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O surgimento de uma startup é algo mágico. Como colocar em prática uma idéia original? Como convencer investidores a apostarem nessa idéia? O que fazer quando as coisas dão errado? Neste livro, fundadores de famosas startups respondem a essas e muitas outras perguntas, em entrevistas exclusivas à autora Jessica Livingston. São histórias surpreendentes – uma reserva de experiência à disposição de todos. Eis os nomes consagrados:

“A fama que vem com o sucesso faz os fundadores de startups parecerem uma espécie diferente. Se as pessoas puderem ver como essas empresas realmente começaram, talvez tenham mais coragem de iniciar um negócio próprio. Espero que muitos que leiam essas histórias pensem: ‘Esses caras já foram como eu. Talvez eu também consiga.’” Jessica Livingston

Startup

Steve Wozniak, Apple Computer Mike Lazaridis, Research In Motion (criadora do BlackBerry) Sabeer Bhatia, Hotmail Evan Williams, Pyra Labs (Blogger.com) Tim Brady, Yahoo! Paul Buchheit, Gmail Craig Newmark, craigslist Caterina Fake, Flickr Charles Geschke, Adobe Systems Blake Ross, Firefox Bob Davis, Lycos Max Levchin, PayPal Mitchell Kapor, Lotus Development Steve Perlman, WebTV Mark Fletcher, ONElist, Bloglines David Heinemeier Hansson, 37signals

JESSICA LIVINGSTON

jessica livingston é uma das fundadoras da Y Combinator, empresa que investe em idéias inovadoras, com sede em Cambridge, Massachusetts, e em Mountain View, Califórnia. Livingston foi vice-presidente de marketing do banco de investimentos Adams Harkness. Além de seu trabalho com startups na Y Combinator, ela mantém a Startup School.

JESSICA LIVINGSTON

Startup FUNDADORES DA APPLE, DO YAHOO!, HOTMAIL, FIREFOX E LYCOS CONTAM COMO NASCERAM SUAS EMPRESAS MILIONÁRIAS

Este livro que você tem em mãos é o mapa da mina para inovações tecnológicas. São dezesseis entrevistas com as pessoas que imaginaram, desenvolveram e levaram ao mercado alguns dos produtos mais badalados – e usados – de nosso cotidiano. O Blogger, por exemplo, era apenas uma ferramenta que Evan Williams fez para gerenciar seu site pessoal – mas acabou gerando a invasão dos blogs, fazendo de Williams um milionário. A idéia do BlackBerry, o celular na mão de dois em cada três executivos, surgiu na noite maldormida em que Mike Lazaridis, com seu bebê chorando no colo, imaginou um aparelho no qual pudesse receber seus e-mails a qualquer momento, onde estivesse. O Flickr, o mais popular site de compartilhamento de fotografias, nasceu enquanto Caterina Fake desenvolvia um supervideogame. Em todas as histórias, há mais que o estalo da inspiração: está sempre ali a consciência de que a tecnologia da informação serve a pessoas, à formação de comunidades. Cada programa, site ou aparelho analisado aqui fez sucesso porque ajudou gente de verdade a manter contato com amigos, familiares, colegas de trabalho. É um princípio simples que leva à revolução que estamos vivendo já faz mais de dez anos. A história de como tudo aconteceu, os próprios revolucionários a contam aqui. pedro doria, colunista de tecnologia do Estado de S. Paulo.

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Startup


Startup fundadores da apple, do yahoo!, hotmail, firefox e lycos contam como nasceram suas empresas milionárias

Jessica Livingston revisão técnica

Carlos Irineu da Costa


Título original Founders at Work Edição em língua inglesa publicada por Apress Inc., 2560 Ninth Street, Suite 219, Berkeley, CA 94710 USA. Copyright © 2007, Apress, Inc.. Copyright da edição brasileira © 2009, Agir Editora Ltda. Todos os direitos reservados. Capa Rita da Costa Aguiar Revisão Patrícia Reis Produção editorial Juliana Romeiro

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. L762s

Livingston, Jessica Startup: fundadores da Apple, do Yahoo, Hotmail, Firefox e Lycos contam como nasceram suas empresas milionárias / Jessica Livingston; [tradução Marilena Reginato de Moraes Souza]. — Rio de Janeiro: Agir, 2009. Tradução de: Founders at work: stories of startups’ early days ISBN 978-85-220-0994-7

1. Empresas novas — Estados Unidos — Estudo de casos. 2. Indústria eletrônica — Estados Unidos — Estudo de casos. I. Título. CDD: 338.040973 09-0021 CDU: 330.342.146(73)

Todos os direitos reservados à Agir Editora Ltda. – uma empresa Ediouro Publicações S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 – CEP 21042-235 – Bonsucesso – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3882-8200 fax: (21) 3882-8212/8313


Sumário

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prefácio, marcos wettreich

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agradecimentos

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introdução

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capítulo 1. Steve Wozniak, co-fundador, Apple Computer

47

capítulo 2. Mike Lazaridis, co-fundador, Research In Motion (criadora do BlackBerry)

61

capítulo 3. Sabeer Bhatia, co-fundador, Hotmail

77

capítulo 4. Evan Williams, co-fundador, Pyra Labs (Blogger.com)

97

capítulo 5. Tim Brady, primeiro funcionário contratado, Yahoo!

115

capítulo 6. Craig Newmark, fundador, Craigslist

125

capítulo 7. Caterina Fake, co-fundadora, Flickr

135

capítulo 8. Charles Geschke, co-fundador, Adobe Systems

157

capítulo 9. Blake Ross, criador, Firefox

171

capítulo 10. Bob Davis, fundador, Lycos

183

capítulo 11. Max Levchin, co-fundador, PayPal

205

capítulo 12. Mitchell Kapor, co-fundador, Lotus Development


225

capítulo 13. Steve Perlman, co-fundador, WebTV

245

capítulo 14. Mark Fletcher, fundador, ONElist, Bloglines

263

capítulo 15. David Heinemeier Hansson, sócio, 37signals

273

capítulo 16. Paul Buchheit, criador, Gmail


Prefácio

Antes de mais nada, empreender é muito mais difícil do que se supõe. O nível de dedicação necessário é bem maior do que imaginam aqueles que nunca tiveram a oportunidade de iniciar um negócio. Além disso, para ser bem-sucedido e criar uma empresa realmente inovadora, não existe leitura nem manual que realmente ensine o que fazer. Por isto mesmo Jessica Livingston foi especialmente bem-sucedida por escrever este livro. Ao trazer para estas páginas as experiências de empresários inovadores que conseguiram criar negócios reais e diferenciados, especialmente em uma área em que tudo está em constante inovação (tecnologia), ela conseguiu transmitir algo que normalmente custaria muitos e muitos anos e enorme dispêndio de energia, e mesmo capital, para ser adquirido: a experiência. A escritora acertou também na decisão sobre a escolha dos empreendedores, evitando entrevistar os Gates e Jobs fartamente encontrados nas revistas de negócios. Aqui temos inovadores que aprenderam a importância da persistência, que descobriram que planos de negócio (business plans) são necessários mas estão sujeitos a mudanças a todo momento, e que é preciso ser apaixonado ou até paranóico para fazer seu negócio prosperar. Pessoas que seguem em frente mesmo contra o bom senso vigente (até mesmo em confronto com parentes e amigos mais próximos), confiando quase cegamente em sua convicção, e que constatam que muitas vezes ter uma idéia original não é o que faz com que uma empresa seja bem-sucedida. Apesar de a maneira mais efetiva de aprender ser a prática, nas páginas deste livro o leitor ganhará indiretamente parte desta experiência que tanto custou ser adquirida por outros empreendedores. E direto da fonte! Como ter a idéia


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que me deixará rico? Como convencer investidores a investir dinheiro em uma nova idéia? O que fazer quando algo dá errado? É claro que não existem receitas únicas ou mágicas para responder a estas perguntas, e o que funcionou para um inovador aqui entrevistado não necessariamente funcionaria para um negócio que você, leitor, possa ter em mente. Mas, sem dúvida, elementos contidos nestes relatos terão grande valia quando aplicados a novas iniciativas. Até mesmo as contradições que podem ser encontradas nas várias visões contidas neste livro são, por si só, lições. Elas demonstram que os caminhos são os mais diversos possíveis. Leia, reflita, aprenda e aja. Não existe realização sem execução, e quanto mais aprender antes de seus primeiros passos, maiores serão suas chances. Boa sorte. Marcos Wettreich


Agradecimentos

Em primeiro lugar quero agradecer à minha tia, Ann Gregg, por seu apoio inconteste e seu incentivo. Ela é uma leitora de incrível percepção e seus conselhos ajudaram a tornar este livro melhor. Agradeço aos entrevistados por partilhar suas histórias, seu tempo. Há um detalhe em relação aos entrevistados que não mencionei na introdução: como gostei deles. São verdadeiros e inteligentes, foi uma honra ter essa oportunidade. Sei que a natureza ingênua de suas histórias e de seus conselhos vai inspirar outros fundadores em potencial. Agradeço a Gary Cornell por estar disposto a fazer uma espécie diferente de livro e à equipe da Apress por trabalhar numa publicação diferente. Quero agradecer a muitas pessoas pela disposição em me apresentar a tantas outras: Jim Baum, Patrick Chung, Mark Coker, Jay Corscadden, Rael Dornfest, Jed Dorsheimer, Randy Farmer, Steve Frankel, Anand Gohel, Laurie Glass, James Hong, Mitch Kapor, Morgan Ley, Mike Palmer, Tom Palmer, Bryan Pearce, Andrew Pojani, Will Price, Ryan Singel, Langley Steinert, Chris Sacca e Zak Stone. Agradeço a Kate Courteau pelos escritórios aconchegantes que criou para eu trabalhar; a Lesley Hathaway pelo apoio e pelos conselhos; a Alaina e David Sloo por me apresentarem a muitas pessoas; e a Sam Altman, Paul Buchheit, Lynn Harris, Marc Hedlund e Aaron Swartz, leitores dos primeiros capítulos. Meu agradecimento a Lisa Abdalla, Michele Baer, Jen Barron, Ingrid Bassett, Jamie Cahill, Jessica Catino, Alicia Collins, Caitlin Crowe, Julie Ellenbogen, John Gregg, Chrissy Hathaway, Katie Helmer, Susan Livingston, Nadine Miller, Sara Morrison, Bridget O’Brien, Becky Osborne, Allison Pellegrino, Jennifer Stevens e a Suzanne Woodard pelo incentivo.


