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COLABORADORES Darlan Jevaer Schmitt. Historiador e professor. Mestre em História pela UDESC. Servidor técnico-administrativo da FURB desde 2000 e diretor da Biblioteca Universitária entre 2011 e 2017. Dimas da Cruz Oliveira. Pesquisador e professor, autor de Galilée, publicado por Le Nègre Éditeur, Aix en Provence, 2009. Darlan J. Schimitt

Gabriel Quinelo. Artista plástico curitibano. Estudou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Há 10 anos reside em Blumenau. Fabrício Bittencourt. Estudante de filosofia e assistente editorial na Editora da FURB. Autor de contos publicados nas antologias Conte uma Canção e Projeto Beta.

Dimas da Cruz Oliveira

Magali Moser. Doutoranda em Jornalismo na UFSC. Mestre pelo mesmo programa. Atuou como professora substituta da FURB entre 2014 e 2017. Eduardo Götzinger. Historiador formado pela Universidade Regional de Blumenau e auxiliar de biblioteca na FURB desde 2014.

Luiza Corrêa de Lyra. Psicóloga graduada pela FURB. No momento é servidora pública da Prefeitura de Guabiruba (SC). Eduardo Götzinger

UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU REITOR João Natel Pollonio Machado VICE-REITOR Udo Schroeder

EDITORA DA FURB CONSELHO EDITORIAL Edson Luiz Borges Helena Maria Zanetti Orselli Moacir Marcolin Juliana de Mello Moraes Roberto Heinzle Márcia Oliveira Maria José Ribeiro EDITOR EXECUTIVO Maicon Tenfen ARTE Capa: Gabriel Quinelo Fotos da capa: Jhone Theiss Arte final: Fabrício Bittencourt Diagramação: Fabrício Bittencourt DISTRIBUIÇÃO Edifurb

Clóvis Arlindo de Sousa. Profissional de Educação Física, Doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, Professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da FURB. ISSN 0103-6033

Gabriela Frischknecht. Psicóloga, Doutora em Psicologia pela UFSC, Professora no Departamento de Psicologia da FURB.

Magali Moser

Mariane Bittencourt. Psicóloga e professora. Pesquisadora em “Promoção à Saúde e Integralidade do Cuidado” no Mestrado em Saúde Coletiva da FURB.

Carlos Roberto de Oliveira Nunes. Psicólogo, Doutor em Psicologia pela USP, Professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da FURB.

Thiago Kistenmacher Vieira

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Thiago Kistenmacher Vieira. Graduado em História pela FURB. Escritor de contos. Atualmente estuda para ingressar no mestrado em Filosofia.

LOGOMARCA A logomarca da nova RDC foi desenvolvida pelos estudantes do Curso de Publicidade e Propaganda da FURB, sob a orientação da Profa. Fabrícia Durieux Zucco. A eles os nossos agradecimentos. A RDC é uma publicação semestral da Editora da FURB. As opiniões expressas nas matérias e nos artigos são de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores. INTERESSADO EM SE TORNAR COLABORADOR? Rua Antônio da Veiga, 140 Bairro Victor Konder 89012-900 – Blumenau – SC E-mail: editora@furb.br Fone: (47) 3321-0329 DÚVIDAS, SUGESTÕES, COMENTÁRIOS: editora@furb.br

www.furb.br/editora

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SUMÁRIO Capa. Gabriel Quinelo Entrevista, 06

Muito além dos livros

Entrevista com Bráulio Maria Schloegel

História, 12

O cinquentenário de uma Senhora Biblioteca

Um pouco da trajetória de meio século da Biblioteca da FURB

Fotografia, 20

A geografia do sertão

Um ensaio sobre a região símbolo da brasilidade pelas lentes da jornalista Magali Moser

Saúde, 28

Estilos de vida saudável

Benefícios e estratégias para adesão à prática de exercícios físicos Música, 31

Ouvindo Jazz

A música do sul dos Estados Unidos que embalou o mundo Especial, 36

Os 200 anos de Karl Marx O espectro do filósofo alemão ainda paira sobre o mundo Artes, 44

Os 100 anos dos dias que abalaram o mundo das artes

A Revolução Russa provocou agitação entre os artistas da época, que inovaram de forma singular

Perfil, 52

Um certo Erico Verissimo

A vida de um dos maiores escritores brasileiros do século XX Clássico, 57

Crônicas de Olavo Bilac

O que escreveu o “príncipe dos poetas” sobre a Guerra de Canudos Conto, 62

Cabelinho de fogo

Conto inédito da escritora paulistana Fernanda Tanizaki Poesia, 66

Reflexos de uma vida Poemas de Cezar Zillig

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ENTREVISTA

Biblioteca pode ter tudo, inclusive livros!

Durante anos Diretor da Biblioteca Universitária da FURB, Bráulio Maria Schloegel comenta sua experiência na direção, fala sobre cultura e conta histórias únicas sobre sua passagem pela Universidade

A trajetória de Bráulio Maria Schloegel é curiosa. Formouse em Museologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, nos anos 1970, e logo depois se tornou Bacharel em Direito pela Universidade de Blumenau (FURB). Ao currículo acrescentou especializações nas áreas de documentação, arquivo e bibliotecas. Profissionalmente, iniciou suas atividades na FURB em 1968, atuando como professor no Departamento de Direito. Atuou ainda como superintendente de administração, membro do Conselho Editorial da Edifurb, diretor da Revista de Divulgação Cultural e do Núcleo de Atividades Culturais da FURB. Atuou também como vice-reitor da universidade entre 1982 e 1986. Aposentou-se em dezembro de 1995.

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Durante 27 anos Bráulio se dedicou à Biblioteca da FURB, onde plantou e colheu vários frutos, entre eles o atual prédio da instituição, inaugurado em 1986, que abriga um acervo de 400 mil títulos. A entrevista a seguir ocorreu nas dependências na Livraria Universitária e contou com a participação dos historiadores Darlan Jevaer Schmitt e Eduardo Götzinger (ambos servidores da Universidade), e de Fabrício Bittencourt, estudante de filosofia e assistente editorial na Edifurb. Ao entrevistado e aos entrevistadores, nossos sinceros agradecimentos. Maicon Tenfen

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Jhone Theiss

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Jhone Theiss

Dentro da Livraria da FURB, olhares atentos por parte dos entrevistadores ao entrevistado, décadas de experiência sendo relatadas em cada questão respondida.

Darlan: Eu gostaria que o senhor contasse sobre o início, como veio parar na Universidade e, mais especificamente, na Biblioteca. Bráulio: Meu começo tem muita relação com a própria criação desta Instituição. Eu trabalhava na Biblioteca Pública Municipal com o José Ferreira da Silva e ao mesmo tempo tinha iniciado a faculdade de Direito em Itajaí. Tínhamos um diretor que começou a perseguir os alunos por causa de 1964, então fizemos um movimento com alguns professores que lecionavam para nós para criar a faculdade de Direito aqui na FURB. Em 1967 foi criada a Fundação Universitária de Blumenau, em 1968 a Fundação Universidade Regional de Blumenau e em 1969 o Conselho Federal de Educação não permitiu que fosse criada uma Universidade. Então voltamos atrás, criamos a Fundação Educacional da Região de Blumenau e o Dr. José Fernandes da Câmara Canto Rufino e o Prof. Martinho Cardoso da Veiga disseram: pois bem, agora precisamos de uma biblioteca. Fabrício: Foi aí que eles pensaram no senhor para a Biblioteca aqui da Universidade? Bráulio: Naquela ocasião o Diretor Geral da Instituição era o Prof. Martinho Cardoso da Veiga e ele me chamou para deixar

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a Biblioteca Municipal. Ele era muito hábil na área política e conseguiu que eu saísse de lá e viesse para cá.

A biblioteca pública era um centro cultural da cidade: havia clube de cinema, salão de artes, clube de gravuras. Isso nós trouxemos um pouco para cá. Não se desejava uma biblioteca somente para estudantes, mas também para a comunidade. Eduardo: O que era a Fundação na época? Bráulio: Era a união da Faculdade de Ciências Econômicas de 1964 e as duas novas faculdades criadas, de Filosofia e de Direito. O prof. Martinho Cardoso tinha uma das maiores bibliotecas de contabilidade, de direito, de ciências, de advocacia e ele deixou tudo aqui. Para vir para a Universidade era difícil porque naquela época a criação da Universidade exigia carta consulta para iniciar a faculdade. Também existia um movimento chamado

“Queremos nosso diploma” da Faculdade de Ciências Econômicas, que estava formando a primeira turma e ainda não tinha o diploma. Aí começou, é claro, um movimento no Conselho Federal de Educação pelo reconhecimento destas faculdades. Maicon: Então o senhor se formou na FURB. Começou em Itajaí, mas se formou aqui. Bráulio: Sim, eu me formei na FURB. Mas em 1969 eu interrompi o curso de Direito para cursar Biblioteconomia na primeira turma da UFSC. Eu ia todo dia de Blumenau para Florianópolis e não havia rodovia. A biblioteca pública era um centro cultural da cidade: havia clube de cinema, salão de artes, clube de gravuras. Isso nós trouxemos um pouco para cá. O Martinho não desejava uma biblioteca somente para estudantes, mas também para a comunidade. E mesmo como aluno, eu vinha aqui para atuar, estudar e cuidar da biblioteca. Darlan: E era só o senhor? Bráulio: No início, sim. Depois veio o primeiro funcionário, quando a Biblioteca ainda era na Escola Julia Lopes de Almeida, João Wanke. Fabrício: Vocês ficaram muito tempo na Escola Julia Lopes de Almeida? Bráulio: Nós viemos para cá em 1969, quando foi inaugurada a sede própria da

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Jhone Theiss

Sobre o processo de federalização da FURB: “Desde o início eu achei que era impossível. Como professor de Direito, como jurista, achava algo dificílimo.”

Universidade. Toda a parte superior do Bloco A ficou para a Biblioteca. A parte de trás eram os laboratórios. Depois tomamos também toda a parte da frente do Bloco Z e posteriormente a parte de trás do Bloco A. Eduardo: E a Biblioteca Central? Bráulio: Fiz uma proposta para o Conselho da FURB de dirigir toda a aquisição. A medida que avançava o semestre, fazíamos a aquisição de obras e contávamos com doações. Ao mesmo tempo, tínhamos o interesse de recuperação do acervo, já que o Regime Militar havia acabado com grandes editoras brasileiras. Então eu ia para São Paulo e Rio de Janeiro para adquirir obras. As bibliografias especializadas nós adquiríamos fora. Fabrício: Quanto ao acervo, já no início instituíram alguma política de doação? Bráulio: Numa época de política de doação, tomávamos cuidado porque quem doava, doava muito entulho, então tínhamos que trabalhar com cuidado. Darlan: Isso continua até hoje, não mudou! (Risos). Eduardo: Mas como era feita a escolha do material que deveria compor o acervo? Bráulio: A FURB colocava a cadeira de antropologia, os professores colocavam as

obras necessárias, íamos nos sebos e encontrávamos o que precisávamos. O que fazíamos era ir nos grandes centros, São Paulo, Rio de Janeiro, vários sebos, pois eles compram bibliotecas inteiras. Tanto que para a FURB foi até mesmo oferecido como doação grandes bibliotecas particulares, mas isso é complicado, pois nesses casos queriam um cuidado especial que ainda não tínhamos.

Ao mesmo tempo, tínhamos o interesse de recuperação do acervo, já que o Regime Militar havia acabado com grandes editoras brasileiras. Então eu ia para São Paulo e Rio de Janeiro para adquirir obras. As bibliografias especializadas nós adquiríamos fora.

época eu era vice-reitor e pró-reitor de administração, então construímos um grupo de trabalho. Foi a primeira construção com laje nervurada. Acharam que era um absurdo, mas era uma questão de acústica e trouxeram um cara lá da federal, um indiano, um especialista no assunto, para discutir a questão. Na discussão do acervo, eu envolvi todos os bibliotecários. Já tínhamos, na época, cerca de oito bibliotecários e todos os nossos bibliotecários tinham uma boa formação com especialização. Então tínhamos gente boa trabalhando. O grande reconhecimento da FURB foi a Biblioteca, as pessoas que vinham aqui para fazer avaliação da instituição e, após ver a biblioteca, não precisava dizer mais nada. Ela foi uma grande referência. Fabrício: Professor, será que com a revolução tecnológica que estamos passando, do papel para o digital, as bibliotecas não correm o risco de desaparecer? Bráulio: Biblioteca pode ter tudo, inclusive livros.

Eduardo: Como é que foram os percalços para a construção do prédio da Biblioteca?

Eduardo: Uma curiosidade: não houve uma parceria entre FURB e UDESC para que fosse ofertado o curso de Biblioteconomia aqui?

Bráulio: Primeiro trouxemos o Cláudio Mosqueteiro, um arquiteto especialista, para ajudar a pensar a construção. Na

Bráulio: O curso de Biblioteconomia da UDESC, nos anos 80, parou dois anos para revisar o currículo. Eu conversei com o

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Raimundo Pereira dos Santos - CMU/FURB

Funcionários da FURB transportam livros do antigo espaço da Biblioteca, então no localizada no segundo piso do Bloco A, para o prédio construído em 1986.

reitor para trazer esse curso para a FURB e aqui foram oferecidas duas turmas. Aproveitamos os professores da UDESC e isso foi importante. Muitos dos nossos bibliotecários foram formados nesse curso. Então a biblioteca está nesse estágio porque ela foi bem cuidada.

Péricles Prade. A Priscila era uma grande fotógrafa de revistas nacionais e o Alexandre, músico, era filho do Péricles. Tínhamos o Lindolf Bell, todos os poetas nossos por aqui. E aí começamos a publicar livros com a editora num convênio com a Livraria Acadêmica.

Darlan: Queria que o senhor falasse sobre o papel de efervescência cultural que a Biblioteca tinha diante da cidade. Porque aqui em Blumenau os pontos mais importantes eram a Biblioteca Pública, hoje Fundação Cultural, o Teatro Carlos Gomes e a Biblioteca da FURB.

Eduardo: E o Departamento de Cultura da Universidade?

Bráulio: Eu tinha uma ideia de biblioteca pública para a cidade, mas minha visão era pautada na visão do André Malraux, que foi secretário da cultura do Charles de Gaulle. E o André Malraux tinha um projeto da casa de cultura, afinal o maior faturamento da França é com Cultura. Blumenau tem uma tradição com música, cultura, literatura etc., e essa ideia era fixa para a Universidade. O nosso nome como Regional se devia ao fato de termos unidades em Brusque e em Rio do Sul. Então nós fazíamos esse trabalho: aqui na Biblioteca fazíamos a exposição e tínhamos um grande crítico de artes plásticas, o Prof.

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Bráulio: Todo mundo vinha aqui fazer algum movimento e a Universidade dava espaço para isso. O Departamento de Cultura nasceu assim. Exposições, happenings, teatro. Aquela Olga Reverbel, a mulher do maior historiador do Rio Grande do Sul, Carlos Reverbel, criou esses festivais de Teatro. Tudo aqui dentro. A Teresinha Heimann trabalhou na área de cultura, o Wilson Nascimento foi cuidar da parte de imprensa. Maicon: Professor, mudando um pouco de assunto, gostaria de perguntar sobre o Movimento FURB-Federal. O que o senhor enxergou nisso? Bráulio: Desde o início eu achei que era impossível. Como professor de Direito, como jurista, achava algo dificílimo. Principalmente porque eu conhecia, por den-

tro, o Conselho Federal de Educação. É claro, eu observei o movimento, que era um movimento político. O que eu vi foi muita gente, de um ponto de vista político, se aproveitando disso. Mas não havia uma base técnica. Eu gostaria que isso pudesse ser transformado. Mas a própria universidade federal, que tentou algo, sempre demonstrou medo em relação à FURB. Eles apenas contemporizaram por ser algo político. Esse movimento da federalização da FURB estava descontextualizado. Houve um momento de clima favorável internamente, mas não externamente. Maicon: E atualmente, quais são seus projetos? Bráulio: Hoje eu estou escrevendo, fazendo pesquisa e dando consultoria na área de patrimônio histórico. Eu fui Presidente da Fundação Cultural de Blumenau por oito anos no governo do prefeito Décio Lima. Fui conselheiro do Conselho Estadual de Cultura na época do governador Esperidião Amim por quase seis anos. O governador Luiz Henrique da Silveira pediu para que eu ficasse, mas eu disse que não. Eu fui da Câmara de Patrimônio Histórico e da Câmara de Letras.

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Fotos: CMU/FURB

As diversas fotos desta página ajudam a ilustrar um pouco do processo de construção do principal prédio da Biblioteca Universitária da FURB, passando pela sua fundação até a vinda do então Ministro da Educação, Marco Marciel, para a inauguração da obra.

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Daniel Zimmermann

A Biblioteca tem sido palco de vários eventos, como durante o 23º FITUB (Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau), quando ocorreu, na sacada do prédio, uma intervenção artística de um grupo de teatro do Rio de Janeiro.

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HISTÓRIA

O cinquentenário de uma Senhora Biblioteca Completando meio século de existência, a Biblioteca Univertária da FURB coleciona, além de livros, diversas histórias

Darlan Jevaer Schmitt Fabrício Bittencourt

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calor era terrível. Mas era justamente para aquela época, fevereiro, que haviam marcado a inauguração do novo prédio da Biblioteca. Não havia o que fazer, apenas aceitar esse fato e se ajustar de acordo com o contexto. Seria uma solenidade memorável e carregada de pompa. Até mesmo um senador, Jorge Bornhausen, e um ministro, Marco Maciel, estariam presentes na ocasião, além do governador catarinense. Era 7 de fevereiro de 1986.

Na época, entre os vários funcionários da Biblioteca, estava Roberto Bernhard Disse — ou simplesmente Beto. Hoje ele está aposentado, mas trabalhou por 39 anos na Universidade Regional de Blumenau (FURB), sendo alguns destes como bibliotecário. Na época em que houve a inauguração do novo prédio, esteve profundamente envolvido com os preparativos — ajudou na disposição e transporte dos cerca de 180 mil volumes que havia na época do antigo para o novo

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prédio, além de fabricar algumas caixas acústicas para a solenidade. Desse modo, conta ele, ocorreu uma série de intermináveis solenidades e discursos. Na verdade, tudo ocorreu a partir de três atos principais. No primeiro, logo na inauguração do prédio, foi descerrada uma placa em seu exterior marcando a data. No segundo, no hall de entrada da Biblioteca, foi assinado um termo que fazia da FURB uma Universidade. E, no terceiro, foi servido um coquetel.

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CMU/FURB

Com a inauguração de uma sede própria em 1969, a Biblioteca Universitária ganhou um espaço nobre no segundo andar do principal prédio da instituição.

