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Em Honra de Fadime


Presidente Conselho Editorial Editora-assistente

Ruth Guinsburg Benjamin Kopelman (representante da Fap) Cynthia A. Sarti (campus Guarulhos) Durval Rosa Borges (presidente da Fap) Erwin Doescher (campus SĂŁo JosĂŠ dos Campos) Marcia Couto (representante externo) Mauro Aquiles La Scalea (campus Diadema) Nildo Alves Batista (campus Baixada Santista) Plinio Martins Filho (editor) Ruth Guinsburg (campus Vila Clementino) Adriana Garcia


unni wikan

Em Honra de Fadime Assassinato e Humilhação

tradução

beth honorato

-


Copyright © 2011 by Editora Unifesp Copyright © 2008 by The University of Chicago. All rights reserved Originally published as For aerens skyld: Fadime til ettertanke Copyright © 2003 Universitetsforlaget Esta tradução foi publicada com o apoio financeiro da norla.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da Unifesp Wikan, Unni Em Honra de Fadime: Assassinato e Humilhação / Unni Wikan; tradução [de] Beth Honorato. – São Paulo: Editora Unifesp, 2010. 336 p.; 16 x 23 cm isbn 978-85-61673-21-5 1. Direitos Humanos 2. Antropologia 3. Direito i. Título cdd - 341.481

Todos os direitos desta edição reservados à Editora Unifesp Fundação de Apoio à Universidade Federal de São Paulo Rua José de Magalhães, 80 – Vila Clementino 04026-090 – São Paulo – sp – Brasil (11) 2368-4022 www.fapunifesp.edu.br/editora editora@fapunifesp.edu.br Impresso no Brasil 2011 Foi feito o depósito legal


À Songül e Nebile.


Sumário

Agradecimentos

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Introdução

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parte i. Vidas Suecas 1. Em Memória de Fadime 2. Sara: “Sueca Demais” para Ter Direito à Vida 3. Pela: a História se Repete

29 45 59

parte ii. Honra 4. O Que é Honra? 5. Homicídio de Honra em um Contexto Transcultural 6. Virgindade, Virilidade e Honra

71 97 121

parte iii. O Caso de Fadime 7. No Julgamento 8. A Irmã Mais Nova, de Treze Anos de Idade 9. História de uma Mãe 10. Ingênuo e Primitivo? 11. Força Nascida do Remorso

137 155 171 181 197


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parte iv. Vidas Norueguesas 12. Intervalo: a Honra na Sala de Tribunal 13. O Caso de Nadia: Outra Questão de Honra 14. O Caso de Zedini: a Honra Estaria Mesmo em Jogo? 15. O Assassinato de Lørenskog: Revisitando a Honra

211 233 241 247

parte v. A Apelação 16. O Homem da Floresta 17. A Mãe

253 259

parte vi. O Caminho a Seguir 18. Pronunciamento no Parlamento 19. Integração 20. O Que Está em Jogo: uma Percepção de Humanidade

269 277 291

parte vii. Reflexões 21. Saudades da Família

305

Posfácio

309

Referências Bibliográficas

327


Agradecimentos

S

ou grata às inúmeras pessoas que, de várias maneiras, me ajudaram a compreender mais do que jamais imaginei que pudesse compreender por conta própria, e às várias pessoas que me estimularam e me apoiaram ao longo do caminho. Poderei mencionar apenas algumas, mas minha gratidão e minha dívida estendem-se a muitas outras. A Arne Ruth, devo agradecimentos especiais. Quando editor-chefe do Dagens Nyheter, ele me convidou em 1997 para um debate de um dia de duração com a ministra sueca da Integração e alguns acadêmicos suecos. O motivo era o assassinato de Sara. Esse fato determinou meu caminho. Para mim, Arne é um exemplo de intelectual público que luta pela liberdade de expressão e pelos direitos humanos. Seu estímulo e apoio foram inestimáveis. Na Suécia, várias outras pessoas também me ajudaram e me inspiraram. Gostaria de agradecer especialmente Leif Ericksson, Marianne Spänner, Johan Åsard Niklas Kelemen, Sara Mohammed, Rasool Awla, Rigmor Mjörnell, Astrid Schlytter e Kickis Åhré Âlgamo. Sou também grata à Mona Sahlin, pelas interessantes conversas e discussões e por seu comprometimento permanente em levar adiante o legado de Fadime. À Mona Ström, meus cordiais agradecimentos por ter compartilhado comigo as memórias que ela guarda de Fadime. Só nos conhecemos quando este livro estava quase finalizado, mas para mim foi fundamental tê-la conhecido e podido compartilhar de algumas de suas recordações. 11


