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Shoghieh Shaikhzadeh PEÇAS TEATRAIS

Jornadas na VOLUME

Senda do II Amor


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JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Chamado de Deus quando erguido, insufla nova vida no corpo inteiro da humanidade e infunde um novo espírito em toda a criação. É por esta razão que o mundo foi agitado profundamente e avivados os corações e as consciências dos homens. Em breve, as evidências desta regeneração serão reveladas, e aqueles que se encontram profundamente adormecidos serão despertados. Bahá’u’lláh*

Em memória do meu querido esposo, Mohamad Shaikhzadeh, meu companheiro desta Grandiosa Causa.

*Citado em A Ordem Mundial de Bahá’u’lláh de Shoghi Effendi. 1a ed. 2003. pp. 222-3.

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SUMÁRIO Prefácio

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ENOCH OLINGA - A MÃO DA CAUSA DE DEUS DR. MUHAJER SENTINDO AS PALAVRAS OCULTAS TÁHIRIH, A PURA WILLIAM SEARS

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PREFÁCIO A Editora Bahá’í do Brasil tem o prazer de mais uma vez tornar público aos povos de língua portuguesa, mais um livro de peças teatrais de Shoghieh Shaikhzadeh. Desta vez em formato eletrônico, possibilitando aos que empreenderem fazer a maravilhosa jornada das artes cênicas, facilitar a impressão dos scripts dos dramas que desejarem encenar. Shoghieh nasceu em Teerã, Irã, em 1933. Seu grande interesse pelo campo artístico levou-a a realizar seus estudos na Escola de Artes de Teerã. Casou-se com Mohamad Shaikhzadeh e, em 1960, o casal e seus filhos vieram para o Brasil como pioneiros bahá’ís. No Brasil, iniciou diversas atividades, dando ênfase especial à educação de crianças, através de aulas de ensinamentos espirituais e morais. Posteriormente, desenvolveu alguns trabalhos artísticos através de peças teatrais. Nos últimos anos, têm se dedicado a escrever peças sobre a vida de pessoas muito especiais que servem de fonte de inspiração para todos os países de língua portuguesa. Este Volume II do Jornadas na Senda do Amor retrata a vida de mais quatro dessas personagens, e também, possibilita o entendimento do poético livro revelado por Bahá’u’lláh: As Palavras Ocultas, através das artes cênicas. Convidamos a todos aqueles que não conhecem o Volume I do Jornadas na Senda do Amor, publicado pela Editora Planeta Paz a também adquiri-lo para saborear as outras cinco eletrizantes estórias, e quem sabe, entusiasmarem-se a produzir e divulgar pelos palcos desta enorme nação, a vida destas personagens tão incomum [e ao mesmo tempo tão igual a nós], trazendo-nos muito mais apreço à vida, estimulando-nos a vôos mais altos. Editorial

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ENOCH OLINGA A MÃO DA CAUSA DE DEUS

Drama em 1 ato

Peça Teatral: ENOCH OLINGA - A MÃO DA CAUSA DE DEUS Drama em 1 ato. A cena passa-se em Kampala, Uganda, na África, na década de 1970. Personagens: NARRADOR ENOCH OLINGA, personagem principal; VIOLLETE, esposa de ‘Ali; ‘ALÍ NAKHJAVÁNÍ, pioneiro bahá’í em Uganda que ensinou a Fé a Enoch; GEORGE, filho de Enoch; ELISABETH, esposa de Enoch; FOROUGH, nora de Enoch; CATHERINE, membro do Corpo Auxiliar em Kampala. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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DADOS DA PEÇA TEATRAL Autor: Título: Publicação: Descrição física: Assunto: Gênero: Resumo:

Shoghieh Shaikhzadeh, 1933Enoch Olinga - A Mão da Causa de Deus [2006] 16 pp. Teatro Bahá’í Drama Vida da Mão da Causa de Deus: Enoch Olinga. Como conheceu a Fé Bahá’í; algumas histórias de ensino na África, sua peregrinação à Haifa; e seu martírio juntamente com membros de sua família (esposa, duas filhas e filho caçula) em Kampala, em 1979. Personagens: 8 Outras informações sobre os personagens: Enoch necessariamente tem de ser da raça negra. Sua esposa e filho também. Ali, Violette e Forough são persas. Catherine é norte-americana. Num. de cenas: 1 Ambiente: Uma sala, com cadeiras e uma mesa; anos 1970; com possibilidade de PowerPoint com cenas de locais, cidades, Templo Bahá’í em Uganda, etc, projetando ao fundo conforme a peça vai discorrendo.

Referências Bibliográficas 1 Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh. seção XLVI. 2 A Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá. 2ª edição. 1982. p. 17. 3 Shoghi Effendi. Messages to the Bahá’í World- 1950-1957. p. 130. 4 Shoghi Effendi. The Unfolding Destiny. 5 Ibid. 6 Shoghi Effendi. Messages to the Bahá’í World- 1950-1957. p. 130. 7 Gabriel Marques. Os Acendedores de Velas. 1a ed. 2000. p. 102. 8 The Bahá’í World. V. XVIII, p. 635. SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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CENA 1 (Música) NARRADOR Bahá’u’lláh, o Profeta fundador da Fé Bahá’í, orienta os bahá’ís dizendo: “Incumbe ao povo de Bahá morrer para o mundo e para tudo o que nele se acha, estar tão desprendido de todas as coisas terrenas que os habitantes do paraíso possam inalar de suas vestes a fragrância da santidade, que todos os povos da terra possam reconhecer em sua face o esplendor do todo misericordioso e assim, por seu intermédio, sejam difundidos os sinais e evidências de Deus, o Onipotente a Suma Sabedoria.”1 (Pausa) Durante os últimos anos de Seu ministério, Bahá’u’lláh nomeou alguns de Seus seguidores como Mãos da Causa para iluminar os amigos com a luz do orbe de Sua Palavra. ‘Abdu’l-Bahá, o Centro do Convênio, não nomeou nenhum Mão da Causa, mas na Sua Última Vontade e Testamento, Ele claramente falou sobre suas obrigações: (Pausa) “As obrigações das Mãos da Causa de Deus consistem em difundir as fragrâncias divinas, elevar as almas dos homens, promover a educação, aperfeiçoar o caráter de todos os homens e ser em todos os tempos e sob quaisquer condições santificadas e desprendidas das coisas terrenas, pela sua conduta, pelas suas maneiras, palavras e ações. Devem elas manifestar temor a Deus.”2 (Pausa) Shoghi Effendi, o Guardião da Causa de Deus, refere-se às Mãos da Causa como os “fideicomissários da embriônica comunidade mundial de Bahá’u’lláh... e que eles... foram investidos pela infalível pena do centro de Seu convênio com a dupla função de resguardar e garantir a segurança e a propagação da Fé”.3 (Pausa) Como foi indicado na Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá, o Guardião poderia nomear mais Mãos da Causa. Shoghi Effendi nomeou

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um total de quarenta e um, as oito últimas foram nomeadas através de sua última mensagem em 1957. A única Mão da Causa de Deus que era africana, foi o sr. Enoch Olinga. (Neste momento o narrador aponta Enoch Olinga. Ele entra com um sorriso alegre e dando alguns passos, dirige-se ao público) Enoch Eu, Enoch Olinga, nasci em 1926 numa devotada família cristã. Minha família vivia em Tesa, no nordeste de Uganda. Estudei numa pequena cidade não longe de minha casa, depois fui para o ensino médio em Mebale, durante a Segunda Guerra Mundial em 1941, onde me juntei a corporação do exército de educação britânico. Fui para Nairobi, no Quênia, e mais tarde para o oeste da África. (Pausa) Quando tinha 20 anos voltei para Uganda. Comecei a trabalhar para o governo, no departamento de relações públicas e saúde, e escrevi dois livros em minha língua nativa, para ajudar o departamento de educação do governo, no distrito de Tesa. Mais tarde fui transferido para Kampala, a capital de Uganda. (Pausa) Em 1951, quando tinha 25 anos de idade, através de um amigo, conheci o sr. ‘Alí Nakhjavání que era genro do sr. e sra. Bananí, que vieram da Pérsia como pioneiros bahá’ís para a África. O sr. e sra. Bananí, em resposta aos pedidos de Shoghi Effendi, mudaram-se para Uganda naquele ano com sua filha Violette, seu genro ‘Alí,e sua neta de 3 anos. Ao chegarem, o sr. Músá Bananí comprou uma casa no coração de Kampala. (Pausa) A partir do momento em que conheci ‘Alí uma amizade começou a surgir e eu participava diariamente dos encontros para contatos que ocorriam na casa dos Bananí, onde o carinho de anfitrião deste pioneiro bahá’í persa, profundamente me atraiu. (Pausa) Encontrei-me por várias vezes com os pioneiros. Uma noite eu fiz várias perguntas e no fim perguntei: como uma pessoa se torna bahá’í? Narrador No dia seguinte, logo cedo. Enoch apareceu na casa do sr. Bananí com uma carta pedindo para ser aceito como um bahá’í. Depois disto, gradualmente outros adentraram na Fé, aumentando o número de bahá’ís em Kampala, SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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até que em 21 de abril de 1952, a primeira e histórica Assembléia Espiritual Local de Uganda, na qual Enoch se tornou membro, foi eleita. No início de janeiro de 1953, oito meses após a formação da Assembléia Local de Kampala, o Guardião telegrafou ao mundo bahá’í: (Pausa) “COMPARTILHE COMUNIDADES BAHÁ’ÍS ORIENTE OCIDENTE NOTÍCIAS VIBRANTES FAÇANHAS QUE HERÓICOS PIONEIROS ALCANÇARAM ESFORÇADO TRABALHO REALIZADO TERRITÓRIOS AFRICANOS ESPECIALMENTE UGANDA.”4

ENOCH Eu era um novo bahá’í que me vi dentro da Assembléia Local de Kampala junto com crentes antigos, queridos pioneiros, na realização de planos de ensino naquele único e histórico momento. (Pausa) Uma conferência deveria ocorrer de 1 a 12 de fevereiro, e o querido Guardião deu pessoalmente uma quantia em dinheiro sob os cuidados do sr. Bananí para ser usada exclusivamente para que alguns dos novos bahá’ís participassem como seus convidados. Umas 200 pessoas de uma província do norte viajaram de ônibus, cerca de 300km de distância, até o local da Conferência. ‘Alí Nakhjavaní foi para acompanhar os amigos e chamá-los para serem convidados de Shoghi Effendi. (Pausa) Quando os homens entraram nos ônibus, muitas mulheres choraram e lamentaram, pois elas estavam com medo que seus maridos estivessem sendo levados para serem escravos. (Pausa) O Guardião, através de uma mensagem para essa conferência, saudou a todos e com o coração cheio de alegria disse: “recebam de braços abertos o inesperado número de representantes de corações puros e espiritualmente receptivos da raça negra”5. Todos esses pontos tocaram a minha vida. O povo da cidade de Tesa, milhares deles, formaram a grande maioria dos bahá’ís em Uganda, antes da guerra civil. Narrador Enoch foi eleito para a primeira Assembléia Espiritual Nacional do nordeste da África, ele se tornaria Cavaleiro de Bahá’u’lláh. Ele seria nomeado Mão da Causa por Shoghi Effendi, no último contingente de oito pessoas. Enoch estava bem estabilizado em seu trabalho e em sua vida - mas um vento forte estava soprando, o vento do chamado de Deus as almas dos JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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bahá’ís receptivos. Agora Enoch e dois novos crentes de Uganda se levantaram para deixar família, casa, trabalho e país para levar a mensagem de Bahá’u’lláh, para alguns países virgens no leste do continente africano. (Pausa) O sr. Bananí, o conquistador espiritual da África, como Shoghi Effendi o chamava, comprou uma perua e deixou à disposição deles. Nesta viagem foi planejado que a sra. Viollete, esposa do sr. Nakhjavání, fosse com eles. (Viollete aparece e anda um pouco. Enoch sai.) VIOLLETE Nesta viagem ‘Alí se voluntariou a levar três futuros pioneiros pelo continente, sendo seu piloto espiritual e motorista físico. (Pausa) Nós começamos esta jornada com pouco dinheiro e quase nenhuma informação sobre a rota que deveríamos seguir, alem de um carro não muito adequado para a estrada. Passamos por uma área de doenças infecciosas, repleta de insetos e para completar nosso carro atolou na lama. (Pausa) Por isso, ‘Alí ou Enoch tinham que andar vários quilômetros para pedir ajuda em alguma vila vizinha. Tão complicada era a estrada que um dia fizemos apenas 25 quilômetros em 14 horas, e por fim o carro quebrou de vez. (Pausa) Então, Enoch se voluntariou a andar 50 quilômetros, com um vileiro como guia, para pedir ajuda em uma cidade onde realmente tivesse uma oficina mecânica. Passaram-se horas sem nenhuma notícia de Enoch. (Pausa) –– Ó Bahá’u’lláh! Nos ajude a passar pelas provações desta viagem. (‘Alí entra e diz que concertou o carro) ‘ALÍ –– É verdade, apesar de eu não ser mecânico estava vendo a embreagem do carro para ir atrás de Enoch. (Pega a mão de Viollete e diz) Vamos, se Deus quiser, com a ajuda de Bahá’u’lláh, vamos conseguir. (Saem) NARRADOR Finalmente, ‘Alí consegue consertar a embreagem do carro, e no dia seguinte após Enoch ter andado 50km, o encontraram. (Neste intervalo ‘Alí e Viollete entram) ‘ALÍ Quando chegamos Enoch estava exausto e com uma terrível desinteria e muitas dores. (Pausa) Na viagem eu e Viollete fomos seriamente picados SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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por mosquitos que transmitiam a doença mortal do sono. (Pausa) Nós fomos para o hospital para exames e tratamentos, mas Enoch estava tão doente que ele foi hospitalizado por dois dias e não poderia viajar por uma semana. VIOLLETE Enoch nos contou sobre a noite anterior a nossa chegada quando ele se encontrava sozinho dentre africanos desconhecidos. Ele estava passando tão mal que não conseguia falar, além de temer por sua segurança e pelo dinheiro que carregava. Os africanos o perguntavam por que ele havia deixado sua casa e família por uma jornada tão maluca. (Pausa) A explicação para isto esta num sonho que Enoch teve com Shoghi Effendi. Ele sonhou que o Guardião o pegou nos seus braços o trouxe para perto de si, e sobre ele derramou conforto e segurança. Esse sonho revitalizou-o tão profundamente que ele gritando em seu coração, assegurou que estava disposto a passar por tais tribulações, em todos os dias de sua vida, pelo Guardião. ‘ALÍ Finalmente, depois de 15 dias de viagem, chegamos aos Camarões Franceses, mas a meta de Enoch era os Camarões Britânicos. Uma meta que ele queria cumprir em homenagem a Assembléia Espiritual Nacional da Grã-Bretanha. A principal ponte entre os dois países estava interditada. (Pausa) Mas, depois de uma longa e agonizante volta, o grupo finalmente conseguiu entrar em Manfe. (Pausa) Fomos rapidamente ao correio, enviar um telegrama ao Guardião, dizendo que a Camarões Britânicos estava agora aberta com a chegada de Enoch. (Enoch entra) ENOCH O período da Cruzada Mundial do Guardião foi realmente uma época inspiradora; tínhamos um sagrado entusiasmo para espalhar a Causa de Deus à humanidade. Extremamente motivado pela memorável travessia pela África, para que dois países fossem abertos para a Fé, fiquei encorajado em fazer o que praticamente era impossível. Eu e outros novos crentes pioneiros poderíamos abrir territórios virgens, mas nosso sucesso foi quase que um milagre. Estendíamos nossas mãos suplicantes em orações e vozes de louvor a Bahá’u’lláh para a Sua guia e confirmação. (Pausa, com voz muito firme e vibrante) Eu acreditava, (Pausa) eu acreditava firmemente JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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que Ele iria, com certeza, ajudar e guiar esses novos e jovens soldados em Seu triunfante exército e lhes render vitórias. Eu sabia que o amado Guardião não pediria pelo impossível. (Pausa) Assim que as notícias das vitórias alcançaram os ouvidos dos crentes, eles reagiram de tal maneira que um espectador poderia achar que eles estavam embriagados... eles realmente ficaram inebriados com o vinho seleto de Seu amor, esquecendose de suas propriedades e amados familiares. (Música) NARRADOR Várias dessas preciosas e destacadas crianças espirituais de Enoch, receberiam o título, como ele mesmo, de Cavaleiro de Bahá’u’lláh. (Pausa) No coração de Enoch flamejava o grande desejo de fazer peregrinação ao Centro Mundial e conhecer seu amado Guardião em pessoa. Finalmente foi dada a permissão por Shoghi Effendi. (Pausa) Logo Enoch foi informado que ele seria bem vindo como um peregrino. (Pausa) Enoch chegou a Haifa e ficou hospedado na casa de peregrinos oriental, perto do Santuário do Báb, no Monte Carmelo. ENOCH Nesta peregrinação não tive apenas o privilégio de andar pelos jardins com o Guardião, mas tive a grande bênção de sempre visitar os Santuários com ele, e ouvi-lo recitar as epístolas de visitação em sua maravilhosa e melodiosa voz. (Pausa) Alguns momentos depois da minha peregrinação, lembro como eu estava ansioso para ser chamado à presença do nosso amado Guardião. (Pausa) Como seria ele? (Pausa) Mas, quando cheguei à sua presença, descobri com que majestade ele falava. (Pausa) Ele andava como um rei, e todo mundo sabia que tudo estava sob o seu comando. (Pausa) O amor que dele recebi e a luminosa qualidade de sua conversa, transformaram profundamente a minha vida. NARRADOR Antes Enoch era como uma agulha que estava direcionada ao norte; agora ele se tornara como uma bússola ajustável e firme em sua Fé. (Pausa) Incendiado, tranqüilizado, mais maduro, ele várias vezes dizia: estou certo que um novo dia alvoreceu sobre mim. SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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Após a peregrinação, Enoch foi morar na casa onde ele aceitou a Fé. (Pausa) Foi em 2 de outubro de 1957 que o sr. Bananí recebeu um telegrama de Shoghi Effendi, pedindo que ele informasse a Enoch Olinga e mais dois pioneiros servindo na África, John Robarts e William Sears, a seguinte mensagem: “ELEVAÇÕES POSIÇÃO MÃO DA CAUSA. ESTEJAM CONFIANTES ELEVADA DISTINÇÃO OS HABILITARÁ ENRIQUECER REGISTRO SEUS MERITÓRIOS SERVIÇOS.”6 Enoch leu a carta e se prostrou no chão, em uma atitude de profunda submissão na África, em relação ao seu soberano. (Pausa) Enoch mandou um telegrama a Shoghi Effendi no dia 4 de outubro, com a mensagem a seguir: (Pausa) “SAGRADA MENSAGEM AMADO GUARDIÃO RECÉM RECEBIDA ENTORPECERAM MINHAS FACULDADES. COM MUITA SUBMISSÃO E HUMILDADE ACEITO FAVOR DIVINO, SINTO PROFUNDAMENTE GRATO, PELOS DESEJOS SAGRADOS DO AMADO PARA NOSSO PROGRESSO. SUPLICAMOS SUAS ORAÇÕES PARA CONFIRMAÇÃO GUIA E DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL. DEVOTAMENTE ENOCH OLINGA.”7 Um mês após Shoghi Efendi ter elevado Enoch e outros sete crentes ao status de Mão da Causa de Deus, ele veio a falecer. Foi um tremendo choque, surpreendendo a Enoch e os demais antes mesmo que pudessem se tornar cientes dessa nova posição dada a eles por seu líder e verdadeiro irmão. (Pausa) Depois do funeral do amado Guardião, em Londres, Enoch se juntou aos colegas Mãos da Causa, no primeiro encontro em Bahjí, deixando sua esposa Elizabeth e filhos na África (Pausa) Ele era um jovem de apenas 31 anos, Amatu’l-Bahá referia-se a ele como nosso bebê Mão da Causa. (Entra Elizabeth, esposa de Enoch) ELIZABETH Esses tempos foram de grande tensão para ele. Foram anos terríveis e estressantes. Neste intervalo, nossa família voltou para Vitória, no Quênia, para estar junto ao meu marido. (Pausa) As atividades de Enoch continuavam em uma escala cada vez maior, naqueles anos ele ficava freqüentemente ausente, em longas viagens de ensino. (Pausa) As vivificantes histórias que ele contava quando voltava, estimulava muito o interesse dos filhos. Em nossa casa sempre tinha um espaço especial JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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para as estimadas fotos de ‘Abdu’l-Bahá e Shoghi Effendi e os lugares sagrados. Tudo isso implantou nos corações dos filhos mais amor e respeito similar ao dele, e todos cresceram para serem firmes bahá’ís. (Pausa) Enoch foi para Kampala para atender à histórica ocasião da colocação da pedrafundamental do templo em Kampala. Ele participou na conferência intercontinental bahá’í africana a pedido do Guardião. (Pausa) Kampala foi à sede de uma das cinco conferências que marcaram a metade do plano da Cruzada Mundial e Enoch era o mestre de cerimônias. Todos esses eventos e pressões na vida de Enoch deram forma para seu caráter, ajudando-o a crescer espiritualmente em suas potencialidades, dando-lhe a maturidade de um verdadeiro grande homem. (Pausa) Mas, não sem sofrimento, ansiedade e descendo em vales, assim como subindo montanhas. Ele sempre suplicava à sua Amada Abençoada Perfeição e dizia: “Eu sei, Ele irá me ajudar a desintegrar a parede que envolve todo o meu ser e que estou me esforçando por quebrar.” Enoch marcava presença em todo lugar. Tinha presença de um grande chefe. (Pausa) Ele era sinceramente bondoso, amoroso e preocupado com as outras pessoas. As pessoas percebiam isso, alguns mais, outros menos. (Pausa) Aquela grande e espontânea risada dele também estava sempre presente para levar os outros em uma grande e alegre onda de mudança. (Pausa) As mãos da Fé escolheram Enoch para ser o mestre de cerimônias da sessão de abertura no congresso mundial do Amado Guardião, em 1963, comemorando o final do seu grande plano de dez anos, onde cerca de 7.000 bahá’ís se juntaram. NARRADOR Uma das qualidades mais apreciáveis em Enoch era sua risada; uma grande, jubilosa, profunda e contagiante risada. Seus companheiros Mãos da Causa não demoraram muito para apreciar isso e foram tão longe que até guardavam algumas histórias engraçadas o ano inteiro para que pudessem contar para Enoch no primeiro encontro. As gargalhadas na mesa de jantar das Mãos da Causa eram um alívio bem vindo para as freqüentementes tristes e exaustas mentes. A risada de Enoch era diferente, ela começava devagar e acabava em convulsão. (Enoch entra e senta atrás de uma mesa) SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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A sensatez e sabedoria de Enoch não podem ser melhor exemplificadas do que na sua conversa com sua nora persa Forough, uma pioneira em Uganda, casada com seu filho George.(Pausa) Enoch tinha um escritório especial para ele, com fotos do Mestre e do Guardião. Neste lugar, freqüentemente conversava com sua nora. (Forough entra e vai cumprimentar Enoch. Abraçam-se) ENOCH –– Alláh’u’Abhá querida Forough, como vai? Obrigado por vir. O motivo de eu tê-la chamado até aqui é que eu gostaria de consultar com você sobre seu casamento com meu filho. Eu sei que você gostaria de se casar com meu filho George, mas me diga, você tem certeza que quer se casar com ele? Você realmente gostaria de se casar com ele? FOROUGH –– Sim, gostaria. ENOCH –– (Pega a mão dela com preocupação e diz) Querida Forough, você aceita isso em seu coração? Você realmente quer isso? FOROUGH –– Sr. Enoch, eu pensei e quero tudo isso. ENOCH –– (Pega a mão dela com preocupação e diz) Querida Forough, você aceita isso em seu coração? Você realmente gostaria de realizar isto? FOROUGH –– (Para o público) Muitas vezes ele perguntava as mesmas perguntas e eu respondia “Sim eu quero”. Então, ele me abraçava e me beijava e dizia. ENOCH –– O resto está com Bahá’u’lláh. Ele resolverá os problemas. FOROUGH –– (Para o público) Durante o primeiro ano de nosso casamento, um sério desentendimento surgiu entre eu e um membro da família, após minha criança ter nascido. (Pausa) Eu fiquei tão perturbada que peguei a criança e sai de casa. Enoch mandou um de seus filhos atrás de mim com esta mensagem: ENOCH –– Diga a Forough para voltar e deixar a criança nessa casa, e ela pode ir para onde ela quiser ir.