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os anos 1960, em Blumenau, surgia, ainda que timidamente, uma proposta de Ensino Superior na Região. A Instituição que anos mais tarde viria a ser conhecida como Fundação Universidade Regional de Blumenau, ou FURB, surgiu como Faculdade de Ciências Econômicas de Blumenau, ou FACEB, precisamente em 1964. Ainda sem sede própria, a Faculdade utilizou de início as dependências da Escola Primária Barão do Rio Branco e logo em seguida as da Escola Básica Júlia Lopes de Almeida. Nesse momento surgiu a Biblioteca da Faculdade. Como a própria Faculdade estava integrada à Escola, foi também anexada a ela a primeira Biblioteca da Instituição, na qual estudantes universitários poderiam fazer consultas, pesquisa e leitura recreativa. Apesar de uma proposta de Ensino Superior ter já sido instalada em 1964, a Biblioteca foi instituída oficialmente em 1968. O curioso disso, ou melhor, o detalhe mais interessante, é que na época, havendo a necessidade de um acervo inicial, uma doação veio de alguém em particular, Martinho Cardoso da Veiga, o primeiro Reitor da Instituição. Até hoje, quem visita a Biblioteca encontra, logo na entrada, o busto de

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Cardoso da Veiga, cujo nome denomina o sistema bibliotecário geral da Universidade, que compreende a Biblioteca Central (Campus 1), a Biblioteca Setorial do Campus 2 e a Biblioteca Setorial do Campus 3. “Em 1970, entrei na FURB, qualificado como auxiliar de escritório, dia 11 de março. Era auxiliar de escritório, mas, na realidade, trabalhava na Biblioteca Central. Ela ficava no Bloco A, no segundo piso, onde hoje é a sala de reuniões da reitoria. A entrada era onde hoje é a Pró-Reitoria de Ensino, depois ela foi crescendo. Foi nessa época, com o Bráulio Schloegel como diretor da biblioteca, que se iniciou a classificação dos livros por assunto. A turma da biblioteca fez um curso de prática de biblioteconomia, eu fiz também, e devo dizer que foi um dos empregos mais gratificantes da minha vida, porque aquele era um lugar central da FURB, ali passava todo mundo, desde o reitor até a servente. A FURB se resumia aos blocos A, B, C e Z, o D nem estava feito. Então tudo se concentrava lá. “As primeiras classificações de livros eram coladas com um tipo de fita adesiva, no dorso dos livros. Tinha o Bráulio como diretor, o Vitório Felsky, a Ione, a Teresinha Heimann que eram as bibliotecárias. Tinha uma equipe pequena, mas muito interessante. Lauro Eduardo Bacca

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oje quem atravessa a passarela que liga as margens da Rua Antônio da Veiga, em Blumenau, dependendo da direção na qual está indo, dá logo de cara com a entrada da FURB — seu jardim, alguns marcos comemorativos, a logomarca da Instituição em uma das paredes brancas, sua fachada discreta. Adentrando no bloco principal da Universidade e subindo alguns lances de escadas em direção ao segundo andar, tudo o que vê são salas de diversos setores administrativos: algumas Pró-Reitorias, a Divisão de Tecnologia da Informação e uma grande sala que abrigará a Reitoria. Um ambiente que de maneira alguma permite imaginar que em décadas passadas, naquele mesmo local, havia estantes abarrotadas de livros. Integrada ao campus da Universidade, a Biblioteca passou a existir a partir de 1969. Afinal, somente a partir desta data foram inaugurados os primeiros prédios da instituição em terreno próprio. E com a Biblioteca funcionando no Bloco A, no primeiro andar, logo acima do hall de entrada da estrutura. O primeiro servidor da Biblioteca foi Braúlio Maria Schloegel, que tem seu registro como servidor da FURB datado de 29 de abril de 1968, ou seja, um dia após a fundação da Biblioteca da Instituição. Sua história profissional se confunde

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Raimundo Pereira dos Santos. CMU/FURB

Esperidião Amim, então governador catarinense, e Marco Marciel, Ministro da Educação, descerram a placa de instalação da Universidade e inauguração da Biblioteca.

com a história da Biblioteca da FURB. Foi o diretor que ficou mais tempo à frente da Biblioteca e foi o responsável pela formação de bibliotecários em nossa Região, trazendo o curso de biblioteconomia da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) para Blumenau e formando duas turmas. Foi professor e Vice-Reitor. Foi o responsável por liderar a equipe que fez a Biblioteca evoluir e ocupar um papel importante na Universidade, na cidade e na região. É natural que com o desenvolvimento da FURB desde o final dos anos sessenta, acompanhando tal expansão, a Biblioteca tenha ampliado seu acervo como forma de atender aos alunos dos mais variados cursos. Uma necessidade corriqueira, mas que fez com que tal órgão da Instituição se expandisse significativamente em seu acervo e espaço físico. Cabe destacar que a Biblioteca tornou-se central na Universidade. Os mais variados funcionários, antes de assumirem outros postos, passaram por lá, incluindo professores, antes de alcançar o magistério, que atuaram na equipe. Lauro Eduardo Bacca, hoje professor aposentado, mas muito conhecido no que diz respeito a assuntos ambientais, trabalhou na Biblioteca durante os anos 1970. Ele conta que chegou a fazer um curso práti-

co de biblioteconomia e que o período foi um dos mais satisfatórios da sua carreira. Afinal, por lá passavam todos, da servente ao reitor. “Precisávamos de uma biblioteca para ser reconhecida a universidade. Uma biblioteca que aliás é uma das mais bonitas do sul do país, vocês podem ver, só que não foi concluída ainda a outra parte. Antes de projetar, o professor Stênio (Stênio Ubirajara Calsado Vieira) foi visitar diversas bibliotecas de universidades brasileiras, no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, São Paulo e outras. Foi ele quem fez o projeto com a equipe do IPT. 0 executor do projeto foi o engenheiro e professor Wilson Lange. Eles tiveram muitas discussões, mas foi construída. O dinheiro para a construção foi pedido emprestado, era uma época de inflação galopante, (...) de 50% ou até 80% mensais. Aplicávamos o dinheiro por um mês e, com a renda, comprávamos o material a prazo. Com essa inflação, fomos construindo (...) levamos dois anos para construir.” Arlindo Bernardt

Uma Biblioteca que ocupava somente um bloco do tamanho de uma quadra de futsal passou a ocupar três depois de alguns anos. A expansão do acervo tor-

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nou-se problemática, pois a sobrecarga dos livros nas estantes despertava preocupações. Assim passou-se a pensar na possiblidade de um novo prédio. Também havia a necessidade de uma Biblioteca que correspondesse ao porte de uma Universidade. Curiosamente, construir um novo prédio não se demonstrou tarefa simples. Segundo o que conta Antônio Moacyr Pereira, na época muitos foram contra, considerando a construção de uma nova Biblioteca uma dívida que a Instituição não deveria contrair sob o risco de não poder pagá-la. Tanto que, como forma de contornar a situação e conquistar a aprovação do Conselho Curador (que, na década de 1980, tinha as atribuições de um Conselho Administrativo), foi organizada uma reunião na própria Biblioteca. Na ocasião, naturalmente, se fez presente Bráulio Maria Schloegel. Foi a ele dada a tarefa de repassar aos presentes a situação. Enfim foi aprovada a construção de um novo prédio. O Reitor na época era Arlindo Bernhardt — figura importante no processo de transformação da Instituição em Universidade — e ele conta que, para se erguer o prédio, tomou-se um empréstimo em vistas de viabilizar a construção. Como na década de 1980 vivia-se um pe-

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Rogério Pires. CMU/FURB

Sendo um espaço central na universidade, exposições e apresentações artísticas têm ocupado a Biblioteca, como a orquestra da FURB, na época regida por Frank Graf.

ríodo de inflação galopante, o dinheiro do empréstimo era aplicado num banco e, com o valor dos juros, comprava-se o material de construção. No final das contas, a edificação levou dois anos. Mas quando a Biblioteca ficou pronta, impressionou. A construção do prédio, muito mais do que uma Biblioteca Central, foi o pontapé decisivo para o reconhecimento da FURB enquanto instituição universitária. Dessa forma, em 1986 o Ministro da Educação Marco Antônio de Oliveira Maciel — anos mais tarde Vice-Presidente da República — veio à FURB para descerrar a placa de instalação oficial da Universidade.

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asseando-se atualmente pelos corredores da Biblioteca é impossível imaginar todos os detalhes que compõem a sua história — as paredes acinzentadas de seu interior nada revelam. Sobese alguns degraus na entrada, à direita pode-se ver a placa comemorativa de inauguração do prédio, passa-se pela porta, é possível ver à esquerda uma série de guarda volumes e, à direita, um espaço nobre, o Salão Angelim, destinado a diversas manifestações artísticas. Passando-se pela catraca logo se veem diversas estantes e seus livros, divididos em áreas e assuntos. O que mais impressiona é o tamanho do local, mais de 8 mil m², algo próximo ao tamanho de um campo de futebol. O objetivo com esse passeio é o quinto nível e, mesmo havendo um ele-

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vador, quarenta e oito degraus de escada separam o térreo do quinto nível. Lá, local onde estão disponíveis jornais e revistas para consulta, trabalha Pedro Carlos Garcia de Freitas — ele está na Biblioteca desde 1988. “Na época em que foi concedida a verba para fazer a primeira parte da atual biblioteca, ninguém queria dar garantias, todo mundo era contra, achavam que a FURB iria fazer uma dívida e depois não teria como pagar. Aí eu, como membro, propus que se fizesse a próxima reunião do Conselho Curador dentro da Biblioteca Central. Falei com o Bráulio, diretor da biblioteca, para preparar a situação, ele teria que responder o que lhe fosse perguntado e dar várias informações. Eu já tinha deixado prontas algumas perguntas, para os membros do Conselho poderem sentir os problemas da biblioteca. “O problema econômico: os empresários só querem valores, eles não querem saber quantos livros tem, se estão sendo utilizados, as consultas... isso não é um valor para eles. Comecei dizendo: ‘Vocês sabem quanto pesa uma prateleira dessas? Duas toneladas por metro quadrado!’. ‘Tanto!!’ ‘Pois é, a estrutura não agüenta mais...’ A biblioteca ficava no segundo andar do Bloco A, tínhamos que fazer uma biblioteca nova. Aquelas perguntas iam mostrando a diferença, fazer esse tipo de avaliação, de volume, de peso, de risco. Num instante foi aprovado.” Antônio Moacyr Pereira

A possibilidade de conversar com ele ajuda a compreender os diferentes retratos de uma mesma Biblioteca e as transformações pelas quais ela passou. Ali, ao longo dos anos, Freitas ocupou diversas funções, trabalhou no empréstimo, cuidou do guarda volumes e até mesmo da reposição de livros nas estantes. Mas na maior parte do tempo se ocupou de exercer suas funções em dois ambientes, um deles, dos periódicos. É difícil imaginar em uma época informatizada e com tão fácil acesso à informação como a atual, que nos anos 1990, como conta Pedro, eles fotocopiavam os sumários das revistas recebidas para, em seguida, encaminhá-los aos diversos departamentos. O objetivo era que os professores tivessem consciência do que estava sendo recebido na Biblioteca e então acessar o material. Freitas, que também foi responsável durante muitos anos pelo Ambiente Multimídia da Biblioteca, fez questão de apresentar até a sala onde trabalhava, ou o que restou dela. Durante muitos anos a Biblioteca foi responsável pela aquisição de material de vídeo a ser utilizado por professores em sala de aula. Esse material era adquirido em fitas, as famosas VHSs, do mesmo modo que muitos programas de Televisão também eram gravados, a pedido de professores. Assim, durante anos, para esses fins, foram usadas VHSs e, depois, DVDs. Já não se usam mais videocassetes em sala de aula. Mesmo assim, diversas

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CMU/FURB

Pelos corredores da Biblioteca da FURB passam milhares de alunos, ex-alunos e servidores, que chegam a tomar emprestrado mais de meio milhão de obras por ano.

VHSs podem ser vistas em estantes, todas muito bem cuidadas e sem sinais de mofo. Na sala, obras de arte também podem ser vistas, pois a Biblioteca também é responsável por elas. Ver as fitas é remontar um passado que não volta mais. Já não vemos o mundo através de fitas magnéticas, mas por serviços de streaming e sites como o Youtube.

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ezoito anos depois da inauguração do prédio, a Biblioteca passaria por uma nova transformação. Na verdade o que ocorreu foi uma ampliação em vistas de melhor abrigar o acervo. Em 2004, no quadragésimo aniversário da FURB, ficou pronta uma nova parte do prédio. A construção, que antes contava com três níveis, passou a ter seis. O espaço, inclusive, mais que dobrou, possibilitando que, na medida dos anos, fossem ampliados os títulos e a disposição deles ao longo de todo o ambiente. Vale a pena citar que, ao longo dos anos, sucessivas transformações levaram a Biblioteca de um espaço de armazenamento de livros, pesquisas e leitura a algo diferenciado — algo até mesmo necessário, na medida em que o acesso ao conhecimento, diante do advento da internet, já não se dá prioritariamente nesses ambientes. Existe a realização de exposições culturais ali dentro, por vezes a própria Orquestra da Universidade ocupa, momentaneamente,

algum espaço e por lá produz um ensaio aberto para o público presente. “Descobrimos que, para a inauguração do novo prédio da biblioteca, iam vir dois ministros, o Jorge Bornhausen, e o Marco Maciel, a coisa começou a criar vulto. Instalamos todo o nosso equipamento de som, até fabriquei algumas caixas acústicas rapidinho para serem utilizadas nessas solenidades. “Lembro que era quente, era fevereiro, e que calor. Era discurso e mais discurso. Na verdade foram três solenidades. Primeiro, a inauguração do prédio da biblioteca, onde foi descerrada a placa no exterior. Depois, todo mundo entrou no hall, onde hoje é o balcão de empréstimos, onde foi assinado o ato de transformação da Fundação Educacional da Região de Blumenau em Fundação Universidade Regional de Blumenau. Após feito isso, toda essa comitiva fez uma visita pela nova biblioteca. Em seguida foi servido um coquetel. Toda a comitiva subiu pelos corredores do Bloco G, indo até o nosso hall do Bloco A e descerraram uma placa em que instalavam oficialmente a nossa universidade.” Roberto Bernhardt Disse

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lém disso, para quem sobe os setenta e dois degraus da escada ou pega o elevador até o último andar, descobre o CMU, ou Centro de Memória Universitária, responsável por preservar os arquivos e, por consequência, a história da Instituição. No último nível também se

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encontra a Edifurb, ou Editora da FURB, que edita e publica a Revista de Divulgação Cultural (RDC), e o Espaço de Cinema e Vídeo, onde semanalmente são exibidos filmes e documentários variados, com entrada gratuita, para acadêmicos, servidores e comunidade.

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a década de 1960, quando foi definido o local onde seria construída a Universidade, ergueu-se primeiramente um marco memorial, até hoje existente. Nele foi inscrito, e ainda pode ser lido, “Unidos construímos a nossa Universidade”. Dadas as diversas histórias, e que não se encerram aqui, que compõe a existência desta Biblioteca, o mesmo pode ser dito dela: Juntos edificamos e cuidamos da nossa Biblioteca. É interessante pensar que já foram cinco décadas e que imagináveis teorias e leis foram pensadas entre suas paredes; que seus livros já levaram cada leitor ou pesquisador para novos mundos; ou ainda, quantas vidas foram modificadas pelas centenas de milhares de livros da Biblioteca Universitária Prof. Marinho Cardoso da Veiga. O tamanho destes 50 anos é imensurável para a Biblioteca da FURB e impossível de ser quantificado e qualificado pelo que ela fez, faz e ainda fará. Os depoimentos inseridos aqui e as informações citadas foram coletadas junto à Biblioteca Universitária e ao Centro de Memória Universitária da FURB (CMU).

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Fotos: CMU/FURB

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FOTOGRAFIA

A Geografia do Sertão Magali Moser

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temperatura média anual em dezembro em Serra Talhada — segunda cidade mais importante do sertão pernambucano, atrás apenas de Petrolina — é superior a 30º C. O calor é tão intenso que os comércios da região central costumam fechar as portas ao meio-dia e reabrir cerca de duas horas depois, prática adotada também em outras cidades da região. Nas ruas, mulheres carregam sombrinhas para se proteger da força dos raios solares. A vegetação se caracteriza pela caatinga, a aridez marca a paisagem e as estações do ano são apenas duas e não quatro — a estação chuvosa (chamada de inverno) e a estação seca (verão). A 415 quilômetros da capital Recife, o município de 80 mil habitantes reúne características atribuídas ao sertão nordestino. Longe do movimentado litoral disputado pelos turistas, configura-se um cenário, talvez, ainda pouco conhecido pela maioria da população brasileira, e, por isso mesmo, ainda incompreendido. Para além das cabras e bodes vistos com frequência nos acostamentos das rodovias, da estiagem que castiga, da fé exaltada nas estátuas pelo caminho em homenagem a Padre Cícero ou da criatividade dos poetas cordelistas e artesãos expostos à beira da estrada: a vida no sertão não cabe em estereótipos ou visões reducionistas, tal como as expectativas do que se “vai ver” ao ir ao nordeste. Há mais cores, tons e complexidades nesta região do que o cinza agonizante que costuma representá-la. Um local empoeirado formado por arbustos espinhentos e plantas cactáceas parece habitar o imaginário popular quando se fala em “sertão nordestino”, especialmente na região Sul do país. Com carcaças de animais à beira da estrada e paisagens marcadas pelo clima desértico, as representações em torno desta região costumam evocar as imagens de um imenso agreste seco, árido e deserto. Construídas por décadas e reproduzidas de forma recorrente — seja na literatura, no cinema ou na mídia de forma geral —, as narra-

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Um ensaio fotográfico sobre a região símbolo da brasilidade, mas também, talvez, a mais controversa e rotulada do país tivas predominantes tornaram o local um sinônimo da seca e da fome. Mas este fragmento do Brasil que corta nove estados é mais diverso do que se pode supor. Olhares singulares podem revelar espaços de diversidade de manifestações artísticas e culturais, além de lutas, resistências e enfrentamentos. Não por acaso, a região inspira Os Sertões, publicada em 1902 por Euclides da Cunha. A obra, considerada um marco na literatura brasileira, retrata o conflito ocorrido em Canudos, na Bahia. O livro não é uma exceção. O sertão vive em obras clássicas como na literatura de Graciliano Ramos em Vidas Secas (1938), na poesia de João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina (1955), no cinema de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e na pintura de Cândido Portinari em Os Retirantes (1944). Mesmo Guimarães Rosa, quando trata do Grande Sertão: Veredas (1956), embora tenha inspiração na população das Minas Gerais, recorre a associações com o nordeste do Brasil. Brasil profundo? Foram mais de 1 mil quilômetros percorridos entre a ida e a volta do litoral ao sertão nordestino. A bordo de um automóvel, saímos de João Pessoa (PB), passando por Recife (PE), até chegarmos ao sertão pernambucano, em dezembro de 2016. Entre surpresas, descobertas e vivências, somaram-se duas semanas de viagem. Descortinamos apenas um fragmento do que compreende todo o sertão

nordestino (se considerarmos que ele está presente em todos os nove estados que compõem a região Nordeste, desde o Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia). Mesmo assim, é difícil traduzir as sensações desencadeadas com a experiência de estar neste pedaço do Brasil que tanto ouvimos falar, mas tão pouco conhecemos, de fato. Quantas telenovelas dizem ter ali como cenário? Quando se está percorrendo muitos desses lugares, percebese o quão Brasil ali é. E também como este espaço está conectado às tecnologias e em contato com o restante do mundo, como várias outras partes — ou qualquer outra parte — do País. Associar a ideia de um “Brasil profundo” como desconectado do mundo não é mais uma visão que cabe no interior do nordeste atual. Em Serra Talhada, a presença da universidade federal criada nos últimos anos ajuda a ilustrar como a sensação de isolamento como resguardo de uma identidade nacional particular — ou mais original — não é precisa. Além de despertar memórias dos livros didáticos, aulas de História, fragmentos de filmes e obras da literatura universal, a região permite um encontro com uma versão de tantos brasis existentes em um País de área territorial grande. Se o sertão é lembrado pela falta de chuvas e falta d’água, também não pode ser dissociado de um dos maiores cursos d’água do Brasil e da América Latina, o Velho Chico. Mesmo assim, durante os períodos de estiagem, muitos lugarejos e municípios são abastecidos por carro pipa. O Brasil é

