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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU REITORA

Marcia Cristina Sardá Espindola

VICE-REITOR

João Luiz Gurgel Calvet da Silveira

EDITORA DA FURB CONSELHO EDITORIAL Edson Roberto Scharf Helena Maria Zanetti de Azeredo Orselli Moacir Marcolin Juliana de Mello Moraes Roberto Heinzle Márcia Oliveira Carla Fernanda Nolli EDITOR EXECUTIVO Maicon Tenfen REVISÃO Adriana Klann FOTO DA CAPA Daniel Zimmermann FOTO DA CONTRACAPA Márcia Ehmke CAPA E PROJETO GRÁFICO Fabrício Bittencourt DISTRIBUIÇÃO Edifurb


Fotógrafo: Rogério Pires

Alisson Sonaglio Ana Paula de Oliveira Daniele Rohr Darlan Jevaer Schmitt Eduardo Götzinger Vanessa Lischeski (Organizadores)

Blumenau, 2019


© Copyright 2019. Alisson Sonaglio, Ana Paula de Oliveira, Daniele Rohr, Darlan Jevaer Schmitt, Eduardo Götzinger, Vanessa Lischeski (org.) Editora da FURB Rua Antônio da Veiga, 140 CEP 89030-903 Blumenau SC BRASIL Fone: (47) 3321-0329 3321-0330 3321-0592 Correio eletrônico: editora@furb.br Internet: www.furb.br/editora Distribuição: Editora da FURB

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive por processo xerográfico, sem permissão expressa do autor.

Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme Lei nº 10994, de 14 de dezembro de 2004. “Impresso no Brasil / Printed in Brazil”

Elaborada pela Biblioteca Central da FURB

B582b Uma biblioteca pode ter tudo, inclusive livros: entre histórias e memórias dos 50 anos da Biblioteca Universitária Prof. Martinho Cardoso da Veiga (1968-2018) / Alisson Sonaglio ... [et al.] (organizadores). - Blumenau: Edifurb, 2019. 81 p. : il. Inclui bibliografias. ISBN: 978-85-7114-271-8 1. Bibliotecas. 2. Bibliotecas universitárias. 3. Bibliotecas universitárias - História. 4. Crônicas. I. Sonaglio, Alisson. II. Universidade Regional de Blumenau. III. Título. CDD 027.7


Esse local labiríntico é, entretanto, e acima de tudo, uma instituição, onde se desenham desígnios intelectuais, realizam-se políticas de conservação, elaboramse modelos de recolha de textos e imagens. Mais do que um edifício com prateleiras, uma biblioteca representa uma coleção e seu projeto. Afinal, qualquer acervo não só traz embutida uma concepção implícita de cultura e saber, como desempenha diferentes funções, dependendo da sociedade em que se insere. Lilia Moritz Schwarcz, 2002.


Sumário

AGRADECIMENTOS

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PREFÁCIO

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PALAVRA DA REITORA

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I - HISTÓRIA

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A construção de uma biblioteca cinquentenária: trajetórias, perspectivas e desafios

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II - CRÔNICAS

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A biblioteca do ontem, do hoje e do amanhã Um instante entre estantes A biblioteca e as palavras de Picasso A boa ação do dia Biblioteca Hoje de manhã Ela me legitimou Entre livros e cavalo(s) Entre os livros da biblioteca Imortalidade Livros, pessoas e o tempo O coração da FURB Perfeita imitação de uma mente divina em escala comunitária Tempos idos Três anos em um mundo paralelo no universo da biblioteca Um importante membro da BU

34 35 37 38 40 41 43 44 47 48 51 52 54 56 57 58

III - MEMÓRIAS

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Biblioteca da FURB 1968-2018 - 50 anos O audiovisuais A eterna busca pelo conhecimento

60 69 76

POR DENTRO DO PRINCIPAL PRÉDIO DA BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA

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ÍNDICE DE FOTOS DAS CRÔNICAS

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Agradecimentos

Resultado de um trabalho coletivo, este livro tornou-se possível graças ao empenho e dedicação de várias pessoas, às quais nos dirigimos neste momento. Em primeiro lugar, é preciso agradecer a todos os servidores que atuaram e atuam na Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga”, que contribuíram e contribuem cotidianamente para fazer deste espaço um local de construção de saberes, de divulgação cultural, de busca pelo conhecimento. Além disso, é imprescindível a menção aos nossos usuários, motivo maior da existência desse importante órgão da FURB: é por eles e para eles que a Biblioteca tem procurado constantemente aperfeiçoar suas rotinas e entregar cada vez mais serviços de qualidade. De forma mais direta em relação a este livro, agradecemos à Comissão dos 50 anos da Biblioteca, formada pelos servidores Alisson Sonaglio, Ana Paula de Oliveira, Ariane Rodrigues Batista, Bruno Antônio Rodolfo Locatelli, Daniele Rohr, Darlan Jevaer Schmitt, Eduardo Götzinger e Vanessa Lischeski, que esteve à frente na organização dos eventos relativos a essa data comemorativa e que tem, neste trabalho, o seu desfecho. De igual forma, agradecemos à servidora Adriana Klann pela leitura atenta e revisão dos textos. Agradecemos também à comissão composta por Gervásio Tessaleno Luz, Magali Moser e Ruan Rosa, que foi responsável por avaliar todas as crônicas presentes na segunda parte do livro e à qual estendemos nosso agradecimento por sua dedicação e disponibilidade. Agradecemos ao Centro de Memória Universitária (CMU) pelo auxílio na pesquisa documental, algo indispensável para realização do artigo histórico que compõe a primeira parte do livro. De igual maneira, por todas as imagens presentes neste livro, que fazem parte do acervo desse importante setor, vinculado à Biblioteca Universitária e que é responsável pela gestão arquivística e documental da Universidade Regional de Blumenau (FURB). Por fim, agradecemos aos autores deste livro – formado por diferentes tipos de textos – mas que têm o mesmo objetivo: refletir sobre as diferentes características que fazem da Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga” um espaço carregado de memórias e histórias, as quais pretendemos abordar a partir deste momento.

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Prefácio

Há séculos, as bibliotecas desfrutam de grande prestígio na sociedade como locais de proteção, criação e circulação do conhecimento humano. Marcar datas significativas desses espaços é não somente uma oportunidade de conhecê-los mais profundamente, como também, de prestar-lhes homenagens. Nesse sentido, a produção de um livro parece a opção adequada para marcar a passagem de 50 anos de um órgão da FURB tão importante para o Vale do Itajaí e Santa Catarina. Criada em 1968, a Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga” exerce um papel indispensável na formação de todos os estudantes que passam pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB). Para além da própria Universidade, é indiscutível que seu peso e importância são sentidos por toda a sociedade catarinense. Como o próprio título do livro indica, em homenagem à fala de seu primeiro Diretor e grande incentivador, Bráulio Maria Schloegel, “a biblioteca pode ter tudo, inclusive livros”. E a Biblioteca Universitária da FURB tem realmente de tudo: filmes, obras de arte, artefatos museológicos, apresentações de orquestra, peças de teatro e tantas outras manifestações culturais que o termo “tudo” ainda pode abarcar. Além disso, é claro, é feita por pessoas e para pessoas: servidores e usuários que dão sentido à Biblioteca diariamente. Neste livro, o leitor passeará por três conjuntos de textos que o proverão de visões distintas desses cinquenta anos. O primeiro deles, inaugurando a obra, é intitulado “A construção de uma biblioteca cinquentenária: trajetórias, perspectivas e desafios”, um artigo de caráter histórico e que buscou reunir o desenvolvimento da Biblioteca Universitária com base em documentação escrita, fotográfica e em entrevistas. Com a intenção de abarcar o maior número possível de aspectos dessa história, percorremos desde o crescimento do acervo, funcionários, relações com os usuários, espaços físicos, até seu papel cultural e a importância na expansão da própria FURB. Em seguida, encontram-se dezesseis crônicas selecionadas para integrar esse livro comemorativo. Com a temática bastante abrangente, “Os 50 anos da Biblioteca Universitária Prof. Martinho Cardoso da Veiga”, cada autor pôde enviar uma crônica que, além das formalidades textuais exigidas por edital, também contivesse qualidade técnica e originalidade. Por fim, na terceira parte da obra, apresentamos a seção “Memórias”. Nela, três servidores da Biblioteca rememoram e compartilham suas vivências em diferentes períodos desses últimos 50 anos. São casos curiosos, engraçados, excertos de lembranças, relatos de dedicação e muito trabalho. Portanto, este livro que você tem diante de seus olhos não tem a pretensão de ser uma obra completa acerca da História da Biblioteca da FURB. É, mais apropriadamente, um vislumbre possível e uma amostra razoável de cinco décadas de acontecimentos encadeados de modo a produzir narrativas e responder questionamentos do presente. “Uma biblioteca pode ter tudo, inclusive livros” é dedicado a todos: funcionários, leitores e visitantes ocasionais, àqueles que fizeram – e fazem – essa Biblioteca viável, trazendo-a por esses 50 anos. Uma ótima leitura a todos! Os organizadores. 11


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Palavra da Reitora

No ano em que comemoramos 54 anos da FURB, a nossa Biblioteca Universitária Prof. Martinho Cardoso da Veiga celebrou seus 50 anos. Nesse contexto, convém recordar que a nossa Biblioteca Universitária já esteve localizada no Bloco A, do Campus I, para, mais tarde, ser transferida para o novo e atual espaço no Bloco H, que fora construído com um belo e adequado desenho arquitetônico para receber o seu expressivo acervo. Logo, a nossa Biblioteca é – e sempre foi – um orgulho para toda a comunidade, sendo reconhecida como uma das principais bibliotecas do estado de Santa Catarina. Com um acervo constituído de obras de valor incalculável e com os seus servidores técnico-administrativos, a Biblioteca Universitária tem um papel determinante na qualificação dos cursos que ofertamos. E, embora já esteja consolidada, ela se reinventa a cada fase, pois não é apenas um local de consulta e empréstimos de livros; é um local de cultura e de convivência, distinguindo-se, principalmente, como um centro de conhecimento no município e na região. Contudo, nos próximos anos, teremos o desafio de expandir o seu alcance, tanto física quanto digitalmente, tornando-a uma biblioteca mais contemporânea. Portanto, as formas de busca poderão até mudar, mas a nossa Biblioteca se manterá como um local de preservação do conhecimento – abrigando outros formatos, outros suportes, e até integrando a Instituição com outros objetivos –, com importância e sempre digna de respeito e carinho de todos que a frequentam e a frequentaram ao longo desses 50 anos. Marcia Cristina Sardá Espindola Reitora da FURB

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I - Histรณria

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A construção de uma biblioteca cinquentenária: trajetórias, perspectivas e desafios Alisson Sonaglio1 Darlan Jevaer Schmitt2 Eduardo Götzinger3 Vanessa Lischeski4

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onstrução: ação de dar forma, elaborar, criar, dar estrutura, edificar, conceber. Em uma reflexão inicial, construção tende a indicar algo físico, palpável. Nesse aspecto, não se pode ignorar a importância do edifício próprio da Biblioteca Universitária implantado em 1986 e ampliado em 2004. Entretanto, trata-se aqui também de outras construções: a busca constante pelo aprimoramento do acervo, de um hábito de leitura entre seus usuários, da importância da arte e da cultura na formação humana. Trata-se, ainda, da construção de um corpo de funcionários preparados e aperfeiçoados por capacitações técnicas e crescimento diário. Por isso, optamos por intitular esse artigo como “A construção de uma biblioteca cinquentenária: trajetórias, perspectivas e desafios”, pois não somente a Biblioteca Universitária vem sendo elaborada ao longo desses anos, como também sua história e a percepção que temos acerca dela. Tal perspectiva aponta para a possibilidade real de uma construção sólida, ainda que em constante mutação. Nesse percurso de escrita, como sempre, escolhas são feitas no que tange aos métodos, fontes e recortes. Por exemplo, sabemos que a concepção da Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga” transborda largamente das narrativas aqui apresentadas, visto que estas têm o condão de fornecer uma primeira reflexão sobre seu espaço, sua história e seus desafios. A respeito dessa seleção é significativo expor que buscamos trabalhar com documentos escritos, principalmente os relatórios anuais produzidos pela Biblioteca Universitária e pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), os regulamentos internos; documentos imagéticos, como as fotografias que apresentam de forma tão particular as mudanças físicas e tecnológicas pelas quais passou a Biblioteca; e entrevistas concedidas 16

por servidores, levando em consideração o já bem estabelecido campo da história oral e as contribuições advindas da memória desses sujeitos históricos. Ademais, optamos por estruturar o texto de forma linear, ou seja, tomamos como ponto de partida os debates sobre a instalação do ensino superior em Blumenau entre as décadas de 50 e 60, para chegarmos ao nosso período contemporâneo, com a intenção principal de tornar a leitura mais agradável e acessível. Todavia, é preciso ressaltar que a história não deve ser considerada como um encadeamento lógico de acontecimentos, como se ela fosse previsível aos olhos das pessoas de determinado período, e que tampouco essa percepção se aplica à história da própria Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga”. Com isso queremos dizer que em cada época, as pessoas formulam respostas as suas demandas, buscam alternativas para seus problemas, e só a ação do tempo e o distanciamento que ele produz são capazes de fornecer indícios de respostas para as questões contemporâneas que buscamos responder a partir de agora.

O

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processo de interiorização do ensino superior no estado de Santa Catarina é um dos marcos da Fundação Universidade Regional de Blumenau. Considerada a primeira Universidade do interior catarinense, foi fundada em 05 de março de 1964, sob o nome de Faculdade de Ciências Econômicas de Blumenau (FACEB), pela Lei Municipal nº 1233, e abrigava inicialmente apenas o curso de Ciências Econômicas5. Apesar das aulas terem iniciado alguns dias antes, tem-se como marco comemorativo do início das atividades da FURB a data de 02 de maio, quando ocorreu a aula inaugural proferida pelo Professor Alcides Abreu6. Contudo, tal marco institucional


tem sido revisitado recentemente em prol de reconhecer o de Filosofia, Ciências e Letras, o mesmo Conselho concomplexo processo que já na década de 50 mostrava seus siderou: “A biblioteca é precária”, acrescentando que “nos primeiros passos com as reivindicações levadas adiante setores específicos Pedagogia, Educação, Física, Química, pelo movimento secundarista 7. Matemática, História Natural são por demais modestos e A demanda pelo ensino superior se manteve ativa nada consta no setor de Letras [...]”; por fim, recomendae, em 1967, criaram-se também a Faculdade de Filosofia, va: “Alertamos a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Ciências e Letras e a Faculdade de Ciências Jurídicas, que, de Blumenau que não meçam esforços para enriquecer a juntamente com a Faculdade de Ciências Econômicas, fosua Biblioteca em todos os setores de seu ensino princiram agrupadas na Fundação Universitária de Blumenau palmente no de Letras cujas fontes são as obras literárias (FUB), responsável por manter e administrar as três ennacionais e estrangeiras.”10 tidades. O ensino superior consolidou o desejo da região em acessar a formação oferecida por faculdades, comprometidas com o desenvolvimento econômico, social e cultural da região. Com a abertura dos cursos de nível superior, novas demandas foram criadas e o livro, símbolo máximo da transmissão de conhecimento, não poderia estar dissociado deste importante processo histórico. A criação e estruturação de uma biblioteca que colaborasse com o desenvolvimento dos recém-criados cursos superiores tornou-se iminente. Nesse prelúdio, a figura e o trabalho de Bráulio Maria Schloegel se destacaram. Ele era funcionário da Biblioteca Pública de Blumenau fundada por lei municipal em 19528, e devido a sua experiência neste espaço, o mesmo foi tido como o mais cotado para iniciar a organização da Biblioteca da Fundação Inauguração dos três primeiros blocos da FURB em 02 de agosto de 1969. Universitária recém-instituída. A transferência de Bráulio entre as instituições O acervo, que nessa época contava com pouco mais foi, em parte, resultante do hábil trabalho político do exde 4 mil volumes, originou-se de doações particulares, periente Professor Martinho Cardoso da Veiga, que havia principalmente do Professor Martinho Cardoso da Veisido também Vereador de Blumenau por três mandatos ga, e também do Serviço de Divulgação e Relações Culseguidos entre 1951 a 1963. Veiga foi o primeiro Reitor turais (USIS), entidade dos Estados Unidos responsável do que viria a se tornar FURB e, também, um dos precurpelo fomento à cultura americana, aulas de inglês, criasores da Instituição.9 Ainda que as aulas da então Faculdade de Ciênção e disseminação de bibliotecas e espaços de leitura11. cias Econômicas tivessem iniciado em 1964, a Biblioteca Pode-se interpretar esse trabalho como estando imerso foi oficialmente implantada somente em 28 de abril de no contexto da Guerra Fria, com objetivos de reforçar as 1968, operando em uma sala da Escola Júlia Lopes de relações políticas e alinhar as visões econômicas e culAlmeida, que também abrigava as aulas antes da consturais do Brasil, sob a Ditadura Militar, com o governo trução da sede própria. A necessidade de uma biblioteca, norte-americano.12 A primeira sede própria da Biblioteca foi estrutuno entanto, se fez sentir já em 1964 e foi reforçada em rada em 1969, ocupando algumas salas no segundo andar 1968 por pareceres do Conselho Estadual de Educação do atual Bloco “A”, logo acima do hall de entrada do hoje de Santa Catarina. No primeiro deles, o Conselho dizia Campus I da FURB. Com a expansão do acervo nos anos que era “absolutamente necessária”, dentre outras proviseguintes, mais salas foram sendo requisitadas, o que gedências, a instalação, “de imediato”, de uma biblioteca da rou a segmentação do acervo e a própria demanda por Faculdade. Quatro anos mais tarde, no parecer do Proum espaço mais adequado. cesso de Autorização de Funcionamento da Faculdade 17


Livro de registros com a aquisição dos primeiros livros da Biblioteca Central.

No que dizia respeito à circulação de materiais, o regulamento da Biblioteca do ano de sua instalação determinava que o empréstimo a alunos dependia de autorização dos Diretores das Faculdades, não excedendo a dois livros e por um prazo de três dias. Se o empréstimo parece restritivo, o atendimento ao público certamente não era: durante a semana das 8h às 22h30min, aos sábados das 8h às 17h, e aos domingos das 9h às 11h13, de forma que fosse atendido o maior número possível de estudantes. Como recorda Bráulio Maria Schloegel, grande parte dos atendimentos realizados aos domingos contemplava os estudantes secundaristas que precisavam fazer seus trabalhos escolares14, o que demonstra a preocupação em atender uma comunidade de leitores que excedia aos acadêmicos vinculados à FURB. Vista interna da Biblioteca Central no bloco A.

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Nessa mesma perspectiva que visava estruturar serviços que vão além das funções tradicionais atribuídas a uma Biblioteca, em 1971 deu-se a criação do Serviço de Encadernação, o qual contava, nos seus primeiros anos, com três servidores e que também realizava serviços de tipografia. Para se ter uma breve ideia da quantidade de material impresso que circulou neste setor em sua primeira década, os relatórios entre 1973 a 1981 apontam que a parte de tipografia (impressos) lidou com 747.295 páginas e a encadernação com 109.446 materiais, dentre livros e revistas que passaram por algum tipo de cuidado ou restauração15. Não por acaso em entrevista concedida em 1985, a Vice-Diretora Nessi Cristelli destacou a “função imprescindível que ele [o setor de encadernação] executa para uma correta funcionalidade da biblioteca”. Além de mencionar o caráter economicista do setor, uma vez que devido a ele a FURB “não necessita recorrer às gráficas para esta operação.”16 Outro importante serviço prestado pela Biblioteca foi fornecido pelo setor de Audiovisuais, hoje não mais existente. Implementado em 1973, teve seu acervo incrementado no final da década de 70 com filmes provenientes de consulados e outras instituições conveniadas, cujos curtas e longas-metragens das mais variadas áreas do saber passaram a enriquecer as aulas, atendendo também outras escolas e instituições regionais.