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Agradeço aos que partilharam seus insights sobre empresas startups em jantares na Y Combinator ou pessoalmente: Rich Bacon, Greg Benning, Tom Chur Chill, Michael Ellenbogen, Jonathan Gertler, Hutch Fishman, Sara Harrington, Bill Herp, Bradley Horowitz, Joel Lehrer, Carolynn Levy, Simon London, Page Mailliard, Udi Manber, Fredrick Marckini, Greg McAdoo, Mark Macenka, Mike Mandel, Jerry Michael, Rich Miner, Mark Nitzberg, Peter Norvig, Steve Papa, Tom Pinckney, Stan Reiss, Olin Shivers, Hugues Steinier, Jeff Taylor, Rob Tosti e Stephen Wolfram. Agradeço aos fundadores das startups que financiamos na Y Combinator. São inspiradores e sei que têm histórias valiosas para partilhar. Agradeço em especial a Trevor Blackwell e a Robert Morris pelo grande apoio. Tenho a sorte de trabalhar com eles. Agradeço a meus avós, Baba e Bob, a quem admiro e cujos conselhos como escritores muito me ajudaram. Agradecimentos especiais a papai e a Michele, que me apoiaram mesmo quando tive idéias loucas como deixar o emprego para fundar uma empresa e escrever um livro. Ao longo dos anos, meu pai jamais pareceu duvidar de que eu poderia fazer alguma coisa de que ele realmente se orgulhasse, e aprecio isso.


Introdução

Uma espécie de mágica acontece nas startups, especialmente bem no comecinho, mas apenas os fundadores estão lá para ver. A melhor maneira de compreender o que acontece é perguntar a eles; e foi o que fiz. Neste livro, você vai conhecer as histórias dos fundadores das startups por suas próprias palavras. Quero compartilhar alguns dos padrões que percebi. Quando se entrevista uma série de famosos fundadores de startups, não se pode evitar a tentação de buscar alguma qualidade especial em comum que os tenha tornado bem-sucedidos. O que mais me surpreendeu foi como eles não tinham realmente certeza de estarem iniciando alguma coisa de grandes proporções. Algumas dessas empresas começaram quase por acidente. O mundo pensa que esses fundadores têm algum tipo de confiança super-humana, mas muitos estavam inseguros quanto a iniciar o negócio. Tinham a certeza, porém, de estar fazendo algo de bom — ou de estar tentando consertar algo. Todos estavam determinados a construir coisas que dessem certo. Na verdade, eu diria que a determinação é a qualidade mais importante para um fundador de startup. Se as pessoas que entrevistei tinham algo de super-humano era a perseverança. Isso apareceu repetidamente nas conversas. Perseverança é importante porque, numa startup, as coisas não seguem um plano. Os fundadores vivem o dia-a-dia com uma dose de incerteza, isolamento e, às vezes, falta de progresso. Além disso, as startups, pela própria natureza, fazem coisas novas — e quando se faz coisas novas, a rejeição é freqüente. Este foi o segundo aspecto surpreendente que aprendi com as entrevistas: como os fundadores foram de início rejeitados; por investidores, jornalistas,


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empresas tradicionais. As pessoas gostam da idéia de inovação no abstrato, mas tendem a rejeitar uma inovação concreta que lhes é apresentada porque não está de acordo com o que já conhecem. Se fizermos uma retrospectiva, veremos que inovações foram inevitáveis, mas, na época em que surgiram, travou-se uma dura batalha. É curioso pensar que a tecnologia que hoje nos parece natural, como a troca de mensagens por e-mail, já foi dispensada por não ser promissora. Como disse Howard Aiken: “Não tema que suas idéias geniais sejam roubadas. Se elas forem realmente boas, será tão difícil as pessoas aceitarem que você terá de enfiá-las pelas goelas delas.” Além de ter perseverança, os fundadores de startups precisam ser adaptáveis. Não apenas porque é necessário um certo nível de flexibilidade mental para entender o que os usuários desejam, mas porque o plano provavelmente vai mudar. As pessoas pensam que as startups surgem de uma brilhante idéia inicial, como se fosse uma semente que resulta numa planta. Mas quase todos os fundadores que entrevistei foram mudando suas idéias à medida que as desenvolviam. A PayPal começou como um software de criptografia, a Flickr veio de um jogo on-line. Iniciar uma startup é um processo de tentativa e erro. O que guiou os fundadores nesse processo foi sua empatia pelos usuários. Sempre visaram a fazer o que as pessoas queriam. Os fundadores de startups de sucesso, em geral, ficaram ricos, mas os que entrevistei não estavam no negócio apenas pelo dinheiro.Tinham muito orgulho do trabalho braçal. Queriam mudar o mundo e, por isso, muitos iniciaram novos projetos igualmente ambiciosos. É claro que têm prazer em ter mais liberdade financeira, mas escolhem usar o dinheiro construindo mais novidades. As startups bem-sucedidas são diferentes de empresas estabelecidas — é mesmo surpreendente como começaram. Seria bom se as pessoas prestassem mais atenção nesse nicho tão importante do mundo dos negócios, embora quase sempre incompreendido. É nele que está a essência da produtividade. Na sua forma mais simples, a produtividade parece tão estranha que a impressão, para muitos, é que nada tem a ver com negócios. Mas se o início


INTRODUÇÃO

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das startups foi assim, o mundo empresarial poderia ser mais produtivo se funcionasse da mesma forma. Meu objetivo com essas entrevistas foi registrar um conjunto de experiência para ajudar a todos. Você perceberá certos problemas que são recorrentes. Todos os fundadores desejavam ter conhecido certas coisas quando estavam começando. São coisas que agora estão à disposição para futuros fundadores em potencial. Espero sinceramente que este livro inspire pessoas que desejam iniciar seus negócios. A fama que vem com o sucesso faz os fundadores de startups parecerem uma espécie diferente. Se as pessoas puderem saber como essas empresas realmente começaram, talvez tenham mais coragem de iniciar um negócio próprio. Espero que muitos que leiam essas histórias pensem: “Esses caras já foram como eu. Talvez eu também consiga.”


capítulo 1

Steve Wozniak co-fundador da apple computer

Steve Wozniak pode ser considerado o homem que deu início à revolução dos computadores pessoais. Foi ele quem projetou a máquina que reuniu todos os elementos do computador desktop ao criar o Apple II. Wozniak e Steve Jobs fundaram a Apple Computer em 1976. Com a habilidade técnica de Wozniak e a energia magnética de Jobs, eram uma dupla e tanto. Naquele ano, Woz mostrou pela primeira vez o Apple I, no Homebrew Computer Club no Vale do Silício — era uma reunião periódica de amadores que projetavam e construíam computadores pessoais numa época em que eles ainda não vinham prontos dentro de caixas. A Apple deslanchou rapidamente depois que Jobs conseguiu um contrato com uma loja local de computadores para fornecer cem máquinas montadas e prontas para serem usadas. No ano seguinte, na West Coast Computer Faire — considerada a primeira feira de computadores pessoais, na época um hobby para fãs de eletrônica —, Woz apresentou a máquina que deu início à empresa e colocou os computadores pessoais, pela primeira vez, ao alcance de usuários leigos: o Apple II. Tanto o hardware quanto o software do Apple II foram projetados por Wozniak, um feito extraordinário e talvez ainda mais impressionante se levarmos em conta que, enquanto fazia tudo isso, Wozniak trabalhava em tempo integral na Hewlett-Packard.


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Em 1980, menos de cinco anos após sua fundação, a Apple Computer abriu seu capital, na maior oferta pública inicial desde a Ford Motor Company, em 1956, criando mais milionários instantâneos do que qualquer outra empresa até então.

Jessica: Como você se envolveu com computadores? Wozniak: No ensino médio, eu já sabia projetar computadores usando apenas metade dos chips que outras empresas da época utilizavam. Aprendi tudo sozinho, de uma forma que me fez conhecer todos os macetes dos componentes então disponíveis. Na vida, temos que valorizar aquilo em que somos bons, e meu grande talento era criar projetos com poucos componentes usando todos os recursos possíveis. Eu valorizava qualquer produto feito com esta filosofia. Isso me ajudou de duas formas. Quando se está em uma startup ou se trabalha sozinho, há pouco dinheiro e quanto menos componentes for preciso comprar, melhor. Além disso, quando você usa poucos componentes, tudo se torna tão claro e ordenado que você consegue compreender as coisas mais a fundo em sua mente. Você também comete menos erros. É possível passar seus dias e noites com todos os detalhes do produto em mente. Poucos anos antes de criar a Apple, estava trabalhando na Hewlett-Packard projetando calculadoras científicas. Era uma grande oportunidade trabalhar com um produto importante naquele momento. O que me levou a fundar uma empresa, contudo, era o que eu fazia fora da HP. Quando voltava para casa, continuava projetando equipamentos eletrônicos, porém não eram mais as calculadoras que criávamos na HP. Através de conhecidos, estava envolvido com os primeiros jogos domésticos. Descobri os videogames: o primeiro que realmente deu certo foi o Pong, então resolvi desenvolver a minha própria versão. A Atari queria usar meu projeto para criar o primeiro Pong para usuários domésticos. Queriam que eu colocasse o jogo em um único chip, o que seria mais econômico, considerando-se o volume de vendas que teriam. Foi uma idéia de Steve Meyer. Eu tinha uma boa relação com a Atari e eles reconheciam meu talento como projetista, então queriam me contratar.


