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Deusa

O Legado da

RITOS DE PASSAGEM PARA MULHERES

Mirella Faur


Copyright© 2016 pela Editora Alfabeto Direção Editorial: Edmilson Duran Capa e Diagramação: Décio Lopes Projeto da Capa: Léa Mariz Revisão de Textos: Luciana Papale Imagens internas: Louis Devedeux; Sandro Botticelli e Edward Robert Hughes

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO

Mirella, Faur O Legado da Deusa – Ritos de passagem para mulheres / Mirella Faur | 2ª edição atualizada | São Paulo | Editora Alfabeto – 2016. ISBN 978-85-98307-35-0 1. Religião da Deusa 2. Deusas 3. Ritos e cerimônias I. Título. CDD – 291.211

CDU – 299.93

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Dedico este livro: À memória das nossas ancestrais, sacerdotisas, profetisas, curadoras, parteiras, mulheres sábias e xamãs, receptáculos do poder místico, transmissoras das energias cósmicas e curativas, mediadoras entre a humanidade e as divindades, guardiãs das tradições e detentoras da sabedoria; Às mulheres contemporâneas, herdeiras da antiga fé, que estão removendo a poeira das memórias do passado longínquo, afastando os véus do esquecimento, recuperando o conhecimento ancestral, e celebrando novamente os rituais das deusas; Às gerações futuras, cuja missão é perpetuar o legado da Deusa, preservar as belezas da Mãe Terra e tecer, harmoniosa e amorosamente, a eterna dança em espiral.


Agradecimentos

A

cima de tudo e sempre, agradeço à Deusa a inspiração, a proteção e a direção para escrever mais um livro dedicado ao resgate do Sagrado Feminino, fruto das minhas vivências com círculos de mulheres e da minha prática de aconselhamento e orientação individual. Sou grata a todas as mulheres cujos livros, estudos, visões, canções e experiências me proporcionaram conhecimento, sustentação e confirmação da minha própria voz interior. Seus nomes e suas obras citadas na bibliografia, os relatos de mulheres de outros países e, principalmente, as vivências e jornadas femininas da Chácara Remanso foram o fio condutor para as sugestões mencionadas neste livro. Minha gratidão a todas as companheiras de trabalho espiritual que me motivaram, incentivaram e apoiaram ao longo dos anos. Algumas delas vão se reconhecer nos rituais dos quais participaram; outras poderão neles se inspirar, quando elas ou suas filhas precisarem. Agradeço às minhas colaboradoras mais próximas, irmãs e filhas queridas, cujo apoio, lealdade, dedicação e amor têm me nutrido, fortalecido e estimulado permanentemente em uma harmoniosa integração e expansão pessoal e coletiva. Meus agradecimentos especiais a Danúzia, Marilda e Sheila (na primeira edição) e Léa Beatriz (na edição atual), cujas contribuições foram extremamente importantes para a realização deste livro. Ao Claudio, meu parceiro de vida e coparticipante nos rituais de “batizado, casamento e passagem final”, agradeço o incentivo, a apreciação do meu trabalho e a eficiente estrutura capricorniana necessária à realização dos rituais.


Sumário

Prefácio..........................................................................................................13 Parte I – O Legado da Deusa 1. O culto da Deusa ao longo dos tempos.............................................19 O período paleolítico.....................................................................................20 O período neolítico........................................................................................21 A destruição das antigas culturas da Deusa................................................25 A ausência da Deusa......................................................................................27 A herança da Deusa.......................................................................................29 O retorno da Deusa........................................................................................31

2. Reivindicando o Legado da Deusa....................................................35 Os mitos da criação........................................................................................39

3. O acesso à voz interior por meio da introspecção, meditação e imaginação......................................................................43 Práticas e Exercícios.......................................................................................43 Preparação para a meditação................................................................. 46 Relaxamento físico.................................................................................. 46 Aquietando a mente................................................................................ 48 Harmonização emocional...................................................................... 48 Criação de um círculo de proteção......................................................... 50 Visualização dirigida (ou imaginação criativa).................................... 51 Encontrar o Guia Interior....................................................................... 53 Afirmações positivas............................................................................... 56 Meditação em grupo............................................................................... 57 Meditação em movimento...................................................................... 58


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Parte II – Rituais 4. Rituais coletivos....................................................................................71 Preparação do espaço....................................................................................71 Preparação das participantes........................................................................72 Harmonização.................................................................................................73 O altar..............................................................................................................74 Procedimentos................................................................................................75 Diferença entre evocação e invocação.................................................... 77 Tabela A – Correlações energéticas das tradições wicca e xamânica.......78 Tabela B – Evocações e Despedidas........................................................ 85 Tabela C – Correspondências entre signos astrológicos, ervas, essências, números, cores e dias da semana........................................... 87

5. Rituais individuais................................................................................91 Criação do altar..............................................................................................93 Consagração do altar.....................................................................................95 Meditação para encontrar a Deusa..............................................................97

Parte III – Ritos de Passagem 6. Mistérios do sangue...........................................................................107 Considerações históricas sobre a menstruação........................................108 Rito de passagem da menarca.....................................................................112 Escolha da Deusa Regente.................................................................... 113 Comemoração da menarca em família................................................ 114 Celebração da menarca por um círculo de mulheres.......................... 115 A primeira relação sexual............................................................................119 Ritual individual para a sua fase menstrual..............................................121 Ritual coletivo para celebrar os laços de sangue.......................................124 O mito da deusa Chang-O.................................................................... 127 Recomendações para criar um Templo Lunar..................................... 128 Rito de passagem da menopausa................................................................128 Preparação e cerimônia........................................................................ 130 Meditação para encontrar a “Mulher do limiar entre os dois mundos”.................................................................................... 135 Maternidade..................................................................................................140 Concepção............................................................................................. 145 Práticas para conceber conscientemente......................................... 146 Sugestão para um ritual.................................................................. 146


