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RENATO RUSSO, ABRIL DE 1983

MILTON HATOUM

O F IL HO D A R E V OLU Ç Ã O

“Um diálogo rico entre a vida e a obra de um dos nossos maiores compositores e intérpretes. Na figura multifacetada e inquieta de Renato Russo, a junção da trajetória de uma vida breve com o momento histórico nacional, sendo Brasília o epicentro do nosso impasse e da nossa perplexidade. Um belo livro, que traça o retrato de um tempo áspero, em que a revolta e a indignação davam o tom das ilusões perdidas de várias gerações.”

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No início, queríamos fazer com que todos se tocassem de tudo, da situação geral, não aceitar de cara as ordens, as idéias e os esquemas. Fizemos isto de coração, e com o coração falamos da nossa cidade, do mundo jovem e das nossas emoções.

RUSSO

CARLOS MARCELO

Ricardo B. Labastier

Nascido em 1970 em João Pessoa (PB) e radicado no Distrito Federal desde 1985, Carlos Marcelo é formado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Foi repórter de música, editor do suplemento juvenil X-Tudo e do caderno de cultura do Correio Braziliense; atualmente, é editor-executivo do mesmo jornal. Foi um dos vencedores do Prêmio Esso, em 2005. É um dos criadores do programa de rock “Cult 22” e autor da série “A história do rock de Brasília”, publicada em 2000 na revista ShowBizz. Em 2004, lançou o livro Nicolas Behr – Eu engoli Brasília, primeiro volume da coleção Brasilienses.

Com mais de cem entrevistas, incluindo depoimentos de Dado Villa-Lobos, Dinho OuroPreto, Fê e Flávio Lemos, Herbert Vianna, Marcelo Bonfá, Marcelo Rubens Paiva, Millôr Fernandes, Ney Matogrosso, Tony Bellotto e dezenas de amigos anônimos, o jornalista Carlos Marcelo narra a transformação do estudante Renato Manfredini Júnior no maior ídolo do rock brasileiro. A intensa vivência de Renato Russo na capital controlada pelos militares é, pela primeira vez, reconstituída em detalhes. Letras inéditas e documentos descobertos pelo autor revelam ainda aspectos pouco conhecidos da trajetória do vocalista da Legião Urbana. Paixões, angústias, sonhos e confissões de um artista quando jovem.

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Nenhum homem vive solto no tempo e no espaço. Muito menos o gênio paira acima das coisas terrenas. Embora tenha nascido no Rio de Janeiro, Renato Manfredini Jr. tornou-se Renato Russo num tempo e num espaço precisos, de meados da década de 70 a meados da década de 80, em Brasília. O líder da Legião Urbana, conjunto de rock mais popular da história do país, não poderia ter emergido de outro momento ou lugar. Jornalista em Brasília, como Renato foi um dia, Carlos Marcelo rastreia a energia criadora do ídolo pela cidade. Com finíssimo texto e colossal apuração, ele reconstrói a Brasília da Turma da Colina. Que cidade linda, tediosa e insurgente. Partida e chegada do seu inquérito sobre Aborto Elétrico, Trovador Solitário, Legião, heterônimos que Renato – with a great help from his friends – criou no decorrer de seus 36 anos de existência. De um lado, vivia-se sob um céu fechado: a metade final da ditadura militar implantada pelo golpe de 1964. Do outro lado, avistava-se um horizonte ilimitado: tão ou mais característico que os prédios de Niemeyer na cidade inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1960, mesmo ano em que Renato nasceu. Foi dessa dialética entre fechamento e abertura que o artista, antena de TV da raça, captou forças (e fraquezas) para retransmitir ao Brasil hinos informais como “Que país é este” e “Perfeição”. Contudo, e esta é uma das delícias do livro, Renato Russo não é filho único daquilo que os militares chamavam de revolução. Carlos Marcelo invoca sua Geração Coca-Cola, evoca o prazer de se fazer amigos e músicas, e de se influenciar multidões, nos anos 70/80. Assim, por instantes, Renato Manfredini Jr. se torna quase coadjuvante da própria história. Como Bob Dylan nos filmes de Martin Scorsese. Renato Russo adoraria essa comparação. Arthur Dapieve