Assim, não se furtando de seu caráter público e do conhecimento que detinha, a Biblioteca Universitária auxiliou na organização de outras bibliotecas institucionais e no incentivo a práticas de leitura em diversas entidades, tais como: Hospital Santa Isabel, Associações Atléticas do Banco do Brasil, Companhia Hering, 23º Batalhão de Infantaria, Biblioteca Pública de Indaial, além de escolas17. Ainda na metade da década de 70, a necessidade de um edifício próprio para a biblioteca já era latente: faltava espaço para o acervo, para os usuários estudarem e para os próprios funcionários. Somando-se a esses fatores havia o enorme peso do material bibliográfico sobre a estrutura dos blocos inicialmente pensados para abrigarem salas de aula. O relatório anual de atividades de 1976 sintetizava a questão: “[...] nas atuais condições de espaço físico da FURB torna-se difícil, senão inviável, uma expansão física maior da Biblioteca, se não for optado por soluções menos paliativas, mas sim de resultados mais duradouros. Neste caso, só restam duas opções: ou a construção de prédio próprio para a Biblioteca Central ou a expansão nos blocos ‘A’ e ‘Z’ [...]”18. Outra razão apontada à época para a carência de espaço era o crescimento vertiginoso do setor de periódicos, cuja entrada constante própria desse tipo de material bibliográfico demandava muito local de armazenamento. O crescimento desse acervo como um todo é compreensível se considerarmos que a Instituição abria diversos cursos e estava em forte expansão numa região até então carente em ensino superior.

Usuários no setor de Periódicos da Biblioteca Central (1984).

De forma concomitante à situação do acervo, desenvolveu-se uma prática de distribuição das duplicatas dos periódicos para bibliotecas escolares e de outras instituições. A partir dessa divulgação, outras entidades podiam solicitar o envio de obras que a Biblioteca Universitária já possuía em número suficiente para atender suas demandas, o que também contribuiu para fortalecer uma percepção de protagonismo desempenhado pela Biblioteca. Em 1978, no 14º aniversário da FURB, na época chamada Fundação Educacional da Região de Blumenau, a Biblioteca Central recebeu o nome “Professor Martinho Cardoso da Veiga” em uma placa de bronze, como forma de homenageá-lo por sua contribuição, tanto em relação ao início do acervo da Biblioteca quanto à própria FURB.19

Em busca da sede própria: expansão e consolidação de um espaço plural

A

partir dos anos 80, a Biblioteca Universitária passou pela diversificação das atividades desempenhadas e por uma expansão do acervo e do espaço físico. É acerca desses aspectos que pretendemos tratar a partir de agora. No que concerne à variação de operações, teve início a produção de recortes de jornais que remete ao registro de fatos importantes da FURB e região, atualmente disponibilizados de maneira digital. Ainda em relação ao acervo, foi organizada a Mapoteca e passou-se a oferecer visitas orientadas a cada início de semestre, atividade que buscava contemplar a capacitação dos usuários efetuada pelos atendimentos presenciais e também a que os guias ofereciam acerca da estrutura e dos serviços da Biblioteca, os quais, a partir daí, foram constantemente atualizados.

Guia da Biblioteca Central Professor Martinho Cardoso da Veiga (década de 80).

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Entretanto, a maior ação institucional ocorrida na década de 80 foi o planejamento e execução de um prédio próprio para a Biblioteca Universitária ‘Prof. Martinho Cardoso da Veiga’. Finalmente inaugurada em 07 de fevereiro de 1986, a demanda por tal sede já ocorria há bastante tempo: ainda em 1978, a Instituição solicitou apoio financeiro à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), órgão vinculado ao Governo Federal, para a composição de um prédio próprio para melhor acomodar a sua Biblioteca Universitária. Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos

Outro marco deste período foi a implementação do Laboratório Fotográfico, que visava à produção e revelação de fotos da Universidade em suas mais amplas atividades e que possuía inúmeras outras utilidades para a imprensa universitária e geral, bem como para a montagem de audiovisuais. Foi nessa década que o setor de Audiovisuais, que era vinculado à Biblioteca Universitária, não só deu continuidade à exibição de filmes, como também produziu seus próprios materiais. Sequências de diapositivos foram elaboradas apresentando a FURB e divulgando também o Laboratório de Línguas (atualmente FURB Idiomas) e a ETEVI, nossa escola de Ensino Médio. Nos anos seguintes, esse recurso de projeção apresentou instruções de como usar a Biblioteca, o Núcleo FREINET20, os 20 anos da universidade e inúmeras outras ações. Já em 1985, o setor recebeu seu primeiro aparelho de videocassete, que gerou modernização significativa para suas atividades.

Descerramento da placa de instalação oficial da Universidade e inauguração do prédio da Biblioteca Central (1986).

Setor de Audiovisuais.

A partir de 1984 e 1985, o Projeto Memorvale, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas Sociais (IPS), foi outro que contou com a participação ativa da Biblioteca Universitária por meio do Laboratório Fotográfico. O objetivo do projeto consistia em registrar edificações antigas da região e elaborar ficha com os dados do proprietário naquela ocasião e ano de construção. A atividade do laboratório foi justamente retratar os imóveis. E, ao final do projeto, a Biblioteca ficou com uma cópia do material levantado21. O acervo foi incrementado com a integração da Biblioteca Universitária ao Programa de Comutação Bibliográfica (COMUT). Através desse programa, era possível adquirir cópias de documentos e outros materiais disponíveis em outras bibliotecas, numa rede de cooperação mútua. Com a criação de novos cursos de Ciências Humanas e licenciaturas pela Universidade, a Biblioteca também expandiu seu acervo com vistas a contemplar essas áreas do conhecimento. 20

A equipe técnica em torno deste projeto era formada pelo arquiteto Stênio Calsado Vieira e os engenheiros Edson Francisco Brunsfeld, Neri José Marchezan e Fred Zduerk Wachholz. O projeto também contou com a colaboração do Centro de Desenvolvimento e Apoio Técnico à Educação (CEDATE), ligado ao Ministério da Educação, e de Cláudio Mafra Mosqueira, especialista na edificação de bibliotecas universitárias22. Além da demanda urgente por espaço, destacava-se à época também que o novo edifício: será construído com duas finalidades: a de que a biblioteca, sendo o centro de conhecimento, esteja localizada próxima aos consulentes, corpo docente, discente e comunidade em geral. Com essa nova localização, ela ficará no coração dos dois segmentos lineares de blocos acadêmicos e tecnológicos, em frente ao futuro Centro de Convivência do Campus, promovendo a integração dos variados setores da universidade [...]23

A reportagem também afirmava que outro objetivo era “a proximidade ao acesso externo principal, facilitando as relações da biblioteca com o público externo, a comunidade em geral24.” Em uma primeira previsão, sua inauguração foi agendada para julho de 198525. Contu-


Mural do artista Alberto Cedrón (1986).

Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos

Desde a fase de planejamento até a mudança do acervo, os servidores da Biblioteca participaram ativamente de todo o processo. O edifício próprio para o órgão institucional engajou toda a comunidade universitária que passou a contar não somente com um novo e melhor local físico, mas também com um espaço centralizador de encontros e de promoção cultural.

Mudança da Biblioteca Central do Bloco A para o prédio próprio (1986).

No final da década de 80, a Biblioteca passou por sua primeira grande automação através do uso do Sistema Bibliodata/CALCO. Também houve a conclusão do curso de Biblioteconomia oferecido pela FURB em parceria com a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), o qual formou servidores que já atuavam nela, e o aprimoramento das orientações de uso da Biblioteca para os usuários, com a continuidade das visitas orientadas e da elaboração e impressão de guias voltados a eles.

Com as demandas de espaço físico até aquele momento atendidas e concretizadas, a Biblioteca Universitária passou a direcionar sua atenção para o quadro de funcionários, automação e modernização dos serviços e ampliação do atendimento, este último representado pela criação de bibliotecas setoriais ao longo dos anos 90. Além disso, nessa mesma década, a Biblioteca realizou eventos direcionados à comemoração da Semana do Livro, sempre no final de outubro, além de ter contado com lançamento de livros e palestras e desenvolvido projetos de incentivo à leitura com minicursos. É importante frisar, portanto, que esse papel cultural sempre foi desempenhado, desde quando a Biblioteca ainda ocupava seu primeiro espaço físico no atual Bloco “A”, do campus I, da Universidade Regional de Blumenau. Fotógrafo: Roberto Luiz Zen

Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos

do, os acabamentos e decorações foram concluídos em dezembro de 1985, sendo o detalhe mais significativo o painel de terracota do artista argentino Alberto Cedrón, fixado em uma das paredes de sua edificação26.

Alunos na exposição “Madeira: presença e arte” (1991).

Poucos anos depois, entre 1992 e 1993, devido ao crescimento vertiginoso de seu acervo propiciado pelo bom momento da Universidade que contava neste período com quase 8.000 alunos matriculados27, a requisição por mais espaço voltou a se fazer presente. Um projeto de ampliação foi encaminhado ao Ministério da Educação visando recursos, mas não se concretizou. Em 1996 criou-se o chamado Depósito como medida paliativa para a falta de local para armazenamento do acervo, que foi formado por livros com baixa procura por parte dos usuários. Ainda em 1996, outra mudança de grande impacto estava para acontecer: a constituição do catálogo on-line do acervo da Biblioteca Universitária. Conforme reportagem abaixo28, o sistema de fichas foi eliminado para dar lugar à consulta pela internet, esta possível por vários tipos de buscas, o que facilitou a pesquisa tanto do usuário interno quanto da comunidade de uma maneira geral. Além disso, a Biblioteca Universitária firmou acordos de cooperação entre o seu sistema de automação e os 21


de outras instituições de ensino, como os da UNIVALI, da FERJ e da FEDAVI. De modo geral, ao longo de todos os anos 90, uma série de softwares estava disponível para auxiliar nos serviços de catalogação, processamento, empréstimos, devoluções e consulta, acompanhando as mudanças no âmbito tecnológico.

da anteriormente, no então chamado Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Para atendimento aos alunos cujas aulas eram ali ministradas, em 1987, foi montada uma estante com os livros básicos e indispensáveis para cada disciplina e um funcionário foi deslocado para dar atendimento aos usuários. O crescimento do campus e a

Reportagem sobre o acervo da Biblioteca Central publicada no Jornal da FURB (1996).

A estrutura física da Biblioteca Central, nesse período, contava com uma área de 2.700 m². Percebe-se que o crescimento edificado da Biblioteca não acompanhava o crescimento de seu acervo, visto que a falta de espaço esteve presente praticamente em toda sua história, sendo necessárias diversas medidas que mitigassem a situação. Assim, uma das estratégias encontradas foi a criação de bibliotecas setoriais que acompanhavam a expansão da própria Universidade e a oferta de cursos em outras localidades. Diante disso, foi oficialmente instalada, em 1995, a Biblioteca Setorial do Campus II, que inicialmente atendia aos cursos de Engenharia Industrial Elétrica, Engenharia Química e Educação Artística. A necessidade de uma Biblioteca no Campus já era senti22

transferência dos cursos do Centro de Ciências Tecnológicas, somados ao curso de Design, disciplinas de Arquitetura e Urbanismo e cursos de pós-graduação, exigiram a expansão do atendimento por parte da Biblioteca. Com a instalação em 1999 de um depósito no Bloco “O” – a partir de 2002, denominado Campus III –, entrou em funcionamento em março de 2000 naquele local mais uma biblioteca setorial, posteriormente chamada de Biblioteca Setorial do Campus III. O espaço físico ocupado teve um acréscimo, aliviando parcialmente a saturação em que se encontravam a Biblioteca Central e a Biblioteca Setorial do Campus II, com o direcionamento do acervo para atender os cursos de Odontologia e de Farmácia. Atualmente somam-se a estes os cursos de Nutrição e de


Biomedicina. Acompanhando as transformações ocorridas no Campus, a referida biblioteca setorial atendeu também por alguns períodos os cursos de Turismo e Lazer, de Sistemas de Informação e de Economia. Existiram ainda as Bibliotecas Setoriais de Gaspar, Timbó e Pomerode, instaladas, respectivamente, em 2000, 1999 e 1998. Essas bibliotecas funcionavam em conjunto com a secretaria dos campi e aos cursos ofertados nos locais: Pedagogia, Administração e Turismo e Lazer. No ano de 1999, atendendo a uma antiga reivindicação dos usuários e servidores, foi instalado o sistema de ar condicionado na Biblioteca Central. Nesse mesmo ano ocorreram mudanças no hall de entrada e de exposições, atual Salão Angelim, que passou a abrigar parte do acervo, também em função da falta de espaço.

A Biblioteca Universitária chegou à virada do século com um acervo estimado de 352.516 materiais, sobretudo livros e revistas, 41 servidores, 30 bolsistas e 400.912 empréstimos efetuados29. Tais números contemplaram uma comunidade acadêmica formada por 11 mil alunos da graduação, 1.972 da pós-graduação, 368 de ensino médio, além de 1.150 servidores, entre técnico-administrativos e docentes30. Não é possível entrever por meio dos relatórios, a abrangência propiciada na região do Vale do Itajaí, mas acreditamos que estes números representam, minimamente, o alcance que a Biblioteca Universitária conseguiu construir neste período, por meio da consolidação de seu acervo e da qualificação de seus servidores.

Novo século, novos dilemas: do catálogo de fichas ao portal de periódicos e e-books 2000 que a Biblioteca atingiu seus números mais expressivos em relação ao seu acervo bem como sua movimentação, conforme podemos observar nos apêndices A e B, o que colaborou para justificar a necessidade de sua ampliação. A requisição por maior espaço físico ganhou alento a partir de 2002 quando teve início a obra de ampliação, concluída e inaugurada em 2004 em meio às comemorações dos 40 anos da FURB. A edificação existente foi então remodelada, recebeu elevador, setores e serviços foram adaptados e, a partir de 2005, incorporou em seu espaço físico e no organograma interno o Centro de Memória Universitária (CMU), responsável pela gestão arquivística e histórico-museológica da Universidade. Recebeu, também, o Auditório “Padre Orlando Maria Murphy” com mais de 150 lugares. A partir deste momento, a Biblioteca Universitária atingiu os cerca de oito mil metros quadrados que ainda a caracterizam contemporaneamente. Inauguração da ampliação do prédio da Biblioteca Central com apresentação da Orquestra (2004). Fotógrafo: Rogério Pires

A

chegada do século XXI e a percepção de que os avanços tecnológicos estavam em constante evolução trouxeram uma série de demandas à Biblioteca Universitária. Junto com isso, um questionamento crescente sobre aquilo que está em sua origem: os livros. Com a revolução digital e a produção de livros eletrônicos, o livro impresso e, consequentemente, as bibliotecas sobreviveriam da forma como a conhecemos? O tema esteve e continua presente em publicações de historiadores, bibliotecários e demais pesquisadores preocupados com o mundo da leitura, como Roger Chartier que argumenta em favor da necessária convivência dessas diferentes formas de produzir e acessar o conhecimento, pois “a biblioteca eletrônica sem muros é uma promessa do futuro, mas a biblioteca material, na sua função de preservação das formas sucessivas da cultura escrita, tem, ela também, um futuro necessário31.” Congregando, portanto, as mudanças tecnológicas, mas sem desconsiderar o seu acervo físico, a partir de 2001 os módulos do sistema de automação entraram em funcionamento na Biblioteca Universitária, a saber, aquisição, processamento técnico, empréstimo, controle de usuários e consultas. Ademais, também ocorreu a unificação dos sistemas da Biblioteca, de recursos humanos e registro acadêmico a fim de eliminar duplicatas em cadastros de um mesmo indivíduo com vínculo na Universidade. Com acervo estimado em cerca de 370 mil materiais, com uma movimentação de consulta em torno de 600 mil e 490 mil empréstimos efetuados no ano de 2000, a Biblioteca buscou, uma vez mais, a ampliação do seu espaço físico. É justamente na primeira década dos anos

23


Fotógrafa: Alessandra Doering Meinicke

Vista interna do nível 3 da Biblioteca Central.

Em 2013, ao completar 45 anos de sua instalação, a Biblioteca Universitária também executou uma série de ações especiais para marcar essa data. Além de exposições físicas e virtuais que apresentavam um pouco da história, também foram organizados horários especiais aos domingos em duas ocasiões. Com grande divulgação na imprensa e nas redes sociais, o público pôde apreciar atividades únicas nesses dois dias, apresentações musicais, tais como contação de histórias, técnicas de encadernação e reparos do acervo, e também a exibição de peças museológicas. 24

Fotógrafo: Rogério Pires

Oficina “Cuidados com livros” no setor de Encadernação da Biblioteca Central (2013). Fotógrafa: Heloísa Maria de Oliveira

Em relação à gestão de pessoas, em 2002 foi criado o cargo de Auxiliar de Biblioteca, que obteve tangibilidade com o primeiro concurso em 2005, e que trouxe, em consonância com os Bibliotecários, uma busca por maior profissionalização para os serviços ofertados. No mesmo ano, a Biblioteca Universitária passou a disponibilizar o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) – órgão vinculado ao Governo Federal –, principal portal de busca nacional que congrega periódicos científicos nacionais e internacionais e importantes bases de dados referenciais, sendo uma das primeiras bibliotecas do país a usar essa ferramenta.32 Nesse sentido, também iniciou uma integração de catálogos com as demais instituições de ensino do Sistema da Associação Catarinense das Fundações Educacionais (ACAFE), conhecido como sistema ACAFE. Outros pontos relevantes foram a possibilidade de renovação das obras em empréstimo via internet e a criação da Biblioteca Digital para abrigar monografias, teses e dissertações em formato digital, ambas concretizadas a partir de 2003. Alguns anos mais tarde, aproximadamente em 2009, criou-se a opção do chamado “autoempréstimo”, ferramenta que até hoje permite ao usuário fazer o empréstimo de suas obras na Biblioteca Central. No seio dessas modificações, estava a percepção de que era necessário conceder ao usuário uma maior autonomia em suas pesquisas e no uso que ele fazia dos serviços da Biblioteca.

Atividade “Contação de histórias” no espaço de literatura infanto-juvenil da Biblioteca Central (2013).

Ainda em 2013, a Biblioteca Universitária organizou o primeiro Seminário de Estudos da Informação e Conhecimento: Preservação Digital, evento que marcou o lançamento da Rede Cariniana33 para a Região Sul e que contou com a palestra do professor Doutor Miguel Ángel Márdero Arellano, coordenador nacional da Cariniana. Visando a preservação dos periódicos científicos digitais produzidos na FURB, hoje, todas têm seus volumes preservados na Cariniana e no Programa LOCKSS da Stanford University. No ano seguinte, em 2014, foi a vez da Universidade Regional de Blumenau comemorar 50 anos de fundação e, mais uma vez, a Biblioteca se fez presente, auxiliando nos eventos comemorativos e nas pesquisas históricas para a imprensa interna e regional através da Direção da biblioteca e do Centro de Memória Universitária (CMU), além da elaboração do livro “Em qualquer época, uma Universidade se faz com pessoas” com registros dessa história. O então Diretor da Biblioteca Universitária na época, o servidor técnico-administrativo Darlan Jevaer Schmitt, exerceu a presidência da Comissão FURB 50 anos entre janeiro de 2013 e maio de 2015. No ano de seu cinquentenário, a FURB deu início ao processo de posse a novos servidores, principalmente técnico-administrativos, referente ao concurso público efetuado no final de 2013. Essa ação visou preencher o quadro de servidores, além de estar em consonância com estatuto jurídico público da Universidade que estava em vias de regularização no que se refere à forma de contratação de funcionários. Um dos maiores órgãos da Universidade, a Biblioteca também foi contemplada com esse processo que tornou necessário um amplo processo de capacitação dos novos servidores e propiciou, inclusive, a própria atualização de práticas e procedimentos internos.


mato digital, essa já é uma realidade bastante presente na Biblioteca Universitária, mas que deve ser ampliada. Atualmente, a Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga” é constituída pela Biblioteca Central e pelas Bibliotecas Setoriais do Campus II e III, com acervo estimado em 400 mil volumes. Além dos serviços clássicos inerentes a uma Biblioteca como empréstimo, renovação e devolução de livros, ela também oferece capacitação de usuários em relação à ABNT e ao Portal de Periódicos da CAPES, visitas orientadas à comunida-

Fotógrafo: Sérgio Lamim

Em 2018, a temática comemorativa novamente entrou em cena, agora com o objetivo maior de se comemorar os 50 anos da Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga”. Para tanto, foi criada uma comissão interna formada por vários servidores e que organizaram, de maneira conjunta com o restante da equipe, a cerimônia de comemoração aos 50 anos e demais atividades relativas, como a confecção de uma camisa alusiva à data, o selo comemorativo, as homenagens, além deste livro em questão.