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FOROUGH –– (Para o público e diz) Mas a criança é minha. ENOCH –– Não, não é só sua, pertence a esta família. Se você tem um desentendimento, você deve resolver isso com os membros da família. Você não pode envolver a criança em seus problemas. Deixa a criança e então podemos resolver todos juntos. Não envolva a criança com esse problema. FOROUGH –– (olhando para o público) Quando ele disse isso, eu senti meus joelhos tremerem. Eu coloquei a criança no chão e disse: (olhando para Enoch) –– Mas, como posso ir sem meu filho. ENOCH –– (Pega a mão dela e diz) Quando sua raiva passar, venha ao meu escritório, eu quero ver você. Sem o George, só você. FOROUGH –– (olhando para o público) Eu fui para o escritório do sr. Enoch, em um momento de raiva para nós todos. Então, ele me lembrou. ENOCH –– (Pega a mão da Forough) Forough, você lembra que antes de seu casamento com meu filho, eu lhe avisei que haveria problemas. Forough, minha querida, seu comportamento levando a criança, além de não resolver o problema, não ajuda em nada. (Com voz firme) Especialmente não ajuda a Fé. Você sabe que tudo o que você disser de hoje em diante deve ajudar a Fé? E o nome da Fé? E você sabe o quanto um simples problema entre você e o George pode danificar a Fé? Por favor, pense dessa maneira e esqueça o resto. FOROUGH –– (olhando para o público)Ele me transformou totalmente. Ele recitou uma oração, me abraçou e chorou. Ele chorou e eu senti a umidade de seu choro. ENOCH –– (Enoch abraça Forough, a solta e diz para ela) Forough, por favor, por favor, ajude a Fé. FOROUGH –– (olhando para o público) Eu me juntei novamente à família, estive totalmente reconciliada e desde então a harmonia prevaleceu e Enoch me deu a maior lição de que a Fé vem antes de todos. (Oração, escolher uma de unidade)

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Narrador Depois disso, muitos anos de serviço ativo se passaram. Enoch freqüentemente estava acompanhado de sua esposa Elizabeth. Ela era uma devota e ativa bahá’í. Viajava constantemente, visitando e estimulando os bahá’ís, se encontrando com altos oficiais dos governos. (Pausa) Seus filhos cresceram, duas filhas se casaram com pioneiros bahá’ís. George e Forough tiveram mais duas crianças. (Pausa) Enumerar em detalhes seus serviços e viagens. Ele fez extenso tour pela América do Sul, América Central, pelos Estados Unidos. Depois, foi para o Pacífico, onde visitou as Ilhas Salomão e o Japão. Em 1971, representou a Casa Universal de Justiça na conferência dos mares oceânicos do sul da China, em Singapura. Visitou a Pérsia com Elizabeth, para prestar sua homenagem a casa do Báb, em Shíráz, e outros lugares históricos bahá’ís. Em janeiro de 1977, representou a Casa Universal de Justiça, na Conferência Continental realizada em Salvador, na Bahia. Elizabeth Durante o ano de 1976, Enoch, viajou por 12 países do oeste africano, trabalhando intensamente entre as comunidades bahá’ís de lá. Ele foi para Uganda, estimulando e perseverando, comprometendo as comunidades de sua terra natal na Causa Bahá’í. (Pausa) Naquele tempo, Uganda estava na amarga agonia de uma terrível guerra civil. (Pausa) Para os bahá’ís, isso foi uma experiência chocante e de partir o coração. Logo Enoch colocou para si três metas: § Primeira:Assegurar que os crentes obedeceriam sem questionar o governo. § Segunda:Encorajá-los e manter a fé deles viva. § Terceira: Proteger as propriedades bahá’ís e remover para um lugar seguro os arquivos de materiais sagrados. (Pausa) Logo, ele, junto com o secretário da Assembléia Espiritual Nacional, fecharam o escritório central nacional no templo. (Pausa) Lembro quando a guerra de libertação estava ganhando força, dia a dia, ele decidiu viajar de Tilling para onde morávamos, em Kampala, uma distância de mais ou menos 300 km. (Pausa) Como ele, antes de começar a guerra, descobriu que seu nome estava numa lista feita para ser “eliminado”, seu tio veio e mostrando os perigos, pediu para ele não ir para Kampala, era melhor fugir. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Mas, Enoch não aceitou e me disse: ENOCH –– O que eu tenho a temer? O Báb fugiu? Bahá’u’lláh fugiu? ‘Abdu’lBahá fugiu? Como é maravilhoso morrer sendo um verdadeiro crente. Se um véu fosse erguido entre este mundo e o outro, eu ansiaria por morrer. (Pausa) Quando chegamos a Kampala, de nossa casa percebi que milhares de pessoas estavam fugindo de lá. (Pausa) Depois de uns dias eu decidi enviar minha filha mais nova, Táhirih, com sua mãe de volta para Tilling. (Pausa) Nesta viagem elas tiveram sorte de chegar com vida, pois o trem fora atingido por balas muitas vezes pelo caminho. (Pausa) Decidi buscar refúgio na propriedade do templo e fiz um penoso caminho até lá a pé, lutando contra a multidão de pessoas amedrontadas, saindo da cidade. (Pausa) Assim, cheguei ao monte Kikaya, na Casa de Adoração, e me juntei aos crentes que estavam presos no templo. (Pausa) Passei a noite orando e me perguntando o que aconteceria com a Casa de Adoração? Será que vou sobreviver para ver o amanhecer? Graças a Bahá’u’lláh não aconteceu nada com o Templo, e logo vieram notícias que o governo de Amin Dada havia sido derrotado. (Pausa) Então, eu e os outros crentes entramos rapidamente no Templo Mãe da África abrimos todas as nove portas e oferecemos orações de agradecimento a Bahá’u’lláh. (Pausa) Como eu podia imaginar estar presente na cerimônia de colocação da pedra fundamental e agora com minhas próprias mãos abrir aquelas portas. Narrador Como o banimento da Fé não havia sido oficialmente suspenso em Uganda, a Casa Universal de Justiça decidiu nomear um corpo administrativo interno para gradualmente reorganizar as atividades e tomar conta das propriedades bahá’ís em preparação para o momento em que a Assembléia Espiritual Nacional pudesse ser reeleita. O primeiro Comitê administrativo de Uganda deveria se reunir em breve na Sede Nacional. (Pausa) O triste estado deste e de outros edifícios no terreno do templo deixaram Enoch bastante preocupado e, com algumas pessoas ajudando, ele preparou a Sede Nacional limpando e colocando os escritórios e arquivos em ordem. (Pausa) Para Enoch, serviço sempre significava fazer o que precisava ser feito.

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Enoch tinha preparado um programa devocional bem elaborado e tocante. O grupo, então seguiu para o Mashriqu’l-Adhkár(Templo Bahá’í) para a inauguração solene de sua responsabilidade histórica e depois visitaram o túmulo da Mão da Causa Músá Bananí. (Pausa) Enoch nos últimos dias antes de sua morte passava maior parte de seu tempo no monte Kikaya e estava muito feliz, ele amava servir no Templo, limpando e varrendo. A sra. Catherine, membro do Corpo Auxiliar, foi testemunha ocular dos eventos daquele dia. (Catherine entra) CATHERINE Um costume familiar dos Olinga era o de reunir nos feriados e ocasiões especiais. (Pausa) Elizabeth e Enoch decidiram fazer uma reunião que aconteceria ao redor do fim de semana do domingo de 16 de setembro. Naquele domingo, Enoch insistiu que eles fossem fazer um piquinique e todos passassem o dia no Monte Kikaya. (Pausa) Naquele dia os amigos tinham ido para o Templo mais cedo que de costume, porque a Mão da Causa iria relatar a situação da perseguição aos bahá’ís do Irã. Enoch, com seu terno banco, com sua face “digna e radiante” alegremente participando nas canções durante o serviço no templo, cantando seja feliz, seja feliz (Música) porque hoje é o dia da unidade. Alguns jovens ofereceram música. Enoch e Elizabeth participaram dançando quando sua filha Tahirih se retraiu timidamente, seus pais a incluíram na dança, e todos dançaram. (Pausa) Elizabeth dançando e acenando, sem saber que ela deixaria o mundo naquela noite. Ela acenava dizendo adeus. (Pausa) Quando a família retornou para casa, os vizinhos comentaram, mais tarde, que o sr. Olinga parecia estar de excelente humor,caminhando pelo jardim e dizendo olá a todos. (Pausa) Narrador A família juntou os pratos na pia da cozinha de uma forma organizada, como de costume. (Pausa) Por volta das 20h30 o zelador ouviu alguém balançando o portão; ele viu cinco homens armados e um homem foi deixado para ficar de guarda no portão. Eles gritavam “abra” e batiam na porta. Annie abriu a porta e se ouviram barulhos de tiros. O caseiro fugiu e se escondeu apavorado a noite inteira, não vendo nada, mas ouvindo tiros por cerca de duas horas. (Pausa) Ao amanhecer ele saiu do esconderijo, foi pra casa, viu o corpo de Enoch deitado entre o pátio e o interior da JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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casa, e os corpos de Elizabeth, Tahirih, Annie e Badi amontoados no chão onde eles tinham caído quando foram baleados. O zelador comunicou à polícia e foi ao Monte Kikaya dar aquela triste notícia. Uma bahá’í que morava lá, era a membro do corpo auxiliar Catherine. Logo, correram para a casa de Enoch. (Catherine senta e diz) Catherine Esta tragédia chocou os bahá’ís do mundo inteiro. (Pausa) Logo, o conselheiro, sr. Peter, telefonou para Casa Universal de Justiça, que estava em sessão naquele momento, e falou com o pai espiritual de Enoch, sr. ‘Alí Nakhjavání. (Pausa) Seu filho George sua nora Forough estavam ausentes; os bahá’ís não sabiam como dar a notícia repentina a George e Forough. Estava além da capacidade desses amorosos amigos. (Pausa) Então, o secretário nacional escreveu uma breve e terna carta de condolências, explicando o que havia acontecido e esta foi entregue a George. (Forough entra) GEORGE Com esta notícia dolorosa e repentina, saímos naquela mesma tarde. (Pausa) O meu único desejo era estar com o meu pai e fazer tudo o que fosse necessário, e naquele momento o meu maior conforto foi quando consegui falar com o sr ‘Alí Nakhjavání em Haifa. (Pausa) Na manhã seguinte os meus irmãos sobreviventes, vivendo com suas famílias no exterior, vieram ao meu encontro em Kampala. (Pausa) Amigos, parentes, todos compartilhavam do nosso pesar. Nossa família desolada, durante uma semana, alimentou de oitenta a cento e cinqüenta pessoas por dia. (Pausa) Os corpos foram levados para um hospital, aguardando preparativos para o funeral. (Pausa) Durante a noite, a cidade continuava sendo arrasada por armas de fogo e atos de terrorismo, incluindo assassinatos de outras famílias inteiras. (Pausa) A rádio de Uganda, no dia 17 de setembro, transmitiu a notícia em seis idiomas nativos, para que os bahá’ís através do país pudessem ser informados sobre o destino do “Pai das Vitórias”. (Pausa) Na manhã de 24 de setembro que coincidiu com o aniversário da minha querida irmã Tahirih, os cinco caixões foram levados para o lar de meu pai, onde foram adornados com flores; foram lidas orações e muitas pessoas vieram para o cortejo que foi acompanhado por carros que levavam os membros da família em direção ao Templo. (Pausa) Com grande respeito, SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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os cinco caixões foram colocados enfileirados na sala da Sede Nacional. Diversas autoridades proeminentes de Uganda, amigos de meu pai e admiradores da Fé também vieram prestar suas últimas homenagens. GEORGE Não muito longe do Templo, meu pai foi colocado para descansar ao lado de Músá Banání, seu companheiro Mão da Causa, aquele designado como “Conquistador Espiritual da África”, uniu-se na morte ao “Pai das Vitórias”. Minha mãe, Elizabeth, meus irmãos, Táhirih, Badi e Annie foram colocados em sepulcros vizinhos. Narrador Para os bahá’ís do mundo a Casa Universal de Justiça anunciou o passamento de Enoch. (Pausa) “Com os corações golpeados por tristeza, anunciamos a trágica notícia do brutal assassinato da Mão a Causa de Deus, Enoch Olinga, por homens armados desconhecidos, no jardim de sua casa em Kampala. Sua esposa Elizabeth e três de suas crianças, Badi, Annie e Tahirih, também foram inocentes vítimas desse ato cruel. O motivo do ataque ainda não foi descoberto. Seu espírito radiante, sua Fé inabalável, seu amor para com todos, sua audácia leonina no campo de ensino, seus títulos de “Cavaleiro de Bahá’u’lláh”e “Pai das Vitórias”, conferidos pelo Amado Guardião, todos combinam para distingui-lo como um membro proeminente de sua raça nos anais da Fé no Continente Africano.Solicitamos aos amigos de todos os lugares que façam reuniões próprias de tributo em sua memória imperecível. Oremos com fervor nos Sagrados Santuários para o progresso de sua nobre alma e das almas dos quatro membros de sua preciosa família.”8

(Fim)

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Drama em 10 atos

Peça Teatral: DR. MUHAJER Drama em 11 atos. As cenas passam-se em uma sala de visitas da década de 1950 à década de 1970.

Personagens: NARRADOR MUHAJER, personagem principal IRÁN, esposa de Muhajer MINISTRO DA SAÚDE de Jakarta GUISSU, filha de Muhajer PAI DE IRÁN, sogro de Muhajer

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Drama em 10 atos

DADOS DA PEÇA TEATRAL Autor: Título: Publicação: Descrição física: Assunto: Gênero: Resumo:

Shoghieh Shaikhzadeh, 1933DR. MUHAJER [2006] 15 pp. Teatro Bahá’í Drama Históra do dr. Muhajer, importante figura da Fé Bahá’í. Suas viagens pelo mundo, suas aventuras ensinando a Fé Bahá’í e seu relacionamento com sua esposa e filha. Personagens: 6 (sendo que o pai de Irán pode ser somente voz-off) Outras informações sobre os personagens: Dr. Muhajer era uma pessoa extremamente alegre, muito carinhoso e carismático. Num. de cenas: 10 Ambientes: 2. Uma sala de visitas (podendo trocar a decoração a cada um dos 10 atos) com telefone, sofá, cadeiras, mesas. O outro [cena 7] um escritório público na Indonésia, com porta e escrivaninha e cadeiras.

Dr. Muhajer segurando foto de Enoch Olinga, em Salvador, Bahia, em meados da década de 1970.

Referências Bibliográficas Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh. seção V. 2 Mensagem de Ridván da Casa Universal de Justiça ano 156, abril de 1999. 1

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CENA 1: DR. MUHAJER* – O PIONEIRO (Música) VOZ-OFF Suplicai ao Deus Uno e Verdadeiro, que vos permita provar o sabor de tais ações que sejam realizadas em Seu Caminho e experimentar a doçura de tal humildade e submissão que sejam mostrados por amor a Ele. Esqueceivos de vós próprios e volvei os olhos para vosso semelhante. Devotai as energias àquilo que possa promover a educação dos homens. Nada é, nem pode ser jamais, ocultado de Deus.1 NARRADOR No começo da história da Fé Bahá’í podemos testemunhar a dedicação e sacrifício de milhares de pessoas que abraçaram a Causa de Bahá’u’lláh. Vemos que no Irã, país berço da Fé, mais de 20 mil pessoas, entre elas: homens, mulheres, jovens, idosos, crianças; ricos ou pobres, sábios ou iletrados, deram seu sangue. Além dos mártires no Irã, muitas outras pessoas em diversas partes do mundo tiveram uma vida inteira de dedicação e sacrifício pela Fé que amavam. Nesta época, a Era Formativa da Fé, encontramos almas abençoadas que durante toda a vida tiveram uma fé inabalável em Bahá’u’lláh e obediência total no ensino e pioneirismo. (Pausa) Aqui, vamos apresentar a vida de um herói desta Causa, um exemplo de amor e serviço a Fé, um grande instrutor no mundo inteiro, Dr. Rahmat Muhajer. (Dr. Rahmat Muhajer entra) MUHAJER Nasci em uma família bahá’í que teve a honra de conhecer a Abençoada Beleza, Bahá’u’lláh. Em uma Epístola escrita por ‘Abdu’l-Bahá referindose a minha família, escreve: “Vocês devem agradecer a Deus por terem *O nome pronuncia-se: Morradjer

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tido o privilégio de estar na presença da Abençoada Beleza, Bahá’u’lláh”, e nos chama de pioneiros. Depois de ser honrada com esta Epístola, minha família escolheu como sobrenome, Muhajer, que significa pioneiro.

