvorada. Ao amanhecer, Mullá Husayn, após haver oferecido sua oração, reuniu os companheiros e lhes disse: "Estamos nos aproximando de nossa Karbilá, nosso destino final." Logo depois, partiu a pé em direção àquele lugar, sendo seguido pelos companheiros. Vendo que alguns poucos estavam tentando levar com eles os bens de Khusraw e seus homens, ordenou-lhes que deixassem atrás tudo, menos suas espadas e seus cavalos. ''Cumpre-vos," insistia ele, "chegardes naquele lugar sagrado numa condição de desprendimento completo, totalmente santifiçados de tudo o que pertence a este mundo" (27). Havia ele andado a distância de um maydán (28) quando alcançou (26) Veja glossário. (27) "Então, virando-se para seus companheiros, disse: "Durante estes poucos dias de vida que nos restam, evitemos ficar divididos por riquezas passageiras. Que todos procurem um objetivo comum e participem de seus benefícios". Os Babís consentiram com alegria e esse maravilhoso espírito de auto-saerifício fez com que seus inimigos dissessem que eram partidários da propriedade coletiva dos bens terrenos e inclusive das mulheres!". (A. L. M. Nicolas, "Siyyid Ali Muhammad dit le Báb", p. 299). (28) Veja glossário.

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o santuário de Shaykh Tabarsí(29). O Shaykh fora um dos que transmitiram as tradições atribuídas aos imames da Fé e o lugar de sua sepultura era visitado pelo povo da região. Ao alcançar esse lugar, recitou ele o seguinte versículo do Corão: "õ meu Senhor, abençoa Tu minha chegada neste lugar, pois somente Tu podes conceder tais bênçãos." Na noite anterior a sua chegada, o guardião do santuário sonhou que o Siyyidu'sh-Shuhadá, o Imame Husayn, viera a Shaykh Tabarsí, acompanhado de nada menos de setenta e dois guerreiros e grande número de seus companheiros. Sonhou que eles se demoraram nesse lugar, travaram a mais heróica das batalhas, triunfando em cada combate sobre as forças do inimigo e que o próprio Profeta de Deus chegou, uma noite, e fez parte dessa abençoada companhia. Quando Mullá Husayn veio no dia seguinte, o guardião de imediato o reconheceu como o herói visto em sua visão, prostrou-se aos seus pés e os beijou devotadamente. Mullá Husayn convidou-o a se sentar ao seu lado e o ouviu relatar sua experiência. "Tudo o que têstemunhaste," assegurou ele ao guardião do santuário, "há de se realizar. Aquelas (29) Santuário de Shaykh Ahmad-ibn-i-Ábí-Tabarsí, situado mais ou menos a quatorze milhas à sudeste de Bárfurúsh. O Professor Browne da Universidade de Cambridge visitou o lugar em 26 de setembro de 1888 e viu o nome do santo ali sepultado escrito em uma placa na forma de palavras usadas para sua "visitação", a placa estava suspensa na grade que rodeia a tumba. "Na atualidade", disse ele, "consiste em uma área verde, plana, cercada por estacas e que além do edifício do santuário e outro situado na entrada (oposto a este, porém por fora do recinto, encontra-se a casa do mutavallí, o cuidador do santuário) não contém outra coisa senão três laranjeiras e alguns sepulcros toscos cobertos com pedras planas, no último lugar de repouso, possivelmente, de alguns defensores Babís. O prédio situado na entrada tem dois pisos, é atravessado por um corredor que dá acesso ao recinto e está fechado com telhas. Os prédios do santuário que se encontram no extremo oposto do cercado, são um pouco menores. Sua maior dimensão (mais ou menos vinte passos) vai de este à oeste; sua largura é de mais ou menos dez passos e, além do pórtico coberto situado na entrada, contém dois quartos escassamente iluminados por uma grade de madeira sobre as portas. A tumba do Shaykh que dá o nome ao lugar, está rodeada por uma varanda de madeira e está situada no centro do quarto interno pelo qual se entra através de uma porta que se comunica com o quarto externo ou por outra porta que se abre externamente ao recinto cercado". (E. G. Browne, "A Year amongst the Persians", p. 565).

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cenas gloriosas serão novamente representadas diante de teus olhos." Esse servo decidiu-se afinal a participar da sorte dos heróicos defensores do forte e caiu vítima, martirizado dentro de seus muros. No mesmo dia de sua chegada, que era o dia 14 de Dhi'l-Qa'dih(30), Mullá Husayn deu a Mírzá MuhammadBáqír, que construíra o Bábíyyih, as instruções preliminares referentes ao desenho do forte que deveria ser construído para sua defesa. Ao anoitecer do mesmo dia, viram-se subitamente cercados por uma multidão irregular de homens montados que haviam emergido da floresta e se preparavam para disparar contra eles suas armas de fogo. "Somos habitantes de Qádí-Kalá," gritaram. "Viemos vingar o sangue de Khusraw. Antes de passarmos todos na espada, não estaremos satisfeitos." Assediada por uma turba selvagem pronta a lançar-se sobre eles, a companhia teve de desembainhar mais uma vez as espadas, em defesa própria. Erguendo o brado de "Yá Sáhihu'z-Zamán", aos saltos avançaram, repulsaram os agressores e os puseram em fuga. Tão tremendo foi o brado, que aqueles homens montados se desvaneceram tão subitamente como haviam aparecido. Mírzá Muhammad Taqíy-i-Juvayní, a seu próprio pedido, assumira o comando desse combate. Receando que os agressores voltassem para um novo ataque contra eles e recorressem a um massacre geral, seguiram-nos até alcançarem uma vila que pensavam fosse a de Qádí-Kalá. Ao vê-los, todos os homens fugiram apavorados. A mãe de Nazar Khán, proprietária da vila, foi morta, inadvertidamente, na escuridão da noite, em meio à confusão que se seguiu. O clamor das mulheres, que protestavam violentamente, dizendo não terem relação alguma com o povo de Qádí-Kalá, breve atingiu os ouvidos de Mírzá Muhammad-Taqí, que de pronto ordenou que os companheiros detivessem as mãos até se certificarem do nome e caráter do lugar. Logo descobriram que a vila pertencia a Nazar Khán e que a mulher cuja vida fora sacrificada era sua mãe. Profundamente aflito ao verificar tão lastimável erro da parte dos companheiros, Mírzá Muhammad-Taqí pesaro(30)

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12 de outubro de 1848 A. D.


samente exclamou: "Não tencionávamos nós molestar nenhum homem ou mulher dessa vila. Nosso propósito único era conter a violência do povo de Qádí-Kalá, que estava prestes a nos massacrar a todos." Apresentou suas desculpas sinceras pela lamentável tragédia da qual foram seus companheiros os autores inconscientes. Nazar Khán, que entrementes se escondera em sua casa, convenceu-se da sinceridade do pesar expresso por Mírzá Muhammad-Taqí. Embora sofrendo por causa dessa penosa perda, sentiu-se impelido a chamá-lo e convidá-lo a sua casa. Até pediu a Mírzá Muhammad-Taqí que o apresentasse a Mullá Husayn, expressando um desejo ardente de conhecer os preceitos de uma Causa capaz de atear nos corações de seus aderentes tão grande fervor. Na hora da alvorada, Mírzá Muhammad Taqí, acompanhado de Nazar Khán, chegou ao santuário de Shaykh Tabarsí e encontrou Mullá Husayn ocupado em dirigir a oração congregacional. Tal foi o êxtase que se irradiava de seu semblante que Nazar Khán sentiu um impulso irresistível de se juntar àqueles devotos e repetir as mesmas preces que estavam então caindo de seus lábios. Após a conclusão dessa prece, Mullá Husayn foi informado da perda que Nazar Khán sofrerá. Ele expressou na mais comovente linguagem os pêsames que ele e a inteira companhia de seus co-discípulos sentiam por ele em sua grande perda. "Deus sabe," ele lhe assegurou, "que nossa intenção única foi proteger nossas vidas; não queríamos perturbar a paz da vizinhança." Mullá Husayn procedeu então a relatar as circunstancias que provocaram o ataque contra eles dirigido pelo povo de Bárfurúsh e explicou a conduta traiçoeira de Khusraw. De novo lhe assegurou da tristeza que a morte de sua mãe lhe havia causado. "Não aflijais vosso coração," respondeu Nazar Khán, espontaneamente. "Oxalá me tivessem sido dados cem filhos, todos os quais teria eu jubilosamente posto aos vossos pés, como oferenda ao Sáhibu'z-Zamán!" Hipotecou, naquele mesmo momento, sua lealdade imorredoura a Mullá Husayn e se apressou a voltar a sua vila a fim de buscar quaisquer provisões que pudessem ser necessitadas para a companhia. 93


