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Título original em inglês: ONE COMMON FAITH © 2006 Todos os direitos reservados: Editora Bahá’í do Brasil Caixa Postal 198 13800-970 Mogi-Mirim, SP. www.editorabahaibrasil.com.br 1ª Edição: 2006 ISBN 85-320-0137-8 Tradução: Jorge Henrique Mantovani Guerreiro Revisão: Maria Trude Alves Impressão: Prisma Printer Gráfica e Editora Ltda, Campinas, SP.


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UMA FÉ EM COMUM

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PREFÁCIO

PREFÁCIO

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o Ridván de 2002, enviamos uma carta aberta aos líderes religiosos do mundo. Nossa ação surgiu da consciência de que o mal dos ódios sectários, se não for decisivamente considerado, ameaça trazer tão terríveis conseqüências que poucas áreas do mundo deixarão de ser afetadas. A carta reconhece com apreço as realizações do movimento inter-religioso para o qual os bahá’ís procuraram contribuir desde praticamente o surgimento do movimento. Não obstante, sentimos que devemos ser francos ao dizer que, se a crise religiosa deve ser considerada tão seriamente quanto está ocorrendo com relação a outros preconceitos que afligem a humanidade, a religião organizada precisa encontrar dentro em si mesma a coragem necessária para se elevar acima de concepções fixas, herdadas de um passado distante. Acima de tudo, expressamos nossa convicção de que é chegado o tempo para as lideranças religiosas enfrentarem honestamente e sem evasivas as implicações da verdade que Deus é um só e que, além V


UMA FÉ EM COMUM de toda diversidade de expressão cultural e interpretações humanas, a religião é igualmente una. Foram percepções desta verdade que originalmente inspiraram o movimento inter-religioso e que o tem mantido apesar das vicissitudes dos últimos cem anos. Longe de desafiar a validez de quaisquer das grandes fés reveladas, o princípio tem a capacidade de assegurar sua contínua relevância. A fim de exercer sua influência, porém, o reconhecimento desta realidade tem que estar no coração do discurso religioso, e foi com este pensamento que sentimos que nossa carta deveria ser explícita ao enunciar tal conceito. A resposta foi encorajadora. Instituições bahá’ís ao redor do mundo garantiram que milhares de cópias do documento fossem entregues a personalidades influentes nas principais comunidades religiosas. Embora talvez não surpreenda o fato de que o conteúdo da mensagem não tenha recebido a devida consideração em alguns círculos, bahá’ís relatam que, de um modo geral, eles foram recebidos calorosamente. Particularmente notável foi a sinceridade espontânea de muitos daqueles que a receberam, expressando sua inquietação quanto ao fracasso das instituições religiosas em ajudar a humanidade para lidar com desafios cuja natureza essencial é espiritual e moral. As discussões decorrentes voltaram-se prontamente para a necessidade de uma mudança fundamental no modo com que as massas da humanidade relacionam-se umas com as outras, e em um número significativo de vezes, aqueles que receberam a carta sentiram-se movidos a reproduzi-la e distribui-la a outros clérigos VI


PREFÁCIO de suas respectivas tradições religiosas. Sentimo-nos esperançosos de que nossa iniciativa possa servir como um catalisador abrindo caminho a um novo entendimento do propósito da religião. Quão rápida ou lenta ocorra esta mudança, a preocupação dos bahá’ís deve estar centrada em sua própria responsabilidade com relação a este assunto. A tarefa de assegurar que Sua mensagem seja considerada por pessoas em todas as partes é uma das primordiais tarefas que Bahá’u’lláh colocou nos ombros de todos aqueles que O reconhecem como Manifestante de Deus para esta época e seguem Seus ensinamentos. Este, claro, tem sido o trabalho que a comunidade bahá’í vem conduzindo ao longo da história da Fé, mas a acelerada desintegração que está ocorrendo na ordem social clama, desesperadamente, para que o espírito religioso liberte-se das correntes que o têm impedido de prover a influência curativa da qual é capaz. A fim de atender a essa necessidade, os bahá’ís precisam alcançar um profundo entendimento do processo através do qual ocorre a evolução da vida espiritual da humanidade. Os escritos de Bahá’u’lláh provêm discernimentos que podem ajudar a elevar a discussão de questões religiosas acima das considerações transitórias e sectárias. A responsabilidade possibilitada por este recurso espiritual é inseparável da própria dádiva da fé. “O fanatismo e ódio entre as religiões”, Bahá’u’lláh adverte, “são um fogo que devora o mundo, um fogo cuja violência ninguém pode extinguir. A Mão do Poder Divino, tão somente, conseguirá livrar a humanidade dessa aflição desoladora...”. Longe de VII


UMA FÉ EM COMUM se sentirem desamparados em seus esforços para responder ao desafio, os bahá’ís cada vez mais constatarão que a Causa à qual servem representa a vanguarda de um despertar que está ocorrendo entre as pessoas em todas as partes, independente da herança religiosa e, até mesmo, entre muitos sem qualquer filiação religiosa. Refletir sobre tal desafio incitou-nos a produzir o comentário que a seguir é apresentado. Uma Fé em Comum, preparado sob nossa supervisão, revê relevantes passagens dos Escritos tanto de Bahá’u’lláh como das Escrituras de outras Fés, contra as circunstâncias da crise contemporânea. Recomendamos aos amigos seu estudo e reflexão. A CASA UNIVERSAL DE JUSTIÇA NAW-RÚZ 2005

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com toda razão que se pode confiar que o período da história que agora se inicia será muito mais receptivo aos esforços para se difundir a mensagem de Bahá’u’lláh do que o foi no século recém findo. Todos os sinais indicam que uma profunda mudança na consciência humana está a caminho. No início do século XX, uma interpretação materialista da realidade consolidou-se tão completamente a ponto de se tornar a fé mundial dominante no que diz respeito à orientação da sociedade. No processo, a civilização da natureza humana fora violentamente arrancada da órbita que havia seguido durante o milênio. Para muitos no Ocidente, a autoridade Divina que atuara como o centro focal de guia – ainda que diversas as interpretações de sua natureza – simplesmente parecia ter se dissolvido e desvanecido. Em grande medida, o indivíduo foi deixado livre para manter qualquer relação que acreditasse conectar sua vida a um mundo que transcende à existência material, porém, a sociedade como um todo prosseguia, com convicção 1


UMA FÉ EM COMUM crescente, na dissociação da dependência de uma concepção do universo que foi julgada no melhor dos casos como ficção e, pior, como ópio, em ambos os casos, inibindo o progresso. A humanidade havia tomado seu destino em suas próprias mãos. Havia solucionado através da experiência e do discurso racionais – assim foram as pessoas levadas a acreditar – todos os assuntos fundamentais relacionados à governança e desenvolvimento humanos. Esta postura foi reforçada pela suposição de que os valores, os ideais e as disciplinas cultivadas através dos séculos eram, agora, confiavelmente estabelecidas e permanentes características da natureza humana. Bastava meramente que fossem refinadas pela educação e reforçadas pela ação legislativa. O legado moral do passado era somente: uma herança irrevogável da humanidade, que não necessita de intervenções religiosas adicionais. Reconhecidamente, indivíduos, grupos ou mesmo nações carentes de disciplina continuariam a ameaçar a estabilidade da ordem social, exigindo reprimenda. Entretanto, a civilização universal, para cuja realização todas as forças da história vinham conduzindo a raça humana, emergia irresistivelmente, inspirada por concepções seculares da realidade. A felicidade das pessoas seria o resultado natural de melhor saúde, melhor alimentação, melhor educação, melhores condições de vida – e a realização desses objetivos, inquestionavelmente desejáveis, parecia agora estar ao alcance de uma sociedade totalmente concentrada em seus interesses. Em toda aquela parte do mundo, onde vive a vasta maioria da população da Terra, anúncios levianos 2


UMA FÉ EM COMUM de que “Deus está morto” passaram totalmente despercebidos. A experiência dos povos da África, Ásia, América Latina e do Pacífico há muito tempo tinha-os confirmado na visão de que a natureza humana é não apenas profundamente influenciada por forças espirituais, mas sua própria identidade é espiritual. Conseqüentemente, a religião continuou, como sempre assim foi, a funcionar como a autoridade máxima da vida. Embora estas convicções não fossem diretamente confrontadas pela revolução ideológica que ocorria no Ocidente eram, efetivamente, marginalizadas por ela, no que tange à interação entre povos e nações. Tendo penetrado e dominado todos os centros significativos de poder e informação em âmbito global, o materialismo dogmático assegurouse de que nenhuma voz concorrente deteria a capacidade de desafiar projetos de exploração econômica em escala mundial. Ao dano cultural já infligido por dois séculos de domínio colonial adicionou-se uma angustiante ruptura entre a experiência interior e exterior das massas afetadas, uma condição que virtualmente invadia todos os aspectos da vida. Impotentes para exercer qualquer influência real na formação de seu futuro ou sequer na preservação do bem-estar moral de seus filhos, essas populações foram mergulhadas em uma crise diferente, mas em muitos aspectos ainda mais devastadora do que aquela que ganhava impulso, acumulava forças na Europa e na América do Norte. Embora mantivesse seu papel central na consciência dos homens, a fé parecia impotente para influenciar o curso dos acontecimentos. 3


UMA FÉ EM COMUM À medida, portanto, que o século XX aproximava-se de seu final, nada parecia menos provável do que o ressurgimento repentino da religião como assunto de devastadora importância global. Porém, isto foi precisamente o que ocorreu agora, na forma de uma gigantesca onda de ansiedade e descontentamento, muito da qual ainda vagamente consciente do sentido de vazio espiritual que a está produzindo. Antigos conflitos sectários, aparentemente insensíveis às pacientes artes da diplomacia, ressurgiram com uma virulência de magnitude até então desconhecida. Temas relacionados às Escrituras, fenômenos milagrosos e dogmas teológicos que, até recentemente, haviam sido rejeitados como resquícios de uma época de ignorância, encontram-se solenemente, ainda que de maneira indiscriminada, explorados nos meios de comunicação influentes. Em muitos países, credenciais religiosas adquirem um novo e atraente significado na candidatura de aspirantes à carreira política. Um mundo que supunha que com o colapso do Muro de Berlim nascia uma era de paz internacional dá-se conta de que é presa de uma guerra de civilizações cuja característica distintiva são as irreconciliáveis antipatias religiosas. Livrarias, bancas de revistas, páginas eletrônicas da rede internacional e bibliotecas esforçam-se para satisfazer um aparentemente inesgotável apetite público por informação sobre assuntos religiosos e espirituais. Talvez o fator mais persistente na produção da mudança seja o relutante reconhecimento de que não há substituto confiável para a crença religiosa como força capaz de gerar autodisciplina e de restaurar o compromisso com o comportamento moral. 4


UMA FÉ EM COMUM Muito além da atenção que a religião, tal como formalmente concebida, passou a exigir, está uma revitalização generalizada da busca espiritual. Descrito mais comumente como um anseio para se descobrir uma identidade pessoal que transcende ao meramente físico, esse progresso favorece inúmeras buscas, encoraja uma multiplicidade de interesses, tanto positivos como negativos em caráter. Por um lado, a busca pela justiça e a promoção da causa da paz internacional tendem a ter o efeito de também estimular novas percepções do papel do indivíduo na sociedade. Semelhantemente, embora focados na mobilização de apoio às mudanças nas tomadas de decisões sociais, movimentos como o ambientalismo e o feminismo induzem a um novo exame da percepção que as pessoas têm de si mesmas e de seu propósito na vida. Uma reorientação que está ocorrendo em todas as grandes comunidades religiosas é a migração acelerada de crentes dos ramos tradicionais das religiões de origem para seitas que agregam maior importância à busca espiritual e às experiências pessoais de seus membros. No outro extremo, visões extraterrestres, modos de vida baseados no autodescobrimento, retiros primitivos, êxtase carismático, diversos arrebatamentos da Nova Era e a eficácia em elevar o nível de consciência atribuída a narcóticos e alucinógenos atraem seguidores em números muito maiores e mais diversificados do que os alcançados pelo espiritualismo ou a teosofia em similar momento histórico decisivo, há um século atrás. Para um bahá’í, a proliferação até mesmo de cultos e práticas que possam suscitar aversão nas mentes de muitos serve, principalmente, como um lembrete do 5