Descerramento da placa comemorativa aos 50 anos da Biblioteca Universitária Professor Martinho Cardoso da Veiga (2018).

Assim chegamos ao nosso período contemporâneo, que tem colocado alguns desafios importantes frente à Biblioteca Universitária, um órgão institucional que gerencia os recursos bibliográficos e demais obras e documentos necessários às atividades de ensino, pesquisa e extensão e à administração da Universidade. Conforme apontado nos apêndices A e B, o número de empréstimos bem como de consulta vem caindo paulatinamente ao longo da última década, reflexo bastante nítido da diversificação nas formas de produção e acesso ao conhecimento que tem priorizado o espaço virtual. O desenvolvimento da Biblioteca Universitária tende, portanto, a levar inevitavelmente aos livros digitais, também chamados de e-books. É bastante provável que não ocorra a substituição completa do acervo de obras físicas por versões digitais e nem é isso que se almeja: o que se deve buscar é um acervo mais completo e em diversos formatos, conforme as especificidades de cada área. Se levarmos em conta o Portal de Periódicos da CAPES e as dissertações, teses, monografias e relatórios já disponibilizados em for-

de acadêmica e externa, levantamento bibliográfico, além de serviços de referência. A Biblioteca também possui salas de estudo em grupo e cabines individuais, concentradas em andares diferentes com o propósito de direcionar e contemplar diferentes maneiras de estudar, e também dispõe de espaços complementares como o Salão Angelim e o Espaço de Cinema e Vídeo que, em parceira com a Divisão de Cultura, sediam diversas atividades culturais e científicas ao longo do ano. Com o principal objetivo de continuar auxiliando seus usuários nas suas mais diversas demandas, a Biblioteca Universitária buscou construir um acervo que atendesse as necessidades da comunidade universitária e consequentemente, de seus mais de mil usuários diários. Procurou – e procura – ser um órgão de desenvolvimento do conhecimento e propagação da cultura, cumprindo, assim, seu papel de biblioteca. O século XXI espera isso desse espaço. A Biblioteca Universitária “Professor Martinho Cardoso da Veiga”, a Biblioteca Universitária da FURB, tem essa responsabilidade. 25


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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Biblioteca Central Prof. Martinho Cardoso da Veiga: relatório do exercício de 1992. Blumenau: FURB, 1993.

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Relatório de atividades do exercício de 1995 da Biblioteca Central Prof. Martinho Cardoso da Veiga. Blumenau: FURB, 1996.

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Biblioteca Central Prof. Martinho Cardoso da Veiga: relatório do exercício de 1993. Blumenau: FURB, 1994.

FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Relatório de atividades do exercício de 1996 da Biblioteca Central Prof. Martinho Cardoso da Veiga. Blumenau: FURB, 1996.

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APÊNDICE A – Acervo e movimentação da Biblioteca Universitária Ano

Livros

Periódicos

Acervo Total

Consultas

1969

Não informado

Não informado

9.801

Não informado

1970

Não informado

Não informado

12.143

Não informado

1971

Não informado

Não informado

16.905

43.480

1972

Não informado

Não informado

23.428

82.641

1973

Não informado

Não informado

30.100

119.269

1974

24.403

9.280

33.683

162.004

1975

30.328

13.136

43.464

210.516

1976

Não informado

Não informado

50.173

208.377

1977

Não informado

Não informado

56.942

220.143

1978

39.201

24.826

64.027

204.619

1979

44.513

27.864

72.377

238.941

1980

51.762

30.762

82.524

265.977

1981

55.103

35.700

90.803

337.353

1982

57.359

40.359

97.718

320.810

1983

63.195

45.640

108.535

175.072

1984

69.402

50.192

120.2009

238.207

1985

75.957

54.935

131.485

255.445

1986

83.256

60.826

157.077

297.992

1987

85.941

66.628

167.573

159.140

1988

89.041

71.396

177.115

192.173

1989

92.439

76.434

186.288

225.869

1990

95.685

79.804

192.947

326.341

1991

101.902

85.013

206.987

314.614

1992

107.112

90.911

225.914

396.615

1993

113.562

97.238

239.457

425.263

1994

117.983

106.272

253.805

410.824

1995

124.802

115.774

270.732

417.952

1996

134.169

124.883

290.271

519.545

1997

ii

127.936

138.465

300.081

566.112

1998

139.756

150.091

328.736

619.883

1999

156.975

154.045

352.516

665.992

2000

168.349

165.390

376.352

692.292

2001

179.790

179.239

376.914

752.932

2002

193.902

183.966

400.713

509.487 29


2003

208.846

182.966

418.302

427.438

2004

224.025

191.671

444.356

435.243

2005

237.450

193.052

461.103

519.575

2006

250.293

201.932

481.909

462.899

2007

258.668

210.674

501.512

432.408

2008

254.816

218.121

505.968

261.018

2009

269.377

225.256

529.186

284.630

2010

273.554

231.323

540.390

321.993

2011

271.590

236.851

544.929

295.315

2012

277.999

Não informado

315.007

192.350

2013

277.162

143.861

315.007

143.861

2014

286.635

Não informado

325.374

141.926

2015

282.630

79.650

401.345

141.399

2016

316.831

81.372

398.203

123.839

2017

318.327

82.126

400.453

94.470

APÊNDICE B – Histórico de empréstimos da Biblioteca Universitária Ano 1985  1986  1987  1988  1989  1990  1991  1992  1993  1994  1995  1996  1997  1998  1999  2000  2001 

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Quantidade de empréstimos 28.950  25.429  27.937  34.017  38.752  50.268  49.971  65.866  81.773  135.663  185.135  244.243  273.981  343.051  400.912  490.639  545.703 

Ano

Quantidade de empréstimos

2002 2003  2004  2005  2006  2007  2008  2009  2010  2011  2012  2013  2014  2015  2016  2017  2018 

585.670 766.693  880.041  977.916  1.154.308  1.277.701  1.455.615  1.474.983  1.298.902  1.497.842  1.042.355  995.250  961.446  876.403  751.098  628.510  482.105 


Notas 1 Graduado em História pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) e Mestrando em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

14 SCHLOEGEL, Bráulio Maria. Entrevista concedida a Darlan Jevaer Schmitt, Fabrício Bittencourt, Eduardo Götzinger e Maicon Tenfen. Blumenau, 16 abr. 2018.

2 Graduado em História pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) e Mestre em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UDESC).

15 Conforme relatórios de 1977 a 198, o Serviço de Encadernação também contou por muitos anos com doações de matérias primas para desenvolver suas atividades das empresas Fábrica de Papelão Timbó S/A e Cia. Têxtil Karsten.

3 Graduado em História pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB). 4 Graduada em História pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB). 5 Conforme: https://c-mara-municipal-de-blumenau.jusbrasil. com.br/legislacao/287071/lei-1233-64._Acesso em: 22 out. 2018. 6 SCHMITT, Darlan Jevaer et al (org.). Em qualquer época, uma Universidade se faz com pessoas. Blumenau: EDIFURB, 2016. p. 11. 7 UNIVERSIDADE Aberta: História da FURB: entre memórias e novos documentos. Realização de Fundação Universidade Regional de Blumenau. Intérpretes: Adolfo Fey; Cristina Ferreira; João Natel Pollonio Machado; Orlandina Carmen Wüst; Victor Fernando Sasse. Blumenau: FURB TV, 2018. 1 vídeo (142 min.), son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vWvLr8BrHzc&t=230s&list=WL&index=14. Acesso em: 5 out. 2018. 8 Para maiores informações sobre a Biblioteca Municipal de Blumenau, acesse: http://www.bibliotecadeblumenau.com.br/. Acesso em: 24 abr. 2019. 9 SCHLOEGEL, Bráulio Maria. Entrevista concedida a Darlan Jevaer Schmitt, Fabrício Bittencourt, Eduardo Götzinger e Maicon Tenfen. Blumenau, 16 abr. 2018. 10 SANTA CATARINA, Conselho Estadual de Educação. Parecer n. 191/71 do processo n. 147/71. [Dispõe sobre a autorização para funcionamento do curso de licenciatura de curta duração, em regime intensivo, em Ciências]. Florianópolis: Conselho Estadual de Educação, 1971. 11 SUPPO, Hugo Rogelio; LESSA, Mônica Leite (org.) A quarta dimensão das relações internacionais: as relações culturais. Rio de Janeiro: Contra-capa, 2013. 12 Atualmente, existem muitos debates sobre o período da Ditadura Militar. Uma boa síntese dessa questão, sobretudo em relação às universidades pode ser consultada em: MOTTA, Rodrigo Patto de Sá. As universidades e o regime militar. cultura política brasileira e modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. 13 FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA DE BLUMENAU. Biblioteca Central: regulamento. Blumenau: FUB, 1968.

16 Vitrine: boletim informativo da Fundação Educacional da Região de Blumenau, Blumenau, n. 39, ano 8, p. 4, jun. 1985. Disponível em: http://bu.furb.br/CMU/site/index.php/acervo-jornais. Acesso em: 01 maio 2019. 17 FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DA REGIÃO DE BLUMENAU. Biblioteca Central. [Relatório]. Blumenau: FURB, 1978. 18 FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DA REGIÃO DE BLUMENAU. Relatório geral 1976. Blumenau: FURB, p. 32. Disponível em: http://bu.furb.br/CMU/site/index.php/relatorios-da-furb. Acesso em: 18 fev. 2019. 19 BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA. Origem. [Banner]. Blumenau: FURB, 2004. 20 O projeto Freinet teve início em 1978 e deu origem a Escola Freinet de Blumenau, transferida para iniciativa privada na década seguinte. Conforme: SCHMITT, Darlan Jevaer; SASSE, Liane Kirsten; COSTA, Viegas Fernandes da. Breve histórico da Universidade Regional de Blumenau. Disponível em: http://bu.furb.br/CMU/expoVirtuais/outros/Breve%20Histrico%20da%20FURB.pdf. Acesso em: 23 maio 2019. 21 Atualmente salvaguardado no Centro de Memória Universitária (CMU). 22 Vitrine: boletim informativo da Fundação Educacional da Região de Blumenau, Blumenau, n. 23, ano 7, p. 4-5, jun. 1984. Disponível em: http://bu.furb.br/CMU/site/index.php/acervo-jornais. Acesso em: 01 maio 2019. 23 Idem. 24 Idem. 25 Vitrine: boletim informativo da Fundação Educacional da Região de Blumenau, Blumenau, n. 31, ano 7,p. 12, nov. 1984. Disponível em: http://bu.furb.br/CMU/site/index.php/acervo-jornais. Acesso em: 01 maio 2019. 26 Em 1999, o painel foi transferido da Biblioteca para o jardim defronte a mesma. 27 FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Relatório de atividades 1989-1993. Blumenau: FURB, p. 55. Disponível em: http://bu.furb.br/CMU/site/index.php/relatorios-da-furb. Acesso em: 03 maio 2019. 31


28 Jornal da FURB, Blumenau, n. 145, ano 18, fev. 1996. 29 FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Biblioteca Central Professor Martinho Cardoso da Veiga: relatório de atividades exercício de 1999. Blumenau: FURB, 2000. 30 FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Relatório de atividades 1999. Blumenau: FURB, 2000. p. 5-6. Disponível em: http://bu.furb.br/CMU/relatoriosFURB/1999%20Relatorio.PDF. Acesso em: 11 maio 2019. 31 CHARTIER, Roger; LEBRUN, Jean. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Ed. da UNESP, 1998. p. 153. 32 O lançamento oficial do Portal de Periódicos remete ao final do ano de 2000. Contudo, as instituições de ensino superior começaram a estabelecer vínculo com essa plataforma entre os anos de 2001 a 2005. Conforme: http://www.periodicos. capes.gov.br/index.php?option=com_pcontent&view=pcontent&alias=historico. Acesso em: 23 maio 2019. 33 A Rede Cariniana surgiu da necessidade de se criar no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) uma rede de serviços de preservação digital de documentos eletrônicos brasileiros, com o objetivo de garantir seu acesso contínuo em longo prazo. O projeto de implantação da Rede foi elaborado baseando-se em uma infraestrutura descentralizada, utilizando recursos de computação distribuída. Uma rede de preservação digital distribuída precisa da participação das instituições detentoras desses documentos e de sua infraestrutura em um ambiente padronizado e de segurança que garanta o acesso permanente e o armazenamento monitorado dos documentos digitais. Com o apoio da FINEP, em janeiro de 2013, o Instituto aderiu ao Programa LOCKSS da Stanford University. A participação do Instituto em iniciativas como a do LOCKSS representa uma contribuição significativa para a informação científica no Brasil, que, por conseguinte, irá habilitar a preservação do conteúdo de publicações em redes internacionais de instituições participantes da Iniciativa LOCKSS. Inicialmente as atividades foram desenvolvidas em parceria com seis universidades brasileiras com o apoio de seus respectivos centros de informação e de informática. A Rede estruturou inicialmente o serviço de armazenamento dos periódicos eletrônicos das instituições parceiras do projeto, que utilizam a plataforma OJS/SEER. O serviço foi estendido a instituições com publicações de acesso livre. Foram incluídos cerca de 1000 títulos de periódicos. A etapa seguinte tem o objetivo de ampliar os serviços da Rede, incluindo a preservação de publicações eletrônicas no software DSpace, tais como livros, teses e dissertações em formato eletrônico. As atividades estão sendo orientadas à formação de recursos humanos e a facilitar a automatização dos processos de identificação, digitalização, armazenamento, validação e conversão para novos formatos digitais. O desenvolvimento de uma rede de serviços de preservação digital promove o compartilhamento de estudos e pesquisas, além da integração de conteúdos da memória institucional digital de forma consorciada e federada. Para obter mais informações, ver: http://cariniana.ibict.br/.

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II - Crônicas

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A Biblioteca do ontem, do hoje e do amanhã Ana Claudia Hafemann

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arcando gerações. Como estas duas palavras simbolizam um universo de sensações proporcionadas pela Biblioteca Universitária ao longo de seus 50 anos de existência? Quantas biografias, contos, crônicas e romances escritos nas entrelinhas? Cada aluno, professor e membro da comunidade da região do Vale do Itajaí ao ser entrevistado, certamente, poderia fornecer o seu relato pessoal de algum fato relacionado com a Universidade e com a própria Biblioteca, direta ou indiretamente. Justamente por estas instituições serem elementos de nossa história e participantes ativas do desenvolvimento regional, pois modificam o território no qual estão inseridas, marcaram e marcam gerações de uma forma imensurável, porém real. Durante os anos que compartilhei e ainda compartilharei com a Biblioteca, muitas vivências me vêm à 34

mente em doces lembranças pessoais. Entre elas, o otimismo inicial de uma graduação, o desespero quanto à incerteza de conseguir permanecer com o sonho vivo e o sentimento de dever cumprido ao final de uma jornada. Vivenciando, assim, cada uma destas etapas novamente, sempre que um novo desafio é aceito. Há, no entanto, um elemento fundamental que torna a Biblioteca algo muito além de um patrimônio material. Refiro-me aqui ao seu poder de lidar com a inquietude de quem lhe utiliza e o perturbador silêncio que envolve um anseio por novos conhecimentos e a solução de dúvidas, questionamentos e reflexões. Dos mais diversos teores, teorias e teóricos presentes em um ambiente tão acolhedor, esse se torna único e, igualmente, se completa no coração de cada frequentador que também poderia ser intitulado de sonhador e entusiasta de uma melhor sociedade a se viver.


Um instante entre estantes Glauber Pereira de Souza

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orge se impactou de imediato no momento em que a viu pela primeira vez, quando ambos, sem saber, buscavam pelo mesmo livro na estante 57 da Biblioteca da FURB. Sim, ela era linda, tinha um sorriso meigo e belos olhos verdes. Apesar de todo o conjunto da obra, a fixação ficou por conta dos olhos: não na cor que lembrava o mar caribenho, mas nos pés de galinha que estavam ressaltados. Fazia algum tempo que ele também havia notado em sua própria face aquelas linhazinhas ao lado dos olhos. Quando se olhava no espelho e sorria, eram visíveis as marcas de expressão. Em frente a sua imagem, entrando em devaneios quase borgeanos, refletia sobre conceitos como a existência e o tempo, até concluir, com certa melancolia, que lentamente seus anos de juventude estavam indo embora, ao passo que chegava à maturidade trazida pelas experiências vividas. Foi por isso que se encantou tanto pelos pés de galinha no rosto daquela mulher. Mesmo assim, por falta de coragem, não ousou dirigir-lhe a palavra. Preferiu manter-se calado e, por um momento, desejou ser cego apenas para não poder vê-la. No seu íntimo, porém, deliciou-se ao imaginar que aquelas rugas nos olhos dela nada mais eram que um código que servia para que os dois se identificassem na vastidão do universo, uma espécie de sinal secreto de cumplicidade, responsável por apontar que os dois estariam conectados em uma mesma vibração. Nesse encontro, completavam-se ao formar um casal de seres perdidos que se descobriam entre as paredes labirínticas da Biblioteca. 35


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A biblioteca e as palavras de Picasso Ana Paula de Oliveira

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oge-me à lembrança a primeira vez que adentrei na Biblioteca Universitária ‘Professor Martinho Cardoso da Veiga’. Sequer lembro minhas primeiras impressões desse lugar. E, nessas horas de esquecimento, recordo-me do quanto digo a mim mesma sobre a minha imensa vontade de ter todos os meus dias descritos sobre uma folha de papel. É revelador refazer um contexto que não permanece tão vivo em nossa mente, sabendo os lugares que se frequentava, as pessoas com as quais se convivia, as atividades que se praticava, o que se pensava e como se sentia estando com outra idade. A gente não dá conta de armazenar tudo. Somos hoje de uma forma tão única, como também já fomos de tantas formas e como, ainda, haveremos de ser. Todos os dias somos diferentes, por mais imperceptível que isso pareça. E é nisso que estive pensando ainda hoje, estando na Biblioteca Universitária. Constatei que a Biblioteca tem sido testemunha de várias fases da minha transformação de adolescente para adulta. Posso considerar a Biblioteca um lugar simbólico de encontro, de vários caminhos pelos quais passei sendo caloura, estagiária, professora, formanda, artista e servidora da FURB. Lembro-me de que, em agosto de 2011, quando iniciei meus estudos na Fundação Universidade Regional de Blumenau, ainda na segunda semana de aula, estive na Biblioteca, em uma das mesas do nível 3, descrevendo numa carta manuscrita como estava sendo minha rotina. Na época, estava me habituando com o clima universitário. E, em setembro daquele ano, ainda iniciaria no meu primeiro emprego, que foi o de estagiária no Arquivo Histórico da cidade. Estive sozinha e com colegas muitas outras vezes entre as estantes da Biblioteca consultando livros e periódicos para fazer os trabalhos da faculdade, como também, a partir de 2014, para preparar as minhas aulas, pois havia trocado de emprego e me tornado professora de Artes. Recordo-me de que uma das disciplinas que mais exigia pesquisa bibliográfica era a de História da Arte e que, em um dos trabalhos sobre o artista Pablo Picasso, me encantei e me inspirei com a frase “Minha maior esperança é que meu trabalho contribua para impedir outras guerras no futuro”.