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Copyright © 2009, Carlos Marcelo Carvalho DIREÇÃO DE ARTE E DESIGN [Retina 78] ASSISTENTE DE DESIGN Maria de Fatima Fernandes COPIDESQUE Jorge Amaral REVISÃO Rebeca Bolite PESQUISA Fernanda Passarelli Klecius Henrique Ribeiro Tiago Bruno de Faria REVISÃO TÉCNICA Luís Reznik PRODUÇÃO EDITORIAL Juliana Romeiro

1960 - 1996

A citação reproduzida na contracapa é um trecho do artigo “Rockeiros colonizados, mas atentos, conscientes”, assinado por Renato Russo e publicado no Jornal de Brasília no dia 22 de abril de 1983. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação [Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil]

M263R Marcelo, Carlos, 1970Renato Russo : o filho da revolução / Carlos Marcelo. - Rio de Janeiro : Agir, 2009. ISBN 978-85-220-0907-7 1. Russo, Renato, 1960-1996. 2. Músicos - Brasil - Biografia. I. Título. 09-1090.

CDD: 927.8164 CDU: 929:78.067.26

Este livro foi composto em em Adobe Garamond e impresso pela Ediouro Gráfica sobre papel offset 120g para a Agir em maio de 2009.

Todos os direitos reservados à AGIR EDITORA LTDA. – Uma empresa Ediouro Publicações S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 – CEP 21042-235 – Bonsucesso – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3882-8200 fax: (21) 3882-8212/8313

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Para Carlos e Carmem, os primeiros fornecedores de livros e lembranças.

E para Tarcila, JoĂŁo Henrique, Maria Alice e Maria Isabel, que me fazem enxergar o tempo e o amor.

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PRÓLOGO

Brasília, junho de 1988 Renato submerge. Deixa o corpo escorregar na banheira. Quilos de sal grosso foram adicionados à água quente. Enfim, um momento de paz. Trancado no banheiro do apartamento onde morou por doze anos, ele não ouve o telefone tocar na sala. A irmã, Carmem Teresa, corre para atender. Uma voz masculina grita do outro lado da linha: — A gente vai jogar uma bomba aí! Fala para o Renato Russo que ele vai morrer! Assustada, Carmem desliga e deixa o aparelho fora do gancho. Não adianta muito. Poucos minutos depois, o interfone toca na cozinha. Mais uma voz de homem, que também não se identifica: — O Renato Russo tá aí, né? Aquele filho-da-puta... Ela não deixa o agressor finalizar a frase. Desliga e vai para a sala conversar com Ana Paula, que preparou a água do banho, e Cynthia, outra amiga do irmão. Carmem volta à cozinha e fala com o porteiro pelo interfone: — Pelo amor de Deus, não deixa ninguém subir! O irmão sai do banho. Está pálido, cabisbaixo. E, mais preocupante, monossilábico: jamais foi de usar poucas palavras. — Júnior, você quer comer alguma coisa?

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— Não, eu vou deitar. Não quero falar com ninguém. Não se refugia no antigo quarto: há três anos, desde que ele foi morar na casa da avó no Rio de Janeiro, o cômodo virou uma saleta onde a mãe faz trabalhos manuais. Renato vai para a suíte dos pais, deita na cama de casal. Pega um lençol e cobre o corpo, inclusive a cabeça. Dona Carminha e Seu Renato estão no Rio, no apartamento da Tijuca. Ligam para Brasília e falam com Carmem Teresa. Ainda não sabem dos detalhes, mas já sabem o que importa.

A gente vai se divertir? Legal!!! Que país é este? Quem quer manter a ordem? Quem quer criar desordem? Quem é que usa drogas aqui? Capital brasileira do consumo de drogas, hein... E você quer ficar maluco, sem dinheiro e acha que tá tudo bem... Tá todo mundo se matando aqui na frente, ó! Solta ele! Tu leva o microfone na cabeça, não tem que dar porrada, não! Ê cidade babaca... It’s been a hard day’s night. Oh, a storm is threatening my very life today, If I don’t get some shelter, oh yeah I’m gonna fade away. I think I’m drowning, this sea is killing me… Da próxima vez, a gente vai acender as luzes e vai embora! Aqui tem segurança o suficiente para dar porrada em todo mundo, entendeu? Quem foi o babaca que tacou? Qual é, não vai atingir a maioridade, não? Vai ficar sempre nessa merda? É, a gente já está com a vida feita, trabalhou e conseguiu. Vai ficar tacando bombinha em Legião Urbana, meu irmão? Stop! Somos tão jovens, tão jovens... Tem certas coisas que não adianta fazer absolutamente nada. Se o barco está afundando, vamos afundar todos juntos. Eu sinto muito.