UMA FÉ EM COMUM discernimento incorporado na antiga história de Majnún, que peneirava o pó em busca da bem-amada Laylí, embora ciente de que ela era puro espírito: “Eu a busco em toda parte; quiçá em algum lugar eu a possa encontrar”.1

T O revigorado interesse pela religião está claramente longe de ter alcançado seu apogeu, seja em suas manifestações explicitamente religiosas ou naquelas menos espiritualmente definíveis. Ao contrário. O fenômeno é o produto de forças históricas que firmemente ganham impulso. O efeito que têm em comum é corroer a certeza, legada ao mundo pelo século XX, de que a existência material representa a realidade final. A causa mais óbvia dessas reavaliações foi a própria falência da iniciativa materialista em si mesma. Durante bem mais de cem anos, a idéia de progresso foi identificada como desenvolvimento econômico e com sua capacidade de motivar e dar forma ao progresso e moldar o avanço social. As diferenças de opinião que existiam não questionavam esta visão mundial, mas apenas os conceitos de como poderiam melhor atingir seus objetivos. Sua forma mais extrema, o dogma de ferro do “materialismo científico”, buscava reinterpretar todos os aspectos da história e do comportamento humano em seus próprios termos limitados. Quaisquer que tenham sido os ideais humanitários que inspiraram alguns de seus primeiros proponentes, a conseqüência universal foi produzir 6


UMA FÉ EM COMUM regimes de controle totalitário preparados para usar quaisquer meios de coerção no controle das vidas de desafortunadas populações sob seu domínio. A meta alegada como justificativa de tais abusos foi a criação de um novo tipo de sociedade que asseguraria não somente a libertação da pobreza, mas também a consumação do espírito humano. Finalmente, após oito décadas de contínua insensatez e brutalidade, o movimento ruiu em sua pretensão como a guia confiável para o futuro do mundo. Outros sistemas de experimentação social, embora repudiassem recorrer a métodos desumanos, retiravam seu ímpeto moral e intelectual dos mesmos conceitos limitados da realidade. Enraizou-se a idéia de que, posto que as pessoas são, essencialmente, atores de seu próprio interesse em assuntos pertinentes ao seu bem-estar econômico, a construção de sociedades justas e prósperas poderia ser assegurada por um ou outro plano daquilo que era descrito como modernização. As décadas finais do século XX, no entanto, curvaram-se diante de uma opressão crescente de provas em contrário: a desintegração da vida familiar, a elevada criminalidade, a disfunção dos sistemas educacionais e uma série de outras patologias sociais que trazem à memória as sombrias palavras da advertência de Bahá’u’lláh sobre a condição iminente da sociedade humana: “Tal há de ser seu dilema que não seria apropriado ou conveniente revelá-lo agora”.2 O destino daquilo que o mundo aprendeu a chamar de desenvolvimento sócio-econômico não deixou dúvida de que nem mesmo os motivos mais idealistas podem corrigir os defeitos fundamentais do 7


UMA FÉ EM COMUM materialismo. Nascido no despertar do caos da segunda guerra mundial, o “desenvolvimento” veio a ser, de longe, o maior e mais ambicioso empreendimento coletivo no qual a espécie humana jamais se envolveu. Sua motivação humanitária comparava-se ao seu enorme investimento material e tecnológico. Cinqüenta anos após, embora reconhecendo impressionantes benefícios que foram trazidos pelo desenvolvimento, essa iniciativa deve ser julgada, segundo seus próprios padrões, um fracasso desalentador. Longe de estreitar a fenda que separava o bem-estar do pequeno segmento da família humana que, o qual desfruta dos benefícios da modernidade e a condição da vasta população chafurdada em desesperada indigência, o esforço coletivo, que começou com esperanças tão elevadas, viu a fenda se transformar em um abismo. A cultura do consumismo, à revelia, herdeira atual do evangelho materialista do aperfeiçoamento humano, não se constrange diante da natureza efêmera dos objetivos que a inspiram. Para a pequena minoria em condições de desfrutá-la, os benefícios que oferece são imediatos e a justificativa, irrefutável. Encorajados pelo desmoronamento da moralidade tradicional, o avanço do novo credo, essencialmente, nada mais é do que o triunfo do impulso animal, tão instintivo e cego quanto um desejo finalmente liberado das restrições das sanções sobrenaturais. Sua vítima mais evidente tem sido a linguagem. Tendências que haviam sido universalmente censuradas como fraquezas morais trasnformaram-se em necessidades para o progresso social. O egoísmo passa a ser um valioso recurso comercial; a falsidade reinventa-se 8


UMA FÉ EM COMUM como informação pública; perversões de diversos tipos reivindicam sem pudor a posição de direitos civis. Protegidos por eufemismos apropriados, a ganância, a luxúria, a indolência, a soberba – até mesmo a violência – adquirem não apenas ampla aceitação, mas também, valor econômico e social. Ironicamente, assim como as palavras esgotaram seu significado, o mesmo ocorreu com o conforto material e as aquisições, pelos quais, a verdade foi negligentemente sacrificada. Evidentemente, o erro do materialismo se baseou no esforço louvável para melhorar as condições de vida, mas na estreiteza de mente e na injustificada autoconfiança que marcaram sua missão. A importância tanto da prosperidade material como dos avanços tecnológicos e científicos necessários para sua realização é um assunto que percorre os escritos da Fé Bahá’í. Como era inevitável desde o início, contudo, os esforços arbitrários para separar tal bem-estar físico e material do desenvolvimento moral e espiritual da humanidade resultou na perda da lealdade por parte daquela mesma população cujos interesses essa cultura materialista propõe-se servir. “Testemunhai como uma nova calamidade a cada dia aflige o mundo”, adverte Bahá’u’lláh. “Sua doença aproximase da etapa do desespero completo, desde que ao Médico verdadeiro é vedado administrar o remédio, enquanto aqueles sem habilidade são vistos com favor, sendo-lhes concedida plena liberdade de ação.”3

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UMA FÉ EM COMUM Somada à decepção com as promessas do materialismo, uma força de transformação que mina as concepções errôneas da realidade e que foi introduzida pela humanidade no século XXI é a integração global. No nível mais simples, assume a forma de avanços nas tecnologias de comunicação que abrem amplas vias de interação entre as diversas populações do planeta. Além de facilitar intercâmbios entre pessoas e entre sociedades, o acesso geral à informação tem o efeito de transmutar o conhecimento acumulado durante eras, até recentemente propriedade exclusiva das elites privilegiadas, em patrimônio de toda a família humana, sem distinção de nação, raça ou cultura. Apesar de todas as flagrantes desigualdades que a integração global perpetua – em verdade, intensifica – nenhum observador bem-informado pode deixar de reconhecer o estímulo à reflexão sobre a realidade que tais mudanças produziram. Com a reflexão surgiu um questionamento de toda autoridade estabelecida, não mais apenas a autoridade da religião e da moralidade, mas também, do governo, do ensino, do comércio, da mídia e, cada vez mais, da opinião científica. Além dos fatores tecnológicos, a unificação do planeta vem produzindo outros efeitos, ainda mais diretos, sobre o pensamento. Seria impossível exagerar, por exemplo, o impacto transformador sobre a consciência global que resultou das viagens em massa em uma escala internacional. Ainda maiores, têm sido as conseqüências das enormes migrações testemunhadas pelo mundo durante um século e meio a partir do momento que o Báb declarou Sua missão. Milhões de refugiados fugindo das perseguições 10


UMA FÉ EM COMUM varreram como ondas de maré que vão e voltam, particulamente nos continentes europeu, africano e asiático. Em meio ao sofrimento causado por tamanha agitação, percebe-se a integração progressiva das raças e culturas do mundo como cidadãos de uma única pátria global. Como conseqüência, pessoas de todas as origens têm sido expostas a outras culturas e normas, a cujo respeito seus antepassados conheciam pouco ou nada, estimulando uma busca de propósito da qual não se pode escapar. É impossível imaginar o quão diferente teria sido a história do último século e meio, caso algum dos líderes de árbitros dos assuntos mundiais aos quais dirigiu-se Bahá’u’lláh tivesse reservado um tempo para refletir sobre uma concepção da realidade sustentada pelas credenciais morais de seu Autor, credenciais morais do tipo que eles professavam ter na mais elevada estima. O que é incontestável para os bahá’ís é que, a despeito dessa omissão, as transformações anunciadas na mensagem de Bahá’u’lláh estão se cumprindo irresistivelmente. Por meio de se compartilhar descobertas e trabalho árduo, pessoas de diversas culturas encontram-se face a face com a generalidade da humanidade posicionada logo abaixo da superfície das diferenças imaginárias de identidade. Seja recebendo obstinada oposição em algumas sociedades ou sendo bem-vindas em outros lugares como uma libertação das limitações sem sentido e sufocantes, a percepção de que os habitantes da Terra são, de fato, “as folhas de uma só árvore”4 está lentamente tornando-se o padrão pelo qual os esforços coletivos da humanidade são agora julgados. 11


UMA FÉ EM COMUM A perda da fé nas convicções do materialismo e a progressiva globalização da experiência humana reforçam-se mutuamente no anseio que inspiram se compreender o propósito da existência. Valores básicos são desafiados; apegos provincianos são abandonados; exigências, outrora impensáveis, são aceitas. É para este levante universal, explica Bahá’u’lláh, que as escrituras das religiões do passado fizeram uso da imagem de “o Dia da Ressurreição”: “Já se ergueu o brado e o povo saiu das sepulturas, levantando-se e olhando a seu redor.”5 Sob toda comoção e sofrimento, o processo é essencialmente espiritual: “Soprou a brisa do Todo-Misericordioso e as almas se vivificaram nos túmulos de seus corpos.”6

T Ao longo da história, as grandes religiões têm sido os primordiais agentes do desenvolvimento. Para a maioria dos povos da Terra, as escrituras de cada um desses sistemas de crenças serviram, nas palavras de Bahá’u’lláh, como “a Cidade de Deus”7, uma fonte de um conhecimento que abrange completamente a integridade, tão predominante que dota o sincero de “nova visão e de um ouvido novo, de um novo coração e de uma mente nova”.8 Uma vasta literatura, para a qual contribuíram todas as culturas religiosas, registra a experiência de transcendência relatada por gerações de pesquisadores. No decorrer do milênio, as vidas daqueles que responderam ao chamado Divino inspiraram empolgantes realizações na música, arquitetura e outras artes, reproduzindo, 12


UMA FÉ EM COMUM incessantemente, a experiência da alma para milhões de seus companheiros de Fé. Nenhuma outra força existente foi capaz de provocar nas das pessoas comparáveis qualidades de heroísmo, auto-sacrifício e autodisciplina. No âmbito social, os princípios morais resultantes, repetidamente, traduziram-se em códigos universais de lei, regulando e elevando as relações humanas. Vistas em perspectiva, as grandes religiões emergem como as principais forças motrizes do processo civilizador. Argumentar em contrário é, certamente, ignorar a evidência da história. Por que, então, esta herança imensamente rica não serve como palco central para o presente despertar da busca espiritual? Em sua periferia, desvelados esforços estão sendo feitos para reformular os ensinamentos que deram origem às respectivas fés, na esperança de imbuí-las de novo atrativo, porém a maior parte da busca por um propósito é difusa, individualista e incoerente. As escrituras não mudaram; os princípios morais que contêm nada perderam de sua validade. Ninguém que sinceramente faça perguntas ao Céu, caso se realmente persistir, deixará de ouvir uma voz em resposta nos Salmos ou nos Upanishads. Quem quer que possua uma relação com a Realidade que transcenda a esta realidade material, será tocado em seu coração pelas palavras nas quais Jesus ou Buda fala tão intimamente sobre ela. As visões apocalípticas do Alcorão continuam a proporcionar convincente garantia aos seus leitores de que a realização da justiça é fundamental ao propósito Divino. Tão pouco, em seus aspectos essenciais, as vidas dos heróis e santos parecem menos significativas do que o foram quando vividas há 13