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Diferentemente de outras partes do país, a região semiárida do nordeste brasileiro se caracteriza pelo clima seco, quente e pela escassez da chuva.

detentor de 1/5 da reserva de água doce do mundo, mas a seca segue sendo um desafio para o sertão, desde tempos longínquos, o que de certa forma demonstra a falta de interesse em resolver o problema. Conhecer o sertão nordestino é um convite para pensar sobre as contradições e desigualdades que nos acompanham desde os tempos mais remotos no Brasil. Mas também é se permitir descobrir os encantos de uma região que surpreende pelas suas especificidades irrepetíveis noutros espaços. Serra Talhada é exemplo das diversidades que definem a região. Terra de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, também guarda o título de capital do Xaxado, dança típica originada no sertão pernambucano. Com uma população analfabeta superior a 11 mil pessoas, de acordo com o último censo de 2010 do IBGE, a pequena cidade também vive a expansão de unidades educacionais, exemplo disso é o campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Entusiasmante é perceber a ocupação do campus pelos estudantes inclusive aos finais de semana. (Quando estivemos lá, universitárias do curso de

Biologia faziam experiências no cactário num calor escaldante em pleno sábado. Fizeram questão de nos explicar as várias espécies encontradas na região, com ênfase para o mandacaru.) Pelas estradas do sertão nordestino, a vegetação quase sem vida a perder de vista. A cena de queimadas é frequente e chama a atenção. O umbuzeiro é a única árvore que se mantém verde na seca e, por isso, assume um símbolo de resistência. Nas entranhas do Brasil, a exemplo da espécie nativa do nordeste, há alegria, empatia e acolhimento peculiares de um povo acostumado em lidar com intempéries. As janelas abertas, cortinas em movimento e pessoas debruçadas sob o parapeito, admiram o (pouco) movimento do lugar, e observam a vida pelas janelas de suas residências. À noite, também é comum os moradores se reunirem em frente às casas. Eles levam cadeiras para as calçadas para jogar conversa fora, num hábito pouco comum em outras regiões do país. Algumas das características retratadas no clássico Geografia da Fome (1946), do médico e geógrafo Josué de Castro, podem ter sido ultrapassadas, outras não. A

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desigualdade social segue muito profunda. Josué de Castro escancarou há tanto tempo as causas estruturais da fome, mas elas permanecem. É no mínimo incômoda a constatação de áreas de fome na abundância de um país rico como o Brasil. Mesmo no sertão, com uma culinária tão rica, farta em tapioca com queijo de coalho, buchada de bode, suco de graviola, cuscuz, cocada, rapadura, feijão de corda e carne de sol — para citar apenas algumas das tentações gastronômicas do local. Este é apenas um elemento que traduz a complexidade de uma região controversa que merece ser mais conhecida e estudada. Para, assim, permitir ser desmistificada e redescoberta aos olhos dos próprios brasileiros. A nossa expectativa do que seja o nordeste pode ser comparada às expectativas que pessoas de outras regiões têm a respeito do Sul. Muitas viagens podem ajudar a mudar o ângulo como se pensa ver uma determinada área, mas também há aquelas que reforçam o que se buscava ver e encontrar. Cabe também a quem viaja estar disposto a se abrir e ver o que é inesperado, surpreendente e não imaginado, por isso, diferente.

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Os comércios do município de Piranhas, no sertão alagoano, parecem transportar os visitantes para um outro período. Lá se mantêm anotações em cadernetas.

Cabras, bodes e cabritos são vistos com frequência nos acostamentos das rodovias, embora, nos últimos tempos, eles estejam sendo substituídos por motocicletas no sertão.

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O campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco, em Serra Talhada, é rodeado por cactos. Há ainda um cactário no local à disposição de estudantes de Biologia.

A imponência do Rio São Francisco impressiona. Mesmo assim, durante os períodos de estiagem, muitos lugarejos e municípios são abastecidos por carro pipa.

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A vegetação predominante do sertão é a caatinga e o umbuzeiro é a única árvore que se mantém verde na seca.

O gado sofre diretamente os impactos da escassez hídrica. Em 1947, Luiz Gonzaga já cantava: “por falta d’água perdi meu gado, morreu de sede meu azalão”.

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Cenário de cinema, não por acaso Piranhas (AL) serviu de locações para filmes brasileiros como Baile Perfumado (1997) e Bye bye Brasil (1979).

As manifestações e culto à religiosidade estão presentes em todo o sertão. É comum encontrar altares e estátuas em homenagem aos mais diversos santos.

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O cajueiro pode ser encontrado em toda a região. É fonte de renda e sobrevivência para muitas famílias. A fruta típica é um dos principais produtos do desenvolvimento social e econômico da região.

O sol é um atrativo em toda a área que compreende o nordeste brasileiro. Ele costuma aparecer antes das 5h, mas se despede antes das 18h no sertão pernambucano.

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Ainda é possível encontrar pés de algodão pela região, embora o algodão nordestino tenha perdido a posição hegemônica como matéria-prima da indústria têxtil brasileira.

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SAÚDE

Estilos de Vida Saudável Carlos Roberto de Oliveira Nunes Luiza Corrêa de Lyra

Benefícios e estratégias para adesão à prática de exercícios físicos

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prática de atividades físicas, quando bem realizada, traz benefícios físicos, psicológicos e sociais. Já o estilo de vida sedentário implica em graves problemas de saúde, com repercussões sobre o bem-estar das pessoas e até mesmo sobre a economia do país. Portanto, o esforço coletivo em evidenciar a necessidade de adoção de estilos de vida ativos e promotores de saúde é muito válido. A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta para o grande número de mortes por ano atribuídas à atividade física insuficiente e ao sedentarismo, algo em torno de 3,2 milhões. Praticar atividades físicas e/ou exercícios físicos é uma maneira de prevenir doenças e reduzir custos de tratamentos médicos, que são onerosos aos cofres públicos e à própria pessoa. O exercício físico praticado regularmente pode ser um fator protetor para uma série de condições crônicas, como a obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão, câncer de mama, osteoporose e depressão. O alto índice de população acometida por estas doenças crônico-degenerativas já corresponde a 72% das causas de mortes no país. Estudos apontam para o fato da acelerada mudança de estilo de vida, no sentido da diminuição de atividades físicas, gerar consequências cada vez mais preocupantes para a saúde e para a qualidade de vida das populações. A maioria das pessoas pode aprimorar sua própria saúde e qualidade de vida com o aumento moderado da atividade

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diária. O nível recomendado atual de atividades físicas para obtenção de benefícios de saúde foi aconselhado pelo Center for Disease Control and Prevention e pelo American College of Sports Medicine (reforçado ainda pela OMS), é de 30 minutos por dia em intensidade moderada, sendo pelo menos 3 dias por semana para crianças e jovens de 5 a 18 anos, e 5 dias por semana para adultos entre 18 e 64 anos. Para os adultos, ainda pode ser considerado também 20 minutos por dia, 3 dias por semana, de atividades vigorosas, ou ambas as formas. No Brasil, o Ministério da Saúde divulgou os resultados da pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico - Vigitel, referente ao ano de 2011. Os dados apresentados demonstram um panorama desafiador para a área da saúde, pois cerca de 18 milhões de pessoas, correspondente a 14% da população adulta brasileira, não praticam qualquer tipo de atividade física em nenhum dos quatro domínios classificados: no trabalho, no deslocamento, em atividades domésticas ou em seu tempo de lazer. A população idosa aparece como o grupo mais propenso ao sedentarismo, visto que o percentual de praticantes de exercício como forma de lazer cai pela metade na faixa etária de 65 anos ou mais. A complexidade do assunto se dá na contradição, pois mesmo havendo senso comum acerca da compreensão dos bene-

fícios da prática físico-esportiva à saúde, inclusive com vasta veiculação midiática, grande parcela da população não a pratica com a mínima frequência recomendada. A mudança de hábitos das populações para estilos de vida mais ativos tem despertado o interesse crescente dos pesquisadores. Diversos fatores como os sociais, englobando relacionamento interpessoal e interprofissional, os psicológicos e os da percepção da capacidade motora, podem interferir na relação entre a adesão e a desistência de programas estruturados para estilos ativos de vida. Um dos objetivos e desafios das áreas de saúde, em especial da Educação Física, tem sido a formação de cidadãos que adotem estilos ativos de vida, com práticas regulares de exercícios físicos em sua rotina. O processo de adesão à prática de exercícios é complexo e envolve questões físicas, emocionais e motivacionais. As taxas de desistência variam de 9% a 87% entre indivíduos que entram voluntariamente para um programa de condicionamento físico, sendo maior nos três primeiros meses. Fatores como sexo, idade e nível socioeconômico influenciam na adesão ou desistência da atividade física, bem como o nível social e de escolaridade do indivíduo influenciam na determinação do conhecimento acerca dos benefícios da prática de exercícios físicos, ou seja, sujeitos de classes sociais menos favorecidas são os que menos praticam exercícios físicos. A compreensão desta relação fica clara se

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O exercício físico praticado regularmente pode ser um fator protetor para uma série de condições crônicas, como a obesidade e as doenças cardiovasculares.

considerado que o conhecimento sobre o exercício físico é parte do conhecimento geral, e que este está vinculado às condições sociais da população. A relação entre aumento da prevalência de obesidade e sobrepeso e a redução do nível de atividade física é influenciada por: 1) mudanças nos processos de trabalho, que se tornaram fisicamente menos exigentes ao longo da evolução tecnológica; 2) modificações nas atividades de lazer, que passaram de atividades de alto gasto energético, como práticas esportivas, para prolongados períodos diante de equipamentos eletrônicos, como televisão, tablet, computador e celular; 3) utilização crescente de equipamentos domésticos e familiares que reduzem os gastos energéticos em atividades, como as máquinas de lavar roupa, de lavar louça e os automóveis. Todas essas modificações contribuem para o aumento do comportamento sedentário, que desempenha uma função importante no desenvolvimento da obesidade. Alguns dos motivos para a adesão ao exercício físico em academias, destacados em pesquisas com jovens e adultos, são: 1) busca pela saúde; 2) melhoramento estético corporal; 3) socialização; 4) melhoria da aptidão física, isto é, da capacidade de realização de atividades da vida diária; e 5) bem-estar. Por outro lado, a desistência é atribuída à falta de tempo, preguiça, distância que o praticante deverá percorrer do seu trabalho ou da sua casa até a academia e ao alto custo das mensalidades. Em

pesquisa realizada com idosos com mais de 60 anos, os motivos considerados mais importantes para adesão à prática foram: 1) melhorar a saúde; 2) melhorar o desempenho físico; 3) adotar um estilo de vida saudável; 4) reduzir o estresse; 5) acatar prescrição médica; 6) auxiliar na recuperação de lesões e doenças; 7) melhorar a autoimagem; 8) melhorar a autoestima; e 9) relaxar. Para a permanência nos programas de exercícios físicos, os idosos apontaram como motivos mais importantes: 1) melhorar a postura; 2) promover o bem-estar; 3) manter-se em forma; 4) sentir prazer; 5) ficar mais forte; 6) receber atenção e incentivos do professor; 7) sentir-se realizado.

O fato é que a prática regular de exercícios físicos apresenta um papel muito importante na manutenção da saúde física e do bem-estar subjetivo do indivíduo, em qualquer fase da vida.

O reconhecimento dos motivos para a busca e para a manutenção em programas de prática de exercícios físicos pode facilitar o planejamento e a produção de programas mais eficazes. Neste sentido,

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para promover a adesão aos exercícios físicos, diversas estratégias podem ser aplicadas pelos profissionais de Educação Física, como a emissão de feedbacks sobre o desempenho do aluno, juntamente com o acompanhamento durante sua prática. Estes são fatores que motivam muitas pessoas à prática de exercícios em academias.

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o Brasil, existe o “Agita São Paulo”, desde 1996. Trata-se de um programa que promove mensagens sobre os benefícios da atividade física e do exercício físico, e coordena ações em mais de 600 municípios do estado de São Paulo, atingindo mais de 40 milhões de habitantes. O principal objetivo é promover a prática de atividades e exercícios físicos para a população. Indicadores específicos coletados no período de 1994-2004 indicam que houve aumento no número de praticantes de atividade física regular e diminuição na porcentagem de sedentarismo no estado de São Paulo. Um importante hábito a ser considerado para o processo de adesão se refere aos conteúdos de autoverbalizações; isto é, o que as pessoas falam para elas mesmas antes, durante e depois dos exercícios. O Treinamento Autoinstrucional consiste em uma técnica para mudança de comportamento pela qual se modificam as autoverbalizações (encobertas, em silêncio, ou em voz alta) que um sujeito utiliza ante qualquer tarefa ou problema, substituindo-as por outras que são mais úteis

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O processo de adesão à prática de exercícios é complexo e envolve diversas questões. As taxas de desistência variam de 9% a 87%, sendo maior nos três primeiros meses.

para a realização da tarefa. O objetivo é que a pessoa obtenha uma mudança em suas autoverbalizações para que depois modifique seu comportamento; ou seja, para que alcance uma melhora no nível do autocontrole de seu comportamento, cumprindo os objetivos estabelecidos. O estabelecimento de autofalas de incentivo, de recompensa e de modulação de comportamento, por exemplo, com autocorreções de gestos ou de intensidade, pode ter efeito benéfico sobre a adesão. No mesmo sentido de controle das autoverbalizações, existe o Método do Disco Quebrado, que consiste numa situação de debate na qual o indivíduo utiliza a estratégia de repetir seus argumentos, como forma de fortalecê-los. Repetições cotidianas de falas como “preciso praticar exercícios físicos regularmente” ou “se ficar sedentário, poderei ficar mais doente”, podem gerar um estado de angústia pela falta de prática de atividades e/ou exercícios físicos, mas, de outro lado, podem aumentar a força do comportamento de exercitar-se, especialmente se este for seguido de reforços positivos, como já mencionado. Considerando que esta estratégia pode gerar sentimentos aversivos, no caso do seu não cumprimento, é importante que o praticante e os profissionais envolvidos realizem um processo de tomada de decisão a respeito de sua aplicação, como técnica coadjuvante, dentro da melhor estratégia para estabelecimento do hábito de se exercitar. O Treino de Inoculação de Stress pode ser um método interessante para mudança de hábitos, visto que ele inicia

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pela formação de compreensão dos processos de saúde, visando às consequências dos estilos de vida escolhidos. Em seguida são trabalhadas as habilidades para enfrentamento das dificuldades e manutenção destas novas habilidades. Finalmente, o indivíduo as põe em prática, em seus contextos reais de vida. Ou seja, importa que as pessoas aprendam como, por meio de suas escolhas e de seus hábitos, podem modificar as probabilidades futuras de seus estados de saúde, e de duas condições de autonomia. Estratégias de intervenção que utilizam tecnologias como computadores, tablets e telefones celulares, também têm sido estudadas. Os resultados indicam que o uso dessas intervenções pode provocar efeitos sobre a prática de hábitos saudáveis, como comportamento alimentar e exercícios físicos. Por exemplo, os aplicativos podem facilitar o agendamento de atividades, incluindo-se as próprias atividades físicas, e avisar o usuário sobre seu horário de realização, assim como apresentar recompensas pela adesão à prática ativa. A adoção de estilos mais saudáveis de vida dependerá, muitas vezes, de mudanças de hábitos. Estas, por sua vez, podem ser influenciadas também pelas compreensões que as pessoas desenvolvem sobre as consequências de curto, médio e longo prazo dos comportamentos relacionados ao estilo de vida saudável. O fato é que a prática regular de exercícios físicos apresenta um papel muito importante na manutenção da saúde física e do bem estar subjetivo do indivíduo, em

qualquer fase da vida. Quanto mais cedo a prática de exercícios físicos iniciar na vida das pessoas, maiores são as possibilidades de manutenção dos comportamentos, desde que adequada às condições de maturação e de aptidão física. O desenvolvimento de sensopercepção é importante para estimular o praticante a reconhecer os seus limites físicos, prevenindo lesões, e indicando diferentes necessidades de exercício físico para a aquisição de aptidão física, visando aprimorar o desempenho de atividades da vida diária. O objetivo principal parece ser ampliar a compreensão dos praticantes sobre como a prática de exercícios se integra a estilos saudáveis de vida, e como os exercícios podem ser inerentemente agradáveis, se bem realizados, e de acordo com as características individuais e de preferência do praticante, de modo a se superar o paradigma do “sem dor, sem ganho”. De outro lado, parece ser importante conhecer sobre como o sedentarismo e a prática de estilos de vida menos saudáveis podem interferir na qualidade e na expectativa de vida do praticante. Considerando-se a produção científica existente sobre o tema, parece socialmente relevante o desenvolvimento de estratégias e tecnologias com vistas à redução da quantidade de pessoas que adotam estilos de vida sedentários.

Também colaboraram para este artigo: Clóvis Arlindo de Sousa, Gabriela Frischknecht e Mariane Bittencourt.

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MÚSICA

Ouvindo Jazz A música do sul dos Estados Unidos que embalou o mundo

Dimas Cruz de Oliveira

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s vezes, quando ouvimos a voz de Ella Fitzgerald gravada num daqueles velhos discos de vinil, nossa imaginação vem se juntar a reminiscências literárias e se estende até o velho Sul dos Estados Unidos, com sua paisagem típica feita de fazendas algodoeiras, solares impressionantes mesmo na sua decadência, bosques sem fim, pântanos sobrevoados por imensos bandos de patos selvagens e, é claro, as águas portentosas do Mississipi que se derramam através da planície gigante após receberem no seu seio as águas irmãs do Missouri. Porque foi em meio a esse cenário que apareceu um dos mais deliciosos e misteriosos fenômenos artísticos que conhecemos: o assim chamado “jazz”. Esse fenômeno constitui por assim dizer uma compensação do lado mais sombrio do velho Sul, representado pela economia escravista, que recolhia das plantações de fumo e algodão os recursos para o sustento da sua opulência. Ainda nos é possível

ouvir o eco distante daqueles tempos tão diferentes dos nossos, ouvir o troar dos canhões da grande Guerra de Secessão, e acompanhar a modernização da arte de matar representada pelo navio encouraçado, a metralhadora, as pontes com fins militares, feitas da noite para o dia, o deslocamento de tropas por via ferroviária, o bloqueio naval de todo o Sul enfim! Mas por que não ouvirmos também o som do jazz que nasceu no Sul? Por que não esquecermos a violência da Guerra de Secessão e nos entregarmos ao feitiço melódico daquela música? Para isso bastanos ouvir Ella Fitzgerald, é claro, e depois escrever, ao sabor mesmo daquela música, algumas linhas acerca do jazz. E, se começarmos pela sua etimologia, quem seria capaz de indicar o significado exato da palavra “jazz”? Com sua etimologia algo duvidosa, o jazz nasceu no início do século XX, no seu famoso berço de Nova Orleans, escondendo, segundo alguns de seus adeptos, uma conotação

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sexual. E na série de lugares comuns sobre o jazz encontramos alguns que merecem ser corrigidos; por exemplo: o de que seu caráter é o de música exclusivamente negra. É claro que o jazz é negro; porém a complexidade de suas origens e de sua evolução envolve não apenas os negros, ou, como diz François Billard, “O jazz é negro, contanto que se esqueçam todos os brancos, aqueles que estão aí desde sempre, todos os brancos de origem italiana, irlandesa ou judia...” Na imensa gama artística por ele representada, o jazz se distingue doutros tipos de música do mesmo modo que uma cidade do Sul se distingue de uma outra da Nova Inglaterra, do mesmo modo que o sotaque de uma e outra região deverá variar bastante. O mais importante, portanto, quando buscamos as origens musicais do jazz, é constatar seu caráter multicultural, herdado de sua matriz, o chamado “ragtime”, que animou salões de dança em Saint Louis, Nova Orleans e Nova York a partir do final do século XIX.