Agradecimentos q 11

Gestação................................................................................................ 148 Bênção pré-natal.............................................................................. 149 Preparativos para o parto................................................................ 151 Dar à luz................................................................................................ 155 Procedimentos ritualísticos pós-parto.................................................. 156 A bênção materna........................................................................... 156 A bênção divina............................................................................... 157 Cuidados com a placenta................................................................ 158 O primeiro banho do bebê............................................................... 161 Proteção contra o mau-olhado........................................................ 161 Ritual pós-parto para a mãe........................................................... 163 Consagração da criança....................................................................... 165 Celebração de boas-vindas para a mãe................................................ 169 Ritual para curar o trauma da operação por cesariana...................... 172

7. Mudanças e transições.......................................................................175 Ida para a escola............................................................................................175 Morar sozinha...............................................................................................177 Primeira etapa...................................................................................... 177 Segunda etapa....................................................................................... 178 União..............................................................................................................180 Cerimônia para assumir um compromisso de união.......................... 185 Preparação....................................................................................... 185 Ritual................................................................................................ 188 Confirmação do compromisso.............................................................. 191 Celebração de uma união entre duas mulheres................................... 193 Tornar-se avó................................................................................................196 Aniversário....................................................................................................201 Considerações astrológicas sobre os ciclos de vida.................................203 Datas das transições planetárias mais importantes............................ 205 Mudança profissional...................................................................................215 Dedicação espiritual.....................................................................................216 A morte..........................................................................................................222 A morte como transição........................................................................ 222 Generalidades históricas e folclóricas................................................... 223 A morte como opção............................................................................. 233 Ritual para facilitar o desligamento do espírito................................... 236 Cuidados com a pessoa que está morrendo......................................... 238 Cuidados com a pessoa que acabou de morrer.................................... 239


Sugestões para rituais “in memoriam”................................................. 240 Ritual para auxiliar o espírito logo após a morte................................ 245 Ritual para homenagear os espíritos ancestrais................................... 248 Ritual para doações de órgãos.............................................................. 250

8. Perdas e transmutações.....................................................................253 Aborto............................................................................................................254 Interrupção voluntária da gravidez..................................................... 254 Interrupção espontânea da gravidez.................................................... 258 Violência sexual (abuso, estupro ou incesto)............................................260 A perda de órgãos (seios, útero, ovários)..................................................268 A perda de um filho.....................................................................................273 Separação.......................................................................................................278 Ritual de desligamento para um casal................................................. 281 Ritual de desligamento para uma mulher............................................ 287 Ritual de perdão.................................................................................... 292 Ritual para afastar alguém da sua vida............................................... 295 Viuvez............................................................................................................297 Recomendações para lidar com a viuvez............................................. 300 Sugestões para rituais........................................................................... 301 Ritual para fortalecimento pessoal....................................................... 303

Bibliografia..................................................................................................309 Índice Remissivo.........................................................................................313


Prefácio

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ste livro surgiu como consequência do meu trabalho com grupos de mulheres em Brasília que, ao serem tocadas pelos rituais e meditações com os arquétipos das deusas, precisavam de mais informações a este respeito. Durante a última década, tenho dedicado meus estudos, pesquisas, vivências e atividades à divulgação do Sagrado Feminino. A minha busca espiritual tinha me levado, ao longo dos anos, por muitos caminhos, à procura de uma senda que me fizesse sentir “em casa”, totalmente identificada, sem questionamentos ou dúvidas. Aprendi muito, possivel­ mente resgatei ou criei um “bom carma” pelo serviço de dedicação ao próximo; conheci pessoas interessantes, presenciei manifestações surpreendentes de paranormalidade e percepção extrassensorial. No entanto, minha alma não sentia a realização plena, nem minha mente aceitava, na totalidade, os conceitos ou os dogmas das várias opções filosóficas e espirituais encontradas. Quando li, em 1988, o livro de Starhawk Spiral Dance senti meu coração pulsar e minha mente vibrar com os relatos sobre uma religião em que se venerava a Deusa. Então um novo horizonte delineou-se na minha frente. Ávida por aprender mais, comecei a procurar outros livros, novas fontes e, pouco a pouco, as minhas próprias memórias ancestrais iam sendo ativadas. Li muito e passei a praticar sozinha alguns rituais da tradição wicca e a celebrar de forma singela e solitária os Sabbats. Mas nunca me enquadrei totalmente na Wicca, muito menos assumi o rótulo de “bruxa”. O que eu buscava era algo maior, mais abrangente, menos setorizado ou rotulado. q 13 r


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Desde criança, na Romênia, interessava-me por tradições folclóricas e costumes populares nas mitologias grega, eslava e nórdica. Posteriormente, já no Brasil, senti-me atraída pelas divindades e cultos iorubás e dos povos nativos. Por isso, não podia englobar esse vasto panteão à tradição wicca, por mais que eu tivesse afinidade com a cultura celta. Pois o meu país de origem, a Romênia, antes de se tornar mais uma das colônias do extinto Império Romano, tinha sido a Dácia, uma rica e linda terra habitada por um ramo dos celtas, cuja cultura foi absorvida pelas inúmeras invasões dos citas, hunos, gregos, romanos e eslavos. Mesmo assim, muitas das tradições populares existentes na Romênia pré-comunista revelam uma semelhança assombrosa com as dos povos celtas propriamente ditos. Essa sintonia com o espírito celta prevalece até hoje na minha memória ancestral e considero como minha pátria espiritual a lendária Avalon, onde busco inspiração, conforto e força. A partir da revelação que tive na colina sagrada de Tor, em Glastonbury, que mudou totalmente a minha vida espiritual, segui a voz da Deusa que pedia para que eu voltasse ao antigo caminho e (re)começasse a falar em seu nome. Surgiu, assim, a luz que passou a iluminar minha vida e orientar o meu trabalho. Aos poucos, a Deusa tirou-me da segurança do anonimato e das práticas solitárias, dissipou minha relutância em falar e agir publicamente, trouxe-me os desafios, as realizações, as decepções e as alegrias do trabalho com grupos de mulheres. Seja através dos rituais mensais dos plenilúnios, das celebrações da Roda do Ano, das jornadas xamânicas, dos grupos de estudo ou dos ritos de passagem. Minha missão espiritual tornou-me desta forma um canal de divulgação das tradições antigas e dos mitos das deusas de vários lugares do mundo. O meu livro anterior O Anuário da Grande Mãe – Guia prático de rituais para celebrar a Deusa, relançado pela Editora Alfabeto, enumerou de forma diversificada – porém sucinta – a multiplicidade da Grande Mãe nas suas comemorações panculturais ao longo do ano. Nas celebrações públicas dos plenilúnios procuro seguir esta mesma cronologia, detalhando mais os mitos, os atributos e rituais das deusas. No entanto, tenho recebido muitas solicitações para colocar por escrito aquilo que venho contando nas noites de lua cheia. E como há pouquíssima literatura em


