Page 1


DIÁRIOS 1970 - 1986


Impresso no Brasil, outubro de 2012 Título Original: Мартиролог (Martyrolog - The Diaries 1970-1986) Copyright © 2011 Andrey A. Tarkovsky Todos os direitos reservados. Os direitos desta edição pertencem a É Realizações Editora, Livraria e Distribuidora Ltda. Caixa Postal: 45321 . 04010 970 . São Paulo SP Telefax: (5511) 5572 5363 e@erealizacoes.com.br . www.erealizacoes.com.br Editor Edson Manoel de Oliveira Filho Equipe de produção editorial Cristiane Maruyama Liliana Cruz William C. Cruz Preparação de texto Marcio Honorio de Godoy Revisão Esther Oliveira Alcântara Projeto gráfico e diagramação André Cavalcante Gimenez / Estúdio É Capa Mauricio Nisi Gonçalves / Estúdio É Pré-impressão e impressão Corprint Gráfica e Editora Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem permissão expressa do editor.


ANDREI TARKOVSKI

DIÁRIOS 1970 - 1986

Tradução do original russo Alexey Lázarev


Sumário

MARTIROLÓGIO I. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 1970. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 1971. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 1972. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65 1973. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79 1974. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109 MARTIROLÓGIO II. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .127 1975. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135

1976. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151

1977. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177 1978. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 187 1979. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 201 VIAGEM PELA ITÁLIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221 1980. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 267


MARTIROLÓGIO III. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 285 1981. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 333 MARTIROLÓGIO IV. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 383 1982. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 411 MARTIROLÓGIO V . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 435 1983. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 501 MARTIROLÓGIO VI. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 523 1984. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 563 1985. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 587 MARTIROLÓGIO VII. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 607

1986. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 609

Apêndice. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 647

Filmografia, Realizações Teatrais e em Rádio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 685

Bibliografia de Martirológio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 687


Colagem de Andrei Tarkovski na capa do primeiro caderno dos di谩rios. Martirol贸gio I. 1970-1975


1970

MARTIROLÓGIO I “No tédio, quando o dia inteiro, sentado diante do tinteiro, você anota sem qualquer finalidade todos os tipos de coisas que vêm à mente, acontece que pode escrever algo que vai deixá-lo louco.” (Kenko-Hosi. Memórias do Tédio, I, século XIV)

Mais uma vez falamos com Sasha Misharin sobre Dostoiévski. Isso deve ser escrito em primeiro lugar. Não pensar em direção. É improvável o fato de haver sentido em levar um livro de Dostoiévski para o cinema. É preciso fazer um filme sobre o próprio Dostoiévski. Sobre o seu caráter, sobre o seu Deus e o diabo e sobre as suas obras. Tolia Solonitsin poderia ser um Dostoiévski excelente. Agora é preciso ler. Tudo o que escreveu Dostoiévski, tudo o que já foi escrito sobre ele, e a filosofia russa – Soloviev, Leontiev, Berdiaev, etc. Dostoiévski poderia encarnar o próprio sentido de tudo o que eu gostaria de fazer no cinema. E agora, Solaris. Tudo está indo tão dolorosamente e com esforço, uma vez que o Mosfilm definitivamente entrou em uma fase de crise. Depois, Dia Branco.

30 de abril,

Em 24 de abril, 1970, compramos uma casa em Miasnoye. Exatamente aquela que queríamos. Agora não tenho medo de nada. Se não me derem trabalho, vou ficar na casa de campo, criar porcos, gansos, cuidar da horta, e não dar a mínima para eles! Aos poucos, colocaremos a casa e o terreno em ordem e será uma grande casa de campo. De pedra. Parece que ao redor só há gente boa. Colocaremos colmeias. Teremos mel. Seria bom conseguir um jipe. Então, tudo estará em ordem. Agora tenho que ganhar mais dinheiro para terminar as obras da casa. Para poder

10 de maio

Moscou

Andrei Tarkovski com o filho Andriucha.


viver aqui no ­inverno. A 300 km de Moscou, não há como ir e vir [à casa] no estado em que ela se apresenta. Agora, duas coisas são importantes: 1. que Solaris tenha duas partes; 2. que Rublev seja lançado, pelo menos, com o máximo de cópias. Daí, então, poderei pagar minhas dívidas. Sim! E, se for possível, desejo concluir um contrato com Dushanbe. Eis o que é preciso fazer na casa: 1. Refazer o telhado. 2. Refazer o assoalho. 3. Fazer a segunda moldura de uma das janelas. 4. Cobrir com telha o celeiro. 5. Fazer um fogão com aquecimento a vapor. 6. Fechar com cimento rachaduras no corredor. 7. Colocar um tapume em torno da casa. 8. O porão. 9. Remover do teto a madeira compensada. 10. Abrir uma porta entre os quartos. 11. Colocar um aquecedor no corredor. 12. Construir uma sauna no jardim. 13. Fazer um sanitário. 14. Instalar uma bomba (elétrica) para transportar água do rio até a casa (se o rio não congelar no inverno). 15. Chuveiro (junto à sauna). 16. Cultivar um jardim. 17. Pintar o chão, as paredes do corredor e as vigas. 25 de maio

Estive com Baskakov. Ele prometeu ligar para Surin para falar sobre dois episódios. Que seja mais rápido! Todo o meu trabalho está parado. É preciso fazer os testes mais rápido. Na verdade, temos todos os atores. Falta apenas Hari. Aqui estão eles:

10

Diários 1970-1986


Chris – Banionis. Seu pai – Grinko. Burton – Masiulis. Snaut – Jarvet. Sartorius – Solonitsin. Mãe – Tarkovskaia (se ela concordar). Messenger – Stevens.