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Às vezes, quando ouvimos a voz de Ella Fitzgerald, nossa imaginação vem se juntar a reminiscências literárias e se estende até o velho Sul dos Estados Unidos.

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sso aconteceu depois que, abandonando pouco a pouco as feiras ao ar livre e os arrabaldes de má fama onde surgira, o ragtime assimilou melhor suas fontes da música erudita europeia, da música africana e antilhana, fundindo-as num amálgama da qualidade mais refinada: como que num passe de mágica, e talvez ainda inconsciente do seu potencial artístico, surgiu então o jazz propriamente dito. O local do seu nascimento, entretanto, deveria ser, sempre, Nova Orleans. Capital do imenso e riquíssimo território francês da Louisiana, vendido mais tarde por Napoleão aos norte-americanos por uma bagatela, a cidade era atípica por estar voltada mais para a região do Caribe do que a do delta do Mississipi. Com sua vocação cosmopolita, e tendo o catolicismo como religião predominante, a cidade também se distinguia por seu gosto pelo prazer, por seu perfil alegre em comparação com as severas cidades protestantes da Nova Inglaterra, por exemplo. No cadinho cultural representado pela cidade era possível extrair elementos musicais de origem ibérica, africana, cubana e até parisiense! Porque os franceses eram numerosos em toda a região, suas melodias afagavam os ouvidos de quantos por lá passavam, além de sua língua, é claro. Não podemos nos esquecer da vastidão do empreendimento colonial francês nas chamadas Grandes Planícies, antes da Guerra dos Sete Anos; não podemos nos esquecer daquela decla-

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ração de amor ao francês feita um dia por Renan: “Eu amo esses velhos canadenses que chegam a cavalgar cem léguas em pleno inverno apenas para ouvir falar francês”. Qual não seria pois o efeito desse ambiente sobre os ouvidos musicais dos negros, sobretudo? Em suas memórias, o famoso Louis Armstrong faz menção à música que pairava sobre toda a cidade de Nova Orleans, às bandas improvisadas de fundo de quintal, aos conjuntos que se apresentavam em carroças, aos músicos colocados sobre pilhas de caixotes, presentes no cais do porto, nas estações, e aos tenores desconhecidos que gostavam de trautear no salão do barbeiro! Além disso, era possível responder de vários modos à pergunta: “o que temos em Nova Orleans”? Porque lá eram encontrados salões onde se dançava até o alvorecer, ouvindo os melhores músicos de todos os Estados Unidos; lá se encontravam muitas pessoas que se contentavam com “comer e beber após as apresentações”, isto é, cultivavam a música mesmo sem ganhar muito dinheiro; lá se sucediam os desfiles alegres e os — aliás tão estranhos ao nosso sentimentalismo brasileiro — cortejos fúnebres ao som do jazz.

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m seu notável trabalho de pesquisa sobre o jazz, François Billard destaca que esse não era, naturalmente, um mundo de sonhos. Às vezes o jazz se insinuava por bairros suspeitos, formados por boates e tascas da pior reputação, cabarés

nada românticos, ou bordéis que se alastravam pela zona boêmia. Encontros festivos e noites dançantes podiam terminar tragicamente, ao som de um revólver ou de uma pistola, escondidos sob o casaco elegante. Empolgados pelo jogo e pelas mulheres, e embalados ao som da música, alguns operários perdiam de quando em quando mais que o salário da usina ou da ferrovia: a própria vida. Foi nesse contexto, também, que ocorreu o fenômeno geográfico mais interessante do jazz: sua migração em direção ao norte, subindo o Mississipi; essa migração se deu, entretanto, não através daqueles barcos a vapor movidos por pás, imortalizados nos românticos quadros literários de Mark Twain, mas através da ferrovia, cuja rede se estendeu por todo o território da União após o grande conflito armado entre o Sul e o Norte. Tradicionalmente acomodados, apegados ao seu torrão natal no Sul, os negros começaram, então, a migrar rumo ao norte; atraía-os a possibilidade de, deixando o território agrícola, encontrar trabalho nos grandes centros industriais de Nova York, Chicago, Filadélfia e Detroit. Aumentando rapidamente, e malgrado as veleidades racistas que não deixavam de acometê-la de maneira esporádica, a população negra de Chicago encontrou ótimas condições de vida em comparação com as que lhe eram oferecidas pelo Sul. Mesmo sendo, em sua maioria, formada por operários da indústria, essa

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Em suas memórias, Louis Armstrong faz menção à música que pairava sobre toda a cidade de Nova Orleans e toda a efervecência musical que ocorria naquela época.

população encontrava, agora, possibilidades de usufruir da música de maneira sistemática, como opção de lazer. Excelentes pianistas acompanharam a migração negra ao constatar aquelas possibilidades, como ainda lembra François Billard: “Os jazzmen de Nova Orleans encontraram, então, em Chicago, um auditório de negros independentes oriundos do sul, entusiastas da música negra sulista e bastante ricos para pagar por ela”. Carregar algum dinheiro nas noites de sábado no bolso do uniforme, poder escolher o seu próprio cardápio musical, receber um tratamento respeitoso enquanto se deliciavam com o trompete de King Oliver, Louis Armstrong ou Natty Dominique, tudo isso parecia aos negros de Chicago, já por volta de 1918, um complemento necessário das liberdades constitucionais que lhes garantia o estado do Illinois.

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jazz, porém, cumpre repetir, não era música exclusivamente negra. Embora os negros representassem os famosos grandes mestres provenientes de Nova Orleans, seu trabalho artístico contribuía para despertar numerosas vocações entre os jovens brancos também, quaisquer que fossem sua classe social ou condições econômicas, porque enquanto alguns eram ricos, como Bud Freeman, outros carregavam o peso de uma pobreza incrível, como Benny Goodman. Foram brancos, aliás, e ironicamente de Nova Or-

leans, que gravaram o primeiro disco de jazz, em 1917; enorme sucesso de vendas cuja contribuição inestimável para a história do jazz ainda hoje é reconhecida. Acolhido entre a classe média branca e nos meios universitários, o jazz começou a ser visto, no começo da década de 1920, como uma “nova opção” em face das músicas dançantes mais tradicionais, consideradas algo “decadentes” pela juventude contestadora. Esse fenômeno curioso deveria ser repetido, embora em escala muito menor, na Alemanha da década de 1930, quando pequenos grupos de jovens da classe média preferiam aprender inglês e ouvir jazz a fim de escapar à influência cultural avassaladora do nacional-socialismo. O encontro entre brancos e negros no mundo do jazz deveria ocorrer aos poucos, no decorrer da década seguinte à gravação do primeiro disco; o fato de todos, brancos e negros, enxergarem naquele tipo de música a expressão mais adequada do espírito boêmio facilitou esse encontro. Além disso, tirando proveito da ausência de barreiras sociais para eles, os músicos brancos enriqueciam o jazz por sua vez, atuando como uma espécie de abelha operária que levava influências de um lado e do outro. Foi assim que a “escola de jazz de Chicago”, a segunda mais famosa depois da sulista, formou uma verdadeira corrente capaz de unir as qualidades dos conjuntos negros e das orquestras brancas; essa corrente foi exportada para Nova York, onde o jazz deveria alcançar ainda

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mais ampla aceitação, como lembra com acerto François Billard: “Essa cidade, vitrine intelectual dos Estados Unidos, desempenhou bem cedo seu papel de expoente cultural em relação ao jazz. Tudo o que tem valor estético nos Estados Unidos deve, um dia ou outro, buscar sua consagração em Nova York”. Por outro lado a grande vantagem da metrópole nova-iorquina sobre Chicago era a maior diversidade cultural, o leque maior de influências na música; aliás, já se observou que a Broadway em si mesma representava um espetáculo! Suas peças compostas bem ao gosto moderno, bem como seus programas de sucesso deveriam servir de fonte de inspiração para um músico do quilate de George Gershwin, o compositor que soube juntar música negra e música europeia na sua soberba ópera “Porgy and Bess”. Nova Iorque se tornou, assim, palco de toda uma nova fase na história do jazz; toda aquela sociedade, fosse formada por negros ou por brancos, habitasse ela o Harlem ou West Village, queria assistir aos espetáculos do café-concerto e percorrer o longo circuito dos bares e salões de dança, dos clubes noturnos com seus tipos característicos. Essa verdadeira sede de espetáculos deverá explicar o sucesso estrondoso das grandes orquestras cujo desempenho transmitia a ideia de que “a música praticamente não parava”, isto é, durava até o amanhecer. Enquanto isso aquelas orquestras viajavam sem parar, deixando Nova York e rumando para o

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Acolhido entre a classe média branca e nos meios universitários, o jazz começou a ser visto, na década de 1920, como uma “nova opção” pela juventude contestadora.

sul da costa leste, para depois deixar essa região animada e buscar as cidades maiores do interior, Kansas City, por exemplo, caminho indispensável para atingir a costa oeste; isso serviu para disseminar o gosto pelo jazz em todo o território dos Estados Unidos. Aliás, é verdade que nem sempre a semente plantada por esses músicos viajantes vingou: o jazz parece buscar instintivamente os grandes centros urbanos, as densas aglomerações onde a indústria do entretenimento exerce um papel de importância; por isso ele não prosperou naquelas cidades menores, de atmosfera sonolenta, do Meio Oeste.

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nquanto isso, podemos verificar que o fervor artístico do jazz resultava num desdobramento de si mesmo; o jazz se mostra fecundo mesmo quando deixa de ser chamado “jazz”. Ou será que o tão celebrado “swing”, com a onda de entusiasmo por ele suscitada no final dos anos 30, representava de fato “uma nova música” que não pode ser considerada como jazz? Será que a orquestra de dança de um clarinetista chamado Benny Goodman estava se afastando do jazz ao acompanhar o músico num arranjo mais ousado que deixou o público em transe? Tempos mais rápidos, e rapidamente assimilados pela juventude universitária, ritmos estonteantes e solos incríveis, tudo

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isso nos faz esquecer a preocupação com rótulos: swing ou jazz, um frêmito percorreu o extenso território musical dos Estados Unidos sob a liderança revolucionária de Benny Goodman, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. E a revolução artística se fazia a par de uma outra, de importantes consequências também: a social. E não se trata apenas da grande migração negra do sul para o norte, dos territórios agrícolas para os grandes centros industriais do norte. Trata-se, também, da “descoberta” pelo jazz de vários de seus maiores expoentes; porque um talento em potencial tinha que buscar, necessariamente, apresentarse em alguma grande orquestra; esse foi o caso dos músicos negros da orquestra de Benny Goodman. Mas onde era possível encontrar tais orquestras senão nas grandes cidades, desde Nova Orleans até Nova York? Um talento escondido, esquecido numa cidadezinha do interior, mesmo que não fosse no “sonolento Meio Oeste”, jamais seria reconhecido. “O sucesso de um músico”, diz François Billard, “dependia, na maior parte dos casos, do fato de pertencer a uma orquestra conhecida. Em geral isso implicava participar de turnês por todo o país. Esses fatores tinham muita importância e explicam por que encontramos, por quase toda parte, músicos que teriam feito uma carreira nacional e se obstinaram em ficar em casa”.

Isso explica a perseverança daqueles que, acreditando em seu próprio talento, não apenas se lançavam à aventura, mas jamais desistiam de seus sonhos, enfrentando a crise financeira, o gosto muitas vezes difícil do público, o cansaço das viagens incessantes e, no caso dos negros, o fantasma onipresente do racismo.

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gora uma pergunta final: será que o jazz não serviu também para exorcizar aquele fantasma? Será que, ao incorporar-se de maneira definitiva ao patrimônio artístico da América, o jazz não fê-la tocar seus instrumentos e cantar com a sua voz? Quão belos são os quadros que nossa imaginação desenha ao som do jazz! Ora vemos Benny Goodman recebendo sua primeira clarineta na escola da sinagoga de seu bairro; ora vemos Duke Ellington a ouvir, embevecido, o ensaio de seus saxofonistas; ora ainda encontramos Louis Armstrong concentrado nas primeiras difíceis gravações da R.C. A. Victor; ou então nos deparamos com Billie Holiday ainda menina abrindo mão do dinheiro a que tinha direito apenas para poder ouvir jazz. Tudo isso pertence ao nosso temperamento romântico: não é difícil estudar a história do jazz, nem tampouco recordar os lances mais pitorescos dessa história; difícil é conter as lágrimas ao ouvirmos “Summer Time” ao cair da tarde.

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ESPECIAL

Os 200 anos O espectro do filósofo alemão

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arl Marx nasceu há 200 anos, no dia 5 de Maio de 1818 em Tréveris, na Alemanha. Concordando ou não com ele, o fato é que Marx foi – e continua sendo – um dos pensadores mais influentes de todos os tempos. Assim, em primeiro lugar, para fazer como Spinoza e limpar as lentes através das quais este texto será lido, é necessário realçar que essas palavras não buscam construir uma hagiografia – como quase o faz a biografia Karl Marx: a história de uma vida, do revolucionário Franz Mehring – nem uma biografia um tanto detratora, como o fez o conservador Paul Johnson em Os Intelectuais. Prefiro, para isso, partir de uma ad-

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vertência que consta no livro Le Marxisme de Marx, de Raymond Aron, na qual ele afirma que, para tratar dos trabalhos de Marx, “é necessário proceder com boa fé e boa vontade”. E para alguém de opinião, mas que não tem causa alguma, isso não é tão custoso, visto que um texto que não se alimenta da militância nas entrelinhas é o que tem de mais benéfico para a saúde do pensamento. Além do mais, se Aron nos disse que a obra do filósofo alemão pode ser explicada em cinco minutos, em cinco horas, em cinco anos ou em meio século, não será em alguns milhares de caracteres que esgotaremos o tema. Consequentemente, falaremos de parte do essencial.

Isso porque, conforme o supracitado francês, se para emitirmos considerações acerca de Marx esperássemos para ler tudo o que se escreveu sobre ele e sua obra, morreríamos antes de ter concluído os estudos preparatórios. Nascido numa família judaica de classe média e filho de Herschel Marx e Henriette Pressburg, Karl Marx teve seis irmãos. Segundo o livro Karl Marx: a nineteenth-century life, do especialista em História Moderna Jonathan Sperber, o “pai do comunismo” nasceu ao final de três décadas de levantes revolucionários e respostas contrarrevolucionárias que teriam mudado a vida dos seus pais. Isso

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de Karl Marx

Thiago K. Vieira

ainda paira sobre o mundo

John Jabez Edwin Mayall

também teria tido um impacto na educação de Marx, colaborado para o surgimento de suas paixões políticas e de seus inimigos políticos que conservaria ao longo da vida. Os judeus, nesse momento, constituíam um grupo cuja posição naquela sociedade era determinada por sua particularidade religiosa. Eram obrigados a pagar impostos e dívidas para poder residir no interior daqueles territórios. No que tange às ocupações desses judeus, elas restringiam-se ao comércio e aos empreendimentos financeiros. Há, no entanto, escreve Sperber, a necessidade de dizer que, não obstante a discriminação que salta aos

olhos ao falarmos de uma quantidade de pessoas colocadas como que à parte de uma sociedade, naquele momento não havia um ideal de igualdade do qual poderiam suscitar queixas concernentes àquele tratamento desigual. Neste contexto, em 1830 e com 12 anos, Karl Marx começa a estudar no Liceu Friedrich Wilhelm, na mesma cidade onde nasceu. Mais tarde, em 1835, o futuro filósofo, por influência do seu pai, parte para a Universidade de Bonn para estudar Direito. Interessante é a observação de Henriette, sua mãe, concernente aos aposentos do filho, dizendo que ele não deveria “considerar como coisas secundárias

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a limpeza e a ordem, pois a saúde e a boa disposição dependem delas”. E ela arremata: “Cuide bem para que o seu quarto esteja sempre limpo”. Ainda a respeito da relação com sua mãe, vale destacar a divergência que culminou num desentendimento entre ela e seu filho e que tinha por objeto o casamento de Marx com uma jovem aristocrata chamada Jenny von Westphalen. Sobre isso, Henriette escreve: “Em vez de ficar escrevendo sobre o capital, seria melhor se meu filho conseguisse algum para si próprio”. Forte admoestação! Seu pai, todavia, era diferente. Queria que Marx construísse uma carreira na área do Direito, por isso abalou-se ao

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Berthold Werner

Contando hoje com pouco mais de 100 mil habitantes, Tréveris, na Alemanha, é a cidade natal de Karl Marx, na qual a residência do filósofo foi transformada em um museu.

saber que seu filho predispunha-se à poesia e pelo fato de Marx levar uma vida boêmia, chegando, certa vez, a ser preso por aquilo que as autoridades entendiam como “vadiagem”. E por falar em Jenny von Westphalen e poesia, nessa época Marx redigiu alguns poemas dedicados à jovem e, no Natal de 1836, entregou-lhe um caderno de poemas intitulado O Livro do Amor. Após um ano, Karl Marx e Jenny tornam-se oficialmente noivos, isso a despeito da insatisfação da família da moça com as incertezas que envolviam o futuro do jovem escritor. Mas, como sabemos, Marx não era de abdicar de seus ideais e, após sete anos, finalmente se casou com Jenny que, como relata N. Meshcheryakov na obra The Life and Work of Karl Marx, seria sua companheira mesmo em suas privações e provações. Mais do que isso, Jenny ajudava o marido. Passava seus manuscritos a limpo, ainda que, geralmente, fossem eles ilegíveis. Quando em 1837 o pai de Marx, que morreria um ano depois, decide enviar seu filho para Berlim a fim de afastá-lo de uma vida que desaprovava, mudanças significativas ocorrem. Naqueles tempos a capital alemã estava culturalmente efervescida, principalmente pelo hegelianismo que posteriormente inspiraria Marx. Ali ele acaba por queimar seus poemas e detém-se no estudo do Direito e Filosofia,

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sendo que esta última ganha toda a atenção do jovem estudante. Marx estudou Direito, Filosofia, História da Literatura, fez traduções do Grego e do Latim, aprendeu italiano, inglês e Ciências Naturais. Diz N. Meshcheryakov que, neste período, Marx teria trabalhado tão duramente que chegou a ter um colapso nervoso. Uma mudança e tanto se comparada à época da vida boêmia! Quatro anos depois, Marx obtém seu certificado de conclusão do curso de Filosofia e envia sua tese Diferença Entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e a de Epicuro para a Universidade de Iena e, por meio dela, recebe seu título de doutor. Talvez o leitor pergunte: já que morava lá, por que ele não enviou tal estudo para alguma universidade de Berlim? O fato é que, na capital alemã, teses que flertavam com o materialismo, com o ateísmo, já tinham sido negadas. E Marx estava ciente disso. Nas palavras de David McLellan, logo que sua tese foi aceita, Marx inicia um ano agitado e torna-se redator-chefe do jornal Gazeta Romana em 1842, ao qual dá um tom mais radical. É inclusive neste período que ele começa a interessar-se por Economia, afinal, lidava com questões que iam do livre-câmbio e do parcelamento das propriedades agrícolas ao protecionismo. Destarte, por atacar o status quo do Estado Prussiano, o jornal no qual tra-

balhava foi censurado, sendo que Marx havia publicado um artigo que combatia a política de dependência da Rússia. Devido a tais desavenças com as autoridades, Marx e Jenny mudam-se para Paris, cidade na qual ele começa a se aproximar dos socialistas franceses. É lá que ele encontra-se novamente com Engels, que já havia colaborado para a Gazeta Romana e que, como Aron assinalou, por ser filho de um industrial do setor têxtil, “tinha um conhecimento da realidade econômica que Marx não tinha”. O mesmo autor reconhece, entretanto, que, apesar de não ser só provável como é certo que Engels tenha tido uma colaboração no pensamento do amigo, o gênio ali era Marx. Pouco tempo depois, Marx, na França de Luís Felipe, escreve os Anais Franco-Alemães, uma revista com um apelo político radical que, em virtude dessa característica, circulava clandestinamente. Sem demora se atém a outra empreitada: publicar o jornal Vorwats, que procurava falar em nome dos revolucionários alemães, mas que era escrito em Paris. Por causa dele, Marx encontra outro problema: o governo prussiano exige o fim do jornal e seu autor é expulso de Paris em 1844. Agora com uma filha, ele parte para Bruxelas, entra em contato com revolucionários belgas e cria uma rede de comunicação com organizações estrangeiras.