Mullá Husayn ordenou que os companheiros começassem a construção do forte que fora projetado. A cada grupo designou uma seção do trabalho, encorajando-os a apressarem sua execução. Durante essas operações estavam continuamente importunados pelos habitantes das vilas vizinhas que, instigados persistentemente pelo Sa'ídu'l-'Ulamá, saiam e os agrediam. Cada ataque do inimigo terminava em fracasso e ignomínia. Não detidos pela ferocidade de suas freqüentes investidas, os companheiros resistiam destemidamente aos seus ataques até conseguirem subjugar temporariamente as forças que por todos os lados haviam assediado. Ao ser completado o trabalho da construção, empreendeu Mullá Husayn os preparativos necessários para o assédio que o forte estava destinado a suportar e providenciou, a despeito dos empecilhos que lhe obstavam o caminho, tudo o que parecia ser essencial ao bem-estar dos ocupantes. Mal se completara o trabalho quando chegou Shaykh Abú-Turáb trazendo a notícia da chegada de Bahá'u'lláh na vila de Nazar Khán. Informou a Mullá Husayn que fora especialmente mandado por Bahá'u'lláh para lhes avisar que seriam todos Seus hóspedes naquela noite e que Ele Próprio estaria com eles naquela mesma tarde. Tenho ouvido Mullá Mírzá Muhammad-i-Furúghí contar o seguinte: "As boas novas trazidas por Shaykh Abú-Turáb conferiram ao coração de Mullá Husayn júbilo indescritível. De imediato se apressou a ordenar aos companheiros que fizessem os preparativos para a recepção de Bahá'u'lláh. Ele mesmo participou com eles em varrer e borrifar de água as entradas para o santuário e pessoalmente atendia a qualquer coisa que fosse necessária para a vinda do bem-amado Visitante. Assim que O viu aproximar-se com Nazar Khán precipitou-se em direção a ele, com ternura O abraçou e conduziu ao lugar de honra que para Sua recepção ele reservara. Estávamos demasiado cegos naqueles dias para reconhecermos a glória Daquele que nosso líder, em nosso meio, apresentara com tanta reverência e tão grande amor. O que Mullá Husayn havia percebido, nossa ofuscada visão não podia ainda reconhecer. Com quanta solicitude ele O recebia nos braços! Que sentimentos de extático deleite lhe inundavam o coração ao contemplá-Lo! Tão absorto estava em 94


admiração que de todos nós se esquecia completamente. A tal ponto se extasiava sua alma com a contemplação daquele semblante que nós, esperando sua permissão para nos sentarmos, tivemos de ficar em pé a seu lado por muito tempo. Foi o próprio Bahá'u'lláh que, enfim, nos mandou sentarmos. Breve fomos nós também forçados a sentir, ainda que inadequadamente, o encanto de Seu discurso, embora nenhum de nós percebesse, nem sequer tenuemente, a infinita potência latente em Suas palavras. Bahá'u'lláh durante essa visita inspecionou o forte e expressou Sua satisfação com o trabalho que havia sido executado. Em Sua conversação com Mullá Husayn, explicou Ele em detalhe tais assuntos como eram vitais ao bem-estar e segurança de seus companheiros. 'A coisa única de que necessitam esse forte e essa companhia,' disse Ele, 'é a presença de Quddús. Sua associação com essa companhia a tornaria completa e perfeita.' Deu instruções a Mullá Husayn para expedir Mullá Mihdíy-i-Khu'í com seis pessoas a Sárí e exigir de Mírzá Muhammad-Taqí que de imediato entregasse Quddús em suas mãos. 'O temor a Deus e o medo de Seu castigo,' Ele assegurou a Mullá Husayn, 'o impelirá a render seu cativo sem hesitação.' "Antes de Sua partida, Bahá'u'lláh os exortou a serem pacientes e resignados à vontade do Todo-Poderoso. 'Se for Sua vontade,' acrescentou, 'ainda outra vez vos visitaremos nesse mesmo lugar, e vos prestaremos Nossa assistência. Postes escolhido por Deus para serdes a vanguarda de Sua hoste e os fundadores de Sua Fé. Sua hoste, verdadeiramente, haverá de conquistar. Aconteça o que acontecer, a vitória é vossa, uma vitória que é completa e certa.' Com estas palavras, confiou aos cuidados de Deus aqueles corajosos companheiros e regressou à vila com Nazar Khán e Shaykh Abu-Turáb. Daí partiu via Núr a Teerã." Logo Mullá Husayn se pôs a levar a cabo as instruções que recebera. Chamando Mullá Mihdí, ordenou que procedesse, juntamente com seis outros companheiros, a Sárí e pedisse que o mujtahid libertasse seu prisioneiro. Logo que lhe foi transmitida a mensagem, Mírzá Muhammad-Taqí acedeu incondicionalmente a seu pedido. A potência da qual 95


fora dotada aquela mensagem parecia o haver desarmado completamente. "Eu o tenho considerado," apressou-se a assegurar aos mensageiros, "somente como hóspede honrado em minha casa. Indigno seria de mim fingir que eu o houvesse despedido ou libertado. Liberdade tem ele para fazer o que deseja. Se ele quisesse, eu de bom grado o acompanharia." Mullá Husayn, entrementes, avisara os companheiros da aproximação de Quddús e os exortara a observarem para com ele tal reverência como a que eram impelidos a mostrar ao próprio Báb. "Quanto a mim," acrescentou, "deveis me considerar como seu humilde servo. Deveis lhe prestar tal lealdade que, se ele vos mandasse me tirar a vida, sem hesitação o obedeceríeis. Se vacilardes ou hesitardes, tereis demonstrado vossa deslealdade à Fé. Antes dele vos chamar a sua presença, não devereis vós, de modo algum, vos aventurar a introduzir-vos. Deveríeis abandonar vossos desejos e aderir a sua vontade e seu beneplácito. Deveríeis vos abster de lhe beijar as mãos ou os pés, pois a seu abençoado coração não agradam tais evidências de reverente afeto. Tal deve ser vossa conduta que eu me possa orgulhar de vós diante dele. A glória e a autoridade das quais foi ele investido devem por força ser devidamente reconhecidas até pelos mais insignificantes de seus companheiros. Quem se desviar do espírito e da letra de minhas admoestações, será por uma punição penosa ser seguramente atingido." O encarceramento de Quddús na casa de Mírzá Muhammad-Taqí, o mais eminente mujtahid de Sárí e seu parente, durou noventa e cinco dias. Embora confinado, Quddús era tratado com notável deferência, sendo-lhe permitido receber a maioria dos companheiros que havia estado presente na reunião de Badasht. A ninguém, entretanto, dava ele permissão para permanecer em Sárí. Qualquer um que o visitasse era por ele solicitado, em termos os mais prementes, a alistar-se sob o Estandarte Negro içado por Mullá Husayn. Era o mesmo estandarte do qual assim falara Maomé, o Profeta de Deus: "Fossem vossos olhos contemplar os Estandartes Negros a procederem de Khurásán, apressai-vos em sua direção, ainda que tenhais de vos arrastar sobre a 96


neve, pois proclamam o advento do prometido Mihdí (31 ), Vice-regente de Deus." Foi içado esse estandarte a mando do Báb, em nome de Quddús e pelas mãos de Mullá Husayn. No alto foi levado, por todo o caminho desde a cidade de Mashhad até o santuário de Shaykh Tabarsí. Durante onze meses, desde o princípio de Sha'bán, no ano de 1264 A.H. (32), até o fim de Jamádíyu'th-Thání, no ano de 1265 A.H. (33), aquele emblema terreno de uma soberania que não era da Terra flutuava continuamente sobre as cabeças daquela pequena e intrépida companhia, convocando a multidão que o contemplava a renunciar ao mundo e esposar a Causa de Deus. Enquanto em Sárí, Quddús freqüentemente tentava convencer Mírzá Muhammad-Taqí da Verdade da Mensagem Divina. Conversava livremente com ele sobre as mais ponderosas e salientes questões relacionadas à Revelação do Báb. Seus comentários audazes e desafiadores eram expressos em linguagem tão branda, tão persuasiva, tão cortez e apresentados com tanta genialidade e humor, que aqueles que o ouviam nem no mínimo grau se sentiam ofendidos. Até interpretavam erroneamente suas alusões ao Livro Sagrado, considerando-as comentários humorísticos que visavam entreter os ouvintes. Mírzá Muhammad-Taqí, a despeito da sua crueldade e malvadez nele latentes e que ele subseqüentemente manifestou pela atitude que assumiu ao insistir sobre o extermínio dos defensores restantes do forte de Shaykh Tabarsí, era detido por um poder interior de mostrar a Quddús, enquanto confinado em sua casa, o mínimo desrespeito. Até se sentia incitado a impedir que os habitantes de Sárí ofendessem Quddús e muitas vezes se podia ouvi-lo repreendê-los pelo dano que desejavam lhe infligir. A notícia da iminente chegada de Quddús despertou os ocupantes do forte de Tabarsí. Ao aproximar-se de seu destino, mandou ele um mensageiro em sua frente para anunciar sua vinda. As novas jubilosas deram-lhes coragem e poder reforçados. Excitado a uma explosão de entusiasmo (31) (32) (33)

Veja glossário. 3 de julho — 1.° de agosto de 1848 A. D. 24 de abril — 23 de maio de 1849 A. D.