UMA FÉ EM COMUM séculos atrás. Para muitas pessoas religiosas, portanto, o mais doloroso aspecto da crise atual da civilização é que a busca da verdade não se volveu confiantemente para os caminhos religiosos conhecidos. O problema, evidentemente, é duplo. A alma racional não ocupa, meramente, uma esfera particular, mas é um participante ativo de uma ordem social. Embora as verdades recebidas das grandes fés permaneçam válidas, a experiência diária de um indivíduo no século XXI está inimaginavelmente distante daquela que ele ou ela teria conhecido em quaisquer das eras em que a guia foi revelada. A democratização da tomada de decisão alterou, fundamentalmente, a relação do indivíduo com a autoridade. Com êxito e confiança crescentes, as mulheres insistem, com toda justiça, em seu direito de plena igualdade com os homens. Revoluções na ciência e na tecnologia alteram não apenas o funcionamento, mas a concepção da sociedade, em verdade, da própria existência. A educação universal e uma explosão de novos campos de criatividade abrem caminho para percepções que estimulam a mobilidade e a integração social, e criam oportunidades das quais a aplicação das leis encoraja o cidadão a tirar plena vantagem. A pesquisa com células-tronco, a energia nuclear, a identidade sexual, a preocupação ecológica e o uso da riqueza suscitam, no mínimo, questões sociais sem precedentes. Estas, e outras incontáveis mudanças que afetam cada aspecto da vida humana, trouxeram à existência um novo mundo de escolhas diárias tanto para a sociedade como para seus membros. O que não mudou é a exigência inescapável de se fazer tais escolhas, para 14


UMA FÉ EM COMUM o bem ou para o mal. É aqui que a natureza espiritual da crise contemporânea alcança seu ponto focal mais nítido, porque a maioria das decisões requeridas não é meramente prática, mas sim, moral. Em grande parte, portanto, a perda da fé na religião tradicional foi uma conseqüência inevitável do fracasso em se descobrir nela a orientação necessária para se viver com modernidade, êxito e segurança. Um segundo obstáculo para o ressurgimento dos sistemas herdados de crença como resposta para os anseios espirituais da humanidade são os já mencionados efeitos da integração global. Por todo o planeta, pessoas criadas em um determinado sistema religioso de referência encontram-se abruptamente atiradas em estreita associação com outras, cujas crenças e práticas mostram-se, à primeira vista, irreconciliavelmente diferentes de suas próprias. As diferenças podem e geralmente dão origem à uma atitude defensiva, a ressentimentos contidos e conflito aberto. Em muitos casos, entretanto, o efeito é, muito mais induzir a uma reconsideração da doutrina herdada e encorajar os esforços para descobrir valores tidos em comum. O apoio desfrutado pelas diversas atividades inter-religiosas, sem dúvida, em muito deve a respostas deste tipo dentre o público em geral. Inevitavelmente, com tais abordagens surge o questionamento daquelas doutrinas religiosas que inibem a associação e o entendimento. Se as pessoas, cujas crenças parecem ser fundamentalmente diferentes das de outrem e, não obstante, levam uma vida moral que merece admiração, o que é, então, que torna a fé de alguém superior a delas? Por outro lado, se todas as grandes religiões possuem em comum 15


UMA FÉ EM COMUM certos valores básicos em comum, não correm os apegos sectários o risco os apegos sectários não correm o risco de meramente reforçar barreiras indesejáveis entre um indivíduo e seus semelhantes? Hoje, poucos dentre aqueles que, possuem algum grau de familiaridade objetiva com o assunto estão dispostos, portanto, a acariciar uma ilusão de que qualquer um dos sistemas religiosos estabelecidos do passado possa assumir o papel de guia final para a humanidade nas questões da vida contemporânea, mesmo no caso improvável de suas seitas discrepantes juntarem-se para este propósito. Cada uma daquelas religiões que o mundo considera como independente está ajustada ao molde criado por sua escritura autorizada e sua história. Posto que não consegue remodelar seu sistema de crença de tal forma que obtenha legitimidade das palavras autorizadas de seu Fundador, de igual modo, não pode responder adequadamente aos inúmeros questionamentos propostos pela evolução social e intelectual. Por mais doloroso que possa parecer para muitos, nada mais é do que uma característica inerente ao processo evolutivo. Esforços para induzir qualquer espécie de reversão somente lograrão desilusões maiores com a própria religião e agravarão conflitos sectários.

T O dilema é ao mesmo tempo artificial e auto-infligido. A ordem mundial, se é que pode ser assim descrita, dentro da qual os bahá’ís atualmente buscam realizar o trabalho de compartilhar a mensagem de 16


UMA FÉ EM COMUM Bahá’u’lláh, traz concepções errôneas tão fundamentais a respeito tanto da natureza humana quanto da evolução social que inibem severamente os esforços mais inteligentes e bem intencionados do aprimoramento humano. Isto é particularmente verdade com relação à confusão que virtualmente envolve todos os aspectos do tema religioso. Para corresponder adequadamente às necessidades espirituais de seus semelhantes, os bahá’ís terão de alcançar uma compreensão profunda das questões envolvidas. O esforço de imaginação que esse desafio requer pode ser avaliado a partir do conselho que é, talvez, a admoestação mais freqüente e insistentemente reiterada nos escritos de sua Fé: “meditar”, “ponderar”, “refletir”. Um lugar comum do discurso popular é que por “religião” compreende-se as inúmeras seitas atualmente existentes. Não é de surpreender que essa idéia suscite de imediato em alguns grupos o protesto de que por religião entende-se um ou outro dos grandes, independentes sistemas de crença da história que moldaram e inspiraram civilizações inteiras. Este ponto de vista, por sua vez, entretanto, defronta-se com a inevitável indagação quanto a onde serão encontradas essas fés históricas no mundo contempor��neo. Onde, precisamente, está o “judaísmo”, o “budismo”, o “cristianismo”, o “islamismo” e as demais, uma vez que, obviamente, elas não podem ser identificadas com as organizações irreconciliavelmente opostas que têm a pretensão de falar com autoridade em seu nome? Nem acaba aqui o problema. Ainda outra resposta à indagação certamente será que por religião entende-se 17


UMA FÉ EM COMUM simplesmente uma atitude para com a vida, um sentimento de relação com uma Realidade que transcende à existência material. A religião, assim concebida, é um atributo do indivíduo, um impulso não suscetível de organização, uma experiência universalmente disponível. Mais uma vez, no entanto, tal orientação será vista, por uma maioria de pessoas de inclinação religiosa, como carente da própria autoridade de autodisciplina e do efeito unificador que dão sentido à religião. Alguns opositores poderiam até argumentar que, ao contrário, a religião significa o estilo de vida das pessoas que, como eles próprios, adotaram regimes severos de ritual diário e abnegação, colocam-se totalmente à parte do resto da sociedade. O que todas essas diferentes concepções têm em comum é a medida na qual um fenômeno, que reconhecidamente transcende totalmente o alcance humano, tem sido, contudo, aprisionado dentro de limites conceituais – sejam estes organizacionais, teológicos, empíricos ou rituais – inventados pelo homem. Os ensinamentos de Bahá’u’lláh vão além deste emaranhado de visões inconsistentes e, ao fazê-lo, reformulam muitas verdades que, explícita ou implicitamente, repousam no âmago de toda revelação divina. Embora não constitua, de maneira alguma, uma interpretação abrangente de Seu propósito, Bahá’u’lláh deixa claro que as tentativas de apreender ou propor a Realidade de Deus em catecismos e credos são exercícios que levam de auto-decepção: “É evidente a todo coração iluminado e possuidor de discernimento que Deus, a Essência incognoscível, o Ser Divino, é imensamente elevado além de todos os 18


UMA FÉ EM COMUM atributos humanos, tais como existência corpórea, ascensão e descida, saída e regresso. Longe esteja de Sua glória que a língua humana celebre adequadamente Seu louvor ou o coração humano compreenda Seu insondável mistério.”9 O meio através do qual o Criador de todas as coisas interage com uma criação em permanente evolução que Ele trouxe à existência é o aparecimento das Figuras proféticas que manifestam os atributos de uma Divindade inacessível: “Estando a porta do conhecimento do Ancião dos Dias assim fechada ante a face de todos os seres, determinou Aquele Que é a Fonte da graça infinita... que aparecessem do reino do espírito, aquelas luminosas Jóias da Santidade na nobre forma do templo humano, manifestando-se a todos os homens, para que dessem ao mundo o conhecimento dos mistérios do Ser imutável e relatassem as sutilezas de Sua Essência imperecedoura.”10 Atrever-se a julgar os Mensageiros de Deus, enaltecendo um acima do outro, seria ceder à ilusão de que o Eterno e Todo-Abrangente está sujeito aos caprichos da preferência humana. “É claro e evidente a ti”, são as exatas palavras de Bahá’u’lláh, “que todos os Profetas são os Templos da Causa de Deus, embora aparecendo adornados de vestes diversas. Se observares com olhos discernentes, verás que todos habitam no mesmo tabernáculo, voam no mesmo céu, sentam-se no mesmo trono, proferem as mesmas palavras e proclamam a mesma Fé.”11 Imaginar, ainda, que a natureza dessas Figuras inigualáveis possa – ou necessite – conter teorias emprestadas da experiência física é igualmente presunçoso. O que se 19


UMA FÉ EM COMUM quer dizer por “conhecimento de Deus”, Bahá’u’lláh explica, é o conhecimento dos Manifestantes que revelam Sua vontade e atributos, e é aqui que a alma entra em íntima associação com um Criador que, diferentemente, transcende tanto a linguagem quanto a compreensão: “Dou testemunho” é a asserção de Bahá’u’lláh a respeito da posição do Manifestante de Deus, “...de que a beleza do Ser Adorado se revelou através de Tua beleza, e a face do Desejado se irradiou através de Tua face....”.12 A religião, assim concebida, desperta a alma para potencialidades que de outra forma são inimagináveis. Na medida em que um indivíduo aprende a se beneficiar da influência da revelação de Deus para sua época, sua natureza torna-se progressivamente imbuída dos atributos do mundo divino: “Através dos Ensinamentos deste Sol da Verdade”, Bahá’u’lláh explica, “todo homem progredirá e se desenvolverá até atingir o grau em que possa manifestar todas as forças potenciais de que seu mais íntimo e verdadeiro ser foi dotado.”13 Como o propósito da humanidade inclui levar avante “uma civilização destinada a evoluir para sempre”14, de maneira alguma é o menor dentre os extraordinários poderes que a religião possui, sua habilidade de libertar os que crêem das limitações do próprio tempo, evocando neles sacrifícios em favor de gerações de séculos futuros. De fato, sendo a alma imortal, seu despertar para sua própria natureza capacita-a, não apenas neste mundo, porém ainda mais diretamente nos mundos do além, a servir o processo evolucionário: “Da luz irradiada por essas almas”, afirma Bahá’u’lláh, “dependem o progresso do mundo e o 20


UMA FÉ EM COMUM adiantamento de seus povos... É mister que todas as coisas tenham uma causa, uma força motriz, um princípio animador. Essas almas, símbolos do desprendimento, têm provido e continuarão a prover o impulso supremo que move o mundo dos seres.”15 A crença é, portanto, um anseio necessário e inextinguível da espécie, que foi descrito por um influente pensador moderno como “a evolução tornase consciente de si própria”.16 Se, como fornecem triste e irrefutável evidência os eventos do século XX, a expressão natural da fé é artificialmente bloqueada, ela inventa objetos de adoração ainda que indignos – ou mesmo degradantes – que possam, em alguma medida, apaziguar o anelo pela certeza. É um impulso que não será renunciado. Em resumo, através do processo contínuo de revelação, Aquele que é a Fonte do sistema de conhecimento que chamamos religião demonstra a integridade desse sistema e sua independência das contradições impostas por ambições sectárias. O trabalho de todo Manifestante de Deus possui uma autonomia e uma autoridade que transcendem a qualquer avaliação; é também um estágio no ilimitado desdobrar de uma única Realidade. Porque o propósito das sucessivas revelações de Deus é o despertar da humanidade para suas capacidades e responsabilidades como fideicomissária da criação, o processo é não apenas repetitivo, mas progressivo, e somente pode ser plenamente avaliado, quando percebido neste contexto. Em nenhum sentido, podem os bahá’ís pretender haver compreendido, neste momento inicial, mais do que uma ínfima parte das verdades inerentes 21


UMA FÉ EM COMUM à revelação na qual se baseia sua Fé. Com relação, por exemplo, à evolução da Causa, o Guardião disse: “Tudo que razoavelmente podemos nos aventurar a fazer é nos esforçar por obter um pálido vislumbre dos primeiros traços da prometida Aurora, a qual, na plenitude dos tempos, há de dissipar as trevas que envolvem a humanidade.”17 Além de encorajar a humildade, este fato deveria também servir como um constante lembrete de que Bahá’u’lláh não trouxe à existência uma nova religião para se somar à atual multiplicidade de organizações sectárias. Ao contrário, Ele reformulou todo o conceito de religião como a principal força que impulsiona o desenvolvimento da consciência. Assim como a raça humana em toda sua diversidade é uma única espécie, também é um único processo a intervenção pela qual Deus cultiva as qualidades da mente e do coração latentes nessa espécie. Seus heróis e santos são os heróis e santos de todos os estágios nesse esforço supremo; seus êxitos, os êxitos de todos os estágios. Este é o padrão demonstrado na vida e obra do Mestre e exemplificado hoje em uma comunidade bahá’í que se tornou a herdeira de todo o legado espiritual da humanidade, um legado igualmente disponível a todos os povos da Terra.