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Foi ao lado de Engels que ele consolidou seus ideais. Os dois não estavam apenas de acordo no que se refere à filosofia hegeliana, mas também sobre a concepção do processo revolucionário que passariam a fomentar. Para ambos, a classe operária, ou o proletariado, teria nas mãos o poder de negar a propriedade privada e aboli-la para sempre. Lenin, líder da Revolução Russa de 1917, escreveria mais tarde que o serviço histórico mundial prestado por Marx e Engels consistiu em apontar aos proletários de todos os lugares do mundo seu papel, sua tarefa, sua missão. Além de tudo, exortá-los a serem os primeiros a se levantar numa luta revolucionária contra o capitalismo e a unir em torno deles todos os trabalhadores e explorados. Esta ideia, por ter sido baseada na ciência, como sublinhou N. Meshcheryakov, configuraria aquilo que se conhece por Socialismo Científico, diferentemente e em oposição ao Socialismo Utópico, a exemplo do que foi difundido por Owen, Saint-Simon e Fourier.

Jakob Schlesinger

Alberto Korda

A grande influência de Marx foi Hegel (1). Depois disso, muitos intelectuais beberam do poço cavado por Karl Marx, tanto para exaltá-lo como para criticá-lo. Lideranças políticas da Revolução Russa, Trotsky (2) e Stalin (3) são inevitavelmente relacionados ao autor de O Capital. O nome de Che Guevara se enquadra na mesma categoria, o que levou intelectuais fascinados pelo marxismo como Sartre e Simone de Beauvoir (4) a trocar ideias com o revolucionário argentino. Já Albert Camus (5), apesar de ligado à esquerda, não deixou de tecer duras críticas ao marxismo, ou pelo menos à forma como era aplicado na União Soviética.

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m 1847 Marx e Engels aderiram à Liga dos Comunistas, com sede em Londres – onde mais tarde, em 28 de setembro de 1864, surgiria a Primeira Internacional. Como integrantes da Liga, os amigos são convidados a elaborar um documento que contivesse todos os princípios daquela organização. Daí nasce o

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Manfred Brückels

Estátua de Marx e Engels em Berlim: para ambos, a classe operária, ou o proletariado, teria nas mãos o poder de negar a propriedade privada e aboli-la para sempre.

conhecido Manifesto do Partido Comunista – livro sobre o qual falaremos adiante. Do final desta década também data obras como o Manuscrito Econômico-Filosófico e A Ideologia Alemã, somente lançadas em 1932 – pois Marx não as considerava dignas de serem publicadas. Este fator, observou Aron, é uma problemática que causa ainda mais embaraço nas incertezas interpretativas quanto ao pensamento de Marx. Por conseguinte, muitos marxistas atribuem às obras da juventude do filósofo uma relevância que “o Marx da maturidade lhes teria recusado”. Depois de passar novamente por Paris, onde uma revolução estava em curso, Marx, em 1848, parte para Colônia, na Alemanha. Ali ele funda a Nova Gazeta Renana e retorna às propagandas revolucionárias. O jornal, bem como os outros, foi também fechado e seu idealizador acabou sendo expulso da Renânia. Volta então a Paris e, uma vez que a contrarrevolução havia prevalecido, o inquieto intelectual, dado o seu histórico, não foi muito bem-vindo. Desse jeito, parte para Londres, aonde chega no dia 24 de agosto de 1849, sendo seguido pela família e pelo amigo Engels. Vivendo num século barulhento como este, não foi sem razão que Marx acreditou que o mundo burguês estaria condenado. Se esta foi a fase mais problemática de sua vida, foi também aquela na qual Marx mais produziu. É nesta época que desenvolve melhor seus estudos de eco-

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nomia e começa a redigir aquilo que seria o primeiro volume do livro mais tarde intitulado Das Kapital (O Capital). Sobre suas influências para compor a obra, ressalto que, se por um lado Jean Hypolite defende que O Capital está impregnado do pensamento hegeliano, Schumpeter nos diz que, a julgar pelos seus conceitos, suas categorias e métodos de análise, Marx pode ser reputado como um discípulo de Ricardo e pertencente à economia inglesa de sua época.

A influência marxista ao redor do mundo foi colossal e ainda resiste. Seu pensamento encontrou eco mesmo dentro da instituição mais antiga do mundo, a Igreja Católica.

Conforme relatos daquele que seria um espião prussiano incumbido de vigiar a vida do revolucionário comunista, Marx vivia numa situação calamitosa, entre sujeiras e bagunça. Esta informação, que à primeira vista pode parecer meramente difamadora, encontra apoio no relato de Paul Lafargue, cunhado de Marx, que também expôs as más condições daquela família, atingida inclusive pela fome. Por

causa disso Engels socorria o amigo. Fazia o possível para colaborar com Marx, que, seguramente por falta de recursos, perdeu dois filhos e duas filhas em apenas cinco anos. Para o enterro de uma delas, aliás, Marx teve que pedir dinheiro emprestado. Ainda em relação aos pequenos, ele chegou a ter um filho fora do casamento com sua empregada Helena Demuth, o que o Movimento Operário quis ocultar para não causar escândalo. A situação de Marx e de sua família só mudou quando, em 1864, Henriette, sua mãe, faleceu e deixou uma parte da herança para o filho. Marx também recebeu oitocentas libras de herança depois da morte de um amigo chamado Wilhelm Wolff e, quando Engels vendeu sua parte da tecelagem do pai, passou a conceder um suporte financeiro anual para o amigo. Em 1881 Marx perde sua esposa e, logo em 1882, sua filha mais velha. Desse modo, fragilizado diante de todos estes acontecimentos e com 65 anos de idade, Karl Marx acaba falecendo pouco tempo depois, no dia 14 de março de 1883.

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obra de Karl Marx, devido a sua importância, foi interpretada por diversos intelectuais e ativistas políticos. Em razão disso, é indispensável entender que suas ideias sofreram adaptações, acréscimos, novas interpretações etc, mesmo porque seus pensamentos fundamentaram dezenas de práticas revolucionárias, cada qual em seu contexto e com

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A cronologia da vida do mais famoso comuna Karl Marx nasceu em 1818 e faleceu em 1881. Desse modo, viveu 63 anos. Pode-se destacar, entre os muitos acontecimentos que envolveram a vida do pensador alemão, o profundo interesse pela filosofia hegeliana, o fato de ter trabalhado em diversos jornais, cursado Direito e ter se envolvido na Liga dos Comunistas. Abaixo uma linha do tempo com alguns dos principais eventos que marcaram a vida do filósofo.

A foice e o martelo espalhados pelo mundo Desde a década de 20 do século passado, quase meia centena de países chegaram a adotar por algum período ou ainda adotam uma orientação de “Estado comunista”. Tal orientação pressupõe a existência de um partido único ou dominante. Desse modo, pode-se ver no mapa (em vermelho) os “Estados comunistas” e em laranja países pluripartidários, mas com partidos comunistas, ou de orientação socialista, no poder.

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Ross, Edward Alsworth: The Russian Bolshevik revolution (1921)

Influenciados pelas ideias marxistas e liderados por Lenin na Revolução Russa, os bolcheviques defendiam que os trabalhadores deveriam pegar em armas para chegar ao poder.

suas necessidades específicas. Por exemplo, para os alemães, até certa época, os intérpretes mais importantes fizeram parte da Segunda Internacional, a saber, Karl Kautsky e Hilferding; para os austríacos, Max Adler, Fritz Adler e Otto Bauer; para os russos, Plekhanov, Bukharin, Lenin e Trotsky. Tanto a vida quanto a obra desse pensador adorado e odiado são complexas e, como enunciado no início deste texto, são muitas as discussões em torno desse tema. Não obstante, enfatiza Aron, existe a possibilidade de resumir em algumas frases a empreitada e o que chamou de aventura intelectual de Marx, isto é: ele partiu de uma filosofia hegeliana, via nela a conclusão da filosofia clássica e considerava que doravante a verdadeira filosofia era o pensamento ou a interpretação do mundo a partir da economia a fim de realizar o que ele passa a chamar de filosofia. Em suas Memoires, o francês também declara que, como economista, Marx é um dos mais ricos, o mais apaixonante daqueles tempos. Ademais, como um “economista profeta, como um antepassado putativo do marxismo-leninismo, ele é um sofista amaldiçoado que tem sua parte de responsabilidade nos horrores do século XX”. Essa “Era dos Extremos”, como bem sintetizou Eric Hobsbawm, foi largamente influenciada pelas ideias marxistas – mas não só por elas – que impulsionaram diversas revoluções ao redor do mundo. Um período sombrio da História e tão politicamente catastrófico que Eliseo Vivas

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declarou que um dos traços de decência humana é envergonhar-se de ter nascido no século XX. Estudiosos como Aron e outros atribuem a Marx a categoria de fundador – provavelmente sem querer – de um Estado e de uma ideologia quase religiosa. Mas ele era fruto de sua época. Como observou Albert Camus no livro L’Homme Revolté, “os séculos XIX e XX, em sua tendência mais profunda, são séculos que tentaram viver sem transcendência.” Tinham, por assim dizer, suas teleologias. Para os marxistas daquele tempo o comunismo seria o fim da história, a conclusão teleológica, bem como para os cristãos esta ocorreria com o Apocalipse. Camus considerava importante que Marx tenha lembrado aos privilegiados que seus privilégios não eram divinos, nem a propriedade um direito eterno. Entretanto, ele, que se considerava de esquerda “apesar dela e apesar de mim” e que não acreditava em nenhum desses dois “fins da História”, escreveu que a utopia terrena trocava Deus pelo futuro. Disse ainda que Marx, “como utopista, não difere de seus terríveis antecessores, e uma parte de seu ensinamento justifica seus sucessores”, o que vai ao encontro do que assinalou Aron. Toda essa crítica ao marxismo sustentado pelo Estado policial soviético acarretou o rompimento com Sartre, que se conservou fiel ao stalinismo a despeito dos gulags e dos milhões de mortos causados pelo regime. A influência marxista ao redor do mundo foi colossal e ainda resiste. Seu

pensamento encontrou eco mesmo dentro da instituição mais antiga do mundo e ajudou a criar, por exemplo, a Teologia da Libertação, que tenta unir as Escrituras Sagradas ao pensamento marxista revolucionário – um ponto de vista controverso e problemático no núcleo da Igreja. Não é por menos que Joseph Ratzinger – sim, este mesmo, o Papa Emérito Bento XVI – em suas encíclicas, tratou do marxismo não somente como uma doutrina política que contrasta com os valores cristãos. Ele foi além e interpretou o marxismo como uma escatologia judaico-cristã de cunho secular que trazia consigo um messianismo político e que, em vista disso, buscava criar na Terra aquilo que o Cristianismo espera apenas do Paraíso. Segundo o próprio Marx, a religião seria “o ópio do povo”. Não é por menos que Ratzinger, em sua Introdução ao Cristianismo, escreveu que aquilo que denomina como “doutrina marxista da salvação” seja a “forma mais atuante do ateísmo”. Por fim, ainda que Karl Marx tenha sido um crítico da religião, por qualificá-la como alienadora dos povos etc, seu espírito permanece reencarnando, seja através de novos estudos, seja através de militantes que buscam resgatar uma tradição revolucionária por muitos considerada utópica e desumana. Por conseguinte, tanto quanto o nazareno, você querendo ou não, detestando ou amando, Karl Marx continua servindo de inspiração, sendo reinterpretado e, por esse motivo, também carrega a responsabilidade de ser “imortal”.

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Divulgação

Engels e Marx no filme O Jovem Karl Marx: a história do nascimento da amizade entre eles e a publicação do famoso Manifesto do Partido Comunista.

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O livro que inflamou o mundo

Manifesto do Partido Comunista, que em 2018 completa 170 anos, foi, sem dúvida, um dos textos que abalou as estruturas do mundo, Apesar dos regimes totalitários concebidos a partir do seu brado comunista, ele deve constar como um dos mais importantes livros já redigidos em toda a História. Elaborado por Marx e Engels em 1848 a pedido da Liga dos Comunistas – David MacLellan defende que tenha sido somente Marx o autor – e traduzido para inúmeros idiomas, o Manifesto, composto por palavras acessíveis, busca explicar como a sociedade capitalista se desenvolveu a partir do feudalismo, ou, como observa o próprio texto, a partir “das ruínas” deste. Estudiosos afirmam que não podemos ter certeza se o Manifesto Comunista pertence ao período da juventude ou da maturidade intelectual de Marx. O que importa, então, é sabermos que esta obra é o resultado dos esforços intelectuais que levaram Marx da Filosofia para a Sociologia e para a Economia e também o ponto de partida das pesquisas que o conduziram até a publicação do Das Kapital (O Capital) – mais especificamente ao primeiro volume, que data de 1867. Diz o Manifesto que, por causa das “necessidades de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre. Necessita instalar-se em toda parte, explorar em toda parte, estabelecer relações em toda parte”. Por isso os autores acreditavam que “no dia em que desaparecer o antagonismo das classes no interior da nação, desaparece a hostilidade das nações entre si”. Está claro que REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

os autores, apesar de inconformados, nutriam um grande otimismo em relação à natureza humana. Propagavam aquilo que Michael Oakeshott chamaria de “Política da Fé” e que qualquer cético teme. Afinal de contas, a humanidade, ainda que materialmente satisfeita, permanecerá espiritualmente miserável e sua condição sempre será trágica, como já nos alertavam os gregos. Considerado como o “catecismo dos comunistas”, o livro procura denunciar esses conflitos de interesses e, mais do que isso, encoraja os trabalhadores a organizar uma revolução – “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!” – e estabelecer aquilo que chamavam de “ditadura do proletariado”. É a partir de tais declarações que Marx é considerado por muitos como um profeta – não há ironia nesta colocação – pois tenta demonstrar o caminho pelo qual os trabalhadores construiriam um mundo igualitário, colocando a burguesia onde muitos acreditam que o comunismo já esteja, quer dizer, na lata de lixo da História. Para Marx e Engels, toda essa luta, consequência direta do antagonismo de classes – conceito-chave da obra aqui discutida – significava nada mais nada menos do que a força motriz da História. Aqui se observa claramente como as classes sociais eram importantes para a teoria marxista. Como qualquer clássico, o Manifesto deve ser lido e compreendido, mas aconselha-se a não utilizá-lo como manual de guerra, pois a História já demonstrou seus efeitos.

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No cartaz, dos anos 20, pode ser lido: “Todo poder aos soviets! Paz aos povos! Terra aos camponeses! Fábricas e usinas aos trabalhadores!”

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ARTE

Cem Anos dos Dias que Abalaram o Mundo das Artes Luara Wandelli Loth

A Revolução Russa provocou agitação entre os artistas da época, que inovaram de forma singular

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em anos após os dias que abalaram o mundo, praticamente nada é unânime em termos sociais, políticos e artísticos na Revolução Russa. A mesma revolução que projetou a obra inovadora e combativa de Maiakovski produziu o monolítico e propagandístico Realismo Socialista. Neste aniversário do evento que impactou a vida de milhões de pessoas no mundo todo, modificou os rumos da história e estabeleceu o teor das disputas políticas da Era dos Extremos, como caracterizou o século XX o historiador Eric Hobsbawm, investigo partes do legado construído nas primeiras décadas da revolução socialista nas artes plásticas, na literatura e no cinema. A Revolução de Outubro não garantiu o poder aos bolcheviques. Após a derrubada do Governo Provisório sobrevieram os anos de Guerra Civil (1918-21). Em meio ao caos, os construtivistas e os artistas plásticos tributários do cubo-futurismo, vanguarda russa fundada em 1912, buscaram a criação de uma arte autenticamente proletária. Admitindo diferen-

tes níveis de radicalismo para trilhar esse caminho rumo à utopia e construir uma nova relação entre arte e vida, a vanguarda soviética desejava a destruição dos valores considerados burgueses, como o individualismo, o culto ao artista enquanto gênio e o ideal de “arte pela arte” ou arte desinteressada, no qual sua única finalidade legítima é a contemplação. Diferentes vertentes vanguardistas foram fundadas nas artes visuais. O pintor Kazimir Malevich criou uma das mais impactantes, o suprematismo, que propõe o uso e o estudo de formas racionalizadas, rompendo com qualquer referência ao mundo objeto. No manifesto que assinou com o poeta Vladimir Maiakovski, o suprematista valoriza o sentimento e a importância da intuição no processo de criação, apesar do elogio ao cientificismo característico dos vanguardistas soviéticos. Pioneiro na técnica da fotomontagem, Alexander Rodchenko foi um dos mais radicais e defendia a construção de uma arte completamente fundida ao trabalho, rompendo qualquer fronteira entre as for-

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mas da criação e produção humanas. No mesmo período, Vladimir Tatlin, mais conhecido pela escultura “Monumento à III Internacional” (1920), avançou em seus estudos com materiais comumente desprezados pelos academicistas, como a madeira. As escolas e ateliês livres formados nessa primeira fase da revolução também buscavam a experimentação e levaram essa força inventiva à esfera do ensino. Além de abolir algumas regras acadêmicas e hierarquias, essas novas instituições uniram os cursos de artes plásticas a outros considerados técnicos, antes estritamente vinculados às engenharias ou aos trabalhos manuais, porém essas inovações seriam mais tarde abandonadas com a ascensão do stalinismo (1924-1953). Os artistas que atuavam nessas instituições idealizavam uma arte utilitarista, voltada à produção de objetos funcionais e baratos. É possível afirmar que existia um paralelo entre essas academias e a Bauhaus (1919-33), mas a escola alemã tinha preocupações mais estéticas e produzia artigos relativamente de luxo.

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Wikimedia Commons.

O cineasta Dziga Vertov. O governo soviético foi o primeiro a perceber o poder de persuasão que tinha um veículo de comunicação como o cinema.