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que ele não podia reprimir, Mullá Husayn se levantou e escoltado por cerca de cem de seus companheiros, apressou-se em ir ao encontro do visitante esperado. Colocou duas velas nas mãos de cada um, acendendo-as ele mesmo e ordenou que procedessem ao encontro de Quddús. As trevas da noite foram dissipadas pelo brilho que aqueles corações jubilosos irradiavam enquanto marchavam para diante, ao encontro de seu bem-amado. No meio da floresta de Mázindarán, seus olhos instantaneamente reconheceram a face que haviam ardentemente desejado fitar. Com entusiasmo se conglomeravam em volta de seu corcel e com toda prova de devoção, lhe prestaram sua homenagem de amor e imorredoura lealdade. Segurando ainda nas mãos as velas acesas, seguiramno a pé em direção a seu destino. Quddús, enquanto ia montado em seu meio, aparecia como o sol que brilhava entre seus satélites. À medida que a companhia trilhava lentamente o caminho ao forte, irrompeu o hino de glorificação e louvor entoado pela companhia de seus entusiásticos admiradores. "Santo, santo, o Senhor nosso Deus, o Senhor dos anjos e do espírito!" Ressoavam suas vozes jubilantes ao seu redor. Mullá Husayn erguia o alegre estribilho, ao qual respondia a companhia inteira. A floresta de Mázindarán ecoava ao som de suas aclamações. Desta maneira alcançaram o santuário de Shaykh Tabarsí. As primeiras palavras a caírem dos lábios de Quddús, após haver ele apeado e se encostado ao santuário, foram as seguintes: 'O melhor para vós será o Baqíyyatulláh (34), se sois dos que crêem (35)." Com esta pronunciação se cumpriu a profecia de Maomé, segundo registrada na seguinte tradição: "E quando o Mihdí (36) se tornar manifesto, Ele haverá de se encostar ao Ka'bih e, aos trezentos e treze seguidores ajuntados ao Seu redor, dirigir estas palavras. 'O melhor para vós será o Baqíyyatulláh, se sois dos que crêem.'" Por "Baqíyyatulláh," Quddús não queria se referir senão a Bahá'u'lláh. Disto deu testemunho Mullá Mírzá Muhammad-i-Purughí, quem me relatou o seguinte: "Presente (34) (35) (36)

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Literalmente "Remanescente de Deus" Alcorão 11:85. Veja glossário.


estava eu mesmo quando Quddús apeou de seu cavalo. Eu o vi encostar-se ao santuário e aquelas mesmas palavras o ouvi pronunciar. Mal as dissera quando fez menção de Bahá'u'lláh e, virando-se a Mullá Husayn, indagou sobre Ele. Foi informado de que Ele dera a entender Sua intenção de regressar a esse lugar antes do primeiro dia de Muharram, a menos que Deus decretasse o contrário (37). "Pouco depois, Quddús entregou a Mullá Husayn várias homilias, pedindo-lhe que as lesse em voz alta aos companheiros reunidos. A primeira homília que leu foi dedicada inteiramente ao Báb, a segunda a Bahá'u'lláh e a terceira se referia a Táhirih. Aventuramo-nos a expressar a Mullá Husayn nossas dúvidas sobre as referências na segunda homília, se eram aplicáveis a Bahá'u'lláh, que aparecia ataviado nas vestes da nobreza. Levou-se a questão a Quddús, que nos assegurou que, Deus desejando, seu segredo nos seria revelado no devido tempo. Sendo-nos completamente despercebido, naqueles dias, o caráter da Missão de Bahá'u'lláh, não pudemos compreender o que significavam aquelas alusões, e conjeturávamos futilmente sobre seu provável significado. Em minha ansiedade de desvendar as sutilezas das tradições relativas ao prometido Qá'im, eu várias vezes me aproximei de Quddús e lhe pedi que me esclarecesse sobre esse assunto. Embora ele de início não quisesse, acedeu afinal a meu desejo. A maneira de responder, suas explicações convincentes e iluminadoras, serviram para intensificar o senso de reverência e veneração que sua presença inspirava. Dissipou ele quaisquer dúvidas que ainda restassem em nossas mentes e tais foram as evidências de sua perspicácia que viemos a acreditar que lhe fora cencedido o poder de ler nossos pensamentos mais profundos e acalmar o mais violento tumulto em nossos corações. "Muitas foram as noites em que eu via Mullá Husayn andar à roda do santuário dentro de cujo recinto jazia Quddús adormecido. Quantas vezes eu o via emergir de seu aposento no meio da noite, e quieto, dirigir os passos àquele lugar e sussurrar o mesmo verso com que nós todos havíamos aclamado a vinda do bem-amado visitante! Com que (37)

27 de novembro de 1848 A. D.

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emoção me posso ainda dele lembrar, enquanto a mim se dirigia — na quietude daquelas horas escuras e solitárias que eu dedicava à meditação e prece — e me sussurrava nos ouvidos estas palavras: — 'Bani de vossa mente, ó Muliá Mírzá Muhammad, essas sutilezas perplexas e, livrandovos de seus ardis, levantai-vos e comigo procurai sorver da taça do martírio. Podereis então compreender, ao raiar sobre o mundo o ano de 80 (38), o segredo das coisas que ora jazem ocultas de vós.'" Quddús, ao chegar no santuário de Shaykh Tabarsí, incumbiu Mullá Husayn de se certificar do número dos companheiros reunidos. Um por um, ele os contou, mandando que entrassem, passando pelo portão do forte: trezentos e doze ao todo. Prestes estava, ele próprio, a entrar no forte, a fim de informar Quddús do resultado, quando de súbito um jovem, que por todo o caminho de Bárfurúsh a pé se apressara, entrou precipitadamente e, pegando a bainha de suas roupas, implorou que o alistassem entre os companheiros e lhe permitissem que no caminho do Bem-Amado sacrificasse sua vida quando quer que fosse exigida. Logo, a seu desejo se acedeu. Quddús, ao ser informado do número total dos companheiros, comentou: "O que a língua do Profeta de Deus tiver pronunciado sobre o Prometido, haverá por força de ser cumprido (39), para que assim Seu testemunho seja completo aos olhos daqueles sacerdotes que a si próprios estimam como os intérpretes únicos da lei e das tradições do Islã. Por seu intermédio virá o povo a reconhecer a verdade e admitir haverem sido cumpridas as tradições (40)." (38) Referência ao ano de 1820 D. H. (1863-4 A. D.) em que Bahá'u'lláh declarou sua Missão em Bagdá. (39) A reunião de trezentos e treze defensores eleitos pelo Imame de Táliqán de Khurásán é um dos sinais que deve necessariamente anunciar o advento do Qá'im prometido. (E. G. Browne, "A History of Persian Literature in Modern Times", A. D. 1500 1924, p. 399). (40) Entre eles encontrava-se também Rida Khán, filho de Muhammad Khán, o Turkomán, Chefe da Cavalaria do extinto Monarca Muhammad Sháh. Era um jovem agraciado, de rosto formoso e que estava dotado de toda classe de talentos e virtudes, digno, sóbrio, gentil, generoso, valente e varonil. Por amor e serviço a Sua Santidade Suprema abandonou tanto o seu posto como o seu salário, fechou os olhos tanto à posição como ao nome, fama, e vergonha, a reprovação dos amigos e

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Todas as manhãs e todas as tardes, naqueles dias, Quddús chamava Mullá Husayn e os mais distintos dentre seus companheiros e lhes pedia que entoassem os escritos do Báb. Assentado no Maydán, a praça aberta adjacente ao forte e rodeado por seus amigos devotados, escutava ele atentamente as palavras de seu Mestre e, em algumas ocasiões, as zombarias dos inimigos. Com um só passo deixou para trá s dignidade, riqueza, posição e todo poder e consideração de que gozava, gastou grandes somas de dinheiro (pelo menos quatro a cinco mil tumanes) na Causa de Sua Santidade Suprema, chegou a aldeia de Khánliq perto de Teerã e, com o objetivo de pôr à prova a fidelidade de Seus seguidores disse: "Se só houvessem alguns cavaleiros armados que me livrassem das correntes dos malvados e de suas artimanhas não seria mal". Ao ouvir estas palavras, vários cavaleiros armados ágeis e com experiência, com todo seu equipamento se ofereceram de imediato para partir e renunciando a tudo quanto tinham, se dirigiram rapidamente para apresentar-se ante Sua Santidade. Entre estes se encontrava Mirzá Qurbán-'Alí de Astarábád e Rida Khán. Quando se apresentaram ante Sua majestade, Ele sorriu e disse: "A montanha de Ádhirbáyján também Me exige" e lhes pediu que regressassem. Depois de seu regresso, Rida Khán se dedicou ao serviço dos amigos de Deus e sua casa foi freqüentemente lugar de reuniões dos crentes, entre estes tanto Jináb-iQuddús e Jináb-i-Babul'-Báb foram por um tempo, seus convidados de honra. Por certo se despreocupou completamente de si mesmo e nunca se acanhou no serviço a nenhum deles desse círculo senão que apesar de seu alto posto, lutou com todo seu coração e alma por promover os objetivos dos servos de Deus. Por exemplo, quando Jináb-i-Quddús começou a pregar a doutrina em Mázindarán e o Sa'idu'l-'Ulamá, ao saber dele, fez grandes esforços para causar-lhe dano, Rida Khán se apressou em ir imediatamente à Mázindarán e cada vez que Jiná i-Quddús saía de sua casa, apesar de seu alto posto e o respeito a que estava acostumado, somente caminhava diante dele com seu sabre desembainhado sobre o ombro; ao ver isto os malfeitores temiam tomar alguma liberdade . . . Durante algum tempo, Rida Khán agiu desta forma em Mázindarán até que acompanhou a Jináb-i-Quddús a Mashhád. Quando de lá regressou esteve presente durante as dificuldades em Badasht onde prestou serviços muito valiosos e recebeu a incumbência de levar a efeito encargos de maior importância e deFcadeza. Depois do término da reunião de Badasht caiu enfermo e, em companhia de Mirzá Sulayman-Qulí de Núr (um filho do extinto Shátir-báshí que também era conspícuo por suas virtudes, sua erudição e devoção), veio também à Teerã. A enfermidade de Rida Khán durou algum tempo e quando se restabeleceu, o assédio ao castelo de Tabarsí já havia se tornado muito sério. Imediatamente decidiu partir em ajuda a guarnição. No entanto, como era uma pessoa destacada e muito conhecida, não podia deixar a capital sem dar uma razão plausível. Por este motivo simulou arrepen-