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português sobre a “Tradição da Deusa” – com exceção dos mitos gregos e dos afro-brasileiros –, fui incentivada a escrever de forma mais detalhada sobre as cerimônias e os rituais centrados no Sagrado Feminino. Na verdade, senti-me “intimada” pela Deusa, movida por uma “urgência” interior para aproveitar qualquer momento livre para escrever. Alguns dos mitos mais conhecidos da Tradição da Deusa são versões patriarcais recentes que muitas vezes distorcem as lendas originárias das culturas matrifocais. Infelizmente, a maior parte dos livros de mitologia e de história foi escrita por homens, baseados em antigos relatos masculinos, já que, durante os últimos três milênios, o acesso das mulheres à cultura e à expressão literária ou científica foi vetado. Somente nos últimos cinquenta anos novos enfoques e reinterpretações dos postulados anteriores tornaram-se possíveis por meio dos trabalhos pioneiros, corajosos e desafiadores de mulheres antropólogas, sociólogas, historiadoras e escritoras. A cada ano, mais e mais livros escritos por mulheres, trazem novas revelações sobre as antigas verdades ocultadas por séculos de ignorância, repressão e perseguição. Cientistas, artistas, místicas ou visionárias levantam os véus da distorção e da renegação milenar do culto da Grande Mãe, unindo suas vozes, de vários lugares do mundo, em um único canto de louvor e gratidão à Mãe de toda a Criação, Senhora da Vida e da Morte, Deusa dos Mil Nomes, Rainha do Céu e da Terra. A este coro multicolorido e plurifacetado junto minha contribuição, nascida nas noites de lua cheia do árido cerrado de Brasília, da união e nos encontros dos círculos de mulheres, cujas almas buscam a alegria da Donzela, a força da Guerreira, a magia da Sacerdotisa, a sabedoria da Anciã e o amor da Grande Mãe.


Parte 1

O Legado da Deusa

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Capítulo 1

O culto da Deusa ao longo dos tempos

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vidências arqueológicas, antropológicas e históricas revelam e comprovam que a mulher foi o centro da vida humana e espiritual durante milênios. Em todas as culturas antigas do mundo inteiro encontram-se representações da Deusa como a Criadora Divina. A mulher – como Sua representante na Terra – era r­ everenciada pela habilidade de gerar do seu sangue menstrual uma nova vida, ­criando o alimento do recém-nascido do próprio corpo, bem como pela sua criatividade, que resultou em inúmeras invenções e descobertas. A sintonia do ciclo menstrual com as fases da lua simbolizava a estreita conexão com a Deusa lunar, enquanto sua facilidade em perceber os sinais cósmicos, em se comunicar com as forças da natureza ou com os espíritos ancestrais lhe conferia o papel essencial nos cultos e nas práticas espirituais. A representação do Criador por uma figura masculina é um fenô­ meno recente na história da humanidade, pois durante pelo menos 35.000 anos Deus foi representado como sendo mulher. Para compreendermos melhor esta ousada afirmação (o que para muitos ainda parece uma blasfêmia ou heresia), precisamos voltar no tempo e no espaço, aos primórdios da humanidade, antes do Verbo, quando existia somente a Mãe.

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O período paleolítico As mais antigas representações da figura humana são as pinturas rupestres, figuras femininas dançando ou trabalhando, criadas pelas mulheres, pois as suas “assinaturas” em forma de marcas de mãos, pintadas com pigmento vermelho ao lado das figuras, identificam-nas como as autoras. Em inúmeras grutas e túmulos foram encontradas estatuetas, representando mulheres de seios fartos e quadris largos, ventres protuberantes, sem rostos definidos. Consideradas anteriormente – pelos cientistas e pesquisadores homens – como simples “objetos dos ritos de fertilidade” ou “brinquedos eróticos” dos machos primitivos, atualmente são reconhecidas como representações da Mãe geradora e nutridora da vida, confirmando a veneração dos antigos pelos seus poderes. Figuras e símbolos femininos (seios, vulvas, mãos, ondas, círculos) eram esculpidos ou pintados no centro das grutas, enquanto os símbolos e figuras masculinas (flechas, lanças, galhos, cenas de caça) eram dispostos de forma protetora ao redor das representações femininas. Os mortos eram enterrados em posição fetal, pintados de vermelho (simbolizando o poder vivificante do sangue), cercados de cauris (conchas em forma de vulva) e estatuetas de mulheres (representando a Deusa). As inúmeras pesquisas, escavações e estudos feitos na segunda metade deste século por arqueólogas, antropólogas e pesquisadoras mulheres confirmam a existência de uma complexa religião paleolítica com rituais centrados no culto a uma Deusa Mãe, como a criadora e a mantenedora de todas as formas de vida. Reverenciavam-se os mistérios da vida e da morte – associados ao poder da mulher –, e acreditava-se no renascimento, proporcionado pelos ritos funerários que visavam atrair o poder regenerador da Grande Mãe, restauradora da vida. O nome da Grande Mãe pré-histórica não é conhecido, por inexistir naquela época uma linguagem escrita. Possivelmente, era venerada em cada tribo ou clã com um nome diferente. Mais tarde, assumiu o nome genérico de Senhora dos Animais – representada cercada por eles ou assumindo formas zoomórficas – ou de Mãe da Vegetação.