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Em Honra de Fadime

À Breen Atroshi, irmã de Pela, a quem nunca conheci, sou grata por seu exemplo e por contar sua história nos livros e na imprensa. Isso me permitiu compreender coisas que talvez não pudesse compreender de outra forma. Sou grata aos funcionários do Tribunal Distrital de Uppsala, à Polícia de Uppsala e à Suprema Corte, em Estocolmo, por sua ajuda e cortesia. Svein Skarheim foi meu editor na edição norueguesa original deste livro. Ficarei sempre agradecida pela forma como ele me ajudou e me estimulou. Na Noruega, seriam necessárias várias páginas para citar as pessoas às quais devo agradecimentos. Agradeço especialmente Sukrü Bilgic, Nasim Karim, Nadia Latiaoui, Farid Bouras e Walid al-Kubaisi. Em 2004, recebi o prêmio da Fundação da Liberdade de Expressão (Fritt Ord). O significado que isso teve para mim é indescritível. Ele me ajudou a perseverar em um trabalho não totalmente isento de risco e que me fez ganhar vários inimigos. Minha manifestação contra a violência em nome da honra fez parte desse trabalho. Devo muito a essa fundação, presidida por Francis Sejersted, ex-presidente do comitê do Prêmio Nobel da Paz. Na Dinamarca, gostaria de agradecer Elisabeth Arnsdorf Haslund, Johanne Tuxen, Arne Schmidt Møller e Klaus Buhr, jornalistas que participaram dos julgamentos no caso de Ghazala. Foi bom, espiritualmente e intelectualmente, estar em sua companhia. Agradecimentos especiais à Jeanette Vincent-Andersen, promotora pública, por compartilhar comigo várias reflexões. Nos Estados Unidos, fui convidada a dar palestras sobre os temas presentes neste livro aos departamentos de antropologia da Universidade de Emory, Universidade de Harvard e Universidade da Califórnia em Los Angeles. Gostaria de agradecer os participantes pelo feedback e por suas reflexões. Agradecimentos especiais aos alunos do Mellon Seminar, do Centro Heyman de Humanidades da Universidade de Colúmbia, Nova York, e aos organizadores do seminário, Akil Bilgrami, Jon Elster e Jeremy Waldron, por seu convite e pelo debate incisivo. Agradeço também as pessoas que participaram de minha palestra no Institut d’Études de l’Islam et des Sociétés du Monde Musulman (Instituto de Estudos do Islamismo e das Sociedades do Mundo Muçulmano), Paris, por suas respostas construtivas. Sou grata também a Marcelo Suárez-