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oucos artistas eram engajados ou filiados ao Partido Bolchevique antes da Revolução de Outubro. O emblemático poeta e dramaturgo Vladimir Maiakovski era uma das exceções. Filho de família pobre, “o Poeta da Revolução”, como ficou oficialmente conhecido, foi perseguido e preso durante o czarismo e mergulhou de cabeça no ideal revolucionário socialista. A intensidade da postura de Maiakovski frente à vida está eternizada em suas hipérboles e nos versos de “Adultos”: “Em mim a anatomia ficou louca, sou todo coração”. Apesar da força emotiva, o jovem poeta era integrante ativo do futurismo e do construtivismo. Sua máxima era: “Não existe arte revolucionária sem forma revolucionária”. Empreendia sua revolução estética impregnando seus poemas com os sons e objetos da vida moderna urbana, normalmente ignorados pelos simbolistas e outros movimentos literários que o precederam. O envolvimento com as novas instituições e mesmo o engajamento na produção de cartazes e versos para campanhas estatais não o impediram de também sofrer pressão política durante o stalinismo. Como outros tantos poetas trágicos de sua época em todo o mundo, Maiakovski se suicidou em 1930. Cinco anos antes, seu amigo, o poeta Serguei Iessiênin, cortou os pulsos aos 30 anos. Na parede do Hotel Inglaterra, na antiga Leningrado, Iessiênin escreveu com sangue: “É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício”.

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Dessa mensagem originou-se um diálogo póstumo dos mais dramáticos na história da literatura russa: “Se morrer, nesta vida, não é novo, tampouco há novidade em estar vivo”, escreveu Maiakóvski, no poema intitulado “A Serguei Iessiênin”, dedicado à memória do amigo, logo depois do suicídio em 1925. Antes de tirar sua própria vida com um tiro no coração, Maiakovski também deixou uma carta-poema sobre a decisão de findar a vida: “O barco do amor quebrou-se contra a vida cotidiana. Estou quite com a vida. É inútil passar em revista as dores, os infortúnios e os erros recíprocos. Sejam felizes”.

Com o passar do tempo, o Estado percebeu que a arte realista era mais eficiente no sentido de se comunicar e persuadir as massas.

O mistério sobre as razões suicidas dos poetas continua longe de ser desvendado. E talvez nunca o seja completamente. A vida amorosa de Maiakovski era muito tumultuada, o que teria desencadeado o preconceito comum dentro de uma sociedade conservadora nos costumes,

além das decepções políticas, amorosas e pressões de todo o tipo que ele sofria. Essa possibilidade relativa à vida pessoal do poeta é utilizada como argumento por aqueles que refutam a tese de um suicídio induzido pelo stalinismo. Os que apostam na versão passional se fundamentam em uma pista sobre a presença de uma das mulheres amadas pelo poeta, Veronika Polonskaya, na cena da tragédia. Ela descia a escada, deixando o apartamento de Maiakovski, minutos antes do tiro no peito, ouvido do corredor do prédio. Em 1978, o tradutor russo Boris Schnaiderman entrevistou a escritora Lílian Brik, apontada como o grande amor da vida de Maiakovski. A escritora desqualificou a tese que liga os relacionamentos tempestuosos ao suicídio. Lílian Brik foi casada com um dos amigos do poeta, Ossip Brik, e os três chegaram a morar juntos por um período. Ela foi uma das pessoas que intercederam pelo resgate da memória de Maiakovski. No Brasil, foram grandes responsáveis pela difusão da obra de Maiakovski os concretistas Augusto de Campos e Haroldo de Campos. Apesar de ter sido traduzido e publicado tardiamente no país, Maiakovski influenciou e inspirou poetas a levarem a poesia e o teatro para a praça pública.

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om o objetivo de dinamizar a economia destruída pelos anos das guerras que se sucederam, Primeira Guerra Mundial e Guerra Civil, Lênin

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Volganet.ru

Medindo 85 metros do topo de seu pedestal até a ponta da espada, o monumento da Mãe Pátria, erguido em Volgrado, é um exemplo notável do Realsimo Socialista.

travou uma luta dentro do partido e instaurou a Nova Política Econômica, NEP (1921-28), uma política de concessões à iniciativa privada rigidamente controlada pelo Estado. O surgimento dos novos ricos e do mercado de oferta e procura nas artes impactou o ambiente cultural, sendo desfavorável para o construtivismo e o movimento vanguardista em geral. Os novos consumidores preferiam os artistas ligados ao realismo pré-revolucionário, àquela arte de vanguarda, teórica, que causava desconforto e não servia claramente à manutenção do status quo. Durante o período caótico da Guerra Civil, o Comissariado de Esclarecimento do Povo, correspondente ao que seria o Ministério de Cultura e Educação, não era uma prioridade para bolcheviques, que dedicavam praticamente todo o esforço para derrotar a contrarrevolução, fortalecendo o Exército Vermelho e consolidando o domínio na imensidão do território. O bolchevique, dramaturgo e crítico literário Anatoli Lunatcharski aceitou a missão e assumiu o Comissariado, no qual contribuiu com a hegemonia dos vanguardistas. Nesses primeiros anos caóticos da revolução, conferiu autonomia aos artistas que viram nela um ambiente profícuo para empreender experimentações desaprovadas e combatidas tanto no czarismo quanto no Governo Provisório. Sobre o caráter idealista do comissário de esclarecimento removido do cargo em 1929, o historiador Rodrigo Reis Maia, em sua dissertação O Futuro está atrás de

nós: Futurismo e Modernidade na Rússia e na União Soviética (1912-1932) (2010), conta que Lunatcharski era um homem menos pragmático em comparação aos outros líderes bolcheviques: “Ele acreditava que a cultura autóctone do proletariado surgiria da síntese da disputa entre os diferentes grupos artísticos. Era uma espécie de Dom Quixote e tentou salvar alguns comunistas acusados das penas de morte”, explicou. Durante a Nova Política Econômica, os artistas conservadores, inscritos na corrente dos valores artísticos do realismo, paulatinamente ganharam espaço, assim como o discurso de que os vanguardistas eram formalistas incompreensíveis. Não era mais apenas a disputa política que importava: o gosto público médio entrava em cena.

Apesar de ter sido traduzido e publicado tardiamente no Brasil, Maiakovski influenciou e inspirou poetas a levarem a poesia e o teatro para a praça pública.

Com o passar do tempo, o Estado percebeu que a arte realista era mais eficiente no sentido de se comunicar e persuadir as massas. Tal percepção culminou

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com a decisão do Congresso do Partido Comunista de 1932, na qual o chamado Realismo Socialista foi oficializado como a única expressão artística oficial. Além disso, o conteúdo deveria ter total primazia em relação à forma (o que teria revoltado Maiakovski, se estivesse vivo), a produção deveria exaltar com otimismo a sociedade soviética do presente e seus heróis, assumindo o personalismo como marca inegável do período. Stálin queria passar uma imagem de unificação do país e coesão partidária. Para garantir a obediência a esses parâmetros, o crivo e a censura ficaram mais rígidos. Na disputa entre realismo e futurismo, entrelaça-se o embate entre duas ideias dentro do partido. Com o adoecimento de Lênin, em 1922, e sua morte dois anos mais tarde, forma-se a Oposição de Esquerda, que se defronta com a ascensão de Stálin e com a imposição do seu plano de desenvolvimento e consolidação do socialismo em um só país. A Oposição de Esquerda era encabeçada por Trotsky, que contrapunha a política adversária com a ideia de expandir a revolução internacional e permanentemente. Considerando essa preocupação com o futuro do socialismo mundial e com a constante necessidade de se autor-revolucionar, intrínseca à atitude vanguardista, o historiador Rodrigo Reis Maia insinua uma analogia entre o grupo político de Trotsky e os artistas de vanguarda, porém ressalta que essa aproximação nunca os converteu em um bloco político conciso e manifesto.

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Também conhecido como “o poeta da Revolução”, Vladmir Maiakovski ao lado da escritora Lílian Brik, que foi apontada como o grande amor de sua vida.

Os princípios de recusa à estagnação e a necessidade de permanente revolução eram percebidos com desconfiança por grande parte da sociedade soviética, que, após anos de conflitos desejava a estabilidade. Apenas resquícios ficaram do movimento artístico de vanguarda que se diluiu com o passar dos anos. Para se adaptar à realidade, um “desvio” muito diferente dos ideais que originaram a revolução, por exemplo, o pintor suprematista Malevich voltou ao figurativismo. O ator, dramaturgo e teórico do teatro Vsevolod Meyerhold teve um fim mais trágico: foi preso e fuzilado em 1940. Já no campo político, Trotsky acabou sendo perseguido, banido e eliminado no exílio no México em 1940.

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governo soviético foi o primeiro a perceber o poder de persuasão do cinema no século XX e usar a tecnologia para a produção de arte e propaganda. Precedeu nessa empreitada os Estados Unidos e a Alemanha. Diretor da trilogia revolucionária, A Greve (1924), Encouraçado Potemkin (1925) e Outubro (1927), Sergei Eisenstein e a vanguarda da montagem transformaram a edição para sempre. A montagem não tinha sido encarada com tamanha centralidade na produção cinematográfica até os vanguardistas a desenvolverem a partir de teorias densas e experimentações inéditas.

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Conceitos e técnicas que ofereceram os fundamentos teóricos para Kuleshov, Pudovkin, Dovzhenko, Vertov e Eisenstein são, ainda hoje, paradigmáticos. Influenciaram quase todos os movimentos cinematográficos do século XX, destacando-se entre as muitas vanguardas nos “loucos” anos 1920.

Eisenstein pretendia mobilizar o espectador, tirá-lo da passividade, promover a desalienação e nocautear a concepção do cinema como mero entretenimento.

Nenhum outro movimento na sétima arte tinha mostrado tão a fundo a intersecção entre questões políticas, sociais e estéticas: “Representações das minorias, dos povos aos quais não é dada a voz, dos povos sem memória, sem história e das populações sem direito à imagem passaram a ser levadas a sério e de modo sistemático”, ressalta o professor e pesquisador do Departamento de História da UFSC, Alexandre Busko Valim, autor do livro O Triunfo da Persuasão (2017).

No decorrer do século XX, movimentos como o Neorrealismo italiano, a Nouvelle Vague, o cinema independente dos Estados Unidos e o Cinema Novo de Glauber Rocha foram tributários tanto do engajamento e da crítica social quanto das proposições estéticas. Para esses movimentos, o cinema é intervenção social e não deve ser mero entretenimento. Apesar de identificados pela marca da vanguarda e do construtivismo, os diferentes artistas travaram embates nos anos 1920 que ainda repercutem na atualidade. O mais conhecido é entre os cineastas Dziga Vertov e Sergei Eisenstein. Cada um defendia o seu ideal do que deveria ser o cinema do e para o “novo homem”: o cinema-olho e o cine-punho foram postos à prova nas projeções. Em seus filmes mais experimentais, Eisenstein recusa os personagens individuais, os dramas psicológicos e a narrativa linear e melodramática. Na mesma época, o melodrama estava em pleno desenvolvimento no cinema de D. W. Griffith nos Estados Unidos, onde milhares de trabalhadores buscavam os cinemas para escapar da realidade nada glamorosa em que viviam. O cineasta Eisenstein preferia planos gerais que mostrassem a massa trabalhadora como protagonista e o uso de conceitos dialéticos na montagem, criando

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Kazimir Malevich.

Artistas de diversos segmentos, nos anos posteriores à Revolução Russa, produziram um intenso e original material artístico. (1) O selo russo do ano 2000 mostra o Monumento à III Internacional, de Vladimir Tatlin, e a escultura Operário e Mulher Kolkosiana, de Vera Múkhina. (2) Cena do filme Ivan, O Terrível, de Eisentein. (3) Nas artes visuais, o pintor Kazimir Malevich criou o suprematismo, que propõe o uso e o estudo de formas racionalizadas. (4) Pioneiro na técnica da fotomontagem, Alexander Rodchenko foi um dos mais radicais e defendia a construção de uma arte completamente fundida ao trabalho, rompendo qualquer fronteira entre as formas da criação e produção humanas. (5) Poster do filme Um Homem com uma Câmera, de Dziga Vertov.

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Eisenstein, que participou ativamente da Revolução Russa, foi um dos mais importantes cineastas soviéticos, influenciando diversos movimentos cinematográficos.

uma série de métodos complexos, abordados em seus livros. A inserção de elementos que chamam a atenção para as marcas da produção do filme pretendiam quebrar a ilusão de realidade. Denominando sua concepção de “cinema-punho”, Eisenstein pretendia mobilizar o espectador, tirá-lo da passividade, promover a desalienação e nocautear a concepção do cinema como mero entretenimento. Dziga Vertov era ainda mais radical. O cinema-olho apostava na pretensão de eliminar qualquer intervenção na captação de imagens, deixando a criação para a montagem, que também seguia uma série de preceitos teóricos. O purismo de Vertov em O Homem com uma câmera (1929) influenciou muitos documentaristas em todo o mundo: “A questão da câmera como extensão do corpo humano ainda é uma discussão importante na academia”, lembra o historiador Valim. Com o passar dos anos, ambos foram acusados de serem herméticos, intelectualistas e inacessíveis às massas. Com o advento do som, invenção que causou um impacto gigantesco na sociedade e possibilitou o sucesso dos musicais estadunidenses, o que já era complexo se tornou ainda mais. “Eisenstein recusava um som naturalista em favor de um som assincrônico que tornava seus filmes ainda mais experimentais”, completa Valim.

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Os últimos filmes da carreira de Eisenstein eram mais ficcionais e lineares, ao gosto da elite dirigente. Eisenstein teve problemas com Joseph Stálin para produzir a segunda parte do épico Ivan, o terrível, lançada anos depois da morte do cineasta, em 1958. O filme tinha sido encomendado pelo próprio Stálin, que se identificava com a figura histórica do czar do século XVI. O cineasta fez uma crítica implícita ao secretário-geral na representação de Ivan que lhe custou muitos anos na geladeira e o impedimento de continuar o que seria uma trilogia.

Na disputa entre realismo e futurismo, entrelaça-se o embate entre duas ideias dentro do partido. Com a Segunda Guerra Mundial, o cinema soviético e o cinema estadunidense se aproximam: “O cinema soviético vai deixando cada vez mais aquela fase experimental e vai se aproximando da linguagem hollywoodiana e do desenvolvimento dos gêneros cinematográficos clássicos. Os cineastas soviéticos começaram a discutir o modo como o cinema estadunidense representava as mulheres, os heróis e

o seu país e promovia o American way of life. A questão era o sucesso. Fizeram uma escolha pragmática para alcançar as massas”, contextualiza o historiador. O próprio Stálin, particularmente, assistia aos desenhos da Disney para entender melhor o inimigo. No Brasil, os filmes soviéticos só chegaram com o fim da Ditadura Militar. Apenas num curtíssimo período no ano de 1945, filmes que mostravam os soviéticos como aliados, produzidos nos EUA, e alguns da própria União Soviética foram exibidos no país: “O fato foi alardeado como um acontecimento extraordinário pelos cinemas e aumentou a sensação de que a União Soviética era muito poderosa. Isso acabou colocando lenha no anticomunismo durante o governo do militar Eurico Gaspar Dutra. Era estratégia dos Estados Unidos fortalecer a aliança com a URSS contra os nazistas, principalmente mostrando o front no Leste Europeu”, conta Valim, que mapeou os embates políticos no cinema desde a Revolução de Outubro e ao longo da Guerra Fria. Posteriormente, quando as relações voltaram a ficar tensas na Guerra Fria, o cinema como soft power, que consiste em utilizar a cultura para influenciar ou amolecer posições hostis, converteu-se em um campo fundamental para a diplomacia e a disputa por territórios de influência.

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PERFIL

Um certo Erico Verissimo Maicon Tenfen

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rico Verissimo já estava com 25 anos quando chegou à capital do Rio Grande do Sul para tentar a vida como jornalista, escritor ou até mesmo funcionário público. Havia acabado de assistir ao último ato de um espetáculo tragicômico que encenou a derrocada financeira de sua família, outrora uma das mais abastadas da pequena e distante Cruz Alta, e a lenta desagregação do casamento dos pais. Trazia 500 mil réis no bolso, uma máquina de escrever portátil na mão esquerda e, na direita, uma mala socada de roupas e textos datilografados em espaço duplo — seus primeiros passos na vereda literária —, sem falar nas experiências profissionais, todas frustradas, que já tivera como comerciante, bancário e farmacêutico. A pacata e provinciana Porto Alegre, que em 1930 contava com menos de 250 mil habitantes, provavelmente representava a última esperança de um jovem não muito seguro de si e com a cabeça cheia de ideias que não se ajustavam a um mundo cada vez mais antilírico e pragmático. Após algumas andanças e muitas portas fechadas, finalmente arrumou trabalho na redação da Revista do Globo, na qual, dois anos antes, conseguira publicar Ladrão de Gado, seu primeiro conto. Estabelecido em Porto Alegre, já casado com Mafalda Halfen Volpe e acumulando funções nas empresas do clã Bertaso (revista, livraria e editora), dedicou-se à tradução de obras de língua inglesa e à feitura de seus primeiros livros. Assina Fantoches, contos de punho próprio inspirados em Pirandello, Shaw e Anatole France, e Contraponto, versão em língua portuguesa do romance de Aldous Huxley que exerceria enorme influência em sua literatura. Sabe-se que a tradução foi um sucesso, reeditada várias vezes e aceita pela

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Um pouco da vida e da obra de um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX

crítica mais severa. Já os contos acabaram destruídos por um incêndio nos depósitos da distribuidora. Como a “mercadoria” estava devidamente segurada, Erico Verissimo recebeu os direitos autorais em tempo recorde. Mais tarde, em Solo de Clarineta, sua autobiografia, comentaria ironicamente que as chamas foram as suas primeiras e mais vorazes leitoras. Clarissa, o primeiro romance, surgiu em 1933. É com essa obra que se inaugura a primeira fase da produção literária de Erico Verissimo, então bastante preocupado com os dramas e percalços de uma classe média (baixa) repleta de problemas de ordem prática e existencial. O relativo sucesso de público parece ter encorajado o escritor a produzir mais romances na mesma linha, inclusive com a mesma ambientação, o mesmo enfoque e, em certos casos, os mesmos personagens. Caminhos Cruzados (1935), Música ao Longe (1936), Um lugar ao sol (1936), Olhai os lírios do campo (1938), Saga (1940) e O Resto é Silêncio (1942) vão progressivamente criando um público fiel e cada vez mais abrangente

que torna Erico Verissimo, ao lado de Jorge Amado, o primeiro autor brasileiro a viver exclusivamente de direitos autorais. Essas obras, que em sua época sofreram na mão da crítica e que mais tarde encontrariam em seu próprio autor o crítico mais feroz, são marcadas por algumas constantes que não devem passar em branco. A despeito do que aconteceu à imagem de Erico Verissimo, injustamente reduzido a um simples contador de histórias (como se contar histórias fosse a coisa mais fácil do mundo), os primeiros romances demonstram a sua capacidade no manuseio da linguagem e de todos os componentes da narrativa. Nesse sentido, Caminhos Cruzados e O Resto é Silêncio são boas exemplificações das lições de Huxley, nas quais vários núcleos dramáticos são desenvolvidos simultaneamente, como no romance oitocentista, mas sem convergirem para um centro unificador, fato que torna todos os enredos principais e secundários ao mesmo tempo. Há também, nesse primeiro momento, uma explícita simpatia por persona-

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Erico Verissimo deixou uma obra fecunda que inclui a publicação de romances, narrativas de viagens, literatura infanto-juvenil, ensaios e vasta produção jornalística.

gens oriundos de uma pequena e nascente burguesia gaúcha que, em face de um país remexido por mudanças de ordem política, tem seus conflitos recrudescidos no seio familiar e ligados ao desejo de ascensão social. Às vezes mais abertamente do que deveria, Erico Verissimo deixa que os interstícios da trama se preencham com sua ideologia liberal-humanista, sem temer os perigos do sonho e da utopia. Não por acaso os leitores de Olhai os Lírios do Campo, um de seus livros mais vendidos, escreviam ao autor em busca de conselhos emocionais e até mesmo espirituais. Essa primeira fase, porém, não deve ser subestimada. Apesar da desaprovação do autor maduro, consistem em boa leitura, haja vista a reimpressão dos livros ainda em nossos dias. Certos deslizes cometidos em Música ao Longe, escrito em menos de 30 dias para participar de um concurso, acabam compensados pela ousadia de Saga (considerado por Erico seu pior livro) e O Resto é Silêncio. Pertence a este último o personagem Tônio Santiago, sem dúvida o alter ego do escritor. Na cena final, durante um concerto no Teatro São Pedro, Tônio tem uma espécie de devaneio épico no qual todo o seu povo, desde as origens até à atualidade, cruzando o tempo e resistindo às intempéries do vento, desfila por sua mente inquieta de criador. Sinal de que os personagens — e o autor — estavam prontos para voos mais altos.