Os pais querem que o filho volte o mais rápido possível para o Rio de Janeiro. Um dos companheiros de banda foi embora cedinho, pegou o primeiro vôo de domingo. Renato permanece. Tem medo de ser interpelado, xingado, ou mesmo agredido, no caminho até o aeroporto. As horas passam e a tensão aumenta. Emissoras de rádio incitam os fãs a queimar discos (e são atendidas), o posto de gasolina em frente ao prédio da família Manfredini é pichado com a frase “Legião, não voltem mais”, as ameaças anônimas pelo telefone continuam, pessoas estranhas rondam a superquadra. Por enquanto, não há alternativa: em Brasília, o único lugar seguro para Renato Manfredini Júnior é dentro da própria casa.

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— Eu quero saber — eu disse para o meu pai. — Pode ser perigoso — ele respondeu. E desliguei a televisão como se pronto para ouvir. Ele disse não. Ainda é cedo. E eu já tinha perdido a capacidade de chorar. Alguma coisa urgentemente, João Gilberto Noll RENATO RUSSO

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UM

Brasília, março de 1973 — Carmem Teresa, esse vai ser o meu quarto! O grito encerra qualquer eventual possibilidade de negociação fraterna: o segundo dos quatro quartos do novo apartamento da família Manfredini já tem dono. Renato Manfredini Júnior chegou primeiro. Um ano e dez meses mais nova que o irmão, Carmem respira fundo e acata a decisão. Não é a primeira nem será a última vez. Afinal, durante boa parte da infância no Rio de Janeiro, bastavam alguns minutos de observação para se constatar quem era o dono da brincadeira. E pelo menos continuaria a ter o próprio quarto como na casa da rua Maraú, na Ilha do Governador. A viagem Rio–Brasília, velha capital–nova capital, tinha sido cansativa, quase dois dias inteiros dentro do carro. O pernoite, já em Minas Gerais, bem desgastante: hotel horroroso, quase não deu para dormir. A recompensa veio no fim da tarde, a poucos minutos do destino final, quando o Corcel verde dos Manfredini entrou na parte sul do Plano Piloto e virou apenas um ponto móvel na imensidão do Eixo Rodoviário, avenida gigante com seis pistas asfaltadas, mais a faixa exclusiva para a comitiva do Presidente da República. Ao se deparar com o sol se escondendo por trás daqueles prédios baixos e do horizonte infinito, sem morros ou arranha-céus para obstruir a visão, Maria do Carmo virou-se para o banco de trás: — Olha, Júnior, aqui é a Asa Sul! A mãe não escondia o deslumbramento com a cidade, ainda mais quando emoldurada pela explosão de cor do crepúsculo vermelho do Planalto Central. Para muitos cariocas, por sinal, aquele era o único espetáculo atraente de uma cidade marcada pela monótona onipresença do branco e cinza. Diziam que, confrontada com a