Em 2016, eu e minha turma expusemos no Salão Angelim, onde tantas outras vezes ouvimos artistas expondo e falando sobre suas obras. Naquele mesmo ano, no decorrer de dois meses, passei minhas tardes na Biblioteca na construção do meu trabalho de conclusão de curso. O tempo passado lá e os livros foram significativos para me ajudar a entender como é a relação da deficiência visual com as Artes Visuais. Durante aqueles dias, de muito estudo e cansaço físico, psicológico e intelectual, eu costumava parar algumas vezes as leituras e a escrita para apreciar a oportunidade que a estrutura da Biblioteca dá aos seus frequentadores de contemplar a paisagem externa através de suas paredes de vidro. Estava tão ocupada durante aqueles meses que mal conseguia tomar um pouco de sol ou mesmo sentir a brisa no rosto. Por isso, eu gostava particularmente quando a luz do sol perpassava as vidraças e iluminava a mesa onde eu trabalhava, e também quando aparecia sobre a mesa a sombra das copas das árvores se mexendo por causa do vento. Nessas horas, eu costumava respirar fundo, ouvia alguma música clássica e deixava a mente relaxar. Depois que me formei, achei que ficaria um tempo longe da Universidade, porém, em janeiro de 2017, fui chamada para exercer o cargo de Auxiliar de Biblioteca através do concurso que havia prestado em 2013. Decidi aceitar a vaga e, na primeira semana de trabalho, ao guardar livros nas estantes, deparei-me com um livro cujo nome do autor não me pareceu estranho. Reconheci o autor do livro, pois o havia atendido inúmeras vezes, na época em que trabalhei no Arquivo Histórico da cidade, na pesquisa sobre a Estrada de Ferro Santa Catarina. E, ao folhear o livro, defrontei-me com meu nome. Fiquei muito surpresa, lisonjeada e orgulhosa pelo meu trabalho enquanto estagiária. E esse foi um dos momentos reveladores, no qual eu pude perceber a importância de se trabalhar com um acervo e com o atendimento ao público, o quanto o meu trabalho poderia colaborar em uma pesquisa. Esse pode ser um exemplo simples, mas o quão significativo é ser a ponte de acesso entre a informação e as pessoas? E quanto uma biblioteca tem a oferecer? São possibilidades infinitas... Diria, inclusive, que é possível uma biblioteca ajudar a evitar guerras futuras! 37


A boa ação do dia Edson Roberto Scharf

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ra uma segunda-feira dessas, das comuns, sem sobressalto, sem queda de time para a série B, sem trovoada. Na Biblioteca Central, poucos interessados no pensamento de Wittgenstein ou de Skinner. Perto da janela que dá vista para o estacionamento dos professores, acomodado sozinho na mesa, com livros que fui tomando conforme passava pelas prateleiras, me sinto à vontade, antevendo o prazer de observar o mundo com os olhos de outros. Mas algo me incomoda. Apesar de estar no ambiente de que mais gosto na Universidade, rodeado de sujeitos mais inteligentes do que eu, próximo a pessoas mais cultas do que eu, com a chance de conversar com indivíduos muito mais interessantes do que eu, e todos à distância de um braço, me sinto torturado. Uma sensação que mistura desconforto com vergonha, que mescla ansiedade com imprudência. Diante de tão geniais velhos conhecidos, tal condição me tira o prumo. Olhos me fitam. Vozes me perseguem. Ideias me confundem. Não consigo me mover sem estarem por perto. Tento ficar longe deles, mas estão no meu encalço. Cada vez mais perto, já quase não consigo respirar sem tê-los colados a mim. Só percebi o cerco total quando me flagrei dando mais atenção a eles do que àquilo que me fez sair de casa: dialogar com os personagens dos livros novos e velhos da Biblioteca Central. Decido enfrentar essa situação. Não posso continuar. Alheio às culpas que, por certo, estarão presentes, resolvo acabar com esse tormento. Um assassino acorda. 38

É preciso agir a sangue-frio, esquecer o que se fez de bom até hoje. Tomar uma decisão como essa faz com que a gente mude de lado. Sim! Um fora-da-lei, um sujeito que se marginaliza, alguém que não recebe mais do que um olhar indulgente de outras pessoas. Mais fácil seria fazer parte da história de Bressane, matando a família e indo ao cinema, só uma história, sem consequências. Mas é preciso agir. Mesmo diante de todas as prováveis reprovações sobre mim, não posso mais tolerar essa situação. É agora. Aproveito enquanto ainda tenho um fio de coragem e me dirijo ao local em que eliminarei quem me incomoda. É preciso agir. Chego ao guarda-volumes. É o local determinado por mim. É onde me transformo em algoz. Aqui, encontro o meu destino. Nem a beleza da exposição em frente me distrai. Não é fácil. Não estou acostumado a isso. Nunca tive experiência em tão agressiva iniciativa, nem mesmo em minhas leituras. Difícil agir. Os dedos travam. A mente reluta. A respiração se altera. Vou agir. Sem olhar para trás nem me sentir culpado por magoar muitas pessoas. Feito. Apesar das prováveis reclamações, uma boa ação. Desligar o celular e guardar o corpo dentro da mochila, longe de mim, escondido, me arranca da sociedade, mas me devolve ao mundo. Com sentimento de alívio, sem vozes ou olhares dirigidos a mim, volto aos meus ainda amigos: Ariano, Dalton, Guimarães, João Ubaldo, Nelson e Reinaldo. Eles não me condenam nem por um segundo. Crime passional. Entenderam necessário o agir.


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Biblioteca Neida Rocha

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espírito dos escritores vagueia há mais de cinquenta anos, pelos corredores da Biblioteca Universitária Prof. Martinho Cardoso da Veiga. Entre livros e letras, procuram ouvidos e olhos atentos aos seus clamores. Libertam suas almas aprisionadas nas páginas amarelas do esquecimento. Os textos gritantes buscam eco e prendem-se ao teto, aguardando leitores sensíveis e sedentos, para ganharem asas e seguir eternamente no coração dos frequentadores daquele santuário. Nos corredores, os escritores consagrados se cruzam com outros ilustres desconhecidos, que juntando suas economias realizaram seus sonhos de publicar um livro. No silêncio da noite, enquanto aguardam o raiar do sol e a invasão da multidão, os literatos despertam e ganham vida, confabulando entre si sobre a movimentação dos pesquisadores e leitores. Em sonhos, me junto àquela procissão no sagrado e inviolável recôndito, sede dos nobres e que tratam a todos de igual para igual. Minha alma entra em êxtase, pois identifico alguns exemplares escondidos nas prateleiras com meu nome em suas lombadas. Espero que com o passar dos anos e no plano espiritual, meu espírito também vagueie junto ao público leitor, esperando ser tocado por mãos curiosas e que meu nome não caia no esquecimento.

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Hoje de manhã Daiane Guczak

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o entrar na biblioteca, hoje pela manhã e mais uma vez na correria do dia a dia, não me dei conta da grandeza desse lugar... de poder apanhar um livro para ler pelo simples prazer de ler ou de pegar aquele livro para poder realizar uma pesquisa da faculdade. Não se trata apenas de um ato rotineiro, mas de uma relação biunívoca, de um elo complexo e único que vem se entrelaçando ao longo desses cinquenta anos. Essa relação conecta você, eu e toda a família FURB, alunos, ex-alunos e regressos. Trata-se, portanto, de um ato rotineiro que se transformou em condição sine qua non, sendo impossível imaginar as inúmeras trajetórias acadêmicas “sem esse lugar” que atende pelo singelo nome de “Biblioteca”. Recordo-me de que em uma viagem, ao caminhar em frente à biblioteca pública de Vancouver, eu li a seguinte frase “The words don’t fit the picture”. No momento em que eu a li, não dei muita importância, não pude compreender o seu significado, mas hoje parando para refletir, entendi o seu verdadeiro sentido. Traduzindo para o português, seria como dizer “Que as palavras não se encaixam na imagem”. Seja aqui, em Blumenau ou lá no hemisfério norte do mundo, não há como mensurar a grandeza das palavras, todo o conhecimento que encontramos nos livros... Ah! Livros... O que seria de nós sem vocês? Logo, como mensurar a grandeza desse lugar chamado “Biblioteca”? Embora pudéssemos reunir todos os registros e fotos, seria impossível citar toda sua grandeza. Afinal, o seu maior patrimônio está nas lembranças daqueles que ali já passaram, está em cada palavra que encontramos nos livros, o que torna este lugar ainda mais especial. Já se passaram cinquenta anos de história, e quanta história, não é mesmo? Muita coisa mudou, porém muita coisa continua igual, como aquele velho ato rotineiro... E você? Já passou na Biblioteca hoje? Gosto de pensar que, embora estejamos vivendo na era digital, nem tudo pode ser substituído... Como esse lugar que atende pelo seu singelo nome de “Biblioteca”, que espero que nunca perca a sua verdadeira essência. E que venham mais cinquenta anos de histórias para contar! 41


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Ela me legitimou Urda Alice Klueger

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em no começo, lá pelos três anos, eu queria ser cantora de rádio. Vivia ensaiando para estar preparada para quando chegasse a minha vez, cantando trepada num cavalete onde meu pai serrava lenha, à guisa de palco. Desejo efêmero, no entanto. A partir da altura em que fui alfabetizada já veio, junto com a leitura, o desejo de ser escritora, que nunca mais foi embora. Aí no meio desejei ser astronauta também, durante a corrida espacial, mas esqueci completamente o assunto a partir do Ginásio e das aulas de História da Professora Tereza Paiva Ribeiro: eu seria arqueóloga!!! Não dava, no entanto, e o Padre Sílvio Tronn, da Paróquia Nossa Senhora da Glória, tirou isso da minha cabeça na adolescência. Quando se quer ser arqueóloga e não dá, automaticamente, a gente passa a desejar estudar História. Demorou um pouco, entretanto, para realizar tal sonho. Enquanto a vida passava célere, eu a ordenava para conseguir exercer o meu ofício de escritora juntamente com um emprego de bancária, coisa que tomava a maior parte do meu tempo, mas mesmo assim os livros foram pingando na minha emoção e nas prateleiras das bibliotecas. Um, dois, três... começaram a surgir os convites para palestras em escolas e outros lugares, e eu passei a andar por aí e espiar as bibliotecas das escolas e das cidades. O coração disparando quando encontrava meus livros nas prateleiras. Escrevia romances históricos, claro – nascera para essas coisas de História –, não havia como fugir ao meu destino! Para escrevê-los, pesquisava um bocado

para aprender mais, pesquisava nas mais diversas fontes e penso que as principais sempre foram os livros de História. Até que chegou o dia em que senti que era mister fazer, de uma vez por todas, esse curso que me aprimoraria. Fi-lo um pouco tardiamente, mas mesmo agora, vinte anos depois, sei da importância dele na minha vida. Foi na FURB. Já nos primeiros dias andava frequentando a Biblioteca e aprendendo a usar a informatização dela, coisa bastante nova no mundo de então, tecnologia de ponta. E é claro que comecei por espiar os meus livros. Foi botar o meu nome e veio a lista deles numa tela de computador. Creio que, nessa altura, já passavam de uma dezena, e como sempre vira por aí, estavam catalogados como Literatura Catarinense, mas... o que era aquilo no meio dos outros? Tinha um lá catalogado como História de Santa Catarina!!! Como, onde, por quê? Tratava-se de um livro que eu escrevera sobre a grande enchente de 1983, com personagens de verdade e tendo como cenário a minha própria casa. O nome dele era Vem, vamos remar. Claro que corri para a prateleira onde ele estava para ver se não era equívoco, mas não era. O título da prateleira era mesmo a de História de Santa Catarina, e o meu livro estava lá! Foi ali, diante daquela prateleira da Biblioteca Universitária Professor Martinho Cardoso da Veiga, que eu me senti legitimada pelos meus caros sonhos: os da História. Mesmo agora, tanto tempo depois, posso lembrar perfeitamente da emoção e dos pulos do coração naquele momento! Viver valia a pena!

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Entre livros e cavalo(s) Darlan Jevaer Schmitt

— Chefe, tu tens reunião agora! — Reunião? Mais uma!? Três semanas desde que tinha dito “sim” para o convite feito pelo Reitor para ser o Diretor da Biblioteca Universitária Professor Martinho Cardoso da Veiga e essa deveria ser minha centésima reunião. Algumas produtivas, outras nem tanto (com o tempo, descobri que sempre seria assim). Mas essa tinha tudo para ser diferente. Quem queria falar comigo era uma equipe de produtores de cinema, que estavam interessados em gravar um curta metragem no interior da Biblioteca Central. Recebi-os em uma manhã de inverno. Dois colegas de trabalho me acompanharam na reunião. Diretor e Produtor me explicaram a ideia do curta: ele seria baseado em um conto de Lindolf Bell, poeta Timboense, que tinha como pano de fundo uma biblioteca universitária. O conto se chamava “O GuardaNoturno” (que, aliás, bem depois li e constatei a beleza do texto). O filme se chamaria Dicionário. Conversa vai e conversa vem, o projeto foi apresentado. Em certo momento da conversa, o Diretor diz que teriam duas situações mais complexas para as filmagens. E começa explicando: — Em um dos momentos, o personagem do Guarda-Noturno vê uma revoada de insetos e isso precisaria acontecer com insetos vivos! — Certo! E a outra situação? — Em outra cena, o personagem cochila e, quando acorda, vê um cavalo entre as estantes dos livros. — Um cavalo? — pergunta um dos colegas da Biblioteca que estavam comigo. — Sim, mas entendemos se não for possível. Pensamos em trazer o animal para dentro da Biblioteca e fazer a cena. Mas podemos procurar outra biblioteca. Com a Biblioteca da FURB, já é a quarta negativa que levamos. — Complicado — disse eu. E continuei: — Tem um detalhe nos seus pedidos. 44

— Sim, o cavalo. Imaginamos. Vamos procurar outro lugar. — Não, o problema são os insetos! Vocês imaginam que podem afetar os livros e aí teremos que gastar muito com dedetização do acervo. Não tem como repensar essa cena? Uma sala atônita me olhava com espanto e surpresa. Até que o Produtor me pergunta: — E o Cavalo? — Não vejo problemas. A Biblioteca é grande e espaçosa. Mas precisamos ter alguns cuidados. E os insetos? Diretor e Produtor sorriam de felicidade. Senti que os insetos não seriam mais o problema. Acertamos que filmagens aconteceriam na Biblioteca Central durante as madrugadas. Agendamos para setembro daquele ano de 2011. No dia previsto, acompanhei toda a gravação, junto com a produção do filme e com dois fiéis colegas da Biblioteca Universitária. Naquele dia 22, Kandara (com K, conforme disse seu tratador), linda égua (não mais um cavalo como a informação original que tínhamos em julho, mas ainda assim nominando essa crônica) branca do Batalhão da Polícia Militar do Estado de Santa Catariana, vinda da Capital do Estado, adentrou ao prédio da Biblioteca Central às 23h53min, ficando dentro do prédio para as gravações até às, aproximadamente, 2h, já no dia 23. Kandara foi educadíssima e de um profissionalismo incrível. — Ela está acostumada com toda essa situação — disse-me o seu responsável. Kandara entrou e saiu marcando essa Biblioteca. Depois dela, durante alguns anos, quando via qualquer desafio, eu me lembrava daquele dia. Kandara me ensinou que tudo, se bem planejado, era possível. Inclusive colocar uma égua dentro de uma Biblioteca. Dicionário foi lançado no ano seguinte e conquistou vários prêmios! Já os insetos, estes foram gerados por computação gráfica.


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Entre os livros da biblioteca Fabrício Bittencourt

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igo uma rotina quase inabalável. Acordo cedo, tomo um banho, como algo e saio correndo para pegar o ônibus até o meu emprego. No caminho, na medida do possível, leio. Ao chegar ao meu destino, meu local de trabalho, subo a escadaria da entrada, atravesso a catraca, cumprimento o vigilante e quem mais encontrar e subo a escadaria interna. Setenta e dois degraus separam o primeiro andar do terceiro. E, quando não estou com preguiça, faço questão de por aí subir. Quando o marasmo me domina, utilizo o elevador. Ao chegar à minha mesa, a primeira coisa que faço é sempre olhar em volta. E o que sempre observo são os livros ao redor. Aliás, no prédio em que trabalho, o que mais existe são livros. Mas isso não é algo que me incomoda, ao contrário, é uma característica que me satisfaz. Até porque, já faz um bom tempo que tomei o gosto pela leitura. Pois descobri o quanto livros podem ser simpáticos e interessantes. E também o quanto eles são capazes de me fazer esquecer de todo o resto — da burocracia enfadonha do trabalho administrativo, dos impostos do governo, do barulho dos carros na rua. Tudo em favor das imagens, fantasias ou mesmo conceitos contidos em cada um deles. Tanto que graças ao arrebatamento que causam, passei a admirar esses indivíduos simpáticos denominados livros, muitos dos quais mais honrados do que os olhos que acabam, por vezes, os lendo. Uma vez que, para os leitores que os tomam em suas mãos, os livros sempre estão dispostos a se doarem em conhecimento e cultura em troca de uma estante onde possam repousar, entre um leitor e outro, com dignidade. Sempre reflito sobre esse último ponto. Penso que, se as estantes são os locais de retiro dos livros, existem muitas outras estantes em que eles podem estar. Desde as estantes de livrarias e de sebos até as das casas das mais variadas pessoas. Todavia, acredito que as mais interessantes são as das bibliotecas. Posto que, na casa de um

bom leitor — aquele que troca uma noite de sono por mais um capítulo de um livro —, depois de lida, a obra, invariavelmente, acaba em uma estante, apesar de poder ser emprestada, quem sabe dada, ou até trocada. Já em uma biblioteca, os livros não somente repousam, como são, por vezes, chamados várias vezes mais para cumprirem com sua jornada, o destino de toda obra de apresentar e reapresentar ideias a diversos leitores, seja por meio de uma narrativa literária ou, quem sabe, teórica, ano após ano, mãos após mãos. Por isso, muito mais do que me restringir aos livros da sala onde me ocupo no meu trabalho — e que não são poucos —, às vezes desço com calma as escadarias desse prédio, uma Biblioteca, ou melhor, como toda Biblioteca, simples ou grandiosa, um templo da Cultura. Pois andar após andar vejo livros lado a lado. A maior parte de formato retangular, mas de tamanhos, capas, pesos e conteúdos distintos — ou seja, cheios de diferenças entre eles, mas diferenças os quais me mostram estes livros como sendo necessárias. E por quê? Pela lição que me passam de que é dos embates entre mais variados conhecimentos que se vislumbra a possibilidade de se chegar a um verdadeiro saber. De vez em quando, muito mais do que simplesmente fuçar pelas variadas estantes que existem por ali, me atrevo a pegar emprestado alguma ou algumas obras. Pois são tantas! Acabo sempre ficando surpreso com os livros mais velhos, pois alguns deles são bondosos coroas e me transmitem serenidade e uma significativa dose de calma. Cheguei, já faz tempo, à conclusão de que eles não se importam de envelhecer na medida do tempo. Claro, desde que sejam lidos e que seus conhecimentos tornem outras pessoas mais lúcidas e menos caretas. Afinal, toda vez que caminho através das estantes dessa Biblioteca, é como se os livros que ali existem sempre me sussurrassem aos ouvidos: — Leia-nos! Ou volte para a caverna. 47


Imortalidade Regiane Patrícia de Souza Stuepp

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e vez em quando, talvez dia sim dia não, a Dona Íria dava umas batidinhas de leve na porta da sala de aula e um aluno era levado para algum lugar. Era um mistério que a encucava. Sabia que chegaria seu dia e não fazia ideia do que a esperava. As lembranças ainda são nítidas em sua memória. Era um texto sobre a formiguinha impresso em um formato grande, apoiado num cavalete com algumas ilustrações. Leu. Todinho. Sem gaguejar. Como prêmio foi levada a um sótão com um lustroso assoalho de madeira escura com muitos livros, tantos para o fundo do cômodo e para o alto das estantes que ela não conseguia alcançar até onde estavam dispostos. Fizeram uma ficha onde constava seu nome e outros dados e a partir daquele dia, poderia escolher o livro que quisesse para levar para casa e ler, desvendar e descobrir. Teria que cuidar muito bem dele e devolvê-lo no dia marcado. Essa sensível introdução ao mundo das letras plantou nela verdadeiro amor e respeito pelo universo do conhecimento. Com o passar dos anos aquele lugar que antes era enorme começou a se tornar limitado. Todos os títulos da Coleção Vagalume já haviam sido lidos. A troca de informações com outros sobre as histórias começou quando ela já contava uns dez anos. Antes disso, sua busca era solitária, autorreflexiva e contemplativa. Em seu quarto colecionava histórias, informações e sonhos. Então chegou o dia de buscar outros espaços, com novas leituras, possibilidades que ampliassem seu universo para trilhar caminhos desconhecidos. Novos mistérios para mergulhar. Entrou com deslumbramento. Era um espaço quase sagrado, que parecia abrigar quase todas as respostas do mundo. 48

Vários móveis de metal com pequenas gavetas eram o portal de acesso a qualquer lugar. Pequenas fichas em formato retangular guardavam um código com o qual era possível encontrar grandes e pequenos tesouros. Enciclopédias ricamente ilustradas. Edições de bolso com assuntos desconhecidos e fascinantes. Foi fácil conquistar companheiros que quisessem também desbravar esse incrível novo mundo, para o qual crianças eram pouco atraídas. Era um ambiente de pessoas grandes. Grandes de altura e de propósito. Estar entre eles foi uma experiência engrandecedora! Poucos anos depois teve sua primeira experiência profissional. Numa livraria. Livros novos, com um cheirinho característico. Muitos. Iguaizinhos. Conheceu de tudo um pouco. Principalmente das pessoas. Mais tarde mudou de trabalho. Para outra livraria. Essa atendia universitários. Compêndios técnicos, manuais, achados já amarelados de tanto tempo esquecidos ali na prateleira inferior no fundo da loja. Não era coincidência. Talvez alguns chamem de destino, outros de sorte. Vinte anos de dedicação. O lugar dos armários cinza e as gavetinhas deram lugar a computadores. Muitos aspectos do templo que parecia gigante mudaram. Mas vários também continuam ali, preservados naquele lugar que agora é apenas um dos espaços do gigante que chama de lar boa parte de seu dia. Talvez os amigos de papel não tenham a agilidade que a rede oferece hoje em dia, mas é neles que ela confia. É neles que encontra registrados o que mais precisa, o que foi construído com alma e calma. E jamais morrerá.


