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Cartomancia T E O R I A & P R Ă T I C A Emanuel J Santos


Publicado em 2016 pela Editora Alfabeto Supervisão geral: Edmilson Duran Diagramação: Décio Lopes Revisão de texto: Emanuel J Santos

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

Santos, Emanuel J. Cartomancia – Teoria & Prática / Emanuel J Santos | 1ª Edição | São Paulo | Editora Alfabeto, 2016. ISBN: 978-85-98307-38-1 1. Cartomancia 2. Arte Divinatória I. Título.

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Ao Dr. Ivan Antonio de Almeida (in memorian), que me presenteou com o primeiro livro de Cartomancia Francesa. À Romain Crouzet, que me presenteou com meu primeiro baralho francês – originalmente de sua própria avó. À Dona Yedda Paranhos, por ter me fornecido material para a pesquisa, mas sobretudo, por confiar em mim. À Ivana Mihanovich, por ter me apoiado, revisado e insistido na publicação desse material. À minha avó Helena (in memoriam), que colocou o primeiro baralho em minhas mãos. E me ensinou a admirar as rosas.


Sumário

Introdução..................................................................9 Le Rouge et Le Noir..................................................17 O Naipe de Espadas......................................................19 O Naipe de Paus...........................................................29 O Naipe de Ouros.........................................................39 O Naipe de Copas.........................................................49

Consultando as cartas...............................................59 O Jogo do Destino....................................................63 Escolhendo a testemunha..............................................64 Interpretando as cartas..................................................65

Um exemplo de jogo.................................................67 A leitura começa............................................................71

Tabelas de consulta rápida........................................73 Espadas.........................................................................74 Paus..............................................................................75 Ouros............................................................................76 Copas............................................................................77

Bibliografia................................................................79

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Introdução

A

Cartomancia é uma arte ampla e complexa, de resultados simples e diretos. Em outras palavras, é necessário um tempo razoável de estudo para elaborarmos frases cada vez mais curtas e precisas, que descrevem e traduzem momentos com precisão. Embora há quem busque, dentro da minha experiência, não existe uma “iniciação à Cartomancia”. Somos apresentados às cartas, seja através de um curso, seja através de um livro, e passamos a praticar, primeiro sozinhos, depois com os outros. Os significados se apresentam e somos convidados a combiná-los carta a carta, formando frases que traduzirão o passado (aquilo que trouxe o consulente à sua mesa), o presente (as influências que se mostram agora em movimento) e o futuro (a tendência das suas atitudes atuais). Para isso, é necessário única e exclusivamente a capacidade de interpretar o texto que se desenvolve no frasear das cartas e a sensibilidade para tocar nas questões mais complicadas sem despertar grandes esperanças, nem temores. É possível que dons como a mediunidade sejam despertados durante o estudo da cartomancia, mas não é uma regra ou um fundamento. Muitos cartomantes relatam ouvir, sentir ou ver coisas além do mundo físico. Não se assuste: se existe uma coisa misericordiosa com | 9 |


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a mediunidade é a Cartomancia. É como um botão liga/ desliga: durante o ritual de ler as cartas, liga: você passa a ver, sentir e ouvir coisas, de acordo com seu dom e desenvolvimento pessoal. Terminou a leitura, desliga: você volta à sua consciência de todos os dias. Importante, de fato, é conhecer a ferramenta que você tem em mãos: o seu baralho. Todo o restante é uma consequência desse primeiro foco. Eu jogo baralho há muitos anos. As cartas são minhas amigas de infância, sempre fizeram parte da minha vida. Uma das primeiras lembranças que tenho, relacionadas ao baralho, é da minha avó me perguntando: “o que você quer de aniversário?”. Eu, então com sete anos, respondi: “um baralho!” Ela fez um muxoxo, e perguntou se eu queria mais alguma coisa. Eu realmente não lembro se ela me deu mais algum presente. Entretanto, aquele baralho virou meu ursinho de pelúcia. Dormia com a caixinha debaixo do travesseiro e acordava com as cartas espalhadas, formando padrões que eu ainda não era capaz de entender. Perto da minha casa, no mesmo quarteirão, havia um bar que atendia os funcionários da fábrica em frente. Até hoje, vários homens do bairro se reúnem nesse bar para jogar truco. O carteado sempre rolou solto por lá. Certa vez, e eu me lembro como se fosse hoje, meu pai me colocou em seu colo para jogar com o pessoal. A primeira carta foi um Espadilha (o Ás de Espadas). Coloquei na mesa com um sorriso. Assustei todo mundo, sem fazer ideia do que estava fazendo. Não tinha como saber que era uma das cartas mais fortes do jogo. Revisito essa lembrança hoje e penso que tudo era divertido, mesmo sem significados precisos, ainda; manipular as cartas só pelo prazer de manipulá-las.