O culto da Deusa ao longo dos tempos q 21

O período paleolítico parece ter sido uma época relativamente pacífica e harmoniosa. Não há vestígios de armas, além das usadas para a caça, nem de lutas entre grupos. Em vez de competição havia a colaboração, a sociedade era igualitária, centrada na coleta e distribuição dos alimentos e na proteção das crianças. Apesar das dificuldades climáticas, os grupos se adaptavam, migrando de uma região para outra quando o alimento escasseava. As tarefas eram distribuídas de uma forma que lhes parecia natural: as mulheres cuidavam da coleta dos alimentos, de sua preparação e das crianças, enquanto os homens caçavam, pescavam e protegiam a comunidade.

O período neolítico Com o fim da Era Glacial, o retrocesso do gelo e a melhora das condições climáticas, os homens paleolíticos abandonaram as cavernas e se estabeleceram nos vales férteis, construindo suas primeiras habitações. A coleta de raízes, plantas e frutos foi substituída pelo plantio das sementes; a caça, pela criação dos animais e o pastoreio. No início, a agricultura era feita pelas mulheres que tinham descoberto que, ao jogar sementes na terra, elas brotavam. Depois, com o advento das ferramentas mais pesadas, a agricultura passou a ser uma atribuição masculina. Foram também as mulheres que inventaram a cerâmica (revestindo seus cestos de vime com argila e endurecendo-os no fogo), bem como a tecelagem, a fiação e mais tarde a escrita. Dizem as lendas que o próprio fogo foi inventado pela mulher – “saindo do seu sexo” – e criado pela fricção de dois bastões de madeira ou duas pedras. Uma importante fonte de dados sobre o período neolítico foram os achados arqueológicos nas sepulturas e nas ruínas das habitações e dos templos. Apesar da ausência de uma tradição escrita ou oral, a extensa arte neolítica revela detalhes do cotidiano das pessoas, suas crenças em relação à vida e à morte e suas práticas religiosas. As fantásticas descobertas na Anatólia (as cidades de Çatal Huyuk e Hacilar), da Índia (os sítios de Harappa e Mohenjo Daro), as escavações na Síria, o templo de Jericó, os achados dos Balcãs (Romênia, Bulgária, antiga Iugoslávia), os templos e necrópoles de Malta, os palácios minoicos de Creta, as


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câmaras subterrâneas e os círculos de menires dos países celtas revelam culturas avançadas, centradas em cultos de adoração à Deusa cada vez mais rebuscados. Além da continuidade das práticas de sepultamento do paleolítico, aparece um sistema complexo de simbolismo feminino, expresso em inúmeras e diversas estatuetas da Deusa em terracota, pinturas em murais, entalhes em couro, cerâmica e tecelagem. A Deusa – acompanhada às vezes do seu filho ou consorte – está presente em toda parte, nos suntuosos templos, nos altares simples das casas, nas necrópoles e câmaras subterrâneas. As estatuetas femininas e vários outros registros arqueológicos atestam a existência de uma religião ginocêntrica (fundamentada na Deusa) e de uma sociedade matrifocal (centrada na mãe e na mulher). Os povos neolíticos reverenciavam de maneira ampla e complexa o mistério do nascimento e da morte, a renovação da vida e da natureza, seguindo os ciclos cósmicos e a imanência da Deusa em todas as formas de criação. A linhagem humana era matrilinear (por ser a Deusa a Fonte Suprema), os filhos recebiam o nome da mãe (nem sempre o pai era conhecido, a concepção sendo um ato sagrado celebrado nos rituais de fertilidade) e os homens passavam a fazer parte da tribo nativa das mulheres, que continuavam próximas às suas mães. Este sistema matrifocal e matrilinear não representava um sistema matriarcal, ou seja, o modelo de domínio de um sexo sobre o outro, assim como aconteceu no patriarcado que se seguiu. Como Riane Eisler tão bem definiu, a sociedade matrifocal era um sistema social de parceria, sem hierarquia ou tirania, chamado por ela de gilania (gi do grego gyne – mulher, “an” de andros – homem e “l” do lyo – solucionar, libertar). Homens e mulheres se revezavam nas tarefas, responsabilidades, diversões e prazeres, mas também tinham seus espaços separados de práticas e rituais espirituais, respeitando assim as diferenças entre os sexos, mas favorecendo e estimulando a complementação e colaboração. Além do desenvolvimento multilateral da civilização neolítica na economia agrária, artes, artesanato, edificações, meios de transporte, houve também uma grande evolução e expansão da consciência espiritual. O culto primitivo da Grande Mãe foi transformado em um complexo sistema de mitos, rituais, símbolos, recomendações e proibições divinas.