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centenária exuberância do Rio de Janeiro, Brasília parecia uma menina de 13 anos: feições definidas logo ao nascer, corpo em fase de crescimento, temperamento indefinido. Para quem vê de longe, com distanciamento e sem afeto, apenas uma préadolescente desengonçada, sem personalidade e sem-graça. Decididamente não era o que achava a pernambucana Maria do Carmo Manfredini, conhecida entre os amigos pelo apelido de Carminha. Ainda em 1957, ao saber que o presidente Juscelino Kubitschek ordenara o início da construção no centro do país da nova capital do Brasil, ficara exultante. Enamorou-se pelo desafio de começar a vida com o marido em outra cidade. E se encantou com a idéia, tingida em tons místicos, de contribuir para o surgimento de uma nova civilização. “Formar uma família num lugar diferente assim vai ser muito bom”, pensou. Queria engravidar. E mais: queria que o filho fosse o primeiro bebê nascido na capital. O primeiro cidadão brasiliense. ••• Apenas o primeiro desejo de Carminha foi atendido. E não de imediato. Doze anos mais velho e primo em segundo grau da esposa, Renato Manfredini não queria ter filhos. Já a mulher, mistura de sangue italiano e nordestino nas veias, instinto maternal à flor da pele, sonhava com a casa cheia de crianças. A resistência do marido acabou no dia que a mulher chegou perto dele e avisou: — Nós vamos fazer nosso filho hoje. E assim foi feito. Nove meses depois daquela noite de junho de 1959, no dia 27 de março, Renato Manfredini Júnior nasceu às quatro da manhã na Clínica Santa Lúcia, bairro do Humaitá. Tendo como padrinhos os avós maternos José Mariano e Leontine Manfredini de Oliveira, o primogênito da família Manfredini foi batizado na Igreja dos Capuchinhos, a mesma na qual os pais tinham se casado três anos antes. Bebê tranqüilo, quase não chorava nem era de muitas aprontações. Deu os primeiros passos no Alto da Boa Vista, onde a família costumava passear nos fins de semana — foi lá também, quando ele confundiu vacas com árvores, que os pais descobriram a necessidade de o filho usar óculos. O nascimento de Carmem Teresa, em 1962, não arrefeceu o grude de mãe e filho: se ela ia ao banheiro, ele ficava na porta. Nas tardes de domingo, Júnior permanecia quietinho quando o pai ligava a vitrola para escutar discos de música clássica ou de standards da música norte-americana, trazidos dos Estados Unidos. Pai bancário, mãe dona-de-casa, casal de filhos, casa própria, cachorro, praia (muito) de vez em quando... eis os Manfredini, típica família de classe média carioca, no início dos anos 60. Mas Carminha não estava inteiramente satisfeita. A vontade de mudar para Brasília aumentara em 1962, quando o casal passou um fim de semana no apartamento do primo

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Admar, na Asa Sul. Ao final do passeio pelo recém-nascido Plano Piloto, Carminha virou-se para o marido e sintetizou seu entusiasmo da mesma forma imperativa que seria utilizada pelo filho mais velho ao escolher o próprio quarto, onze anos depois: — Renato, quero criar as crianças aqui! O economista curitibano bem que tentou acatar de imediato o pedido da esposa. Técnico de destaque, Renato Manfredini trabalhava de segunda a sábado como assessor da presidência do Banco do Brasil, na rua Primeiro de Março, centro do Rio. Quando ouviu falar da nova capital pelos discursos de Juscelino Kubitschek, achou que, por conta da qualificação, teria chances de ser transferido logo na inauguração. Não deu certo. Em 1969, ao voltar do período de dois anos de estudos nos Estados Unidos, tentou novamente. Dessa vez, a transferência estava praticamente certa; faltava apenas a assinatura do presidente do banco, mera formalidade. Feliz da vida, a esposa embalou os móveis e preparou a mudança. — Carminha, a gente não vai mais... — Mas por que, Renato? — Porque o cargo que eu ia ocupar foi preenchido pelo afilhado de um político. Somente em 1972, uma década depois do encantamento inicial da esposa, a transferência foi concretizada. Antes da mudança, Manfredini, como era conhecido no banco, fez curso de especialização na Inglaterra. A mulher se juntou a ele na parte final da temporada, com direito a uma esticada por outros países da Grã-Bretanha, depois Itália. Por dois meses, os meninos ficaram sob os cuidados dos avós maternos. Os avós paternos, Alberto e Castorina Denebedito Manfredini, morreram antes de eles nascerem. Na volta da Europa, muitos presentes: da Escócia, uma gaita de foles para o primogênito e uma saia kilt para Carmem Teresa. Júnior também ganhou um moderníssimo carro acionado por controle remoto; Carmem, um boneco da moda, o barbudo Falcon, que o irmão logo pegou para brincar. Mas nem deu tempo de aproveitar os novos brinquedos nas ruas da Ilha do Governador. Logo veio o aviso dos pais: — Agora, vamos terminar de arrumar as coisas e nos mudar para Brasília. ••• Em 1958, o país era pura euforia. Campeão mundial de futebol pela primeira vez, com a conquista da Copa da Suécia, o Brasil atravessava uma onda de otimismo

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“Um diálogo rico entre a vida e a obra de um dos nossos maiores compositores e intérpretes. Na figura multifacetada e inquieta de Renato Russo, a junção da trajetória de uma vida breve com o momento histórico nacional, sendo Brasília o epicentro do nosso impasse e da nossa perplexidade. Um belo livro, que traça o retrato de um tempo áspero, em que a revolta e a indignação davam o tom das ilusões perdidas de várias gerações.”