Larissa sente-se mal. Ela terá que dar à luz em breve. Oh, Meu Deus! Gradualmente as coisas estão melhorando. Parece que o Goskino (Comitê do Estado para o Cinema) vai permitir que o comprimento de Solaris seja de 4.000 metros, ou seja, quatorze partes, o que deve dar duas horas e vinte minutos. E parece que os documentos da viagem para filmar no Japão estão sendo estudados pelo Goskino. Larissa esteve no médico, e ele disse que talvez ela tenha gêmeos (!?). Por causa do divórcio, Ira está muito nervosa e grosseira. É estúpida. Não me disse que sexta-feira passada Senka foi para a datcha com o jardim de infância. Não entendo por que confundir minhas relações com Senka, e a nossa com Ira. Seria bom filmar Ira no papel de Hari. Mas temo que ela não concorde por causa das suas considerações “superiores”. Final do mês (dia 20) é o último prazo para a seleção das externas para a Casa de Kelvin. Vamos para Rovno, para a casa de Fedia Rykalov. Jarvet vem para nossa equipe. É como se ele tivesse sido feito para o papel de Snout. Muito bem, Larissa! Os exames para tirar carteira de motorista estão previstos para daqui a quinze dias. Pelo que entendi, não sei dirigir nem sei as leis. Devo esforçar-me. É uma vergonha. Nosso instrutor do curso para tirar carteira de motorista é muito ruim. Em uma palavra, é um bombeiro. É preciso ir ver Baskakov para falar sobre a película e sobre a compra dos materiais para o cenário da exposição tcheca. Para fazer um filme é preciso lutar com o estúdio. Ou seja, o estúdio não existe para ajudar os grupos no trabalho, mas para colocar empecilho. Ah, seria bom encontrar Hari o mais rápido possível. Filmar partes do filme no Vale dos Gêiseres, em Kamchatka, não seria mal.

4 de junho

Ontem fui apresentado a Bibi Andersson. A noite inteira estive observando-a em relação ao papel de Hari. É claro que ela é uma atriz maravilhosa. Mas não é tão

13 de junho

1970

11


jovem, apesar de ser bela. Não sei, ainda não decidi nada em relação a ela. Ela concordou em ser filmada aceitando o salário que oferecemos. No verão, ela vai filmar com Bergman e no outono estará livre. Vamos ver. Ainda não decidi nada. Vou ter que conversar com Ira. Dia 12 levei Senka para a escola. Na minha opinião, ele foi reprovado. Mas o diretor tem um espírito liberal e não deu nenhum sinal. Então, na escola, tudo está em ordem. 15 de junho

Ontem eu estive com Ira. Ela ficou surpresa com a minha sugestão sobre Hari. E não recusou. Ela emagreceu e agora tem algo vivo e leve que é necessário para a personagem Hari. Que bom seria se ela fizesse o papel! Terei apenas que encontrar a mãe. Talvez Demidova? Hoje Kolia Shishlin deve vir me ver. Ele é um homem surpreendentemente bom, decente. Quero ler o Dia Branco para ele. É preciso começar “de cima” com ele. Não há outra forma. Talvez ele possa recomendar algo.

11 de julho

Faz muito tempo que não escrevo nada. Bibi Andersson esteve aqui com o seu marido. Ela quer muito estrelar Solaris. É, naturalmente, uma atriz brilhante. Farei mais uma prova com Ira na nova maquiagem e, se permanecer dúvidas em relação a ela, vou começar a fazer testes com Bibi. A propósito, ela está disposta a filmar pelo salário que oferecemos, o que, para ela, praticamente significa trabalhar gratuitamente. Ira ficou mal com a maquiagem: ela procurou se “fazer bonita”, ­cílios, cabelos, etc. Tudo deve ser removido. Depois de amanhã, Larissa vai para o hospital. Escolhemos as locações para a Casa de Kelvin. Na minha opinião, são excelentes. Salgueiros e uma lagoa. Em outro lugar, há um rio com salgueiros iguais. Temos que começar a construir o cenário. Está tudo em ordem com os atores. Jarvet e Banionis são atores maravilhosos. Terei que trabalhar com Solonitsin e Grinko, isto é, escola russa, um pouco diletante. (Uma mulher do campo a um homem que reclama da sua idade: “Você tem tudo pela frente!”) Bibi poderia desempenhar bem a Mãe em Dia Branco. Ontem vi os testes monstruosos de Karasik para A Gaivota, de Tchékhov. Na minha opinião, dessa vez ele vai quebrar a cara.

12

Diários 1970-1986


Larissa Kizilova (Tarkovskaia) na filmagem de Eles Foram para o Oriente, 1964.

1970

13


12 de julho

Ontem fiquei bêbado e raspei o bigode. Na manhã seguinte, lembrei-me de que em todos os documentos estou de bigode. É preciso deixá-lo crescer! Adoro a minha Larissa. Ela é bacana. Por que só as bebidas dão liberdade? Obviamente, porque não existe essa famosa liberdade. Que Lara dê à luz logo. Acima de tudo, tenho medo de eu mesmo levá-la ao hospital. Será terrível demais.