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se podia ouvi-lo sobre elas comentar. Nem as ameaças do inimigo, nem a ferocidade de seus sucessivos ataques, podiam induzi-lo a diminuir o fervor ou interromper a regularidade de suas devoções. Não levando em conta qualquer perigo e esquecido de suas próprias necessidades e desejos, ele continuava, até sob as circunstâncias mais angustiantes, sua comunhão diária com seu Bem-Amado, escrevendo sobre der-se da sua conduta passada e pediu que o enviassem a participar da guerra em Mázindarán, e desta forma se redimir por sua conduta anterior. O rei acreditou em sua petição e o designou para acompanhar os reforços que sob as ordens do Príncipe Mihdi-Qulí Mirzá se dirigiam contra o castelo. Durante a marcha àquele lugar dizia continuamente ao Príncipe "farei isto", e "farei aquilo"; deste modo o Príncipe começou a alimentar grandes esperanças nele e lhe prometeu um cargo que estivesse de acordo com seus serviços já que até o dia em que era inevitável ordenar a batalha e a paz já não era possível, sempre estava em primeiro lugar no exército e se mostrou muito competente para comandar. Porém durante o primeiro dia da batalha começou galopar em seu cavalo e a praticar outros exercícios militares até que, sem haver despertado suspeitas, repentinamente soltou as rédeas e se reuniu com os Irmãos de Pureza. Ao chegar entre eles, beijou os pés de Jináb-iQuddús e se prostou ante ele com gratidão. Então voltou uma vez mais ao campo de batalha e começou a vilipendiar e maldizer o príncipe, dizendo: "Quem é suficientemente homem para pisotear a pompa e a vaidade do mundo, livrar-se dos laços dos desejos carnais e unir-se como faço eu, com os santos de Deus? De minha parte, só estarei satisfeito quando minha cabeça tiver caído no pó e sangue nesta planície". Então, como um leão encolerizado arrojou-se sobre eles com a espada desembainhada e se comportou tão virilmente que todos os oficiais reais se mostraram assombrados dizendo: "Valentia igual a esta deve ter sido concedida recentemente do alto dos céus ou então um novo espírito foi infundido em seu corpo". Em mais de uma ocasião abateu um fuzileiro no momento de descarregar seu fuzil e tantos oficiais principais do exército real caíram por suas mãos que o príncipe e os demais oficiais do poder ansiavam mais vingar-se nele que em qualquer outro Babí. Na véspera do dia fixado para que Jináb-i-Quddús se rendesse, Rida Khán sabendo que devido ao grande ódio que nutriam por ele lhe dariam uma morte com torturas cruéis, foi durante a noite à casa de um oficial do acampamento que era um velho e fiel amigo. Depois do massacre dos demais Babís foi iniciada uma busca para encontrar Rida Khán e finalmente foi descoberto. O oficial que o havia dado proteção propôs que se pedisse um resgate de dois mil tumanes em dinheiro, porém sua proposição foi rechaçada e mesmo quando ofereceu aumentar esta soma e tratou por todos os meios de salvar seu amigo, de nada adiantou porque o príncipe devido ao grande ódio que sentia por Rida Khán ordenou que o despedaçassem". (O "Taríkh-i-Jadíd", pp. 96-101).

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Ele seus louvores, e pedindo novos esforços aos defensores do forte. Embora expostos às balas que continuavam a chover incessantemente sobre os companheiros assediados, ele em nada detido pela ferocidade do ataque, prosseguia seus labores em estado de calma imperturbável. "Com Tua menção minha alma se esposou!" Usava ele exclamar. "Lembrança de Ti é o apoio e o consolo de minha vida! Eu me vanglorio por haver sido o primeiro a sofrer ignominiosamente por amor a Ti, em Shíráz. Anelo a ser o primeiro a sofrer em Teu caminho uma morte digna de Tua Causa." Em algumas ocasiões pedia ele aos companheiros do Iraque que entoassem várias passagens do Corão, as quais escutava com concentrada atenção e muitas vezes se sentia impelido a desdobrar seu significado. Durante uma de suas entoações encontraram o seguinte versículo: "Com algo de medo e fome, perda de riqueza e vidas e frutos, Nós seguramente vos provaremos; mas levai boas novas aos pacientes." "Estas palavras," dizia Quddús, "foram originariamente reveladas com referência a J ó e as aflições que lhe sobrevieram. Neste dia, porém, são aplicáveis a nós, que somos destinados a sofrer essas mesmas aflições. Tal será a medida de nossa calamidade que ninguém, a não ser aquele dotado de constância e paciência, as poderá sobreviver." O conhecimento e a sagacidade que Quddús manifestava nessas ocasiões, a confiança com que falava, e a habilidade e iniciativa que demonstrava nas instruções aos companheiros, reforçava sua autoridade e lhe realçava o prestígio. Supunham de início que a profunda reverência que Mullá Husayn lhe mostrava era ditada pelas exigências da situação em vez de ser incentivada por um sentimento espontâneo de devoção a sua pessoa. Seus próprios escritos e comportamento em geral vinham dissipando aos poucos as tais dúvidas e serviram para estabelecê-lo ainda mais firmemente na estima dos companheiros. Nos dias de seu encarceramento na cidade de Sárí, Quddús, a quem Mírzá MuhammadTaqí havia pedido que escrevesse um comentário sobre o Sura de Ikhlás, conhecido como Sura de Qul Huva'Uáhu'lAhad compôs — só em sua interpretação do Sád de Samad — um tratado três vezes mais volumoso do que o próprio Corão. Essa exposição exaustiva e magistral fizera uma im103


pressão profunda em Mírzá Muhammad-Taqí e fora responsável pela consideração notável que ele mostrava para com Quddús, embora no fim tivesse ele conspirado com o Sa'ídu'l'Ulamá para efetivar a morte dos heróicos mártires de Shaykh Tabarsí. Sobre esse Sura continuou Quddús, enquanto assediado naquele forte, a escrever seu comentário, e a despeito da veemência da investida do inimigo, ele conseguiu compor tantos versículos quanto escrevera previamente em Sárí em sua interpretação dessa mesma carta. A rapidez e a copiosidade de sua composição, os inestimáveis tesouros que seus escritos revelavam, enchiam de admiração os seus companheiros e aos olhos deles lhe justificavam a primazia. Avidamente liam as páginas desse comentário que Mullá Husayn cada dia lhes entregava e ao qual prestava ele seu quinhão de homenagem. A complementação do forte, com o fornecimento de tudo o que se julgava essencial a sua defesa despertou o entusiasmo dos companheiros de Mullá Husayn e excitou a curiosidade do povo da vizinhança (41). Alguns por simples curiosidade, outros à procura de interesses materiais, e ainda outros motivados pela sua devoção à Causa que essa construção simbolizava, queriam ser admitidos dentro de seus muros e se maravilhavam da rapidez com que fora erguida. Mal havia Quddús se certificado do número de seus ocupantes, quando deu ordem de não se permitir que visi(41) Segundo as descrições, a fortaleza construída por Mullá Husayn logo se transformou em um prédio muito forte. Suas muralhas, feitas de grandes pedras chegavam a altura de dez metros. Sobre esta base edificaram uma construção feita de enormes troncos de árvores nos quais abriram certos números de frestas. Então rodearam-na por todos os lados com um fosso profundo. De fato era como uma grande torre que tinha por base pedras, enquanto que os pisos superiores eram de madeira e tinham três fileiras de frestas onde podiam colocar quantos tufang-chís (espingardas) quizessem, ou melhor, tivessem. Fizeram numerosas aberturas com portas e portões para assim facilitar a entrada e saída. "E'scavaram poços para assim assegurar abundância de água e passagens subterrâneas para refúgio em caso de necessidade; construíram depósitos que foram abarrotados com todo o tipo de provisões, seja comprada ou recolhida nas aldeias vizinhas. Finalmente puseram como guardas os Babís mais enérgicos, os mais devotados e os mais dignos de confiança entre eles". (Conde de Gobineau. "Les Reli g^ons et les Philosophies dans l'Asie Centrale", p. 156).

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tante algum lá entrasse. Os profusos elogios daqueles que já haviam inspecionado o forte foram transmitidos de boca em boca até que chegaram aos ouvidos do Sa'ídu'l-'Ulamá e em seu peito acenderam a chama de implacável ciúme. Em seu ódio por aqueles responsáveis pela sua ereção, proibiu estritamente que qualquer um se aproximasse de seu recinto e exortou todos a boicotarem os companheiros de Mullá Husayn. Apesar da severidade de suas ordens, foram encontrados alguns poucos que não cumpriram seus desejos e prestaram qualquer assistência em seu poder aos que haviam sido tão imerecidamente por ele perseguidos. Tais eram as aflições às quais foram sujeitadas essas pessoas que em certas ocasiões sentiam uma falta penosa das meras necessidades da vida. Em sua hora tenebrosa de adversidade, entretanto, irrompia sobre eles, de súbito, a luz da libertação Divina, lhes abrindo diante da face a porta de alívio inesperado. A maneira providencial como eram os ocupantes do lorte aliviados da aflição que sobre eles pesava agravou para enfurecer a ira do arbitrário e imperioso Sa'ídu'l-'Ulamá\ Impelido por um ódio implacável, dirigiu ele um apelo inflamado a Násiri'd-Dín Sháh, que recentemente ascendera ao trono, e se estendeu sobre o perigo que ameaçava sua dinastia, ainda mais, a própria monarquia. "O estandarte de revolta," argüia ele, "foi erguido pela seita abominável dos babís. Esse miserável bando de irresponsáveis agitadores teve a ousadia d.e atacar os próprios fundamentos da autoridade da qual foi investida Vossa Majestade Imperial. Os habitantes de várias vilas já se apressaram a seu estandarte e juraram lealdade a sua Causa. Construíram para si um forte e, nessa maciça cidadela se entrincheiraram, prontos para dirigir uma campanha contra vós. Com inalterável obstinação resolveram proclamar sua soberania independente, soberania essa que baixará ao pó o diadema imperial de vossos ilustres ancestrais. Estais no limiar de vosso reinado. Que triunfo maior poderia assinalar a inauguração de vosso domínio do que a extirpação dessa odiosa seita que se atreveu a conspirar contra vós? Servirá para estabelecer Vossa Majestade na confiança de vosso povo. Realçar-vos-á o prestígio e investirá vossa coroa de imperecível glória. Se vaci105