O culto da Deusa ao longo dos tempos q 23

O poder que governa o Universo é o da Mãe Divina, que dá vida ao seu povo e proporciona-lhe proteção, saúde, alimento material e espi­ ritual. Mas Ela é também a Senhora da Morte, recebendo seus filhos de volta no útero telúrico, à espera do renascimento. Da mesma forma que a vida era celebrada em imagens e rituais, os ciclos e os p­ rocessos destrutivos da natureza também eram reconhecidos e respeitados. A Deusa tanto presidia o nascimento quanto a morte, entrelaçando esses fenômenos naturais na sua dualidade de Senhora da Luz e da Sombra, a Mãe que dá e tira a vida. Os mortos eram acompanhados de estatuetas de deusas de mármore branco, com feições rígidas, mas com o ventre protuberante pintado de pigmento vermelho, prenunciando o princípio de uma nova vida, renascendo do útero cósmico da Mãe. O culto à Deusa era ao mesmo tempo monoteísta (a Mãe Suprema doadora da vida e da morte) e politeísta, devido aos nomes e às diferentes formas sob as quais a Deusa era adorada de acordo com as diferenças geográficas. A Deusa paleolítica diversifica-se em múltiplos aspectos – a Virgem retrata o dom da vida, as dádivas da primavera, a alegria do renascimento; a Mãe é aquela que nutre e sustenta a vida com o seu corpo, o calor do verão e seus frutos, celebrando a abundância da natureza; a Anciã é a Senhora da Morte em cujo caldeirão sagrado se processa a transformação, recebendo as sementes da colheita anterior e gestando-as no silêncio invernal de seu ventre escuro à espera de um novo ciclo, na eterna espiral cósmica e telúrica. A Deusa é “A Mulher que Muda”, toda abrangente, que personifica a eterna Roda – do ano, da vida, do universo – manifestada nas mudanças visíveis da Natureza. Por isso, tudo que existia como reflexo da Deusa – seja o ser humano, o animal, a planta, a montanha, a chuva, o vento ou o mar – era considerado sagrado e reverenciado. Surgem assim as inúmeras deusas para reger aspectos específicos da Grande Mãe – as deusas das Águas, dos Pássaros, dos Grãos, das Artes, da Cura, da Magia, ou simplesmente a Mãe embalando seu filho divino em seus braços. A Deusa era uma divindade imanente, ou seja, manifestada em tudo o que existia, por ser ela o próprio Todo. Os seus atributos divinos eram reflexos efetivos e práticos da realidade do mundo, cada uma das suas manifestações sendo um modelo natural e específico


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para as atitudes e expressões dos seres vivos. Nos seus cultos e rituais usavam-se suas imagens, características, símbolos e ciclos como meios para estimular a percepção das pessoas sobre as características e as fases das suas próprias vidas, assegurando assim uma relação dinâmica e permanente com toda a Natureza. As religiões da Deusa eram baseadas em práticas xamânicas que permitiam às pessoas a comunicação e identificação com suas diversas formas e apresentações através de transe, do êxtase, da comunhão, das oferendas e da celebração. Totalmente desprovidas de imagens de violência, crueldade, poder armador, guerras ou conquistas, a arte e cultura neolíticas celebram a vida, realçam a beleza e a harmonia, homenageiam e participam nos processos de morte e transformação. Os rituais propiciavam a fertilidade da terra, dos animais e das mulheres, asseguravam a existência satisfatória das comunidades e a interação harmônica com os ciclos cósmicos, as forças da natureza e os espíritos ancestrais. Apesar do predomínio da figura feminina – como Deusa, Mãe ou Matriarca –, os membros masculinos também eram reconhecidos e reverenciados, seja no plano divino como o Seu filho ou consorte, seja no plano humano como irmãos e companheiros, sem estarem subordinados ou inferiorizados. Nos cultos participavam juntos sacerdotisas e sacerdotes, cabendo às primeiras a conexão e transmissão das comunicações da Deusa. A família – sacra e profana – era representada por ordem da importância como “mãe, filha, filho e pai”. Os idosos eram respeitados e seus conselhos e ensinamentos ouvidos e seguidos com a reverência devida à sua sabedoria. A primazia da Deusa e a valorização da sua representante – a mulher – não implicava na subordinação, pois tanto os homens quanto as mulheres eram filhos da Deusa. Apenas cabia às mulheres uma responsabilidade espiritual maior e, pela união, ambos os princípios – masculino e feminino – se complementavam, duplicando – e não dividindo – os seus poderes. Foi este o modelo social simbolizado pelo poder do Cálice, tão diferente do que lhe seguiu – o da força da Espada. Após os períodos paleolítico, que durou mais de 30.000 anos, e neolítico, cuja duração foi em torno de 10.000 anos, ocorreu a grande mudança que substituiu as sociedades de parceria por sistemas sociais de dominação, violência e autoritarismo hierárquico e patriarcal.


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A destruição das antigas culturas da Deusa Por volta de 5.000 a.C., catástrofes naturais e invasões de tribos bárbaras começaram a causar transtornos e destruições em larga escala. Após um caos crescente, estabeleceu-se um período de regressão e estagnação cultural e espiritual, assinalando o fim das culturas pacíficas. Somente após 2.000 anos surgiram as civilizações da Suméria e do Egito, porém com características bem diferentes das anteriores. Na Europa antiga – conforme demonstrou a renomada antropóloga e arqueóloga Marija Gimbutas em seus mais de vinte livros e trezentos artigos – a ruptura das sociedades centradas no culto da Deusa iniciou-se 7.000 anos atrás com as invasões dos povos kurgos. Em ondas sucessivas, vindas do norte asiático, essas tribos guerreiras de povos indo-europeus trouxeram consigo seus violentos deuses masculinos e impuseram com o poder letal da espada suas ideologias e estruturas sociais e comportamentais sobre as terras e os povos agrários e pacíficos por eles conquistados. Além dos kurgos, outros invasores nômades impuseram seus Deuses vingativos e coléricos, como os semitas, que eram governados por uma casta de sacerdotes-guerreiros cultuando o terrível Jeová. Apesar das origens diversas, os invasores tinham em comum o modelo dominador de organização social, uma hierarquia autoritária e as tecnologias de destruição. Não foi a descoberta dos metais per se que proporcionou a fabricação e uso das armas de destruição, já que a metalurgia era conhecida na Europa desde 6.000 anos a.C. pelos povos dacos e celtas e os metais eram usados para confecção de estatuetas de deusas, objetos rituais, joias e ferramentas. Foram a guerra, a violência e a cobiça das conquistas que substituíram o modelo de parceria pelo de dominação. As antigas culturas europeias e a kurga eram a antítese uma da outra. A ideologia neolítica enaltecia os valores da vida e da fertilidade representados pela Mãe Criadora, enquanto a kurga adorava deuses guerreiros e viris que exaltavam o poder de tomar a vida. Não existiam armas nem fortificações nas sociedades neolíticas, que eram baseadas na agricultura e criação de animais. Os kurgos eram tribos nômades, montados em cavalos, manuseando com perícia armas que representavam as funções e poderes dos seus deuses. Estes deuses, por meio dos seus mitos, lhes