Agradecimentos

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-Orozco e a Elliot Turiel, por me convidar a apresentar meu trabalho nas conferências que eles organizaram e por seu estímulo e feedback fundamentais. Em Oslo, agradeço os alunos que frequentaram meus cursos sobre honra, agradecimentos afetuosos – em particular para Eva Schreiber, organizadora do meu seminário. Minha dívida para com Frank Henderson Stewart é totalmente evidente. Gostaria também de agradecer Asma Jahangir, Nazand Begihani e Rana Husseini. Minha tradutora, Anna Paterson, conseguiu estar à frente da desafiante tarefa de traduzir meu texto para o inglês. Agradeço por sua dedicação e esforço. À agência norla (Literatura Norueguesa no Estrangeiro), meus agradecimentos por financiar a tradução. Ruth Goring, minha editora de texto, ajudou a levar este livro adiante no prolongado processo de finalização. Ela foi soberba. Obrigada por seu refinado trabalho e otimismo. A David Brent, meu editor há tantos anos, é difícil encontrar palavras. Eu não consigo imaginar este livro sem ele, tampouco os demais. Eu me fio em David e tomo emprestada sua coragem, e seu maravilhoso bom humor é para mim um alívio. Do fundo do coração, meus afetuosos agradecimentos. Meu marido, Fredrik Barth, meu companheiro de vida e de trabalho, foi fundamental neste trabalho. Pude me valer de sua experiência de viver como homem entre homens curdos no Iraque, pachtuns na Província da Fronteira Noroeste, no Paquistão, persas no sul do Irã e marri balúchis no Afeganistão, e de seu conhecimento sobre os pachtuns e farsi (persas). Como mulher, tenho limitações para compreender o mundo masculino em sociedades rigorosamente segregadas pelo sexo, embora meu conhecimento sobre a cultura árabe me ajude. Fredrik me apoiou incansavelmente neste trabalho e me ofereceu as críticas mais inspiradoras. Este livro é também dele. Meu filho e minha nora alimentaram minhas esperanças em relação ao futuro. Não tenho outra alternativa senão refletir sobre essa relação amorosa, que começou quando eles tinham dezessete anos de idade e se mantém há quinze anos: como eles têm sorte de viver em uma sociedade em que escolher a pessoa amada é um direito humano.


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Será que meus dois netos, ainda muito jovens, viverão em um mundo em que as fronteiras terão menos importância e a liberdade individual mais? Eu fio neles a minha esperança. Songül Sahindal é para mim um modelo de coragem, de compaixão e de sabedoria. Para ela, meu mais profundo agradecimento e reconhecimento. Dedico este livro à Songül e Nebile.


Introdução

O

que motiva um homem a assassinar a própria filha – defesa da honra? O que leva uma mãe a testemunhar a favor de um homem que matou a própria filha – defesa da honra? Você conseguirá entender o motivo, se eu tiver conseguido cumprir o que me propus: esclarecer o que é honra e homicídio de honra. O que me motivou foi o assassinato de Fadime Sahindal em Uppsala, Suécia, em 21 de janeiro de 2002. O destino de Fadime não me deu paz. De descendência curda, Fadime viveu na Suécia dos sete anos de idade até o dia de sua morte, aos 25 anos. Exemplo brilhante de coragem e integridade, Fadime, mais do que ninguém, tentou chamar a atenção para a deficiência das políticas de integração suecas com respeito a pessoas como seus pais. Tentou fazer a nação compreender que a “honra” – do modo como é cultivada em alguns países – pode ser um problema fatal. Advertiu que corria risco de ser assassinada por ter escolhido o homem de sua vida, o irano-sueco Patrik Lindesjö. Fadime, porém, foi derrotada quando menos esperava – quase quatro anos haviam se passado após as ameaças de morte contra ela. A morte de Fadime foi uma tragédia para o povo sueco. Um trauma. Enquanto assistia à sua cerimônia fúnebre na antiga e suntuosa Catedral 15