CENA 2: ESCOLA DE VERÃO EM KARAJ MUHAJER O pensamento de meus pais estava sempre direcionado ao ensino da Fé. Eu fui criado dentro da administração da Fé, participava das reuniões, encontros e cursos de estudo bahá’í. Desde a minha juventude, muitas vezes sentia dentro de mim que para servir a Fé era necessário ter iniciativa individual. (Pausa e pensando enquanto anda um pouco) Uma vez, através da leitura de uma mensagem do amado Guardião dirigida aos bahá’ís dos Estados Unidos, sobre Escolas de Verão, compreendi sua verdadeira importância. Então fui até a Assembléia Local de Teerã e apresentei o meu ponto de vista sobre Escolas de Verão. Eles me informaram que ainda não tinham um comitê responsável pela escolha do local, dos professores, do programa e de todos os outros assuntos. Pensei comigo, “não devemos deixar de ter uma escola porque não temos estas possibilidades”. Logo pensei: “Devo ter uma iniciativa!” Fui até um amigo e juntos começamos a trabalhar sobre esta meta. Fizemos o planejamento da escola. Procuramos vários proprietários de chácaras e sítios, nenhum aceitava. Mesmo assim não desistimos. Por fim, encontramos um senhor que cedeu sua chácara em Karaj que ficava a 40km de Teerã. Achamos então, que primeiramente deveríamos avisar a Assembléia Local de Teerã, mas eles responderam que como a chácara ficava fora de sua área de jurisdição deveríamos pedir o consentimento da própria Assembléia Local de Karaj. (Mostra um pouco de pressa e preocupação) Ó meu Deus, só faltavam 3 dias para a Festa de 19 Dias, onde deveríamos anunciar a “Escola de Verão” e falar sobre seu programa e importância. Mas, ainda precisávamos da aprovação da Assembléia de Karaj sobre o JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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programa e fazer as cópias em estêncil, pois, naquela época não existiam fotocopiadoras. E ainda precisávamos distribuir este programa nas 100 Festas de 19 Dias que havia na região de Teerã, a capital do Irã. (pausa) Então, o que decidimos? Fomos imediatamente para Karaj. Quando chegamos lá, já eram onze horas da noite. Batemos na porta do coordenador da Assembléia Local, tirandoo da cama, e pedimos a autorização para a realização da Escola. Ele com muita calma e amor, nos disse que era necessária uma reunião da Assembléia para consulta e aprovação. Então, este senhor, à meia-noite, pediu para seu empregado ir para a casa dos outros membros e uns seis ou sete se levantaram naquela mesma hora e todos se reuniram na casa do coordenador e depois daquela consulta deram a sua aprovação. Quando chegamos a Teerã eram quatro horas da manhã. Escrevemos a carta com o programa da Escola e no mesmo dia entregamos para o secretário da Assembléia Local de Teerã para aprovação. Foi aprovado, reproduzido e entregue em todas as Festas de 19 Dias da região. Assim, conseguimos resolver todos os detalhes e tivemos a realização da primeira escola de verão de Teerã. (Pausa. Anda um pouco e olha para o público) Quantas oportunidades na Causa de Deus, acontecem na vida de uma pessoa, especialmente na juventude que devemos aproveitar.

CENA 3: PIONEIRO EM TABRÍZ MUHAJER Quando entrei na faculdade de Medicina e terminei as provas do primeiro ano, tranquei matrícula e parti como pioneiro, por um ano, para uma cidade antiga chamada Rezaiyeh, uma das cidades em que o Báb passou na sua viagem para Tabríz. (Pausa) Durante o dia eu caminhava pelas ruas e praças e fazia orações, pedindo a Bahá’u’lláh que me apresentasse a algumas pessoas que tivessem capacidade de aceitar a mensagem divina para essa SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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época. (Pausa) Quando cheguei nesta cidade, junto com a Assembléia Espiritual Local, estabelecemos aulas para crianças e cursos para os jovens. Fiquei dois anos no meu posto de pioneirismo. A minha querida mãe estava muito preocupada com a interrupção dos meus estudos, outros pioneiros naquela cidade também recomendavam que eu voltasse para terminar minha faculdade, pois assim eu teria mais campo para servir a Causa. Finalmente, acabei voltando para Teerã e me formei em Medicina. (Pausa) Mas, um ano antes da minha formatura (Neste momento sra. Irán entra) me casei com Irán Furútan, que sempre foi minha companheira e dedicada no ensino da Causa. Ela aceitou todas as dificuldades em qualquer época e momento da nossa vida conjugal. Quando casamos tivemos a honra de receber um telegrama do amado Guardião abençoando o nosso casamento. (Muhajer fica parado, sra. Irán anda um pouco, com sorriso olha para o público e diz) IRÁN Sim, nós casamos em 1951, e Rahmat graduou-se em medicina em 1952. Imediatamente ele encontrou um bom serviço com um ótimo salário. Mas não estava satisfeito com isso, pois o seu maior prazer era levantar para um posto de pioneirismo no exterior (Pausa) Em 1952, tivemos permissão de ir à Terra Santa para visitar os lugares sagrados e tivemos a honra de estar na presença do nosso querido e amado Guardião (Pausa) Nesta visita, aumentou ainda mais a vontade de servir à Causa de Bahá’u’lláh no coração de Rahmat (Pausa) Quando voltamos para o Irã, apesar de financeiramente ele ganhar bem no seu trabalho, ele não tinha paciência, nem ânimo. Ele queria abandonar tudo e esquecer o mundo material. (Pausa)

CENA 4: PIONEIROS NAS ILHAS MENTAVAI IRÁN Em 1953, quando ia ser lançada a cruzada de 10 anos pelo querido Guardião, foram realizadas cinco conferências internacionais. Uma delas foi em Nova Dehli. Rahmat participou nesta conferência e quando anunciaram as metas JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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de pioneirismo e disseram que as Ilhas Mentavai precisavam de um médico, ele aceitou o desafio e veio até mim. MUHAJER –– Querida Irán, você sabe como eu gostaria que nós saíssemos como pioneiros e pensei que poderíamos ir para Ilhas Mentavai. IRÁN –– Por que justamente na Ilhas Mentavai? MUHAJER –– Porque lá precisam muito de um médico. IRÁN –– O que você vai fazer com o seu trabalho daqui? MUHAJER –– Eu pensei em deixar este trabalho. Podemos vender tudo o que temos. (Entusiasmado) Eu tenho certeza e confiança de que se nos levantarmos e obedecermos ao Amado Guardião, a bênção de Bahá’u’lláh vai chegar até nós e todas as dificuldades e problemas serão resolvidos.

CENA 5: DESENCONTRO EM JAKARTA IRÁN (Para o público) Então, no mês de junho de 1954, mês de muito frio, partimos do Irã. Nossos familiares e amigos estavam no aeroporto, sendo muito emocionante a hora da partida. Com lágrima nos olhos eles nos abraçavam e parabenizavam e pediam a Bahá’u’lláh para nos dar forças e a ter sucesso no Caminho do Bem-Amado. NARRADOR No dia seguinte, Dr. Muhajer e sua esposa Irán chegaram em Karachi no Paquistão. Assim que saíram do avião perceberam como o calor juntamente com a umidade tornavam inúteis todas aquelas roupas de inverno que vestiam e carregavam na mala. Ficaram em Karachi por 2 dias. Imaginem a dificuldade de não conseguir falar o idioma local. O seu inglês não era muito bom, não ia além do “boa tarde”, “boa noite”, “como vai” e SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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mais algumas palavras simples. Depois chegaram a Jakarta, a capital da Indonésia. Debaixo de uma forte tempestade, sua única esperança era encontrar um amigo bahá’í que ainda não conheciam pessoalmente. (Pausa) Uma semana antes de partirem do Irã, dr. Muhajer passou um telegrama avisando sobre a sua chegada a Jakarta, mas passaram-se duas horas sem nenhum sinal do seu amigo e como seu avião era o último vôo daquele dia, todos os funcionários estavam deixando o aeroporto. IRÁN (Com tristeza) Lembro-me bem, nós nos aproximávamos das pessoas falando persa e elas nos respondiam em indonês o que não resolvia nada, além disso não tínhamos o endereço do nosso amigo. Falamos para um funcionário do aeroporto, por várias vezes, a palavra “hotel”, até ele entender que nós precisávamos de um quarto para descansar. Através de mímica respondeu-nos que nosso esforço era inútil pois não havia nenhum hotel por perto. MUHAJER –– (De repente com alegria) Irán, lembrei o nome no telegrama do nosso amigo - é: “Peiman em Jakarta.” (Olha para platéia) Então, através de mímica disse para o nosso amigo do aeroporto: por favor telefone, telefone para este amigo. Através de mímica ele falou que a única saída era irmos para o correio e pegar um táxi. Como não tínhamos dinheiro do país, ele gentilmente, pagou o táxi e pediu para levar-nos até o correio. IRÁN Havia passado mais de cinco horas desde nossa chegada a Jakarta e as nossas roupas estavam bem molhadas e pesadas em nosso corpo. (pausa) Durante toda a tarde oramos “Há quem remova as dificuldades” e tivemos certeza e confiança que Bahá’u’lláh ia nos ajudar a resolver esta dificuldade. (Com alegria) E Bahá’u’lláh atendeu a nossa oração. Encontramos um homem muçulmano que falava árabe e conseguiu nos entender. Com muito amor e gentileza, ele mesmo encontrou o telefone do sr. Peiman, telefonou e em menos de meia hora ele chegou. Quando soube de tudo o que tinha acontecido conosco ficou muito surpreso pois disse que não havia recebido o nosso telegrama. A chegada do sr. Peiman foi para nós a maior alegria, jamais esquecerei aquela voz dizendo “Alláh’u’Abhá”. Naquele momento toda a fome e cansaço foram esquecidos. A lembrança daquela noite, do início de nosso JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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pioneirismo permanecerá inesquecível. Ainda sinto o vento suave do ventilador de teto que deixou o ambiente fresco e agradável e aquela comida iraniana gostosa acompanhada do chá de samovar.

CENA 6: MINISTRO DA SAÚDE IRÁN No dia seguinte, Rahmat foi visitar o Ministro da Saúde. (Neste momento Rahmat e Irán vão até a porta, batem em uma porta, vem um senhor e pergunta) MINISTRO –– O que o senhor deseja? MUHAJER –– Eu gostaria de falar com o ministro da saúde. MINISTRO –– Pois não, sou eu mesmo. MUHAJER –– Eu sou um médico e estou vindo do Irã com minha esposa. Nós queremos nos estabelecer nas Ilhas Mentavai e trabalhar lá. (Ministro faz cara de surpresa, Irán que está de frente para o público fala) Irán O Ministro da Saúde que, até aquele momento, não havia conseguido mandar nenhum médico da Indonésia para aquelas ilhas que eram perigosas, do ponto de vista de doenças e falta total de recursos, quando ouviu tal oferecimento, imediatamente disse: MINISTRO –– Licença, por favor! (Vai até a mesa, pega um formulário e coloca na frente do dr. Muhajer) Por favor, leia e assine este formulário. MUHAJER –– Pois não. (Assina o formulário)

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MINISTRO –– Quer saber a verdade? Eu estou fazendo isso, porque tive medo que ao sair daqui, o senhor tomasse conhecimento da situação das ilhas e pudesse se arrepender. MUHAJER –– Não, jamais isto aconteceria. Eu já ouvi sobre as doenças e perigos que existem naquela ilha. MINISTRO –– (Um pouco pensativo) O que o anima em uma viagem tão perigosa? MUHAJER –– (Para o público) Realmente, eu não esperava um pergunta daquela. Pensei e disse: (Vira o rosto para o ministro) Quero ir até lá fazer algumas pesquisas médicas sobre as doenças daquela região e talvez escrever um livro. MINISTRO –– Fico muito feliz. Qualquer material ou instrumento que você precisar estou à sua disposição. MUHAJER –– A única coisa que gostaria de pedir ao senhor é uma certa quantia de inseticidas e equipamentos, além de instruções sobre como usá-las. MINISTRO –– Pois não, eu vou providenciar. Também adiantarei seis meses de seu salário. (Os dois se despedem. O ministro sai)

CENA 7: PRIMEIROS ANOS NAS ILHAS MENTAVAI IRÁN Desta forma, nós saímos de navio para aquela região e Rahmat gastou a maior parte do dinheiro que tinha recebido para cuidar do povo, principalmente construindo escolas para as aldeias. Quando chegamos naquelas ilhas, não havia casa alguma, só alguns pequenos casebres. Nosso alojamento era uma casinha coberta com folhas de palmeiras. Logo, Rahmat foi atacado por um tipo de malária muito perigosa e como ele tratava de muitos doentes, entregou-me os remédios e deu-me instruções de como eu JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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poderia administrá-lo no tratamento dos doentes. Muitas vezes ele ficava com febre alta e desmaiava. Se eu não tivesse recebido aquelas instruções, como eu poderia cuidar dele e dos outros doentes? A malária era uma doença perigosa que matava muitas pessoas. Mas mesmo assim, Rahmat não parava e não descansava. Ele viajava muito, às vezes, eram viagens de vários dias atravessando florestas e rios. Várias vezes chegou em casa molhado até a cintura. Certa vez, ele chegou depois de vários dias de viagem. (Dr. Muhajer vem contente em direção a esposa a abraça) IRÁN –– Querido, como você parece feliz. MUHAJER –– (Com entusiasmo) Sim, eu estou muito, muito feliz. IRÁN –– De onde você está vindo? MUHAJER –– De uma viagem onde passei vários dias por entre florestas e rios. A água era tão suja e alta que chegava até a minha cintura e tinha tantas sanguessugas que chegavam a grudar em minha perna. IRÁN –– E ainda com tudo isso, você diz que está muito, muito feliz? MUHAJER –– (Com sorriso e tranqüilidade) Não se preocupe com tudo isso. Eu estou muito feliz. As bênçãos de Bahá’u’lláh são abundantes. Muitas pessoas nesta ilha ouviram sobre a Abençoada Beleza, abraçaram a Fé e no futuro, bem próximo, vão estender a bandeira de Yá Bahá’ul-Abhá na região. (Enquanto Rahmat está contando sobre a sua viagem, a esposa escuta com atenção e com muita curiosidade pergunta) IRÁN –– Mas, estas sanguessugas que grudavam em sua perna, sem dúvida, o faziam sangrar. O que você fez? MUHAJER –– (Com sorriso e naturalidade) Simplesmente quando saia da água tirava cada uma das sanguessugas e limpava minha perna. Deus estava me ajudando através delas. SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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IRÁN –– Como assim, Deus ajudou? MUHAJER –– Porque com as picadas das sanguessugas a minha pressão não subia. IRÁN –– (Vira para o público e diz) Sim, para Rahmat no caminho da Abençoada Beleza não existiam dificuldades. Ele não parava. Viajava e viajava. Às vezes nestas viagens não tinha onde dormir, muitas vezes dormia nas florestas, no chão úmido em uma esteira que levava com ele. Durante todo o tempo agradecia ao amado Guardião as oportunidades e pedia a Bahá’u’lláh que não tirasse esta benção que foi dada a ele. (Pausa) Ele não só ensinava a Fé, mas ensinava as pessoas a terem uma melhor vida física e material, como por exemplo, como os pais e filhos podem cuidar melhor de suas higienes pessoais. Posso dizer que para ele a Causa de Bahá’u’lláh era um conjunto de três palavras: amor, ensino e pioneirismo. MUHAJER Nossa alegria e consolo eram quando recebíamos os telegramas do nosso querido e amado Guardião. (Pausa) Nosso único contato de Mentavai ao mundo externo era um barco que chegava a ilha a cada 6 ou 8 meses trazendo os telegramas que nos enchiam de forças para servir a esta gloriosa Causa.

CENA 8: A MÃO DA CAUSA DE DEUS IRÁN Em 1957, recebemos um telegrama do Guardião que designava Rahmat como Mão da Causa. Demorou dois dias para eu encontrar Rahmat e darlhe a notícia. Quando soube, ficou admirado por tamanha bênção, entrou no quarto e chorou por várias horas, isolando-se dois dias em orações. Depois destes dias, em espírito de abnegação e humildade, escreveu para o Guardião. (Pausa) Mas, poucas semanas depois recebemos a notícia do passamento repentino do Guardião(Pausa) Oh, que dia e noite dolorosos nós passamos. Este choque foi muito grande para todos os bahá’ís do mundo, perder o nosso amado Guardião, tão de repente! Aquele bem amado agora não está mais entre nós. (Com voz alta) Ó Bahá’u’lláh! Dê-nos força para continuar. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Parecia que tudo estava acabado para nós (Pausa) Durante dia e noite oramos, o que era nosso único consolo. No dia seguinte, Rahmat foi para o seu enterro em Londres. O falecimento do amado Guardião teve um efeito muito grande na vida de Rahmat, tornando-o mais quieto, o que substituiu seu modo de ser alegre e brincalhão. MUHAJER Quando fui nomeado pelo amado Guardião como Mão da Causa de Deus, meu desejo era ser pioneiro até o fim da minha vida. Com o falecimento do Guardião, reunimos todas as Mãos da Causa na Terra Santa e foi decidido que alguns ficariam em Haifa enquanto outros deveriam viajar pelo mundo cuidando do ensino e proteção da Fé. Deixar Mentavai deu início a uma outra parte da minha vida no serviço da Causa de Bahá’u’lláh. Em 1957, eu e minha querida esposa Irán, mudamos para a Índia (Mostra Irán) onde começou o ensino às massas. Tive a oportunidade de viajar para todos os recantos do planeta, incluindo a América Latina, África, Índia, Oriente e Estados Unidos.

CENA 9: VIAJANDO PELO MUNDO NARRADOR Devemos destacar o ensino às massas na Índia. Lá, através de constantes visitas, orientações, estímulo e utilizando uma metodologia adequada, em poucos anos o número de bahá’ís ultrapassou a um milhão. Foi em 1961, que dr. Muhajer veio pela primeira vez ao Brasil, partindo depois foi para a Bolívia, onde também iniciou o ensino às massas tendo no primeiro ano aproximadamente quatro mil declarações. Como muitos amigos relataram, muitas vezes, ao subir as altas montanhas da Bolívia, Dr. Muhajer ficava com tontura e falta de ar, mesmo assim isso não o fazia parar. IRÁN Meu querido Rahmat, sempre tinha pressa e repetia para os amigos: “O tempo é curto! Vamos dar valor para o tempo que temos.” (Pausa) Meu SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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DR. MUHAJER

Drama em 10 atos

Deus, que energia ele tinha... nunca sentia dor física e sempre tinha o pensamento para o ensino da Causa. Lembro-me, que nos mais diferentes países que ele ia, dava atenção muito especial ao ensino das crianças, dizia sobre a importância de ser ter aulas bahá’ís e como elas ajudavam a formar um forte alicerce para a comunidade. Também, em cada país que ele chegava pesquisava quais eram as suas universidades para que os jovens pudessem se levantar como pioneiros para melhor servir a Causa de Bahá’u’lláh e estudar ao mesmo tempo. Em 1961, quando Rahmat estava ensinando os indígenas e visitando os pioneiros na América do Sul, nasceu na Índia (Neste intervalo entra Guissu) nossa primeira filha, Guissu. Demorou seis meses para Rahmat vê-la e podem ter certeza, não foi nada fácil para ele. Mas, para Rahmat o ensino da Fé era prioridade maior em sua vida. Muitas vezes os amigos perguntavam, por que ele trabalhava tanto, se ninguém o obrigava? Eu mesma fazia-lhe esta pergunta, e sabe o que ele respondia? Sua única resposta era: “Abdu’l-Bahá disse que as Mãos da Causa são responsáveis pelo ensino da Causa, assim eu não devo parar.” GUISSU (Pensativa) Ah, eu me lembro de meu querido pai chegando de viagem e partindo novamente (Com tristeza) Eu ficava tão triste, que depois da despedida eu ficava na janela olhando sua partida, enquanto as lágrimas corriam em meu rosto. Depois perguntava a mim mesma: “Para onde será que meu querido pai vai viajar? Quando vou encontrá-lo novamente?” (Sorrindo) Só Deus sabia. A saudade era enorme, mas meu pai sempre demonstrava um carinho muito grande, sempre quando voltava de viagem dedicava momentos especiais para brincar e estar comigo e junto de minha mãe nós desenvolvemos o hábito familiar de reservar um período do dia para recitarmos orações e textos sagrados juntos. (Pausa) Quando aprendi a ler e escrever, ele mandava cartas amorosas as quais incentivavam-me a estudar e a ler mais as escrituras bahá’ís. (Pausa) Muitas vezes, junto com a carta, ele mandava trechos da oração obrigatória longa para eu decorar até a sua volta, e assim antes de eu completar 15 anos, eu a tinha memorizado.