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Jessica: Como a Atari chegou até você? Wozniak: Steve Jobs trabalhava lá em meio expediente, finalizando os jogos desenvolvidos em Grass Valley. Ele me chamou e me mostrou o que estavam fazendo. Na mesma hora, Nolan Bushnell me ofereceu um emprego. Recusei, dizendo que jamais deixaria a Hewlett-Packard, onde achava que iria trabalhar toda a minha vida. Na época, era a melhor companhia para os engenheiros, pois nos tratavam como se fôssemos uma comunidade, uma família, e todos cuidavam uns dos outros. Os engenheiros — os últimos no organograma — tinham a liberdade de apresentar idéias que depois poderiam se transformar no próximo produto importante da empresa. Estavam sempre abertos à reflexão, às conversas, à inovação. Em seguida desenvolvi um jogo para a Atari chamado Breakout, um produto incrível. Era ótimo ter meu nome associado a um videogame que de fato foi lançado comercialmente. Estávamos vivendo o começo de uma indústria da qual eu não fazia parte, mas queria ser um desenvolvedor e ter algum vínculo com aquela nova área. Em meio a todos esses projetos, acabei me envolvendo em outro. Naquele momento, a Arpanet — embrião da internet atual — tinha no máximo uma dúzia de computadores conectados em rede. Era possível escolher um computador para visitar e você teria uma conta com acesso limitado, aquilo que chamamos de “guest account”, uma conta temporária para usuários externos. Aqueles que tivessem uma senha de usuário podiam ir mais longe e fazer outras coisas. Para interagir com esses computadores de grande porte, raramente havia um terminal de vídeo, então usávamos teletipos como dispositivo de entrada e saída de dados. Uma vez vi alguém digitando em um terminal de teletipo e falando sobre jogar xadrez com um computador em Boston. Foi quando pensei que realmente queria fazer aquilo, que precisava ter aquilo, de alguma forma. É assim que muitos empreendedores começam: vêem uma coisa e pensam que precisam daquilo. Então projetam algo para si mesmos e fundam uma nova empresa. Eu não tinha como comprar as peças de que precisava — não podia comprar um teletipo, por exemplo, porque era muito caro — por isso tive que


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projetar meu próprio terminal. A única coisa que eu podia obter de graça era uma televisão comum para ver os caracteres que estavam sendo digitados ou aquilo que o computador gerava em resposta. Comprei um teclado por sessenta dólares, o que, na época, era incrivelmente barato. Foi o item mais caro desse terminal. Em seguida, precisei desenvolver circuitos e códigos de computador para colocar numa tela de TV pontos que formassem as letras do alfabeto, a fim de escrever o que vinha do computador remoto, conectado a uma rede. Usando o teclado, era possível digitar de volta os dados para alimentar esse mesmo computador. Para estabelecer a comunicação entre meu terminal e o computador remoto, construí um modem — um aparelho capaz de transferir dados usando uma linha telefônica normal — e foi assim que transformei uma tela de TV num monitor. É preciso lembrar, contudo, que eu ainda estava trabalhando na HP e fazia essas coisas só por diversão. Jessica: Foi quando você freqüentava o Homebrew Computer Club, certo? Wozniak: Exato. Era um clube composto essencialmente por jovens, pessoas que adoravam montar coisas e colocá-las para funcionar. Todos que estavam lá poderiam ter se tornado empresários, mas poucos eram desenvolvedores, realmente capazes de criar coisas novas. A maioria pensava nos circuitos com a mente de um técnico: soldando coisas, examinando-as, verificando os circuitos para saber se estavam recebendo as voltagens certas. Havia também muita gente ligada a software, mas sem experiência em hardware, o que era essencial para construir as primeiras máquinas. Bem no início, eu ainda pensava que precisava construir tudo de graça. Então, descobri que os microprocessadores tinham surgido. De certa forma, eu estava meio à parte do mundo da eletrônica, dos computadores, por causa do meu trabalho com calculadoras. Quando descobri os microprocessadores, fiquei intrigado, pensando sobre o que era aquilo. Não conseguia entendê-los totalmente, por isso comecei a ler a respeito. Eu me sentia desconfortável porque o mundo, de certa forma, havia se antecipado a mim — subitamente havia microcomputadores pequenos e baratos baseados em microprocessadores, mas


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eu sequer tinha ouvido falar no assunto, não fizera parte daquilo. Numa noite, analisei um microcomputador e descobri que era igual aos que eu projetava no ensino médio e que, aliás, eram muito bons. Um dia pude examinar o computador Altair, que dera início a tudo. Foi o primeiro microcomputador, mas não era realmente um computador. Não para mim. Eu só precisava de uma coisa. No segundo grau, disse a meu pai que teria um Data General Nova com memória de 4k. Essa é a quantidade mínima de memória necessária para executar uma linguagem de programação. Você tem que ser capaz de codificar em Fortran ou Basic ou em alguma outra linguagem para criar novos programas, fazer coisas novas. O Altair, que estava sendo vendido a um preço ridiculamente baixo, não era mais que uma versão melhorada de um microprocessador da Intel. Tudo o que fizeram foi lançá-lo no mercado dizendo que, a partir daquilo, era possível conectar todas as coisas que um microprocessador normalmente já aceitaria. Era possível adicionar RAM (Random Access Memory), placas que se comunicavam com teletipos, ou até comprar um teletipo por alguns milhares de dólares... Para ter um computador que realmente executasse uma linguagem de programação, contudo, era necessário gastar uns cinco mil dólares, algo fora do alcance de quase todos nós, que estávamos apenas começando e queríamos explorar aquele mundo. A turma do clube não tinha tanto dinheiro assim, mas todos queriam ter seus próprios computadores. Eu me lembro também que, cinco anos antes, em 1970, eu tinha projetado e construído um computador que era exatamente igual ao Altair. Chamava-o de “Cream Soda”, por conta de uma história que contarei mais adiante. Como eu não tinha um microprocessador naquela época, tive que construí-lo usando chips. Construí um processador que ficava em uma placa muito pequena, cerca de 9 x 12 cm. Tinha interruptores, luzes, parecia uma cabine de avião, exatamente como o Altair. E tinha tanta memória quanto o Altair (a memória inicial era de apenas 256 bytes). Eu podia configurar os interruptores, apertar botões, colocar seqüências binárias na memória e executá-las como um programa, e também podia ver que o código realmente estava lá, sendo executado.


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Novamente, já tinha feito aquilo cinco anos antes. Na época eu estava vendo o Altair e os microprocessadores e sabia que aquilo não bastava. Era necessário algo mais para rodar uma linguagem de computador completa. Contudo, a eletrônica havia avançado, estávamos mais próximos. Então fui pesquisar. Quando projetava qualquer coisa, queria que fosse viável e que não fosse algo caro, mas precisava no mínimo de 4k de memória RAM. As primeiras RAMs dinâmicas de 4k foram introduzidas em 1975. Era a primeira vez que as RAMs custavam menos do que as memórias com núcleos magnéticos que os computadores usavam até então. De repente, o mundo inteiro estava passando a usar RAMs. O silício se tornaria a nossa memória. Todo o resto — o Altair, os computadores da Sphere, da Polymorphic e da Insight — eram máquinas projetadas por engenheiros essencialmente incapazes, e não engenheiros de alto nível. Eram técnicos que sabiam como comparar as folhas de dados dos chips de RAM com as de um microprocessador, achar o ponto onde cada diagrama especificava “endereçamento” e conectar as duas coisas com um fio. É um trabalho muito simples enquanto as RAMs são estáticas. As RAMs dinâmicas custariam metade ou mesmo um quarto do preço. Com elas, o computador teria memória suficiente para rodar uma linguagem de programação com apenas oito chips de RAM, em vez de 32. Mas a RAM dinâmica, que continuamos usando em nossos computadores atuais, precisa de um circuito de apoio para acessar cada endereço individual da RAM a cada dois milésimos de segundo, ler o que está lá e escrever de volta, do contrário o valor existente naquele endereço se perde. Resolver este problema me custou um bom tempo de reflexão e alguns circuitos extras, mas, quando montei meu computador, já tinha os contadores usados para criar seqüências regulares para a tela de TV do meu terminal, então decidi que usaria os mesmos contadores para fornecer os valores e dizer ao microprocessador, constantemente, que endereços deveriam ser atualizados. Isto exigiu um projeto mais sofisticado, mas, no fim, não só havia menos chips como também eram menores. Impressionava qualquer um que o visse. Era


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mais barato e mais rápido. Você sempre consegue coisas baratas e rápidas se usar a abordagem certa. No final dos anos 1960, surgiram diversos minicomputadores, todos usando os mesmos chips 7400, com quatro portas cada. E todos seguiam o mesmo padrão: estabelecer um conjunto básico de instruções que torna o computador utilizável. A partir daí é possível criar um sistema operacional e desenvolver linguagens de programação. Então a Data General lançou o minicomputador Nova e, em vez de precisar de cinqüenta instruções para realizar uma seqüência básica de operações matemáticas, tinha uma só: uma instrução de 16 bits. Todos esses bits tinham um sentido e executavam ações. Pude observar como o Nova funcionava quando estudei seu projeto. Era uma forma mais simples de lidar com as operações lógicas. Refiz o projeto, como sempre, e quando terminei minha versão, o “meu” Nova tinha quase metade dos chips de todos os outros minicomputadores da Varian, da Digital Equipment Corp., da HewlettPackard — todos os minicomputadores da época (eu estudava o projeto de todos eles). E com metade dos chips, o Nova era um computador tão bom quanto os outros. O que mudou? A arquitetura se ajustava ao menor número possível de chips. Jessica: Você estudava e refazia o projeto de todos esses computadores no ensino médio, em casa, só por diversão? Wozniak: Sim, porque nunca pude construir um de fato. Eu ia além, contudo, e refazia os projetos de cada um dos computadores sempre que novos chips apareciam. Pegava um dos novos chips e refazia o projeto de um daqueles computadores porque assim surgiam idéias sobre como economizar mais alguns chips. Só fazia tudo isso porque não tinha dinheiro, não podia construir um computador de fato. Naquela época os chips eram caríssimos: como eu disse, um computador funcional valia tanto quanto a entrada de uma boa casa. Então a única coisa que eu podia fazer era projetar as máquinas no papel e tentar otimizá-las o tempo todo. Competia comigo mesmo para ter idéias que ninguém mais teria. Foi assim que refinei minha habilidade.