15 de agosto

Em 7 de agosto de 1970, às 18h25, Larissa deu à luz o filho. Andriucha. Tardou um mês. Mas o parto foi bem rápido. Hoje a trouxeram para casa, ou melhor, não foi hoje, mas ontem. Ninguém do grupo nos felicitou, além de Rudina e Tamara Gueórguievna. Deus esteja com elas. Juntas querem comprar um carrinho. Que elas consigam. Yussov perguntou, por alguma razão: “E por que um presente tão caro?” As pessoas ficaram doidas, perderam a humanidade! Andriucha já tem 7 dias. Ele parece ter um mês. Calmo, não grita. Às vezes, dá sibilos e estridula, range. Eis um papel que estava afixado na maternidade: L. Tarkovskaia – menino, peso 4,6 kg, altura 62 cm. E estes são os números que estavam atados ao braço de Andriucha: n. 41-25. A situação no grupo é ruim. Ainda não enviaram nada a Dvorzhetski do Comitê Regional de Omsk. Ele aguarda seu atestado. O Japão está por um fio. Do filme, nada. Não conseguem construir os cenários da Casa de Kelvin. Então, este ano não faremos filmagem do cenário externo de “A Terra”. Tentei fazer testes com Ira novamente. Ela desempenha bem. Mas no que vai dar isso tudo, “por outro lado”, não consigo saber. Está em suspenso a obra sobre cinema de Liona Kozlov e a minha. Não temos tempo. Friedrich voltou do sul. Vai começar a alterar alguma coisa no roteiro. Não se ouve nada de Dushanbe sobre a proposta que escrevemos com base em Beliaev. Senão, eu teria dinheiro. Não há nenhum centavo. E dívidas terríveis. O que vai acontecer? Não tenho a menor ideia. Andriucha fartou-se de mamar e dorme. Um rapaz inteligente: não chora, é muito calmo. Na casa de campo é preciso cobrir o telhado e fazer reparos. Releio Thomas Mann. Um escritor genial. Morte em Veneza é incrível. Ao passo que o tema é absurdo. Teynishvili da Sovinfilm sugeriu fazer um filme para o exterior. Vamos ver. Talvez sobre Dostoiévski. Mas isso é para depois de Dia Branco.

14

Diários 1970-1986


Andrei Tarkovski na filmagem de Solaris.

1970

15


26 de agosto

Andriucha é muito engraçado. Quando acaba de comer, está sorrindo. Em seguida, olha muito atento, quando é chamado. Em geral, é uma beleza. No entanto, pegou uma espécie de eczema. O médico mandou passar pomada. Pelo visto, o negócio com o Japão está para sair. Vão nos dar 2 mil dólares para a viagem dos cinco. É simplesmente ridículo! Os cenários em Zvenigorod ficarão guardados até o final de maio de 1971. Larissa sente-se mal: tem dores no coração e nos seios. Graças a Deus a mastite foi resolvida rapidamente; no entanto, por dois dias ela teve uma febre muito alta. Tudo está terrível no estúdio Mosfilm. O seu estado reflete-se na sua situação geral. Como tudo isso vai terminar? Só Deus sabe. Os assuntos são administrados por idiotas.

27 de agosto

Leio artigos de Vsevolod Ovchinnikov sobre o Japão na revista Novi Mir intitulados “O Ramo de Sakura”. Notável! Sutil e inteligente. Que bom que os li antes de ir para Osaka.

1o de setembro

Ontem levei Senka e a mãe para a Gare Kurski. Senka cresceu. De alguma maneira, a tristeza nele ficou separada da alegria. Isso é bom e ruim. Ele é desastrosamente distraído, não focado e desatento. Durante uma hora expliquei a ele como saber as horas no relógio. Parece que ele entendeu. Uma hora depois perguntei a ele: esqueceu tudo! Mas pode ser que essa distração seja falsa. É possível que ele esteja focado em algo. A criança não deve ser uma criança prodígio. Deve ser simplesmente uma criança. É importante que ele não “fique criança por muito tempo”. Li A Cruzada das Crianças, de Vonnegut. Sim. Ele é um pacifista, e valente. Escreve fabulosamente. Mas onde, onde está nossa sublime profundidade russa, absurda e inútil? É triste. Diálogo de um pai com seu filho: – Eu não quero ter um novo papai. Quero o velho! – O que você disse? Por que você está falando de um novo papai? – Mamãe disse: “Você precisa de um novo papai”. – Vejamos, ainda vamos discutir este problema... (Conversa com Senka)

Por que Ira coloca a questão dessa maneira? Por que um novo papai? Vou ter que falar com ela.

16

Diários 1970-1986


Seria bom ilustrar o livro sobre o cinema (Comparações) com as fotos do tio Liova. Revolvia documentos antigos e deparei-me com uma transcrição da discussão de Rublev na Universidade. Deus! Que nível! Consumista e insignificante. Mas tem uma intervenção – de Manin, um professor de matemática laureado com o Prêmio Lênin (ele tem pouco mais de 30 anos) – que é impressionante. Partilho da sua opinião. Claro, não posso dizer essas coisas de mim mesmo. Mas era assim que eu pensava quando estava fazendo Andrei Rublev. E, por estas palavras, sou grato a Manin: “Quase todos os oradores perguntam por que lhes fazem sofrer durante três horas quando assistem ao filme. Vou tentar responder. O fato é que, no século XX, aconteceu certa inflação emocional. Quando lemos jornais e sabemos que na Indonésia foram mortos à faca dois milhões de pessoas, isso nos causa o mesmo efeito que a mensagem de que a nossa equipe de hóquei venceu um jogo. Isso produz uma impressão igual! Então percebemos uma enorme diferença entre esses dois eventos! Em essência, os limiares de percepção acham-se tão alinhados que não percebemos a diferença entre os dois acontecimentos. Mas não quero moralizar sobre isso. Talvez sem isso não pudéssemos viver. Mas há artistas que criam a sensação da verdadeira medida das coisas. Eles carregam esse peso por toda a vida, e nós precisamos ser-lhes gratos por isso!”