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de Uppsala, televisionada pelas emissoras suecas, percebi que não tinha opção: precisava tentar entender; precisava fazer o que estivesse ao meu alcance para compreender o que estava em jogo. Por que ela não foi salva? Que honra haveria em assassinar alguém? E o que poderia ser feito no futuro para evitar tragédias dessa magnitude? Esse não era um assunto novo para mim. Eu já havia trabalhado durante anos no Oriente Médio e me especializado no campo de pesquisa sobre “honra e vergonha”, como era então chamado. Contudo, o destino de Fadime Sahindal (pronuncia-se Shah-’in-dahl) e o destino de outras que se foram antes dela – como Sara e Pela, ambas habitantes suecas – desafiaram minha capacidade de compreensão. Em todas as minhas pesquisas no Oriente Médio, nunca havia me deparado com casos reais de homicídio de honra. Tal como vários outros pesquisadores, acreditava que o homicídio de honra estivesse circunscrito a comunidades rurais retrógradas e estivesse com seus dias contados. Quando isso ocorreu no meu próprio quintal, na Escandinávia, fiquei transtornada. O caso de Fadime me assombrou. Eu precisava compreender por que ela havia sido assassinada e o que as pessoas queriam dizer quando afirmavam – como de fato o fizeram: “O pai dela não teve escolha; foi seu último recurso”. Em que medida assassinar a própria filha pode ser “o último recurso” de alguém? “A solução definitiva”, disse o próprio pai no tribunal. “Agora, o problema está resolvido.” Espero que você consiga compreender o que está por trás dessas afirmações visivelmente absurdas e horríveis, e que elas não procedem de um monstro. Quem está falando é um ser humano: um homem em profundo desespero, que se sente traído pela sociedade e por “sua filha, que está morta”. Uma pessoa pela qual Fadime sentia verdadeira compaixão. “Coitado do papai”, disse ela três vezes na noite em que foi assassinada. Conheceremos um homem que foi incapaz de encontrar outra saída para a sua vergonha, humilhação e desonra, a não ser tirar uma vida. Um homem que foi alvo de escárnio no mundo inteiro, tal como ele mesmo descreve. A “opinião pública mundial” – världsopinionen – é decisiva para a história que se segue.


Introdução

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Hoje em dia, a vergonha e a humilhação parecem conceitos distantes para homens e mulheres ocidentais. Se em algum momento nos sentimos desonrados, preferimos tentar ignorar esse sentimento. O insulto e a humilhação são sentimentos bastante familiares para a maioria dos seres humanos, mas deixá-los transparecer é equivalente a admitir a derrota. Tudo se baseia em ter controle sobre a própria vida ou em pelo menos passar a impressão de que se tem controle. Entretanto, em várias regiões do mundo, podemos encontrar comunidades em que o insulto, a humilhação e a vergonha são conceitos centrais e experiências reais comuns. Em alguns lugares, vergonha é uma palavra de pouco significado. A desonra é o inferno, a maior das desgraças, o ponto em que não há mais volta – exceto quando se toma uma medida para vingar a honra. O assassinato de Fadime serviu a esse propósito. Sua história pode nos ajudar a dar um passo adiante no sentido de compreender – sem estigmatizar – o que a vergonha e a desonra significam em determinadas comunidades. Fadime prontificou-se a ajudar quando tentou criar empatia por pessoas como seus pais. Este livro foi escrito com esse espírito e com essa mesma intenção. A história de Fadime norteia minha narrativa. Meu objetivo é elucidar sua vida – e sua morte – e prestar um tributo à sua memória. Mas tenho também propósitos mais ambiciosos: ajudar a explicar a honra e o homicídio de honra e, dentre outras coisas, tentar esclarecer por que não há nenhum fundamento em associar o homicídio de honra e o islamismo, como o fizeram algumas pessoas “pós-Fadime”. O fato de Fadime ter sido assassinada apenas quatro meses depois de 11 de setembro pouco contribuiu para suavizar uma aparente correlação entre o islamismo e o homicídio de honra. Entretanto, o homicídio de honra é um ato que está fundamentado em um conjunto de conceitos presente em todo o espectro de crenças religiosas, bem como entre os céticos. Já foram relatadas ocorrências de homicídios de honra igualmente entre cristãos e muçulmanos, hindus, siques, judeus, budistas e confucionistas, mas apenas em determinadas comunidades nativas. A força motivadora não é em verdade a religião, mas o costume e a tradição, embora a religião possa ser usada, e de vez em quando tem sido usada, para justificar esse tipo de crime.