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Livros, pessoas e o tempo Cláudia Fernanda Iten

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ivros sempre foram meu forte, mas a minha relação com a Biblioteca começou quando eu tinha 18 anos. À época, ela já contava com 30 anos e neste ano completa 50 anos de existência. Lá, em 1998, foi a primeira vez que fui à Biblioteca Universitária ‘Professor Martinho Cardoso da Veiga’. Naquele ano, eu começava a frequentar um curso universitário na FURB, local onde ela está localizada. A Biblioteca leva este nome em homenagem ao seu percussor que no dia 28 de abril de 1968 montou a Biblioteca Universitária com seu próprio acervo. Para quem não conheceu o Professor Martinho, assim como eu, pode-se apreciar uma escultura do seu busto, exposta em frente à Biblioteca Universitária que leva seu nome. Desde 1998, até a conclusão da minha graduação, frequentava a Universidade e, automaticamente, frequentava a Biblioteca. Ficava deslumbrada com a arquitetura e mais ainda com a grandeza, de extensão e especialmente de títulos. Não tinha como chegar à Universidade e não entrar no lugar mais rico e diversificado de ensinamentos que lá vive, no lugar mais democrático lá existente. En-

contrava-me com pessoas de todas as idades, culturas, raças, línguas e credos. Todas lá eram leitores, tão somente leitores, pois os protagonistas são os livros, cheios de cores, riquezas de conteúdo, curiosidades. Dentre um corredor e outro, estantes compõem os seus 8.000 m² de espaço físico. Nelas, uma grande diversidade de biografias, dados e informações, uma quantidade imensurável de obras que estava longe de alcançar à minha curiosidade. Eu ia, então, à descoberta. O silêncio que lá existe era como um som ao mesmo tempo relaxante e estimulante. Silêncio que dá vida as histórias escritas em cada obra daquela estante. O tempo lá dentro passava depressa, voava, e eu sentia que um pedaço de mim ficava em cada minuto que lá passava. Li intermináveis capas. Folheei diversos livros. Algumas vezes escolhia o livro; em outras, era escolhida por ele. Fiz várias viagens literárias, para todo canto do mundo. Estudei, aprendi, vivi e vivo com a lembrança desse tempo que sei que pode ser repetido, pois o tempo não é mais o mesmo, mas os livros, as pessoas e o silêncio permanecem lá à minha espera. 51


O coração da FURB Valéria Contrucci de Oliveira Mailer

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esta manhã de domingo leio novamente no site da Universidade sobre a Comemoração dos 50 Anos da Biblioteca com a publicação de um livro de crônicas. Dessa vez não pude resistir e escrevo o que penso ser uma crônica para marcar um espaço que entre muitos da Universidade representa seu coração, bombeando sangue para todos os blocos, para todas as salas de aula, para todos os laboratórios, para todos os espaços de discussão de ideias. Invoco a habilidade de escrita dos grandes cronistas brasileiros que lia quando jovem com muito prazer. Entre eles Lourenço Diaféria dos bons anos da Folha de São Paulo, cuja habilidade para escrever sobre algum fato político, social, cultural ou mesmo algo de seu cotidiano pessoal, invejava. Era fera! Contando com essas bênçãos, intento aqui deixar um texto que represente meu sentimento por esse espaço que já faz parte da minha história na FURB. Tenho uma relação muito próxima com ela, não só pelos livros, mas também pelas pessoas que lá trabalham. Preciso confessar que sou uma livrólatra assumida. Já tentei várias vezes me livrar do vício, mas, em vão. Sempre tenho recaída! E o pior, transmiti a doença aos herdeiros: Lembro-me perfeitamente de uma ocasião em que levei meu filho ainda pequeno à Biblioteca e ele admirado exclamou: — Mãe, essa Biblioteca não pode ser só de vocês da FURB! Ela tem que ser aberta ao público! Todo mundo precisa ver o que tem aqui. 52

E de fato, a nossa Biblioteca é um patrimônio da comunidade de Blumenau e entorno. Ali estão à espera do leitor obras das mais variadas áreas do conhecimento. Em tempo de internet e texto eletrônico, poderia se pensar que ela ficaria obsoleta. Mas, ao contrário, ela continua a nos atrair para um outro mundo de sonhos e conhecimento. Quem se deixa seduzir por ela vivencia as mais fortes emoções – como o diálogo com autores nacionais e estrangeiros, filósofos, sociólogos, linguistas, antropólogos, biólogos, médicos, economistas, literatos e outros. Diálogos intensos e por vezes conflituosos, como se queixam nossos estudantes, contudo sempre profundos, ideológicos, formadores de opinião, modeladores de ideias, criadores e inventivos. Além dos livros, há os espaços de leitura e as oficinas com discussão de uma determinada obra – que, por falta de tempo, participei somente uma ou duas vezes –, os filmes no espaço de cinema, o Salão Angelim com exposições e apresentações culturais, ou seja, um mundo de experimentações a parte dentro da Universidade. Também as pessoas que ali trabalham contribuem para alimentar este organismo vivo, pulsante, cheio de energia. Somos totalmente dependentes dele, um vício consciente e seguro, sem o qual a Universidade seria somente fachada.


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Perfeita imitação de uma mente divina em escala comunitária Ivo Marcos Theis

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á conhecia a “antiga” Biblioteca Municipal. Apenas em 1986 foi inaugurada a que existe até hoje. Quase sempre para tomar algum livro emprestado, visitava a “antiga” com certa frequência. A curiosidade por um ou outro título era despertada ou por professores ou por conhecidos. Às vezes, por uma resenha. Enfim, os livros já mexiam comigo. E já sabia algo a respeito da importância de bibliotecas – embora conhecesse somente uma. Mas, haveria de conhecer outra. Era, naquele longínquo ano de 1979, estudante do terceiro matutino do “Científico” do Pedro II. Para fazermos uma “pesquisa”, minhas colegas Ana Cristina Gonçalves, Anizete Wackernagel, Margareth Rose Tomelin e Sílvia Cubas de Almeida me convenceram de que deveríamos consultar os livros da Biblioteca da FURB. No dia e hora marcados, encontramonos na entrada principal, à Rua Antônio da Veiga. Recordo-me bem de que, à medida que subia os degraus da escadaria, naquela agradável noite de inverno, aumentava o frio na espinha. E, então, alcançamos a Biblioteca. Ela se encontrava, à época, no segundo piso do Bloco A (e, se a memória não me falha, se estendendo até o Bloco Z). Portanto, onde, posteriormente, se localizariam o Gabinete da Reitoria, a Sala dos Conselhos e as dependências da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação. Adentramos 54

aquele salão repleto de prateleiras de livros, muitos livros. E, então, chegamos às fontes que serviriam para escrevermos as nossas tarefas. Ali tivemos que consultar as fichas de identificação, que indicavam a localização exata do livro procurado, guardadas em incontáveis gavetas de numerosos arquivos de aço verde escuro. A partir do ano seguinte, já acadêmico de Ciências Econômicas, passaria a me mover com mais desenvoltura pelos estreitos corredores entre as estantes da Biblioteca – que, por um bom tempo ainda, permaneceria no segundo andar do bloco A. Foi um período de muitas “descobertas”. Uma delas foi a da obra de Celso Furtado; outra, a de Nicholas Georgescu-Roegen. Exceto Nardim Lemke, nenhum outro professor mencionaria Furtado nas aulas. Passei a ler todos os livros do economista paraibano então disponíveis. Quanto a Georgescu-Roegen, encontrei, por acaso, uma referência a ele em um boletim, publicado pela ACAPRENA, cuidadosamente disposto na ainda modesta seção de periódicos. É pouco provável que seu importante The entropy law and the economic process já se encontrasse, naquele início dos anos 1980, nas estantes de economia da Biblioteca da FURB. No entanto, ambas as referências – Celso Furtado e Nicholas Georgescu-Roegen – não apenas acabariam sendo cruciais para a


minha formação, como continuariam tendo considerável importância para o meu trabalho posterior. Terminada a Graduação, logo iniciei meu Mestrado junto à Universidade Federal de Santa Catarina. Aí conheceria uma terceira biblioteca, a famosa BU. Era a maior em termos de títulos, mas também a mais caótica em termos de organização. Visitava-a quase diariamente, dada a necessidade de fazer fichamentos e tomar notas. Os trabalhos que entregava aos professores, devidamente datilografados, continham muito do que descobria, lia e resenhava na BU. No início de 1986, coincidentemente, quando ingressava na FURB como professor, seria inaugurada a bela edificação, projetada por Stenio Ubirajara Calsado Vieira, na qual, finalmente, seria instalada a Biblioteca “Professor Martinho Cardoso da Veiga”. Os livros deixariam de ocupar uma sala da Universidade para, então, repousarem, com a dignidade merecida, em sua própria casa. As suas instalações incluíam, desde o início, não apenas espaços adequados para a disposição dos livros e sua leitura, mas ambientes que apenas uma visita não apressada poderia revelar. Sem lugar à dúvida, a Biblioteca da FURB acabaria por tornar-se uma valiosa referência cultural local e regional.

O fato de ter abraçado a profissão de professor universitário permitiu-me conhecer inúmeras outras Bibliotecas. Entre tantas, a da Universität Tübingen, na Alemanha – onde faria meu Doutorado a partir de 1992 –, que ocupa um lugar de destaque em minha memória. O seu tamanho pode ser aquilatado pelo singelo fato de que o pedido de empréstimo de um livro tinha que ser feito em um dia para se poder retirá-lo no dia seguinte. Contudo, as visitas à biblioteca central da Uni Tübingen eram menos frequentes, já que intercaladas com passagens constantes por algumas boas bibliotecas setoriais, mais especializadas. Os livros continuam mexendo comigo. E hoje sei um pouquinho mais a respeito da relevância de bibliotecas – até tenho uma pequenina só minha. Talvez uma biblioteca seja mesmo, como afirmou Umberto Eco, em 2003, durante palestra na Biblioteca de Alexandria, no Egito, “a melhor imitação possível, por meios humanos, de uma mente divina”. Locus do conhecimento humano, que permite “reaver o que esquecemos” e descobrir “o que ainda não sabemos”, não é a Biblioteca Universitária, já em seu primeiro cinquentenário, a perfeita imitação de uma mente divina em escala comunitária? 55


Tempos idos Helena Maria de Oliveira Marçal

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ra inverno na cidade. E eu, nascida e criada na capital paulista, achava que em todo o sul nevava e fazia um frio digno de hemisfério norte. Tal qual não foi minha surpresa, quando ao mudar-me para um apartamento mobiliado na rua Antônio da Veiga, vejo um dos julhos mais chuvosos da minha existência. Em minhas primeiras andanças pelos arredores, fui informada da existência de uma Universidade nas cercanias, um local abrigado da chuva e com ar-condicionado. Imaginei festas, música alta, barulho de todas as formas e ordens. Novamente, confesso, fui surpreendida. Movida pela curiosidade e pela ânsia do conhecimento, adentrei os portões da Universidade, e logo fui notificada de uma das principais referências: a Biblioteca, – pois todos os locais ficavam acima ou abaixo dela. Acostumada a ter como referência a padaria mais próxima, quis verificar com meus próprios olhos a edificação. Pensei tratar-se de um prédio pequeno, acondicionado entre os primeiros prédios da Universidade, antigo, com goteiras, livros velhos e empoeirados. 56

Fui surpreendida mais uma vez, como frequentemente aconteceu-me nesses três anos da cidade. Deparei-me com um edifício novo, moderno, grande e muito bem organizado. Confesso que nas primeiras semanas não entrei em seus domínios, contive meus ânimos de leitora voraz e contentei-me com um vislumbre a distância. Meus anseios tiveram rápida resolução quando em três semanas fui convidada por amigas a ir estudar na Biblioteca. A sensação foi como a de uma criança em um novo parque. Subi e desci por suas escadas, flutuei pelos corredores, percorrendo as lombadas dos livros com as pontas dos dedos. Até esqueci quem tinha ido encontrar. O que posso dizer com segurança é: a Biblioteca pode ter agora a idade de uma senhora respeitável, como descobri recentemente, mas para mim, uma paulista que pouco conhecia da cidade, ela tornou-se uma amiga querida. A referência segura, aquela a quem se procura quando a saudade de tempos idos bate à porta.


Três anos em um mundo paralelo no universo da biblioteca Valeska Cristina Barbosa

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ejam só, o que nos aprontam! Por três anos seguidos minha mãe por motivo de segurança e falta de uma cuidadora me deixava na Biblioteca enquanto estudava. Ficava eu ali naquele espaço tão alto que, nos primeiros dias, sentada no chão, olhava pra cima e ficava me imaginando voar naquele espaço, fugindo dos guardas, tomando os livros das mãos das pessoas e derrubando todas as prateleiras com minhas enormes asas. Podia até ouvir o barulho dos livros caindo e as meninas, como loucas, juntando todos os livros, nossa, era até divertido! Depois de não ter mais nenhuma prateleira para imaginar derrubando – porque me imaginei derrubando da sessão de biologia até a de matemática –, passei a dormir nas mesas. E nossa, como dormia! Algumas mesas ficavam extremamente limpas com a minha pasta de baba ultralimpante. As mesas nunca foram tão bem limpas. Os dias foram passando e nem todo dia tinha tanto sono, nem queria que o dia passasse mais rápido para encontrar minha mãe. O que fazer então? Passei logo a explorar os livros. Pensei em encontrar no meio de todos aqueles livros um mapa secreto para um tesouro perdido. Entre um e outro, nada mais encontrei que pequenas e repetidas palavras. Dediqueime a observar as capas e as belas paisagens me conquistaram. A capa vinha com uma pergunta que queria a resposta. Devorei o livro em busca da resposta e, assim, li toda a coleção. Mas não era uma leitura, era uma viagem. Não estava mais presa a esperar minha mãe. Parti em tantas aventuras que ela nem tem noção. Voei, viajei, chorei, perdi-me, revoltei-me, amei, sonhei... Passei três anos em um mundo paralelo no universo da Biblioteca. 57


Um importante membro da BU Gelci Rostirolla

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asci, ou melhor, fui lançado, em 16 de agosto de 2007, às 19h, já virtual. Sou o primeiro de Santa Catarina, do tipo “piloto”. Com apenas três anos de idade, já contava com 10 companheiros. Amo todos incondicionalmente. Não consigo viver sem eles! Lutei para aprender a engatinhar e andar, mas quando engrenei, fiz muitas parcerias. Fui muito bem recebido pela comunidade científica, local, nacional e internacional. Tive apoio das diferentes instituições e especialistas, que me ajudaram nas horas difíceis e que comemoraram nos momentos de louvores e vitórias. Tive incentivos de renomados intelectuais do mundo científico para continuar a caminhada quando ainda estava aprendendo a andar com minhas próprias pernas. Caí e levantei muitas vezes. Errei e acertei outras tantas, mas continuei firme. A comunidade científica agradece pela minha existência e conta comigo para disponibilizar e levar gratuitamente à sociedade os resultados das pesquisas e da ciência produzida no Brasil e exterior. Sou muito prestativo e tento ajudar tanto os editores iniciantes, como também, os editores consagrados junto à comunidade científica. Sou o suporte técnico dos editores das revistas científicas da FURB. Incentivo a indexação das revistas e a internacionalização. Defendo o acesso aberto e o acesso livre. Colaboro com a produção e com a comunicação científica. Não vivo sem os editores científicos, sem os autores, sem os leitores e sem os bibliotecários. Não vivo sem o suporte técnico, sem recursos humanos, estruturais e financeiros. Não vivo sem aprendizagem e sem atualização. E preciso de um gestor que coordene todo esse processo. Vivo falando sobre o Public Knowledge Project (PKP), sobre o Open Journal Systems (OJS) e os seus primos, o Open Conference Systems (OCS) e o Open Monograph Press (OMP). 58

Vivo falando sobre o Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER), sobre o fluxo editorial, sobre o Digital Object Identifier (DOI), sobre a identidade do artigo científico, sobre o Crossref, sobre metadados, sobre o Open Researcher and Contributor ID (ORCID), sobre a identidade do autor, sobre o Lots of Copies Keeps Stuff Safe (LOCKSS), sobre a preservação digital, sobre as Licenças Creative Commons, sobre os direitos autorais e sobre preprint. Vivo falando sobre gestão de boas práticas, sobre plágio e detector de plágio, sobre embargo de artigos científicos, sobre migração de dados, sobre perda de dados, sobre digitalização, sobre o PDF-A, também conhecido como ISO 19005-1, e sobre a nova versão do Open Journal Systems (OJS). Enfim, vivo em conexão com os especialistas dos portais de periódicos científicos brasileiros e estrangeiros. Moro na Biblioteca Universitária da Universidade Regional de Blumenau. Eu sou o Portal de Periódicos Científicos da FURB e conto com estes dez Companheiros de Luta: Atos de Pesquisa em Educação Linguagens - Revista de Letras, Artes e Comunicação Modelagem na Educação Matemática O Teatro Transcende Revista Brasileira de Desenvolvimento Regional Revista de Estudos Ambientais Revista de Negócios Revista Dynamis Revista Jurídica Revista Universo Contábil


III - MEMÓRIAS

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Biblioteca da FURB 1968-2018 – 50 anos Nessi Davina Lenzi Cristelli1

INTRODUÇÃO

A INSTALAÇÃO DA BIBLIOTECA

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nstituída a Fundação Universitária de Blumenau (FUB), em dezembro de 1967 – composta pelas Faculdades de Ciências Econômicas, de Direito, de Filosofia e de Ciências e Letras –, o então Diretor Geral, 60

Professor Martinho Cardoso da Veiga, criou, em 28 de abril de 1968, a Biblioteca Central. Formada no seu início, pelo acervo do próprio professor Martinho Cardoso da Veiga e por volumes da Faculdade de Ciências Econômicas, a Biblioteca funcionou, de 1968 a 1969, numa sala de aula da Escola Municipal Júlia Lopes de Almeida, a sede provisória da FUB naquele momento. Para dirigi-la, inicialmente, foi contratado apenas um funcionário – o professor Bráulio Maria Schloegel –, e, no decorrer do ano de 1968, também um auxiliar. Com a transferência da Universidade para a atual sede na Rua Antônio da Veiga, destinou-se à Biblioteca uma área de 282,22 m² junto ao Bloco A. E, em maio de 1978, ao comemorar seu 14° aniversário de instalação, a Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) prestou significativa homenagem ao professor Martinho Cardoso da Veiga com a inauguração de uma placa de bronze e com a nomeação de sua Biblioteca de Biblioteca “Professor Martinho Cardoso da Veiga”. Portanto, desde o início a Biblioteca foi concebida como um centro cultural, que, de acordo com as palavras do professor Braulio Maria Schoegel, deveria ter, também, livros. Não por acaso, em 1969, já se registrava a primeira exposição de arte no saguão do Bloco A. Aniversário dos 20 anos da FURB, inauguração do busto do professor Martinho Cardoso da Veiga.

Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos

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azer um resgate de fatos importantes registrados pela Biblioteca da FURB ao longo dos seus 50 anos, comemorados em 28 de abril de 2018, é o objetivo deste trabalho. Para elaborá-lo, a autora, Bibliotecária aposentada, vale-se não só da sua experiência vivida por aproximadamente 34 anos, mas também de informações extraídas dos relatórios anuais da própria Biblioteca. Relata, portanto, detalhes sobre “A instalação da Biblioteca”, quando e como ela surgiu, seus dirigentes, o acervo inicial e sua evolução bem como a diversidade de materiais que a compõe. Situa a Biblioteca no contexto da Universidade, as razões que nortearam a “Instalação das Bibliotecas Setoriais” são apresentadas de modo a recuperar também as datas de surgimento de cada Biblioteca Setorial. A respeito do “Espaço Físico”, descreve toda a trajetória percorrida pela Biblioteca até a conquista das atuais instalações em prédio próprio. Quanto aos “Recursos Humanos”, lembra a evolução do quadro de pessoal e os grandes feitos e conquistas. Concernente ao “Processo de Automação”, apresenta o passo a passo de como foi iniciado, efetivamente, o Sistema Bibliodata/CALCO, através da digitação das planilhas de catalogação, preenchidas manualmente pelos bibliotecários, até alcançar os avançados serviços on-line. Sobre os “Convênios com Redes e Sistemas de Informação”, descreve os acordos mantidos pela FURB que possibilitaram a integração da Biblioteca às redes e sistemas de informação existentes no país e no exterior.


DIRIGENTES

A

Fotógrafo: Sérgio Lamim

A tipografia, responsável durante muitos anos pela o longo de sua história até aqui foram sete os dirigentes, que, com suas equipes, conduziram a Biimpressão das lombadas dos livros que necessitavam ser blioteca, transformando-a no coração da Univerreencadernados e pela confecção de todos os impressos sidade. Como primeiro Diretor, teve o Professor Bráulio como convites, folders, certificados e diplomas de conMaria Schloegel, que esteve à frente da Biblioteca no peclusão de curso, com o serviço de encadernação e resríodo de abril de 1968 a setembro de 1994. De outubro de tauração, foi outra importante e necessária iniciativa dele. 1994 a outubro de 1998, assumiu a Direção a Bibliotecária Nessi Davina Lenzi Cristelli, que desde 1977 esteve ao lado do Professor Bráulio no cargo de Vice-Diretora. No período de novembro de 1998 a outubro de 2006, na gestão do Reitor Egon José Schramm, a Direção da Biblioteca foi exercida pelo Bibliotecário Mauro Tessari, que a deixou para assumir cargos na Administração Superior, tendo ocupado, por breve período, o cargo de Pró-Reitor de Administração e, em seguida, a chefia do Gabinete da Reitoria, cargo que ocupou até o final da gestão do Reitor Eduardo Deschamps. A partir de novembro de 2006, a Direção da Biblioteca foi assumida pela Bibliotecária Maria Genoveva Lemos, que ingressou na Biblioteca da FURB em 15 de janeiro de 1990. Na gestão Formatura da Turma de Biblioteconomia. Convênio estabelecido entre a FURB e a UDESC para trazer em caráter temporário o curso de Biblioteconomia para Blumenau. do Reitor João Natel Pollonio Machado, assumiu a Direção, no período compreendido entre novembro de 2009 a abril de 2010, a Bibliotecária Gelci Rostirolla, sendo substituída pelo Auxiliar de Serviços Administrativos e Historiador Darlan Jevaer Schmitt, que atuou de maio de 2010 a outubro de 2017. E, por último, em novembro de 2017, assumiu a Direção a Bibliotecária Daniele Rohr, que ingressou na FURB em 2014 e é a atual Diretora da Biblioteca Universitária². Sobre o professor Bráulio, o primeiro Diretor, cabe destacar que acima de tudo, ele foi um grande bibliófilo, ou seja, um “amante dos livros”. Além de dirigir a Biblioteca, foi Professor do Curso de comemoração alusiva aos 50 anos de instalação da Biblioteca Universitária de Direito, ocupando também diversos cargos na Solenidade Professor Martinho Cardoso da Veiga (2018). Administração Acadêmica, até o de Vice-Reitor na gestão do Reitor Arlindo Bernart. Outra ação do professor Bráulio que merece ser Voltado às artes e à cultura, cuidou de criar o Deenaltecida, a ser mais detalhada a seguir, foi a parceria espartamento de Cultura, que por longo tempo foi vinculatabelecida com a UDESC para trazer a Blumenau, em carádo à Biblioteca. Contou para trabalhar nessa área com o ter temporário, o curso de Biblioteconomia, dando a oporcrítico de arte Wilson Nascimento. tunidade de fazer esse curso aos funcionários atuantes na Vale lembrar que as primeiras obras de arte, adBiblioteca e a outros interessados. A Bibliotecária Evanilde quiridas em leilão na Gestão do Padre Orlando Maria Maria Moser é uma das funcionárias remanescentes desse Murphy, deram início à Pinacoteca, que continuou a ser grupo que ainda atua na Biblioteca³. Outros funcionários, formada com doações de artistas que participavam das como Gilberto M. Galvão, Roberto B. Disse, Jane Cristina mostras e exposições realizadas no espaço da UniversidaCasas, Eliana Costa de La Torre, Maria Genoveva Lemos e de. Esse setor também era responsável pela organização e a autora deste texto, fizeram parte desse grupo. E esses foram alguns dos feitos na carreira do Professor Bráulio com manutenção de um arquivo das matérias sobre a FURB, relação à Biblioteca. A ele nossa gratidão! publicadas nos principais jornais da cidade e do estado.

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ESTRUTURA ADMINISTRATIVA

A

Com a transferência dos cursos de Ciências da Computação e de Sistemas de Informação, em 2002, foi instalada a Biblioteca Setorial do Campus IV, desativada em 2008, em decorrência do término das atividades da FURB naquele local. Atualmente, continuam em atividade a Biblioteca Setorial do Campus II e a do Campus III. E, em 27 de outubro de 2006, o Centro de Memória Universitária (CMU) passou oficialmente a ser um serviço da Seção de Automação e Documentação da Biblioteca Universitária, conforme o Regimento Geral da Reitoria (Resolução nº 059/2006). Atualmente, compõem a estrutura administrativa a Direção e Automação, Seção de Processamento Técnico e Encadernação, Seção de Seleção e Aquisição, Seção de Serviços ao Usuário e Centro de Memória Universitária (CMU).

Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos

Fotógrafo: Roberto Luiz Zen

Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos

Fotógrafo: Roberto Luiz Zen

Biblioteca, órgão suplementar da Universidade, foi criada, inicialmente, como uma biblioteca central e única, assim funcionando até 1996, quando foi instalada a Biblioteca Setorial do Campus II para atender aos cursos do Centro Tecnológico. Em 1998, entrou em funcionamento a Biblioteca Setorial de Pomerode, instalada para atender estudantes e professores do curso de Turismo e Lazer. Por sua vez, a Biblioteca Setorial de Timbó foi instalada em abril de 1999 com o objetivo de atender estudantes e professores dos cursos de Pedagogia, Administração e Colegial (ETEVI) ali sediados. Foi a partir de março de 2000 que entraram em funcionamento a Biblioteca Setorial do Campus III e a Biblioteca Setorial de Gaspar. De modo que a Biblioteca do Campus III atendesse aos cursos de Odontologia e de Farmácia, e a de Gaspar, inicialmente, ao curso de Pedagogia e, a partir de 2003, também ao curso de Administração.

(1) Setor de Encadernação da Biblioteca Central (1985); (2) Programa de Automação (1991); (3) Serviço de guarda-volumes (1984); (4) Atendimento ao usuário (1990).

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ACERVO

INSTALAÇÕES FÍSICAS

C

A

om recursos destinados pela FURB, a Biblioteca mantém, desde a sua criação, um programa regular de aquisições, possibilitando a contínua atualização e desenvolvimento das suas coleções. O acervo da Biblioteca é formado por aproximadamente 500.000 volumes, incluindo livros, periódicos, materiais especiais (vídeos, CD-ROMs, DVDs), obras de arte, trabalhos acadêmicos, normas técnicas, entre outros materiais, e abrange todas as áreas do conhecimento de atuação da Universidade. Igualmente importantes para a formação do acervo são as doações recebidas. Dentre essas doações, destacase o acervo recebido em setembro de 1988, pertencente ao senhor Lubomir Zaphyrof, de nacionalidade búlgara, radicado no município de Timbó. Entre a variedade de obras doadas, encontravam-se inúmeros títulos na área da Linguística e da História, alguns considerados preciosidades, atualmente incluídos na Coleção de Obras Raras. Significativa também foi a doação realizada em julho de 2005 pela Fundação Calouste Gulbenkian, entidade portuguesa com sede em Lisboa, de 600 volumes de obras publicadas pela própria Fundação, cobrindo todas as áreas do conhecimento. Fora essas doações, há outras, em volume menor, feitas por entidades que publicam ou patrocinam publicações de grande valor histórico, artístico ou cultural.

Doação de livros da Alemanha.

expansão da Biblioteca, desde a sua criação, acompanhou a expansão da própria Universidade. À medida que novos cursos eram instalados, também surgia a necessidade de se criar uma infraestrutura própria para cada curso, e a Biblioteca era parte, senão uma exigência, dessa infraestrutura. Não demorou muito e o espaço físico tornou-se insuficiente para abrigar o acervo, as salas de leitura e os novos serviços que começavam a se estruturar. Em 1973, foi instalado o Setor de Periódicos que funcionou inicialmente numa sala do bloco A. O crescimento vertiginoso dessa coleção levou à ocupação das salas que abrigavam os laboratórios de Biologia, Química e Mineralogia. Até a transferência para o atual prédio, todas as salas do piso superior dos blocos A e Z eram ocupadas pela Biblioteca, numa área de 1.063,13 m². Na década de 70, foram realizadas iniciativas em prol da construção de um prédio próprio, sendo que o primeiro projeto com a finalidade de obter financiamento foi encaminhado ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) em 1973. Entretanto, só na década seguinte o problema de espaço físico começou a ser solucionado, isso com a transferência da Biblioteca para o atual prédio, que teve sua primeira etapa inaugurada em 07 de fevereiro de 1986, pelo então Ministro da Educação Antônio Marco Maciel, data do reconhecimento da FURB como Universidade. O prédio que atualmente abriga a Biblioteca dispõe de 5.400 m² e sua construção aconteceu em duas etapas. A primeira teve início em 1984 e foi executada com recursos provenientes do FNDE e da própria FURB. O prédio foi projetado pelo Arquiteto e Professor Stênio Ubirajara Calsado Vieira e a sua construção ficou sob a responsabilidade do Engenheiro e Professor Wilson Lang. A localização no Campus I atendeu à sugestão do Arquiteto Especialista em Arquitetura de bibliotecas universitárias, Claudio Mosqueira. Na opinião dele, a Biblioteca estaria localizada no centro do campus, rodeada de blocos acadêmicos. Os já construídos voltados para a Rua Antônio da Veiga e os futuros voltados para a Rua São Paulo. Entretanto, se a Biblioteca foi construída no local sugerido, a expansão dos blocos acadêmicos tomou outros rumos. Com uma arquitetura arrojada e diversa da que vinha sendo praticada até então, a instalação da Biblioteca em prédio próprio foi de fundamental importância, pois permitiu reunir acervo e áreas para estudo e serviços num único ambiente físico. Um sonho realizado, ainda que em parte. Sim, porque serviços como o da encadernação e tipografia e o setor de audiovisuais permaneceram nas antigas instalações. 63


Fotógrafo: Rogério Pires

A luta pela construção da segunda etapa do projeto não parou. E, em 2002, com recursos do BNDES, sob a responsabilidade do Professor João Francisco Noll e Fabiano Koball, como Arquitetos, e de Charles Tomas Steyer, Engenheiro Civil, foram iniciadas as obras de construção da segunda etapa do prédio. Em 24 de setembro de 2004, passados 18 anos, foi inaugurada a etapa final de ampliação. Naquela ocasião, disponibilizando o espaço necessário, com salas de estudo, individuais e em grupo, auditório com 150 lugares, Centro de Memória Universitária, laboratório de informática, área para depósito, entre outros espaços para a realização de atividades administrativas e acadêmicas.

(1) Vista aérea do campus I da FURB (1972); (2) Em construção prédio próprio da nova Biblioteca Central da FURB; (3) Vista externa do prédio da Biblioteca Central; (4) Vista do prédio da Biblioteca (2004).

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RECURSOS HUMANOS

P

aralelamente ao desenvolvimento do seu acervo e dos seus serviços, a Biblioteca cuidou de formar sua equipe de trabalho. O próprio professor Bráulio iniciou a formação em Biblioteconomia na UFSC, mas não chegou a concluí-la. Em 1972, iniciou-se a contratação de técnicos e bibliotecários. Entretanto, muitos desses Bibliotecários não se adaptavam à cidade e logo deixavam a Biblioteca. Vale lembrar que o curso de Biblioteconomia, até 2015, só era oferecido na UFSC e na UDESC. Sobre o curso de Biblioteconomia da UDESC, em documentos institucionais da Fundação Educacional de Santa Catarina (1984, 1985 apud BATISTA, 2011, p. 586, grifo nosso) destaca-se que em 1980 começa uma nova fase no curso de Biblioteconomia, os problemas passam a aparecer e a crescer. A Reitoria da UDESC especulava mandar o curso para o interior do Estado. O curso foi desativado em 1981, e a realização de vestibulares para a entrada de alunos ficou suspensa no período de 1981 a 1984 [...]. No início de 1985 o curso foi reativado oferecendo 40 vagas e com um novo currículo, [...], todavia, o curso não voltou a funcionar em Florianópolis, mas sim, em Blumenau. Nesse período, a coordenadora do curso era a Professora Maria de Jesus Nascimento e o Diretor da FAED, o Professor Gilberto Michels [...]. A transferência do curso de Biblioteconomia ocorreu em virtude de um convênio entre a FESC/UDESC e a Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), sediada na cidade de Blumenau/SC. Este convênio funcionava da seguinte forma: a UDESC forneceu o corpo docente da área, e a FURB disponibilizou os professores que ministravam as outras disciplinas não específicas e a estrutura física. O curso em Blumenau formou duas turmas, num total de onze alunos formados. Contudo, este projeto não funcionou como o esperado, já que a intenção quando de sua implantação era formar 80 bibliotecários. A Professora Ivonir [...] assinala que um dos principais fatores que contribuíram para o pouco sucesso do curso foi o caráter privado e o curso saiu muito dispendioso para os alunos na época.

Naquele momento, a desativação temporária do curso na UDESC e o desejo da administração superior daquela IES de mandar o curso para o interior do Estado, somados à necessidade de suprir a Biblioteca da FURB e região de profissionais capacitados, levaram a sua reabertura na FURB por meio de um convênio firmado entre

as duas IES. Com o encerramento do convênio, o curso voltou a ser oferecido na UDESC. Nessa época, a FURB contava com três Bibliotecários e aos poucos pôde ampliar o quadro para onze. Evidentemente, isso não se deu em um só tempo, com exceção dos cinco que já atuavam como servidores da biblioteca, a contratação dos demais era feita a medida da necessidade, ou seja, quando se verificava a implantação de novos cursos de graduação e a consolidação dos programas de pós-graduação, sentia-se também a exigência da presença de profissionais qualificados. Assim, dos onze egressos, apenas três não foram absorvidos pela Biblioteca. E, atualmente, o seu quadro de pessoal é constituído por Bibliotecários, além de Analista de Sistemas, Técnicos em Assuntos de Informática, Técnica em Arquivo, Auxiliares de Serviços Administrativos, Auxiliares de Biblioteca, Encadernadores e Estagiários. A ampliação e a qualificação do quadro de pessoal aliadas à implantação do processo de automação permitiram um salto de qualidade no tratamento, buscas e recuperação da informação, pois o tratamento da informação, em especial a catalogação cooperativa, requeria das bibliotecas cooperantes a adoção de padrões internacionais. Dessa forma, o Código de Catalogação Anglo-Americano (CCAA), as Listas de Autoridades e Assuntos da Library of Congress, entre outros manuais, passaram a ser ferramentas de trabalho obrigatórias nessas atividades. Além das atividades básicas inerentes ao trabalho em bibliotecas, como o de formação e desenvolvimento de coleções, processamento técnico (classificação, catalogação, indexação), serviço de referência e circulação (empréstimo), visitas orientadas, outras eram implementadas. Passou-se a oferecer treinamentos de acesso a base de dados, comutação bibliográfica e orientações para o uso das normas técnicas da ABNT sobre documentação na elaboração de trabalhos acadêmicos. Essa última atividade culminou na publicação do livro “Roteiro básico para apresentação e editoração de teses, dissertações e monografias”, tendo as Bibliotecárias Evanilde Maria Moser e Nessi Davina Lenzi Cristelli como coautoras. Outra importante iniciativa foi a estruturação de cursos de capacitação em pesquisa e acesso a bases de dados, dirigidos a alunos dos Programas de Mestrado e Doutorado. Merece ser lembrada como protagonista nessa atividade a Bibliotecária Izildinha Ramos Accetta, sucedida pela Bibliotecária Evanilde Maria Moser. Igualmente importante para a FURB foi a estruturação do Centro de Memória Universitária (CMU) na Biblioteca Universitária a partir de 2005. A instalação de um sistema de arquivos e a elaboração do manual que normatizou a elaboração e gestão dos documentos de 65


todos os órgãos da Instituição foram tarefas coordenadas pelos Bibliotecários Evanilde Maria Moser e Mauro Tessari, respectivamente, Chefe do CMU e Diretor da Biblioteca na época. Dessa iniciativa, modernas técnicas de tratamento e preservação da memória universitária foram implementadas no CMU. Fotógrafo: Artur Moser

Rede Bibliodata, na Biblioteca Central da FURB. Em destaque setor de Processamento Técnico (1996).

Colégio Roland Dornbusch de Jaraguá do Sul visita à Biblioteca Central (2004).

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Fotógrafo: Rogério Pires

Lançamento do livro “Roteiro básico para apresentação e editoração de teses, dissertações e monografias” (2004).

AUTOMAÇÃO E NOVOS SERVIÇOS

T

oda essa estrutura de pessoal permitiu que novos serviços e produtos fossem oferecidos, e que os já existentes adquirissem maior dinamismo. Ao longo da década de 80, as várias tentativas de dotar a Biblioteca de um sistema de automação, com o envolvimento de acadêmicos do Curso de Computação, não lograram êxito. Foi então que, em janeiro de 1988, o convênio com a Fundação Getúlio Vargas para o uso do Sistema BIBLIODATA/CALCO foi celebrado, desencadeando, dessa forma, o processo de automação da Biblioteca. A participação nessa rede de catalogação cooperativa propiciou à Biblioteca da FURB um salto de qualidade nos serviços desenvolvidos. Logo, a Biblioteca não demorou muito a ocupar um lugar de destaque, posicionando-se entre as dez bibliotecas que mais contribuíam para a inserção e compartilhamento de dados no catálogo coletivo. Aos poucos, os terminais de consulta substituíram os arquivos de aço repletos de fichas catalográficas. Da mesma forma, a emissão automática das etiquetas das lombadas dos livros e das de código de barras substituiu a datilografia, que era a forma adotada de emitir etiquetas até então, as quais lá no início eram desenhadas a nanquim sobre fita isolante, preta ou vermelha com uma camada de verniz, o que garantia maior durabilidade. No mesmo ano, foi adquirido o PERIPUC, um software desenvolvido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro para o gerenciamento de publicações periódicas, e o MICROISIS, software desenvolvido pela UNESCO e distribuído pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), destinado inicialmente ao tratamento das coleções de materiais especiais, e, mais tarde, como banco de dados, para recuperação dos itens do acervo geral da Biblioteca. Nessa época, a Biblioteca já contava com profissionais da área da informática, permitindo que, aos poucos, outras atividades fossem sendo automatizadas. Foi o que ocorreu em 1990, quando foi desenvolvido o SISTEMA DE AQUISIÇÃO, escrito em dBASE, para ser utilizado no processo de aquisição de materiais, e o SISTEMA CÂMBIO, utilizado pela Seção de Seleção e Aquisição no gerenciamento do serviço de intercâmbio de publicações. Em 1992, foi adquirido o Programa de Empréstimo do Centro Latino Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME) para automatizar o serviço de empréstimo. Diante da impossibilidade de adaptá-lo à realidade da FURB, a equipe da Biblioteca desenvolveu um sistema próprio, o qual entrou em operação em março de 1994. Na mesma data, foi instalada a primeira Rede de Micros, permitindo a implementação, em rede, do módulo de consulta.