Em prol da última frase era possível escutar disparates por duas horas. Agora não é hora para lamentar e se indignar pelos corredores. Esse tempo passou. E os lamentos parecem inúteis e indignos. Para aprender a viver, deve-se pensar. Pois podemos estar errados e estragarmos tudo. Não se trata dos benefícios, mas da nossa vida – da vida da nossa intelligentsia, “do povo e da vida da arte”. Se a decadência da arte é óbvia e evidente, e a arte é a alma do povo, então podemos dizer que nosso povo, nosso país, tem a alma gravemente doente. Estou inclinando-me em favor de Bibi Andersson. Eu gostaria de mostrar Rublev a Solzhenitsyn. Será que é preciso falar com Shostakovitch? “Através da poeira das estradas, através de névoas de terra arável, Superando o cativeiro da queda para os lados, Sussurro quente trespassado e através de O espaço da infância! Como um ramo seco, Que o furou com a inclinação das torres brancas, Paredes caiadas e abafado levedado,

1970

17


Circulava pela cidade um medo infantil, Tremendo trilhas de renda. Escondido sendo uma doença O casamento de fibras de madeira, decorado com Palidez mortal de memórias. É terrível O destemido salto do telhado podre, feito de repente...” (Vladimir, 1964) Moscou, 1970

“Dizem que um bom gravador sempre trabalha com um cinzel um pouco afiado.”

3 de setembro

(Kenko-Hosi. Memórias do Tédio, XIV) “A lua de outono é infinitamente bela. Uma pessoa que acredita que a lua é sempre a mesma e que não sabe distinguir seus diversos aspectos não passa, na realidade, de um ser deplorável.” (Ibidem) “Da mesma forma, se pensamentos heteróclitos emergem à nossa alma, um após o outro, pode acontecer de não termos a própria alma. Se nossa alma tivesse o seu mestre, provavelmente o peito não estaria cheio de angústias sem fim.” (Ibidem)

Ontem à noite fui à casa de Nikolai Abramov, a propósito de uma entrevista para o jornal polonês Kino. Ele é um homem gentil e inofensivo, mas terrivelmente limitado. Os meus argumentos sobre a natureza do cinema e o meu olhar sobre a ficção científica levaram-no ao êxtase. Será que ele nunca havia pensado naquelas coisas por si mesmo? Deu-me dois livros seus escritos com linguagem desajeitada e extremamente vazia. São chatos. Como são vaidosos os velhos: todos esses Guerassimov! Como desejam fama, elogios, recompensas, prêmios! Obviamente eles pensam que vão filmar melhor. São um tanto lastimáveis. Uns amadores infelizes, que, com seu artesanato, ganham dinheiro. E, devo dizer, com um perfeito profissionalismo. A propósito, ­Heyse disse, com graça, em relação a isso: “Diletante é uma pessoa curiosa que experimenta prazer ao fazer o que não sabe fazer.”

18

Diários 1970-1986


Também causam piedade os que se dizem pintores, poetas, escritores, que acreditam se achar em um estado no qual não podem trabalhar; ganhar dinheiro, esclareceria eu. Não é necessário grande coisa para sobreviver. O importante é ser livre na sua arte. Está claro que é preciso publicar, expor; contudo, se não é possível, resta o mais importante: a capacidade de criar, sem pedir permissão a ninguém. No cinema, isso não é possível. Sem a permissão do Estado não se pode filmar nem uma sequência. Com o próprio dinheiro, menos ainda. Isso seria impensável e visto como um roubo, uma agressão ideológica, uma empreitada subversiva. Se um escritor, apesar do talento, deixa de escrever porque não o publicam, não é um escritor. A vontade de criar caracteriza o artista, e esse traço entra na definição do talento. Recebi uma carta de Iuri Zaruba. Ele é uma pessoa doce e maravilhosa. Sou um porco por não lhe escrever por tanto tempo! Respondi-lhe logo que a carta chegou. Ontem veio Liona Kozlov. Conversamos sobre a cor no cinema. É para uma entrevista num livro. Hoje é preciso responder às estúpidas perguntas de Abramov. Andriucha tem uma inflamação na glândula mamária. No hospital, aplicaram um curativo com Ichthyol. Pobre menino. Sorriu a manhã inteira. Estou preocupado com o visto japonês. Está claro que ninguém sabe quando estará pronto. Bem, ok! É uma loucura! Se chegarmos para o encerramento da Expo-70, em Osaka, não teremos tempo para filmar. Vamos ter que filmar na cidade. Que idiotas! Deus me perdoe! Tenho a impressão de que sou uma pessoa particular e faço filmes para a minha própria apreciação e enriquecimento, o que explicaria os protestos e a resistência. Quem será nosso diretor de produção e nosso figurinista agora? O. Teynishvili disse ao meu assistente que não vale a pena tentar conseguir Bibi: é difícil e desnecessário, e assim por diante. Não, não! Na terça-feira vou atacá-la. Vamos ver.