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davam o direito à pilhagem, à destruição das propriedades, à profanação dos santuários, ao estupro das mulheres, ao massacre das crianças e dos homens, à tomada de escravos. A organização da sociedade passou de matrilinear para patrilinear, aparecem a estratificação social, as fortificações, os heróis armados, a distribuição da riqueza pela força e a superioridade absoluta do masculino. As mulheres passaram a ser troféus de guerra, simples posses masculinas, usadas para prazer ou procriação, sacrificadas nos trabalhos pesados ou transformadas em oferendas para acompanhar seus “donos” no além-túmulo (prática atroz que continuou até o século XX na Índia, com a imolação das viúvas). As civilizações e as culturas milenares da Deusa foram mutiladas, seus templos e estatuetas destruídos e os mitos e lendas modificados e deturpados. Tornou-se necessário estabelecer uma nova hierarquia divina para justificar a interiorização e subordinação das mulheres. A Deusa foi relegada cada vez mais à condição de esposa, amante, mãe ou filha dos novos deuses masculinos, senhores da guerra, dos raios e dos relâmpagos. Não só a Deusa não era mais a Mãe Suprema, como também foi transformada em padroeira da guerra. A Grande Mãe foi dicotomizada na Mãe Boa que dava a vida e a alegria e na Mãe Terrível que trazia destruição e morte, diversificada em várias deusas guerreiras. Estas deusas não defendiam as mulheres, nem as inspiravam para afirmarem sua independência. Elas apoiavam e fortaleciam os guerreiros, sendo por eles invocadas antes dos combates. Athena, Durga, Morrigan, as Amazonas e outras deusas guerreiras da Europa, Ásia, África, América são criações mitológicas recentes, distorcendo suas antigas funções. As deusas guerreiras não representam aspectos imanentes da Grande Mãe, mas arquétipos da violência dos deuses masculinos e do modelo recente do guerreiro. Até mesmo a sabedoria representada pela face Anciã da Grande Mãe passou a ser atributo do Deus Pai, como foi descrito na versão patriarcal do nascimento de Athena, não mais do ventre da sua mãe ­Metis, a deusa pré-helênica da sabedoria, mas da cabeça do seu pai Zeus, ­Senhor absoluto do Olimpo grego. Em outros mitos, a Deusa passou a ser assassinada pelo seu filho que assume o seu poder ou humilhada pelo estupro, aceitando a submissão.


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A ausência da Deusa Aos poucos, as antigas lendas sumérias e babilônicas que relatavam a criação simultânea dos homens e das mulheres pela Deusa Mãe foram substituídas por assim chamadas “histórias sagradas”, elaboradas ­durante vários séculos por sacerdotes na Mesopotâmia, em Canaã, na Judeia e em Israel. Essa reelaboração dos mitos culminou em 400 a.C. com a nova e última versão do Antigo Testamento. Nessa época, na ­Palestina, a mitologia bíblica que serviu de fundamento para a estruturação do judaísmo, islamismo e cristianismo foi reexaminada, modificada e adaptada pelos sacerdotes hebreus, preparando o advento de um estado teocrático e patriarcal que ignorava a Deusa e difamava o poder e o papel espiritual e social da mulher. Foram omitidos inúmeros textos sagrados anteriores, os mitos foram fragmentados e deturpados, o que levou às conhecidas contradições e incoerências da Bíblia, as mais conhecidas sendo as duas histórias diferentes da criação do homem por Deus.­ A primeira reproduz a antiga crença suméria da criação simultânea do homem e da mulher (porém pela Deusa), enquanto a segunda, muito mal elaborada, conta a criação de Eva da costela de Adão. Isso sem falar em outra versão intermediária da criação de Lilith como a antecessora de Eva e que não querendo aceitar o domínio de Adão foi se refugiar às margens do Mar Vermelho; histórias posteriores lhe atribuíram poderes malignos e a criação incessante de 100 demônios diários, que atormentavam e sugavam a virilidade dos homens. A pior aberração bíblica, no entanto, é atribuir a um Deus o poder da procriação, atributo natural e evidente da mulher e não do homem. Outra campanha difamatória de poder da mulher foi a perseguição da serpente. De fato, sabendo que a serpente era um dos símbolos principais da Deusa, o seu conluio com a mulher e a expulsão dramática do paraíso são facilmente compreendidas como o expurgo dos vestígios da tradição da Deusa e a consequente degradação e perseguição da mulher. Para aniquilar o poder sagrado da serpente – representado por várias deusas – enraizado na alma e na mente dos povos dominados, foi necessário elaborar um mito drástico para anular e desacreditar os vestígios do culto da Deusa e derrotar a mulher. Posteriormente, surgiram as