Dado o interesse manifestado por várias instituições da região pelos sistemas implantados na Biblioteca, em outubro de 1995, foram celebrados os primeiros contratos de cessão de uso do Sistema de Automação de Bibliotecas (SABIBLIO) com a Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e com a Fundação Educacional Regional Jaraguaense (FERJ). No ano seguinte, a cessão foi feita à Fundação Educacional do Alto Vale do Itajaí (FEDAVI), à Universidade do Contestado (UnC), nos campi de Canoinhas, de Caçador e de Concórdia. Em permuta pela cessão do uso do software, a Biblioteca recebia equipamentos de informática. Com a instalação do Posto de Serviços do Sistema de Informação em Ciência e Tecnologia (projeto ANTARES), em 08 de março de 1994, a Biblioteca se integrou à rede internet por intermédio do provedor da UFSC. A partir de agosto de 1994, a conexão passou a ser feita com o Polo de Software de Blumenau e, finalmente, no primeiro semestre de 1995, a FURB passou a ser provedora. Em novembro de 1996, o acervo da Biblioteca estava disponível na internet, através de um servidor instalado na própria Biblioteca. A página, desenvolvida pela equipe de automação da própria Biblioteca, não possuía, então, os recursos gráficos que hoje detém. A partir de novembro de 1996, com a implementação de novos serviços, o site recebeu constantes atualizações e melhorias. O projeto para a reestruturação da atual página foi lançado em agosto de 2004, motivado pela necessidade de disponibilizar um site mais objetivo, estruturado e eficiente, com rápida e fácil atualização das páginas. Paralelamente à reestruturação do site, ocorreram melhorias nos equipamentos (servidores e software). No ano de 2000, a renovação dos equipamentos de informática, somada à contratação de dois técnicos em assuntos de informática, permitiu o desenvolvimento e a implantação de uma nova versão do sistema de automação da Biblioteca, com destaque para os módulos de aquisição, de empréstimo, de processamento técnico, de controle de usuários e parametrização. Em 2002, destacam-se a continuidade no desenvolvimento e na implantação de sistemas cada vez mais integrados aos sistemas da Instituição e à internet, a saber: integração do sistema de aquisição e de processamento técnico, recolhimento de multas junto ao sistema financeiro, integração com o sistema de planos de ensino e impressão de relatórios no sistema de empréstimo. Por sua vez, os destaques em 2003 foram a conclusão do projeto piloto do Sistema de Integração das Bibliotecas do Sistema ACAFE (SINBAC), a implantação da renovação de empréstimo pela internet e a execução das operações de emissão do cartão do aluno e dos crachás dos servidores. A criação da Biblioteca Digital da FURB, com a entrada de documentos (dissertações, monogra-

fias, trabalhos de conclusão de curso) em versão eletrônica com texto integral e a assinatura do Termo de Adesão com o IBICT, visando à instalação da Biblioteca Digital Brasileira na FURB, consolidou a inserção da Biblioteca da FURB na sociedade da informação, igualando-a às maiores bibliotecas do país no processo de digitalização desses acervos e acesso a obras e serviços via internet, o que, portanto, transformou-a em uma Biblioteca sem fronteiras. Implantação do código de barras do acervo da Biblioteca Central da FURB.

As informações contidas nas fichas eram datilografadas na máquina de escrever.

Destaque para a lombada com o número de chamada escrito manualmente a nanquim sobre fita isolante, preta ou vermelha com uma camada de verniz.

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CONVÊNIOS COM REDES E SISTEMAS DE INFORMAÇÃO

CONCLUSÃO

I

A

mbuída do espírito de compartilhamento de recursos informacionais, a Biblioteca procurou integrar-se a Redes e Sistemas de Informação. Foi assim que, em 1980, passou a participar do Programa de Comutação Bibliográfica (COMUT) e do Catálogo Coletivo Nacional de Publicações Seriadas (CCN). Já em 1988, integrou-se à Rede Pan-Americana de Informação e Documentação em Engenharia Sanitária e Ciências Ambientais (REPIDISCA). Para atender aos cursos da área da saúde que começavam a ser oferecidos pela FURB, foi firmado, em julho de 1989, um convênio com o Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME). Com o objetivo de atender às demais áreas do conhecimento, em 30 de setembro de 1994, foi assinado o convênio com o banco de dados DIALOG, que possibilitava o acesso a aproximadamente mil bases de dados. Para cobrir a área jurídica, em 05 de dezembro de 1994, foi assinado o convênio com o Senado Federal, possibilitando o acesso à base de dados do PRODASEN. Além dessas redes a Biblioteca integrou, também, a Rede de Bibliotecas da Área de Engenharia (REBAE) e a Rede de Bibliotecas da Área de Psicologia (REBAP), que têm como objetivo o intercâmbio entre as bibliotecas participantes. Entre 2001 e 2002, fato de fundamental importância, em especial para o atendimento à demanda de informação para a pesquisa e a pós-graduação, foi a celebração do Termo de Compromisso com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) referente à participação da Biblioteca no Programa de Apoio à Aquisição de Periódicos (PAAP), possibilitando o acesso às publicações eletrônicas disponíveis no Portal de Periódicos da CAPES à comunidade acadêmica. O Portal de Periódicos da CAPES oferecia, naquela época, acesso aos textos completos de artigos de mais de 11.000 revistas internacionais e nacionais e a mais de 90 bases de dados com resumos de documentos em todas as áreas do conhecimento. Um nome que merece ser destacado pela liderança e pelo envolvimento exercidos nesse processo de informatização é o do Bibliotecário Mauro Tessari, também graduado em Ciência da Computação. O trabalho dele foi de fundamental importância. Foi um período de muitas realizações, e a Universidade assim o exigia. Eram muitos cursos de Graduação sendo implantados, programas de Pós-Graduação sendo criados e, consequentemente, muitas exigências das comissões verificadoras a serem atendidas. 68

qui está um relato do caminho percorrido pela Biblioteca da FURB ao longo dos seus 50 anos de existência. E, para finalizar, é necessário mencionar que se a Biblioteca se destaca como um órgão que orgulha a FURB e é reconhecida na área como uma Biblioteca de excelência tanto pelo acervo que dispõe quanto pelos serviços que presta, deve-se ao apoio que sempre recebeu da Administração Superior e, sem dúvida, ao dedicado e perseverante trabalho das pessoas que nela atuaram desde o início de sua criação.

Lançamento do Portal de Periódicos da FURB (2007).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BATISTA, Ariane Rodrigues. A trajetória do ensino de Biblioteconomia na Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC (1974 - 2008). Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 579-598, jul./dez., 2011. Disponível em: revistaacb.emnuvens.com.br/racb/article/download/784/pdf_67. Acesso em: 28 mai. 2018. FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU. Biblioteca Universitária. Relatório de atividades 2006. Blumenau: FURB, 2007. Não publicado.

NOTAS 1 Bibliotecária aposentada pela Fundação Universidade Regional de Blumenau. 2 Em 2019, o servidor Alexander Roberto Valdameri sucedeu Daniele Rohr na direção da Biblioteca Universitária. 3 A Bibliotecária Evanilde Maria Moser foi a última funcionária remanescente desse grupo e que se aposentou em 2019.


O Audiovisuais Roberto Bernhard Disse1 As bibliotecas também são responsáveis pela classificação, guarda e disseminação da informação registrada nos chamados materiais especiais ou multimeios, como o caso dos registros audiovisuais e iconográficos. Os documentos em mídia com texto, som e imagem estão disponíveis na coleção de multimeios de uma Biblioteca, composta por filmes, slides, transparências, fotos, negativos, discos, fitas K7, fitas OpenRoll, CDs, DVDs e fitas de videocassete.

E

m final de 1981, eu já estava trabalhando há quatro anos na FURB – na época, como Chefe do Restaurante Universitário (RU) –, quando, num final de tarde, veio me procurar o Professor Bráulio Maria Shloegel, então Diretor da Biblioteca Central Professor Martinho Cardoso da Veiga, para conversar e trocar uma ideia comigo a respeito de algo que ele tinha visto em uma recente viagem à Universidade de Londrina, mais precisamente, o Setor de Audiovisuais da Biblioteca Central daquela instituição. Lógico que estou falando do início dos anos 80, antes das tecnologias do videocassete, as tecnologias digitais, os projetores de vídeo e dos computadores pessoais, celulares, tablets e smartphones. A FURB tinha na época um projetor de filmes 16 mm, um de 8 mm, três projetores de opacos (episcópios), cerca de cinco projetores de transparências e quatro projetores de slides (diapositivos), e ainda, junto a isso, algumas coleções de filmes em 16 mm e em slides. Eram aparelhos que ficavam guardados na Biblioteca e que serviam para os professores ilustrarem e complementarem suas aulas teóricas. Desse modo, quando existia algum bolsista disponível, o mesmo levava o equipamento para o professor e, caso fosse necessário, também o operava, quando tudo funcionava. Para resolver determinados e constantes problemas, o Prof. Bráulio tinha a intenção de organizar esse serviço como um Setor da Biblioteca. E daí surgiu o seu convite para eu ajudá-lo no projeto que era para o ano seguinte (1982), pois ele tinha sido eleito Vice-Reitor na gestão do Prof. Arlindo Bernard (1982-1985), o que “facilitaria” as coisas. Logo, em fevereiro de 1982, após o retorno de nossas férias, lá fui eu para a Biblioteca Central, no meu terceiro cargo na FURB, e a Nessi Lenzi Cristelli, então Vice-Diretora da Biblioteca, me recebeu e informou que não sabia de nada (as coisas não eram muito diferentes dos dias atuais). Então, procuramos o Prof. Bráulio

e conversamos sobre a ideia da criação de um Setor de Audiovisuais na FURB, para o qual já havia uma sala no segundo andar do Bloco Z, a sala Z-204 (hoje esse bloco foi incorporado pelo bloco A), que fazia parte de nossa antiga Biblioteca, no segundo andar do bloco A. Na sala ao lado (Z-202), ficava o serviço de XEROX da Biblioteca (e da FURB toda). Um pouco antes, na Z-200, ficava a nossa Tipografia com o “Seu” Josi, onde a “cabrita” imprimia as lombadas de nossos livros, bem como os diplomas de nossos graduados, e com o “Seu Ezair”, que restaurava e encadernava nossos livros e outros documentos da Universidade. Ainda nesse corredor do outro lado de nossa sala, ficava a “Imprensa”, na Z-206, lugar em que ficavam os nossos mimeógrafos a álcool e à tinta e o serviço de datilografia, e em que todos os textos acadêmicos, provas e exames eram impressos.

Planta da Biblioteca Central (1982).

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A sala precisava ser parcialmente escurecida, o que ajudava muitos alunos a tirar um cochilo... Como era um projetor ótico, a transparência tinha uma única posição para ser colocada sobre a lente, senão a projeção ficava invertida ou de ponta cabeça, nada que um pouco de treino e muitos risos da plateia não consertasse.

Fotógrafo: Roberto Bernhard Disse

Após uma breve localização, fomos para a Z-204. E, após uma rápida pintura na sala, demos uma volta pela Biblioteca e depois por toda a FURB para “adquirir” alguns móveis usados para o novo Setor da FURB. Logo o Jorge Holetz, então Bolsista da Biblioteca, foi contratado e começou a trabalhar comigo. Era uma baita equipe de duas pessoas, no horário das 7h30min às 12h e das 13h30min às 22h35min, de segunda a sexta-feira e no sábado, das 7h30min às 12h30min. Isso com dois funcionários para cobrir esses horários, pois a hora-extra corria solta na época.

Professor Maurício Sedrez dos Reis ministrando o minicurso “Plantas medicinais na Floresta Atlântica”. Destaque para o retroprojetor (1997).

Bancada copiadora de slides do setor de Multimeios (1984).

Num primeiro momento, recolhemos todos os equipamentos existentes na FURB e nós mesmos os revisamos e consertamos. O material especial também foi todo recolhido e organizado para facilitar a sua consulta e posterior utilização. O equipamento carro-chefe era o projetor de transparências, que nada mais é do que uma caixa de luz com uma lente Fresnel e um braço com um globo ótico numa ponta composto de duas lentes projetoras. O aparelho era instalado na frente das carteiras geralmente numa carteira de estudante (as antigas de madeira) e projetava numa tela o que se colocava sobre a lente Fresnel, que geralmente era uma folha de acetato que podia ser impressa numa copiadora XEROX ou era escrita manualmente com canetas especiais. Fotógrafa: Vanessa Lischeski

Retroprojetor que pertencia ao setor de Audiovisuais vinculado à Biblioteca Central era utilizado por professores em sala de aula.

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Outro equipamento muito utilizado era o projetor de filmes em 16 mm (o avô do videocassete), a Biblioteca tinha um pequeno acervo de filmes, mas, na época, fazíamos acordos de intercâmbio com Consulados (Alemanha, França, Canadá, Dinamarca entre outros), Filmotecas (Varig, Shell, etc.), Institutos (Goethe, Hans Staden, USIS, etc.), onde tínhamos os catálogos de seus acervos e através de ofício solicitávamos o empréstimo dos filmes, que ficavam em média na Universidade por 10 dias. Os empréstimos eram gratuitos e só arcávamos com as despesas de envio (correio) dos filmes. Obviamente, nada era “para ontem”, tudo era por carta, correio e muita boa vontade. Portanto, as aulas que utilizavam esses materiais tinham que ser realmente planejadas com muita antecedência. Como o material era único e emprestado, geralmente nós mesmos operávamos o equipamento nas salas de aula. Assim, todos os filmes eram revisados e consertados na chegada e no seu posterior envio. Os filmes tinham em média uma duração de 10 a 25 minutos, mas em alguns casos vinham os longas com 90 minutos, o que implicava a troca dos rolos no meio da projeção, pois a capacidade máxima de cada rolo era de 45 minutos. A sala de aula necessitava ser escurecida totalmente para a eficiência da projeção. Enquanto as projeções eram no período noturno, não havia problemas, mas, no período matutino e vespertino, isso complicava. E aí vem a primeira curiosidade: a FURB inteira só tinha duas salas preparadas com cortinas com blackout (a C-13 e a C-23), então o professor tinha que não só que encomendar o empréstimo do filme, reservar o equipamento com operador, como ainda trocar a sua sala com o professor que utilizava aquela sala naquele horário. Pense na vontade de ilustrar a sua aula! Os tempos realmente eram outros.


Sobre isso já me vem à lembrança a primeira passagem engraçada. De quando um operador, que trabalhou numa sexta-feira até as 22h35min, deu uma esticadinha num boteco da vida e veio ao batente no sábado de manhã, às 7h30min, e, logo no primeiro horário, tinha uma projeção pra fazer naquela sala escurinha. No inverno, no escuro, ao lado de um projetor que esquentava e que tinha um ruído característico (que convida a fechar os olhos...). O filme era de 90 minutos, e quando acabou de ser projetado o primeiro rolo de 45 minutos: nada! O professor acendeu a luz, reuniu todos os alunos em volta do operador e passaram a cantar “nana neném”! Essa é uma lembrança inesquecível.

Fotógrafa: Vanessa Lischeski

Biblioteca Central no Bloco A. Destaque para o Projetor de Filme sobre a mesa.

Projetor de Filme 16mm IEC Compact.

E vamos ao próximo equipamento: o projetor de slides, ou diapositivos como são chamados em nossa língua, que nada mais são do que filmes de máquina fotográfica 35 mm, possuindo uma característica especial, a de não ser negativos, mas, sim, positivos, que, após a sua revelação química, mostram fotos transparentes coloridas ou em preto e branco dos objetos fotografados. Essa era a forma mais fácil de registrar lugares, fatos e processos. Enfim, a imaginação corria solta e os slides eram muito práticos, pois poderiam ser fotografados numa sequência de movimento e, posteriormente, projetados numa mesma sequência. Os projetores podiam ser manuais ou automáticos. Nos manuais, trocava-se cada slide após a sua projeção, e, nos automáticos, os slides eram acondicionados num magazine que podia ser linear com até 20 slides ou circulares que variavam de 80 a 140 slides, estes eram acionados por um controle remoto (com fio, lógico!). Curiosamente, com relação a esse equipamento, tínhamos um professor, hoje aposentado, que utilizava todo sábado um determinado projetor manual apelidado carinhosamente de “tatuzinho”, por causa de sua aparência. Esse professor confeccionava seus próprios slides e tinha um ciúme muito grande de seu material, e por isso ele mesmo operava o equipamento, pois aquele era o único que ele sabia utilizar devido a sua simplicidade. Acontece que o professor em questão organizava toda a sua aula na exposição dos slides. Então era imprescindível que o equipamento estivesse a sua disposição todos os sábados e que estivesse funcionando. Como é um equipamento que utiliza lâmpada incandescente com vida curta, nem sempre a FURB tinha a agilidade no processo de compra de lâmpadas de reposição, o que acarretou em algumas aulas canceladas por falta de equipamento e reuniões na Reitoria na segunda-feira para as devidas explicações e providências. O professor tinha muita influência! 71


Fotógrafa: Vanessa Lischeski

Fotógrafa: Vanessa Lischeski

Projetor de slide diapositivo Kodak Ektagraphic III ABR Projector que pertencia ao setor de Audiovisuais vinculado à Biblioteca Central. Era utilizado por professores para exibir slides em sala de aula.

Enfim, posso aqui me alongar descrevendo cada equipamento que tínhamos. Hoje são peças de museu, mas cada um tem algo de interessante e divertido. Talvez um dos equipamentos mais estranhos fosse o projetor de opacos ou Episcópio. Era um equipamento de projeção que projetava uma imagem refletida de um opaco (uma foto, um livro, um objeto em 2D) alojado numa gaveta. Assim, dentro dele, sobre o objeto era orientada uma luz muito intensa, fazendo com que o seu conteúdo fosse projetado numa tela. E, para isso acontecer, a sala tinha que ser extremamente escurecida, limitando muito a sua utilização. Além do mais, o equipamento era extremamente pesado e de grande volume, com um resultado muito abaixo da expectativa, o que acabou servindo a apenas um professor da “antiga guarda”, que o utilizava para projetar livros de medicina legal. Como o conteúdo das projeções era um pouco tétrico, os alunos até gostavam que as projeções fossem ruins. Entretanto, com a aposentadoria do dito professor, o referido equipamento foi aposentado com ele.

Setor de Multimeios/Seção de Audiovisuais. Destaque para os slides na mesa de luz e para o projetor de slide sobre a mesa de madeira.