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Já sabia que eu usava muitas abordagens que nenhum ser humano utilizaria na prática. Nada daquilo sequer poderia ser ensinado formalmente na universidade. Fiz muitas coisas de cabeça, aprendi sozinho. Sequer havia computadores na escola onde eu estava cursando o ensino fundamental, naquela época. E mesmo assim eu os projetava. Dei sorte por ter conseguido alguns periódicos da área e descobri como obter manuais dos computadores, enquanto meu pai conseguia os manuais de chips para mim. Foi quando comecei a pensar em como se construía um computador partindo daqueles chips. Eu tinha uma habilidade específica e um objetivo definido: queria um computador. Minha habilidade era a de combinar chips com muita eficiência para atingir o meu objetivo, mesmo sem ter projetado nada parecido antes. Não sabia como fazer todas as coisas, mas, quando chegava o momento de elaborar um projeto — um controlador de floppy disk, uma interface para modem ou impressora, o que fosse —, eu projetava as coisas do meu jeito, de forma nova, sem saber como as outras pessoas faziam. As melhores coisas que fiz na Apple vieram do fato de eu não ter dinheiro e de nunca tê-las feito antes. Jessica: Você chegou a entrar na faculdade mas depois abandonou o curso, certo? Wozniak: Não exatamente. Não saí nem abandonei a faculdade. Depois do primeiro ano, trabalhei por um ano em programação para pagar o terceiro ano. Depois do terceiro ano, fiquei fora um ano para trabalhar e ganhar dinheiro para fazer o quarto ano. Foi quando consegui o emprego na Hewlett-Packard. Que emprego incrível! Minha carreira começou a deslanchar. Tinha aqueles projetos paralelos que eu fazia e depois veio o Apple. Não tive oportunidade de voltar a estudar naquele momento, apesar de ter esse desejo. Em 1981, sofri um acidente de avião que me deixou com amnésia. Cinco minutos ap��s sair da amnésia, compreendi que era hora de voltar à faculdade. Não haveria outra oportunidade. Voltei e me formei. Sempre gostei da universidade e era um bom aluno, um estudante nota dez. Meus pais tinham formação universitária e eu achava que os meus filhos precisavam saber que o pai deles também tinha formação universitária. Ainda assim, não aprendi nada


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sobre computadores na faculdade. Nunca tive uma aula sobre linguagens de programação, por exemplo. Jessica: Quando se deu conta de que podia construir o Apple I? Quando construí o Apple I, usei o terminal de TV que eu já tinha desenvolvido. Mas o Apple I era quase um protótipo: não havia sido projetado para ser eficiente, este seria o Apple II. O que fiz na época foi pegar o terminal que funcionava com meu aparelho de TV, um teclado e juntar alguns outros componentes. Pensei: “Esses computadores que estão surgindo têm interruptores e luzes e parecem cabines de avião. E são como o Cream Soda que construí há cinco anos: lentos e sem graça!” Era legal ter um computador, mas ele ainda não fazia o que eu queria. Tinha vontade de desenvolver programas, fazer um jogo e jogá-lo, ou desenvolver um programa que resolvesse as minhas simulações para o trabalho na HP. (Eu usava o grande computador deles. O minicomputador era compartilhado por quarenta engenheiros. Para usá-lo, era necessário agendar um horário.) Naquele ponto, já sabia que, para construir o computador que queria, precisava de um microprocessador. Já tinha descoberto que os microprocessadores eram muito similares àqueles minicomputadores que eu costumava projetar. Usar RAM dinâmica era a escolha ideal para economizar dinheiro e peças e, como disse, já possuía o terminal. Faltava, então, uma linguagem de programação, o que era possível agora, com 4k de memória. O problema era que ainda não havia linguagens de alto nível para aquele microprocessador da Motorola. Por um lado, fiquei um pouco desapontado, mas por outro me empolguei, porque eu seria o primeiro a escrever uma linguagem de programação para aquele processador. Iria ganhar um certo prestígio com isso. Como era muito tímido, para mim a única maneira de ser notado era projetando coisas importantes. Mas nunca havia implementado uma linguagem. Então, abri o manual da Hewlett-Packard no trabalho e estudei BASIC. Estudei todos os comandos e a partir deles desenvolvi minha própria implementação da linguagem. Além de criar uma versão dessa linguagem e de fazer o projeto do computador, eu também montava e soldava as peças. Eu também era o técnico: fiz de tudo nos meus projetos da Apple.


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Voltando ao Apple I, eu soube que teria o computador com que havia sonhado a vida inteira no primeiro encontro do Homebrew Computer Club. Entendi isso naquela noite, quando descobri o que era um microprocessador. Fui para casa e estudei o assunto, pensando que teria que conseguir dinheiro para comprar um deles. Foi difícil porque o processador da Intel custava 400 dólares, e eu não tinha como conseguir tanto dinheiro rápido. Seria como conseguir 2 mil dólares hoje, não é fácil. Então descobri que havia um processador da Motorola que eu poderia comprar por 40 dólares na Hewlett-Packard, mas logo em seguida a Motorola lançou o 6502 por 20 dólares. Foi o que comprei porque era muito barato e também o melhor naquele momento. A próxima etapa era construir o hardware. Examinei todos os computadores à minha volta, e percebi que eles sempre seguiam o padrão daqueles computadores antigos — interruptores e luzes, além de slots para inserir placas e conectálos a teletipos. E pensei que não queria nada daquilo, queria algo completo porque, naquele momento, o preço era viável. Tinha meu terminal com um teclado para digitar. O problema era carregar o programa na memória. Estava começando com um microprocessador que nem mesmo tinha uma linguagem de programação, e aí não tem jeito, você tem que colocar seqüências de números binários diretamente na memória. Resolvi escrever um programa simples, 256 bytes armazenados em apenas dois chips. Meu programa lia o que era digitado no teclado e cumpria as funções do painel frontal, porém cem vezes mais rápido. Também podia mostrar na TV o que estava na memória. Era possível inserir dados e rodar um programa. Isso me possibilitou ir mais longe ao digitar meus uns e zeros. Enquanto desenvolvia minha versão de BASIC, precisava digitar os uns e os zeros manualmente, até chegar a um ponto em que levava quarenta minutos para carregar todo o meu programa na memória. Não digitava em binário; usava o sistema hexadecimal (números em base 16). Então carregava o programa na memória e testava diferentes partes a cada vez para ver o que acontecia. Este não era um projeto normal, em que você tem ferramentas. Não havia ferramentas; minha abordagem da vida era justamente usar meu próprio conhecimento. Tenho mais controle sobre o que está acontecendo se não usar uma ferramenta.


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Jessica: Além de sua TV, você tinha um gravador cassete para armazenar dados, não é? Wozniak: Tinha. Depois que o Basic chegou a certo ponto, tinha que armazenar um programa grande de forma eficiente em algum tipo de mídia. Usei um gravador para não ter que ficar digitando durante quarenta minutos. Mas isso foi bem no final, quando meu BASIC já estava quase pronto. Jessica: Você apresentou esse trabalho no Homebrew Computer Club? Wozniak: A cada duas semanas eu apresentava meu projeto, que eventualmente virou o Apple I. Eu o levava ao clube e mostrava às pessoas, além de levar os diagramas. No trabalho, tirava cópias de todos os meus diagramas e os distribuía no clube para ser conhecido por fazer coisas legais. Fazia questão de que meu nome estivesse em todos eles, pois eu era tímido e queria que me conhecessem por estar fazendo algo legal. Era também uma forma de dizer aos outros que eles podiam construir os próprios computadores, por um preço bem barato, e não do jeito que os fabricantes do Altair queriam. Estava tentando dizer que havia outro tipo de computadores, outra forma de pensar. Algumas pessoas sacaram, outras não. Jessica: As pessoas que entenderam tentaram construir seus próprios computadores? Wozniak: Ainda era um processo muito trabalhoso. Muitos ali eram ligados à programação e não ao hardware. Não eram técnicos, muitos participantes do clube sequer sabiam como soldar. Então Steve Jobs começou a dizer que devíamos abrir uma empresa, pois muitas pessoas queriam construir um computador mas, mesmo que comprassem os chips em um kit, não iam querer soldar as peças. Ele sugeriu que criássemos uma placa na qual as pessoas poderiam colocar seus chips e ter um computador pronto. Soldar peças em um circuito impresso é fácil, não há fios. A idéia era fundar uma empresa, construir placas a 20 dólares e vendê-las a 40. O único lugar em que eu poderia vender era o clube. Pensei se haveria cinqüenta pessoas ali dispostas a comprar meu computador em vez do Altair com um Intel. Achava que não, mas Steve disse que, mesmo que não conseguíssemos recuperar o investimento, ao menos teríamos uma empresa.


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Jessica: Como você conheceu Steve? Wozniak: Através daquele computador que eu tinha construído antes, o Cream Soda. Falei a respeito com um amigo, Bill Fernandez, e combinamos de soldar umas peças na garagem da casa dele, gastamos mais ou menos duas semanas nisso. Fomos de bicicleta comprar cream soda, voltamos, bebemos, e por isso chamamos a máquina de Cream Soda. Um dia, Bill foi até a minha escola e me disse que havia um outro cara ali na Homestead High School, mais novo que eu, interessado em eletrônica e coisas do gênero, e que eu devia conhecê-lo. Ele nos achava parecidos. O que me lembro é que Steve apareceu. Ficamos lá no fim da rua, apenas conversando. Começamos comparando as coisas que já tínhamos feito e falando sobre tipos diferentes de equipamentos eletrônicos e chips. Havia muitas experiências similares, por isso tínhamos tanto para conversar e ficamos amigos por tanto tempo. Não havia tantos jovens que entendessem de tecnologia. Nossas personalidades não eram semelhantes, mas sou do tipo que se dá bem com qualquer pessoa que queira falar de tecnologia. Além disso, combinávamos no gosto musical. E estávamos muito mais interessados em Bob Dylan, em músicas sobre a vida, sobre de onde viemos, sobre o que funciona ou não, do que nas músicas mais populares. Sempre íamos a shows juntos. Eu ia para Berkeley durante a semana, mas voltava no sábado e aí sempre nos encontrávamos, comíamos uma pizza, fazíamos alguma coisa. Jessica: Quais foram as primeiras coisas que fez depois que Steve sugeriu a criação da empresa? Você ainda estava na HP, não é? Wozniak: De cara lembrei que tinha assinado um documento dizendo que tudo o que desenvolvesse pertenceria à Hewlett-Packard. Na ocasião, achei justo. Queria que a HP construísse o meu projeto, pois eu gostava da empresa e pensava que trabalharia lá para sempre, no setor de calculadoras. A HP era o lugar certo para fazer aquele tipo de computador. Procurei a administração e me reuni com três níveis de chefes acima de mim, além de outros engenheiros. Apresentei as idéias e disse-lhes o que poderíamos fazer, a que preço e como