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DR. MUHAJER

Drama em 10 atos

MUHAJER Realmente estas separações não eram nada fáceis, eu ficava com muita saudade delas e elas de mim. Não era fácil para minha querida esposa Irán. Praticamente, todas as responsabilidades da família e a educação de Guissu estava em suas mãos. Se não fosse a colaboração dela, como eu poderia viajar? Eu procurava programar as minhas viagens de tal forma que pudesse estar com elas nas datas mais importantes, como o aniversário de Guissu ou outros acontecimentos ligados aos estudos dela. GUISSU –– (Vai até o pai) Ah, pai sabe do que lembrei agora? Da minha formatura. (Para o público) Lembro perfeitamente quando o meu querido pai estava na África e logo vem seguida viajaria para o Canadá. Naqueles dias aconteceria minha formatura, onde eu deveria ser a oradora da turma, e o meu maior desejo era que meu querido pai e minha querida mãe estivessem presentes. (Com alegria) Que alegria, que surpresa! Sem ninguém esperar, meu pai voltou da viagem, completando a minha alegria. Ah, nunca vou me esquecer. MUHAJER –– Sim, eu fiz surpresa para vocês. Sem avisá-las, eu voltei para a formatura. (Com alegria e fazendo carinho em Guissu) Você não pode imaginar que grande alegria eu senti em poder participar daquele momento. Foi uma satisfação muito grande. GUISSU –– Ah, eu nunca vou me esquecer daquele dia e daquela surpresa maravilhosa. MUHAJER Em dezembro de 1979, eu tinha marcado um programa de ensino na América do Sul. Primeiro deveria ir para Lima, capital do Peru e depois para Quito, capital do Equador. Parti para esta viagem me despedindo das minhas queridas Irán e Guissu. (Vai até elas, dizendo-lhes) Cuidem-se bem e façam orações por mim e por todos os bahá’ís. Vocês estão sempre no meu coração. (Sai do palco)

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DR. MUHAJER

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CENA 10: FALECIMENTO DE RAHMAT IRÁN Tinham passado alguns dias da viagem de Rahmat, era 29 de dezembro, e eu estava pensando em fazer algumas atividades com Guissu. (Perguntando para Guissu) Querida, vamos fazer algum programa juntas, hoje à tarde? GUISSU –– Ótima idéia mamãe e o que podemos fazer? IRÁN De repente o telefone tocou (Som de telefone tocando, e Irán vai pegar telefone para falar com o seu pai) Olá papai, Alláh’u’Abhá! PAI DE IRÁN –– Como está? IRÁN –– Tudo bem. (Fala como se fosse o seu pensamento) Mas a voz do meu pai era muito estranha. PAI DE IRÁN –– Você tem notícia do Rahmat? IRÁN –– (De novo como se fosse seu pensamento) Assim que ouvi isso percebi que algo aconteceu. (Fala com pai) Falei com ele por telefone há três dias. O que aconteceu? PAI DE IRÁN –– (Com voz triste) Acabou de chegar um telegrama aqui, na Terra Santa, informando que Rahmat não está muito bem de saúde. IRÁN –– (Voltando-se para o público) Mas eu sabia que Rahmat nunca deixaria que telefonassem para a Casa Universal de Justiça, por causa de sua saúde. Logo falei: “Pai, por favor, diga-me...quando foi o falecimento de Rahmat.” PAI DE IRÁN –– Há duas horas atrás. (Neste momento mãe e filha se abraçam, sem choro ou desespero, Irán pega a mão de Guissu)

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DR. MUHAJER

Drama em 10 atos IRÁN

Enquanto eu e Guissu estávamos indo para o aeroporto, eu não percebia porque estávamos no táxi e para onde íamos. Quando, por fim, chegamos ao aeroporto de Quito, muitos amigos bahá’ís e alguns Conselheiros do Corpo Continental estavam esperando por nós. Levaram-nos para a casa do amigo bahá’í onde Rahmat estava hospedado e nos alojaram no mesmo quarto. Ao entrarmos, vimos no canto do quarto a sua mala, que permanecia entreaberta, do mesmo jeito que ele havia deixado. Sentimos que ele ainda estava conosco. Parecia que ainda não havia partido para o mundo do além. GUISSU Meu pai foi sepultado em um lugar lindo, em meio de pessoas que lhe demonstravam um grande amor e o admiravam muito. Para mim, que ficava muito tempo longe dele, quantas vezes não sabia onde ele estava ou quando voltaria, naquele momento que sepultaram o corpo daquele espírito radiante, pensei: “Ó Deus! Agora sei onde meu pai está, está no Reino de Abhá para sempre e seu corpo em Quito, no Equador.” NARRADOR Queridos amigos, esta foi uma pequena apresentação da vida da querida Mão da Causa de Deus, dr. Rahmat Muhajer, inúmeras comunidades bahá’ís espalhadas pelo mundo foram visitadas por ele, uma ou mais vezes, com muita dedicação e sacrifício, apesar de seus problemas cardíacos, em muitas ocasiões ele subiu a Cordilheira dos Andes a pé a fim de visitar pequenos grupos indígenas. Que a vida e o exemplo deste herói da Fé possa servir como fonte de inspiração para o serviço à Causa de Deus. Que cada um de nós, tome o seu quinhão neste Dia de Deus, e deixemos agora a nossa marca, pois como escreveu a Casa Universal de Justiça: “Os dias passam rapidamente como o cintilar de uma estrela. Deixem sua marca em atos que lhes assegurem as bênçãos celestiais... garantam para vocês, para a raça humana inteira, um futuro além de qualquer estimativa terrena.”2

(Fim)

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SENTIDO AS PALAVRAS OCULTAS

Declamação de textos em 1 ato

Peça Teatral: SENTINDO AS PALAVRAS OCULTAS Declamação de textos em 1 ato.

Personagens: NARRADOR VOZ-OFF, para leitura das Palavras Ocultas PERSONAGEM 1 PERSONAGEM 2 PERSONAGEM 3 JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Declamação de textos em 1 ato

SENTIDO AS PALAVRAS OCULTAS

DADOS DA PEÇA TEATRAL Autor: Título: Publicação: Descrição física: Assunto: Gênero: Resumo: Personagens: Num. de cenas: Ambiente:

Shoghieh Shaikhzadeh, 1933SENTINDO AS PALAVRAS OCULTAS [2006] 9 pp. Teatro Bahá’í Declamação Leitura de textos selecionados do livro revelado por Bahá’u’lláh: As Palavras Ocultas. 5 (uma somente voz-off) 1 Projeções de luzes de várias cores, podendo usar lenços e panos com movimento.

Referências Bibliográficas 1 As Palavras Ocultas, abertura da Parte Árabe. 2 As Palavras Ocultas, n.1 do árabe. 3 Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção CXLVI. 4 As Palavras Ocultas, n.4 do árabe. 5 As Palavras Ocultas, n.10 do árabe. 6 Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá, p.24. 7 As Palavras Ocultas, n.14 do árabe. 8 Padrão de Vida Bahá’í, pp. 42-3. 9 As Palavras Ocultas, n.4 do persa. 10 As Palavras Ocultas, n.54 do árabe. 11 As Palavras Ocultas, n.56 do árabe. 12 As Palavras Ocultas, n.68 do árabe. 13 Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh. Seção CXII. 14 ‘Abdu’l-Bahá. Alicerces da Unidade Mundial. Cap. III 15 Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh. Seção LXXII. 16 Shoghi Effendi. Carta de 24.11.1924, à AEN da Inglaterra. 17 Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh. Seção CXXXII. 18 Texto final do As Palavras Ocultas, Parte Persa. 19 Ibid. 20 Ibid. 21 Ibid. SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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Declamação de textos em 1 ato

CENA 1 (Música) VOZ-OFF “Ele é a Glória das Glórias! Eis o que desceu do reino da glória, proferido pela língua de poder e grandeza e revelado aos Profetas de antanho. Nós lhe tiramos a quintaessência e a revestimos com a roupagem da brevidade, em sinal de graça aos justos, a fim de que se mantenham fiéis ao Convênio de Deus, cumpram em suas vidas aquilo de que Ele os incumbiu e, no reino do espírito, obtenham a jóia da virtude divina.”1 NARRADOR Bahá’u’lláh durante Sua Revelação, através de inspiração divina, escreveu mais de cem obras. Dentre estas se destaca “As Palavras Ocultas”, uma obra formada por jóias que foram inspiradas a Bahá’u’lláh por volta do ano de 1858, enquanto Ele caminhava absorto em meditação nas margens do Rio Tigre. Ele é identificado como o Livro Oculto de Fátima, o qual, segundo se acredita, o Anjo Gabriel revelou para consolar essa filha angustiada de Muhammad após a morte do Profeta, mas que permaneceu oculto do conhecimento do mundo até ser agora divulgado. Esta obra é uma nova criação obtida da destilação das sagradas fragrâncias, onde todas as grandes luzes do passado unem-se em uma só luz. (Pausa) As Palavras Ocultas são dotadas de uma surpreendente força espiritual, sendo ativa, urgente e expansiva, penetrando até o fundo de todo coração sensível e alcançando o renascimento da alma, destinada a regeneração do homem. As Palavras Ocultas brilham como um raio de luz para o homem perdido na escuridão do materialismo. Ela confere luz a nossos olhos permitindo que vejamos o Caminho em direção ao nosso Senhor. Possui uma coletânea de admoestações celestiais que é um guia perfeito na nossa jornada pelos mundos espirituais de Deus. (Pausa)

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Declamação de textos em 1 ato

SENTIDO AS PALAVRAS OCULTAS

Hoje, vamos ouvir algumas destas Palavras celestiais e sentir a Sua melodia que penetra no fundo dos nossos corações. (A luz se apaga e sobe música. Entram as personagens, permanecem em diferentes pontos do palco, um senta, outro fica em pé. Uma voz-off lê a seguinte Palavra Oculta) VOZ-OFF “Ó Filho do Espírito! Meu primeiro conselho é este: Possui um coração puro, bondoso e radiante, para que seja tua uma soberania antiga, imperecível e eterna.”2 (Acende-se a luz e um dos personagens levanta, vem a frente e diz) PERSONAGEM 1 Possui um coração puro, bondoso e radiante. Ah, como esta melodia é forte e penetrante. Como é direta! Deixa claro que para recebermos a luz divina, devemos ter um coração puro. (Pensativo, repete) Um coração puro. Devemos nos esforçar de toda forma para atingir este objetivo, pois do contrário todo esforço será inútil. Bahá’u’lláh é muito enfático neste ponto, (Pausa) me recordo que Ele diz que a nossa vista nos foi confiada por Deus e que devemos cuidar para que não perca brilho, e nem seja contaminada pelo pó dos desejos vãos. PERSONAGEM 2 (Com força, dirigindo-se ao público) Nosso ouvido é sinal da generosidade de Deus, devemos cuidar para que o tumulto dos motivos indignos não o desviem da Palavra de Deus. PERSONAGEM 3 Sim, e Ele enfatiza dizendo que o nosso coração é um tesouro que a Deus pertence. Já pensaram, nosso coração pertence a Deus!? Que grande bênção é esta. Por isso Ele nos adverte que devemos cuidar para que “a mão traiçoeira do ego” não roube as pérolas que Deus entesourou nos nossos corações. Devemos cuidar para mantê-lo puro. (Pausa) Mantê-lo puro, significa livrar o coração humano da influência das neblinas e sombras da terra que não permitem ao homem ter sequer um vislumbre de Deus.

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PERSONAGEM 2 Depois da pureza de coração, Ele chama-nos a ter um coração bondoso, devemos manifestar esta bondade com uma potência cada vez maior em todos os aspectos. (Com voz alta e serena) Bahá’u’lláh anuncia: “É Nossa vontade e Nosso desejo que cada um de vós se torne uma fonte de toda bondade para os homens e um exemplo de retidão para o gênero humano. Acautelai-vos para que não considereis a vós mesmos acima de vosso próximo. Fixai vosso olhar nAquele que é o Templo de Deus entre os homens. Ele, em verdade, ofereceu Sua vida como resgate para a redenção do mundo.”3 PERSONAGEM 1 O terceiro componente para a vida eterna é a radiância. Radiância é espalhar a luz divina, é deixar que o brilho da Palavra Divina ilumine nosso caminho e dos outros, com quem temos contato. O maior exemplo de radiância foi o Mestre ‘Abdu’l-Bahá. Alegria e felicidade era a tônica de todos os seus ensinamentos. Ele freqüentemente perguntava “Vocês estão felizes?”, ou saudava as pessoas dizendo: “Sejam felizes.” Se alguém ficava triste e chorava, ‘Abdu’l-Bahá sorria para ele, como que dizendo: “Sim chore, o que está além das lágrimas é o brilho do sol.” PERSONAGEM 3 Uma vez, uma senhora visitou o Mestre em Haifa, mais tarde ela escreveu sobre esta visita dizendo: “Enquanto o Mestre conversava comigo, senti meu coração amolecer sob a influência de sua bondade e gentileza, e as lágrimas encheram meus olhos. Ele perguntou sobre mim, se eu estava bem e se estava feliz. Eu respondi: (Com tristeza) “Tenho tido muitas aflições.” Ele me olhou com radiância e disse: “Esqueça-as, (Pausa) quando o coração for preenchido com o amor a Deus, não haverá espaço para a tristeza, haverá apenas amor e alegria.” (Música) VOZ-OFF “Ó Filho do Homem! Amei tua criação, por isso te criei. Ama-Me, pois, para que Eu possa mencionar teu nome, e te inundar a alma com o espírito da vida.”4

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“Ó Filho da Palavra! Tu és Minha fortaleza; nela entra, para que ali possas habitar em segurança. Meu amor está em ti; conhece-o, a fim de que Me possas encontrar próximo de ti.”5 (Depois de ler este trecho outra personagem vem e olha para o público e diz) PERSONAGEM 2 O caminho a ser seguido pela alma é o do amor a Deus. Este amor deve ser tão abnegado, tão completo que implica no desapego de tudo que não seja Deus. (Pausa, com voz alta) Amor significa renúncia, desprendimento e pureza. Cristo nos ensinou: Bem aventurados os puros de coração pois eles verão a Deus. O amor a Deus é a fortaleza do homem, quando ele a conhece, nela entra e é protegido contra o erro da morte espiritual e está seguro para sempre. O homem é a lâmpada de Deus feita para irradiar a luz do próprio Deus. Ele proclama: “O amor é o único meio de assegurar a verdadeira felicidade, tanto neste mundo como no vindouro.”6 VOZ -OFF “Ó Filho do Homem! Tu és Meu domínio, e Meu domínio não perece; por que temes perecer? És Minha luz, e Minha luz jamais se extinguirá; por que receias extinção? És Minha glória, e Minha glória não se esvaece; és Minha vestimenta, e Minha vestimenta jamais se desgastará. Permanece firme, pois, em teu amor por Mim, a fim de que Me possas encontrar no reino de glória.”7 PERSONAGEM 1 Da argila do amor é moldado o ser humano e a essência de todo o conhecimento. O homem pertence a Deus, se tivermos isto claro em nossos corações, saberemos que sendo um domínio de Deus ele jamais perecerá, pois a luz de Deus nunca poderá ser apagada. Não há paz ou descanso para o homem a não ser em submissão diante de Deus. (Com voz alta e serena) “O amor é maior que a paz, pois a paz é edificada sobre o amor... enquanto o amor não for alcançado, a paz não poderá existir.” PERSONAGEM 2 Quando existe amor “cada um vê no outro a beleza de Deus refletida na alma e encontrando esse ponto de semelhança, são todos atraídos um pelo SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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outro com amor. Este amor fará todos os homens as ondas do mesmo mar; este amor torná-los-á as estrelas do mesmo céu e os frutos de uma só árvore. Este amor trará a realização da verdadeira concórdia, a base da unidade real”.8 PERSONAGEM 3 O amor a Deus é dotado de sacrifício. O apaixonado aceita qualquer sacrifício no Caminho do Bem-Amado. (Pausa e declama a Palavra Oculta) “Ó Filho da Justiça! Aonde pode ir o apaixonado senão à terra de sua bem-amada? E aquele que procura, poderá ele ficar tranqüilo longe do desejo de seu coração? Para quem ama verdadeiramente, a união é vida e a separação morte. Vazio de paciência está seu peito; privado de paz, seu coração. A miríades de vidas ele renunciaria a fim de se apressar para onde se encontra a bemamada.”9 PERSONAGEM 2 Um dos desejos mais profundos da vida de Lua Getsinger era que um dia lhe fosse permitido seguir os passos do Mestre Abdu’l-Bahá, mesmo que fosse por uma distância muito curta. (Pausa) Certo dia, ela estava caminhando com ‘Abdu’l-Bahá e alguns amigos, nas brancas areias do mar perto de ‘Akká. Ela estava um ou dois passos atrás do Mestre, quando percebeu Suas pegadas naquela areia. Espontaneamente começou a caminhar atrás de ‘Abdu’l-Bahá e a trilhar nos Seus passos, colocando seus sapatos um após o outro nas Suas pegadas. ‘Abdu’l-Bahá, sem virar-se, perguntou-lhe: “O que você está fazendo?” Ao que ela respondeu com muita alegria: “Estou seguindo os Seus passos, Amado Mestre.” Sem uma palavra, ‘Abdu’l-Bahá continuou caminhando vigorosamente. De repente, Lua sentiu uma forte dor no tornozelo, quando olhou para baixo percebeu que havia sido picada por um escorpião. Gritou, mas o Mestre não se virou nem diminuiu Sua caminhada. Ela continuou andando com grande dificuldade, o tornozelo estava inchando rapidamente, a dor era intensa, mas cerrando os dentes ela se esforçava para continuar. Quando o sofrimento tornou-se quase insuportável, o Mestre virou-Se para ela e disse: “Isto é o que realmente significa seguir os Meus passos.” Assim, mais uma vez, o amado Mestre ensinou a lição do sacrifício no caminho de Deus. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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(Música) VOZ-OFF “Ó Filho do Ser! Se teu coração anseia por este domínio eterno, imperecível, por esta vida antiga e imortal, abandona a soberania efêmera e fugaz.”10 “Ó Filho do Homem! Tu queres o ouro, e Eu desejo que dele te livres. Tu te julgas rico por possuí-lo, e Eu reconheço tua riqueza em estares santificado acima dele. Por Minha vida! É este Meu conhecimento; aquilo, tua fantasia; como pode Minha vontade estar em harmonia com a tua?”11 PERSONAGEM 1 O amor a Deus também é dotado de desprendimento. Desprendimento de tudo menos de Deus. Desprender deste mundo mortal e proteger a alma do apego de todas as coisas terrenas. O apego pode ser descrito como tudo que impede a alma de se aproximar de Deus. Bahá’u’lláh ensina que este mundo e tudo o que nele existe foi criado por Deus para benefício do homem, e que ele tem o direito de possuir todas as boas coisas que ele possa ganhar, mas que ele nunca deve se tornar apegado a estas coisas. Deve-se ter cuidado, pois a riqueza pode se tornar uma forte barreira entre o homem e Deus. Os ricos correm o risco de não serem desprendidos, mas por outro lado as pessoas com pequenas posses terrenas também podem se tornar apegadas às coisas materiais. PERSONAGEM 3 Isto me faz recordar uma história persa de um rei e um dervixe. Havia um rei que tinha muitas qualidades espirituais e que todas as suas ações eram baseadas na justiça e no amor. Ele sempre invejava os dervixes que eram místicos que haviam renunciado a este mundo e pareciam estar livres das preocupações deste mundo material, pois abandonavam o seu país, dormiam em qualquer lugar com o cair da noite e cantavam canções de louvor ao Senhor durante todo o dia. Eles pareciam possuir o mundo ainda que vivessem na pobreza. Seus únicos bens eram as próprias roupas e uma cesta onde carregavam a comida que recebiam como donativos. O rei ficava muito admirado com a vida destes dervixes.