lardes em vossa política, se mostrardes para com eles a mínima indulgência, sentirei ser meu dever vos advertir que rapidamente se aproxima o dia quando não somente a província de Mázindarán mas a Pérsia inteira, de uma extremidade à outra, terá repudiado vossa autoridade e se rendido a sua Causa." Násiri'd-Dín Sháh, inexperiente ainda nos assuntos de Estado, referiu a questão aos oficiais que comandavam o exército de Mázindarán e que lhe atendiam (42). Deu-lhes instruções para tomar quaisquer medidas que julgassem apropriada para a exterminaçao dos perturbadores de seu reino. Hájí Mustafá Khán-i-Turkamán submeteu ao soberano sua opinião: "Venho eu mesmo de Mázindarán. Tenho podido estimar as forças a Sua disposição. O punhado de estudantes sem treinamento e de físico frágil, que eu vi, são absolutamente impotentes para resistir as forças que Vossa Majestade pode comandar. O exército que pensais em expedir é, a meu ver, desnecessário. Um pequeno destacamento desse exército será suficiente para eliminá-los. São completamente indignos do cuidado e da consideração de meu soberano. Quisesse Vossa Majestade, numa mensagem imperial dirigida a meu irmão 'Abdulláh Khán-i-Turkamán, indicar vosso desejo de que lhe seja conferida a autoridade necessária para subjugar aquele bando, estou convencido de que ele, num prazo de dois dias, reprimirá sua rebelião e destruirá suas esperanças." (42) "E assim, ávido pela manutenção da ordem, o Amir Nizám despachou rapidamente a questão de Mázindarán. Quando os dirigentes desta província vieram à Teerã para render tributos ao rei, receberam ordens, no momento de partir, que tomassem as medidas necessárias para por fim a rebelião dos Babís. Prometeram esforçar-se ao máximo e de fato, enquanto regressavam, os chefes reuniram suas forças e se juntaram para deliberação. Escreveram à seus parentes para que viessem unir-se a eles. Hájí Mustafá Khán chamou seu irmão Abdu'lláh 'Abbás-Qulí Khán-i-Larijaní mandou buscar a Muhammad-Sultan e a 'Ali Khán de Savád-Kúh. Todas estas celebridades decidiram atacar os Babís em sua fortaleza antes que eles, por sua conta, pudessem pôr-se na defensiva. Os oficiais reais ao ver que os dirigentes do país estavam tão dispostos, convocaram um grande conselho o qual se apressaram em comparecer os senhores já citados e também Mirzá Áqá Mustawfí de Mázindarán, superintendente de assuntos financeiros, o chefe dos 'Ulemás e muitas outras personalidades de alta posição". (Idem, pp. 160-161).

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O Xá deu seu consentimento e emitiu seu farmán (43) àquele mesmo 'Abdulláh Khán, lhe ordenando que sem demora recrutasse de qualquer parte de seu domínio as forças de que pudesse necessitar para executar seu propósito. Enviou com sua mensagem uma insígnia real, que lhe conferiu como sinal de confiança em sua capacidade para empreender essa tarefa. Ao receber o farmán imperial e o símbolo de honra que seu soberano lhe conferira, ele se sentiu estimulado a nova resolução para executar de um modo digno a sua missão. Dentro de pouco tempo havia ele levantado um exército de cerca de doze mil homens, composto em grande parte das comunidades de Usanlú, Afghán e Kúdár (44). Muniu-os de todas as armas necessárias e os estacionou na vila de Afrá, propriedade de Nazar Khán, donde se avistava o forte de Tabarsí. Assim que fixara seu acampamento nessa elevação, saiu ele para interceptar o suprimento diário de pão para os companheiros de Mullá Husayn. Até água breve lhes seria negada, como se tornava impossível que os assediados deixassem o forte exposto ao fogo do inimigo. O exército recebeu ordens de levantar várias barricadas na frente do forte e abrir fogo contra qualquer um que por acaso saísse de seu portão. Quddús proibiu os companheiros de saírem para buscar água da vizinhança. "Nosso pão foi interceptado por nosso inimigo," queixou Rasúl-i-Bahnimírí. "Que nos acontecerá se água também nos for negada?" Quddús, que, nesta ocasião, na hora do pôr-do-sol, avistava do terraço do forte, na companhia de Mullá Husayn, o exército do inimigo, a ele se virando, disse: "A escassez de água afligiu nossos companheiros. Deus desejando, nesta mesma noite, um aguaceiro sobrevirá aos nossos oponentes, seguido (43) Veja glossário. (44) "De sua parte, o superintendente de finanças organizou tropas entre os Afegãos residentes em Sárí e a eles agregou certo número de homens procedentes das tribos turcas sob suas ordens. 'Ali Abáb, a aldeia tão severamente castigada por causa dos Babís, que aspirava a vingança deles, subjulgou-se o que pode e foi reforçada por um grupo de homens de Qádí que estavam na vizinhança e estavam dispostos a alistarem-se". (Conde de Gobineau: "Les Religions et les Philosophies dans FAsie Centrale", p. 161).

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de uma pesada tempestade de neve, o que nos ajudará a repulsar sua projetada investida." Naquela mesma noite, o exército de 'Abdu'lláh Khán foi surpreendido por uma chuva torrencial que engolfou aquela seção próxima do forte. Grande parte da munição foi irreparavelmente arruinada. Juntou-se dentro dos muros do forte uma quantidade de água que por um longo período foi suficiente para o consumo dos assediados. Durante a noite seguinte, uma tempestade de neve tal como o povo da vizinhança nunca, nem no auge do inverno, havia visto, agravou consideravelmente o aborrecimento causado pela chuva. Na próxima noite, que era a véspera do dia cinco de Muharram, no ano de 1265 A.H. (45), decidiu Quddús a sair pelo portão do forte. "Louvado seja Deus " disse ele a Rasúl-i-Bahnimírí, enquanto com calma e serenidade passeava pelas proximidades do portão, "que por Sua graça respondeu a nossa prece e fez cair tanto chuva como neve sobre nossos inimigos, tempestade essa que assolou seu acampamento e refrescou nosso forte." Ao aproximar-se a hora do ataque para o qual o numeroso exército, a despeito das perdas sofridas, assiduamente se preparava, determinou-se Quddús a sair subitamente e lhe dissipar as forças. Duas horas após o nascer do sol, montou ele o corcel e, acompanhado por Mullá Husayn e mais três de seus companheiros, todos os quais iam montados ao seu lado, saíram pelo portão, seguidos pela companhia inteira, a pé. Logo que emergiram, retumbou o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán!" (46) brado esse que causou consternação por tcdo o acampamento do inimigo. O rugido que esses destemidos seguidores do Báb levantaram no meio da floresta de Mázindarán dispersou o inimigo apavorado que jazia em emboscada dentro de seus retiros. O reluzir de suas armas desembainhadas lhes ofuscava a vista, e sua ameaça era suficiente para os estontear e dominar. Diante de seu ímpeto, fugiram em derrota ignominiosa, deixando atrás todas as suas possessões. Dentro do espaço de quarenta e cinco minutos se havia erguido o brado da vitória. Quddús (45) (46)

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1.° de dezembro de 1848 A. D. Veja glossário.


e Mullá Husayn conseguiram dominar o resto do exército derrotado. 'Abdulláh Khán-i-Turkamán, com dois de seus oficiais, Habibulláh Khán-i-Afghán e Núru'lláh Khán-i-Afghán, juntamente com nada menos de quatrocentos e trinta de seus homens haviam perecido. Quddús regressou ao forte, enquanto Mullá Husayn ainda se ocupava em prosseguir o trabalho que tão valorosamente havia sido executado. A voz de Siyyid 'AbduVAzími-Khu'í logo se ergueu, chamando-o, em nome de Quddús, a voltar de imediato ao forte. "Já repelimos os assaltantes," disse Quddús, "não necessitamos levar avante a punição, é nosso propósito proteger a nós mesmos, a fim de que possamos continuar nossos labores pela regeneração dos homens. Nenhuma intenção temos nós de causar dano desnecessário a quem quer que seja. O que já realizamos é testemunho suficiente do invencível poder de Deus. Nós, uma pequena companhia de Seus seguidores, pudemos, através de Sua graça sustentadora, vencer o exército organizado e treinado de nossos inimigos." A despeito da luta, nenhum dos seguidores do Báb perdeu a vida durante esse combate. Nem foi gravemente ferido ninguém, a não ser um homem de nome Qulí, que ia montado na frente de Quddús. A todos se ordenou que nada pegassem da propriedade de seus adversários exceto suas espadas e seus cavalos. Como estavam se tornando evidentes os sinais da reorganização das forças comandadas por 'Abdulláh Khán, Quddús ordenou aos companheiros que cavassem um fosso em volta do forte para salvaguardá-los contra uma nova investida. Passaram-se dezenove dias durante os quais se esforçaram ao máximo para completarem a tarefa da qual foram incumbidos. Jubilosamente laboravam, dia e noite, a fim de acelerarem o trabalho que lhes fora confiado. Pouco depois de terminado o trabalho, foi anunciado que o Príncipe Mihdí-Qulí Mírzá (47) estava avançando em (47) O Amír Nizám encolerizou-se ao saber das notícias do que havia acontecido. A descrição dos terrores despertou a sua indignação. Estava demasiado longe da cena de ação para avaliar o desenfreado entusiasmo dos rebeMes; assim a única conclusão que podia tirar era de