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funcionaria. Eles se interessaram, mas não podiam justificar o projeto como um produto HP por algumas boas razões. A Hewlett-Packard não poderia fazer um projeto simples. Isso era realmente interessante. Queriam fazer um computador para cientistas, muito caro, não seriam eles a começar um movimento de massa. Não estavam interessados em usar um aparelho de TV que não viesse da HP. Um dia, Steve telefonou para o meu trabalho dizendo que tinha um pedido de cinqüenta mil dólares, cem placas de computador a quinhentos dólares cada — o que era um bom dinheiro. Era duas vezes o meu salário anual na Hewlett-Packard. Procurei todos os setores e ninguém se interessou. Nem mesmo o setor de calculadoras, o mais baixo na HP. Mas aquilo era muito barato, até mesmo para o departamento de calculadoras. Fui ao departamento jurídico e obtive uma resposta deles por escrito dizendo não haver interesse. Nós nos sentimos os maiorais. Íamos vender computadores. Tudo bem, nós vendemos uns 150 Apples I apenas, mas era um computador de verdade. E o nosso nome estava em todas as revistas, com gráficos e comparações. Aquela era uma indústria em pleno desenvolvimento e havia muitas reportagens a respeito. Ninguém poderia ignorar uma companhia com um nome como Apple. Jessica: Como surgiu esse nome? Wozniak: Foi idéia de Steve. Fui pegá-lo no aeroporto de São Francisco e quando seguíamos em meu carro ao longo da Baía, ele disse: “Tenho um nome para a companhia: Apple Computer.” Estávamos tentando achar um nome inteligente ligado à tecnologia, mas nada seria melhor do que Apple. Perguntei sobre a Apple Records (o que é engraçado, pois ainda temos problemas com eles) e Steve respondeu que era uma empresa diferente. Concordei. Abriríamos a Apple Computers. Naquela época, ainda não havia dinheiro no negócio de microcomputadores, e companhias e investidores com muita experiência — gente treinada em negócios e muito mais esperta que nós — não pensavam que este seria um mercado realmente grande, mas apenas um hobby, como robôs domésticos ou radioamadores. Uns poucos nerds entrariam nessa, mas não seria para as massas.


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No Homebrew Computer Club, sentimos que aquilo afetaria todos os lares do país, só que pelas razões erradas. Nós achamos que todo mundo teria habilidades técnicas o suficiente para usar o computador, desenvolver seus programas e resolver, assim, seus problemas. Mesmo quando começamos a Apple, tínhamos idéias erradas sobre o quanto aquele mercado cresceria. Jessica: Como conciliava tudo isso com seu trabalho na HP? Wozniak: Estava ficando cada vez mais difícil. Mas quando começamos a vender o Apple I, eu ainda pretendia ficar na Hewlett-Packard para sempre. Então o setor de calculadoras foi transferido para Corvallis, no Oregon. Minha mulher não quis se mudar, o que foi muita sorte, senão eu acabaria no Oregon, e o Apple jamais teria acontecido. Fiquei onde estava, mas fui transferido para o setor da HP que produzia os minicomputadores Hewlett-Packard 3000. Trabalhei lá durante algum tempo enquanto aprendia sobre o HP 3000… para o Apple II. Sabíamos que nosso produto era muito bom. Ele rompia limites em todos os aspectos. O Apple I, isso é bastante estranho, foi provavelmente muito mais importante, pois mostrou que um computador do futuro teria um teclado e uma tela de vídeo e se pareceria com uma máquina de escrever. Teria basicamente aquele tamanho. E, engraçado, todo computador desde o Apple I, inclusive a tecnologia Polymorphics do computador Sol que veio em seguida (e saiu do nosso clube), tinha um teclado e uma tela de vídeo. Nenhum computador tinha feito isso antes. Nenhum computador pequeno vinha com teclado. O Apple I foi o primeiro e o Apple II, o terceiro. Depois disso, todo computador passou a ter, basicamente, teclado e tela de vídeo. O mundo nunca mais foi o mesmo depois desse dia. E o Apple II era o grande design. Eu o projetei com muito poucas peças e ainda pusemos cor. Como era possível ter cor e ainda assim reduzir o número de chips pela metade? Foi uma idéia bastante inteligente que pipocou na minha cabeça numa madrugada, na Atari. Quando você fica muito cansado — e eu tinha ficado quatro noites sem dormir, pois Steve e eu tivemos mononucleose —, a sua cabeça entra num estado realmente criativo, gerando idéias que normalmente jogaria fora. Tive a idéia para gerar imagem a cores. Mas será que funcionaria?


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Quando fiz o circuito e coloquei alguns dados na memória que deveriam aparecer como cor, e as cores realmente apareceram, foi um daqueles momentos “eureca” que fazem você vibrar por dentro. Inacreditável! Fizemos com apenas alguns chips. Tinha cor, depois gráficos, depois alta resolução, controles e sons para colocar jogos na máquina, e memória dinâmica — o mais novo tipo de memória dinâmica que poderia se expandir quase que para sempre. Além de todo tipo de slots com um minissistema de operação que trabalhava realmente bem. Assim era o Apple II. Qualquer pessoa podia construir coisas para acrescentar a ele. Era possível desenvolver programas sofisticados, escrever em linguagem de máquina, ou escrever na minha Basic. Não havia limites. Sabíamos que precisávamos vender mil por mês, mas não tínhamos dinheiro para isso. Então saímos atrás de dinheiro. Um dos primeiros lugares onde fomos foi a Commodore, procurar o antigo gerente de marketing de produto para o microprocessador 6502 que eu tinha comprado por vinte dólares num estande em uma apresentação em São Francisco. Compramos esses nossos primeiros microprocessadores de Chuck Peddle, e com eles fizemos o Apple I e o Apple II. Chuck estava se mudando para a Commodore para fazer um computador. Precisávamos mostrar a ele o Apple II. Nós o levamos até a garagem. Ele era uma pessoa que eu respeitava, tinha desenvolvido o microprocessador que eu havia escolhido. Ele foi até lá e olhou o Apple II, eu mostrei todas as especificações dos padrões na tela, como rolar textos, e os jogos, tudo que eu tinha feito. Ele olhou, mas não disse muita coisa. Pensei que ficaria mais impressionado. Soubemos, mais tarde, que a Commodore havia nos descartado. Fomos até eles e falamos com Andre Sousan, engenheiro-chefe. Ele nos disse que Jack Tramiel, o diretor da empresa, tinha aconselhado Chuck Peddle a não usar todas aquelas coisas exóticas, como cor. A verdade é que eles não sabiam como fazê-lo. Não sabiam como fazer cor de forma barata. Havia placas para computadores pequenos. A Cromenco possuía um sistema de cor. Você comprava duas placas para o seu Altair; cada uma delas com mais chips do que o Apple II. Era assim que a maioria fazia para acrescentar


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cor. E Chuck Peddle disse: “Vocês deveriam fazê-lo barato. Apenas em preto-ebranco, com o teclado mais barato que se pode imaginar e a menor tela. Manter o custo baixo.” Eles queriam que fosse barato para que todos pudessem comprar. O mais engraçado é que o Apple II tinha pouquíssimas peças e era mais barato, mas, ainda assim, era muito mais funcional. Não tivemos que incluir um aparelho de TV, pois sabíamos que todo mundo tinha um. Jessica: E por que a Commodore não quis? Wozniak: Boa pergunta. Andre Sousan deixou a Commodore algumas semanas depois e veio à Apple dizendo sentir que tínhamos o produto certo e que queria ficar conosco. Eles perderam o momento certo. Acho que Chuck Peddle sabia o que podia desenvolver, mas sabia que não podia desenvolver o que o Apple II era. Eles deveriam tê-lo comprado. Teria sido um ótimo negócio, muito barato. Quando isso aconteceu, ainda estávamos tentando conseguir dinheiro. Não eu, mas Steve. Eu me importava bem pouco. Tudo o que queria era mostrar meu produto no Homebrew e ter crédito por ter feito um grande computador. Fomos à casa de Al Alcorn, visitar alguns amigos da Atari, e ele tinha uma televisão de projeção — a primeira que vi na vida. Usei o meu produto com a TV dele e ele gostou, ficou realmente interessado. A Atari faria o computador. Só que eles tinham um outro produto quentíssimo para sair: o primeiro jogo Pong para uso doméstico. Seriam milhões de consoles, o que quer dizer que todos os esforços da companhia tinham que estar voltados para isso, não dava para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Então nos puseram de lado. De maneira bem gentil, tenho de reconhecer. Procuramos, então, alguns investidores. Don Valentine foi à garagem ver o que tínhamos, mas não pareceu muito impressionado. Fez perguntas do tipo: “Qual é o mercado?” “Um milhão”, respondi. “Como você sabe?”, ele perguntou. “Bom, há um milhão de radioamadores e computadores são mais populares do que rádios.” Ninguém poderia negar isso. Mas não era o tipo de análise


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que eles queriam. Don não se interessou, mas nos indicou Mike Markkula, que estava interessado em tecnologia e à procura do que fazer. Steve o procurou e Mark achou que realmente tínhamos um grande produto, que haveria um mercado enorme para computadores de uso doméstico. Não havia ainda a expressão “computador pessoal”, que só surgiu um tempo depois. Com essa última expressão, estávamos tentando dizer: “Como vamos estabelecer esse novo tipo de computador? O que ele tem de especial?” Antigamente, muitas pessoas compartilhavam um computador. Pela primeira vez, você teria um computador só para você. Daí ser um computador pessoal. Talvez fosse quase um ponto negativo, mas estávamos tornando-o positivo. Mike disse que ele iria investir o dinheiro necessário para fabricar mil computadores — 250 mil dólares. Pareceu assombroso. Seria como uns dois milhões de dólares, hoje. Jessica: Vocês ainda estavam na garagem da casa dos pais de Jobs? Wozniak: Na verdade nós nunca fizemos grande coisa na garagem. As pessoas pensam que era lá que sentávamos e ficávamos soldando e desenvolvendo. Os projetos do hardware e do software dos Apple I e II foram feitos no meu apartamento em Cupertino ou na minha baia na Hewlett-Packard, tarde da noite. Os computadores eram manufaturados num lugar em Santa Clara. Eles faziam as placas, colocavam as peças e soldavam tudo. Steve levava para sua garagem, onde tínhamos um laboratório e plugávamos as placas, as testávamos no teclado. Se funcionassem, a gente encaixotava. Se não funcionassem, a gente consertava e encaixotava. Depois Steve levava tudo para o Byte Shop em Mountain View ou qualquer outro lugar e recebia o pagamento à vista. Comprávamos as peças a prazo e recebíamos pagamento à vista. Foi a única maneira de conseguirmos fazer o Apple I. Jessica: Então vocês continuaram se autofinanciando? Wozniak: Continuamos. Chegamos a ter uns dez mil dólares no banco. Não era uma fortuna, mas já era o bastante para nos mudarmos para um escritório. O Steve realmente queria fundar uma empresa.