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Foi mais ou menos por essa época que eu aprendi a jogar buraco. A família toda se reunia – sobretudo quando os primos do Rio vinham cá para Minas – para o carteado. E lá ia minha avó, toda paciente, me explicar as combinações e a pontuação. E eu ia me tornando “lixeiro”: catava tudo o que ia para a mesa, tentando fazer as melhores combinações direto na minha mão. Iniciantes: sempre com ideias elaboradas para resultados não tão eficazes assim. Certa feita, minha avó me disse, quando viu um Valete de Copas na minha mão: “Essa carta representa um rapaz moreno-claro. Representa você”. E eu fiquei com aquilo na cabeça... Ela me explicou, por cima, o que significava cada carta da Corte: Ouros, pessoas claras; Paus, negros; Copas, os moreno-claros. E Espadas. O naipe sem etnia. Os militares. A intriga. Naquele mesmo bar onde meu pai jogava truco, sempre havia oitos, noves e dez à profusão, jogados fora (pois não fazem parte do jogo) e o seu Joaquim, o dono do bar, guardava os baralhos velhos para mim. E lá ia eu, com aquele monte de cartas – eles jogavam MUITO mesmo e, no Truco, cartas marcadas dão até briga – e em casa, tentava montar castelos de cartas. Cada andar para um naipe. Pagodes1 inteiros iam se construindo com aquele monte de Reis, Rainhas e Valetes. Histórias completas se desenrolavam nas alamedas dos castelos. E eu nem imaginava que aquele seria o meu começo na Cartomancia. Pouco tempo depois (os anos passam e “pouco” pode representar todo um espaço de tempo), minha avó sugeriu uma leitura de cartas, coisa que ela não fazia há muito tempo. Tanto pedi que ela pegou um dos meus

1 Edifícios chineses.


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cadernos, dividiu a folha em quatro partes e anotou os significados. Parece que a folha foi feita para isso, não sobraram espaços. Estava tudo ali. Ela embaralhou. Pediu para eu cortar. Alinhou as cartas. Fez um leque nas mãos e disse: “ordene as cartas, forme uma frase coesa entre elas”. Eu obedeci, repetindo o movimento oito vezes. Oito frases se formaram. Um destino estava escrito. Eu ainda tenho o baralho que minha avó me deu, embora eu já não lembre mais quantos anos ele tem. Uso muito pouco – para as raras leituras que faço com as cartas comuns e somente para mim. É impressionante como eu, ao embaralhar, sinto como se tivesse sete anos e estivesse no colo da minha avó, enquanto ela abria o leque e me ensinava a jogar, primeiro Buraco, depois a leitura da sorte. Combinações, sequências e leituras ainda se mesclam frente à minha mesa enquanto desnudo o porvir e me preparo para ele. E, claro, é uma forma de atenuar uma saudade que nunca irá passar. Quando eu aprendi a ler as cartas, minha avó utilizou o mesmo baralho que usávamos para nossas partidas de Buraco. Era o que tínhamos à mão. Esse baralho não passou por nenhuma consagração ritual; sua sagração se deu no cotidiano. Não creio que tenha sido diferente com outras pessoas que tenham aprendido com seus parentes. E funciona perfeitamente, sem problemas, já que tem toda uma carga emocional envolvida. Hoje, naturalmente, sou mais esclarecido em relação ao peso que a psicometria (habilidade de sentir as energias em determinado objeto ou local através do contato físico) tem na leitura de cartas, então utilizo e sugiro que você utilize baralhos virgens que se tornam gastos pelo uso constante.