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Certo dia, o rei convidou um dervixe muito famoso para o seu palácio, sentou aos seus pés e lhe implorou que lhe ensinasse algumas lições sobre desprendimento. O dervixe ficou muito feliz e aceitou o convite e sempre que o rei tinha tempo livre aprendia lições de desprendimento e sobre como deveria viver. Até que um dia o rei desejou se tornar um dervixe. Vestiu, então, uma roupa de mendigo e em companhia do dervixe abandonou o seu palácio. Tinham andado um pouco quando o dervixe percebeu que tinha esquecido a sua cesta no palácio. Isto o deixou tão aborrecido e triste que disse para o rei que não poderia continuar a viagem sem a sua cesta e, assim, pediu permissão ao rei para voltar ao palácio e buscar a cesta. Neste momento o rei ficou muito indignado, dizendo que ele próprio tinha deixado para trás sua riqueza e poder, enquanto que o dervixe que tinha lhe ensinado sobre a importância de uma vida desprendida, tinha finalmente sido testado e mostrou-se apegado a este mundo – a sua pequena cesta. (Pausa) Tanto o rei como o dervixe foram testados e foi mostrado que o apego a este mundo não depende só da riqueza ou da pobreza. (Música) VOZ-OFF “Ó Filhos dos Homens! Não sabeis por que Nós vos criamos a todos do mesmo pó? A fim de que ninguém se enaltecesse acima dos outros. Ponderai no coração, em todos os tempos, de que modo fostes criados. Já que vos criamos a todos da mesma substância, deveis ser como uma só alma, andando com os mesmos pés, alimentando-vos com a mesma boca e habitando na mesma terra, a fim de que, do imo de vosso ser, através de vossas ações, se manifestem os sinais da unidade e a essência do desprendimento.”12 PERSONAGEM 2 Ele ainda nos ensina que através de nossas ações devemos manifestar os sinais de unidade e a essência do desprendimento. Este princípio da unidade da humanidade é um requisito espiritual fundamental. A unidade será o meio de estabelecimento da paz mundial. Quando o homem reconhece esta verdade abandona todos os tipos de preconceitos, sejam eles de raça, classe, crença religiosa, nacionalidade ou grau de civilização material, em suma, de tudo o que faz com que as pessoas se considerem superiores

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Declamação de textos em 1 ato

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umas às outras e assim o mundo tornar-se-á como um único lar, diferentes nações como uma só. PERSONAGEM 1 Há mais de 3.000 anos, Moisés proclamou referindo-se a unidade: “Não temos todos um único Pai? Não foi um único Deus que nos criou? Por que agimos perfidamente uns com os outros, violando a aliança de nosso Pai?” PERSONAGEM 2 Jesus Cristo, ensinou no Atos dos Apóstolos: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele se encontra... de um princípio único fez todo o gênero humano para habitar sobre a superfície da terra... a fim de procurarem a divindade. Verifico que Deus não fez acepção de pessoas mas que, em qualquer nação, quem o tema e pratica a justiça, lhe é agradável.” PERSONAGEM 3 O Profeta Muhammad, há 1.400 anos, ensinou: “No princípio todos os seres humanos eram um só povo; e Deus enviou Profetas para transmitirlhes boas novas e para admoestá-los; e enviou com Eles o Livro da Verdade, para diminuir as divergências entre os homens.” PERSONAGEM 1 Nestes dias, Bahá’u’lláh convoca todos os seres humanos a se unirem, ensinando: “Não vos considereis uns aos outros como estranhos. Sois os frutos de uma só árvore e as folhas do mesmo ramo... Tratai uns aos outros com o maior amor e harmonia, em espírito amigável e fraternal...”13 PERSONAGEM 2 “...todos são servos de um só Deus, pertencem à mesma espécie humana, habitam o mesmo globo...”14 PERSONAGEM 3 “Sede como os dedos de uma só mão, os membros do mesmo corpo.”15 PERSONAGEM 2 “...levantemo-nos com um só coração, uma só mente, uma só voz, para reforçar nosso número e alcançar nossos objetivos.”16

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Declamação de textos em 1 ato

PERSONAGEM 1 “Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar a Terra inteira.”17 (Pausa) NARRADOR Que o vislumbre que hoje tivemos das jóias presentes em As Palavras Ocultas possam inspirar e guiar os nossos passos na jornada em direção ao Bem-Amado, assim como proclama Bahá’u’lláh no fechamento desta grandiosa obra: (Voz alta e serena) “Dou testemunho, ó amigos, de que o favor está completo, o argumento se cumpriu, a prova se manifestou e a evidência acha-se estabelecida.”18 PERSONAGEM 1 “Que seja visto agora o que vossos esforços no caminho do desprendimento revelarão.”19 PERSONAGEM 2 “Desse modo, o favor divino foi plenamente concedido a vós e àqueles que estão no céu e na terra.”20 PERSONAGENS 1, 2 E 3 “Todo louvor a Deus, o Senhor de todos os mundos.”21 (Cai o pano)

(Fim)

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TÁHIRIH, A PURA

NÃO EXISTEM PINTURAS NEM FOTOS DE TÁHIRIH

Drama em 9 atos

Peça Teatral: TÁHIRIH - A PURA Drama em 9 atos. A cena passa-se em Teerã, no ano de 1850. Personagens: NARRADOR; TÁHIRIH, personagem principal; HÁJÍ MULLÁ SÁLIH, pai de Táhirih; MULLÁ JAVÁD, primo de Táhirih; MARZIEH, irmã de Táhirih; MULLÁ MUHAMMAD, esposo de Táhirih; TIO, sogro de Táhirih; PREFEITO DE TEERÃ; KHATON, esposa do prefeito de Teerã. SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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TÁHIRIH, A PURA

Drama em 9 atos

DADOS DA PEÇA TEATRAL Autor: Título: Publicação: Descrição física: Assunto: Gênero: Resumo:

Shoghieh Shaikhzadeh, 1933TÁHIRIH - A PURA [2006] 19 pp. Teatro Bahá’í Drama Vida de Táhirih, uma das mulheres mais importantes da Revelação Bábí. Baseada na obra: Táhirih, uma vida pela emancipação da mulher, por Martha Root. Personagens: 9 Outras informações sobre os personagens: Táhirih tem muita personalidade; pai, esposo e tio são bem machistas e bravos; irmã e esposa do prefeito meigas; primo e prefeito personalidades fortes, porém serenas. Num. de cenas: 9 Ambiente: 3 ambientes [estilo oriente médio]: uma sala de visitas; uma sala com livros [biblioteca]; um quarto.

Referências Bibliográficas 1 Bahá’u’lláh. As Palavras Ocultas. Do persa. No 4. 2 O Báb. Orações Bahá’ís, no 7, desprendimento. 11ª ed. 2004. 3 Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh. Seção LXVIII. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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CENA 1: INFÂNCIA DE TÁHIRIH* (Música ao fundo. Táhirih está sentada na lateral do palco) NARRADOR “Ó Filho da Justiça! Aonde pode ir o apaixonado senão à terra de sua bem-amada? E aquele que procura, poderá ele ficar tranqüilo longe do desejo de seu coração? Para quem ama verdadeiramente, a união é vida e a separação morte. Vazio de paciência está seu peito; privado de paz, seu coração. A miríades de vidas ele renunciaria a fim de se apressar para onde se encontra a bemamada.”1 Século XIX. As profecias indicavam que este seria um século abençoado. O século que presenciaria o aparecimento do Prometido anunciado nos Livros Sagrados de todas as religiões. Na Pérsia, muitos sábios e estudiosos tinham certeza de que estavam na Terra do Prometido. Foi neste país que no ano de 1817, em uma família de nobre linhagem e grande reputação, nasceu uma menina cuja vida e heroísmo, elevariam-na ao pináculo da fama, sendo imortalizada como Táhirih, A Pura. Desde a mais tenra infância atraía para si a atenção de todos, por sua inteligência. Ao invés de dedicar-se a jogos e entretenimentos, como suas amigas, dedicava horas inteiras à leitura. Era considerada pelos amigos e familiares e até mesmo pelos sacerdotes, um verdadeiro prodígio. Prodígio não só devido a sua inteligência, como também, a sua beleza, já que ao crescer tinha se transformado numa jovem em cujo rosto resplandecia uma beleza radiante. Quando nasceu deram-lhe os nomes de Umm-Salmá, porém nunca a chamavam por esse nome. Chamavam-na sim por Zarín-Táj, que significa “Aquela coroada com ouro”. * Pronuncia-se Tárrerê.

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(Táhirih sentada no palco, levanta, anda um pouco e diz com nobreza) TÁHIRIH Minha vida foi muito abençoada por Deus.(Pai entra, pega o Alcorão e caminha, lendo, até sentar-se) Passei a maior parte de minha infância ouvindo os meus pais e familiares falarem sobre Deus, e desta forma foram me ensinando muitos assuntos espirituais. Entretanto, apesar de serem tão religiosos, pouco sabiam do verdadeiro significado espiritual. (Fala em frente ao pai) Meu pai era um sacerdote de grande renome, muito versado nas tradições da lei muçulmana. Era muito respeitado e dava aulas sobre as doutrinas do Islã e as profecias do Profeta Muhammad. Em suas classes de religião haviam centenas de homens, mas nenhuma mulher. (Voz mais alta e serena) Mulheres eram tratadas como inferiores. Os homens achavam que as mulheres só serviam para cuidar da casa e ter filhos. E também só podiam aparecer em público usando véu. Papai, deu-me permissão para ouvir suas aulas, porém eu deveria sentar-me atrás de uma cortina e permanecer escondida. Nenhum dos homens poderia saber que eu estava presente. Apesar disso, eu estava muito feliz por poder ouvir as aulas de meu pai. Às vezes, eu não conseguia ficar completamente quieta, então, um dia acabei ficando tão agitada por uma explicação errada de meu pai, que sem pensar, de trás da cortina disse que ele estava enganado no que acabara de dizer. Meu pai ficou muito surpreso e bravo, mas para sua maior surpresa, eu provei que ele estava errado, e assim todos acabaram percebendo que eu escondia-me atrás da cortina há muito tempo. (Luz se apaga e Táhirih sai de cena. Acende a luz no pai) PAI Sou Hájí Mullá Sálih, o pai de Zarín-Táj. Minha filha desde criança sempre foi muito especial. A sua inteligência aguçada despertava a admiração de todos. Sabia tudo sobre as tradições islâmicas e até os melhores sacerdotes e o clero ficavam boquiabertos com sua inteligência. Quando aparecia uma dúvida na família, fosse esta sobre qualquer assunto, ela sabia responder perfeitamente. Ela também tinha o dom de escrever belas poesias. Possuía um temperamento ardente e uma coragem indomável. (Triste) Pena que ela era uma menina.

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Ó, se fosse um menino seria motivo de orgulho para a família; seria meu sucessor. Era realmente uma pena. (Apaga-se a luz lentamente enquanto personagem sai)

CENA 2: BUSCANDO A VERDADE (Acende-se a luz e Táhirih entra) TÁHIRIH Ah, lembro-me exatamente do dia em que fui visitar um de meus primos e descobri alguns livros em sua biblioteca que muito me interessaram. Eles haviam sido escritos por devotados pesquisadores do Islã: Shaikh Ahmad e seu sucessor, Siyyid Kázim. (Mullá Javád chega e vê Táhirih mexendo em seus livros) MULLÁ JAVÁD –– (Surpreso) Prima! TÁHIRIH –– Oh, primo, como vai? MULLÁ JAVÁD –– Estou bem, minha querida. Que surpresa ver você por aqui! TÁHIRIH –– Desculpe-me, por estar mexendo em seus livros. Encontrei estes e li algumas páginas; (Interessada) neles percebi que Shaikh Ahmad é um grande estudioso e fala sobre a vinda do Prometido que todas as religiões estão esperando para esta época. Poderia emprestá-los à mim? MULLÁ JAVÁD –– Minha querida prima (Preocupado), seu pai não gostaria nem um pouco que você lesse estes livros porque eles foram escritos por pensadores modernos. Eles vão contra os pensamentos de seu pai e de seu tio, que é seu sogro. Se ficarem sabendo que você os está lendo, primeiro vão me matar e depois castigarão você. Eu realmente temo as conseqüências!

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TÁHIRIH –– Não, não tenha medo! Por favor, é muito importante para mim. Há muito tempo que eu estou buscando informações sobre o Prometido de Deus que aparecerá. Gostaria de pesquisar mais a respeito. Por favor, empreste-me os livros. MULLÁ JAVÁD –– (Triste) Querida prima, devo adverti-la, mais uma vez, que estes livros não concordam com os pensamentos de seu pai... TÁHIRIH –– (Firme) Eu sei, me interessei por eles exatamente por isso. Também não concordo com muitos dos pensamentos dele. (Mullá Javád dá alguns livros na mão Táhirih) TÁHIRIH –– Oh, obrigada primo. Prometo cuidar muito bem de seus livros. (Táhirih sai de cena entusiasmada e abraçada aos livros) MULLÁ JAVÁD –– Ó Deus, Ajudai-nos... (Balança a cabeça desaprovando a atitude de Táhirih. Sai de cena.)

CENA 3: A CAMINHO DE KARBILÁ TÁHIRIH Em um destes livros, eu li que o Profeta de Deus anunciado nas Escrituras Sagradas em breve apareceria, cumprindo as profecias de todas as religiões. E que Seu advento estava próximo, muito próximo! Os livros eram tão lógicos e convincentes que eu ansiava poder encontrar estes professores (Suspira), mas logo soube que Shaikh Ahmad havia falecido há pouco tempo e Siyyid Kázim vivia muito longe, em uma cidade do Iraque, chamada Karbilá. Karbilá é uma das cidades sagradas do Islã e todos os anos muitas pessoas vão até lá com o objetivo de visitar os Santuários. Eu sempre quis visitar os Santuários Islâmicos, porém não é permitido que uma mulher viaje JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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sozinha. Foi então que um dia tive a idéia de chamar minha irmã. (Chama a irmã, com empolgação) –– Marzieh! Marzieh! (Marzieh entra em cena) MARZIEH –– (Assustada) O que aconteceu, Zarín? TÁHIRIH –– (Empolgada) Marzieh, quero pedir-lhe uma coisa. MARZIEH –– O quê? TÁHIRIH –– Eu estive pensando em visitar Karbilá. Mas, tenho certeza que papai não vai deixar-me ir sozinha. MARZIEH –– É evidente que não, Zarín. Você está sonhando? TÁHIRIH –– Não. Não estou sonhando. Só tive uma idéia fantástica e quero que você me ajude. MARZIEH –– Por acaso, essa idéia não é fazer-me ir para Karbilá junto com você, é? TÁHIRIH –– É isso mesmo. Marzieh, por favor... MARZIEH –– (Interrompe) Minha irmã, pela lei muçulmana não é permitida à mulher viajar sozinha. Mas, não acredito que papai deixe que nós, duas mulheres, façamos esta viagem juntas. TÁHIRIH –– Eu sei. Mesmo assim, vou tentar falar com ele. Quem sabe dá-nos permissão? Principalmente porque estamos indo juntas. Eu não viajarei sozinha. MARZIEH –– Talvez você tenha razão. (Afasta um pouco, levanta os braços e virando a cabeça em direção de Táhirih diz) Que Deus nos ajude, Zarín. Que Deus nos que ajude! Mas, e seu marido? O que você vai dizer a ele? (O marido de Táhirih entra em cena furioso) MARIDO –– Zarín, o que é que a senhora está pensando? SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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MARZIEH –– Com licença. (Constrangida, sai de cena) MARIDO –– Eu, como seu marido e pai de teus três filhos, pergunto que caminho é este que está escolhendo para si mesma? TÁHIRIH –– De que caminho o senhor, meu marido, está falando? MARIDO –– O caminho dos pesquisadores da volta do Prometido de Deus. A senhora parece não perceber que a única coisa que eles fazem é enganar o povo. TÁHIRIH –– Ah, sim? E como o senhor chegou a esta conclusão? (Corajosa) MARIDO –– (Furioso) Está me perguntando como eu percebi? A senhora se esquece de que sou filho de um sacerdote muito famoso e ninguém pode se igualar a ele em conhecimento? E que, além disso, eu mesmo sou um profundo conhecedor deste assunto? TÁHIRIH –– Desculpe-me, por dizer isto ao senhor e ao senhor seu pai, que possuem tanto conhecimento. (Respira fundo e diz corajosa) Será que em todos estes dias, os senhores realmente têm ido a mesquita falar ao povo, guiando-os e alertando-os sobre a volta do Prometido, conforme as escrituras anunciam? Penso que deveriam pesquisar sobre estes sábios estudiosos e ler seus argumentos. Assim, compreenderiam a época que estamos vivendo. MARIDO –– Chega! Chega! (Gritando) A senhora nunca deve falar sobre estes assuntos. Sua obrigação é ficar em casa e cuidar dos filhos. (Sai de cena) TÁHIRIH –– (Para o público) Tenho feito isso senhor. Já lhe dei três filhos, e peço a Deus que os proteja. Mas, não posso permitir que nada se interponha entre mim e Deus. Não posso fechar os olhos para as evidências que anunciam o cumprimento da vontade divina. Sinto que, a partir de hoje, devo escolher outro caminho. (Pega as suas coisas e sai)

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CENA 4: A 17.ª LETRA DO VIVENTE (Hájí Mullá Sálih está sentado e Marzieh em pé perto dele. Táhirih entra, cabisbaixa) PAI –– O que aconteceu, minha filha? (Levanta-se surpreendido) TÁHIRIH –– Deixei minha família. PAI –– Deixastes teu marido e teus filhos... E por que ? Foi por causa desta bobagem sobre a vinda do Prometido, não foi? (Irritado) Zarín, você envergonha nossa família. Tenho trabalhado a vida toda e alcancei uma posição respeitada nessa cidade. (Suspira) Minha filha, eu te dei a oportunidade de estudar, de adquirir sabedoria. Como podes agir assim? Que bobagem é está agora? Como podes acreditar nesta bobagem sobre a vinda do Prometido de Deus e deixar sua família para trás? TÁHIRIH –– As Escrituras Sagradas afirmam, meu pai. O Prometido irá se declarar em breve, e por isso, devemos... PAI –– Cale-se! (Interrompendo) Feche esta boca e não fale bobagem. (Senta-se) (Táhirih vai até ele, ajoelha-se e coloca as mãos carinhosamente sobre seus joelhos) TÁHIRIH –– Meu pai, (com delicadeza) o senhor se lembra de quando eu era pequena e assistia às suas aulas? O senhor costumava me dar um conselho: “Minha filha, dentro do Alcorão há muitos mistérios ocultos, ouça com o seu ouvido interior. Ouça com o seu ouvido interior.” Nunca me esqueço deste teu conselho. (Com convicção) Siyyid Kázim está falando a verdade, pois é um estudioso das escrituras. É por isso que devemos abrir nossos olhos e ouvidos interiores, meu pai! Muitas outras pessoas também acreditam que o aparecimento deste Ser Sagrado está próximo. (Bravo, empurra as mãos de Táhirih, levanta-se e fica de costas para ela)