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direção ao forte, chefiando um exército numeroso, e havia de fato acampado em Shír-Gáh. Poucos dias mais tarde, transferiram o quartel para Vás-Kas. Ao lá chegar, mandou um de seus homens para informar a Mullá Husayn que o Xá lhe ordenara que se certificasse do propósito de suas atividades e pedisse que Mullá Husayn o esclarecesse quanto ao objetivo que mirava. "Diga ao seu mestre," replicou Mullá Husayn, "que negamos em absoluto qualquer intenção ou de subverter os fundamentos da monarquia ou de usurpar a autoridade de Násiri'd-Dín Sháh. Nossa Causa trata da revelação do prometido Qá'im e se associa primariamente aos interesses da ordem eclesiástica deste país. Podemos expor argumentos incontrovertíveis e deduzir infalíveis provas em apoio da verdade da Mensagem da qual somos portadores." Apaixonada sinceridade com a qual Mullá Husayn pleiteou em defesa de sua Causa e os detalhes que citou para demonstrar a validade de suas pretensões, comoveram o coração do mensageiro e trouxeram lágrimas aos seus olhos. "Que deveremos fazer?", exclamou ele. "Que o príncipe," respondeu Mullá Husayn, "dê instruções aos ulemás tanto de Sarí como de Bárfurúsh para virem a este lugar e nos pedirem que demonstremos a validade da Revelação proclamada pelo Báb. Que o Corão decida quem diz a verdade. Que o príncipe julgue nosso caso, ele próprio, e pronuncie o veredito. Que ele decida também como nos deveria tratar se não conseguirmos estabelecer, mediante os versículos e as tradições, a verdade desta Causa." O mensageiro expressou sua completa satisfação com a resposta recebida e prometeu que, antes de se passarem três dias, os dignitários eclesiásticos seriam convocados da maneira por ele sugerida. que os Babís tinham que ser liquidados antes de que a sua coragem pudesse ser mais estimulada por vitórias reais. O príncipe Mihdí-Qulí Mírzá, designado tenente do Rei na província ameaçada, partiu investido de poderes extraordinários. Fora instruído para fazer uma lista dos homens que haviam morrido no ataque a fortaleza Babí e no saque de Ferra, e pensões foram prometidas aos sobreviventes. Hájí Mustafá Khán irmão de 'Abdu'lláh recebeu substanciais provas do favor real. Em resumo, todo o possível foi feito para restaurar a coragem e a confiança dos muçulmanos" (Conde de Gobineau "Les Religions et les Philosophies dans 1'Asie Centrale," pp. 164-165).

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A promessa feita pelo mensageiro não era destinada a ser cumprida. Três dias depois, o Príncipe Mihdí-Gulí Mírzá preparou-se para lançar seu ataque contra os ocupantes do forte em escala até então sem precedentes. Chefiando três regimentos de infantaria e vários regimentos de cavalaria, estacionou sua hoste numa elevação da qual se avistava o lugar e deu o sinal para abrir fogo nessa direção. O dia não havia ainda amanhecido quando ao sinal de "Montai vossos corcéis, ó heróis de Deus!" Quddús ordenou que os portões do forte fossem novamente abertos. Mullá Husayn e duzentos e dois de seus companheiros correram aos cavalos e seguiram Quddús, enquanto ele ia montado em direção de Vás-Kas. Destemidos diante das forças sobrepujantes contra eles dispostas e não impedidos pela neve e lama acumuladas nas estradas, avançaram, sem pausa, em meio à escuridão que os cercava, em direção à cidadela que servia de base para as operações do inimigo. O príncipe, que observava os movimentos de Mullá Husayn, viu-o aproximar-se de seu forte e ordenou aos homens que contra ele abrissem fogo. As balas que dispararam não lhe puderam deter o avanço. Ele forçou a entrada pelo portão e se precipitou nos aposentos particulares do príncipe, quem ao perceber de súbito estar em perigo a sua vida, se jogou de uma janela de fundos para o fosso e escapou descalço (48). Sua hoste, privada de seu chefe, e tomada de (48) "Deixaram Mihdí-Qulí Mirzá fugindo de seu lugar em chamas e vagando só pelo campo, em meio a neve e a obscuridade. "Até o amanhecer encontrava-se em um caminho desconhecido entre as montanhas, perdido em uma parte agreste do país, porém na realidade não muito longe da batalha onde tantos haviam sido mortos. O vento trouxe a seus ouvidos o som das descargas dos mosquetões. "Nesta situação lamentável, completamente aniquilado, foi encontrado por um Mázindarán que montava em um bom cavalo e que o reconheceu. Este homem apeou de seu cavalo, colocou o príncipe em sua cela e ofereceu-se para servir-lhe como guia. Levou-o à choça de um aldeão. o acomodou no alpendre (na Pérsia não se considera que este local deva ser olhado com desprezo) e enquanto o príncipe dormia e comia, o mázindarán montou em seu cavalo e percorrendo os arredores deu as boas novas de que o príncipe estava a salvo e bem de saúde. E desta forma conduziu até ele todos os seus homens, ou pelo menos um número respeitável deles, um grupo atrás do outro. "Se Mihdá-Qulí Mirzá houvera sido um desses espíritos orgulhosos

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pânico, fugiu em vergonhosa derrota diante daquele pequeno bando que eles, apesar de seu próprio número vastamente superior e dos recursos que a tesouraria imperial colocara a sua disposição, não conseguiram dominar (49). Enquanto os vencedores forçavam entrada pela seção do forte reservada para o príncipe, dois outros príncipes de sangue real (50) caíram numa tentativa de derrubar seus oponentes. Assim que penetraram em seus aposentos, descobriram em um de seus quartos, cofres cheios de ouro e prata, tudo o que, por desdém, deixaram de tocar. Com exceção de um pote de pólvora e da espada predileta do príncipe, a qual, como evidência de seu triunfo, levaram a Mullá Husayn, seus companheiros não levaram em conta a suntuosa equipagem que seu dono abandonara em seu desespero. Quando a levaram a Mullá Husayn, descobriram que, por haver uma bala atingido sua própria espada, ele a havia trocado por aquela de Quddús, com a qual estava ocupado em repelir o assaltante. difíceis de quebrantar pelos revezes, houvera considerado que sua posição havia mudado pouco pelas calamidades da véspera; pôde acreditar qu3 seus homens foram tomados por uma ação surpreendentemente desafortunada; então, com o que restava de sua forças poderia haver salvado as aparências e defendido seu terreno porque de fato os Babís haviam se retirado e não eram vistos mais por nenhum lado. Porém o Sháhzádíh, longe de orgulhar-se de tal firmeza, era de caráter débil e quando se viu rodeado de tão boa escolta, deixou o alpendre e se apressou em ir a aldeia de Qádí-Kalá de onde se dirigiu à Sárí com grande pressa. Esta conduta fortaleceu em toda a província a impressão causada pela derrota de Vás-Kas. Sobreveio o pânico, as cidades abertas acreditaram que estavam expostas a todos os perigos e apesar do rigor da estação, via-se caravanas de civis sob grandes dificuldades, levando suas mulheres e crianças ao deserto de Damávand para salvá-los dos miseráveis perigos que a cautelosa conduta de Sháhzádih parecia pressagiar. Quando os asiáticos perdem a cabeça o fazem completamente". (Conde de Gobineau, "Les Religions et les Philosophies dans lAsie Centrale", pp. 169-170). (49) "Em poucos minutos seu exército, já em estado de completa confusão foi dispersado pelos trezentos homens de Mullá Husayn! Não era esta a espada do Senhor e de Gedeão?" (Idem, pp. 167). (50) Segundo Gobineau (p. 167), eles eram Sultán Husayn Mirzá, filho de Fath-'Alí Sháh e Dawíd Mirzá, filho de Zillús-Sultán, tio do Sháh. A. L. M. Nicolas, em sua obra "Siyyid. Ali Muhammad dit le Báb", (p. 308), acrescenta Mustawfí Mirzá 'Abdu'1-Baqí.

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No ato de abrirem os portões da prisão que tinha estado nas mãos do inimigo, ouviram a voz de Mullá Yúsufi-Ardibílí, que fora apreendido no caminho ao forte e languescia entre os presos. Intercedeu ele pelos companheiros neste sofrimento e conseguiu obter sua libertação imediata. Na manhã daquele combate memorável, Muilá Husayn reuniu os companheiros ao redor de Quddús nas circunvizinhanças de Vás-Kas, enquanto ele mesmo permanecia montado em antecipação de um novo ataque pelo inimigo. Estava observando seus movimentos, quando de repente notou que uma hoste inumerável de ambos os lados se precipitava em sua direção. Todos se levantaram e, erguendo outra vez o brado de "Yá Sáhibu'z-Zamán", logo avançaram para enfrentar o desafio. Mullá Husayn esporeou o corcel em uma direção, e Quddús e seus companheiros em outra. O destacamento que estava avançando contra Mullá Husayn desviou-se de súbito e, fugindo de sua frente, se uniu com as outras forças inimigas e cercou Quddús e seus companheiros. Num dado momento, dispararam mil balas, uma das quais atingiu a boca de Quddús, tirando alguns de seus dentes e lhe ferindo tanto a língua como a garganta. O forte ruído que a descarga simultânea de mil balas produziu, e que podia ser ouvido a uma distância de dez farsangs (51), encheu de apreensão Mullá Husayn e o fez apressar-se a socorrer os amigos. Ao alcançá-los, apeou e, entregando o cavalo ao seu acompanhante, Qambar-'Ali, correu em direção a Quddús. A cena de seu bem-amado chefe de cuja boca o sangue caía profusamente, lhe causou receio e consternação. Levantou as mãos horrorizado, prestes a bater em sua própria cabeça, quando Quddús o mandou desistir. Obedecendo instantaneamente ao seu chefe, pediu-lhe permissão para receber de sua mão a espada, a qual logo depois de lhe ser entregue e desembainhada, foi usada para dissipar as forças ao seu redor aglomeradas. Seguido por cento e dez de seus condiscípulos, enfrentou as forças contra ele dispostas. Em uma mão levando a espada de seu bem-amado chefe e, na outra, de seu humilhado oponente, travou contra eles uma batalha desesperada e, (51)

Veja glossário.