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No início, queríamos fazer com que todos se tocassem de tudo, da situação geral, não aceitar de cara as ordens, as idéias e os esquemas. Fizemos isto de coração, e com o coração falamos da nossa cidade, do mundo jovem e das nossas emoções.

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Nascido em 1970 em João Pessoa (PB) e radicado no Distrito Federal desde 1985, Carlos Marcelo é formado em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB). Foi repórter de música, editor do suplemento juvenil X-Tudo e do caderno de cultura do Correio Braziliense; atualmente, é editor-executivo do mesmo jornal. Foi um dos vencedores do Prêmio Esso, em 2005. É um dos criadores do programa de rock “Cult 22” e autor da série “A história do rock de Brasília”, publicada em 2000 na revista ShowBizz. Em 2004, lançou o livro Nicolas Behr – Eu engoli Brasília, primeiro volume da coleção Brasilienses.

Com mais de cem entrevistas, incluindo depoimentos de Dado Villa-Lobos, Dinho OuroPreto, Fê e Flávio Lemos, Herbert Vianna, Marcelo Bonfá, Marcelo Rubens Paiva, Millôr Fernandes, Ney Matogrosso, Tony Bellotto e dezenas de amigos anônimos, o jornalista Carlos Marcelo narra a transformação do estudante Renato Manfredini Júnior no maior ídolo do rock brasileiro. A intensa vivência de Renato Russo na capital controlada pelos militares é, pela primeira vez, reconstituída em detalhes. Letras inéditas e documentos descobertos pelo autor revelam ainda aspectos pouco conhecidos da trajetória do vocalista da Legião Urbana. Paixões, angústias, sonhos e confissões de um artista quando jovem.

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Nenhum homem vive solto no tempo e no espaço. Muito menos o gênio paira acima das coisas terrenas. Embora tenha nascido no Rio de Janeiro, Renato Manfredini Jr. tornou-se Renato Russo num tempo e num espaço precisos, de meados da década de 70 a meados da década de 80, em Brasília. O líder da Legião Urbana, conjunto de rock mais popular da história do país, não poderia ter emergido de outro momento ou lugar. Jornalista em Brasília, como Renato foi um dia, Carlos Marcelo rastreia a energia criadora do ídolo pela cidade. Com finíssimo texto e colossal apuração, ele reconstrói a Brasília da Turma da Colina. Que cidade linda, tediosa e insurgente. Partida e chegada do seu inquérito sobre Aborto Elétrico, Trovador Solitário, Legião, heterônimos que Renato – with a great help from his friends – criou no decorrer de seus 36 anos de existência. De um lado, vivia-se sob um céu fechado: a metade final da ditadura militar implantada pelo golpe de 1964. Do outro lado, avistava-se um horizonte ilimitado: tão ou mais característico que os prédios de Niemeyer na cidade inaugurada pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1960, mesmo ano em que Renato nasceu. Foi dessa dialética entre fechamento e abertura que o artista, antena de TV da raça, captou forças (e fraquezas) para retransmitir ao Brasil hinos informais como “Que país é este” e “Perfeição”. Contudo, e esta é uma das delícias do livro, Renato Russo não é filho único daquilo que os militares chamavam de revolução. Carlos Marcelo invoca sua Geração Coca-Cola, evoca o prazer de se fazer amigos e músicas, e de se influenciar multidões, nos anos 70/80. Assim, por instantes, Renato Manfredini Jr. se torna quase coadjuvante da própria história. Como Bob Dylan nos filmes de Martin Scorsese. Renato Russo adoraria essa comparação. Arthur Dapieve


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