T A prova recorrente da existência de Deus, portanto, é que, desde os tempos imemoriais, Ele tem Se manifestado repetidamente. No sentido mais amplo, como explica Bahá’u’lláh, a extensa epopéia da 22


UMA FÉ EM COMUM história religiosa da humanidade representa o cumprimento do “Convênio”, a promessa duradoura pela qual o Criador de todas as coisas garante à raça humana a infalível guia essencial para seu desenvolvimento moral e espiritual, e a quem conclama a internalizar e expressar esses valores. Alguém pode contestar, através de interpretações historicistas, se for este seu propósito, mas tal especulação de nada serve para esclarecer os desenvolvimentos que transformaram o pensamento e produziram mudanças nas relações humanas decisivas para a evolução social. A intervalos tão raros que os exemplos conhecidos podem ser contados nos dedos, os Manifestantes de Deus surgiram, cada qual sendo explícito quanto à autoridade de Seus ensinamentos e exercido uma influência no avanço da civilização, incomparavelmente superior ao de qualquer outro fenômeno na história. “Considera tu a hora em que o supremo Manifestante de Deus revelaSe aos homens”, assinala Bahá’u’lláh: “Antes de vir essa hora, o Ser Antigo, que está ainda desconhecido dos homens e não deu expressão ainda ao Verbo de Deus, é, Ele próprio, o Onisciente em um mundo destituído de qualquer homem que O tenha conhecido. Ele é, em verdade, o Criador sem criação.”18

T A objeção mais comumente feita à mencionada concepção de religião é a asserção de que as diferenças entre as fés reveladas são tão fundamentais 23


UMA FÉ EM COMUM que apresentá-las como estágios ou aspectos de um sistema unificado da verdade é afrontar os fatos. Dada à confusão que cerca a natureza da religião, a reação é compreensível. Especialmente, entretanto, tal objeção oferece um convite aos bahá’ís para expor os princípios aqui examinados mais explicitamente no contexto evolucionário apresentado nos escritos de Bahá’u’lláh. As diferenças aludidas incluem-se tanto na categoria prática como doutrinária, ambas apresentadas como o propósito das escrituras relevantes. No caso dos costumes religiosos que regulam a vida pessoal, é útil observar o assunto em contraste com as realizações de características comparáveis da vida material. É bastante improvável que a diversidade em assuntos de higiene, vestuário, medicamentos, alimentação, transporte, operações militares, construção ou atividade econômica, por mais impressionantes que sejam, não mais continuarão seriamente apoiando a teoria de que a humanidade não constitua, de fato, um só povo, singular e único. Até a chegada do século XX, esses argumentos simplistas eram lugar-comum, mas pesquisas antropológicas e históricas proporcionam agora um panorama uniforme do processo de evolução cultural, através do qual estas e outras incontáveis expressões da criatividade humana vieram a existir, foram transmitidas através de sucessivas gerações, sofreram metamorfoses e freqüentemente propagaram-se a fim de enriquecer as vidas dos povos em terras longínquas. Que as sociedades de hoje representam um amplo espectro de tal fenômeno, portanto, de modo algum define uma identidade fixa e imutável 24


UMA FÉ EM COMUM dos povos em questão, mas simplesmente distingue o estágio pelo qual certos grupos estão – ou pelo menos estavam até recentemente – passando. Mesmo assim, todas essas expressões culturais encontram-se agora em um estado de fluidez, em conseqüência das pressões da integração planetária. Um processo evolutivo similar, enuncia Bahá’u’lláh, tem caracterizado a vida religiosa da humanidade. A diferença determinante jaz no fato de que, ao invés de simplesmente representar os acidentes do contínuo método histórico de tentativa e erro, tais normas foram explicitamente prescritas em cada caso, como aspectos integrais de uma ou outra revelação do Divino, incorporadas na escritura, sendo sua integridade escrupulosamente mantida por um período de séculos. Enquanto certos aspectos de cada código de conduta por fim cumpririam seu propósito e com o tempo seriam ofuscados por interesses de natureza diferente causados pelo processo de evolução social, o código, em si, nada perdia de sua autoridade durante o longo estágio do progresso humano, no qual desempenhava um papel vital na educação do comportamento e das atitudes. “Esses princípios e leis, esses sistemas firmemente estabelecidos e poderosos”, afirma Bahá’u’lláh, “procederam de uma mesma Origem e são os raios de uma só Luz. O fato de que diferem uns dos outros deve ser atribuído aos vários requisitos das épocas em que foram promulgados.”19 Argumentar, portanto, que diferenças de normas, ritos e outras práticas constituem qualquer objeção significativa à idéia da unicidade essencial da religião revelada é deixar de entender o propósito a que serviram essas prescrições. Ainda mais grave, 25


UMA FÉ EM COMUM não entende a distinção fundamental entre as características eternas e as transitórias da função da religião. A mensagem essencial da religião é imutável. É, nas palavras de Bahá’u’lláh, “a imutável Fé divina, eterna no passado, eterna no futuro”.20 Seu papel de abrir caminho para a alma assumir uma relação eternamente madura com seu Criador – e de dotá-la de uma medida contínua de autonomia moral para controlar os impulsos animais da natureza humana – não é, de maneira alguma, irreconciliável com sua ação de fornecer guia auxiliar que intensifique o processo de construção da civilização. O conceito de revelação progressiva coloca ênfase máxima no reconhecimento da revelação de Deus em seu surgimento. O insucesso da generalidade da humanidade a esse respeito tem, continuamente, condenado populações inteiras a uma repetição ritualista de normas e práticas muito tempo após estas últimas terem cumprido seu propósito e que agora meramente estupidificam o progresso moral. Tristemente, hoje em dia, uma conseqüência decorrente de tal insucesso é a banalização da religião. Precisamente no ponto de seu desenvolvimento coletivo em que a humanidade começava a enfrentar os desafios da modernidade, o recurso espiritual do qual havia principalmente dependido para obter coragem moral e iluminação, rapidamente transformava-se em objeto de escárnio, primeiro, naquelas instâncias em que eram tomadas decisões referentes à direção que a sociedade deveria tomar e, posteriormente, em círculos cada vez maiores da população em geral. Há pouca razão para surpresa, portanto, de que esta mais devastadora de muitas 26


UMA FÉ EM COMUM traições de confiança da qual padeceu a credibilidade humana iria, no decorrer do tempo, solapar os fundamentos da própria fé. É por isso que Bahá’u’lláh repetidamente insta Seus leitores a pensar profundamente sobre a lição deixada por tais repetidos insucessos: “Ponderai por um momento e refleti sobre aquilo que deu origem a essa negação....”21 “Qual teria sido o motivo de tal negação e afastamento...?”22 “Que teria causado tão grande contenda...?”23 “Refleti: Qual teria sido o motivo...?”24 Ainda mais prejudicial ao entendimento religioso tem sido a presunção teológica. Um aspecto persistente do passado sectário da religião tem sido o papel dominante desempenhado pelo clero. Na ausência de textos das escrituras que tivessem estabelecido uma autoridade institucional irrefutável, foi possível às elites clericais atribuir a si mesmas o controle exclusivo da interpretação do propósito Divino. Embora diversos os motivos, os efeitos trágicos foram impedir o fluxo de inspiração, desestimular a atividade intelectual independente, concentrar a atenção nas minúcias dos rituais e, com muita freqüência, gerar ódio e preconceito contra aqueles que seguem um caminho sectário diferente daquele dos autoproclamados líderes espirituais. Ainda que nada pudesse impedir o poder criativo da intervenção Divina de continuar seu trabalho de, progressivamente, gerar consciência progressivamente, o âmbito do que poderia ser alcançado, em todas as épocas, tornou-se cada vez mais limitado por esses obstáculos artificialmente construídos. 27


UMA FÉ EM COMUM Com o passar do tempo, a teologia pôde construir no núcleo de cada uma das grandes fés uma autoridade paralela, e até hostil em espírito, aos ensinamentos revelados nos quais baseava-se a tradição. A conhecida parábola de Jesus sobre o proprietário de terras que semeava em seu campo trata tanto desta questão como de suas implicações para o tempo presente: “Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirouse.”25 Quando seus servos se propuseram a arrancálo, o proprietário de terras respondeu: “Não; para que ao colher o joio não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar; mas o trigo ajuntai-o no meu celeiro.”26 Ao longo de suas páginas, o Alcorão reserva sua condenação mais severa para o dano espiritual causado pela disputa por hegemonia: “Dize: Meu Senhor vedou unicamente as obscenidades, paladinas ou íntimas; o delito; a agressão injusta; o atribuir semelhantes a Ele, porque jamais deu autorização a que digais dEle o que ignorais.”27 Para a mente moderna a maior das ironias é que as gerações de teólogos, cujas imposições à religião incorporam exatamente a deslealdade tão fortemente denunciada nesses textos, buscassem usar essa mesma advertência como arma para suprimir os protestos contra sua própria usurpação da autoridade Divina. Conseqüentemente, cada novo estágio no progressivo desdobrar da revelação da verdade espiritual foi congelado no tempo e em uma ostentação de imagens e interpretações literais, muitas das quais 28


UMA FÉ EM COMUM emprestadas de culturas que estavam, elas próprias, moralmente esgotadas. Qualquer que tenha sido seu valor nos primeiros estágios da evolução da consciência, os conceitos de ressurreição física, de um paraíso de deleites carnais, reencarnação, prodígios panteístas e outros semelhantes, hoje erguem muralhas de separação e conflito, em uma época na qual a Terra, literalmente, tornou-se uma única pátria e os seres humanos devem aprender a se ver como seus cidadãos. Neste contexto pode-se entender as razões da veemência das advertências de Bahá’u’lláh quanto às barreiras que a teologia dogmática cria no caminho daqueles que procuram compreender a vontade de Deus: “Ó líderes da religião! Não peseis o Livro de Deus com os padrões e ciências correntes entre vós, pois o próprio Livro é a infalível Balança estabelecida entre os homens.”28 Em Sua Epístola ao papa Pio IX, Ele adverte o pontífice que Deus, neste Dia, “guardou nos vasos da justiça” tudo o que é duradouro na religião e “lançou ao fogo aquilo que disto era digno”.29

T Livre dos emaranhados com que a teologia confinou o entendimento religioso, a mente capacita-se a explorar passagens conhecidas das escrituras através dos olhos de Bahá’u’lláh. “Incomparável é este Dia”, assevera Ele, “pois é como olhos para passados séculos e eras, como uma luz para a escuridão dos tempos.”30 A observação mais extraordinária que resulta de tirar vantagem desta perspectiva é a unidade de propósito 29