Como tudo sempre tem algo de engraçado, justamente esse equipamento é o que nos proporcionou a passagem mais hilária na história dos Audiovisuais. Antes é necessário informar de que o slide, por ser quadrado e com duas faces, tem oito possibilidades de ser inserido no projetor pelo magazine, sendo somente uma a correta, e que, na maioria dos casos, os slides eram montados com antecedência no magazine antes da aula, algumas vezes pelo professor, às vezes pela nossa equipe do Setor, ou seja, era possível que um slide acabasse invertido (de cabeça para baixo) no magazine. Pois assim aconteceu numa determinada aula, numa determinada sexta-feira, no último horário, em que a professora, hoje falecida, solicitou uma projeção com mais de 70 slides e o nosso operador foi lá para a sala operar o equipamento, pois a professora em questão não tinha as habilidades necessárias para a operação. Lá pelas tantas, após uma sequência correta de exposição dos slides, entra aquele de cabeça para baixo. Antes que o operador conseguisse retornar o magazine e reposicionar o slide, algum aluno um pouco mais sarcástico gritou lá do fundo da sala: “vira a tela professora”, e a professora assim o fez... Não preciso continuar a explicar. A sala inteira veio abaixo e a aula foi encerrada ali mesmo. Na segunda-feira, todo mundo na sala da Direção para as merecidas explicações... 72

Episcópio que pertencia ao setor de Audiovisuais vinculado à Biblioteca Central. Era utilizado por professores em sala de aula.

Quanto aos equipamentos, eu teria muito ainda a descrever, mas foi ao operá-los que muitas situações hilárias aconteceram. Para mim, a mais engraçada foi a que ocorreu num tempo em que não sabíamos ainda o que era bullying, numa época em que trotes eram apenas divertidos e preparados com muita antecedência pelos veteranos. Vemme à mente um caso que acabou nos servindo de lição. Os equipamentos eram sempre reservados com antecedência – de semanas às vezes – para um determinado dia, para determinada hora, num determinado local etc. E para esse controle tínhamos um grande quadro semanal, em que eram afixadas as fichas de reserva por equipamento em dia e hora. Essas fichas eram preenchidas por algum atendente do setor e quando ganhamos um ramal telefônico, até por telefone podiam ser feitas as reservas. Só existia telefone fixo na época e a FURB toda não tinha mais do que 80 ramais.


Duas lembranças desse nosso serviço me vêm à mente. Uma de nosso primeiro desenhista que tinha uma tendência de escrever “subindo o morro, torto mesmo”, exigindo que o cartaz fosse levado à guilhotina de nossa encadernação para ser “endireitado”! Essa era uma situação frequente causada pelo tal desenhista, hoje, um conceituado engenheiro! A outra lembrança é a de que estávamos com a vaga em aberto neste serviço e uma colega funcionária da FURB veio nos procurar dizendo que tinha um irmão que possuía um dom para o desenho e que ela gostaria que ele fosse contratado. O detalhe era que ele era menor de idade, não tinha nem 16 anos. Mas, na época contratava-se menor e a FURB não era pública, ou seja, contratava-se sem concurso. Logo, ele veio, fez um teste e o contratamos imediatamente. Simplesmente, ele foi o melhor desenhista que conheci pessoalmente e que vi se desenvolver e crescer em nosso setor. Até que o talento dele nos ultrapassou e ele saiu da FURB, alçando voo sozinho. Hoje é o famoso e internacional cartunista Rubens Belli. Fotógrafo: Roberto Luiz Zen

Tínhamos, semestralmente, estudantes bolsistas que nos auxiliavam na entrega e na operação desses equipamentos e a sua rotatividade era muito grande. Chegou o dia em que os “veteranos” bolaram o trote perfeito ao nosso novo bolsista, que era um calouro vindo do interior de Santa Catarina (no século passado chamávamos assim quem vinha do oeste para o litoral). Para realizar o trote, fizemos uma reserva fictícia do projetor 16 mm, composto pela máquina de projeção, a caixa acústica, uma tela tripé, o filme a ser projetado e, geralmente, uma extensão elétrica, tudo num kit básico que pesava por volta de 35 quilos. E o bolsista tinha que levar aquilo tudo de uma vez, isso nos corredores lotados das 18h30min. Então a nossa reserva era para o bloco G, na sala 402! A graça do trote era que o Bloco G ficava no extremo oposto de nossa sala, localizada no bloco Z, e a sala 402 nem sequer existia, pois o bloco G só tinha (e ainda tem) três andares! É que, na FURB, as salas são identificadas por números e o primeiro número é sempre o do andar. E lá foi o bolsista todo carregado com o equipamento para uma sala que não existia, e nós todos reunidos esperando pelo seu retorno carregando tudo de volta. Mas, para nossa surpresa, ele não só retornou sem o equipamento, como continuou a executar, sem nenhum abalo, as suas tarefas de entregar todas as outras reservas do horário, enquanto todos nós lá de boca aberta tentando entender o que aconteceu. Findo o horário de utilização, o bolsista retornou com o equipamento e o guardou, o que nos fez indagá-lo sobre o local correto da entrega, tamanha a nossa curiosidade. Diante da indagação, ele nos respondeu que ao sair de nossa sala ficou em dúvida sobre a localização do bloco G e foi perguntar a nossa Vice-Diretora, que estava de saída, onde ficava o dito bloco. Ao verificar a reserva, ela notou que se tratava de um trote, e, portanto, mandou-o guardar o equipamento na sua sala para, ao final do horário da reserva, buscá-lo novamente. A essa explicação, ele ainda acrescentou que era do interior, mas que não era burro! E aproveitou ainda para nos informar que a Vice-Diretora convocava todos nós para uma reunião no dia seguinte. Não preciso dizer que a era dos trotes acabou naquela reunião. O Setor de Audiovisuais acabou evoluindo para outros serviços. E o primeiro que surgiu foi o de confecção de cartazes. Isso numa era anterior às impressoras de computador e às grandes impressoras gráficas, em que os cartazes de divulgação de eventos, avisos e demais informações eram simplesmente desenhados sobre folhas de cartolinas, utilizando-se réguas normógrafas, molduras de metal com letras e números, simplesmente, desenhados com hidrocôr e, posteriormente, pintados com guache. No final, quase evoluímos para a areografia.

Funcionários do Setor de Multimeios/Seção de Audiovisuais. Na foto: Cesar Antônio Caus; Roberto Bernhard Disse; Valdir Galliza Junior; Anderson Kupka Puluceno; Rubens Belli e Álvaro Francisco Rodrigues.

Nessa época, a FURB havia crescido muito. A Assessoria de Imprensa da Universidade, por exemplo, foi criada e organizada por jornalistas profissionais que tinham a missão de divulgar a Universidade nos diversos meios de comunicação. Com isso, surgiu uma nova necessidade: a de que o Setor de Audiovisuais também assumisse as fotografias. A Assessoria de Imprensa elaborava releases diários, que eram ilustrados com fotografias para o enriquecimento das matérias. E, como já tínhamos no Audiovisuais algum equipamento fotográfico para a confecção de slides didáticos, a estrutura existente foi utilizada, sendo ampliada com a construção de uma câmera escura e todo 73


vas necessidades e novos serviços para o Audiovisuais. Uma novidade que tínhamos era nas aulas do curso de Pedagogia, mais especificamente na disciplina de Microensino, em que gravávamos as aulas simuladas dos alunos para depois serem revistas pelos alunos e pelo professor a fim de aperfeiçoar a didática dos acadêmicos. Era a tecnologia chegando com novos conceitos de ensino e com novas ferramentas. Então, precisávamos acompanhá-la e também nos adaptar a ela. Essa pequena estrutura de vídeo que tínhamos, enquanto já editávamos nossos pequenos vídeos institucionais de divulgação, acabou por ser a base geradora do conhecimento para montarmos os nossos laboratórios de vídeo e áudio do curso de Publicidade e Propaganda, que, mais tarde, tornaram-se o embrião da FURB TV e da FURB FM.

Setor de Multimeios/Seção de Audiovisuais. Destaque: revelação de fotos.

o aparato para a revelação dos filmes, posteriormente, também para o papel. Isso tudo na era química e analógica da fotografia. O Jorge Holetz e eu nos aperfeiçoamos na fotografia profissional e, logo após, outros fotógrafos foram acrescidos à equipe, como o Pereira Santos, o Roberto Zen e a Marcia Ehmke. Para o processamento dos negativos e fotografias em uma metodologia que permitisse a rápida recuperação, fomos buscar o conhecimento no Jornal de Santa Catarina, onde conhecemos a encarregada do arquivo fotográfico, que por acaso era uma bibliotecária, a Nair Koch, que inicialmente passou a trabalhar em meio período conosco, e, depois de um tempo, veio em tempo integral para a FURB, tamanho era o volume de fotografias que produzíamos. Chegamos ao ponto de contratar uma laboratorista fotográfica profissional para dar conta do processamento da grande quantidade de filmes e das fotos que produzíamos. Contratamos a Maria Lúcia Roncáglio, que, posteriormente, com a criação do curso de Publicidade e Propaganda, foi transferida para o Laboratório Fotográfico dos acadêmicos. Logo, as fotos de divulgação da FURB entravam na era digital. Estávamos no início dos anos 90, mais de 10 anos tinham se passado, novas tecnologias chegavam. Em 1986, veio o videocassete doméstico, desbancando o projetor de filmes em 16 mm, acabando com os slides, e quase aposentando o retroprojetor. A praticidade da fita de vídeo e a câmera de vídeo portátil doméstica, a qual chegou no início dos anos 90, também criaram no74

Setor de Multimeios/Seção de Audiovisuais. Destaque para os equipamentos de vídeocassete (1989).


acervo e equipamento de vídeo foram enviados aos Laboratórios de Áudio e Vídeo do curso de Publicidade e Propaganda da FURB, o serviço de apoio didático aos professores foi para a Pró-Reitoria de Ensino, com uma nova proposta e um novo nome, e os equipamentos analógicos que tínhamos foram para a sucata e eu me aposentei.

Fotógrafo: Roberto Luiz Zen.

Hoje, o Audiovisuais não existe mais. Ao menos da forma como concebi e trabalhei. Ele evoluiu e se dividiu. O material didático que tínhamos acabou se tornando o acervo de Material Especial de nossa Biblioteca Universitária, o acervo fotográfico em negativo e fotos foi para o Centro de Memória Universitária (CMU) da FURB, o

Aerofotografias realizadas pela equipe do Setor de Multimeios. Na foto: Roberto Bernhard Disse e Amauri Sbravatti (1990).

NOTA 1 Bibliotecário aposentado pela Fundação Universidade Regional de Blumenau. 75


Vanessa Martins Kretzschmar Mendes1

T

rabalhar em uma biblioteca, nesta em especial, é uma atividade muito gratificante. Significa ter o privilégio de estar sempre na companhia dos livros e ver, por meio deles, a mudança dos tempos, o resguardar da história neles contida. É poder prestar auxílio, direcionar e muitas vezes orientar os usuários em uma época tão particular de suas vidas, e é, sem dúvida, o dever de manter o conhecimento presente e acessível a todos que o procuram. Obviamente, também tem seus percalços. Cada estágio da vida da Biblioteca Universitária teve os seus, que agora giram em torno da pressa dos tempos modernos, da impaciência em esperar pelo conhecimento, das novas tecnologias que nem sempre deixam espaço e que, muitas vezes, anulam a nostalgia daquele bom momento de sentar e ler tranquilamente um livro. Apesar disso, não há como dizer que de muitas maneiras é interessante estar aqui, pois é nesse lugar que podemos observar e compreender, mesmo de canto de olho, no tempo livre entre um dever e outro, um pouco mais de uma das principais habilidades humana, a capacidade de sempre aprender algo a mais. Quando se passa tanto tempo por aqui, é possível perceber o quanto nós, seres racionais, necessitamos de mais conhecimento, o quanto somos ávidos na busca do que ainda não sabemos ou do que queremos lembrar. Eu mesma estive sentada nas cadeiras azuis da Biblioteca Universitária por longos cinco anos, querendo um pouco do conhecimento que nos exigem para entrar nessa loucura que é viver em sociedade. E lembro muito bem como era acolhedor e ao mesmo tempo intimidador entrar na Biblioteca, pois nessas estantes é que encontramos as respostas, mas é também onde vemos como precisamos de muito mais tempo para adquirir o conhecimento, porque é nelas, com seu grande volume de obras, que vemos como ele é imenso. Hoje, estando do outro lado do balcão, com um pouco mais de experiência de vida, tenho uma visão um 76

pouco diferente do que a Biblioteca Universitária representa. Consigo perceber que as pessoas entram aqui pelos mais diversos motivos, e digo pessoas, porque não são somente jovens iniciando sua jornada adulta, são crianças curiosas querendo a distração dos livrinhos infantis, adultos procurando a qualificação tão exigida pelo mercado de trabalho ou algumas horas de sossego para ler um bom livro, e, claro, os idosos, que buscam se atualizar com as modernidades e ao mesmo tempo cultivar a nostalgia dos velhos tempos, presente nas literaturas. Torna-se fácil entender o fascínio que os livros causam. Neles estão traduzidos os pensamentos das mentes mais simples até as mais brilhantes, e ressalto que cada um desses pensamentos tem o seu devido valor, pois independente da sua complexidade sempre ajudam também as pesquisas que tanto tempo levaram de estudo, dedicação, paciência e, porque não, de amor para descobrir as fórmulas que nos auxiliam no dia a dia, sejam essas descobertas das ciências exatas, biológicas, sociais e tantas outras que nos facilitam a vida, que nos indicam caminhos, e ainda as literaturas que nos fazem viajar a lugares distantes sem sair da cadeira, a tempos remotos ou ao futuro que solta a nossa imaginação. Travamos uma eterna guerra para manter esses mesmos livros, que armazenam tamanha informação, livres da ação do tempo, da voracidade dos insetos e do uso constante. Porquanto são preciosos cada um a seu modo, uns um pouco mais por serem edições raras ou um pouco menos, mas todos de extrema importância. Aqui as horas passam despercebidas, fluem calmamente enquanto um universo de mentes em pleno desenvolvimento suprem suas necessidades, de aprendizado e treino da matéria para a prova que acrescenta um pouco mais ao seu rol de conhecimento acadêmico, da eterna busca em obter as respostas para as dúvidas que nos intrigam, para as perguntas existenciais que constan-

Fotógrafos: (1, 2, 4, 5) Rogério Pires, (3) Daniel Zimmermann e (6) Mauro Schramm

A eterna busca de conhecimento


Fotógrafos: (1, 2, 4, 5) Rogério Pires, (3) Daniel Zimmermann e (6) Mauro Schramm

(1) Universidade Aberta - exposição de livros (1999); (2) Setor de empréstimo da Biblioteca (2004); (3) Performance dos alunos de Artes e Letras da FURB no Salão Angelim (2011); (4) Apresentação teatral Navemaluca (2004); (5) Espetáculo “Fulaninha e dona coisa” do Grupo Traço Cia de Teatro durante o 22º FITUB (2008); (6) Apresentação da Orquestra da FURB no interior da Biblioteca Universitária Prof. Martinho Cardoso da Veiga (2016).

temente nos assolam, das descobertas que muitas vezes vêm acompanhadas da surpresa, por serem inesperadas e esclarecedoras ou ainda daquele momento de descontração, de tentativa de fuga da realidade, da rotina maçante, de voltar a ser criança e fantasiar com as mais belas estórias da literatura. O silêncio que traz a sensação de tranquilidade e o conforto que deixa a mente livre para se expandir, para absorver aquilo que veio buscar, o silêncio tão necessário, tantas vezes solicitado quando os ânimos saem do controle habitual, que pode ser tão opressor quanto libertador, sim ele é complexo e caminha juntamente com o parceiro barulho; eles simplesmente se completam e muitas vezes precisam se opor para que se possa usufruir das demais atividades que a Biblioteca tem a oferecer, porque no fim das contas ela não é somente um grande depósito de livros, é também cultura, com suas apresentações de dança, com o som ordenado da orquestra ou lançamento de uma exposição, é lugar de novas ideias, de mostrar arte ou um olhar diferente do que já conhecemos e é, acima de tudo, um lugar de encontros pra estudo e troca de opiniões. E, diante de tudo isso, conseguimos perceber o quanto ambos, silêncio e barulho, não conseguem existir um sem o outro. Nesse ambiente, todos são iguais, não existe distinção de idade, etnia, credo ou posição social. Podemos dizer que estamos bem perto do conceito da Torre de Babel. Temos uma grande variedade de idiomas que vêm até nós pelos alunos de intercâmbio e até mesmo por estrangeiros que vieram conhecer a cidade ou decidiram fixar suas raízes no nosso Município. Afinal, a Biblioteca Universitária é pública e qualquer pessoa pode ter acesso

a ela. Temos formas de comunicação diferenciadas para aqueles que por qualquer motivo não consigam se comunicar em palavras, temos adultos, crianças e pessoas especiais, que, apesar de suas dificuldades, demonstram o quanto são fortes e não têm medo de ir ao encontro do que desejam. Mas, independentemente das diversidades, todos buscam o mesmo objetivo: querem preencher suas mentes com conhecimento ou condicionar o cérebro a ser sempre mais curioso e esperto. Sabemos que esses são apenas alguns dos objetivos, dentre tantos outros que os trazem à Biblioteca. E isso é extremamente compensador, porque percebemos o quanto podemos ajudá-los em sua busca. Enfim, a Biblioteca Universitária é o lugar em que podemos desenvolver aquilo que nos torna únicos, que nos faz melhores e que nos inspira a um futuro totalmente novo. O conhecimento é algo poderoso! Nada além da própria natureza, que nos impõe o tempo, pode tirá-lo de nós. E é até redundante dizer, mas, trata-se da mais pura verdade: aquele que não conhece seu passado como indivíduo, como povo e como sociedade, torna a cometer os mesmos erros do passado. Logo, diante dessas boas lembranças e expectativas, comemoramos os cinquenta anos da Biblioteca Universitária e queremos comemorar ainda muitos mais, porque são cinquenta anos oferecendo um pouco daquilo que buscamos em todos os lugares: o conhecimento.

NOTA 1 Servidora da FURB lotada na Biblioteca Universitária desde 2014. 77


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Infográfico originalmente publicado na edição número 92, 2018/1, da Revista de Divul79 gação Cultural (RDC) da Editora da FURB.


Índice de fotos das crônicas Vista interna da Biblioteca Central. Crônica: Biblioteca

Vista panorâmica do interior do prédio da Biblioteca Central (1986). Crônica: A Biblioteca do ontem, do hoje e do amanhã

Biblioteca Central no Bloco A (1984). Crônica: Um instante entre estantes

Exposição “Grafos” da artista Maristela Silveira no Salão Angelim (2015). Fotógrafo: Carlos Silva Stellmaker. Crônica: A Biblioteca e as palavras de Picasso

Paisagem externa vista pelas janelas da Biblioteca Central (1986). Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos. Crônica: A boa ação do dia

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Mural de Terracota do artista Alberto Cedrón (1986). Fotógrafo: Raimundo Pereira dos Santos. Crônica: Hoje de manhã

Consulta do acervo em diferentes décadas. Crônica: Ela me legitimou

Filmagem do curta-metragem Dicionário, baseado no conto “O Guarda Noturno” de Lindolfo Bell (2011). Fotógrafo: Darlan Jevaer Schmitt. Imagens do curta-metragem. Crônica: Entre livros e cavalo(s)


Vista das dependências da FURB pela rua Antônio da Veiga (1969). Fotógrafo: Guenther Shroeder. Crônica: Perfeita imitação de uma mente divina em escala comunitária Vista parcial do acervo na Biblioteca Central. Crônica: Entre os livros da Biblioteca

Vista parcial do acervo na Biblioteca Central. Crônica: Tempos idos

Ficha utilizada para controle de empréstimo. Empréstimo de livro (1994). Fotógrafo: Artur Moser. Crônica: Imortalidade

Vistas internas da Biblioteca Central (1989). Fotógrafo: Francisco José Cosas. Crônica: Três anos em um mundo paralelo no universo da biblioteca

Capas de revistas do Portal de Periódicos da FURB. Crônica: Um importante membro da BU Relógio do sol construído por Felix Peyrallo Carbajal, e Biblioteca Central ao fundo. Crônica: Livros, Pessoas e o Tempo

Apresentação da Orquestra durante as comemorações dos 48 anos da FURB no Salão Angelim (2012). Fotógrafo: Eduardo Sofiati. Crônica: O coração da FURB

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Uma biblioteca pode ter tudo, inclusive livros  

O livro “Uma biblioteca pode ter tudo, inclusive livros” é uma publicação em comemoração aos 50 anos da Biblioteca Universitária da FURB. A...

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