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Jessica: Onde foi o primeiro escritório? Wozniak: Abrimos o primeiro escritório antes mesmo de firmarmos o acordo com Mike Markkula. Arranjamos uma sala em um complexo de escritórios em Cupertino. Não é muito longe de onde a Apple está localizada hoje em dia, nem longe do lugar onde era o nosso primeiro prédio na Brandley. Steve conseguiu que só pagássemos a metade do aluguel até que começássemos a usar a sala inteira. Era um pouco frio e vazio quando nos mudamos. Mike ia nos financiar e um dia ele me disse que eu tinha de sair da HP. Perguntei por quê. Eu havia desenvolvido dois computadores, interfaces de fitas cassete, interfaces de impressoras e portas seriais. Tinha escrito uma implementação de Basic, diversos programas, demonstrações e todo o resto, em um ano. Ele me disse que eu deveria sair da Hewlett-Packard, não tinha opção. Refleti, pensei em quem eu era, o que queria da vida. Eu realmente queria um emprego para sempre, como engenheiro, numa grande companhia. E queria construir computadores e mostrá-los, criar programas... Podia fazer isso sozinho, não precisava de uma empresa. Um dia recebi um ultimato. Encontrei Mike e Steve em Cupertino. Eu disse que não queria abrir a empresa e expus meus motivos. Mike disse apenas “OK”, mas Steve ficou aborrecido. No dia seguinte, meus pais me telefonaram e disseram que eu deveria abrir a empresa, porque 250 mil dólares era um grande negócio na vida de qualquer pessoa. E os amigos começaram a me telefonar. Meu amigo Allen Baum me telefonou à tarde e disse que eu poderia fundar a Apple, administrá-la e ficar rico, ou poderia fundar a Apple, continuar como engenheiro e ficar rico. Quando ele disse que eu poderia continuar sendo um engenheiro, aquilo realmente me libertou. Meu bloqueio psicológico me dizia para não abrir a empresa, eu tinha medo. Não sou bom em negócios e em política. Não iria dizer às pessoas o que fazer. Jamais dirigiria nada na vida. Era uma pessoa apolítica e contra a força. Desde a guerra do Vietnã. Não podia dirigir uma empresa. Quando me disseram que eu poderia ser engenheiro, foi tudo de que precisava. Eu teria a empresa e seria apenas um engenheiro. Desde aquele dia, estive


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na base do organograma da empresa. Nunca fui nada além de um engenheiro que trabalha. Jessica: Aí você telefonou para o Steve? Wozniak: Tomei a decisão naquela noite e comuniquei ao Steve. No dia seguinte fui à HP e disse aos amigos do setor de calculadoras que ia sair da empresa. Depois fui falar com meu chefe, mas ele estava numa reunião ou qualquer coisa assim. Durante todo o dia as pessoas comentaram comigo o assunto. Só o chefe não sabia. Até que ele apareceu, e contei a ele que ia sair e fundar a Apple. Ele perguntou quando eu queria sair e respondi que naquele exato momento. Fui embora e meu acordo com Mike Markkula era que eu teria o mesmo salário para abrir a Apple, ou seja, 24 mil dólares anuais. Jessica: Você foi direto para a Apple? Wozniak: Fui embora no mesmo dia. Ainda não tínhamos um escritório, então trabalhava em casa. Estava concluindo a Basic, alguns hardwares, escrevendo códigos para alguns gráficos especiais, esse tipo de coisa. Aí Steve e eu conhecemos um amigo de Markkula, Mike Scott, e gostamos muito dele, pois era um sujeito persuasivo (era diretor na National), do tipo que faz as coisas que precisam ser feitas. Decidimos que seria o nosso presidente. Ele ocupou o cargo desde o primeiro dia da Apple como empresa até o dia em que abrimos o capital. O papel dele foi realmente importante na nossa história, mas não é muito lembrado. Acho que ele foi muito importante. Jessica: Como você o conheceu? Wozniak: Ele era amigo de Markkula. A amizade deles mais ou menos acabou quando Markkula o expulsou da presidência por ter tomado decisões precipitadas. Foi no dia em que ele demitiu um monte de gente. A Apple havia crescido e tínhamos um monte de engenheiros trabalhando em diferentes projetos, mas não estávamos fazendo coisas boas nem tão rápido como costumávamos fazer. Mike Scott mandou nosso gerente de engenharia, Tom Whitney (um cara para quem eu tinha trabalhado por três vezes, duas na HP, e agora na Apple) tirar férias por uma semana, e foi conversar com todos os engenheiros para saber quem estava trabalhando de verdade e quem estava enrolando.


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Demitiu os que não estavam fazendo nada. Só que ele deveria ter dado uma chance a eles antes. Mike Markkula era próximo de Ann Bowers naquele tempo (acho que era casada com Robert Noyce), e ela cuidava da área de recursos humanos. Essa história quase manchou a imagem da empresa. Mike Scott estava começando a se precipitar, realmente, tomando decisões muito rápidas, e não era tão cuidadoso quanto necessário, nem como tinha sido no passado. A diretoria resolveu lhe dar outro cargo, mas ele escreveu uma carta de demissão chocante, que, basicamente, dizia que a vida era importante demais para aquele tipo de situação política. Fiquei triste quando Mike saiu porque ele apoiava as pessoas eficientes da empresa. Jessica: E Ron Wayne? Ele não foi um dos fundadores? Wozniak: Foi, mas não quando nos tornamos uma companhia de fato. Tivemos duas fases. Uma foi a sociedade com Steve Jobs para o Apple I. Para produzir o Apple II, nós nos tornamos uma empresa, a Apple Computer, Incorporated. O Steve tinha conhecido Ron na Atari e gostado dele. Ron era um cara superconservador. Eu não sabia nada de política, e até evitava saber. Ele tinha lido todos os livros de direita como None Dare Call It Treason (Ninguém ousa chamar de traição), de Gary Allen, e podia ficar falando daquilo tudo. Só me toquei mais tarde. Ele dava respostas imediatas para tudo, tinha experiência em negócios e fizera bons acordos acionários. Ele sabia argumentar de forma rápida e parecia conhecer muito do assunto. Sentou-se em frente a uma máquina de escrever e redigiu da própria cabeça nosso contrato social, usando aquele jargão jurídico. Apenas pensei como ele sabia o que escrever, como conhecia todos os direitos e privilégios e todas aquelas palavras, cujo significado eu ignorava. Ele fez uma gravura do Newton debaixo da macieira para a capa do manual do Apple I. Também escreveu o manual. Ou seja, ajudou de muitas maneiras. Steve tinha 45% da sociedade, eu tinha 45%, e Ron, 10%, pois nós dois concordamos que poderíamos confiar nele para resolver qualquer problema entre nós. Confiaríamos no julgamento dele.


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Naquele momento, íamos vender placas de PC por vinte dólares cada, financiadas do nosso próprio bolso. Vendi minha calculadora HP, e Steve vendeu sua van. Cada um levantou alguns milhares de dólares. Então Steve recebeu o pedido de cinqüenta mil dólares. A empresa que fazia nossa placa de PC nos deu trinta dias para pagar. E o mesmo prazo para pagar as peças. Seria uma corrida alucinada contra o relógio. Mas quando fizemos as entregas nas lojas, recebemos pagamento à vista. Os fornecedores tinham checado junto ao dono da loja e sabiam que ele ia nos pagar. Basicamente, não tínhamos crédito. Mas se a loja tivesse recuado e desistido da compra, ou se não tivesse pagado, ficaríamos muito endividados. Steve e eu não tínhamos dinheiro. Não tínhamos carro, poupança, casas. Aí Ron se tocou de que iriam atrás do patrimônio dele. Então vendeu sua parte da Apple para nós por uns quinhentos dólares, algo assim. Foi muito pouco. Isso aconteceu quando tínhamos o projeto do Apple II e nos encaminhávamos na direção de um futuro negócio. Ele simplesmente estava apavorado com a possibilidade de ter que pagar a conta. Jessica: Naquela época, como vocês dividiam o trabalho? Wozniak: Nunca falamos sobre isso. Se tivesse alguma coisa de engenharia, hardware ou software para fazer, eu fazia, porque o Steve não era tão bom quanto eu, nem tentava ser. Jamais conseguiu olhar para um circuito e sugerir qualquer coisa. Eu não queria administrar uma empresa — minha vida é a engenharia. Por isso era ele quem falava com repórteres, negociava com lojas e fornecedores, cuidava da impressão das brochuras, da publicidade. Jessica: Quer dizer que as habilidades de vocês eram complementares? Wozniak: É, e se tivesse alguma coisa que nenhum dos dois soubesse fazer, Steve fazia. Ele sempre encontrava uma maneira. Ele era o empreendedor, tinha pressa de fazer a empresa dar certo. Eu era mais o cara técnico que lidava com circuitos. Jessica: Como era o relacionamento de vocês? Havia muitas discussões? Wozniak: Discutíamos muito pouco. Houve só uma ou duas discussões sem grande importância. Certa vez, o prazo para envio de um pedido havia