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PAI –– Não quero ouvir mais nada! Tudo isso que vocês acreditam é contra o Alcorão. (Táhirih vai atrás dele) TÁHIRIH –– (Firme) Isto que o senhor está falando não é motivado pela fé, mas pelo seu próprio ego. Meu pai (Meiga), o senhor é tão sábio! Se buscar enxergar as evidências do cumprimento das profecias estará seguindo a fé muçulmana, acredite! Se fizer o contrário estará prejudicando a si mesmo. Ó, querido pai, a chegada do Prometido está próxima, não devemos deixar que os véus do preconceito nos impeçam de reconhecê-Lo. Devemos tirar estes véus. (O pai com calma, vira-se para ela) PAI –– O que queres que eu faça? TÁHIRIH –– Quero ir para Karbilá, quero pesquisar a verdade. (Respira fundo) Quero que meu pai esteja desprendido das riquezas mundanas, da sua atual posição e venha comigo. PAI –– Zarín... (Hesitante) Não, eu não vou fazer isso. (Firme) Faça o que você achar melhor. Eu não vou deixar que te prejudiquem. (Marzieh vem até o pai) MARZIEH –– Meu pai, se o senhor permitir, irei com Zarín-Táj à Karbilá. PAI –– (Surpreso) O quê? Viajarem juntas para Karbilá? MARZIEH –– Sim, o senhor permite? (Pai caminha de um lado para o outro refletindo, balançando a cabeça) PAI –– Não sei o que dizer. (Pensativo) Está bem, eu permito. Quem sabe ao ver os Santuários Islâmicos, tu (Aponta para Táhirih) mudes de idéia e te tornes novamente uma verdadeira muçulmana. (Pai sai e Marzieh fica em cena, na penumbra) JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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TÁHIRIH “Ó meu Deus, meu Senhor e meu Mestre! Desliguei-me de meus parentes e procurei, através de Ti, tornar-me independente de todos os que habitam na terra e, sempre pronto para receber o que a Teus olhos for louvável. Confere-me um bem que me torne independente de tudo, menos de Ti, e concede-me um quinhão mais amplo de Teus ilimitados favores. Em verdade és Tu o Senhor de graça abundante.”2 (A luz abre e Táhirih volta-se radiante para Marzieh) TÁHIRIH –– Marzieh, vamos arrumar nossas coisas! (Entra música para a viagem, coreografia. Táhirih e sua irmã vão chegando no palco, com as mãos dadas, e caminhando para junto da luz no palco, narrando a viagem. Durante a narração de Táhirih, Marzieh pega as trouxas e sai de cena) TÁHIRIH Viajei com Marzieh para Karbilá em 1843. Naquela época eu tinha 26 anos. Estava muito ansiosa para encontra-me com Siyyid Kázim, pois já tínhamos nos correspondido e cada vez mais eu tinha certeza que ele poderia ajudarme a reconhecer o Prometido. (Triste) Porém, chegando lá, tive uma grande decepção: Siyyid Kázim havia falecido há apenas 10 dias. Mas sua família convidou-me para ficar com eles. Sua esposa contou-me que ele havia pedido para eu não desistir de minha busca e que eu certamente encontraria o Prometido. Durante 3 anos ficamos em Karbilá. A cada dia aumentava meu anseio pela manifestação do Prometido. Uma noite, após um período de jejum e meditação, tive um sonho. Sonhei com um Jovem que era descendente do Profeta Muhammad. Este Jovem aparecia em meu sonho pairando no ar, repetindo certas palavras e orações. Quando acordei, recordei-me de algumas daquelas palavras e decidi escrevê-las. Poucos dias depois soube que o marido de minha irmã, de repente, deixara sua cidade natal e saíra em busca do Prometido. Mandei-lhe então uma carta lacrada para que fosse entregue ao Prometido quando ele O encontrasse. Disse-lhe: “Certamente você irá encontrá-Lo em sua jornada.”

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O meu cunhado se dirigiu então para Shíráz. Naquela cidade, ele e mais 15 pessoas já haviam reconhecido um Jovem meigo com os sinais e evidências dAquele que seria o Prometido tão ansiosamente aguardado. Ele era chamado de O Báb, que significa: A Porta. Esses primeiros 15 discípulos do Báb foram denominados: Letras do Vivente. O meu cunhado foi a 16.ª Letra. Nesta mesma ocasião, ele entregou minha mensagem ao Báb. (Emocionada) Oh, que bênção! Que privilégio! Quando o Báb leu minha carta, imediatamente declarou-me como a 17º Letra do Vivente e assim tornei-me a única Letra do Vivente que jamais esteve na presença dEle. O Báb enviou-me alguns dos Seus Escritos em árabe e, para minha surpresa, quando os li, eram exatamente as mesmas palavras que eu tinha ouvido em sonho. (Neste momento, duas pessoas entram e permanecem em um canto conversando) Tive então, certeza de que O Báb era o mesmo Jovem que eu tinha visto em sonho, o tão ansiado Prometido.

CENA 5: ANOS EM KARBILÁ (Táhirih se dirige para as pessoas e começa a conversar com elas. A irmã entra pelo fundo do palco e começa a narrar, apontando para Táhirih) MARZIEH Logo, todos em Karbilá souberam que Táhirih se tornou bábí, pois ela ensinava abertamente sua Fé na própria cidade sagrada do Islã. (As duas pessoas saem e Táhirih caminha devagar no palco. Nesse momento, entram duas pessoas vestidas de negro e olham para Táhirih com repúdio e saem dando as costas para ela) Ah, lembro-me do aniversário do martírio de Imame Hussain, um dia muito sagrado para os muçulmanos. Ela pediu a mim e aos outros parentes que não usássemos roupas negras, como é tradição naquele dia, mas que usássemos roupas com cores bem vivas e brilhantes. Sabem por que? Porque aquele dia também era o dia do nascimento do Báb, e por isso era um dia de muita alegria e felicidade. (Pausa. Táhirih sai cabisbaixa) Quando os sacerdotes souberam disso, JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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reportaram suas ações ao governo e exigiram que ela fosse encontrada e punida. Os funcionários que a estavam procurando, prenderam, por engano, outra mulher. Quando ela soube disso, escreveu ao governador dizendo que haviam prendido a mulher errada. Imediatamente, ele mandou prendê-la e por 3 meses Táhirih ficou enclausurada na casa do governador. Naqueles dias não era permitido que alguém a visse. Ninguém podia visitá-la, nem ela podia sair. Foi justamente nestes dias que ela soube que O Báb havia convocado uma Conferência dos líderes bábís, na província de Khurasán, no Irã. (Com voz alta) Mas sendo prisioneira na casa do governador, como ela poderia estar presente? Entretanto, acreditava que nada a poderia impedi-la de ir a esta Conferência e assim, escreveu ao governador dizendo que gostaria de mudar de Karbilá para Bagdá. Os sacerdotes tentaram impedir a sua saída. Eles ainda queriam que ela fosse publicamente castigada. Mas, por fim, o governador permitiu a sua saída. Quando estávamos saindo da cidade por várias vezes fomos apedrejadas pelas pessoas. Chegando em Bagdá, meu pai soube dos acontecimentos e pediu aos nossos irmãos que nos encontrassem e nos levassem de volta para casa.

CENA 6: O REENCONTRO COM A FAMÍLIA (Táhirih entra em cena. Narrando, encontra-se com Marzieh e caminham em direção à família, que já está no palco) TÁHIRIH Saímos de Bagdá acompanhadas de alguns bábís. Atravessamos diversas cidades, onde encontramos muito respeito e cortesia. Quando cheguei encontrei reunidos: meu tio, que era meu sogro, e o meu marido. (com grande alegria vai até eles e diz) –– Vocês sabiam que O Prometido, O Báb já chegou? Minha maior alegria é poder divulgar os Seus ensinamentos.” SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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PAI –– (Indignado) Pensei que quando vocês voltassem dos Santuários Sagrados, iriam esquecer de tudo isso. Não estou nada satisfeito! Você, com tanta sabedoria e inteligência está acreditando em um Jovem de Shíráz? Se você tivesse nascido um homem, em vez de mulher, e se dissesse que era o Prometido, eu acreditaria. TIO –– (Levanta e com raiva fala) Por que você está falando isso? Por que acredita nessas bobagens? Por que não ouve seu pai, seu marido, sua família? O Báb é uma farsa! Um herege! Volte para sua casa, para seu marido e seus filhos. TÁHIRIH –– Se meu esposo desejasse e realmente quisesse ser um fiel companheiro para mim, teria se apressado em encontrar-me em Karbilá e ele mesmo teria guiado a pé, meu howdah por todo o caminho até Qazvín, e eu o teria acordado de seu sono e indiferença e mostrado-lhe o caminho da Verdade. Não voltarei para casa! Já se passaram três anos, desde nossa separação! Não temos nada em comum! (Corajosa) E por rejeitarem a religião de Deus, são todos impuros! (O tio dá um empurrão em Táhirih e ela cai. Sai muito bravo, seguido pelo pai e a irmã de Táhirih. A luz se fecha, Táhirih levanta-se devagar e fala com tristeza) TÁHIRIH –– No dia seguinte à briga numa sexta-feira, o feriado dos muçulmanos, meu tio foi assassinado em uma mesquita. Apesar de todos saberem que o assassino não era um seguidor do Báb, eu fui acusada. E o meu esposo ficou ainda mais furioso comigo. Com muito ódio, juntamente com o clero, pediu ao xá que eu e outros seguidores do Báb recebêssemos uma dura punição. (Pausa) Eu recebi ordens para não sair do quarto e foram colocadas algumas mulheres para me vigiar. Muitos outros bábís foram presos e como não conseguiram achar o verdadeiro assassino, declararam um de nós como culpado e o mataram. Ainda assim, meu marido não sossegou. O ódio transbordava e ele insistentemente pedia ao governador mais e mais punição. Assim, o governador deu ordens ao executor para trazer ferro quente para nos marcar. Para nos aterrorizar, colocaram as mãos de minha criada na minha frente pretendendo marcá-las. Primeiro marcariam minha querida criada e depois a mim. (Fala com convicção e firmeza) Mas, eu tinha certeza que eles não JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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conseguiriam fazer isso. Meu único refúgio era O Todo-Poderoso. Descobri o meu rosto e virei-me em direção a prisão do Báb, em Máh-Kú e comecei a orar. Os ferros em brasa foram trazidos a frente e as mãos de Káfiyih foram preparadas para serem queimadas. De repente, a voz de um pregoeiro foi ouvida do lado de fora da rua: (Uma pessoa entra gritando e sai logo) “O assassino foi achado. O assassino foi achado.” Assim, eu e minha querida criada fomos libertadas e fui levada até a casa de meu pai. (pausa) Mas meu esposo continuou a me odiar e me maltratar, tentando até envenenarme. (Táhirih em cena, congelada. Música)

CENA 7: CONFERÊNCIA DE BADASHT NARRADOR Táhirih continuou ensinando, onde quer que fosse e onde pudesse. De novo, o clero e o povo daquela cidade ficou contra ela, dizendo que deveria ser morta o mais rápido possível, pois não deveria sair viva de Qazvín. E, mais do que nunca, ela era vigiada. (Pausa) Porém, em uma noite, calmamente conseguiu escapar com alguns amigos para Teerã. Foi em Teerã que ela esteve na presença de Bahá’u’lláh e prontamente reconheceu a futura Glória de Deus, predita pelo Báb. Alguns dias após a chegada de Táhirih, Bahá’u’lláh decidiu enviá-la à Conferência de Badásht. A Conferência foi muito esperada pois havia sido convocada pelo próprio Báb, e Bahá’u’lláh deveria seguir para lá poucos dias depois. O propósito desta reunião era duplo, primeiro: identificar quais eram as medidas a serem adotadas para que a Fé do Báb não fosse vista como uma seita do Islã e sim como uma Fé independente com seu próprio Profeta e Escrituras; e segundo: se haveria alguma forma de livrar O Báb da cruel prisão de Chihriq. Quanto ao primeiro objetivo, a Conferência foi um sucesso, mas falhou no segundo, pois O Báb não foi libertado da prisão. (Fazer cena com pessoas) SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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Bahá’u’lláh chamou um de Seus irmãos e deu-lhe instruções sobre a viagem de Zarín-Táj. A Conferência aconteceu na província de Khurasán, no pequeno vilarejo de Badásht. Era um lugar de veraneio cheio de jardins. Quando a Abençoada Beleza, Bahá’u’lláh chegou em Badásht, Ele alugou três jardins. No meio dos três jardins havia uma parte aberta, como se fosse um pátio, onde os amigos podiam conversar livremente. O Báb não pôde ir porque estava na prisão. Entretanto aquelas 81 almas que se reuniram em Badásht, tiveram o privilégio em participar daquela Conferência. Todos os dias, Bahá’u’lláh revelava uma nova Epístola ou explanação, que era entoada para todos por um dos bábís. Nestas Epístolas, Ele deu a cada um, um novo nome para o Novo Dia. Ele próprio aceitou o nome de Bahá, o qual o Báb já lhe havia concedido. E para Zarín-Táj deu o título de “Táhirih” que significa “A Mais Pura”. Táhirih era a única mulher presente e participante das consultas. Isso deixava muitos homens intrigados, mesmo estando ela, escondida atrás de uma cortina. Porém, o preconceito dominava. Certo dia um homem perguntou à ela, como uma mulher podia participar das consultas com os homens. Ela respondeu: TÁHIRIH Nossas conversas são sobre Deus, religião, aspectos espirituais e sobretudo, acerca de nossas vidas no Caminho da Verdade. Um dia, Bahá’u’lláh ficou doente e não saiu da Sua tenda. Sem dúvida, havia uma sabedoria nisso. Todos os crentes, a não ser eu, porque era mulher, foram visitar Bahá’u’lláh. Enquanto todos se reuniam em volta dEle, eu mandei uma mensagem para Qúddus para que fosse me encontrar no jardim. Qúddus recusou-se a ir, mas (pausa) eu fui vê-lo. (Táhirih aproxima-se do grupo) Ao entrar no jardim onde todos os homens estavam, tirei o véu. (Tira o véu) Com a maior calma, andei em frente e fiquei ao lado de Qúddus. Todos ficaram com medo, com raiva e confusos. (Algumas pessoas saem indignadas da cena) Muitos ficaram sem palavras perante mim. Eu tinha um sentimento de muita alegria e não ligando para o medo e a raiva de meus companheiros, disse-lhes: “Este é um dia para sermos felizes. Este é o Dia em que se deve esquecer tudo do passado. Que todos nós que compartilhamos desta grande ocasião, levantemo-nos e abracemonos. Este é um Dia de festas e de júbilo universais. O Dia em que algemas do passado foram despedaçadas.” JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Após este acontecimento, por vários dias Qúddus não conversou comigo. (As pessoas vão se levantando e saindo em grupos, aos poucos) Mas depois de alguns dias, Bahá’u’lláh, com Seu jeito maravilhoso, aproximounos e, juntos, começamos a servir a Causa de forma muito construtiva. Os seguidores do Báb começaram a dirigir-se para todas as direções. Cada um levou para a sua própria região as estimulantes notícias dos acontecimentos em Badásht. (Táhirih vai caminhando para frente do palco e a luz fecha-se nela)

CENA 8: PRISÃO DOMICILIAR EM TEERÃ TÁHIRIH Por ordem do rei, fui levada até Teerã e fiquei presa na casa do prefeito. No começo, eu fiquei em um pequeno quarto, o qual não tinha degraus. Toda vez que eu queria sair ou entrar colocavam uma escada. Mas, de qualquer forma, eu estava muito feliz pois tinha meu Amado dentro do meu coração. (Neste intervalo batem na porta e entra o prefeito com a esposa que está usando um chador. Táhirih logo põe o chador. Abre a luz no novo cenário) PREFEITO –– Muito bem, por enquanto a senhora está na minha casa, presa neste quarto. Peço a senhora que obedeça as leis que o rei estabeleceu. A senhora não tem direito de visitar ninguém a não ser a minha esposa Khaton, a qual estará sempre com a senhora. Minha casa é vigiada por soldados por todos os lados, portanto não pense que poderá fugir. TÁHIRIH –– E por que eu desejaria fugir, senhor prefeito? PREFEITO –– Não sei. De qualquer forma eu voltarei mais vezes e caso haja alguma ordem do rei lhe informarei. (Prefeito sai, Táhirih tira chador e vai perto de Khaton) TÁHIRIH –– Muito bem, minha carcereira, o que desejas e o que devo fazer? SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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KHATON –– Minha querida senhora, o que posso dizer para estes seus olhos que tanto brilham cheios de fé. Enquanto conversava com Mahmud, meu marido, notei que és diferente dos outros. Por favor, diga o que eu posso fazer pela senhora...(Receosa) Por outro lado, se eu não cumprir as ordens de meu marido ele é capaz de me matar. Mas não desejo fazer-lhe mal algum. (Com súplica) Por favor, diga o que eu posso fazer? TÁHIRIH –– A senhora não deve fazer nada a não ser aquilo que seu marido mandou. Devemos ter certeza que Deus está conosco e que vai acontecer a vontade de Deus, portanto obedeça ao seu marido. KHATON –– Estranho, muito estranho. Quando o meu marido disse que conforme a ordem do xá, você ficaria como prisioneira na nossa casa, ele me disse: “Khaton, escute bem o que estou falando. Táhirih é uma pessoa muito perigosa. Ela quer fazer a maior confusão neste país.” Ele me pediu para vigiá-la o tempo todo para que não fugisse. Mas quando a vi pensei, como pode uma mulher tão amável e cheia de fé ser perigosa para o nosso país? TÁHIRIH –– Khaton, querida... peço a Deus que te guie e te ajude a acreditar na vinda do Prometido. (De repente a voz do prefeito vem de trás da porta) PREFEITO –– Posso entrar? (Táhirih logo levanta e põe chador na cabeça) TÁHIRIH –– Sim, senhor prefeito, pode entrar. PREFEITO –– Eu trouxe uma boa notícia. KHATON –– Que notícia? PREFEITO –– Estou voltando da presença do xá e ele ordenou sua liberdade. A senhora está livre! TÁHIRIH –– Eu sei o motivo pelo qual o rei libertou-me.