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O homicídio de honra também não é uma saída cômoda, mesmo em comunidades em que está profundamente enraizado. Muitos tentam evitá-lo. Alternativas para impedir a desonra foram criadas para evitar atos de violência ou mortes. Descrevo algumas dessas alternativas e de igual modo a dor e o desespero sentidos pelas várias pessoas próximas à vítima quando, a despeito dessas opções, a “solução definitiva” se torna uma realidade. O homicídio de honra é contestado, mesmo nas comunidades em que está incorporado a tradições consagradas pelo tempo. Muitos estão envolvidos ativamente nesse movimento, aberta ou secretamente, para salvar vidas humanas e preservar valores humanos. E isso vale também para a própria comunidade de Fadime. Sua morte foi trágica para sua mãe, suas irmãs e muitas outras pessoas – sim, mesmo para sua mãe, que, no fim, preferiu apoiar o pai de Fadime no tribunal. Espero de alguma forma elucidar o destino de sua mãe. Assassinar a própria filha – ou um ente familiar próximo – em nome da honra não é um costume que sempre fez parte do código de honra europeu, de acordo com fontes históricas. Mas agora faz. O homicídio de honra, termo pelo qual se pretende referir o assassinato de um ente familiar em nome da honra coletiva, integrou-se à realidade europeia. Fadime passou grande parte da vida manifestando-se abertamente contra essas tradições e alertando os suecos liberais contra o perigo que esses códigos oferecem para os direitos humanos e a justiça social. Seu prestígio hoje, na Suécia e em outros lugares, é uma prova de que ela estava à frente de seu tempo. Na nova Europa multicultural, a violência e os homicídios de honra talvez tenham vindo para ficar. Porém, é possível poupar vidas e evitar sofrimentos desnecessários, se conseguirmos compreender melhor o que de fato é “honra”, como podemos lhe dar um novo significado e usá-la para promover valores humanos. Fadime tornou-se um ícone na Suécia, símbolo de uma pessoa amante da liberdade que sacrificou tudo – até mesmo a vida – por aquilo que prezava. Mas Fadime era mais do que isso: era um ser humano maduro, uma pessoa que se sentiu forçada a fazer uma escolha inumana e curvou-se sob o peso da trajetória que havia escolhido. Romper com sua família era o preço que tinha de pagar para viver ao lado do homem que amava. Quando ele


Introdução

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morreu, um ano depois, Fadime ficou completamente sozinha. Sua nova família eram agora seus amigos, embora sua mãe e sua irmã menor, de quem havia cuidado como uma mãe, fossem para ela insubstituíveis. Fadime voltou a estar entre eles e pagou com a própria vida. Ao contrário da opinião amplamente difundida – de que Fadime foi assassinada porque amava Patrik –, minha análise leva a crer que outras circunstâncias foram decisivas. Não podemos nos esquivar de analisar as questões que o momento suscita. Por que lhe permitiram viver quase quatro anos após a morte de Patrik em um acidente de trânsito (1998)? Ela não tinha uma identidade secreta: ela nunca se escondeu e vivia às claras. Só foi assassinada uma semana antes da data em que deveria partir para o Quênia, onde planejava ficar por seis meses. Por que ela foi morta nesse momento? Por que demorou tanto para que fosse assassinada? Somente o assassino, bem como os cúmplices que ele possa ter tido, sabem a resposta. Porém, minha análise – baseada em um exame meticuloso das transcrições de todas as entrevistas policiais e dos autos de dois processos, em minhas conversas com cada membro da família e em meu conhecimento etnográfico geral sobre vergonha e honra – mostra que inúmeras circunstâncias contribuíram de alguma forma para isso. Fadime havia desafiado sua família, não apenas em relação à pessoa que escolheu para amar e à reivindicação de independência; mas também violou o ultimato que havia recebido para que pudesse preservar sua vida: o banimento ou a morte. O primeiro é uma solução há muito consagrada em algumas comunidades, como o Curdistão turco, terra natal da família de Fadime. Se seu comportamento traz desonra para a sua família, você é forçado ao banimento, “eximindo” outros entes familiares da obrigação de matá-lo. Fadime – a esta altura, já uma cidadã sueca – provavelmente não compreendeu o que significava exílio. Além disso, não o admitiu e pouco tempo depois retornou ao território inimigo. “Exilada” em Östersund, cidade em que estudava, Fadime viajava a Uppsala para se encontrar secretamente com a mãe e duas irmãs. Foi dessa forma que conseguiu ter uma participação na vida familiar ao longo de seu último ano de vida. Mas ela estava brincando com fogo. Os exilados podem receber misericórdia, mas não podem reclamar direitos. Fadime ameaçava dissociar