1970

5 de setembro

19


Os funcionários têm agora um novo estilo de comportamento: criticam as ordens, criticam todo mundo e se consideram os únicos decentes em todo o sistema. E buscam explicar a ausência da própria ação suspirando que “é impossível trabalhar”. Não, G. I. Kunitsin é uma pessoa completamente diferente! Por isso ele ficou aborrecido. Porque ele mesmo queria resolver todas as questões. O que é verdade? O conceito de verdade? É antes algo tão humano, que não é provável ter equivalentes em termos do ponto de vista humano objetivo, absoluto. E uma vez que é humano, é limitado, indivisivelmente suprimido dentro do ambiente humano, em termos de matéria. É inconcebível ligar o humano ao cosmos. A verdade também. Mas chegar aos nossos limites (que são euclidianos e fazem um contraste absoluto com o infinito), à grandeza, é demonstrar que somos humanos, nem mais nem menos. O homem que não aspira à grandeza da alma é uma nulidade. Algo como um rato de campo ou uma raposa. A religião é a única esfera aberta pelo homem para definir o todo-poderoso. E “o mais poderoso no mundo é aquilo que não é visível nem audível e palpável” – disse Lao-Tsé. Em virtude das leis infinitas, ou das leis do infinito, que estão além do alcance, Deus deve existir. Para uma pessoa que é incapaz de experimentar a essência do transcendental, o desconhecido, o incognoscível é DEUS. E, no plano moral, Deus é Amor. Para um homem, para que ele possa viver sem torturar os outros, deve existir um ideal. O ideal como uma concepção espiritual, moral, da lei. A lei moral está no interior do homem. A moral está no exterior e foi inventada como um substituto para a lei moral. Onde não há lei moral, reina a moral pobre e miserável. Onde a moral se encontra, a lei moral não tem nada a fazer. O ideal é inatingível, e essa compreensão de sua estrutura é a grandeza da mente humana. Tentar retratar algo como um ideal alcançável, concreto, significa perder o bom senso e ficar louco. Os homens são desunidos. Parece que a causa comum pode ser um princípio da sua união, totalidade. Mas é uma falsa ideia. Durante cinquenta anos os homens roubam, são hipócritas, isto é, são os únicos que entendem a sua vocação, mas não há unidade. Os homens podem se unir apenas se as ações são baseadas na lei moral, que consiste em um sistema ideal, absoluto. Portanto, o trabalho nunca pode ser algo edificante. Por isso existe o progresso tecnológico. Se o trabalho for valor e categoria moral, então o progresso será reacionário, e isso é um absurdo.

20

Diários 1970-1986


“A elevação do trabalho a dignidade é uma deformidade, tal qual a elevação da nutrição humana a valor e virtude” – disse Tolstói. E se ele precisava produzir botas e cultivar sua terra era por outra razão: para sentir melhor seu próprio corpo e sua própria carne, que faziam dele o cantor que era. Se “é impossível abarcar o inabarcável”, então, além de Deus, o homem não justificou a sua existência. O homem inventou a religião, a filosofia, a arte, os três pilares sobre os quais se mantinha o mundo, para simbolizar a ideia de infinito ou opor a ela o símbolo de uma possível compreensão (o que, é evidente, é literalmente impossível). A humanidade não encontrou nada de uma escala tão grande. A verdade é que tem encontrado instintivamente, sem saber para que precisava de Deus (para facilitar as coisas!), da filosofia (ela explica tudo, até mesmo o sentido da vida!) e da arte (a imortalidade). Que ideia genial essa do infinito combinada com a brevidade da vida humana. Essa própria ideia é infinita. No entanto, não estou convencido de que o homem sirva de padrão dessas construções todas. Por que não uma planta? Ou não, talvez não houvesse padrão, ou estaria em todo lugar, até mesmo na menor partícula do Universo. Então, isso seria ruim para o homem. Teria que renunciar a muitas coisas, e a Natureza não precisaria dele. Na Terra, em todo caso, o homem compreendeu que está diante do infinito. Ou talvez seja apenas uma bagunça! Afinal, ninguém pode provar a existência do senso! Na verdade, se alguém provar (para ele mesmo, é claro), vai ficar louco. A vida, para ele, perderá o sentido. H. G. Wells possui uma narrativa chamada A Maçã. Ela fala sobre como as pessoas tinham medo de comer a maçã da árvore do conhecimento. Que ideia maravilhosa. Não tenho certeza de que depois da morte existe o Nada, um vazio, como explicam os sabichões: um sono sem sonhos. Mas ninguém conhece nenhum sono sem sonhos. Simplesmente alguém adormece (e lembra-se disso) e acorda (lembra-se disso também). E o que estava entre esse intervalo, ele não vai lembrar. Porém, havia algo! Só não se lembra. A vida, é claro, não tem sentido nenhum. Caso ela tivesse, o homem não seria livre e tornar-se-ia escravo desse sentido, e sua vida teria sido construída com critérios inteiramente novos. Critérios de escravo. Como no animal, o sentido da vida é a própria vida, na procriação. O animal está envolvido no seu trabalho servil porque sente instintivamente o sentido da vida. Portanto, o seu escopo é fechado. As ambições do homem consistem na tentativa de alcançar o absoluto.

1970

21


7 de setembro

Como serão os nossos filhos? Muita coisa depende de nós. Mas deles também. É preciso que neles haja o desejo de liberdade. Isso depende de nós. Para as ­pessoas nascidas na escravidão, é difícil crescer fora dela. Por um lado, desejo que a próxima geração tenha encontrado pelo menos um pouco de descanso, e, por outro, a paz, que é uma coisa perigosa. Filistinismo tende para o repouso, tudo o que é pequeno-burguês na nossa alma. É necessário apenas que não adormeçamos espiritualmente. O mais importante é ensinar às crianças a dignidade e o senso de honra. É preciso filmar o Dia Branco sem falta. Isso também faz parte desse trabalho. Um dever. Como é terrível e covarde sentir que você não deve nada a ninguém. Porque na verdade isso não acontece nunca. Só com esforço se pode assumir esse ponto de vista. Ao fechar os olhos. Atualmente, há muitas pessoas desse tipo. Eu acho que entendi Arthur Makarov. É um homem muito fraco. Ou seja, a ponto de trair-se a si mesmo. Essa é a humilhação extrema. Trabalhamos com Liona Kozlov em nosso Comparações. É bem difícil. Queremos dizer tudo e sinceramente. Mas há problemas, nos quais é perigoso tocar. De qualquer maneira, vão alterar a escrita. Temos que carregar na teorização. O tempo todo penso em Dia Branco. É possível fazer um belo filme. Será justamente um exemplo em que tudo será construído com experiências próprias. E tenho certeza de que será importante para o público entrar em conexão com isso. Seria bom terminar Solaris o mais rápido possível, mas ele ainda não começou. Mais um ano ainda! Um ano doloroso... Não há com quem trabalhar. Expulsei o diretor de produção. O figurinista também. E quem vai substituí-los? O estúdio está vazio. Acabei de receber um telegrama de Banionis: “A viagem para a América foi adiada para a primavera.” Justo quando precisamos dele. As coisas cada dia ficam mais terríveis. Se não contar com Banionis, então, com quem? Talvez Kesha Smoktunovsky? É preciso agir imediatamente com respeito a Bibi. Mas por onde começar? Teynishvili murmura algo, sem ter a nossa confiança. Por acaso li, no Novi Mir, “As Universidades de Kazan”, texto de Ievtuchenko. Ele é incompetente! A vanguarda dos pequeno-burgueses. No seu tempo, Severianin era mil vezes mais talentoso. E o que sobrou dele? Ananás ao champanhe? E sorrisos desdenhosos. Jenia é um tanto lastimável. Um coquete. Um dia chegou bêbado, para mim, no restaurante do VTO:

22

Diários 1970-1986


– Por que é tão cruel, Andrei? – Eu não disse nada. – Sabe que você parece um oficial Branco, que participou da batalha Ledovoye. – Bem... – E meu avô (ou pai?) estava deitado na neve (ele, supostamente, foi da guerrilha) e fuzilava-os com o fuzil. E eles ficaram presos no gelo e não conseguiram dar um único passo. Jenia é humanista! E, antes disso, ele estava sempre perguntando: – Por que você não me ama? (E por que o amar?) No seu apartamento, todas as paredes estão cobertas de pinturas ruins. É um burguês. E quer muito ser amado – por Kruschev, Brejnev, e pelas moças. Contam uma história engraçada sobre ele. Quando estava na Itália, viveu então na casa de algum italiano, a quem chamou de seu amigo. Um dia Ievtuchenko contou ao seu amigo que ele havia encontrado uma mulher encantadora que o amava. Não disse qual era o nome dela. Enquanto ele vivia na Itália, de vez em quando contava sobre a paixão que consumia a ele e à amada do seu coração. Um dia, seu amigo tinha que sair da cidade por um tempo. Jenia Ievtuchenko pediu a ele para lhe deixar as chaves do apartamento. Ele deixou. Quando o amigo retornou, Ievtuchenko lhe contou com furor coisas sobre o seu amor e sobre as qualidades da sua amada. – Por que você não pergunta o nome dela? – Insistia Ievtuchenko. – As chaves que lhe deixei – disse o “amigo” sem prestar atenção à sua pergunta –­­ são dos armários e da escrivaninha... Mesmo que essa situação seja uma anedota, ela é espirituosa, pois define bem Ievtuchenko. Nenhuma nobreza. Adoramos Lelouch. Mesmo o público da Casa do Cinema. Não é por acaso. Aqui amam a vulgaridade. AVida, o Amor e a Morte é um filme monstruoso pela sua vulgaridade. O tema dele não é nada mais nada menos que um protesto contra a pena de morte. (Quase Dostoiévski!) Mas, a fim de seduzir o espectador com esse problema (e, provavelmente, ele mesmo!) [sic], ele aplica quaisquer meios! Sexo, perversão e sentimentalismo. Pobre francês sem talento. O público da Casa do Cinema literalmente explodiu de entusiasmo. É preciso verificar, finalmente, se será filmado A Peste, de Camus. Se não for, valerá a pena conversar com O. Teynishvili. Que ele ofereça a Gambarov duas propostas: A Peste e o roteiro sobre Dostoiévski, que iríamos escrever com Misharin. Solonitsin seria um grande Dostoiévski.

1970

23


Sou eu na realização de Rublev: I. V. Yussov II. V. Sevostianov III. Eu IV. S. Yamschikov O que poderia ter sido realizado no cinema: 1. Kagol (sobre o julgamento de Martin Bormann). 2. Um Físico Ditador (diferentes versões). 3. A Casinha com uma Torre, baseado no primeiro romance de Friedrich ­Gorenstein. 4. Aukalki. 5. Os Desertores. 6. José e Seus Irmãos. 7. A Casa de Matriona, de Solzhenitsyn. 8. Sobre Dostoiévski. 9. Dia Branco. O mais urgente! 10. O Adolescente, baseado em Dostoiévski. 11. Joana d’Arc, 1970. 12. A Peste, baseado em Camus. 13. Dois Homens Viram a Raposa. Roteiros: 1. A Última Caça ou O Confronto. 2. Catástrofe. 3. O Homem Voador, baseado em Beliaev. Se os tempos fossem melhores, eu poderia ser um milionário. Realizando dois filmes por ano, desde 1960, eu poderia fazer mais de vinte filmes... Com os nossos idiotas, é impossível! “Existem tolos no mundo, mas esse é um tolo completo. Estúpido. Aksen é tão estúpido, que três vezes mudou de casa, de um lugar para outro. Buscava um melhor lugar.” (De uma conversa no campo.)

Muitas vezes, os dramaturgos abusam de um procedimento que consiste em guardar uma réplica impressionante, ou um bom jogo de cena, para o fim. É mau gosto. Não existe isso em boas peças.