UMA FÉ EM COMUM e de princípio que permeiam as escrituras hebraicas, o Evangelho e o Alcorão, particularmente, embora ecos possam ser prontamente discernidos nas escrituras de outras dentre as religiões mundiais. Repetidamente, os mesmos temas organizacionais emergem da matriz dos preceitos, exortações, narrativas, simbolismos e interpretações na qual estão inseridos. Dessas verdades fundamentais, de longe, a mais distintiva é a articulação progressiva e a asserção enfática da unicidade de Deus, Criador de toda a existência, seja do mundo fenomenal como daqueles reinos que o transcendem. “Eu sou o Senhor”, declara a Bíblia, “e não há outro: fora de mim não há Deus...”31, e o mesmo conceito sustenta os ensinamentos posteriores de Cristo e de Muhammad. A humanidade – ponto focal, herdeira e fideicomissária do mundo – existe para conhecer seu Criador e servir a Seu propósito. Em sua expressão mais elevada, o impulso humano inato de reação assume a forma de adoração, uma condição que requer devotada submissão a um poder que é reconhecido como merecedor desta reverência. “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus seja honra e glória para todo o sempre.”32 Inseparável do próprio espírito de reverência é sua expressão no serviço ao propósito Divino para a humanidade. “Dize-lhes, ainda: A graça está na mão de Deus, que a concede a Seu critério, porque é Munificente, Sapientíssimo.”33 Iluminadas por essa compreensão, as responsabilidades da humanidade são claras: “A virtude não consiste só em que orienteis vossos rostos até o levante ou o poente”, afirma o Alcorão: “A 30


UMA FÉ EM COMUM verdadeira virtude é a de quem crê em Deus.... de quem distribui seus bens em caridade por amor a Deus, entre parentes, órfãos, necessitados, viandantes, mendigos...”.34 “Vós sois o sal da terra”35, salienta Cristo àqueles que respondem a Seu chamado. “Vós sois a luz do mundo.”36 Resumindo um tema que surge repetidamente ao longo das escrituras hebraicas e subseqüentemente reaparece no Evangelho e no Alcorão, indaga o profeta Miquéias, “...e o que é que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benevolência, e andes humildemente com o teu Deus?”.37 Igualmente, estes textos concordam que a capacidade da alma de alcançar uma compreensão do propósito de seu Criador não é meramente o produto de seu próprio esforço, mas de intervenções do Divino que lhe abrem o caminho. Este ponto foi colocado com memorável clareza por Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim.”38 Caso não se veja nessa afirmação apenas um desafio dogmático às outras etapas no contínuo processo de guia divina, ela é obviamente a expressão da verdade central de toda religião revelada: que o acesso àquela Realidade incognoscível que cria e sustenta a existência só é possível mediante o despertar para a iluminação irradiada a partir daquele Reino. Uma das suras mais apreciadas do Alcorão retoma a metáfora: “Deus é a luz dos céus e da terra... É luz sobre luz! Deus conduz até Sua Luz a quem Lhe apraz.” 39 No caso dos profetas hebreus, o Intermediário divino que devia aparecer mais tarde no cristianismo na pessoa do Filho do Homem, e no islamismo como o Livro de Deus, assumiu a forma de 31


UMA FÉ EM COMUM um Convênio obrigatório estabelecido pelo Criador com Abraão, Patriarca e Profeta: “E estabelecerei o meu convênio entre mim e ti e a tua semente depois de ti em suas gerações, por convênio perpétuo, para te ser a ti por Deus, e à tua semente depois de ti.”40 A sucessão de revelações do Divino também aparece como um aspecto implícito – e normalmente explícito – de todas as grandes fés. Uma de suas primeiras e mais claras expressões encontra-se no Bhagavad-Gita: “Eu venho, e vou, e venho. Quando a Retidão declina, Ó Bharata! Quando a Perversidade é intensa, levanto-Me, de época em época, e assumo a forma visível, e me movo como um homem entre os homens, socorrendo aos bons, reprovando a maldade, e restabelecendo a Virtude em seu assento.”41 Este drama contínuo constitui a estrutura básica da Bíblia, cuja seqüência de livros relata não apenas as missões de Abraão e Moisés – “a quem o Senhor conheceu cara a cara”42 – mas também a linha dos profetas menores que desenvolveram e consolidaram o trabalho que esses Autores iniciais do processo colocaram em marcha. Semelhantemente, nenhum montante de especulação controversa e fantástica sobre a exata natureza de Jesus poderia conseguir separar Sua missão da influência transformadora exercida no curso da civilização pela obra de Abraão e de Moisés. Ele próprio adverte que não é Ele Quem condenará aqueles que rejeitarem a mensagem da qual é portador, mas sim Moisés: “em quem vós confiais. Porque, se tivésseis acreditado em Moisés, teríeis acreditado em Mim: porque de Mim escreveu Ele. Mas se não acreditas em Seus escritos, como acreditarás em Minhas palavras?”43 Com a revelação do Alcorão, o 32


UMA FÉ EM COMUM assunto da sucessão dos Mensageiros de Deus tornase central: “Acreditamos em Deus, e na revelação que nos foi concedida, e a Abraão, a Ismail, a Isaac, a Jacó ... na que foi concedida a Moisés e a Jesus, e que foi concedida aos (todos) Profetas por seu Senhor...”.44 Para um leitor simpatizante e objetivo de tais passagens, o que sobressai é o reconhecimento da unicidade essencial da religião. É assim que o termo “islã” (literalmente “submissão” a Deus) designa não apenas a particular dispensação da Providência inaugurada por Muhammad mas, assim como as palavras do Alcorão tornam incontestavelmente claro, a própria religião. Embora seja correto falar da unidade de todas as religiões, a compreensão do contexto é vital. No nível mais profundo, conforme enfatiza Bahá’ú’lláh, não há mais que uma só religião. Religião é religião, assim como ciência é ciência. Uma distingue e enuncia os valores que desabrocham progressivamente através da revelação Divina; a outra é o meio pelo qual a mente humana explora e é capaz de exercer sua influência, de maneira cada vez mais precisa, sobre o mundo fenomenal. A primeira define objetivos que servem ao processo evolutivo; a segunda ajuda a alcançá-los. Juntas, constituem o sistema duplo de conhecimento que impulsiona o avanço da civilização. Cada uma delas é aclamada pelo Mestre como um “esplendor do Sol da Verdade”45. É, portanto, um reconhecimento inadequado da singular posição de Moisés, Buda, Zoroastro, Jesus, Muhammad – ou da sucessão de Avatares que inspiraram as escrituras hindus – retratar sua obra como a fundação de religiões distintas. Antes, são valorizados quando reconhecidos como Educadores 33


UMA FÉ EM COMUM espirituais da história, como as forças inspiradoras do surgimento das civilizações, através das quais floresceu a consciência: “Estava no mundo,” declara o Evangelho, “e o mundo foi feito por Ele...”.46 Que suas pessoas tenham sido reverenciadas infinitamente acima de quaisquer outras figuras históricas reflete o esforço em articular sentimentos de outro modo inexprimíveis que brotaram nos corações de incontáveis milhões de pessoas pelas bênçãos conferidas por sua obra. Ao amá-los, a humanidade progressivamente aprendeu o que significa amar a Deus. Não há, realisticamente, outra maneira de fazêlo. Não são honrados através de esforços titubeantes de apreender o mistério essencial de sua natureza em dogmas inventados pela imaginação humana: o que os honra é a rendição incondicionada da vontade da alma à influência transformadora da qual são mediadores.

T Confusão quanto ao papel da religião de cultivar a consciência moral é igualmente aparente no entendimento popular quanto à sua contribuição na formação da sociedade. Talvez o exemplo mais óbvio seja o status social inferior que a maioria dos textos sagrados designa às mulheres. Embora os benefícios resultantes desfrutados pelos homens fossem, sem dúvida, um grande fator de consolidação desse conceito, a justificativa moral era inquestionavelmente suprida pelo entendimento das pessoas quanto ao propósito das próprias escrituras. Com poucas 34


UMA FÉ EM COMUM exceções, esses textos são dirigidos aos homens, destinando às mulheres um papel de apoio e de subordinação na vida tanto da religião quanto da sociedade. Lamentavelmente, tal entendimento tornava deploravelmente fácil atribuir às mulheres a culpa de não conseguir disciplinar o impulso sexual, um aspecto vital do desenvolvimento moral. Em um quadro de referência moderno, atitudes como deste tipo são imediatamente reconhecidas como preconceituosas e injustas. Nos estágios de desenvolvimento social nos quais surgiram todas as grandes religiões, a guia das escrituras buscava principalmente civilizar, tanto quanto possível, os relacionamentos resultantes de circunstâncias históricas intratáveis. Pouco discernimento é necessário para se perceber que o apego às normas primitivas nos dias atuais frustraria o próprio propósito da religião quanto ao paciente cultivo do senso de moral. Considerações semelhantes foram feitas no que diz respeito às relações entre as sociedades. A longa e árdua preparação do povo hebreu para a missão que lhe era exigida ilustra a complexidade e o caráter inflexível dos desafios morais envolvidos. A fim de que as capacidades espirituais evocadas pelos profetas pudessem despertar e florescer, os atrativos oferecidos pelas culturas idólatras vizinhas deveriam, a todo custo, ser resistidos. Relatos nas escrituras das condignas punições, aplicadas tanto a governantes como a súditos que violavam esse princípio, ilustraram a importância atribuída a ele pelo desígnio Divino. Uma questão de certa semelhança surgiu na luta da recém-nascida comunidade fundada por Muhammad para sobreviver 35


UMA FÉ EM COMUM às tentativas das tribos árabes pagãs de extinguí-la – e na crueldade bárbara e no inexorável espírito de vingança que animava os atacantes. Ninguém familiarizado com os detalhes históricos terá dificuldade para compreender a severidade das injunções do Alcorão sobre o assunto. Ainda que se demonstrasse respeito pelas crenças monoteístas dos judeus e dos cristãos, nenhuma concessão era permitida à idolatria. Em um espaço de tempo relativamente curto, esta regra draconiana conseguiu unificar as tribos da Península Arábica e lançar a recém-moldada comunidade a bem mais de cinco séculos de realizações morais, intelectuais, culturais e econômicas, sem iguais, nem antes nem depois, na velocidade e no âmbito de sua expansão. A história tende a ser um juiz severo. Enfim, em sua perspectiva intransigente, as conseqüências para aqueles que cegamente reprimiram tais empreendimentos em sua origem estarão para sempre à parte dos benefícios advindos ao mundo como um todo do triunfo da visão bíblica das possibilidades humanas e dos avanços tornados possíveis pelo caráter distintivo da civilização islâmica. Entre as mais controversas dessas discussões sobre o entendimento da evolução da sociedade em direção à maturidade espiritual encontram-se a do crime e a do castigo. Embora diferentes nos detalhes e em grau, as penalidades prescritas pela maioria dos textos sagrados para atos de violência contra tanto a comunidade quanto os direitos de outros indivíduos tendiam a ser severas. Além disso, freqüentemente concediam a permissão da retaliação às partes prejudicadas ou aos membros de suas famílias contra 36


UMA FÉ EM COMUM seus ofensores. Em uma perspectiva histórica, entretanto, pode-se muito bem perguntar quais alternativas práticas existiam. Na ausência não apenas de programas atuais de transformação comportamental, mas também do recurso de opções repressivas tais como prisões e agências de policiamento, a preocupação da religião era imprimir indelevelmente na consciência geral a inaceitabilidade moral – e os prejuízos práticos – da conduta cujo efeito, de outra maneira, seria o de desmoralizar os esforços para o progresso social. A totalidade da civilização, desde então, tem sido a beneficiária, e não seria de modo algum honesto deixar de reconhecer este fato. Assim tem sido ao longo de todas as dispensações religiosas cujas origens foram salvaguardadas em registros escritos. A mendicância, a escravidão, a autocracia, a conquista, os preconceitos étnicos e outros aspectos indesejáveis da interação social permaneceram incontestados – ou foram explicitamente tolerados – à medida que a religião buscava alcançar reformas de comportamento que eram consideradas mais imediatamente essenciais em determinados estágios do avanço da civilização. Condenar a religião porque alguma de suas sucessivas dispensações deixou de tratar de todo o âmbito dos males sociais seria ignorar tudo o que se aprendeu sobre a natureza do desenvolvimento humano. Inevitavelmente, um pensamento anacrônico deste tipo pode também criar graves limitações psicológicas ao se avaliar e enfrentar as necessidades da época em que se vive. 37


UMA FÉ EM COMUM A questão não é o passado, mas suas implicações para o presente. Problemas surgem quando os seguidores de uma das fés mundiais mostram-se incapazes de distinguir entre seus aspectos eternos e os transitórios, e tentam impor à sociedade regras de comportamento que há muito já cumpriram seu propósito. Este princípio é fundamental para se compreender o papel social da religião: “O remédio que o mundo necessita em suas aflições hodiernas não pode ser, jamais, o mesmo daquele requisitado por uma era subseqüente”, assinala Bahá’u’lláh. “Cuidai zelosamente das necessidades da era em que viveis e concentrai vossas deliberações em suas exigências e seus requisitos.”47