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estourado. Tínhamos de cumpri-lo e manter o custo baixo. Então Steve me perguntou se era possível economizar alguns chips, e começou a me pressionar. Mas aquele projeto era muito bom, e eu só poderia economizar dois chips, isso se desconsiderasse a alta resolução, pois não tinha certeza se alguém iria usá-la (ela veio a se tornar muito importante). Steve disse que, se fossem apenas dois chips, era melhor manter a alta resolução. Mas isto não foi como se estivéssemos brigando. Eu só disse a ele o único lugar onde eu poderia economizar alguns chips. Tivemos uma discussão de verdade por causa de slots. Mike Markkula estava chegando e íamos construir o Apple II. Eu tinha desenhado um circuito inteligente por sugestão de um amigo — Allen Baum, de novo — que decodificava oito slots onde era possível plugar placas de computadores pequenas. No mundo do Altair, em cada placa se usava cinco chips. Então, se você tivesse oito placas, seriam quarenta chips. No meu caso, eu tinha usado dois chips com resultado muito melhor. E estava muito orgulhoso com isso. Steve disse, então, que o que todo mundo precisava era de uma impressora e de um modem. O que era falso, pois ele vinha de um mundo diferente do meu. Ele nunca tinha feito um software nem estado muito próximo de usuários de computador. Ele tinha trabalhado na Hewlett-Packard, onde eram feitos softwares, mas nunca muito próximo de usuários que plugavam placas que transformavam o computador num osciloscópio, ou que controlavam determinado equipamento numa fábrica, por exemplo. Essas placas eram grande parte da minha vida. Nos computadores que eu conhecia, o melhor estava nelas. E ele queria apenas um slot para a impressora e outro para o modem. Hoje em dia estamos em um mundo bem diferente e muito mais livre. Os computadores estão prontos, não temos muito que acrescentar além de uma impressora e de dispositivos de telecomunicações — coisas como rede local, modem, WiFi. Mas Steve estava brigando por causa de dois slots. O problema era que dois slots não me economizariam um único chip. Por outro lado, eu queria mostrar que tinha conseguido oito slots com pouquíssimos chips — seria um desperdício de chips ter apenas dois slots. Estava muito


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apegado à minha idéia e disse a ele que arranjasse outro computador, se quisesse só dois slots. Esta foi a única vez em que tivemos uma briga de verdade. Jessica: Ele continuou insistindo? Wozniak: Não, eu não lhe dei escolha. No final, ter seguido meu projeto tornou-se muito importante. Mais tarde fizemos um controlador de drives de disquetes, outras empresas fizeram placas capazes de exibir oitenta caracteres de texto na tela — o que resolvia vários problemas e abria campo para muitas aplicações —, havia placas para expansão de memória, placas específicas para determinadas linguagens de programação e, ainda, placas para conectar os equipamentos mais variados. Era um verdadeiro mundo de placas de expansão. Algumas pessoas tinham Apples II com todos os slots ocupados por placas. Jessica: Quando você mostrou o Apple II, as pessoas ficaram surpresas? Wozniak: Sempre que eu mostrava o computador, antes mesmo de abrir a empresa, todo mundo o elogiava. Os engenheiros da Hewlett-Packard me diziam que era o melhor produto que já tinham visto. E eles mesmos tinham um dos melhores produtos já criados — as calculadoras HP, algumas das quais se tornaram clássicas e são vendidas até hoje —, além de fazerem parte de uma grande empresa de tecnologia. Já conheciam meu trabalho desde o Apple I, que usei para desenvolver trabalhos para a Hewlett-Packard. Jessica: Qual o segredo da excelência para um engenheiro? Wozniak: É preciso ser muito cuidadoso, checar cada pequeno detalhe. Deve-se pensar mais a fundo do que o normal. É difícil fazer isso usando os programas de hoje, que são enormes. Eu programei muita coisa à mão, num processo muito complexo, várias rotinas matemáticas diferentes, rotinas gráficas, linguagens de computador, emuladores de outras máquinas, maneiras de botar e tirar o seu código de um modo de emulação, e mesmo assim não havia bugs, nem no hardware nem no software. Não é possível encontrar produtos deste tipo hoje em dia. Contudo, era um processo muito intenso na minha cabeça, era uma parte de mim. Tudo que fosse criado tinha que ser importante para mim. O computador era eu e tudo tinha que ser tão perfeito quanto possí-


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vel. E eu tinha muito contra mim, pois não dispunha de um computador para compilar meu código, meu software. Jessica: Foi difícil para você fazer com que as pessoas dissessem: “Sim, quero ter um computador no escritório, em minha casa?” Wozniak: Quase todo mundo que via a máquina queria uma igual e perguntava: “Quanto custa?” Poucos mil dólares. “Então quero um.” E muitos começavam a planejar seus orçamentos para poder comprar um. Nunca encontramos alguém que dissesse “não tenho nenhuma utilidade para isso”. Estou excluindo pessoas mais velhas, para quem em geral não mostrávamos a máquina. Mas adultos e crianças queriam ter, em casa e no escritório, uma máquina em que pudessem jogar. O Apple II também marcou o início da indústria dos games, pois pela primeira vez um computador tinha som, controles, cores e gráficos para os jogos. Eu mesmo implementei o Breakout, um sucesso do console Atari, em software. Um ano antes, quando eu estava na Atari, eles estavam começando a falar a respeito de criar um microprocessador para games. Até então, tudo era feito por hardware. Em outras palavras, era preciso soldar alguns fios em determinados chips e colocar outros chips em volta e isto determinava onde o placar ficaria na tela. É completamente diferente de digitar código e criar um programa para dizer “ponha o placar neste lugar”. Naquele tempo, tudo era feito com fios, portas, chips e registros. Era muito difícil naquela época. Eu tinha uma máquina na qual podia programar um game (eu ou outra pessoa) e tive a idéia maluca de tentar fazer o Breakout em Basic, que é de cem a mil vezes mais lento do que linguagem de máquina. Uma noite consegui juntar todos os comandos em Basic para mexer com as cores e comecei a digitar em Basic, e em meia hora eu tinha, além do meu jogo Pong funcionando, mais ou menos cinqüenta variações de cores, velocidades, tamanhos, essas coisas. Algo que levaria um século para fazer em hardware. Chamei Steve. Eu estava tremendo. Mostrei para ele o jogo funcionando e disse: “Este jogo é muito fácil de escrever. Olha só, vá em frente — mude a cor dos tijolos.” Teria levado uma eternidade para fazer a mesma coisa em hardware,


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e fiz em meia hora. Então eu lhe disse: “Agora os games podem ser feitos em software, isso muda tudo.” Ao comprar um Apple II, muitas pessoas começaram a experimentar e descobrir coisas que podiam ser feitas com ele. Creio que foi um dos grandes motivos para o sucesso da máquina — não fizemos algo fechado que só nós sabíamos usar, como a Commodore e Radio Shack fizeram. Elaboramos manuais que tinham centenas de páginas com listagens de código básico, as descrições dos circuitos, exemplos de circuitos para placas que você poderia plugar. Com tudo isso, as pessoas podiam ler, estudar e descobrir como fazer as coisas por conta própria. Todos podiam criar programas para seus Apple II e ver “como funcionava” instantaneamente — qualquer um podia programar muito facilmente. A possibilidade de usar placas de expansão foi, talvez, ainda mais importante. Muitas companhias começaram a desenvolver placas que podiam ser acrescentadas ao seu Apple II e escrever um pequeno software (no começo, a maior parte eram games) em fitas cassete. Bastava ir a uma loja comprar os componentes variados para incrementar o Apple II. Uma das nossas maiores chaves para o sucesso foi o fato de sermos muito receptivos, de forma que outras pessoas se juntavam a nós. De 1980 a 1983, quando o Apple II era o computador mais vendido do mundo, não anunciamos o produto sequer uma vez. Jessica: Houve algum outro momento “eureca” nesse começo? Wozniak: Contei para você dois momentos “eureca” importantes. Um foi colocar cor, usando um esquema esquisito que não estava certo se iria funcionar ou não. O outro foi que eu não sabia se o Basic serviria para programar um videogame. Nos dois casos, tive sorte. O disquete foi, provavelmente, a terceira história “eureca”. O computador estava pronto e eu trabalhava projetando placas com portas paralelas para se comunicarem com impressoras baratas antigas, placas seriais para falar com impressoras de melhor qualidade, placas que se comunicavam com modems... Fiz também uma placa que podia controlar a sua linha telefônica


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e gravadores cassete, e servir de secretária eletrônica. Não era um modem, contudo, apenas controlava a linha telefônica. A Apple nunca lançou este produto porque não gostaram do cara que eu tinha levado para fazer, que era o Capitão Crunch. Foi ele quem criou o projeto. Era uma placa fantástica. Naquele momento, só tínhamos uma interface para fitas cassete. Para carregar um programa na máquina, você colocava uma fita cassete em um gravador, digitava um comando no teclado e então apertava “play” no gravador. Funcionava bem, mas era lento. Mike Markkula queria levar adiante os planos de marketing. De maneira geral, a questão era como iríamos apresentar aquele computador de forma a torná-lo interessante o suficiente para se ter um em casa. Significava mudar a imagem daquela máquina para torná-la acessível a um público mais amplo. Criamos vários programas para uso doméstico, mas para usá-los, havia grandes períodos de espera. Era difícil e lento demais. Mike disse que precisávamos de duas coisas: um Basic que trabalhasse com ponto flutuante (ou seja, uma linguagem de programação capaz de lidar com decimais, algo que não tínhamos) e uma unidade de disquete. Decidi tentar resolver o problema do disquete. Comecei a estudar um chip novo da HP e surgiram as primeiras idéias de como fazer aquele chip mandar dados para o disquete. Eu precisava de um pouco de inteligência correndo a altíssima velocidade, e apresentei um dispositivo chamado máquina de estado. Eu tivera aula disso em Berkeley. Construí uma bem simples, que basicamente era um registro que contém um endereço onde você está — um lugar determinado em um programa. Transformei-o num pequeno microprocessador. Peguei, então, o disquete do Shugart, um disco de 5 polegadas novo. Eu nunca tinha visto nem usado um disquete na vida. Nada sabia sobre eles. Nunca tive aulas sobre controladores flexíveis, não os conhecia, não sabia o que faziam. Mas sabia que, em uma fita cassete, eu gerava sinais de um certo padrão de tempo e eles voltavam da fita cassete, analisava-os para entender o que eram os “uns” e os zeros. O microprocessador fazia o timing porque o timing era frouxo; não era em frações de um microssegundo. Eu apenas desenvolvia programas que esperavam um