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PREFEITO –– Não, a senhora não sabe. Eu trouxe-lhe uma carta do rei. (Abre a carta e começa a ler) “Estimada senhora Táhirih, Eu, como rei da Pérsia, durante várias ocasiões, ouvi falar da sua sabedoria e inteligência e gostaria de dizer-lhe que estou apaixonado pela senhora. Porém, sei que a senhora diz que acredita no Báb. Assim, se disser que não é mais bábí e sim uma verdadeira muçulmana, eu lhe darei uma posição muita elevada: a escolho como a rainha da Pérsia. Logo após a sua resposta, a receberei em minha presença. Ass. Naseredin Sháh Ghojar” (Pausa, depois olhando para Táhirih) A senhora permite que eu seja a primeira pessoa a parabenizá-la por este privilégio? O ministro disse que a primeira providência que devo tomar depois da resposta positiva da senhora, será levá-la para dois sacerdotes muçulmanos. Eles vão perguntar se a senhora é bábí ou não. É muito simples, é só dizer que não e eles não farão mais pergunta nenhuma. TÁHIRIH –– De jeito nenhum. Eu nunca negarei minha fé. PREFEITO –– Não é exatamente negar a sua fé, eles sabem que no fundo do coração a senhora é bábí, mas na presença deles é só dizer uma palavra: não. É assim, tão simples minha senhora! TÁHIRIH –– Não, nem por um segundo negarei minha fé por causa desta vida mundana, que não tem nenhum valor, nem significado. PREFEITO –– É esta a sua resposta ao rei? Sua palavra final? TÁHIRIH –– Sim. É minha palavra final. PREFEITO –– Muito bem, eu vou embora, mas ainda vou esperar. (Vira para a sua esposa) Espero que você, Khaton, consiga convencê-la. Quem sabe ela toma juízo. (Sai)

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CENA 9: O MARTÍRIO DE TÁHIRIH (Khaton vai ao encontro de Táhirih e fala com muito amor) KHATON –– Minha querida irmã, pense bem no privilégio que a senhora vai ter. É só dizer uma palavra, não, e a senhora vai ser a rainha da Pérsia. TÁHIRIH –– Muitas pessoas tomaram com muita alegria e regozijo a taça do martírio. Eu não quero ser menor que elas. Se eu negar esta religião, estarei negando todas as religiões anteriores, como a de Jesus Cristo, de Moisés e do Profeta Muhammad que também profetizou a vinda do Prometido de Deus, cabendo a nós pesquisar a verdade. Querida irmã, você acha que ser rainha é grande honra? Por favor, não se deixe iludir por estas coisas materiais, esta coroa e este trono não tem nenhum valor verdadeiro. (Pausa) Pense na vida de Jesus Cristo, quando Ele disse: “Eu sou o Rei dos Reis”. Os fanáticos riram dEle e por fim O crucificaram. Mas hoje está claro que ele é o Rei dos Reis. KHATON –– Táhirih, querida Táhirih, você é muito mais que uma rainha. TÁHIRIH –– Deixe que eu beije o seu rosto. (Abraçam-se e beijam-se) TÁHIRIH –– Estou me preparando para encontrar-me com meu Bem-Amado e desejo livrar-me das coisas deste mundo. (Khaton começa a chorar e soluçar) KHATON –– Por favor, Táhirih, não fale isso. Eu não posso me separar de ti. TÁHIRIH –– Não chores. Aproxima-se a hora em que serei levada e condenada (Tira um lenço branco de seda e diz) e desejo compartilhar contigo meus últimos desejos. (Serena) É meu desejo ser estrangulada com este lenço, o qual guardei com este objetivo. E meu último pedido a ti é que não deixes

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que ninguém entre no meu quarto até a hora em que eu for chamada para deixar esta casa. Desejo jejuar, um jejum que não será rompido até que eu me encontre face a face com meu Bem-Amado. (Pausa) Por favor, vá e feche a porta. (Khaton fica num canto do palco e Táhirih no outro. A luz se fecha em Táhirih e ela faz uma oração.) TÁHIRIH “Ó Deus, meu Deus! Confiaste às minhas mãos uma incumbência de Ti e agora, segundo o beneplácito de Tua Vontade, a chamaste para regressar a Ti... Tua serva, ó meu Senhor, fixou suas esperanças em Tua graça e generosidade. Permita que ela obtenha o que a faça aproximar-se de Ti e a beneficie em cada um de Teus mundos. Tu és Quem perdoa, o TodoGeneroso. Não há outro Deus, salvo Tu, Quem a tudo ordenas, o Ancião dos Dias.”3 (A luz permanece em Táhirih e outra se abre em Khaton) KHATON Táhirih orou a noite toda para que pudesse ser digna de encontrar-se com Deus, o Todo-Poderoso. Quatro horas após o pôr-do-sol ouvi baterem na porta. Corri até meu filho e contei-lhe a última vontade de Táhirih. Ele foi abrir a porta e voltou dizendo que os guardas do governo estavam ali para levar Táhirih. (Pausa) Fiquei aterrorizada. Caminhei até o seu quarto (Vai até Táhirih) e, com as mãos trêmulas, abri a porta. Logo que me viu, Táhirih aproximou-se e beijou-me. (Táhirih beija a testa de Khaton e entrega-lhe uma caixa. A luz abre no cenário novamente) TÁHIRIH –– Deixo-lhe isto como uma lembrança minha. Quando abrir este baú e segurar as coisas que nele contém, espero que se lembre de mim e se regozije na minha alegria. (Emocionada) Adeus, minha querida irmã. (Assim, Táhirih sai e Khaton, com cabeça baixa e triste, fica em um canto do palco) NARRADOR Levaram Táhirih para um jardim fora dos portões da cidade de Teerã. O chefe e seus tenentes estavam no meio de uma bebedeira e tinham esquecido SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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completamente da execução de Táhirih. Táhirih pediu ao filho do prefeito que, como um amigo, a acompanhasse. “Eles deverão me estrangular. E há muito tempo separei um lenço branco de seda para que fosse usado com esse propósito. Entrego-o em suas mãos. Não desejo dirigir nenhuma palavra aos meus assassinos.” O filho do prefeito conseguiu que os carrascos aceitassem o pedido de Táhirih, utilizando aquele lenço ao redor do seu pescoço como instrumento de seu martírio. Contam que suas últimas palavras foram: (Voz-off) TÁHIRIH –– Podereis matar-me assim que quiserdes, mas não podeis estagnar a emancipação da mulher! KHATON Meu filho voltou contando o que tinha acontecido. Chorei lágrimas amargas, quando ele relatou a trágica história. Enquanto segurava a caixa que ela tinha me dado, fiquei pensando como uma grande mulher poderia abandonar por sua fé, todas as riquezas e honras com a qual tinha sido cercada. Qual teria sido o segredo daquele poder que a arrebatou do lar e da família? NARRADOR Táhirih foi fiel à Fé do Báb desde o momento em que a aceitou até a hora de seu martírio, e nem por um momento, deixou vacilar sua firme crença. Táhirih estava em toda a sua plenitude e poder quando foi martirizada. Tinha 36 anos. Siyyid Kázim chamou-a de “Qurratu’l-Ayn”, que significa “Consolo dos Olhos”. Outros chamaram-na de Zarín-Táj, “A coroa de ouro”. Mas o nome pelo qual permanecerá através dos séculos nos corações de todos os povos é Táhirih, “A Pura”. (Música. A luz vai baixando lentamente. Cai o pano)

(Fim)

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Peça Teatral: WILLIAM SEARS

Drama em 1 ato. A cena passa-se em nos EUA. Dos anos 1920 a 1950. Personagens: ENFERMEIRA SR. SEARS, pai de William; SRA. SEARS, mãe de William; AVÔ DE WILLIAM; WILLIAM SEARS CRIANÇA; WILLIAM SEARS ADULTO; AMIGO DE WILLIAM; MOÇA, amiga de Marguerite; MARGUERITE, esposa de Willian. SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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WILLIAM SEARS

Drama em 1 ato

DADOS DA PEÇA TEATRAL Autor: Título: Publicação: Descrição física: Assunto: Gênero: Resumo: Personagens: Num. de cenas: Ambiente:

Shoghieh Shaikhzadeh, 1933WILLIAM SEARS [2006] 16 pp. Teatro Bahá’í Drama Vida da Mão da Causa de Deus: WILLIAM SEARS. Baseada na sua autobiografia: A Graça de Deus. 9 2 Em cena há uma poltrona, mesinha com livros. Outra cena é uma porta de apartamento.

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Drama em 1 ato

CENA 1 (Música baixa. Em cena há uma poltrona e o sr. Sears está sentado lendo um livro. Depois de um tempo levanta, preocupado anda um pouco e olha no relógio) SR. SEARS –– Será que meu filho já nasceu? Ah, como estou ansioso!Vou ler mais um pouco para ver se o tempo passa. (Começa a ler e depois de algum tempo batem à porta. Entra uma enfermeira com um embrulho em um xale, com alegria vai até o sr. Sears. Com alegria, ele se levanta) ENFERMEIRA –– Parabéns, sr. Sears (Com alegria) é um gênio que nasceu para vocês. SR. SEARS –– (Pega a criança) É um gênio menino ou um gênio menina? ENFERMEIRA –– É um gênio menino e Deus o abençoou neste instante. SR. SEARS –– (Olha o bebê com satisfação) Meu querido, seu nome vai ser William e você vai ser meu orgulho. ENFERMEIRA –– (Com muito respeito pegando o bebê de volta) Com licença, posso levá-lo até a mãe? SR. SEARS –– Lógico. (Devolve o bebê a enfermeira e a acompanha até a porta, volta para a cena, dá alguns passos e com alegria) Fiquei tão feliz, que uma semana depois do nascimento de William espalhei pela cidade que recebi uma fortuna. (Entra a mãe com o bebê e fica ocupada com ele; o pai vai até eles, olha o bebê com satisfação e fala para a esposa)

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Drama em 1 ato

SR. SEARS –– Nosso filho é uma fortuna que nós recebemos. Ele está nos trazendo uma grande e boa sorte, logo, logo, receberemos uma grande quantia em dinheiro. SRA. SEARS –– (Com jeito de gozação) Meu querido, conheço sua família inteira, tanto por aqui quanto na Irlanda e sei perfeitamente que todo o dinheiro que possuem poderia ser guardado no dedão de uma bota. SR. SEARS –– Mulher, você não tem fé. Espere só até o menino começar a falar, ele lhe dirá. SRA. SEARS –– Você está sonhando longe. Agora com licença que vou levar o William para a cama. SR. SEARS –– (Fala para o público) Nosso filho começou a andar aos dez meses, mas começou a falar aos seis meses. Se querem saber a verdade, isto me deixou frustrado e nervoso, especialmente porque a primeira palavra que falou não foi papai, mas sim Deus! (Neste instante mãe volta para cena e pai continua falando). SRA. SEARS –– (Virando para o marido) Frank, isso me fez lembrar de quando William tinha um ano e meio e teve um sonho que contou para nós, lembra? Você quis levá-lo ao médico. Você disse: “Ele é esquisito, não estou certo se foi sábio ter este menino, mas agora não temos mais como devolvê-lo.” (Pausa) E ainda um mês depois que ele teve o sonho. Você chegou do trabalho, colocou-o em seu colo e começou a cantar “serra, serra, serrador”, lembra-se? SR. SEARS –– Claro que me lembro, logo ele disse: “O homem veio de novo.” E eu perguntei: “Que homem?” E ele disse: “O homem de luz.” “Onde?” “No meu sonho, de novo.” SRA. SEARS –– (Rindo) Você gritou e me chamou “Ethel, começou tudo de novo!” Eu corri perguntando o que havia acontecido e você disse que ele havia visto de novo aquele homem de luz no sonho. (Pausa) Eu então corri até ele, o beijei e disse que todos nós temos maus sonhos. Mas ele respondeu que o sonho não era mau, era um sonho bom! Perguntei então, como era o homem e ele disse não saber, que só se lembrava que ele disse para seguir as suas pegadas. Eu fiquei muito nervosa com este sonho... JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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SR. SEARS –– (Com um sorriso) No dia seguinte, eu estava fazendo a barba quando ele entrou no banheiro e perguntou qual era seu nome. “Seu nome é William.” Logo ele perguntou: “Por que ele me chamou de Pedro?” (Pausa) Perguntei: “Ele quem?” “O homem do meu sonho.” Então, eu fiquei tão alterado que acabei cortando o meu rosto e com um grito te chamei. SRA. SEARS –– Sim, lembro-me perfeitamente. Eu ainda perguntei a ele, se tinha certeza de que o homem o havia chamado de Pedro, e ele confirmou que sim e completou: “O homem me disse, pesque como Pedro.” (Rindo diz para marido) Você ficou tão nervoso que foi trabalhar com meio rosto ainda por barbear, disse para eu levá-lo ao médico antes de você voltar para casa. E naquele dia quando você voltou do trabalho, nós decidimos colocá-lo na Escola Dominical junto com a nossa filha Ella, mas não adiantou nada, logo tivemos que tirá-lo. SR. SEARS –– (De repente com voz nervosa) Lembra por que o tiramos da Escola Dominical? Cada vez mais ele me fazia perguntas sobre Deus, o que me deixava mais e mais nervoso. (Com firmeza) Recordo-me perfeitamente o dia em que eu bati nosso carro na árvore que ficava no quintal e que assim que saí da garagem, ele berrou: “Pai, acho que vi Deus sentado ao seu lado.” (Pausa) E na escola, também vivia perguntando sobre Deus para a professora e para o padre Hogan, (Com gozação) até que um dia quando encontrou com o prefeito na rua, perguntou-lhe sobre Deus e o prefeito respondeu que ia levar a pergunta para a câmara. (Enquanto o pai está falando do prefeito entra em cena o avô do William) E foi que ele resolveu ir a casa do avô. Lembra como William e o avô se adoravam? (Mãe responde positivamente com um sorriso e com a cabeça) E era o avô quem respondia as suas perguntas sobre Deus. (Neste intervalo William entra em cena e corre até o avô, o avô o agarra e dá um forte abraço e diz) AVÔ –– (Colocando William no colo) Meu querido William, o que você conta de novidade? WILLIAM –– (Fala com ansiedade) Vovô, você já viu Deus? AVÔ –– (Fica pensativo e diz) Você quer dizer se eu já O vi pessoalmente? SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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WILLIAM –– Sim vovô, face a face. AVÔ –– (Fica novamente pensativo, abraça William e diz) Sim, eu tive muitas conversas com Ele, é claro, mas tem sido quase sempre apenas da minha parte. WILLIAM –– Ele não respondeu? AVÔ –– (Em voz alta) Não! Normalmente não recebo o que peço e só percebo a sabedoria disso mais tarde. WILLIAM –– (Voltando-se para o público) Uma noite tive um sonho e desta vez como estou mais crescido consegui lembrar com mais clareza. (Vai até os pais) Ontem, eu sonhei com aquele homem de novo. SR. SEARS –– (Meio bravo) Oh, não acredito, tudo de novo! Meu filho, eu acho que este sonho foi por causa dos quatro sanduíches de picles e do montão de morangos que você comeu. (pausa) E tem mais, saiba que eu não quero discutir sobre este assunto. SRA. SEARS –– (Vai até William com carinho e diz) Meu querido, que tal você escrever direitinho tudo sobre o seu sonho e depois ler para mim? WILLIAM –– Está bem, mamãe. (Virando-se para o público) Sempre antes de discutir um assunto difícil ou delicado, minha mãe mandava-nos para nossos quartos para escrever tudo a respeito, assim nós pensávamos melhor e ainda dava para a mamãe algumas horas extras para terminar o seu trabalho. (Pausa, sorrindo) Mamãe, entendia mais sobre crianças do que papai. (Pausa) Mamãe adivinhava o que nós queríamos. Quando ela falava era com tanto carinho que nós não ficávamos batendo o pé de teimosia. Um dia perdi a confiança que eu tinha em minha mãe. Ela tinha me avisado: “Tome cuidado com o que faz pois eu tenho olhos atrás da minha cabeça.” Eu acreditei. Se estávamos em casa e eu ia pegar escondido umas bolachas, de costas para mim, ela falava: “William, fique longe das bolachas.” Ela podia até estar costurando em um cantinho, de costas para a porta, fazendo todo tipo de barulho, se eu queria sair escondido, dizia: “Querido, não saia de casa antes de terminar a sua lição.” Assim, eu achei que ela devia mesmo ter mais dois olhos na cabeça. (Com cara de quem aprontou) Como JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Drama em 1 ato

eu tinha que descobrir se isso era verdade, resolvi dar uma olhada! (A mãe de William dá um grito: William!!!!! E William sorrindo mostra uma tesoura em uma mão e um montinho de cabelo no outro dizendo: ... ela não tem!) Finalmente eu acabei de escrever tudo sobre o meu sonho e levei para meus pais lerem. Bem, meu pai nem queria escutar. (Pausa) Comecei, então, a ler para a minha mãe. (Vai até a mãe e pergunta se pode ler e ela diz que sim) “Nunca vou me esquecer da linda e brilhante figura branca que veio para mim em meu sonho e me dava uma paz que palavras jamais podem descrever.” SRA. SEARS –– Quem era ele? Será que você realmente o viu ou pensa que viu? WILLIAM –– Eu o vi. SRA. SEARS –– Como ele era? WILLIAM –– Ele era todo muito branco, brilhante e agradável. E ele me acenou com a mão. SRA. SEARS –– O que mais ele lhe disse? WILLIAM –– Disse, eu estou esperando por você. Procure por mim. Seja como Pedro, pesque. SRA. SEARS –– Por favor, William, assim você me deixa assustada. (Ela vai para perto do marido e diz alguma coisa) WILLIAM –– (Olha para o público) Naquela mesma noite, eles pensavam que eu estava dormindo, quando ouvi minha mãe dizer para o meu pai. SRA. SEARS –– Frank, eu estou muito preocupada com o William. Talvez você esteja certo, talvez o sonho signifique que ele será tirado de nós. WILLIAM –– (Com susto e preocupação) Fiquei assustado com a palavra “tirado”. Seria eu realmente “levado” da mesma forma que meu tio foi “levado” no auge da sua vida?