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Tempo e o Vento habitou a mente de Erico Veríssimo durante anos. A princípio, ele acreditava que poderia narrar a formação histórica do Rio Grande do Sul, com toda sorte de intrigas e subtramas, num volume de aproximadamente 800 páginas. Mal imaginava que o projeto cresceria e se tornaria uma trilogia com mais de 2200 páginas que lhe consumiria 15 anos de dedicação. A parte inicial do trabalho foi realizada depois que retornou de uma temporada nos Estados Unidos. Isolou-se em seu escritório na Editora Globo e, apesar do barulho e dos contratempos cotidianos, escreveu sem parar.

Como bem lembrou Luis Fernando Verissimo, O Tempo e o Vento certamente é a única obra da literatura mundial que se desmistifica a si mesma.

O Continente, primeiro volume, veio a público em 1949. Livro de guerras, recamado de sangue quente e espumoso, de aventuras e peripécias heroicas, compreende o período mais primitivo e mítico de

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toda a obra. Começa por volta de 1745 e vai até o final do século XIX. Personagens inesquecíveis — alguns, como Ana Terra e o Capitão Rodrigo, foram incorporados pelo imaginário nacional — vivem seus dramas à frente de um conturbado e não muito detalhado pano de fundo histórico, que vez ou outra e muito levemente surge como destaque da encenação. “Conturbado” porque Erico utilizou com correção o seu faro de romancista e soube escolher os episódios mais interessantes do ponto de vista ficcional, e “pouco detalhado” porque o romancista temia esquecer a trama e seus atores para bancar o antropólogo ou o analista político. Nesse sentido, em vez de termos uma informação minuciosa sobre o massacre nas missões jesuíticas no sul do Brasil, por exemplo, ficaremos com os obstáculos e os perigos por que passa Pedro Missioneiro. A mesma lógica vale para a colonização dos campos e a família Terra, para o Levante Farroupilha e Rodrigo Cambará, para a Guerra do Paraguai e Bolívar, para a Guerra Civil de 1893 e Licurgo, tudo isso em idas e vindas temporais tão bem articuladas que em momento algum o calhamaço cai no didatismo ou na monotonia. Muitos viram no livro um elogio dos caracteres que mais tarde resultariam no patriarcalismo dos estancieiros e dos caudilhos que comandaram o Rio Grande ao longo das décadas. Com efeito, mesmo personagens femininas fortes como Ana

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Lucas Mello Schnorr

A casa em que nasceu o escritor existe até hoje em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, e recentemente foi transformada em um museu que é administrado pela Fundação Erico Verissimo.

Terra e Bibiana, em sua necessidade de sobrevivência doméstica enquanto os homens saem a cavalo para guerrear, ajudam a justificar e ordenar um mundo predestinado à violência e à matança. Por outro lado, não se deve esquecer que O Continente, antes de ser um romance completo, é a tese que será contestada e destruída nos volumes subsequentes. Em O Tempo e o Vento, Erico Verissimo trabalha o aplauso e a crítica das oligarquias gaúchas dialeticamente. Não é à toa que O Retrato e O Arquipélago, respectivamente publicados em 1951 e 1962, perdem todo o fôlego épico, toda a ação e, sob pena de tornarem-se lentos, enfadonhos e excessivamente analíticos, todos os personagens carismáticos. Como bem lembrou Luis Fernando Verissimo a propósito dos 50 anos de publicação de O Continente, O Tempo e o Vento certamente é a única obra da literatura mundial que se desmistifica a si mesma. O terceiro volume é uma espécie de reescritura do primeiro, onde o épico e o aventuresco são substituídos por uma amargura crítica e quase introspectiva. Numa das ações mais ambiciosas das letras nacionais, estava o Rio Grande, e por metonímia todo o Brasil, lido e relido numa única obra e num mesmo golpe. Conforme o próprio Erico confessaria mais tarde, houve momentos em que ficou profundamente enfastiado de trabalhar na sua trilogia histórica. Várias vezes

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admitiu que, depois da publicação de O Retrato, desviava-se do dever de escrever com a desculpa de tarefas aparentemente legítimas e inadiáveis. Um desses desvios levou-o à composição de Noite, a pequena novela que, classificada como uma espécie de narrativa alegórica e expressionista, destoou por inteiro do restante de seus escritos. Já na época de seu lançamento (1954), o autor acabou por reconhecê-la como a ovelha negra do seu rebanho.

Erico Verissimo recusou um título de Doutor Honoris Causa sob a justificativa de que jamais aceitaria honrarias de instituições que perseguiam estudantes e professores. De fato, o choque causado por Noite em seus leitores usuais foi mais que incomensurável. O protagonista, que não tem nome e é identificado apenas como o Desconhecido, surge completamente desmemoriado nas ruas de uma grande cidade. Ao mesmo tempo em que percorre o labirinto urbano acompanhado por dois marginais que conheceu num bar, os meios de comunicação noticiam o assassinato re-

cente de uma estranha mulher. Teria sido ele o culpado? Parte da crítica, numa pobre interpretação freudiana, considerou Noite como a explosão dos demônios interiores do autor, demônios que irromperam cheios daquelas verdades cuidadosamente armazenadas nos subterrâneos da alma. Outros depreenderam da obra uma problematização da impessoalidade e da coisificação do ser na sociedade industrial contemporânea. Seja como for, aquela amargura crítica e quase introspectiva que marcaria a segunda metade de O Tempo e o Vento aqui se manifesta com todos os gestos e caretas do exagero. Isolada ou equiparada ao resto de sua produção, Noite simboliza um dos momentos mais curiosos e inexplorados da obra de Erico Verissimo.

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uando escrevo”, disse Erico Verissimo, “não pergunto a que grupo ou partido político vou servir. Não permitirei que usem o meu nome em benefício de qualquer manobra política, seja ela burguesa ou comunista”. A única vez que se manifestou no âmbito da política partidária foi em 1974. Diante dos descalabros praticados pelo regime militar, redigiu uma carta de apoio à oposição representada em termos oficiais pelo MDB. Dada a influência e a autoridade moral do escritor, suas palavras causa-

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Detalhe do cartaz do filme O Tempo e o Vento, baseado na obra de Erico Verissimo, com destaque aos atores Thiago Lacerda, Marjorie Estiano e Fernando Montenegro.

ram grande comoção entre os habitantes do Rio Grande do Sul. Cabeças se amontoavam e disputavam espaço diante da vitrine de uma antiga livraria porto-alegrense, onde a carta foi ampliada e exibida à apreciação do público. Pouco antes, quando o mesmo governo cogitou, a exemplo do que ocorria com os jornais e a TV, a possibilidade de instalar a censura prévia para os livros editados no Brasil, Erico Veríssimo, ao lado de Jorge Amado, prometeu que, se isso acontecesse, passaria a publicar seus romances exclusivamente no exterior. Temendo o vexame diante da comunidade internacional, a ditadura recuou. Fato não menos importante ocorreu na mesma época, quando o experiente e respeitado autor de O Tempo e o Vento recusou o título de Doutor Honoris Causa, oferecido pela UFRGS, sob a justificativa de que jamais aceitaria honrarias de uma instituição que perseguiu inúmeros estudantes e alguns de seus melhores professores. A liberdade de pensamento e de atitude é o calcanhar de Aquiles dos proprietários do poder político, financeiro ou intelectual. Consciente disso, o romancista utilizou seu prestígio no momento certo. Embora tivesse horror ao panfleto e tudo fizesse para que seus livros fugissem do proselitismo, os romances que se seguiram a O Tempo e o Vento, certamente graças à fase atribulada e nada democrá-

tica por que passava o país, levantaram a bandeira política com criatividade e determinação. Audacioso, o escritor que começou relatando casos de província — e se consagrou ao compor o painel épico de uma nação — terminou discutindo as grandes questões éticas e globais do nosso tempo.

Apenas uma vez Erico Verissimo se manifestou no âmbito da política partidária. Diante dos descalabros praticados pelo regime militar, redigiu uma carta de apoio à oposição. Para se ter uma ideia disso, basta lembrar que O Senhor Embaixador (1965) e O Prisioneiro (1967) são duas reflexões corajosas sobre as atrocidades causadas pelo embate entre socialismo e capitalismo no âmbito da Guerra Fria. Enquanto no primeiro são discutidas as relações escusas entre os Estados Unidos e as oligarquias aristocráticas ou populistas da América Latina, no segundo, totalmente alegórico, visto que lugares e personagens sequer recebem nomes próprios, os álibis fabricados para legitimar a intervenção militar

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no Vietnã são rechaçados pelo olho clínico que comanda a narrativa. Realização máxima dentro dessa última tendência do romancista, Incidente em Antares (1971) funciona como uma síntese de toda a sua obra. Localizando a ação numa cidade imaginária e prototípica do Rio Grande do Sul, o narrador, em mais uma reescritura mordaz de O Tempo e o Vento, discorre sobre a falta de caráter ou heroísmo entre as oligarquias dos Campolargo e dos Vacariano, famílias que lutam entre si. Na segunda parte do romance, adentrando pelo tratamento ficcional propriamente dito, Erico relata as decepções de sete mortos que, insepultos por causa de uma greve de coveiros, resolvem levantar dos caixões para exigir seus direitos e fazer o julgamento dos vivos. Na praça de Antares, reformadores e conservadores são despidos de suas mentiras pela fala afiada e destemida dos defuntos. Essa solução emprestada ao realismo fantástico servia ao claro propósito de enfiar o dedo na ferida da realidade nacional. Por insistência do editor, Erico Verissimo resolveu escrever seu testamento literário na forma de uma autobiografia que se dividiria em três volumes. Apenas parte do projeto, a que chamou Solo de Clarineta, foi realizado antes que falecesse na noite de 28 de novembro de 1975, vítima de um enfarte fulminante, rodeado pela esposa, filho e amigos.

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CLÁSSICO

Um olhar de Olavo Bilac sobre a Guerra de Canudos Muito além da poesia, o príncipe dos poetas escreveu crônicas, algumas delas sobre o “fanático” Antônio Conselheiro e sua “Cidadela Maldita”

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oucos sabem que Olavo Bilac (18651918), mais conhecido como o príncipe dos poetas parnasianos, ganhou a vida como jornalista e foi um dos articulistas mais lidos durante a belle époque tupiniquim. Culto e viajado, escreveu com brilho sobre temas que ainda hoje estão em pauta: saúde pública, crueldade contra os velhos, maus tratos a animais, emancipação da mulher, literatura e cultura em geral. No entanto, quando tratou da Guerra de Canudos... que desastre! Numa crônica publicada em dezembro de 1896, reproduz a voz do latifúndio ao lamentar que os milhares de sertanejos amotinados no sertão da Bahia não se contentassem em peregrinar pelos desertos e em comer gafanhotos como São João Batista. E prossegue, duro: — Os fanáticos de Antônio Conselheiro “não podem passar sem pão, sem carne, sem cachaça, e sem mulheres. E, pois, saqueiam vilas, assolam as aldeias, matam os ricos, escravizam os pobres, defloram as raparigas, e assim vão vivendo bem, bem combinando os sacrifícios do viver religioso com as delícias do comer à tripa forra”. No mesmo texto, queixando-se da lengalenga burocrática e política surgida com a guerra, exige das autoridades uma ação mais incisiva: “Em qualquer parte do mundo, esse pessoal seria baleado, corrido a pedra e a sabre, sem complicações, sumariamente”. E não termina a crônica antes de execrar a “imprensa indígena”, isto é, aqueles poucos jornais que não divulgavam o Conselheiro como fanático e os sertanejos como loucos. Em março de 1897, num tom fúnebre e hiperbólico, Bilac chora a aposentadoria de Machado de Assis, o mestre, que po-

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deria usar a coluna para narrar a “grande desgraça” com tintas mais sóbrias e concisas. A “grande desgraça” era a notícia de que o Coronel Moreira César, o mesmo que meses antes transformara Desterro em Florianópolis com um banho de sangue em Anhatomirim, morrera num ataque a Canudos. Mas em outubro do mesmo ano pôde acender as luminárias da sua crônica para comemorar a desafronta: “o Arraial maldito foi desmantelado”. Fazendo piadinha com a “imundície das jagunças” subjugadas, esquecia-se o poeta, e com ele o resto do Brasil, que aquela foi uma guerra sem prisioneiros. Mulheres, velhos e crianças, todos vestiram a “gravata vermelha”, ou a degola, uma tradição que o exército brasileiro trouxe da campanha no Paraguai. Segundo Alfredo Bosi, “Bilac fez coro com os jornalistas mal informados e ideologizados da época; e, nesse particular, não foi mais perspicaz do que a maioria dos intelectuais seus contemporâneos, que viam nos jagunços de Canudos um (...) perigo para a jovem República e a civilização ocidental”. Interessante, porém, é que o próprio Bilac tinha consciência de que pudesse estar a serviço de algo no qual não acreditava. “Não há morte para as nossas tolices!”, escreveu em 1901. “Nas bibliotecas e nos escritórios dos jornais, elas ficam, as pérfidas!, catalogadas; e lá vem um dia em que um perverso qualquer, abrindo um daqueles abomináveis cartapácios, exuma as malditas e arroja-as à face apalermada de quem as escreveu...” P.S.: as informações acima, incluindo o depoimento de Alfredo Bosi, foram retiradas da trilogia Bilac: O Jornalista, de Antonio Dimas, um exaustivo trabalho de garimpagem literária graças ao qual tivemos acesso à seleção das crônicas a seguir, todas relacionadas à Guerra de Canudos (1896-1897).

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Antônio Conselheiro

onfesso que nunca entendo bem as cousas que se passam aqui. Tenho viajado tanto, que já não há canto da terra que os meus pés de cabra não tenham calcado, nem recanto de horizonte em que não tenham pousado os meus olhos satânicos: e tenho, em todas as terras, entendido tudo; aqui, porém, o mais insignificante caso se reveste de tão extraordinárias circunstâncias e se complica de tão singulares episódios, que a minha pobre cabeça de diabo, com as idéias baralhadas, se perde, delira, ensandece… Vede-me, para exemplo, este caso do Antônio Conselheiro…1 O Conselheiro é (dizem-no todos) um fanático, um desequilibrado, um histérico. Em criança, tinha crises de epilepsia. Casou. A mãe dele desandou logo a ter conflitos, e bate-línguas, e troca de insultos ásperos com a nora. Entre as duas, Antônio Conselheiro penava, querendo em vão reconciliá-las. Um dia, desesperado, foi-se à velha: “Por que briga a senhora com minha mulher? que lhe fez ela? por que não a deixa em paz?”. A velha, alma danada, para reconquistar o amor e a confiança do filho, não trepida em se valer de uma calúnia. E convence Antônio de que a mulher o engana: “Queres a prova? finge uma viagem, volta depois às escondidas, oculta-te na chácara, e espreita! Verás que, às horas tantas da noite, há de chegar aquele que é mais amado do que tu!”. Aceita o moço o conselho, diz que vai jornadear, beija a mulher, e parte. Mas, à boca da noite volta, e, dentro de uma moita, fica à espreita. Daí a pouco, vê que um vulto de homem salta o muro e, com passo de gatuno, leve e abafado, se aproxima da casa. Antônio (em todo homem há sempre a fúria de um Otelo!), Antônio não resiste ao primeiro impulso da cólera: põe à cara o clavinote e dispara-o. Cai o vulto, baleado. E quando o desgraçado vai ver de perto quem matou, vê estendida por terra, numa poça de sangue, a própria mãe, vestida de homem. A mísera, querendo iludir o filho, tivera a diabólica ideia de combinar toda esta aventura, cujo êxito pagou com a morte… Isso é o que diz a lenda. E diz mais que Antônio, desesperado, internou-se nos matos bravios, transformando-se desde então neste Conselheiro que é hoje diretor de 3 mil fanáticos que, armados de carabinas Chuchu, devastam a Bahia e estão dando que fazer às tropas do general Sólon.1 Há desgraçados que o remorso transforma em frades, ou em criminosos relapsos, ou em suicidas, ou em idiotas. Outros, muda-os o remorso em apóstolos… E o Conselheiro não foi impelido para

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o Apostolado unicamente pelo remorso. Este já achou o terreno preparado na alma do Antônio — alma de inquieto, de agitado, de nevrótico. Podia dar para outra cousa o homem: mas deu para se julgar Enviado de Deus, encarregado de regenerar o mundo, de redimir a humanidade, de combater os governos existentes. Ainda se ele parasse aí! se os 3 mil homens se limitassem a correr os desertos, e a comer gafanhotos como são João Batista, e a jejuar e a orar como santo Antão, na Tebaida!… Mas, não! os fanáticos de Antônio Conselheiro, apesar de se dedicarem à penitência e à reza, e à reforma dos costumes dos homens — não podem passar sem pão, sem carne, sem cachaça, e sem mulheres. E, pois, saqueiam as vilas, assolam as aldeias, matam os ricos, escravizam os pobres, defloram as raparigas, e assim vão vivendo bem, bem combinando os sacrifícios do viver religioso com as delícias do comer à tripa forra. Ora bem! chegamos agora ao ponto principal do caso. Pelo que todo mundo diz do Conselheiro, ele não é só um fanático: é também um salteador; e salteadores, além de fanáticos, são também todos os seus sequazes. E, em qualquer outra parte do mundo, esse pessoal seria baleado, corrido a pedra e a sabre, sem complicações, sumariamente. Aqui, não! Aqui tudo é política. Aqui não se compreende que se faça alguma cousa, ou boa ou má, sem ser por política. Houve um incêndio? política! Um bonde elétrico matou um homem? uma senhora fugiu de casa? política. Caiu um andaime? o Prudente tinha uma pedra na bexiga? política! E, assim, o Conselheiro, na opinião da imprensa indígena, nem é um fanático, um Jesus de fancaria — nem é um salteador, um Fra Diavolo4 da Bahia: é um homem político, é um conspirador, é um restaurador da monarquia… A Liberdade cala-se sobre ele: manha de monarquista. A República diz que ele é emissário do príncipe do Grão-Pará: recurso de jacobino. Entre essas duas manias, quem lucra é o nosso Conselheiro, que, sendo, ao mesmo tempo, um maluco acabado e um refinadíssimo patife, deixa de ser tudo isso, para ficar sendo, graças à mania política da terra, um agitador, um Kossuth,5 um Montt,6 um não sei quê! Viva a política! Nada há mais sobre a Terra, debaixo do clarão esplendido do sol!