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Ao escolher seu baralho, preocupe-se menos com o preço e mais com o conforto que ele oferece. Em última instância, ele deve ser agradável. O embaralhar deve ser confortável, sem esforço, as cartas devem deslizar bem, os desenhos e números devem ser claros à leitura. As imagens devem ser inspiradoras, de preferência espelhadas; não trabalhamos com cartas invertidas nesse método, melhor evitar distrações. Uma última consideração, de caráter pessoal: eu não uso baralhos de plástico para a Cartomancia. É pessoal, eu sei, mas explico: parece-me que eles não absorvem energia suficiente e “esfriam” rápido demais., Sinto-me mais à vontade com o papel, parece-me que ele absorve melhor o calor e a energia vital. Entretanto, como tudo nesse livro, esteja aberto a fazer testes. Se duvidar do que digo, adquira um de plástico. Caso a sua ligação emocional seja com um baralho de plástico, por que ele não funcionaria? Essa é a minha experiência, não a tome como regra. A questão ritual é importante, mas deve sempre ser deixada em seu devido lugar. Uma postura sincera é mais importante que o mais elaborado dos rituais. A disponibilidade para experimentar o que quer que seja em relação à Cartomancia, também! As cartas funcionam, independentemente da crença do consulente, desde que ele esteja disposto a ver o que ali se apresenta. Falando na minha avó, esse estilo de cartomancia que apresento para vocês neste livro não é o que ela me ensinou. Eu comecei a estudar a Cartomancia com o baralho de Piquet na faculdade, através de um livro, presenteado pelo meu orientador na época. Fiquei encantado pelo Jogo do Destino. É praticamente impossível saber como o jogo vai se apresentar à nossa frente. Ora treze cartas, ora vinte e uma, ora o jogo não abria.


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E, sinceramente, eu realmente tenho uma predileção por sistemas que impeçam a abertura do jogo se houver algo inadequado. Continuei usando essa metodologia enquanto estudava e me aprofundava no Petit Lenormand. A bibliografia escassa era um desafio, mantido até hoje. Mas também é um conforto: nessa arte, as palavras-chave são gatilhos para a interpretação, variando muito pouco de livro para livro. O que importa é você guardar cada uma delas, permitindo que sua capacidade de interpretação e sua intuição estruturem as frases no momento do jogo, sobretudo no que diz respeito aos encontros, ou seja, às cartas que, somadas, transmitem uma informação diferente daquela que possuem sozinhas. Com o tempo, você olha para a mesa e aquela sequência faz todo um sentido particular para além do esperado – e para além de tudo aquilo que você leu nos livros até o momento. Aí, você anota no seu caderno de jogos e tem mais um elemento de análise. É importante falar sobre isso: mantenha um diário de jogos, ou um caderno de combinações. Eu tenho uma sugestão: escreva nesse livro. Use todos os espaços em branco possíveis. Torne-o seu de fato, individual e intransferível. Faça valer a pena sua experiência com este exemplar. Cresça com ele, e permita que ele cresça através da sua experiência. Tome posse do que é seu. Existem espaços em branco, suficientes para os seus primeiros treinos, e margens em branco para os treinos seguintes. Experimente. A formação do Cartomante se dá pela sua observação do cotidiano e pela sua habilidade em colocar-se no lugar do outro. As cartas deixam de ser um conjunto de termos técnicos e passam a ser um conjunto de experiências traduzidas em palavras e aconselhamentos, estando