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histórias dos deuses hebreus e gregos e dos vários heróis que matavam a serpente, culminando com as proezas de alguns santos cristãos (vide a lenda de São Patrício expulsando as serpentes da Irlanda). Conhecendo as verdades históricas anteriores, reconhecendo as distorções e perseguições ­patriarcais, é fácil identificar no conselho dado a Eva pela serpente (antigo símbolo profético e oracular da Deusa) o incentivo para desobedecer às ordens e restrições impostas por um deus masculino. A própria Árvore do Conhecimento era a Árvore da Vida, antigo símbolo da Deusa existente em várias culturas. As funestas consequências da “desobediência de Eva às ordens de Jeová” foram os castigos infligidos à humanidade (ato tão injusto quanto incompreensível partindo de um Deus). Como Eva – simbolicamente o protótipo da mulher – recusou-se a aceitar as imposições patriarcais, ou seja, sem querer renunciar ao antigo culto da Deusa, teve que arcar com as punições mais terríveis. Como consequência do seu “pecado”, ela teve que se submeter ao domínio do homem, o representante terrestre deste Deus vingativo. Vários profetas esbravejavam nas Escrituras contra aqueles que ainda cultuavam a Rainha dos Céus e foram eliminadas da Bíblia quaisquer referências ao Sagrado Feminino, com uma proclamação explícita no Antigo Testamento de que “a dominação da mulher pelo homem era a vontade de Deus”. As leis elaboradas pela casta masculina dominante na sociedade hebraica definiam as mulheres como propriedade privada dos homens – primeiro os pais, depois os maridos, irmãos ou filhos. Criaram-se prescrições e proscrições para proteger a “virtude” feminina, para defender os direitos de propriedade dos homens, estipulando-se compensações financeiras caso as moças não casassem virgens e punições graves para as infratoras (até mesmo a morte pela desonra do seu pai). Havia leis bíblicas que puniam a adúltera, que era apedrejada até a morte. Pragas e doenças eram atribuídas aos “pecados” das mulheres, que podiam ser proscritas e vendidas como escravas. As consequências desastrosas desta moralidade e ética patriarcal são visíveis ainda hoje em vários lugares do mundo, onde mulheres continuam sendo estupradas, mutiladas, castradas, escravizadas, torturadas, sem que estes atos cruéis e desumanos sejam censurados ou proibidos pelas próprias autoridades civis ou religiosas.


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Enquanto a Bíblia autorizava a guerra e a pena de morte, o ato de dar a luz tornava-se impuro, a parturiente ficando isolada para não “contaminar” os outros, precisando fazer pagamentos aos sacerdotes para sua expiação e purificação. O ato mais sagrado reverenciado nas antigas culturas como a bênção manifestada da Grande Mãe que propiciava uma nova vida tornou-se algo torpe e corrompido. O sangue menstrual, antigamente ofertado pelas sacerdotisas à Terra, passou a ser temido, abominado e considerado motivo de exclusão das mulheres das sinagogas, do convívio com os homens e de certas atividades.

A herança da Deusa Apesar destas perseguições dos cultos da Grande Mãe, a sua veneração não desapareceu por completo, persistindo camuflada e modificada na reverência a Maria. Única mulher no panteão cristão, em lugar de ter a condição divina, ela é mortal, excluída da hierarquia formada somente pelo Pai-Filho, já que a sua antiga representação como Mãe dos cultos gnósticos cristãos foi dissimulada como sendo o “Espírito Santo”. O sagrado vaso da vida foi substituído pela pia batismal, o aniversário do nascimento de Jesus forjado para a antiga data em que a Deusa dava à luz a criança solar, os velhos santuários das deusas transformados em novas igrejas dedicadas à Virgem. Os antigos atributos da Deusa foram transformados em títulos para a Mãe de Deus e as relíquias das estatuetas de Ísis, Deméter e Cibele transformadas em Madonas Negras, cuja cor era atribuída à fumaça das velas e não ao aspecto ctônico da Grande Mãe. Persiste a imagem da Mãe embalando o seu filho divino, mas ela é mortal e virgem, sacralizando assim os cerceamentos à sexualidade feminina. A imagem mítica central da religião cristã passou a ser a crucificação e a morte, a exaltação da dor e do sofrimento e não mais a celebração da natureza e dos poderes provedores, mantenedores e regeneradores da vida da Deusa. A Mãe passou a ser a intermediária para encaminhar as súplicas dos fiéis ao Filho, a Virgem tornou-se sinônimo do valor feminino e a sexualidade personificada por Maria Madalena considerada um pecado mortal.


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Aliás, aquela que foi conhecida na Bíblia como a prostituta arrependida, na verdade, era a companheira “de fato” de Jesus, que após sua morte tornou-se uma líder respeitada no movimento cristão, até ser banida e perseguida pelos apóstolos androcratas, principalmente Pedro que se tornou chefe de uma nova hierarquia religiosa masculina, contrariando os ensinamentos igualitários de Jesus. A oração gnóstica para o Pai e a Mãe foi considerada uma heresia e as mulheres que tinham contribuído de forma importante para a implantação do cristianismo, respeitadas por Jesus e consideradas por ele iguais em poderes e direitos aos homens, foram pouco a pouco impedidas de exercer qualquer função sacerdotal, porque “Deus era homem”. Por volta do ano 200 a.C. todas as imagens ligadas ao Divino Feminino tinham desaparecido, a grande biblioteca de Alexandria foi queimada pelos cristãos, e filósofas como Hipácia, torturadas pelos monges cristãos, que alegavam que as fêmeas não podiam ensinar aos homens, por contrariarem as leis de Deus. Tudo o que levasse o rótulo de feminino era considerado inferior, perigoso e precisando ser dominado, controlado ou eliminado. Negava-se até mesmo a existência da alma na mulher, considerada a origem de todos os males, causadora da expulsão do Paraíso e do sofrimento da humanidade. No século XII começa um movimento matrista (a revalorização dos valores femininos) com o período trovadoresco no Sul da França, que enaltecia o amor cortês e o respeito pelas mulheres, com atos de cavalheirismo e gentilezas masculinas. Os trovadores eram jovens inovadores e progressistas que alçaram a Virgem Maria como a sua protetora, dedicando-lhe poemas e trovas. Contudo, foram perseguidos pela Igreja e considerados hereges. Este incipiente culto a Maria representou o primeiro sinal do futuro ressurgimento da Deusa. No entanto, a Igreja, preocupada com um possível reconhecimento do antigo poder das mulheres, tomou medidas drásticas e desumanas para subordinar e silenciar definitivamente as pretensões femininas e manter suas normas androcráticas e o poder material e espiritual. Começou assim a extrema difamação das mulheres com a publicação do abominável Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras) e a consequente “caça às bruxas”. Do século XII ao XVI a paranoia das