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dentro de trinta minutos, durante os quais mostrou heroísmo maravilhoso, conseguiu pôr em fuga o exército inteiro. A vergonhosa retirada do exército do Príncipe MihdíQulí Mírzá facilitou a Mullá Husayn e aos companheiros seu regresso ao forte. Com dor e lástima, conduziram seu chefe ferido ao abrigo de sua cidadela. Ao chegar, dirigiu Quddús por escrito um apelo aos amigos que lhe lamentavam o ferimento e com suas palavras de ânimo lhes suavizou a tristeza. "Deveríamos nos submeter," exortava-os, "a vontade de Deus, qualquer que seja. Deveríamos nos manter firmes e constantes na hora da provação. A pedra do infiel quebrou os dentes do Profeta de Deus, os meus caíram em conseqüência da bala do inimigo. Embora esteja aflito meu corpo, em alegria está imersa minha alma. Minha gratidão a Deus não conhece limites. Se me amam, não permitam que este júbilo seja obscurecido diante dessas lamentações." Esse memorável confronto ocorreu no dia 25 de Muharram, 1265 A.H. (52). No começo deste mesmo mês, Bahá'u'lláh, fiel à promessa que fizera a Mullá Husayn, partiu de Núr, acompanhado por vários de Seus amigos, para o forte de Tabarsí. Entre aqueles que O acompanharam estavam Hájí Mírzá Jáníy-i-Káshání, Mullá Báqir-i-Tabrízí, uma das Letras dos Viventes e Mírzá Yahyá, Seu irmão. Bahá'u'lláh indicara Seu desejo de que procedessem diretamente a seu destino, sem permitirem nenhuma pausa nessa jornada. Foi Sua intenção alcançar aquele lugar à noite, pois desde que 'Abdu'lláh Khán assumira o comando, ordens estritas haviam sido emitidas para que nenhum auxílio fosse prestado, sob quaisquer circunstâncias, aos ocupantes do forte. Guardas estacionados em vários pontos asseguravam o isolamento dos assediados. Seus companheiros, entretanto, Lhe instavam que interrompesse a viagem e procurasse descansar por algumas horas. Embora sabendo que essa demora envolveria grave perigo de serem surpreendidos pelo inimigo, Ele acedeu a essa fervorosa solicitação. Pararam numa casa solitária adjacente à estrada. Depois de ceiarem, Seus companheiros se retiraram para dormir. Só (52)

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21 de dezembro de 1848 A. D.


Ele, a despeito das durezas que sofrerá, permanecia acordado. Bem conhecia os perigos aos quais estavam expostos, tanto Ele como os amigos e completamente ciente estava das possibilidades envolvidas em Sua chegada antecipada ao forte. Enquanto Ele vigiava a seu lado, os emissários secretos do inimigo deram aos guardas nas proximidades informações sobre a chegada do grupo e mandaram apanhar imediatamente qualquer coisa que pudessem encontrar em seu poder. "Recebemos ordens estritas," disseram a Bahá'u'lláh, a Quem reconheceram no mesmo instante como líder do grupo, "para prendermos toda pessoa que por acaso encontrássemos nessa vizinhança e para conduzirmos, sem prévia investigação alguma, a Ámul, devendo lá entregá-la nas mãos do governador." "De um modo errado foi o assunto apresentado aos vossos olhos," observou Bahá'u'lláh. "Interpretastes mal o nosso propósito. Eu queria vos aconselhar que procedais de uma maneira que não venha mais tarde a causar-vos arrependimento." Essa admoestaçao, pronunciada com dignidade e calma, induziu o chefe dos guardas a tratar com consideração e cortesia aqueles a quem prendera. Disse-lhes que montassem em seus cavalos e com ele seguissem para Ámul. Ao aproximarem-se das margens de um rio, Bahá'u'Iláh fez um sinal aos Seus companheiros, que estavam a alguma distância dos guardas, para que jogassem na água quaisquer manuscritos que tivessem em seu poder. Ao amanhecer, enquanto se aproximavam da cidade, foi mandada na frente uma mensagem ao governador interino informando-lhe da chegada de um grupo que fora preso enquanto ia a caminho da fortaleza de Tabarsí. O próprio governador, juntamente com os membros de sua guarda pessoal sendo designado para fazer parte do exército do Príncipe Mihdí-Qulí Mírzá havia incumbido seu parente de substituí-lo em sua ausência. Assim que lhe chegou a mensagem, foi ele ao masjid de Ámul e convocou os ulemás e principais siyyids da cidade para que se reunissem e ficassem à espera do grupo. Grande foi sua surpresa ao avistar e reconhecer Bahá'u'lláh e profundo seu arrependimento pelas ordens que dera. Fingiu repreendê-Lo pela Sua ação, na esperança de apaziguar o tumulto e mitigar a agitação 115


daqueles reunidos no masjid. "Somos inocentes," declarou Bahá'u'lláh, "da culpa que nos imputam. Nossa inculpabilidade será mais tarde estabelecida diante de vossos olhos. Eu queria vos aconselhar que procedais de uma maneira que não venha mais tarde a causar-vos arrependimento." O governador interino pediu aos ulemás presentes que Lhe fizessem qualquer pergunta que quisessem. Às suas interrogações deu Bahá'u'lláh respostas explícitas e convincentes. Enquanto O interrogavam, descobriram um manuscrito no poder de um de Seus companheiros que eles reconheceram como sendo de autoria do Báb. Entregaram-no ao chefe dos ulemás presentes nessa reunião. Após haver examinado algumas linhas do manuscrito, o pôs de lado e, virando-se para aqueles a seu redor, exclamou: "Essas pessoas que fazem pretensões tão extravagantes, demonstraram nesta mesma frase que acabo de ler, sua ignorância das regras mais rudimentares da ortografia." "Estimado e sábio sacerdote," replicou Bahá'u'lláh, "essas palavras que criticais não são as palavras do Báb. Foram pronunciadas por ninguém menos que o Imame 'Ali, Comandante dos Fiéis, em sua resposta a Kumayl-ibn-i-Zídyád, a quem ele escolhera como seu companheiro." As circunstâncias que Bahá'u'lláh então relatou com referência à resposta, bem como Seu pronunciamento, convenceram o arrogante mujtahid de seu erro e sua falta de inteligência. Não podendo contradizer tão ponderável afirmação, preferiu guardar silêncio. Um siyyid interjeicionou irosamente: "Essa própria afirmação demonstra de modo concludente ser o autor, ele mesmo, um babí e nada menos que um dos principais expositores dos dogmas dessa seita." Em linguagem veemente instava ele que fossem mortos os seus seguidores. "Esses obscuros sectaristas são os intransigentes inimigos," exclamou, "tanto do Estado como da Fé do Islã! Devemos — custe o que custar — extirpar essa heresia." Foi apoiado em sua denúncia pelos outros siyyids que estavam presentes e que, tornados mais audazes pelas imprecações pronunciadas nessa reunião, insistiram em que o governador acedesse, sem hesitação, a seus desejos. Viu-se o governador interino em situação embaraçosa, pois sabia que qualquer sinal de indulgência de sua parte 116


lhe acarretaria graves conseqüências quanto à segurança de sua posição. Em seu desejo de refrear as paixões que haviam sido excitadas, ordenou aos subordinados que preparassem os bastões e infligissem aos cativos o castigo merecido. "Deveremos então," acrescentou ele, "aprisioná-los até o regresso do governador, que os mandará a Teerã, onde receberão, nas mãos do soberano, a punição que merecem." O primeiro a ser amarrado para receber a bastonada foi Mullá Báqir. "Sou apenas um lacaio de Bahá'u'lláh," foi seu apelo — "ia a caminho de Mashhad quando de súbito me prenderam e trouxeram para este lugar." Bahá'u'lláh interveio e conseguiu induzir os opressores a libertá-lo. Intercedeu, outrossim, por Hájí Mírzá Jání que, disse Ele, era um simples mercador, e a quem considerava Seu "hóspede," de modo que Ele era responsável por qualquer culpa contra ele imputada. Mírzá Yahyá, que iria então ser amarrado, foi também libertado, ao declarar Bahá'u'lláh ser ele Seu assistente. "Nenhum destes homens," disse Ele ao governador interino, "cometeu qualquer crime. Se insistirdes em infligir vossa punição, Eu me ofereço como vítima voluntária de vosso castigo." O governador interino viu-se, contra sua vontade, constrangido a dar ordens que Bahá'u' lláh tão somente fosse escolhido para sofrer a indignidade que ele destinara de início a Seus companheiros (53). O mesmo tratamento que o Báb recebera cinco meses antes em Tabríz, Bahá'u'lláh agora o sofreu na presença da assembléia dos ulemás de Ámul. O primeiro encarceramento sofrido pelo Báb das mãos de Seus inimigos foi na casa de 'Abdu'1-Hamíd-Khán, chefe de polícia de Shíráz; o primeiro encarceramento de Bahá'u'lláh foi na casa de um dos kad-khudás de Teerã. A segunda prisão do Báb foi no castelo de Máh-Kú; a de Bahá'u'lláh foi na residência particular do governador de Ámul. O Báb sofreu a bastonada no (53) "Oh Shaykh! Acontecimentos como os que olhos alguns jamais viram têm sucedido a este injuriado. Feliz e com a maior resignação tenho aceitado sofrer, para que assim sejam iluminadas as almas dos homens e o Verbo de Deus seja restabelecido. Quando estivemos encarcerados na terra de Mim (Mázindarán) nos entregaram certo dia às mãos dos 'Ulemás. O que sucedeu depois bem o podeis imaginar". ("A Epístola ao Filho do Lobo").