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internamente o sistema estabelecido. Ela estava violando todas as regras do jogo, não somente aquelas relacionadas à honra sexual e à escolha de um marido. Violou também seu exílio, e isso depois de expor sua família ao escárnio e a críticas na imprensa. De um certo ponto de vista, Fadime tornou-se uma infratora em vários sentidos. Não é possível compreender seu infortúnio sem levar isso em conta. Não com o propósito de minimizar, mas apenas de facilitar sua compreensão. Explicações simplórias sobre os destinos humanos tendem a produzir intensos efeitos dramáticos, no caso de personalidades ou personagens fáceis de compreender. Aqui, o drama envolve o perpetrador e sua vítima – a bela e a fera. A cobertura dada pela imprensa ao caso de Fadime lhe impôs uma estrutura dramática. É desse modo que conseguiremos nos lembrar dela, e é assim que devemos nos lembrar dela: como uma jovem bonita disputando uma batalha heroica e pondo a prêmio a própria vida. Não menosprezamos o que ela fez pelo fato de nos darmos conta de que, no calor da batalha, ela acabou provocando grave aflição nas pessoas de quem gostava. A história de Fadime é também a história de uma família que se viu cercada de críticas e ataques, e que realmente foi importunada pelo que a imprensa fez de Fadime e pelo modo como ela usou a imprensa. Fadime tornou-se o centro das atenções porque acreditava que isso poderia poupar-lhe a vida. Também acreditava que, se falasse abertamente e desse ao problema uma fisionomia humana, poderia ajudar outras mulheres na mesma situação. Minha pesquisa indica que essa estratégia de Fadime diminuiu sua probabilidade de sobreviver. Em várias comunidades étnicas, a maior desonra é ver os conselheiros internos da família expostos e vulneráveis. A vergonha só prejudica a honra da família quando se torna pública. A desonra é uma realidade que só obriga a pessoa a enfrentá-la quando “todo o mundo já sabe” – e, no caso de Fadime, sua família sentiu que sua desonra já havia sido alardeada até mesmo perante o Parlamento. Fadime deu um pronunciamento no prédio antigo do Parlamento sueco (Riksdagen) em 20 de novembro de 2001. Dois meses depois, foi assassinada. A complexidade dos motivos por trás desse homicídio não o torna mais digno de perdão, apenas mais compreensível. A trajetória para des-


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vendar por que as pessoas são levadas a tirar a vida de alguém em nome da honra deve levar em conta uma concepção de mundo segundo a qual a privacidade e a paz da vida familiar é tudo, e que ser exposto publicamente é a mais grave das humilhações. O infortúnio de Fadime nos obriga a perceber que nossa sociedade multicultural atualmente engloba pessoas com ideias sobre o que é “confidencial”, e isso impõe que publicidade e notoriedade devam ser evitadas a qualquer custo. É possível lidar com a vergonha, desde que ela se mantenha velada. É possível suportar a humilhação, mas somente da porta para dentro. Os conflitos familiares podem ser resolvidos, mas apenas a portas fechadas e valendo-se de mediadores. Isso não funcionou no caso de Fadime; ninguém tomou a iniciativa de assumir essa responsabilidade. Contudo, depois disso, vários comentaristas, inclusive membros da comunidade curda, assinalaram que essa situação poderia ter sido contornada dessa forma. A jurisprudência sueca é extremamente específica em um determinado aspecto: os arquivos das entrevistas policiais estão abertos ao público. Tive acesso a todas as declarações das testemunhas no caso de Fadime, incluindo aquelas dadas por indivíduos que posteriormente desistiram de testemunhar perante o tribunal ou que não foram intimados. Esses documentos, alguns com trezentas páginas de texto, possibilitaram-me examinar esse caso de vários pontos de vista diferentes, servindo como inestimável fonte de compreensão. Houve momentos em que vacilei, dada a grande simpatia que passei a sentir por pessoas pelas quais não queria sentir. Queria estar totalmente e inteiramente do lado de Fadime, e jamais imaginei que acharia isso difícil. Continuo sinceramente do seu lado – mas com uma percepção bem mais nítida da situação de alguns de seus amigos e inimigos mais próximos. Nesse sentido, avancei consideravelmente em relação ao que já conhecia a respeito de honra e homicídios de honra. Já de partida estava convencida de que só é possível compreender o homicídio de honra – no que se refere a tirar a vida de um filho – quando pertencemos à comunidade em que essa tradição vigora. Tinha essa certeza, não obstante meus trinta anos de experiência em entendimento transcultural e vários anos de pesquisa de campo no Oriente Médio e na