24

Diários 1970-1986


“Ela (a filosofia) ‘não faz pão’, como disse alguém, mas ela é capaz de encher os nossos corações de coragem.” “A história da filosofia é a história das colisões dos caracteres humanos.” “O filósofo confia em seu temperamento.” (W. James, autor de Pragmatismo)

Julgando pelo fato de que hoje já é dia 9 de setembro, certamente perdemos a Expo-70. O exterior de outono também. Bravo Gutkin! Bom trabalho! Li Berço do Gato, de Vonnegut. É um livro sombrio. E escrito de modo inteligente. Mas o pessimismo tem pouco em comum com a arte. A literatura, como toda arte, é de essência religiosa. Na sua maior manifestação, ela dá forças, dá esperança em face do mundo moderno, que é monstruosamente cruel, chegando a tocar o absurdo. A verdadeira arte contemporânea precisa de catarse que purifique as pessoas ante os desastres (ou a catástrofe) vindouros. Não importa que a esperança seja um engano, mas ela dá a oportunidade de viver e amar o belo. Sem esperança não há homem. Na arte deve-se mostrar o horror em que vivem as pessoas, mas só se for encontrada uma maneira de expressar a Fé e a Esperança. Em quê? Para quê? Apesar de tudo, o homem é cheio de boa vontade e sentimento de dignidade. Mesmo diante da morte. Com isso ele nunca trairá seu ideal, sua Fada Morgana, sua miragem, que é a sua vocação humana. É curioso que quando as pessoas se reúnem com base em uma única comunidade, tendo em comum a profissão ou o espaço geográfico, elas começam a se odiar e a se oprimir. Porque cada um ama apenas a si mesmo. A comunidade é apenas uma ilusão que resultará, cedo ou tarde, por cima dos continentes, em nuvens sinistras em forma de cogumelos mortais. Uma comunidade de pessoas que busca o mesmo objetivo de comer está fadada ao fracasso, à decomposição, ao antagonismo. “Nem só de pão vive o homem!” O homem foi criado como uma combinação de qualidades contraditórias. A história demonstra perfeitamente que, de fato, essa reunião de pessoas está se desenvolvendo da forma mais negativa. Isto é, ou o homem não pode controlá-la, ou, por controlá-la, acaba lançando-a para o caminho mais terrível e nefasto. Não há um único exemplo que prove o contrário. Os homens são incapazes de gerir os homens. Eles são capazes apenas de destruir. E o materialismo – frenético e cínico – vai completar a destruição.

1970

9 de setembro

25


Apesar do fato de que na alma de cada um vive Deus e a capacidade de acumular o eterno e o bom, em conjunto os homens só podem destruir, pois eles não estão unidos em torno de um ideal, mas por causa de uma ideia material. A humanidade apressou-se para proteger o seu corpo (talvez em virtude de um gesto natural e instintivo, que marcou o início daquilo que chamamos de progresso), mas nunca pensou na proteção da sua alma. A Igreja (não a religião) não conseguiu fazê-lo. No curso da história da civilização, a metade espiritual do homem ficou cada vez mais separada da sua parte animal, material, e agora está na escuridão do espaço infinito; mal podemos ver as luzes de um trem que parte, e é a segunda metade do nosso ser que para sempre e irremediavelmente é levada. O espírito e a carne, o sentido e a razão nunca serão capazes de se juntar novamente. É tarde demais. Ainda estamos enfermos devido a uma terrível doença, cujo nome é falta de espiritualidade, e a doença é fatal. A humanidade fez de tudo para destruir a si mesma. Inicialmente de modo moral, e a morte física é apenas o resultado disso. Como as pessoas são insignificantes, lamentáveis e indefesas quando pensam em “pão” e só em “pão”, sem entender que esse modo de pensar vai levá-las à morte. A única conquista da razão humana foi a realização do princípio da dialética. E se o homem tivesse sido consequente, se ele não tivesse sido um suicida, teria compreendido muitas coisas guiando-se por ela. É possível salvarem-se todos apenas se salvando cada um separadamente. Chegou o tempo da coragem pessoal. Festa no tempo de peste. É possível salvar os outros, salvando-se a si mesmo. Em um sentido espiritual, é claro. Esforços coletivos são infrutíferos. Nós, os homens, perdemos o instinto de salvação da espécie que ainda possuem as formigas e as abelhas. Contudo, foi-nos dada uma alma imortal, que a humanidade desdenha com alegria maliciosa. O instinto não nos salva. Sua ausência está nos arruinando. E desprezamos o espiritual, os princípios morais. O que nos resta para nossa salvação? Na verdade, não se pode acreditar em líderes! Hoje a humanidade pode ser salva apenas por um gênio – e não por um profeta, não! –, um gênio que formule um novo ideal moral. Mas onde está esse Messias? A única coisa que nos resta é aprender a morrer com dignidade. O cinismo ainda não salvou ninguém. É o destino dos fracos de coração. A história da humanidade é muito semelhante a algumas monstruosas expe­ riências com seres humanos realizadas por um ser violento e incapaz de piedade. Algo tipo uma vivissecção. Será que isso poderá ser explicado algum dia? Será que o destino das pessoas é um processo de ciclo infinito, cuja essência não é possível