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(Fala com tristeza) Naquela noite, eu não consegui dormir. Pensava que se alguém vinha me buscar, eu queria estar acordado. Durante vários dias, eu me senti mal. Quase não conversava com ninguém e não saia para brincar. Eu ficava sentado no meu quarto com medo e esperando virem me buscar e assim eu poderia me despedir de todos. (Pausa) Esperei duas semanas e ninguém veio me buscar e então decidi visitar meu avô e conversar com ele sobre o sonho e sobre ser “levado”. Quando cheguei na casa de meu avô contei sobre meu sonho. AVÔ –– (Dá um abraço bem forte em William e diz) Querido, nunca pare de fazer perguntas, é assim que se aprende, um dia você descobrirá o significado de seu sonho. WILLIAM –– Como posso descobrir? AVÔ –– Quando você ficar maior é bom começar a ler a Bíblia, tanto o Novo como o Velho Testamento. Assim, você vai descobrir... WILLIAM (Se afastando do avô) Aceitei o conselho do meu avô e pouco tempo depois comecei a ler a Bíblia. Mas quando papai soube que eu estava lendo a Bíblia ficou muito alarmado e disse: “Eu não quero que o meu menino fique um religioso fanático.” Todas as vezes que ele me pegava lendo a Bíblia, ele a tirava de mim. Comecei a ler o livro na cama antes de dormir, mas meu pai não deixava e dizia: “As noites foram feitas para os jovens dormirem.” Então, um dia tirei o miolo do meu livro de matemática e dentro coloquei a minha Bíblia, meu pai ficou surpreso que eu estava gostando tanto de matemática (Pausa) e assim não demorou muito para que ele descobrisse o meu truque. Tentei várias maneiras diferentes para ler, mas ele sempre descobria e ele tanto fazia para me impedir que eu comecei a achar que devia haver algo muito bom dentro da Bíblia. Comecei então, a montar uma tendinha muito agradável com as minhas cobertas e eu levava uma lâmpada para embaixo dos lençóis e das cobertas para eu ler. Uma noite estava lendo o Novo Testamento e as primeiras palavras que li me fizeram lembrar do meu sonho. Dei um grito, sentei na cama e estiquei tanto o fio da extensão que deu um curto circuito que JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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queimou todas as luzes da casa. Logo escondi o fio e sai a fim de ajudar o meu pai que estava tentando descobrir que raios tinha acontecido. Juntos desvendamos o mistério. Na noite seguinte, voltei a ler cuidadosamente cada palavra. Quanto mais eu lia, mais certo eu ficava que aquele que eu tinha visto em sonho era o Messias. Era Cristo. Ele havia voltado e esperava por mim em algum lugar, eu li: “Eu vou, mas voltarei novamente.” Li: “Você verá o Filho do Homem chegando na Glória do Pai.” E ainda: “Quando Ele, o Espírito da Verdade, vier, os guiará a toda a verdade.” Pensei: (com alegria fala) “Puxa, é isso aí.” Eu sabia que se eu entrasse em contato com o Espírito da Verdade, ele me guiaria até a resposta do meu sonho.(pausa) No dia seguinte, no café da manhã, perguntei ao meu pai: “Onde posso encontrar o Espírito da Verdade da Bíblia?” Com esta pergunta, ele de repente levantou, chamou minha mãe e disse: “Ethel, você me chamou?” E assim, ele saiu logo da mesa, deixando dois excelentes ovos em seu prato, os quais eu tive o prazer de comer. Durante uma semana inteira, eu li de dentro da minha tenda em grande paz e segurança, procurando através da Bíblia mais notícias da figura branca e brilhante. (Pausa) Uma noite eu estava lendo a Bíblia com tanta atenção que não ouvi meu pai entrar no quarto e chegar perto da minha cama. Assim, ele levantou a ponta do cobertor e eis que eu estava tão entretido lendo sobre Davi e Golias e tão preocupado que Davi não atingisse Golias com o estilingue, que nem percebi quando ele olhou para mim e disse “Muito bem rapaz...” Meu susto foi tamanho que joguei o livro para cima e berrei ao mesmo tempo em que balancei o fio da extensão e atingi meu pai bem entre os olhos com uma lâmpada de 60 watts. Papai gritou e tentou me agarrar. Minha irmã foi a primeira a chegar. Ela gritava: “Ele atirou nele. Ele atirou nele. Papai matou William.” Mamãe veio voando, acendeu a luz do quarto e me viu encolhido contra a parede do quarto, bem longe da cama. Os minutos seguintes foram muito difíceis. Papai estava engatinhando em minha direção e me acusava de querer cegá-lo. Mamãe o acalmava ao mesmo tempo em que o ajudava a tirar os fragmentos de vidro do seu cabelo e sobrancelhas. Ela tentava me apoiar e eu dizia: “Mamãe, eu só queria saber o que está na Bíblia. Algum SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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dia eu vou viajar o mundo inteiro e vou falar de Deus para as pessoas, como vou fazer isso, se eu não estudar?” Então, papai disse que estava disposto a pagar pela minha viagem ao redor do mundo, se eu a iniciasse logo pela manhã. (Pausa) Então, ele fez eu dar a minha palavra de honra de que não acenderia a luz para ler na cama e ainda me fez jurar por mais duas vezes que manteria a minha promessa. Mas, por garantia papai desceu as escadas, tirou o fusível da caixa elétrica e além disso colocou um cadeado nela para ter certeza que eu não teria energia elétrica no meu quarto, mas eu não desisti. Como eu tinha que manter minha promessa, eu lia com uma lanterna. (William sai de cena e entra William mais velho) Alguns anos mais tarde me formei na universidade e me casei com uma garota muito atraente, meiga e corajosa. Kathreen era uma esposa muito querida e com ela tive dois filhos. Logo após o nascimento do nosso segundo filho, Michael, Kathreen ficou muito doente. Os dois ficaram no hospital por muitos meses. (Pausa e sério) Às vezes, eu me lembrava do meu sonho, como eu ansiava pelo som daquela voz melodiosa que havia falado comigo há tanto tempo atrás. Eu não me sentia realizado, pensava: “Será que a vida é levantar toda manhã, trabalhar, comer e dormir até a morte?” Nós somos diferentes dos animais e vegetais. Nós humanos pensamos, somos conscientes, não podemos ser felizes vivendo dia a dia somente para o corpo. Mas eu já não buscava mais o significado do meu sonho. Este foi um período muito desolador para mim, sofremos inúmeras privações, mal tínhamos o suficiente para nos alimentar e eu não conseguia encontrar emprego. (Pausa) Quando finalmente encontrei um emprego, pensei comigo, que pelo menos os nossos problemas financeiros estavam resolvidos. (Pausa) Mas infelizmente, pouco tempo depois Kathreen faleceu e Michael foi internado em um sanatório, tendo de ficar lá por muitos anos. (Anda pelo palco) Um vento frio soprava em minha alma, eu estava perdido no vale da escuridão, junto com todo mundo. Eu estava sendo afastado cada vez mais longe de meu sonho, e entrando mais e mais, num mundo que nada se importava com o espírito. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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(Nesse momento William está lembrando do estado desolado que estava!... Uma música meio triste pode ser tocada e na medida que a música toca, William senta-se e fecha os olhos passando a tristeza dele ao público... suspirando! Quando a música ficar mais animada... ele começa a abrir os olhos e ao abrir um sorriso... é como se lembrasse da bênção que recebeu! Isso representaria a vinda da graça de Deus... nesse momento em que ele sentiria essa graça chegando, Marguerite entra em cena também! Afinal ela é uma bênção.William muda de fisionomia... fica mais contente!) Logo depois iniciei a minha carreira como locutor de rádio. Certo dia, ao olhar pela janela do estúdio, eu vi uma linda jovem com cabelos cor de trigo, olhos azuis esverdeados, uma moça que realmente chamava a atenção. Éramos 5 homens observando-a durante toda a entrevista através da grande janela do estúdio. O nome dela era Marguerite. (Pausa) Um dia, quando ela estava indo embora, era horário de almoço e todos nós estávamos saindo também, então um dos meus colegas foi até ela e agarrando o seu braço disse: AMIGO DO WILLIAM –– Agora, você e eu vamos em direção a um mundo de novas maravilhas... MARGUERITE –– (De repente, o olhar suave dela ficou muito firme e disse) Sim, nós vamos em direção ao elevador, mas apenas um de nós dois descerá. WILLIAN –– (Para o público) E assim, o meu colega ficou do lado de fora do elevador enquanto nós descemos. Se ao menos eu pudesse pagar um almoço para ela! (Marguerite caminha em direção a William) MARGUERITE –– (Para William) Você está com fome? WILLIAM –– Para falar a verdade estou, mas... MARGUERITE –– Podemos rachar a conta. WILLIAM –– Ótimo, então vamos. (Virando-se para o público) Foi o almoço mais fabuloso que eu já tive. Não me lembro do que comi, mas entre as SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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conversas lembro que ela contou que gostava do músico Louis Armstrong. (Pausa) Felizmente eu iria dar a cobertura do show dele. (Sorri) Então convidei-a para me acompanhar! No dia do show fui buscá-la e depois fomos jantar e dançar. (Toca uma música e William convida Marguerite para dançar. Enquanto estão dançando, William diz para o público, como se estivesse falando consigo mesmo). Como eu posso contar-lhe que ela não sai de meu pensamento? E para o resto do mundo como vou contar? Mmmmmas eu também sou pai de um menino de 3 anos e outro de 5 anos. MARGUERITE –– William, há uma coisa que preciso lhe dizer que pode lhe surpreender. WILLIAM.–– Surpreender-me? Espere eu contar-lhe sobre minha família. MARGUERITE –– Você se interessa em religião? (Música pára) WILLIAM –– (Quase derrubando-a, diz nervoso) Honestamente? No momento, não. MARGUERITE –– No momento que você me olhou eu percebi que havia algo muito importante entre nós dois. Podemos dar uma volta de carro e falarmos mais sobre isso? WILLIAM –– (Fala para público) Dirigi o carro até a praia. Que cenário perfeito, lua cheia, areia macia e ondas suaves. Deixamos o rádio do carro tocando. Conversamos bastante, eu contei sobre os meus dois filhos, sobre o meu avô, sobre o meu sonho. MARGUERITE –– (Agitada) Que estranho, seu sonho foi exatamente na época em que Ele esteve em Minneapolis. WILLIAM –– Quem esteve em Minneapolis? MARGUERITE –– ‘Abdu’l-Bahá. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Drama em 1 ato WILLIAM –– Quem? MARGUERITE –– O filho de Bahá’u’lláh.

WILLIAM –– Desculpe-me, mas... não estou entendendo nada do que você está falando. MARGUERITE –– (Rindo) Bahá’u’lláh foi o fundador da Fé Bahá’í. WILLIAM –– (Para o público) Amigos, cinco minutos atrás eu estava pensando em amor e casamento. Agora, de repente, ela me jogou no meio do Novo Testamento. (pausa) Procurei manter a calma. Na verdade o único assunto que não me interessava naquele momento era religião. Estranho, algum tempo atrás, investiguei pacientemente cada religião, seita, culto e crença que podia encontrar no Oriente e Ocidente, esperando poder encontrar algo, em algum lugar, que me pudesse levar a aquela figura maravilhosa do meu sonho. Desde a morte de Kathreen há três anos, não mencionei o meu sonho para mais ninguém, e hoje contei para Marguerite só porque queria que ela soubesse tudo sobre mim antes de pedi-la em casamento. (Pausa) Ao chegarmos em seu apartamento ela me trouxe um livro. MARGUERITE –– Leia isto, sei que você irá encontrar nele algo que irá surpreendêlo bastante. (Marguerite sai de cena) WILLIAM Ao chegar em casa peguei o livro e comecei a ler, era um relato das palestras de ‘Abdu’l-Bahá de quando Ele saiu da Terra Santa para visitar a América. Li por mais ou menos duas horas e logo percebi porque o relato do meu sonho tinha deixado Marguerite tão agitada e surpresa. (Pausa) Foi justamente no mesmo dia e ano do meu sonho, 20 de setembro de 1912, que ‘Abdu’l-Bahá esteve em Minneapolis – a poucos quilômetros de onde eu morava. (Pausa) Com muito cuidado eu li a Sua palestra. (Pausa) Ele avisou os seres humanos que deviam investigar a verdade por si mesmos, e não seguir as pegadas daqueles que aceitavam tudo cegamente. (Pausa)

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Drama em 1 ato

Eu estava muito agitado, não conseguia dormir. Então, cheguei em um trecho onde ‘Abdu’l-Bahá convidava todos a serem iguais ao “pescador Pedro” em sua fé e a pescarem ativamente as almas humanas. (Fala com firmeza) Seja como Pedro! (Larga o livro) Eu estava totalmente sem sono. No dia seguinte telefonei para Marguerite, mas ninguém atendeu. Ao meio dia, fui pessoalmente até o seu apartamento pois eu queria pegar outro livro para ler. (Bate na porta do apartamento, uma moça abre a porta) MOÇA –– Bom dia! WILLIAM –– Bom dia! MOÇA –– O que o senhor deseja? WILLIAM –– Quero falar com Marguerite. MOÇA –– Ela não está. Ela foi para a escola bahá’í. WILLIAM –– Onde fica a escola bahá’í? MOÇA –– Qual delas? WILLIAM –– (Meio agitado) Pelo amor de Deus. Quantas existem? MOÇA –– Há uma em Maine, uma em Michigan, uma no Colorado e outra na Califórnia. WILLIAM –– Para qual delas ela foi? MOÇA –– Eu não sei. WILLIAM –– (Para o público) Eu percebi que ela sabia, mas que tinha instruções de me confundir. (Balança a cabeça) Bem que eu merecia. (Voltando-se para a moça) E quando ela volta? MOÇA –– Ela voltará daqui um mês. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Drama em 1 ato WILLIAM –– Um mês?

MOÇA –– (Dá um sorriso divertido, pega um livro e diz) Ahhh.... espere um pouco! Marguerite deixou este livro para você ler. Ela disse que viria procurá-lo. WILLIAM –– Para mim? Como sabe que eu sou a pessoa certa? MOÇA –– Bem... Você não é tão alto, tão moreno e nem tão bonitão, mas é você sem dúvida! WILLIAM –– (Despedindo-se da moça meio sem-graça) Eh..obrigado então! (Virando-se para a platéia) Algum tempo depois encontrei com meu avô e contei tudo a ele. Ele ficou muito interessado em Bahá’u’lláh e queria saber mais a Seu respeito, ao mesmo tempo em que me encorajava a pesquisar. (Pausa) Depois de um mês Marguerite voltou, e nós tivemos muitos encontros e desencontros. Um dia quando voltei do trabalho, achei na minha caixa de correio um livro chamado Bahá’u’lláh e a Nova Era. O estudo destes livros e os encontros com Marguerite abriram as portas espirituais para mim. (Mostra Marguerite e ele vira-se para ela) Ao mesmo tempo percebi que amava Marguerite e que ela seria a melhor companheira da minha vida. Então, numa noite depois de um jantar... (Pega a mão de Marguerite) –– Querida, vou te dizer uma coisa que pode te chocar um pouco. MARGUERITE –– Sim, que coisa? WILLIAM –– Ofereceram-me um emprego em South Lake City, mas eu não quero ir embora e deixar você. Assim que eu tiver dinheiro suficiente para pagar uma aliança vou pedi-la em casamento. (Com sorriso de amor) É claro que pretendo comprar também um anel de noivado. Ah, a propósito, eu te amo e muito!!! (Depois de uns instantes de silêncio, Marguerite tira de seu bolso um anel, mostra para William e diz) SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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Drama em 1 ato

MARGUERITE –– Querido, eu mesma comprei um anel e posso dizer que eu também te amo muito. Pode colocar este anel no meu dedo. WILLIAM –– (Vira para o público) Assim, com grande alegria logo nos casamos. (Pausa) Na mesma noite em que voltamos de nossa lua-de-mel eu tive um sonho muito real. Acordei com um susto e vi Marguerite em pé ao meu lado. MARGUERITE –– O que houve? WILLIAM –– Nada, por quê? MARGUERITE –– Com quem você estava falando no seu sonho? WILLIAM –– Era aquela mesma figura maravilhosa que aparecia nos meus sonhos em Minneapolis quando eu era um menino. Nunca poderei esquecê-lo. Ele dizia: “Venha comigo e entre nesta cidade.” (Fala com emoção) Era uma cidade com luzes mágicas piscando, bem longe eu podia ver a lua refletida em um grande lago prateado. Ele sorriu e me disse: “Esta é a cidade.” Daí ele desapareceu, eu acordei e você estava aí me olhando. MARGUERITE –– E você reconheceu a cidade? WILLIAM –– Não, nunca a vi antes, mas saiba que eu vou procurá-la até encontrála. Tenho certeza de que naquela cidade vou descobrir o significado do meu sonho. Algo maravilhoso aconteceu comigo, sinto um confortável calor interno. MARGUERITE –– O seu rosto está brilhando muito. (Beija William e vai para a outra direção, William chama-a) WILLIAM –– Marguerite querida, quero comprar alguns presentes para os meninos, gostaria de dar alguma coisa para eles antes de me despedir e ir para o Oeste. MARGUERITE –– Como? Despedir-se? WILLIAM –– Sim, eu gostaria de visitar o Michel no hospital e ter certeza de que Billy está bem. JORNADAS NA SENDA DO AMOR VOLUME II

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Drama em 1 ato MARGUERITE –– Eles irão conosco, William. WILLIAM –– Você está falando para sempre? MARGUERITE –– Lógico.

WILLIAM –– Olhe, os médicos não darão alta para o Michel e Billy vai dar muito trabalho. MARGUERITE –– Querido, nós vamos como uma família. Acabei de me tornar mãe de dois garotos e ninguém vai tirá-los de mim tão facilmente. Vocês já ficaram separados por um tempo longo demais. WILLIAM –– (Abraça Marguerite) Você é um amor, obrigado. (Vira para público) Saímos para viajar com apenas meio tanque de gasolina, duas crianças, e 3 dólares e dezessete centavos e nenhum pneu estepe! WILLIAM –– (Se volta para o público) Quando chegamos na cidade. Marguerite saiu para procurar um apartamento, voltou em uma hora. MARGUERITE –– (Com alegria) William, nós temos sorte, eu olhei apenas um apartamento WILLIAM –– O que você quer dizer? MARGUERITE –– Foi divino, mas o apartamento não estava para alugar, estava à venda. WILLIAM –– E daí? Nós não temos dinheiro para comprá-lo! MARGUERITE –– Sim, então eu parei de procurar e disse para o corretor esperar 5 dias para a compra. WILLIAM –– Esta é boa, nós não temos dinheiro para comprá-lo! MARGUERITE –– Não se preocupe, mas estou com um daqueles pressentimentos de que algo de bom irá acontecer WILLIAM –– (Se volve para o público e diz) Era tão grande a sua fé e certeza que junto dela não restavam dúvidas. Mal tínhamos dinheiro para alugar um SHOGHIEH SHAIKHZADEH PEÇAS TEATRAIS

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Drama em 1 ato

apartamento e ela pensava em comprar um. (Pausa) E o milagre aconteceu. No dia seguinte Marguerite recebeu uma carta de sua mãe dizendo que uma aplicação do seguro havia vencido. Após uma semana ela recebeu o dinheiro e eu ainda estava atordoado. (Pausa) Esse dinheiro foi suficiente para a entrada do apartamento e a compra dos móveis. MARGUERITE –– Querido foi possível até comprar roupas novas para cada um dos meninos. WILLIAM –– (Se volve para o público) Naquele ano tivemos o Natal mais maravilhoso de nossas vidas (Se volta para Marguerite e diz) Pensei que você sendo uma bahá’í, não teria interesse no Natal. MARGUERITE –– (Pega um livro) Vamos meditar sobre estas palavras: “Quando Ele [Cristo] veio ao mundo, Ele espalhou o esplendor de Sua glória sobre todas as coisas criadas. Ele foi quem purificou o mundo. Abençoado o homem que com a face iluminada, volveu-se para Ele.” (Fecha o livro) Estas são palavras de Bahá’u’lláh sobre Cristo. Este é o amor que eu pretendo ensinar aos seus filhos, sobre Ele. WILLIAM –– (Com carinho) Eles também são seus filhos. São muito mais seus do que meus. (Se volve para o público) Embora eu não fosse bahá’í a cada dia me impressionava mais da postura de Marguerite! Ainda estava confuso! Quando iria descobrir o significado de meu sonho? Na véspera do Natal fomos todos dar uma volta de carro pela montanhosa South Lake City, uma das cidades mais adoráveis dos Estados Unidos. Sete correntezas da montanha fluem para dentro da cidade. As ruas têm água fresca das montanhas correndo pelas sarjetas. Parei então o carro no alto da montanha, e todos descemos para olhar a cidade do alto. Algo me impulsionava para frente. Enquanto olhava para baixo me vi absorvido novamente em meu sonho e falei para Marguerite: (com entusiasmo) esta é a cidade que eu vi em meu sonho! Falei sobre aquela figura maravilhosa do meu sonho. Logo Marguerite desceu e trouxe uma fotografia emoldurada e deu para mim. Quando peguei a foto fiquei surpreso e disse: “Eu vi este mesmo olhar suave e persistente em meu sonho, barbas brancas e macias como seda, o sorriso de eterna bondade. Este é o homem que eu vi em meu sonho...”

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Drama em 1 ato MARGUERITE –– Esse é ‘Abdu’l-Bahá. (Marguerite abraça-o)

WILLIAM Naquela noite fiquei acordado por várias horas, eu estava muito agitado. Sabia que não podia mais ignorar o que estava acontecendo comigo. Fechei os meus olhos e pude ver o rosto de meu pai observando-me embaixo das cobertas naquela noite que ele me pegou lendo a Bíblia com a lanterna. (Pausa) Naquele tempo eu prometi a Deus e a mim mesmo quando eu soubesse da verdade do meu sonho eu iria pelo mundo afora e daria as boas novas da minha descoberta. Marguerite percebeu que eu estava muito perturbado. Sugeriu que nós fossemos a uma Conferência Internacional em Chicago, e assim nós fomos. Quando fomos a Conferência ouvi palavras inspiradas de todas as religiões. Lembrei-me de ‘Abdu’l-Bahá, que trabalhou pelo bem-estar dos homens, de todas as religiões, nações e raças. Esta Conferência foi um chamado inspirador aos pioneiros, que fossem a terras distantes. Desta forma eu entendi o significado completo de meu sonho. Havia chegado o tempo para que eu me levantasse como Pedro e fosse pescar as almas dos homens através dos sete mares (Com voz vibrante) senti que esta Revelação Divina e Gloriosa é verdadeira e disse a mim mesmo: Levanta-te e serve a humanidade até o fim de sua vida. Não é suficiente apenas acreditar. É preciso dedicar-se àquilo que acreditamos. A partir de então eu e Marguerite iniciamos nossas viagens pelos sete mares. (Pega a mão de Marguerite e saem de cena)

(Fim)

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S

hoghieh Shaikhzadeh nasceu em Teerã, Irã, em 1933. Seu grande interesse pelo campo artístico levou-a a realizar seus estudos na Escola de Artes de Teerã. Casou-se com Mohamad Shaikhzadeh e, em 1960, o casal e seus filhos vieram para o Brasil como pioneiros bahá’ís. No Brasil, iniciou diversas atividades, dando ênfase especial à educação de crianças, através de aulas de ensinamentos espirituais e morais. Posteriormente, desenvolveu alguns trabalhos artísticos através de peças teatrais. Nos últimos anos, têm se dedicado a escrever peças sobre a vida de pessoas muito especiais que servem de fonte de inspiração para todos os países de língua portuguesa. Este Volume II do Jornadas na Senda do Amor retrata a vida de mais quatro dessas personagens, e também, possibilita o entendimento do poético livro revelado por Bahá’u’lláh: As Palavras Ocultas, através das artes cênicas.

www.editorabahaibrasil.com.br

Jornadas na Senda do Amor, Vol. II  

A Editora Bahá’í do Brasil tem o prazer de mais uma vez tornar público aos povos de língua portuguesa, mais um livro de peças teatrais...

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