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Ásia como antropóloga. Pensava na época, e ainda penso, que existem limites para nossa compreensão quando precisamos apreender alguma coisa emocionalmente, e não apenas intelectualmente. Entretanto, por meio do trabalho que realizei neste livro, agora sou capaz de compreender o homicídio de honra. Espero compartilhar com você, leitor, minhas percepções e constatações, mas devo empreender esse processo aos poucos. Para ser coerente com as minhas próprias dificuldades em relação ao conteúdo e minha lentidão para compreendê-lo, eu o conduzirei passo a passo. Em alguns momentos, pode até parecer que estamos girando em círculos, algumas vezes até nos contradizer. Porém, haverá uma resolução e, no frigir dos ovos, espero que você concorde comigo: sim, valeu a pena seguir essa rota! Comecei a escrever em meados de fevereiro de 2002 e concluí a primeira versão somente quatro meses depois. Nesse espaço de tempo, participei de dois julgamentos do pai de Fadime. O primeiro, no Tribunal Distrital de Uppsala, realizou-se entre 12 e 15 de março. O segundo, após uma apelação, foi levado à Suprema Corte, em Estocolmo, entre 22 e 25 de maio. Foi tudo extremamente eficaz, mas eficácia não oferece nenhuma vantagem ao pesquisador: eu mal havia digerido o processo na primeira instância quando as audiências no tribunal de apelação puseram por terra grande parte do que já imaginava ter compreendido. As explanações de um contradiziam categoricamente as do outro. O assassino voltou atrás e sua esposa também. Optei por registrar esse acontecimento do modo como transcorreu, para que você, leitor, pudesse observar o momento em que minhas ideias desmoronaram e deram uma guinada. Isso faz parte da história e tem tudo a ver com estratégia – formas e meios de extrair o melhor possível do sistema jurídico. O código de honra contrapõe-se ao Estado de direito. Para alguns leitores, talvez meu relato pareça um tanto cru e extremamente sem adornos. Não deveria ter entrado em tantas minúcias e guiado o leitor do começo ao fim? Talvez. Mas havia o risco de atingir o objetivo muito facilmente e de perder constatações valiosas, possíveis em uma sequência gradativa. Se os leitores extraírem conclusões diferentes das minhas, nada terá sido perdido. Ao contrário, é fundamental que o conteúdo


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fale por si mesmo, sem minha narração didática. Os fatos continuam aí, abrigados na forma e na estrutura deste livro. É impossível ignorá-los. Outra possível objeção é que lancei mão de pessoas cujas declarações à polícia são extremamente pessoais e muitas vezes emocionais. Talvez elas nem tenham refletido – ou talvez não soubessem – sobre a possibilidade de os autos de suas declarações serem disponibilizados ao público e, portanto, ficarem livres para serem utilizados da maneira como eu os utilizei. Essa objeção é importante, sem dúvida, mas mesmo assim optei por usar meu direito de acessar e examinar esses documentos. Fui levada a isso, em parte, por sua exclusividade: eles trazem esclarecimentos sobre problemas inerentes à honra e aos homicídios de honra que não se encontram em nenhuma obra sobre o assunto. Um exemplo disso é o testemunho da irmã mais nova de Fadime. Em estilo e conteúdo, é um testemunho diferente de qualquer outro que eu tenha visto divulgado, e contém em si uma mensagem sobre o destino de uma criança ferida em seus sentimentos no momento em que um homicídio pela honra desmantela toda a sua família. Uma criança que está tentando desesperadamente aceitar que o pai é um assassino, que a mãe é arrastada de um lado a outro por um turbilhão de emoções, que o irmão provavelmente é cúmplice no assassinato – poderia mesmo ser? – e que sua tão querida irmã é condenada por provocar no pai tanta aflição e um desespero capaz de levá-lo a matá-la. As mulheres não podem presenciar homicídios de honra, afirma minha colega Veena Das. Antropóloga indiana altamente respeitada, expressa seu espanto em relação ao fato de Fadime ter sido assassinada na presença da mãe e de suas irmãs. De acordo com a experiência de Das na Índia e em algumas partes do Paquistão, nunca se ouviu falar disso. A irmã de Fadime de treze anos de idade também está surpresa com o fato de o pai ter agido do modo como agiu na frente dela, mas se conforta com a certeza de que ele não sabia que ela estava lá. Debate-se com o pensamento de que poderia ter evitado esse crime. Da mesma maneira que a maioria das crianças, ela leva muito a sério os problemas dos adultos e se sente responsável. E está assolada pelo medo de ser deixada totalmente sozinha. Assim que Fadime é baleada e a mãe sai correndo à procura de ajuda, ela entra em pânico: será que agora mamãe vai se matar?