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perseguições bárbaras torturou e matou milhões de mulheres na Europa por meio de campanhas organizadas, financiadas e executadas pelos representantes da Igreja e do Estado. O estímulo inicial foi o medo da incipiente classe dos médicos da concorrência das “mulheres sábias” (parteiras, curandeiras, rezadeiras). Em seguida surgiram acusações aos antigos rituais agrários (para a fertilidade da terra e do gado) e às celebrações das mudanças das estações ainda praticadas nas aldeias europeias, atribuindo-lhes associações demoníacas e práticas satânicas. Porém, a acusação mais comum, usando de vários subterfúgios e métodos hediondos de obter confissões, era a sexualidade das “bruxas”. Segundo a Igreja, o poder demoníaco da mulher derivava-se da sua luxúria pecaminosa e insaciável, que contagiava e enfraquecia os homens. Até hoje é difícil compreender como a visão misógina dos padres sexualmente frustrados conseguiu desencadear e manter a violenta onda de condenações. A motivação real da Igreja no entanto era justificar e manter a dominação masculina e a autoridade paterna, garantindo sua supremacia sacerdotal e seu poder material com a apropriação dos bens das vítimas. Após séculos de opressão social, cultural e política, no século XIX começa o movimento feminista, desafiando os estereótipos convencionais da supremacia masculina e da submissão feminina. A resposta do sistema androcrático consistiu em uma reafirmação das virtudes e valores masculinos, glorificando a guerra e desprezando a fraqueza e a “incapacidade mental” das mulheres. Somente no século XX inicia-se a correção da omissão sistemática das mulheres na participação e contribuição social, cultural, artística ou espiritual. São escritos inúmeros livros documentando a eliminação histórica dos valores femininos e trazendo novos enfoques sobre a reinterpretação das relações humanas.

O retorno da Deusa A mudança da condição da mulher pela sua emancipação intelectual, social e política permitiu o reconhecimento, a aceitação e a reintegração dos valores ditos femininos em todas as áreas da vida humana. Este processo está favorecendo a manifestação do Sagrado Feminino, como uma fonte de renovação para os indivíduos e a sociedade.


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A redenção do feminino diz respeito tanto à mulher quanto ao h­ omem. A excessiva ênfase no masculino manifestada por meio do pensamento racional, analítico e científico levou a humanidade a atitudes antiecoló­ gicas. Uma nova consciência ecológica surgirá tão somente quando acrescentarmos uma compreensão intuitiva e uma conexão espiritual com a Natureza. Lembrando o antigo mito e a moderna teoria de Gaia, poderemos realmente sentir, ver e reverenciar a Terra como um organismo vivo, unindo os elementos, as forças da Natureza, os seres de todos os reinos e os homens rumo ao Divino. Para que os valores femininos possam ser plenamente vividos são necessárias profundas mudanças em todas as áreas (social, política, educativa, familiar, cultural, econômica e espiritual). Pelo fato das mulheres terem sido “alimentadas” apenas por imagens masculinas do Divino ao longo dos últimos 3.000 anos, é imprescindível o reconhecimento, a aceitação, a divulgação e a integração do Sagrado Feminino, buscando nos antigos mitos, lendas e tradições da Deusa as manifestações e o respaldo do eterno princípio divino feminino. Encontrando sua Deusa Interior, as mulheres encontram a si m ­ esmas, reconhecendo e aprendendo como usar seu poder sagrado e a sua sabedoria ancestral. O arquétipo da Grande Mãe nas suas múltiplas manifestações está no nosso inconsciente – individual e coletivo. Ao encontrá-lo, começa­ remos a lembrar nosso próprio início, o contato inicial e a presença amorosa e protetora da nossa mãe carnal, acessando assim a Mãe Divina. Por intermédio de sonhos, rituais, meditações, visualizações, poderemos explorar nossos registros inconscientes, expandindo nossa consciência e vivendo melhor o nosso mito pessoal. O reconhecimento do Sagrado Feminino não é apenas um problema particular ou uma busca individual de algumas mulheres, mas sim de toda a humanidade. Trata-se da integração de todo o ser humano aos valores inerentes à natureza humana, unindo os princípios masculino e feminino, emoção e razão, Eros e Logos, amor e poder, para vencer a grande ilusão da separação e o dogma ultrapassado da dualidade.


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Para que haja realmente uma nova era planetária, com uma nova mentalidade e consciência, é preciso usar a força feminina do amor para abrir mentes e corações. O amor à vida, ao próprio Eu, aos outros, aos animais e plantas, a todas as formas de vida, à Terra, à Grande Mãe. Emerge da sabedoria e compaixão do Sagrado Feminino essa visão do amor todo abrangente e poderoso, que reformula os antigos sistemas de crenças, conceitos, ideologias, comportamentos, em busca de um novo mundo, sem hierarquia, competição ou dualidade, mas em amorosa e verdadeira parceria, realizando assim o casamento sagrado do Céu e da Terra, da Deusa e do Deus, da mulher e do homem.


O Legado da Deusa analisa o culto da sacralidade feminina ao longo dos tempos; traz práticas e exercícios para facilitar o acesso à voz interior por meio da introspecção, meditação e imaginação; descreve e ensina como realizar rituais que celebram a feminilidade, determinam estágios e passagens, reconhecem e transmutam perdas e marcam a vida da mulher. “(...) meu país de origem, a Romênia, antes de se tornar mais uma das colônias do extinto Império Romano, tinha sido a Dácia, uma rica e linda terra habitada por um ramo dos celtas, cuja cultura foi absorvida pelas inúmeras invasões dos citas, hunos, gregos, romanos e eslavos. Mesmo assim, muitas das tradições populares existentes na Romênia pré-comunista revelam uma semelhança assombrosa com as dos povos celtas. Essa sintonia com o espírito celta prevalece até hoje na minha memória ancestral e considero como minha pátria espiritual a lendária Avalon, onde busco inspiração, conforto e força. A partir da revelação que tive na colina sagrada de Tor, em Glastonbury, que mudou totalmente minha vida espiritual, segui a voz da Deusa que me pedia para que eu voltasse ao antigo caminho e (re)começasse a falar em seu nome. Surgiu, assim, a luz que passou a iluminar minha vida e orientar meu trabalho.”

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O Legado da Deusa  

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