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certo tempo e via quando o sinal ia de cima para baixo ou de baixo para cima e tomava decisões diretamente no microprocessador do nosso Apple II. Mas eu não podia fazer a mesma coisa no disquete. Olhei para o desenho do Shugart para entender como funcionava. E entendi que se colocar alguns dados aqui e alguns sinais ali, e acertar um relógio a uma certa velocidade a cada 4 microssegundos, é possível enviar para dentro alguns dados novos. Fui de chip em chip no deles e disse “se eu tirar estes, é muito fácil passar os fios direto sobre a cabeça que está escrevendo no disco. E com o sinal dele voltando, só passei um fio sobre o meu controlador e fiz todo o timing. Então não preciso de toda a interface complicada deles para trabalhar”. Tirei vinte chips da placa deles! Steve realmente gostou disso porque, quando chegava o momento de negociar, dizia, “esta é uma boa razão para nos vender a um preço mais baixo. Não precisamos da sua placa controladora, só de parte dela. Vocês podem vender para nós mais barato do que para outras pessoas”. Era um bom negócio para a Shugart e para a Apple. Eu achava que podia escrever dados em um disquete e interpretar o que estava voltando como uma seqüência de um e zero. Eis o problema: você tem uma trilha de dados e há centenas de milhares de “uns” e zeros e a trilha se repete. A cabeça gira, e você tem que saber onde e quando os dados começam e param. Eu nunca fizera isso na vida. Minha abordagem foi escrever certo tipo de dados, usando determinado padrão. Escrevi para uma seqüência longa o bastante no começo de cada seção de dados, e foi algo que de alguma forma colocou os meus circuitos em sincronia, então eles sabiam quando um “um” e um zero começavam um byte, em vez de estar no meio de um byte. Isso fez, automaticamente, que eles caíssem em seus lugares. Foi uma sorte essa descoberta. Tinha medo de nunca ser capaz de resolver esse problema. No design, estávamos indo à primeira feira CES (Consumer Eletronics Show) aberta aos computadores pessoais — o que significava Radio Shack, Commodore e Apple. Nunca tinha ido a Las Vegas e queria conhecer aquela linda cidade, mas só o pessoal de marketing deveria ir. Minha presença não era necessária. Aí perguntei: “Se eu conseguir fazer o disquete, posso ir lá demonstrá-lo?” Tinha duas semanas. Algo como o design do disquete precisaria nor-


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malmente de seis meses entre o projeto e a aprovação da gerência. É um longo ciclo horrível. Faltavam duas semanas e Mike Markkula disse sim. Foi o que me motivou. Sempre tive essas pequenas motivações fictícias que me faziam executar um trabalho grandioso. Sentei-me e desenhei o disquete, e Randy Wigginton (ele era o cara do colégio) e eu trabalhamos todos os dias durante uma semana incluindo Natal e Ano-Novo. Todos os dias, até mais ou menos 5 de janeiro, quando fomos para Las Vegas. Quando fomos para Las Vegas, ainda não estava funcionando 10%, e Randy e eu trabalhamos a noite toda até conseguir fazê-lo funcionar. Às seis da manhã eu disse que precisávamos fazer um backup do disquete. Tínhamos um disco bom em que havíamos inserido os dados à mão, para ficar correto. Comecei a copiar e, quando terminei, olhei para dois floppies que pareciam iguais. E percebi que tinha escrito no bom a partir do ruim, e perdido tudo. Voltei para o hotel. Dormi um pouco. Levantei por volta das dez horas. Consegui recriar tudo de cabeça e fiz funcionar a tempo da apresentação. Foi um grande sucesso, todos diziam: “Puxa! O Apple tem floppy!” Parecia lindo, plugado num slot do nosso computador. E foi uma grande mudança. Mas o verdadeiro momento “eureca” para mim foi a primeira vez que li os dados. Escrever era fácil. Quando li os dados e vi que estavam corretos, quase morri. Jessica: Que conselho você daria às pessoas dessa área que têm vontade de abrir uma empresa? Wozniak: Primeiro, tente ser o mais ético possível, aberto e confiável. Não esconda nada. Se isso for necessário por questões de trabalho, pelo menos explique o que está fazendo. Não engane as pessoas. Tenha certeza em seu coração de que você é uma boa pessoa com bons ideais, porque isso influenciará sua autoconfiança e a crença em suas habilidades. Procure sempre a excelência; faça o seu produto melhor do que uma pessoa média faria. E mesmo se você consegue fazer algo assim rapidamente, é sempre preciso pensar e repensar: “Será que eu posso fazer melhor do que isso?” Seu produto não ficará neces-


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sariamente melhor no final, mas você chegará mais perto do produto e sua própria cabeça o entenderá melhor. Seus neurônios estarão sempre estudando o problema, e assim, às vezes, a solução pode surgir de modo inesperado. Também, se for necessário modificar ou acrescentar algo, você pode fazer isso rapidamente quando tudo está na sua cabeça. Não tem que pegar listagens para descobrir onde errou. Você não comete tantos erros, assim. Acredite que o que você tem é melhor do que qualquer coisa que tenha existido antes. Em tecnologia, devemos sempre avançar, nunca andar para trás. Se não tem as ferramentas necessárias, encontre uma maneira de resolver mesmo sem elas. Se não consegue imaginar uma maneira de testar alguma coisa e fazê-la funcionar, não acho que seja o tipo certo de pessoa para ser um empresário. Empresários têm que estar sempre se ajustando... tudo muda, tudo é dinâmico, e se você tem uma idéia que não funciona, presica buscar outra, para substituí-la. O tempo é sempre crítico porque alguém pode sempre derrubar você. É melhor ser jovem porque você pode perder muito mais noites, trabalhar até muito, muito tarde. Porque você tem que fazer o que tem que ser feito, e quase não há outra maneira de resolver. Quando chega o momento, é sempre crítico. Jessica: Você teve mononucleose por causa disso? Wozniak: Isso aconteceu quando preparávamos o lançamento do Breakout da Atari. Fiquei sem dormir por quatro dias e quatro noites. Como é que se pode desenhar um game — significa meses de design — construí-lo, criar a placa, fazê-lo funcionar, solucionar os bugs em quatro dias? Steve precisava do dinheiro rápido. Ele não me disse. Também não me disse o total. Ele recebeu muito mais do que me disse, e só me deu metade de uma pequena soma. Ele não precisava ter feito isso. Eu teria feito o trabalho por 25 centavos. Não era essa a questão. Eu estava feliz de desenhar um game para a Atari, que estava trazendo os jogos de fliperama para o mundo — uma coisa a ser lembrada para o resto da vida. Nessa época, nós dois pegamos mononucleose. Acho que foi uma Coca-Cola que dividimos.


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Jessica: Ele ficou com mais dinheiro do que você, mas os dois trabalhavam no projeto? Wozniak: É, descobri 12 anos mais tarde. Ele talvez precisasse do dinheiro mais que eu, que era engenheiro na Hewlett-Packard. O valor era muito pequeno para mim. Mas teria sido melhor se ele tivesse falado e sido honesto. Jessica: Vocês receberam algum investimento de Mike Markkula? Wozniak: Duzentos e cinqüenta mil dólares. Ele injetou oitenta mil dólares, como investimento meio a meio entre mim e Steve; e o resto foi um empréstimo, que pagamos. Jessica: Foi tudo o que a Apple recebeu? Wozniak: Foi. E aconteceu logo no começo, com investidores que tínhamos encontrado através da Intel. Mike percebeu que precisaríamos de algum dinheiro em caixa, que íamos crescer rápido. E quando você cresce rápido, precisa de mais dinheiro. Tivemos um investimento muito antes de mandar para as lojas o primeiro Apple II. Depois disso, conseguimos cerca de meio milhão com uma firma de investimentos. Jessica: Na Costa Leste? Wozniak: Acho que sim. Markkula trabalhou com Hank Smith na Intel, foi assim que eles se conheceram. E acho que Don Valentine realmente investiu algum dinheiro, mas chegou a um ponto em que ele queria ganhar mais dinheiro e comprar algumas ações de Steve Jobs por US$ 5,50 cada uma, antes de abrirmos o capital. Steve achou que era muito pouco. Ah, aqueles dois. Don Valentine não gosta quando discordam dele. Jessica: Há alguma coisa que as pessoas entenderam mal sobre o começo da Apple? Wozniak: Steve e eu nunca tivemos uma briga de verdade. Ninguém nunca nos viu brigar. As discussões eram raras e de menor importância. E, em geral, eram apenas mal-entendidos. Ele tinha lido alguma coisa no jornal como se eu tivesse dito. Muitos jornais entendiam errado. Fizeram parecer que eu estava deixando a Apple porque estava zangado com coisas na empresa e me atribuíram palavras. O Wall Street Journal fez isso. Eu disse ao repórter: “A


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razão por que estou saindo é para começar uma nova companhia que vai fazer controles remotos.” Eu tinha mostrado a todos os executivos da Apple o que era; então, ninguém me acusaria de sair e tentar abrir uma empresa concorrente. Na verdade, eles me mantiveram na folha de pagamento como funcionário da Apple. Desejaram-me sorte e disseram que eu não era concorrente. Mas o Wall Street Journal entendeu mal a história, dizendo que eu ia embora porque não estava gostando do que acontecia lá. Eu tinha me queixado da forma como alguns engenheiros do Apple II estavam sendo tratados, como se não existissem nos dias do Macintosh. Quero dizer, não tínhamos nem mesmo permissão de comprar o disquete da Sony que queríamos para a divisão do Apple II, porque seria melhor do que o que seria usado no Macintosh. Mas era o certo. Falei de salários, bônus, esse tipo de coisa na reportagem. Defendi esses engenheiros, mas os jornalistas fizeram parecer que eu estava indo embora por causa disso. E não era. Nunca busquei o sucesso, nem a riqueza. Dinheiro para mim não significava muito. A maior parte dei para caridade, museus... Isso nunca foi minha motivação. O que queria era ser a mesma pessoa que era antes da Apple. Foi por isso que voltei a dar aulas. Eu teria ficado no ensino se a Apple não tivesse existido.


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