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namáz-khánih(54) do Shaykhu'1-Islám de Tabríz; a mesma indignidade foi infligida a Bahá'u'lláh no namáz-kháníh no mujtahid de Ámul. O terceiro encarceramento do Báb foi no castelo de Chihríq; o de Bahá'ulláh foi no Síyáh-Chál (55) de Teerã. O Báb, cujas provações e tributações haviam precedido, em quase cada instância as de Bahá'u'lláh, havia se oferecido para resgatar Seu Bem-Amado dos perigos que cercavam aquela Vida preciosa; enquanto Bahá'ulláh, de Sua parte, não consentindo em que Aquele que tanto O amava fosse o único a sofrer, participava toda vez da taça que Lhe tocara os lábios. Tal amor jamais foi visto por olhos de ninguém, nem por coração mortal foi concebida tamanha devoção mútua. Se os ramos de cada árvore se transformassem em penas, e todos os mares em tinta, e se a terra e o céu fossem enrolados em um só pergaminho não se haveria explorado ainda a imensidade desse amor, nem sondado as profundezas dessa devoção. Bahá'u'lláh e Seus companheiros permaneceram por algum tempo aprisionados em um dos aposentos que formaram parte do masjid. O governador interino, ainda determinado a proteger seu Prisioneiro contra os ataques de um inveterado inimigo, deu instruções secretas aos seus subordinados para abrirem, numa hora em que menos se suspeitasse, uma passagem pela parede do aposento em que os cativos estavam confinados, e transferirem seu Líder de imediato para sua casa. Estava ele mesmo conduzindo Bahá'u'lláh a sua residência quando um siyyid saltou em sua frente e dirigindo contra Ele as mais violentas investidas, levantou a clava que segurava na mão para Nele bater. O governador interino logo se interpôs e, fazendo um apelo ao agressor, "o adjurou pelo Profeta de Deus" a deter sua mão. "O Quê!" bradou o siyyid. "Como vos atreveis a soltar um homem que é o intransigente inimigo da Fé de nossos pais!" Uma multidão de homens brutais havia nesse meio tempo se juntado a seu redor e, com seus gritos de escárnio e abuso, aumentava o clamor por ele levantado. Apesar (54) Literalmente "Casa de Oração". (55) Literalmente "Fossa Negra", a masmorra subterrânea em que foi encarcerado Bahá'u'lláh.

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do crescente tumulto, os assistentes do governador interino conseguiram conduzir Bahá'u'lláh em segurança à residência de seu amo, mostrando nessa ocasião coragem e presença de espírito verdadeiramente admiráveis. A despeito dos protestos da turba, os demais prisioneiros foram levados à sede do governo e assim escaparam dos perigos com os quais haviam sido ameaçados. O governador interino apresentou a Bahá'ulláh profusas desculpas pelo tratamento que Lhe fora dado pelo povo de Ámul. "Se não fosse a intervenção da Providência," disse ele, "nenhuma força vos teria podido livrar das mãos desse povo malévolo. Se não fosse o voto que eu fizera de arriscar minha própria vida por vossa causa, eu, também, haveria caído vítima de sua violência e sido espezinhado sob seus pés." Queixou-se amargamente da ultrajante conduta dos siyyids de Ámul e denunciou a baixeza de seu caráter. Referiu-se ao tormento ao qual ele próprio era continuamente sujeitado por causa de seus maliciosos desígnios. Pôs-se a servir a Bahá'u'lláh com devoção e bondade e muitas vezes durante sua conversação com Ele se podia ouvi-lo observar: "Longe estou de Vos considerar um prisioneiro em meu lar. Esta casa creio, foi construída expressamente para vos prover um abrigo dos desígnios de vossos inimigos." Já ouvi o próprio Bahá-u'lláh contar o seguinte: "Jamais se concedeu a um prisioneiro tal tratamento como recebi das mãos do governador interino de Ámul. Ele Me tratou com a máxima consideração e estima. Hospedou-me com toda generosidade, prestando a mais completa atenção a tudo o que se relacionava a Minha segurança e ao Meu conforto. Não pude, entretanto, sair do portão da casa. Meu anfitrião receava que o governador, que era parente de 'AbbásQulí Khán-i-Larijání, voltasse da fortaleza de Tabarsí e Me infligisse algum mal. Tentei dissipar-lhe as apreensões. 'A mesma Onipotência,' Eu lhe assegurava, 'que nos livrou das mãos dos malfeitores de Ámul e nos facilitou a recepção por vós com tanta hospitalidade nessa casa, pode mudar o coração do governador e fazê-lo tratar-nos com igual consideração e amor.' "Uma noite fomos subitamente acordados pelo clamor do povo que se havia juntado fora do portão da casa. A 119


porta foi aberta e se anunciou que o governador havia voltado a Ámul. Nossos companheiros, antecipando um novo ataque, foram completamente surpreendidos ao ouvir a voz do governador repreendendo aqueles que tão veementemente nos denunciaram no dia de nossa chegada. 'Por que razão,' nós o ouvimos protestar em tom alto, 'essas miseráveis criaturas se dignaram de tratar com tanto desrespeito um hóspede cujas mãos estão amarradas e a quem não foi dada a oportunidade de se defender? Qual é sua justificação por haver exigido que ele de imediato fosse morto? Que evidência têm eles com a qual sustentar seu argumento? Se são sinceros em suas pretensões de ser devotadamente ligados ao Islã e lhe ser os guardiães dos interesses, que vão à fortaleza de Shaykh Tabarsí e lá demonstrarem sua capacidade de defender a Fé da qual se professam ser os campeões!" O que ele havia visto do heroísmo dos defensores da fortaleza, mudara completamente a idéia e o coração do governador de Ámul. Voltou cheio de admiração por uma Causa que antes desprezara e a cujo progresso se opusera fortemente. As cenas que testemunhou haviam lhe desarmado a ira e castigado o orgulho. Humilde e respeitosamente foi ele a Bahá'u'lláh e pediu perdão pela insolência dos habitantes de uma cidade da qual fora escolhido para ser o governador. Serviu-Lhe com devoção extrema, sem levar em conta, de modo algum, sua própria posição e grau. Prestou um ardente tributo a Mullá Husayn, estendendo-se sobre sua habilidade, sua intrepidez, sua destreza e sua nobreza de alma. Poucos dias depois, conseguiu ele arranjar para Bahá'u'lláh e Seus companheiros, uma partida sem perigo, para Teerã. A intenção de Bahá'u'lláh de participar da sorte dos defensores da fortaleza de Shaykh Tabarsí não foi destinada a se cumprir. Embora Ele Próprio estivesse desejoso de prestar àqueles assediados todo auxílio possível ao Seu alcance, foi-Lhe poupado, através da misteriosa dispensação da Providência, o trágico destino que breve haveria de sobrevir aos principais participantes naquela memorável luta. Tivesse Ele podido alcançar a fortaleza, tivesse Lhe sido permitido unir-se aos membros daquele grupo heróico, como 120


haveria Ele podido desempenhar Seu papel no grande drama que era destino Seu desdobrar? Como teria Ele podido consumar a obra tão gloriosamente concebida e tão maravilhosamente inaugurada? Ele estava na flor da idade quando Lhe veio o chamado de Shíráz. Aos vinte e sete anos levantou-se Ele para consagrar a vida a seu serviço, destemidamente se identificando com seus ensinamentos e se distinguindo pelo papel exemplar que desempenhou em sua difusão. Nenhum esforço era demasiado grande para a energia da qual Ele era dotado, nem sacrifício demasiado doloroso para a devoção com a qual sua fé Lhe inspirara. Ele jogou de lado toda consideração de fama, de riqueza e posição, para prosseguir na tarefa cuja realização escolhera como o anelo de Seu coração. Nem as zombarias de Seus amigos, nem as ameaças de Seus inimigos podiam induzi-Lo a deixar de patrocinar uma Causa que ambos igualmente consideravam como sendo uma seita obscura e proscrita. O primeiro encarceramento ao qual Ele foi sujeitado em conseqüência do auxílio por Ele prestado aos cativos de Qazvín; a habilidade com que conseguiu a libertação de Táhirih; a maneira exemplar como dirigiu o curso dos turbulentos acontecimentos em Badasht; o modo de salvar a vida de Quddús em Níyálá; a sabedoria que mostrou em Seu controle da situação delicada criada pela impetuosidade de Táhirih e a vigilância por Ele exercida para sua proteção; os conselhos que deu aos defensores da fortaleza de Tabarsí; o plano que Ele concebeu para juntar as forças de Quddús às de Mullá Husayn e seus companheiros; a espontaneidade com que se levantou para apoiar os esforços daqueles corajosos defensores; a magnanimidade que O incentivou a oferecer-se como substituto de Seus companheiros que estavam sob a ameaça de severas indignidades; a serenidade com que Ele enfrentou o penoso tratamento que Lhe foi infligido em conseqüência da tentativa contra a vida de Násiri'd-Dín Sháh, as indignidades que sobre Ele foram amontoadas por todo o caminho de Lavásán até a sede do exército imperial e daí até a capital; as pesadas correntes esfoladoras que Ele suportou enquanto jazia na escuridão do Síyáh-Chál de Teerã todas estas são apenas poucos exemplos que dão eloqüente testemunho da posição incompará121


vel ocupada por Ele como Impulsor primaz das forças destinadas a remodelar a face de Sua terra natal. Foi Ele quem liberou essas forças, lhes dirigiu o curso e harmonizou a ação, levando-as finalmente a sua mais alta consumação na Causa que Ele Próprio era destinado a posteriormente revelar.

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Os Rompedores da Alvoradas Volume II parte 1  

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