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acessíveis a todos aqueles que se dispuserem a aprender a ler e a interpretar. Por isso a importância do registro: a experiência diminui a expectativa e melhora o nível de acerto. Você passa a se sentir mais à vontade com as palavras-chave tradicionais, sabendo como é que elas se aplicam quando é você quem está jogando. Quanto mais treinamos, mais curtos são os jogos – acredite em mim. À medida em que vamos entendendo o diálogo entre as cartas, a forma como as frases se revelam, percebemos que todas elas se unem em uma mensagem específica para o consulente, deixando de lado os significados básicos individuais. As frases são mais fluidas e unem muitas cartas em uma mesma previsão. Cuidado, porém, com a grande mistura de interpretações que são dadas às cartas comuns. Se hoje vemos o Tarô, que é um baralho muito difundido, sendo misturado às mais diversas ciências e possibilidades, com autores que não concordam entre si dividindo o mesmo espaço nas prateleiras de livros esotéricos das livrarias, que dirá as cartas comuns, cuja bibliografia é muito menor e, ao mesmo tempo, mais variada! São associadas ao que for possível e imaginável, por vezes discordando autor de autor de uma forma assustadora. Por isso, durante a leitura, sugiro que atenha-se à bibliografia oferecida no fim desse livro e treine em cima dos significados propostos. Haverá o momento em que você questionará tudo que leu e conseguirá outras referências; nesse momento, sugiro que você se concentre no conteúdo deste livro, evitando a confusão que a comparação traz nesse primeiro momento de estudo e aprendizagem do método. Estudaremos, nesse livro, 32 cartas: Ás, sete a dez, valete, dama e rei dos quatro naipes: Paus, Copas, ­Espadas e Ouros. Existem baralhos feitos especificamente


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com essa quantidade de cartas, utilizados para o jogo de Piquet. Caso não encontre um, é só descartar os 2 a 6 de um baralho convencional e estaremos prontos para o jogo.


Le Rouge et Le Noir

Et quand vient le soir Pour qu’un ciel flamboie Le rouge et le noir Ne s’épousent-ils pas2

A

rosa barcarolle, ou Príncipe Negro, é um belo exemplar híbrido da família rosaceae. O belo dessa rosa é que ela, em botão, é negra, e, à medida em que abre suas pétalas, veste-se de um vermelho vivo para então, sob o calor do Sol, ressequir-se em negro novamente. Eram as rosas favoritas da minha avó Helena, pela beleza do conjunto, o aveludado de suas pétalas, o perfume singular frente a outras espécies, a dificuldade de “pegar” e a quase impossibilidade de se fazerem mudas. Quando minha avó mudou-se da casa onde vivíamos, foi um dos milagres que presenciei: conseguimos, finalmente, fazer uma muda dessa rosa, que está florindo na casa dos meus pais até hoje. Essa rosa serve-nos como um belo exemplo de como as cartas funcionam na Cartomancia. Em suas pétalas vemos o vermelho e o negro trocando seus papeis, como

2 Verso de “Ne me quitte pas”, música de Jacques Brel que consagrou Maísa. Em tradução livre: “E quando a tarde cai /para que o céu se inflame / O vermelho e o negro / não se misturam”

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nós mesmos variamos entre uma e outra cor durante nossa vida. Como diz o ditado, não há mal que sempre dure, não há bem que nunca se acabe. As cartas vermelhas, dos naipes de Copas e Ouros, referir-se-ão a situações que tendem do neutro ao agradável, como a rosa em esplendor. Da mesma forma, as cartas negras, de Paus e Espadas, tenderão aos inícios e fins, que nem sempre são justificáveis pelos meios. Aqui temos o incipiente e o decadente. Aplicando à Cartomancia, preste atenção aos significados particulares, tendo em mente o quadro que se dispõe à sua frente como um todo. Partindo do geral para o particular, um jogo vermelho é desejável e agradável, assim como um jogo negro tende a causar preocupações. A ordem dos naipes não possui nenhuma explicação esotérica. Concentremo-nos na diferenciação entre naipes vermelhos e naipes pretos. Uso a ordem Espadas/ Paus/Ouros/Copas apenas porque era a ordenação que a minha avó utilizava, nada além disso.


U

m dos instrumentos mais versáteis e acessíveis para a adivinhação, o baralho comum possui dezenas de interpretações possíveis. Emanuel J Santos, um dos mais importantes expoentes da Cartomancia no Brasil, traz a público, depois de anos de pesquisas e prática constante, o resultado dos seus esforços. Neste livro, você encontrará um método prático e funcional das 32 cartas que compõem o jogo do destino. Em linguagem simples e acessível, respeitando os termos da tradição, o autor sistematiza os significados de cada carta, e de suas aplicações no Jogo do Destino.

www.editoraalfabeto.com.br

Cartomancia – Teoria & Prática  

Um dos instrumentos mais versáteis e acessíveis para a adivinhação, o baralho comum possui dezenas de interpretações possíveis. Emanuel J Sa...

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