26

Diários 1970-1986


entender? Esse é um pensamento terrível. Pois o homem, apesar de tudo, apesar do cinismo, do materialismo, tem fé no Infinito, na imortalidade. Diga a ele que não vai nascer mais ninguém, e ele vai dar um tiro na própria testa. Convenceram o homem de que é mortal, mas, perante a ameaça que realmente o priva do seu direito à Imortalidade, ele vai resistir como se alguém fosse matá-lo nesse mesmo instante. O homem simplesmente foi corrompido. Isto é, gradualmente os homens foram corrompidos uns pelos outros. E aqueles que pensaram sobre a alma ao longo de muitos séculos até os dias de hoje destruíam fisicamente e continuam destruindo. A única coisa que pode nos salvar é uma nova heresia, que poderá derrubar todas as instituições ideológicas do nosso mundo infeliz, bárbaro. A grandeza do Homem moderno consiste em seu protesto. Glória àquele que se imola em protesto ante a multidão silenciosa e estúpida, glória àquele que protesta na praça com cartazes e slogans, afrontando a inevitável repressão, e glória a todos aqueles que dizem “não” aos aproveitadores e ateus. É preciso elevar-se acima da simples oportunidade de viver, tomar concretamente consciência de sua corruptibilidade, em nome do futuro, em nome da imortalidade. Se a humanidade é capaz de fazer isso, nem tudo está perdido. Há ainda uma chance. A humanidade tem sofrido muito, e o sentido de sofrimento que ela tem ficou gradualmente atrofiado. Isso é perigoso. Pois é impossível salvar a humanidade com sangue e sofrimento. Deus, o que é o tempo em que vivemos! Andriucha já sorri, ri, observa com os olhos, até mesmo virando a cabeça, reconhece a mim. Tenta se virar sobre a barriga. A quem contamos, ninguém acredita. Sim, e é difícil acreditar, porque no dia 7 ele completou apenas um mês. Com seus trejeitos, ele parece o “Dunga”, do filme da Disney sobre a Branca de Neve.

10 de setembro

Ontem Zavattini enviou a Larissa rosas e um recado: “Viva o novo Tarkovski. Zavattini “. (Valery Sirovsky traduziu e nos felicitou calorosamente.) Devemos enviar-lhe uma carta e agradecer. Sasha Misharin como que desapareceu no ar. Temos de achá-lo. Ontem, na Casa do Arquiteto, foi celebrada a defesa de tese de doutorado por Liona Kozlov. Voltamos de lá com Freilikh. Na minha opinião, ele é um bom homem, mas me surpreendeu com uma proposta inesperada de fazer um filme com o seu roteiro. Só isso que me faltava! É triste. Logo que alguém sugere realizar um filme com seu próprio roteiro, eu dou cambalhotas. E por alguma razão esse ­homem

11 de setembro

1970

27


cai na minha estima. Embora não tenha nada de desonesto, ele não fez nada. Mas, se realmente Freilikh tem alguma ideia sobre mim, como não entende que vou realizar apenas filmes com meus próprios roteiros? Realmente não acredito que ele possa escrever um roteiro. Em seguida ele me contou que O. Teynishvili disse que Rublev em breve deve ir à tela. Por que Otar não me disse nada sobre isso? Aqui tem algo de errado... Andrei está seguindo um chocalho com os olhos, deve ir atrás dele. É um tanto cedo. 12 de setembro

Há poucos dias tive uma conversa com o nosso engenheiro de som Yuri Mikhailov. Na verdade, ele é um grande engenheiro de som. Não se deve, diz ele, colocar a música de Bach em um filme. Dizem que está na moda. Todo mundo tem usado Bach. Que bobagem. É original. Não importa que está na moda. Eu quero usar como tema o prelúdio coral para órgão em fá menor não porque está na moda, mas porque é uma bela música. E ter medo de usar por causa da paixão do cinema por Bach é o mesmo esnobismo. Vou ter que ouvir a música que Andron iria usar em Um Ninho de Nobres. Agora não me lembro qual era. Na verdade, é necessário ouvir a música com maior atenção. Hoje é a recepção na casa de Stevens. Asya chegou, e seria interessante, para mim, vê-la. Encontrei uma direção interessante para os fogos em Solaris: O primeiro fogo é aquele em que Chris queima todos os papéis e as coisas desnecessárias na véspera da partida. O segundo: a doença de Chris, seu delírio. Ele significa a nostalgia pela casa natal e o calor que sente Kelvin. Tudo pode queimar ali, até o vestido de Hari. Ele deve estar à luz do sol, quando as chamas são pouco visíveis e corre o ar quente. O terceiro é na Casa de Kelvin, em Solaris. Chris o encontra indo para longe da Casa habitada por fantasmas. Este pode ser um fogo cuja chama não queima. Um objeto que Chris joga nele não se acende. É um fogo frio. Na minha opinião, isso não é mal. Em uma tribo africana, há um costume que consiste em uma vez por ano se fazer uma enorme fogueira, na qual são queimadas roupas em geral, utensílios e artigos para o lar. A fim de purificar-se e começar uma nova vida. Os italianos, no Ano Novo, retiram do apartamento os móveis velhos e os jogam fora. Em geral, queimam-se os velhos papéis e outras coisas. Há algo antigo nisso, do subconsciente e de sentido agudo. Acho que o fogo, na forma que é pensado agora, deve ser bem expressivo. Talvez o terceiro fogo, que deve ser frio,

28

Diários 1970-1986


não produza nenhuma sombra! Mesmo o reflexo do fogo nos objetos e nas árvores vive a sua própria vida, em si. Como o Oceano poderia saber o que é o Fogo? Nesse caso ele apenas pode copiar a imagem do fenômeno. Essa terceira fogueira é melhor que uma pequena cratera que contenha a substância do Oceano, borbulhante e fumegante, proposta por Yussov. É preciso que Chris o encontre perto da Casa. Hoje fechou a exposição “Expo-70”, em Osaka. Perdemos tudo. A recepção de ontem de Stevens no beco Gagarinski foi bem chata. Asya ficou mais bonita, apesar de magra como uma agulha de tricô. Conheci o adido cultural dos Estados Unidos. Estava presente B. Akhmadulina. Ela está um tanto sofrida, como que empestada. Um tanto lastimável. Contou uma boa piada em relação a

13 de setembro

Andrei Tarkovski, Natalia Bondarchuk (Hari) e Jüri Jarvet (Snaut) na filmagem de Solaris.

1970

29


Diários - 1970-1986  

"Uma imagem artística é uma imagem que assegura seu próprio desenvolvimento, sua própria perspectiva histórica. Essa imagem é uma semente, u...

Advertisement