T As exigências da nova época da experiência humana para as quais Bahá’u’lláh convocou os líderes políticos e religiosos do mundo do século XIX já foram amplamente adotadas, pelo menos como ideais, por seus sucessores e por mentes progressistas em todas as partes. Quando o século XX aproximava-se de seu final, princípios que, apenas há poucas décadas antes, haviam sido condescendentemente tomados como visionários e incorrigivelmente irrealistas tornaramse centrais para o discurso global. Apoiados pelos descobrimentos da pesquisa científica e pelas conclusões de comissões influentes – em geral prodigamente financiadas – orientam o trabalho de poderosas agências a níveis local, nacional e internacional. Uma quantidade substancial de 38


UMA FÉ EM COMUM literatura erudita em muitas línguas é dedicada à exploração de meios práticos para sua implementação, e esses programas podem contar com a atenção da mídia nos cinco continentes. A maioria desses princípios é, lamentavelmente, também amplamente escarnecido, não apenas entre os reconhecidos inimigos da paz social, mas também em círculos declaradamente comprometidos com eles. O que falta não são testemunhos convincentes quanto à sua relevância, mas o poder da convicção moral que pode implementá-los, um poder cuja única fonte comprovadamente confiável ao longo da história tem sido a fé religiosa. Até o alvorecer da própria missão de Bahá’u’lláh, a autoridade religiosa ainda exercia um grau significativo de influência social. Quando o mundo cristão foi levado a romper com milênios de convicção inquestionável e tratar finalmente do mal da escravidão, foi para aos ideais bíblicos que os primeiros reformadores britânicos procuraram recorrer. Subseqüentemente, no determinante discurso que fez com relação ao papel central desempenhado por essa questão no grande conflito da América do Norte, o presidente dos Estados Unidos advertiu que se “cada gota de sangue derramada pelo chicote deve ser paga por outra derramada pela espada, conforme foi dito três mil anos atrás, então, também deve ser dito ‘os julgamentos do Senhor são inteiramente justos e verdadeiros’”48. Essa era, contudo, rapidamente aproximava-se de seu final. Nos levantes que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, até mesmo uma figura tão influente quanto Mohandas Ghandi mostrouse incapaz de mobilizar o poder espiritual do 39


UMA FÉ EM COMUM hinduísmo em apoio a seus esforços de extinguir a violência sectária no subcontinente indiano. Tão pouco os líderes da comunidade islâmica foram mais eficazes neste respeito. Assim como fora prognosticado na visão metafórica do Alcorão como “O dia em que enrolaremos o céu como rolo de pergaminho”49, a outrora incontestável autoridade das religiões tradicionais cessara de dirigir as relações sociais da humanidade. É nesse contexto que se começa a compreender a imagem que Bahá’u’lláh escolheu para retratar a vontade de Deus para uma nova era: “Não penseis que Nós vos revelamos um mero código de leis. Não! mais do que isso: deslacramos o Vinho seleto com os dedos da grandeza e do poder.”50 Através de Sua revelação, os princípios necessários para se alcançar a coletiva maturidade da raça humana foram investidos com o poder único capaz de penetrar até as raízes da motivação humana e de transformar o comportamento. Para aqueles que O reconheceram, a igualdade entre homens e mulheres não é um postulado sociológico, mas verdade revelada a respeito da natureza humana, com implicações para cada aspecto das relações humanas. O mesmo é verdadeiro no que diz respeito a Seu ensinamento sobre a unicidade racial. A educação universal, a liberdade de pensamento, a proteção dos direitos humanos, o reconhecimento dos vastos recursos da Terra como fideicomisso de toda a humanidade, a responsabilidade da sociedade para com o bem-estar da coletividade, a promoção da pesquisa científica, até mesmo um princípio tão prático como uma língua auxiliar universal que promova a integração dos povos 40


UMA FÉ EM COMUM da Terra – para todos os que respondem à revelação de Bahá’u’lláh, esses e outros preceitos similares carregam a mesma irresistível autoridade das injunções das escrituras contra a idolatria, o roubo e o falso testemunho. Embora alusões a alguns deles possam ser percebidas em escrituras sagradas anteriores, sua definição e prescrição teriam necessariamente de aguardar até que as populações heterogêneas do planeta pudessem caminhar juntas na descoberta de sua natureza como uma única raça humana. Através da potencialidade espiritual conferida pela revelação de Bahá’u’lláh, os padrões divinos podem ser discernidos, não como leis e princípios isolados, mas como facetas de uma visão única e toda-abrangente do futuro da humanidade, revolucionária em seu propósito, inebriante nas possibilidades que descortina. Integrados a esses ensinamentos encontram-se princípios que tratam da administração dos assuntos coletivos da humanidade. Uma passagem amplamente citada da Epístola de Bahá’u’lláh à rainha Vitória expressa exaltação enfática do princípio de governo constitucional e democrático, mas é também uma advertência sobre o contexto da responsabilidade global na qual deve operar este princípio para que possa realizar seu propósito nesta era: “Ó vós, os representantes eleitos do povo em todas as terras! Aconselhai-vos juntos e considerai somente o que possa trazer proveito à humanidade e lhe melhorar a condição, se sois dos que perscrutam atentamente. Vede o mundo como o corpo humano, o qual, embora inteiro e perfeito no tempo de sua criação, tem sido afligido, por várias causas, com graves males e 41


UMA FÉ EM COMUM doenças. Nem por um só dia obteve sossego; ao contrário, sua enfermidade tornou-se mais severa, pois foi sujeitado ao tratamento de médicos inábeis, que se entregavam inteiramente a seus desejos pessoais e erraram de um modo lastimável. E se, em alguma ocasião, através do cuidado de um médico capaz, um membro desse corpo foi curado, os outros continuavam aflitos como antes.” 51 Em outras passagens, Bahá’u’lláh explana algumas das implicações práticas. Os governos do mundo são solicitados a convocar um corpo consultivo internacional como a base, nas palavras do Guardião, de “um sistema federal mundial”52 autorizado com poderes para salvaguardar a autonomia e o território de seus estados membros, resolver disputas nacionais e regionais e coordenar programas de desenvolvimento global para o bem de toda a raça humana. De maneira significativa, Bahá’u’lláh atribui a esse sistema, uma vez estabelecido, o direito de suprimir pela força os atos de agressão de um Estado contra outro. Dirigindo-se aos governantes de Seu dia, Ele assevera a clara autoridade moral de tal ação: “Se alguém dentre vós lançar mão de armas contra outro, levantai-vos todos contra ele, pois isso nada mais é que justiça manifesta.”53

T O poder pelo qual essas metas serão progressivamente realizadas é o da unidade. Embora para os bahá’ís seja a mais óbvia das verdades, suas implicações para a atual crise da humanidade parecem escapar à 42


UMA FÉ EM COMUM maioria dos discursos contemporâneos. Poucos discordarão que a enfermidade universal que mina a saúde do corpo da humanidade é a desunião. Suas manifestações em todas as partes paralisam a vontade política, debilitam o anseio coletivo por mudança e envenenam as relações nacionais e religiosas. Quão estranho é, portanto, que a unidade seja considerada como uma meta a ser alcançada, se de algum modo, em um futuro distante, após inúmeras desordens na vida social, política e moral, estas forem tratadas e, de uma maneira ou de outra, solucionadas. Entretanto, estas últimas são essencialmente sintomas e efeitos colaterais do problema, e não sua causa essencial. Por que uma inversão tão fundamental da realidade veio a ser amplamente aceita? A resposta é, presumivelmente, porque a conquista da genuína unidade de mente e coração entre os povos cujas experiências são profundamente divergentes, acreditase, está inteiramente além da capacidade das instituições existentes da sociedade. Embora esta admissão tácita seja um avanço bem-vindo no entendimento dos processos de evolução social que prevaleciam há poucas décadas atrás, é de ajuda prática limitada para responder ao desafio. A unidade é uma condição do espírito humano. A educação pode apoiá-la e aprimorá-la, assim como a legislação, mas apenas podem assim fazê-lo, uma vez que ela emerja e se tenha estabelecido como uma força propulsora na vida social. Uma intelectualidade global, com suas prescrições grandemente moldadas por concepções materialistas errôneas da realidade, apega-se tenazmente à esperança de que uma engenharia social criativa, apoiada por compromisso 43


UMA FÉ EM COMUM político, possa postergar indefinidamente os desastres potenciais que, poucos negam, assolam o futuro da humanidade. “Podemos bem perceber como a humanidade inteira é cercada de grandes aflições, de aflições incalculáveis”, declara Bahá’u’lláh. “Nós a vemos languescer no leito da doença, angustiada e desiludida. Os que estão intoxicados pela arrogância interpuseram-se entre ela e o infalível Médico Divino. Vede como eles emaranharam todos os homens, inclusive a si mesmos, no enredo de suas maquinações. Não podem descobrir a causa da enfermidade, nem possuem eles conhecimento algum do remédio.”54 Posto que a unidade é o remédio para as enfermidades do mundo, sua única fonte segura jaz na restauração da influência da religião nos assuntos humanos. As leis e princípios revelados por Deus, neste Dia, declara Bahá’u’lláh, “são os mais poderosos instrumentos e os mais seguros de todos os meios para o alvorecer da luz da unidade entre os homens”.55 “Qualquer coisa que se erga nesse alicerce, as mudanças e vicissitudes do mundo jamais lhe poderão prejudicar a força nem a revolução de séculos incontáveis lhe solapar a estrutura.”56 Foi fundamental para a missão de Bahá’u’lláh, portanto, a criação de uma comunidade que reflete a unicidade da humanidade. O testemunho definitivo que a comunidade bahá’í pode evocar como vindicação de Sua missão é o exemplo da unidade que Seus ensinamentos produziram. Ao entrar no século XXI, a Causa Bahá’í é um fenômeno distinto de tudo o mais que o mundo já viu. Após décadas de esforços, nas quais ondas de crescimento alternavam-se com longos períodos de consolidação, freqüentemente 44


UMA FÉ EM COMUM obscurecidos por revezes, a comunidade bahá’í abarca vários milhões de representantes de virtualmente todas as origens étnicas, culturais, sociais e religiosas da Terra, administrando seus assuntos coletivos sem a intervenção de um clero, através de instituições democraticamente eleitas. Os muitos milhares de localidades onde fixou raízes podem ser encontrados em cada país, território e grupo de ilhas de destaque, desde o Ártico até a Terra do Fogo, da África ao Pacífico. A asserção de que esta comunidade possa hoje já constituir a mais diversa e geograficamente difundida de qualquer corpo de pessoas similarmente organizado do planeta é improvável que seja contestada por qualquer conhecedor desta evidência. Esta realização requer entendimento. As explanações convencionais – acesso à riqueza, o apoio de interesses políticos poderosos, invocações do oculto ou programas agressivos de proselitismo que instilam medo da ira divina – nenhuma delas desempenhou qualquer papel nos eventos envolvidos. Os adeptos da Fé atingiram um senso de identidade como membros de uma única raça humana, uma identidade que molda o propósito de suas vidas e que, claramente, não é a expressão de qualquer superioridade moral intrínseca da parte deles: “Ó povo de Bahá! Que não há quem vos rivalize, é sinal de misericórdia.”57 Um observador imparcial vê-se forçado a considerar pelo menos a possibilidade de que o fenômeno possa representar a operação de influências completamente diferentes, em natureza, daquelas conhecidas – influências que somente podem ser apropriadamente descritas como espirituais – de produzir extraordinárias 45


UMA FÉ EM COMUM proezas de sacrifício e compreensão por parte de pessoas comuns de todas as origens. Particularmente perturbador foi o fato de que a Causa bahá’í tenha sido capaz de manter a unidade assim alcançada, incólume e intacta, durante os estágios iniciais vulneráveis de sua existência. Em vão, procurar-se-á outra associação de seres humanos na história – política, religiosa, ou social – que tenha sobrevivido com sucesso à perene praga do cisma e da dissensão. A comunidade bahá’í, em toda sua diversidade, é um corpo único de pessoas, uno no entendimento do propósito da revelação de Deus que lhe deu origem, em sua devoção à Ordem Administrativa que seu Autor criou para a gestão de seus assuntos coletivos, uno em seu compromisso com a tarefa de disseminar Sua mensagem por todo o planeta. Durante as décadas de sua ascensão, diversos indivíduos, alguns dos quais de posição elevada e todos eles guiados pelo ímpeto da ambição, fizeram o máximo possível para criar seguidores leais a si mesmos ou às interpretações pessoais que impuseram aos escritos de Bahá’u’lláh. Em estágios anteriores da evolução da religião, tentativas similares mostraram-se bem-sucedidas em dividir as fés recémnascidas em seitas rivais. No que se refere à Causa Bahá’í, contudo, tais intrigas fracassaram, sem exceção, em produzir algo mais do que explosões passageiras de controvérsia, cujo efeito final foi o de aprofundar o entendimento da comunidade quanto ao propósito de seu Fundador e de seu compromisso com o mesmo. “Tão potente é a luz da unidade”, assegura Bahá’u’lláh àqueles que O reconhecem, “que pode iluminar toda a Terra.”58 Sendo a natureza humana o 46


UMA FÉ EM COMUM que é, pode-se prontamente compreender a previsão do Guardião de que este processo purificador continuará por muito tempo – paradoxal, mas necessariamente – a ser um aspecto integrante da maturação da comunidade bahá’í.