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Essa adolescente conta tudo isso à polícia, de forma clara e precisa – um testemunho com a linguagem crua de uma garota de treze anos. Ela está indignada com a forma como a imprensa explorou Fadime e com o modo como Fadime explorou a imprensa. Está indignada também com a polícia. Ela não acredita que eles a estejam levando a sério: “Eu tenho certeza disso! Eu tenho certeza disso. Não é algo que eu simplesmente acho! Eu tenho certeza!”, insiste ela. E protesta desenfreadamente contra a maneira como sua família é exposta na imprensa. Quer saber por que ninguém a procurou. Por que ninguém a deixou falar abertamente? Fadime tornou-se uma ideia, um ícone. Mas ela é muito mais do que isso, precisamente por sua benevolência e compaixão. Fadime conseguiu perceber a dor que havia causado à sua família ao usar a imprensa da forma como usou em 1998, embora tenha feito isso por puro instinto de sobrevivência. Posteriormente, ela se deteve. Há provas de que se arrependeu por ter tentado levar tudo às últimas consequências. Esse é um dos aspectos do “caso de Fadime”. Ele fez várias vítimas, pessoas que também se viam degradadas, direta ou indiretamente, por terem sido retratadas do modo como foram na imprensa. Inevitavelmente, toda afirmação infere um significado de seu contexto. E da mesma maneira, as histórias que contamos, sobre nós e outras pessoas, começam com nossa situação de vida. As palavras que Fadime usou para a imprensa no momento em que toda a sua família, inclusive sua mãe, a havia abandonado, e seu pai e irmão a ameaçaram de morte, subsequentemente ficaram difíceis de sustentar. Seu arrependimento veio tarde demais. A imprensa é impiedosa a esse grau: o que foi dito está dito. A mãe de Fadime terá de viver com o fato de o público saber que ela disse às suas filhas que todas as garotas suecas são promíscuas. A irmã menor de Fadime viu suas fofocas ao telefone, quando tinha oito e nove anos de idade, divulgadas na imprensa. Os protestos dessa jovem merecem ser ouvidos. Foi por esse motivo que ela ganhou amplo espaço neste livro. Fadime é suficientemente importante para nos levar a usar sua história como uma ponderação e reflexão acerca do que significa ver uma família ser retratada como “monstruosa”, do quanto essa representação machuca pessoas inocentes e do que é possível fazer para chamar a atenção para


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a opressão e a violência contra os indivíduos sem estigmatizar toda uma comunidade. Ao fazê-lo, agimos com o mesmo espírito de Fadime. Ela desejava a “inclusão” e rejeitava a segregação. Desejava a integração, e não a marginalização. Seu desejo era resistir ao poder anti-humanitário e totalitário sem condenar as pessoas que eram elas mesmas vítimas – mesmo quando algumas, por sua vez, eram cúmplices. Até o último momento, ela quis muito se reconciliar com a família – e mesmo com o pai e o irmão que haviam ameaçado tirar-lhe a vida.


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