T Uma decorrência do abandono da fé em Deus é a paralisia da capacidade de abordar efetivamente o problema do mal ou, em muitos casos, até mesmo de reconhecê-lo. Embora os bahá’ís não atribuam ao fenômeno a existência objetiva que foi assumida nos primeiros estágios da história religiosa, a negação do bem que o mal representa, bem como as trevas, a ignorância ou a enfermidade, é gravemente mutilador em seu efeito. São poucas as temporadas editoriais que passam sem oferecer ao leitor instruído uma série de análises novas e criativas do caráter de algumas das figuras monstruosas que, durante o século XX, sistematicamente torturaram, degradaram e exterminaram milhões de seus semelhantes. A autoridade intelectualmente revestida convida a se medir o peso que deveria ser dado, diferentemente, ao abuso paterno, à rejeição social, desilusões profissionais, pobreza, injustiça, experiências de guerra, possível dano genético, literatura niilista – ou várias combinações dos anteriores – no esforço para entender as obsessões que alimentam um ódio aparentemente sem fundamento da humanidade. Evidentemente falta a tais especulações contemporâneas aquilo que comentaristas experientes, 47


UMA FÉ EM COMUM até mesmo tão recente quanto a um século atrás, teriam reconhecido como enfermidade espiritual, quaisquer que fossem suas características associadas. Se a unidade é o teste máximo do progresso humano, nem a história nem o Céu perdoarão facilmente aqueles que optam deliberadamente por levantar suas mãos contra ela. Ao confiarem, as pessoas baixam suas defesas e se abrem aos demais. Sem fazêlo, não há maneira pela qual possam se comprometer sinceramente com objetivos compartilhados. Nada é tão devastador quanto descobrir repentinamente que, para a outra parte, compromissos assumidos de boa fé não representaram mais do que uma vantagem auferida, um meio de se alcançar objetivos escusos diferentes, ou até contrários, daqueles que haviam sido ostensivamente empreendidos conjuntamente. Semelhante traição, fio contínuo persistente na história humana, que encontrou uma de suas primeiras expressões registradas no antigo relato do ciúme que Caim nutria por Abel cuja fé aprouve a Deus confirmar. Se o aterrador sofrimento padecido pelos povos da Terra durante o século XX deixou uma lição, ela reside no fato de que a desunião sistêmica, herdada de um passado obscuro e de relações corrompidas em todas as esferas da vida, poderia escancarar a porta nesta era para uma conduta demoníaca mais bestial do que qualquer coisa com que tenha a mente sonhado possível. Se o mal tem nome, é certamente a violação deliberada dos tão duramente conquistados convênios de paz e reconciliação, pelos quais os povos de boa vontade buscam fugir do passado e construir juntos um novo futuro. Pela sua própria natureza, a unidade 48


UMA FÉ EM COMUM requer auto-sacrifício. Afirma o Mestre que: “...o amorpróprio é misturado ao próprio barro do homem.”59 O ego, denominado por Ele o “eu insistente”60, resiste instintivamente às restrições impostas ao que concebe como sua liberdade. Para renunciar voluntariamente às satisfações que a licenciosidade oferece, o indivíduo deve vir a crer que a gratificação reside em outro lugar. Em última análise está, como sempre o fez, na submissão da alma a Deus. A omissão de enfrentar o desafio à tal submissão tem se manifestado com conseqüências especialmente devastadoras, ao longo dos séculos, na traição aos Mensageiros de Deus e aos ideais por Eles ensinados. Esta discussão não é a oportunidade adequada para se revisar a natureza e as provisões do Convênio específico por meio do qual Bahá’u’lláh preservou, de maneira triunfante, a unidade daqueles que O reconhecem e servem a Seu propósito. É suficiente notar o poder da linguagem que Ele reserva à violação deliberada por parte daqueles que simultaneamente fingem lealdade a este propósito: “Aqueles que daquilo se afastaram são contados entre os habitantes do mais ínfimo fogo aos olhos de teu Senhor, o TodoPoderoso, o Irrestrito.”61 A razão da severidade desta condenação é óbvia. Poucas pessoas têm dificuldade de reconhecer o perigo que representam para o bemestar social os crimes conhecidos como assassinato, estupro ou fraude, nem a necessidade de que a sociedade tome medidas efetivas para sua própria proteção. Mas, o que devem pensar os bahá’ís a respeito de uma perversidade que, se não fosse detida, se tornaria nas palavras inexoráveis do Mestre: “assim 49


UMA FÉ EM COMUM como um machado que bate na própria raiz da Árvore Abençoada” 62 e que destruiria o próprio meio essencial à criação da unidade? A questão não é de dissidência intelectual, nem mesmo de fraqueza moral. Muitas pessoas são resistentes no sentido de aceitar a autoridade de um tipo ou de outro e, por fim, distanciam-se das circunstâncias que a exigem. Pessoas que foram atraídas à Fé Bahá’í, mas que optaram, qualquer que seja a razão, por deixá-la, mas que, por qualquer que seja a razão, decidiram se afastar, são inteiramente livres para assim fazê-lo. O rompimento do Convênio é um fenômeno de natureza fundamentalmente diferente em sua natureza. O impulso que desperta naqueles que estão sob sua influência não é o de simplesmente seguir livremente qualquer caminho que creiam conduzir à realização pessoal ou à contribuição à sociedade. Antes, tais pessoas são guiadas por uma determinação aparentemente descontrolada de impor à comunidade sua vontade pessoal por quaisquer meios que estejam ao seu alcance, sem se preocuparem com o dano causado e sem respeito pela incumbência solene que assumiram ao serem aceitos como membros dessa comunidade. Em última instância, o ego se torna a autoridade predominante, não apenas na própria vida do indivíduo, mas em quaisquer outras vidas que possam ser influenciadas com sucesso. Assim como demonstrou a extensa e trágica experiência com profunda convicção, dotes tais como distinção de linhagem, intelecto, educação, liderança piedosa ou social podem ser utilizados a serviço da humanidade ou da ambição pessoal. Em épocas passadas, quando as prioridades espirituais de natureza diferente eram 50


UMA FÉ EM COMUM o foco do propósito Divino, as conseqüências de tal rebelião não viciaram a mensagem central de qualquer uma das sucessivas revelações de Deus. Hoje, com as imensas oportunidades e os terríveis perigos que a unificação física do planeta trouxe consigo, o compromisso com as exigências da unidade torna-se a medida de todas as profissões de devoção à vontade de Deus ou, por assim dizer, ao bem-estar da humanidade.

T Tudo em sua história tem preparado a Causa bahá’í para enfrentar o desafio com que se depara. Mesmo nesta etapa relativamente inicial de seu desenvolvimento – e mesmo sendo relativamente limitados, no momento atual, os seus recursos – a iniciativa bahá’í merece plenamente o respeito que vem conquistando. Um observador não precisa aceitar sua reivindicação à origem Divina para reconhecer o valor do que está sendo conquistado. Tomados simplesmente como fenômenos deste mundo, a natureza e as realizações da comunidade bahá’í constituem sua própria justificativa para captar a atenção por parte de quem quer que se preocupe seriamente com a crise da civilização, porque são evidências de que os povos do mundo, em toda sua diversidade, podem aprender a viver e a trabalhar e encontrar gratificação como uma única raça, em uma única pátria global. Este fato realça, se é que maior ênfase é necessária, a urgência dos sucessivos Planos 51


UMA FÉ EM COMUM concebidos pela Casa Universal de Justiça para a expansão e consolidação da Fé. O restante da humanidade tem todo o direito de esperar que um corpo de pessoas genuinamente comprometidas com a visão da unidade incorporada nos ensinamentos de Bahá’u’lláh tornar-se-á um contribuinte cada vez mais vigoroso dos programas de aprimoramento social que, para seu sucesso, dependem exatamente da força da unidade. Corresponder à expectativa exigirá da comunidade bahá’í crescer em um ritmo cada vez mais acelerado, multiplicando grandemente os recursos humanos e materiais investidos em seu trabalho e diversificando ainda mais a variedade de talentos que a capacitam como um parceiro útil junto às organizações com propósitos afins. Junto com os objetivos sociais deste esforço deve vir um reconhecimento do anseio de milhões de pessoas igualmente sinceras, ainda inconscientes da missão de Bahá’u’lláh, mas inspiradas por muitos de seus ideais, por uma oportunidade de encontrar vidas de serviço que terão um sentido duradouro. A cultura do crescimento sistemático que vem criando raízes na comunidade bahá’í pareceria, portanto, de longe, a resposta mais efetiva que os amigos poderiam dar ao desafio discutido nestas páginas. A experiência de uma imersão intensa e contínua na Palavra Criativa liberta as pessoas das garras das presunções materialistas – que Bahá’u’lláh denomina “alusões daqueles que personificam a fantasia satânica”63 – que impregnam a sociedade e paralisam os impulsos para a mudança. Desenvolve nas pessoas uma capacidade que auxilia o anseio pela unidade da parte de amigos e conhecidos a encontrar 52


UMA FÉ EM COMUM uma expressão madura e inteligente. A natureza das atividades básicas do Plano atual – aulas de crianças, reuniões devocionais e círculos de estudo – que crescentes números de pessoas que ainda não se consideram bahá’ís sintam-se livres para participar do processo. O resultado tem sido trazer à existência o que tem sido adequadamente denominado de “comunidade de interesse”. À medida que outros beneficiam-se da participação e vêm a se identificar com as metas que a Causa vem perseguindo, a experiência mostra que eles, também, sentem-se inclinados a se comprometer completamente com Bahá’u’lláh como agentes ativos de Seu propósito. Além de seus objetivos associados, portanto, a execução sincera do Plano tem a potencialidade de amplificar enormemente a contribuição da comunidade bahá’í ao discurso público no que diz respeito ao que se tornou a questão mais premente com que se defronta o gênero humano. Para que os bahá’ís cumpram o mandato de Bahá’u’lláh, entretanto, é obviamente vital que venham a reconhecer que os esforços paralelos de promover o aprimoramento da sociedade e de ensinar a Fé Bahá’í não são atividades que competem por atenção. Antes, são aspectos recíprocos de um único programa global coerente. As diferenças no enfoque são determinadas, principalmente, pelas necessidades e pelas diferentes necessidades e pelos diferentes estágios de indagação em que os amigos encontramse. Posto que o livre arbítrio é um dom inerente da alma, cada pessoa que se sente levada a explorar os ensinamentos de Bahá’u’lláh deverá encontrar seu próprio lugar no eterno continuum da busca espiritual. 53


UMA FÉ EM COMUM Ela precisará determinar, na privacidade de sua própria consciência e sem pressão, a responsabilidade espiritual que esta descoberta acarreta. Para exercer esta autonomia inteligentemente, contudo, ela deverá adquirir tanto uma perspectiva dos processos de mudança nos quais ela, bem como, o restante da população do planeta, encontra-se enredada, como uma compreensão clara das implicações para sua própria vida. A obrigação da comunidade bahá’í é fazer tudo que estiver ao seu alcance para auxiliar todos os estágios do movimento universal da humanidade rumo à reunião com Deus. O Plano Divino legado à posteridade pelo Mestre é o meio pelo qual este trabalho está sendo realizado. Assim sendo, por mais fundamental que inquestionavelmente seja o ideal da unicidade da religião, a tarefa de compartilhar a mensagem de Bahá’u’lláh não é obviamente um projeto interreligioso. Enquanto a mente busca a segurança intelectual, o que a alma anseia é por alcançar a certeza. Tal convicção interior é a meta final de toda busca espiritual, independentemente do quão rápido ou gradual possa ser o processo. Para a alma, a experiência da conversão não é um aspecto extrínseco ou casual da exploração da verdade religiosa, mas a questão central que deve, finalmente, ser abordada. Não existe ambigüidade nas palavras de Bahá’u’lláh sobre o assunto nem pode haver alguma nas mentes daqueles que procuram servi-Lo: “Em verdade digo, este é o Dia em que a humanidade pode contemplar a Face do Prometido e Lhe ouvir a Voz. O Chamado de Deus ergueu-se e a luz de Seu Semblante resplandeceu sobre os homens. É dever de cada um 54


UMA FÉ EM COMUM apagar da tábua de seu coração o traço de toda palavra vã e, com a mente aberta e imparcial, fixar os olhos nos sinais de Sua Revelação, nas provas de Sua Missão e nas evidências de Sua glória.”64

T Uma das características distintivas da modernidade tem sido o despertar universal da consciência histórica. Um resultado desta mudança revolucionária de perspectiva que intensifica grandemente o ensino da mensagem de Bahá’u’lláh é a habilidade das pessoas, quando lhes é dada a oportunidade, de reconhecer que todo o corpo dos textos sagrados da humanidade coloca o drama da própria salvação corretamente no contexto da história. Sob a aparência exterior da linguagem simbólica e metafórica, a religião, como revelam as escrituras, opera não através dos ditames arbitrários da magia, mas como um processo de realização que se desenvolve em um mundo físico criado por Deus para esse propósito. Com relação a isto, os textos são unânimes: o objetivo da religião é que a humanidade atinja a idade da “colheita”65, de “um só rebanho e um só Pastor”66; a época por vir quando “a terra resplandecerá com a glória de seu Senhor”67 e a vontade de Deus será feita “assim na terra, como no céu”68; “o Dia prometido”69 quando a “santa cidade”70 descerá “do céu, do meu Deus”71, quando “se firmará o monte da casa do Senhor no cume dos montes, e se exalçará por cima dos outeiros: e concorrerão a ele todas as nações”72, em que Deus inquirirá: “Que tendes vós, que afligir o 55


UMA FÉ EM COMUM meu povo e moer as faces do pobre?”73; o Dia no qual as escrituras que foram “seladas até ao tempo do fim”74 seriam abertas e a união com Deus achará expressão em “um nome novo, que a boca do Senhor nomeará”75; uma era totalmente superior a tudo o que a humanidade haja experimentado, a mente concebido ou a linguagem abrangido: “Do mesmo modo que originamos a criação, reproduzi-la-emos, porque é uma promessa a que estamos Auto-compelidos; certamente a cumpriremos.”76 O propósito declarado da série histórica de revelações proféticas tem sido, portanto, não apenas guiar aquele que busca no caminho da salvação pessoal, mas também preparar toda a família humana para o grande Evento escatológico que se aproxima, através do qual a própria vida do mundo será completamente transformada. A revelação de Bahá’u’lláh não é nem preparatória, nem profética. É esse Evento. Através de sua influência, o estupendo empreendimento de assentar os alicerces do Reino de Deus foi posto em ação, e a população da Terra foi dotada dos poderes e das capacidades necessárias à tarefa. Este reino é uma civilização universal moldada pelos princípios de justiça social e enriquecida pelas realizações da mente e do espírito humano superando tudo o que a época presente possa conceber. “Este é o Dia”, declara Bahá’u’lláh, “em que os mais excelentes favores de Deus manaram sobre os homens, o Dia em que Sua graça suprema se infundiu em todas as coisas criadas... Breve será a presente ordem posta de lado, e uma nova se estenderá em seu lugar.”77 Servir a estes objetivos exige uma compreensão da característica fundamental que distingue a missão 56


UMA FÉ EM COMUM de Bahá’u’lláh dos projetos políticos e ideológicos configurados pelo homem. O vácuo moral que produziu os horrores do século XX expôs os limites extremos da capacidade desavisada da mente humana, por si só, de conceber e construir uma sociedade ideal, por maiores que sejam os recursos materiais utilizados para o esforço. O sofrimento acarretado gravou indelevelmente a lição na consciência dos povos da Terra. A perspectiva da religião sobre o futuro da humanidade, portanto, nada tem em comum com os sistemas do passado – e apenas relativamente pouca relação com os de hoje. Apela para uma realidade no código genético, se é que pode ser assim descrita, da alma racional. O Reino de Deus, ensinou Jesus há dois mil anos atrás, está “entre nós”78. Suas analogias orgânicas de uma “vinha”79, da semente “semeada em boa terra”80, da “árvore boa produz bons frutos”81 falam de uma potencialidade da espécie humana que foi nutrida e educada por Deus desde o alvorecer dos tempos como o propósito e a meta final do processo criativo. O trabalho contínuo do cultivo paciente é a tarefa que Bahá’u’lláh confiou à companhia daqueles que O reconhecem e abraçam Sua Causa. Não é de se admirar, portanto, a linguagem exaltada com que Ele fala de um privilégio tão grande: “Vós sois as estrelas do céu da compreensão, a brisa que sopra ao romper do dia, as águas que fluem suavemente, das quais há de depender a própria vida de todos os homens...”.82 O processo traz dentro de si a certeza de seu cumprimento. Para aqueles que possuem olhos para ver, a nova criação está emergindo hoje em todos os 57


UMA FÉ EM COMUM lugares, do mesmo modo como uma muda, com o tempo, torna-se uma árvore frutífera ou uma criança atinge a idade adulta. As dispensações sucessivas de um Criador amoroso e resoluto levaram os habitantes da Terra ao limiar de sua maturidade coletiva como um único povo. Bahá’u’lláh está, agora, chamando a humanidade para assumir sua herança: “O que o Senhor ordenou como o remédio soberano e o mais poderoso instrumento para a cura do mundo inteiro é a união de todos os seus povos em uma Causa Universal, em uma mesma Fé.”83

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REFERÊNCIAS 1. Bahá’u’lláh refere-se a um ancião persa e à história árabe de Majnún e Laylí. Os Sete Vales, Bahá’u’lláh. Editora Bahá’í do Brasil; 5ª ed.; 2004; p.6. 2. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh; compilado por Shoghi Effendi. Editora Bahá’í do Brasil; 2ª ed.; 2001; seção LXI; p. 96. 3. Ibid., seção XVI, pp. 41-42. 4. Epístolas de Bahá’u’lláh; compilado pela Casa Universal de Justiça. Editora Bahá’í do Brasil; 1ª ed.; 1983; p. 36. 5. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção XVII, p. 43. 6. Epístola ao Filho do Lobo, Bahá’u’lláh. Editora Bahá’í do Brasil; 1ª ed.; 1997; pp. 121-122. 7. Bahá’u’lláh, O Kitáb-i-Íqán. Editora Bahá’í do Brasil; 2ª ed.; 1977; p.11. 8. Ibid., p. 121. 9. Ibid., p.63. 10. Ibid., p. 64. 11. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção XXII, p. 50. 12. Orações e Meditações de Bahá’u’lláh, Bahá’u’lláh. Editora Bahá’í do Brasil; 1ª ed.; 2004; pp. 251. 13. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção XXVII, p. 61. 14. Ibid., seção CIX; p. 163. 15. Ibid., seção LXXXI; p. 123. 16. Julian Huxley, citado por Pierre Teilhard de Chardin em The Phenomenon of Man; London: William Collins Sons & Co. Ltd., 1959, p. 243. Veja também: Julian Huxley; Knowledge Morality and Destiny; Nova York: Harper & Brothers; 1957; p. 13. 17. A Ordem Mundial de Bahá’u’lláh, Shoghi Effendi. Editora Bahá’í do Brasil; 1ª ed.; 2003; p. 43. 18. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção LXXVIII, p. 119. 19. Ibid., seção CXXXII, p. 214.

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UMA FÉ EM COMUM 20. O Kitá-i-Aqdas, Bahá’u’lláh. Editora Bahá’í Brasil; 1ª ed.; 1995; parágrafo 182. 21. O Kitáb-i-Íqán, p. 8. 22. Ibid., p. 10. 23. Ibid., p. 12. 24. Ibid., p. 13. 25. Bíblia Sagrada, tradução de João Ferreira de Almeida. Geográfica Editora; 240; 4ª ed.; Mateus 13, 25. 26. Ibid.; Mt 13.29–30. 27. Alcorão: surata 7, verso 33; tradução de Abdullah Yusuf Ali; 30ª ed.; (n.p.: 1938). 28. O Kitáb-i-Aqdas, parágrafo 99, p. 45. 29. O Chamado do Senhor das Hostes, Bahá’u’lláh. Editora Bahá’í do Brasil, 1ª ed. parágrafo 126, p. 53. 30. Bahá’u’lláh, citado por Shoghi Effendi em O Advento da Justiça Divina. Editora Bahá’í do Brasil; 2ª ed.; 1977; p. 120. 31. Bíblia Sagrada, Isaías 45, 5. 32. Ibid., I Timóteo 1,17. 33. Alcorão, surata 3, verso 73. 34. Ibid.; surata 2, verso 177. 35. Bíblia Sagrada. Mt 5,13. 36. Mt 5,14. 37. Mq 6,8. 38. Jo 14, 6. 39. Alcorão, surata 24, verso 35. 40. Gênesis 17,7. 41. Bhagavad-Gita, capítulo IV, tradução de sir Edwin Arnold. 42. Bíblia Sagrada, Dt 34,10. 43. Jo 5,45–47. 44. Alcorão, surata 2, verso 136. 45. Promulgação da Paz Universal. Editora Bahá’í do Brasil; 1ª ed.; 2005; p. 281 46. Jo 1,10. 47. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção CVI, p. 162. 48. Abraham Lincoln citado em Inaugural Addresses of the Presidents of the United States. Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1989. 49. Alcorão, surata 21, verso 104.

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REFERÊNCIAS 50. O Kitá -i-Aqdas, parágrafo 5, p. 18. 51. O Chamado do Senhor das Hostes, parágrafo 174, p. 74. 52. A Ordem Mundial de Bahá’u’lláh, p. 275. 53. Ibid., p. 211 54. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção CVI, p. 162. 55. Epístolas de Bahá’u’lláh, p. 143. 56. Bahá’u’lláh, citado por Shoghi Effendi em A Ordem Mundial de Bahá’u’lláh, p. 273. 57. Bahá’u’lláh, citado por Shoghi Effendi em O Advento da Justiça Divina, p. 128. 58. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção CXXXII, p. 215. 59. O Segredo da Civilização Divina, ‘Abdu’l-Bahá. Editora Bahá’í Brasil; 2003; p. 113. 60. Seleção dos Escritos de ‘Abdu’l-Bahá, compilado pela Casa Universal de Justiça. Editora Bahá’í do Brasil; 1993; p. 233. 61. Bahá’u’lláh, de uma epístola ainda não traduzida. 62. Última Vontade e Testamento de ‘Abdu’l-Bahá, ‘Abdu’lBahá. Editora Bahá’í do Brasil; 1982; p. 32. 63. Kitáb-i-Íqán, p. 118. 64. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção VII, p. 22. 65. O Chamado do Senhor das Hostes, parágrafo 126, p. 65. 66. Bíblia Sagrada, Jo 10,16. 67. Alcorão, surata 39, verso 69. 68. Mt 6,10. 69. Alcorão, surata 85, verso 2. 70. Bíblia Sagrada, Apocalipse 21,2. 71. Ap 3,12. 72. Is 2.2. 73. Is 3,15. 74. Dn 12,9. 75. Is 62, 2. 76. Alcorão, surata 21, verso 104. 77. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção IV, p 19. 78. Lc 17, 21. 79. Mt 21, 33. 80. Mt 13, 23. 81. Mt 7,17. 82. Seleção dos Escritos de Bahá’u’lláh, seção XCVI, p. 150. 83. Ibid, seção CXX, p. 192.

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Uma Fé em Comum