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3ª Expedição

uis o Destino que o mestre, a quem a Gazeta de Notícias devia “A Semana”, aqui não estivesse agora, para dizer, naquele estilo que é a glória maior da nossa literatura, o que foram estes do-

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Flávio de Barros/Wikipédia

Fotos da época ajudam a revelar a faceta cruel e devastadora da Guerra de Canudos — de pessoas famintas até soldados maltrapilhos. lorosos dias de luto e cólera — bandeiras em funeral, olhos ainda marejados de lágrimas, almas ainda fervendo na sede da desafronta... Naquele estilo conciso, que tem a nitidez e a precisão de uma gravura de Goupil, é que ficaria bem a narração da grande desgraça. Casos assim querem-se contados em palavras poucas e fortes, que entram como cunhas de aço na alma de quem as lê. Heródoto consome páginas e páginas na descrição dos inumeráveis exércitos de Xerxes, e na pintura minuciosa dos hoplitas gregos, empenhados na pugna tremenda das Termópilas; mas, quando, consumada a ignominiosa traição de Efialto e postos em linha os trezentos heróis de Leônidas, começa a batalha decisiva — o estilo do historiador aperta-se, apura-se, resumese, e é em uma só página de incomparável sobriedade e de entontecedora comoção

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que se diz como o herói caiu ferido de morte e como sobre o seu cadáver, “depois de sobre ele haverem quatro vezes vencido”, caíram de um em um, lutando como feras, com as espadas, com as unhas, com os dentes, aqueles três centos de gregos em que toda a bravura sobrehumana da Hélade se concentrara... Mas o mestre descansa, doente. E quem vem substituí-lo sai das baixas e fúteis regiões do Rodapé, em que é permitido ser prolixo e inconsequente, leviano e paradoxal. Que importa? Quando uma desgraça como esta fere um povo, não a sentem apenas aqueles que sobreavultam na multidão, dominando-a. Sentem-na também os pequenos; assim, os furacões, se retorcem as grandes árvores da floresta, castigam também as ervas rasteiras... Falou-se aí em Termópilas...

Não! a alma brasileira não caiu ferida de morte nas gargantas alpestres de Canudos, como no estreito desfiladeiro da Grécia, entre a sagrada eminência do Ela e as águas empesteadas do Malíaco, caiu a alma grega ao furioso embate dos asiáticos. Não! ainda não tivemos as nossas Termópilas! O revés pequeno que sofremos apenas apavora por inesperado. O primeiro abatimento passou, logo seguido de uma reação formidável: e, em vez da estéril lamentação que desmoraliza, há a explosão invencível de uma vontade no bre e fecunda de vingar os que morreram, dando um golpe de morte nos que escondem a sua política daninha dentro das pregas do burel, de um energúmeno. Quem não sente que uma ressurreição se está operando em nós? e quem não viu ontem, nas fisionomias dos que

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recebiam Lauro Sodré, vitoriando esse administrador que deixa o governo sem um erro, sem um pecado, sem uma fraqueza — a confiança no futuro da República e o amor entranhado dos que a hão de salvar? Esta meiga e caridosa religião católica já tem muita vez servido de capa a muita patifaria política e a muita ambição indecente. Já não é preciso falar no Apóstolo, bojudo fradalhão de larga venta, que tanta vez pediu, pelo arreganho brutal da sua linguagem e pela intemperança escandalosa da sua ambição — um segundo tomo da famosa lição que o Divino Mestre deu aos lojistas do Templo: por que falar de mortos? mais vale tratar dos vivos. Já no tempo do Império, a padraria cuidava mais da cabala que do culto, olhando mais para as urnas eleitorais que para as custódias do Santíssimo. Quem não se lembra daquele padre liberal, que, dizendo missa com um sacristão conservador, com ele travou uma discussão política? Os fiéis, cá embaixo, cuidavam que o zunzum de vozes que vinha do altar-mor era o efeito da recitação das páginas sagradas: não era tal! era o abafado barulho de uma altercação violenta! ali, ao pé da ara santa, sob as vistas do Cristo que se estorcia na cruz, ao pálido clarão dos círios, os dous partidos do Império, enfronhados numa capa de asperges, e numa opa de sacristão, estavam medindo forças para a próxima batalha eleitoral. Houve um momento em que a contenda chegou ao seu auge: foi justamente quando, ao levantar o copo, o padre oferecia ao Senhor a hóstia. O copo já estava erguido: o oficiante, com os olhos cravados no teto, parecia pedir a Deus que lhe aceitasse a alma pura, paternal, desinteressada, como indenização pelos pecados e pelas infâmias dos homens. Então, O sacristão balbuciou o mais forte dos doestos; o padre não pôde mais: esqueceu-se de Deus e dos homens, e martelou com o copo a cabeça do contendor. Boa capa! boa capa que são, para os manejos políticos, esse ar de humildade de que eles se revestem, e essa facilidade com que seduzem a mulher, arrancandolhe os segredos e iniciando-as nas conspirações, e essa influência perniciosa sobre as almas simples, que ainda pensam que a Proteção Divina só pode cair sobre os padres que se dão o luxo de pagar um papo de tucano e um manto de arminho. No vulto ascético do Maciel, esquálido e sujo, arrastando pela poeira dos sertões as suas longas barbas de Iniciado, construindo igrejas que têm nas torres canhões em vez de sinos e cemitérios em que se plantam carabinas em vez de cruzes, e vestindo, como o cura Santa Cruz, um burel sobre o cabo do punhal e a coronha da pistola — encarnou-se a propaganda perversa que, só tratando das cousas do céu, só quer as

cousas da terra, e que se diz aconselhada e dirigida por Deus, como se Deus tivesse tempo disponível para se preocupar com sistemas de governo... Mas, a máscara caiu. Já agora, não há de ser fácil ao monarquismo pregá-la outra vez na cara descomposta. Ao menos, a desgraça de Canudos serviu para isso. Abençoadas as dores de que saem esta energia e esta fria e heroica tenacidade com que se está preparando a desforra: a terra somente se abre em verduras de primavera e em frutos de outono depois de ter o seio dolorosamente rasgado pelo arado... Em breve, já nem memória há de restar da afronta: haverá apenas a glória dos que morreram e a glória dos que souberam vingá-los. E esta “Crônica” voltará a ser alegre — porque nem mesmo hoje, nestes dias de luto e sangue, conseguiu ela ser triste. Oh! a tristeza!... Mas o grande Camilo já escreveu no seu Cancioneiro alegre: “A seriedade é uma doença, e o mais triste dos animais é o burro: ninguém lhe tira nem com afagos nem com a chibata aquele semblante caído de mágoas recônditas, que o ralam no peito...”

Toda a alma brasileira está ansiosamente voltada para o Norte. Quando, há dois ou três anos, se começou a falar de Antônio Conselheiro, todo mundo encolhia os ombros, com desdém e pouco-caso: um fanático!

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Cérebro de Fanático

m primeiro lugar, icemos as bandeiras, e acendamos todas as luminárias da “Crônica”... Escreveu-se aqui, nesta mesma coluna, no dia 14 de março, logo depois da desgraça que vitimou Moreira César: ‘’A alma brasileira não caiu ferida de morte nas gargantas alpestres de Canudos, como no estreito desfiladeiro das Termópilas, entre a sagrada eminência do Ela e as águas empesteadas do Malíaco, caiu ferida a alma grega, ao furioso embate dos asiáticos. Não! ainda não tivemos as nossas Termópilas! Em breve, já nem memória há de restar da afronta: haverá apenas a glória dos que morreram e a glória dos que souberam vingá-los. E esta ‘Crônica’

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voltará a ser alegre...”. O dia da desafronta chegou. O arraial maldito foi desmantelado. A lição foi tremenda. Não é de crer que o resultado da aventura ainda possa permitir que haja na alma de novos fanáticos o desejo de renová-la. Glória à Pátria e aos seus soldados! e volvamos à alegria! Ontem, o República, em editorial, pedia que o crânio do Conselheiro fosse enviado para o Museu Nacional. Lendo isso, o cronista aplaudiu vivamente a ideia: certo, não podia deixar de ser curioso estudar a caixa óssea daquele cérebro de fanático, que foi durante tanto tempo o diretor da turma satânica de Canudos. E estava o cronista aplaudindo a ideia, quando se lembrou de que seria fácil obter desde já, sem a menor demora, os dados fornecidos pelo crânio do Bom Jesus... Como? muito simplesmente: invocando o espírito de Broca, e pedindo a sua opinião sobre o magno problema. E, de pronto, voou o cronista a procurar um amigo médium, que, com aquela bondade arcangélica, tão sua, logo se concentrou e deixou a alma voar à região dos espíritos. Durante meia hora, o médium, com a fronte rociada de suor, curvado sobre a mesa das invocações, esperou em vão que o espírito do grande Broca baixasse à terra. Levantou a cabeça, enxugou a testa e disse: “O espírito é capaz, em certas ocasiões, de não poder acumular no seu perispírito bastante força vital para dar uma vida momentânea ao organismo fluídico... Mas, vou ainda tentar...”. Tornou à concentração. Na sala, reinava um silêncio misterioso. Uma meia-luz propícia favorecia a experiência. Dez minutos correram sem novidade. E eis que, no 11º minuto, sacudiu-se a mesa, e o médium empalideceu, e a sua mão começou nervosamente a escrever: “Broca... Broca... Broca...”. Estremeci... Ali estava, pois, o grande Homem! Agora, numa letrinha miúda e cerrada, acumulava-se no papel a extensa comunicação de espírito. O médium escrevia, escrevia, escrevia... Quando acabou de escrever, caiu extenuado. O cronista apoderou-se da larga folha de papel, e leu sem dificuldade o seguinte: ‘’Aqui estou. Estou num vale não muito amplo, apertado, entre montes ásperos... Estou no arraial de Canudos. Que mau cheiro! que mau cheiro! “Numa revoada contínua, em círculos concêntricos, rodam no ar os corvos. Já não baixam à terra: estão fartos. Alguns já morreram de indigestão... Empilhados, como sardinhas em salmoura, há cadáveres, cadáveres, cadáveres, sobre um chão de lodo, de sangue, de cinzas. Que mau cheiro! que mau cheiro! Vou (voando, está claro, porque os espíritos não andam), vou por entre os cadáveres, à procura dos des-

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Fabrício Bittencourt/Editora da FURB

Em diversas localidades do Brasil é possível ver em locais públicos bustos e estátuas em homenagem ao príncipe dos poetas, como em Blumenau.

troços da Igreja Nova, onde devem estar os restos mortais daquele que se chamou em vida Antônio Maciel... “Cá está a Igreja Nova. Torres e paredes caíram: mas, no chão, entre pedrouços enormes, está o grande sino, todo amolgado, mordido da ferrugem... Aqui devia estar o altarmor... Ah! cá está o nosso Antônio Conselheiro... “Aqui tenho nas mãos a sua cabeça calva, polida, amarela como marfim velho... Racho-a ... Aqui tenho o seu cérebro... oh! que peso! que peso! O de Cuvier pesava 1,89 kg!... O de Cromwell 2,229 kg... O de Dupuytren 1,236 kg... Este deve pesar pelo menos 1 kg! Tinha talento o maluco!... Vejamos as localizações cerebrais... “Aqui temos a circunvolução da palavra, enorme, inchada, exuberante... Falava bem, o maluco! e com que fogo! e com que poder de convicção! Quando ele falava, os homens abandonavam as boiadas e as lavouras, as mulheres abandonavam as casas, e todos vendiam quanto possuíam, e lá se iam em pós ele, ardendo em fé e em loucura. ‘’Aqui temos a localização da

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palavra escrita... nula: não sabia escrever o Antônio... também, se tinha tantos secretários, em Canudos, em Minas, na Bahia, na rua do Ouvidor!... “A localização da crença... esquisita, fantástica, irregular: tinha uma crença ao seu modo, o profeta! cria na Virgem Maria e na Rapina, em Jesus Cristo e em Mercúrio, no poder da Fé e no poder da Bala. Espécie de cura Santa Cruz analfabeto, que, quando dizia missa, oficiava com uma carabina, e quando entrava em combate baralhava com um hissope... Cá temos agora a sede da Renúncia, do Desprendimento dos bens terrenos: o nosso Antônio odiava as notas de banco... as da República, bem entendido: as do Império não deixavam de ser agradáveis à alma deste asceta; daí, quem sabe! dizem que a fera queimava as notas da República — quem viu isso?... “Olá! cá apanhei a sede da afetividade amorosa... Sim, senhor! sim, senhor! isto é que é uma bossa de se lhe tirar o chapéu! mas, tão estragada, tão frouxa, tão amortecida pela falta de uso... também, a idade! também, a imundície destas jagun-

ças! também, a má alimentação! enfim, vejo por aqui que Bom Jesus foi na sua mocidade um famoso azevieiro... Bem! esta agora é a localização da Energia. Que formidável que é! este ladrão, se vencesse, se levasse depois os seus salteadores maltrapilhos até o Rio de Janeiro, havia de ser um déspota incomparável: quatro estados de sítio por mês... Em suma, um bom cérebro: nunca vi um maluco com tanto miolo. E disse! “Basta! Vou-me embora. Tenho de ir à Sorbonna, em Paris, inspirar ao professor de antropologia a sua lição de hoje. Vou-me embora! mesmo porque isto aqui fede que é o diabo... Adeus!” E mais não escreveu o espírito do grande Broca.

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Malucos Furiosos

oda a alma brasileira está ansiosamente voltada para o Norte. Quando, há dois ou três anos, se começou a falar de Antônio Conselheiro, todo mundo encolhia os ombros, com desdém e

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pouco-caso: um fanático! um mentecapto! um profeta de fancaria! um arrastador de sujeitos parvos e de velhas beatas! Hoje, o apóstolo de Canudos é general de um, exército de mais de 5 mil homens... O major Febrônio, chefe da coluna derrotada em Uauá, diz terminantemente: “Toda a pólvora encontrada era de primeira qualidade; havia bom e grosso chumbo, balins, foices e dardos. Todos eles estavam tripla e quadruplamente armados; todos eles traziam armas de fogo, afia dos facões e grossos cacetes pendentes dos pulsos. Pela média, sem receio” de errar, posso garantir que o Conselheiro tem mais de 5 mil homens, apesar de ter afirmado o tenente-coronel Antônio Reis, residente em Cumbe, que ele tem mais de 8 mil”. Não se trata, pois, de uma simples rebelião, facilmente dominável. A guerra civil de Canudos é muito mais grave que a do Rio Grande do Sul e a da revolta naval, porque é uma guerra feita por fanáticos, por malucos furiosos que o delírio religioso exalta — gente que vem morrer agarrada à boca das peças, tentando tomá-las a pulso. Ora, nesta gravíssima situação, é que, mais do que nunca, se devia calar a política, com as suas pequeninas paixões e os seus miseráveis interesses. No entanto, a política está complicando tudo; e já causou o desastre de Uauá, e queira Deus que ainda não venha a causar outros, terríveis e irremediáveis! Para ver até que ponto a mania política alucina os baianos, basta ler, com atenção, os dois longos telegramas da Bahia que O País, por um verdadeiro tour de force, publicou segunda-feira. O primeiro telegrama traz o resultado de um interview, que o correspondente d’ O País teve com o general Sólon. Contou longamente Sólon ao jornalista a barafunda de ordens, de contra-ordens, de hesitações, de providências disparatadas que houve, e que deram em resultado a derrota de Uauá. Ora era o governador do estado quem se considerava exautorado pelo governo da União; ora era ele, Sólon, quem fazia objeções a ordens que lhe pareciam contrárias à letra da Constituição... O segundo telegrama é a reprodução integral da carta que o major Febrônio dirigiu à redação do jornal A Bahia. Leia-se e releia-se este trecho da carta, onde não se sabe o que mais admirar — se a violência do ataque, se os arrebiques nefelibatas da frase: “Nas espinhosas operações de Canudos a incompetência e ambição do autoritarismo centralizador tem sido à socapa a palavra de ordem como apanágio delituoso de desastres. Daquele tem vindo a facilidade para todo recurso escamoteador da dignidade dos que se prezam do mesmo modo como se manejam os capan-

gas para falsificação de atas de eleições na fábrica de galopins sem decência de mandato. “Política torpemente velhaca dos adesos diluídos nos banhos da carnagem monárquica, ignorância perversa das nulidades que a República e a anarquia guindaram por através de fases de filhotismo de importação, a supurar do coração brasileiro, calaram sulcos fundíssimos na vida desta geração, que carrega aos ombros a ferver o sangue dos mártires, o cadáver moral do desbriamento público administrativo. “A tropa está morta, extenuada, maltrapilha, quase nua, impossível de refazer-se em Monte Santo. Avalie agora o público as desgraças que podem advir das resoluções dos incompetentes, das facilidades do governador quando telegrafou ao governo, dizendo que o Conselheiro tinha, quando muito, quinhentos homens mal armados e que o mais eram mulheres beatas.”

Ontem, o República, em editorial, pedia que o crânio do Conselheiro fosse enviado para o Museu Nacional. [...] Não podia deixar de ser curioso estudar a caixa óssea daquele cérebro de fanático, que foi durante tanto tempo o diretor da turma satânica de Canudos.

Notai que quem fala é um soldado, cuja missão, num momento deste, devia ser bater-se, e não fazer retórica! E se assim fala um militar, que tem peias de disciplina, se deste modo um militar faz política, atacando o governador do estado — como não falarão e como não farão política os outros, os paisanos? Pode ser que mesmo os mais atilados decifradores de charadas não logrem penetrar o labirinto da construção gramatical desse major nefelibata. Há, porém, no artigo, uma cousa que todo mundo entende: é a indisciplina flagrante do soldado, que, transviado do caminho do dever pelo amor da política, se permite a liberdade de assim descompor o governador... Todo mundo sabe que Antônio Conselheiro engrossou as suas fileiras com os sebastianistas’ e com os republicanos descontentes. Que os sebastianistas procurem ou adotem todos os meios de ferir a República — compreende-se: estão no seu

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direito, e muito idiotas seriam se o não fizessem. Mas que os próprios republicanos, apenas porque não são amigos do governador da Bahia, vão apoiar o Conselheiro, isso é que é uma cousa torpe que ainda nos espantaria, se já não tivéssemos a certeza de que a preocupação política é mãe de todas as torpezas e de todas as infâmias. E, ai de nós! contra o mal não há remédio. Ainda eu lembraria um remédio para o mal: enforcar todos os políticos, sumariamente — se não me detivesse a consideração de que no Brasil não há ninguém, mas absolutamente ninguém, que não seja político. Valha-nos o diabo, meu pai! Esta terra só merece, como definição, o verso de Raimundo Correia: “É um vasto hospital de alienados...”.

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Cidadela Maldita

nfim, arrasada a cidadela maldita! enfim, dominado o antro negro, cavado no centro do adusto sertão, onde o Profeta das longas barbas sujas concentrava a sua força diabólica, feita de fé e de patifaria, alimentada pela supers tição e pela rapinagem! Cinco horas da madrugada, hoje. Num sobressalto, acordo, ouvindo um clamor de clarins e um rufo acelerado de caixas de guerra. Corro à janela, que defronta o palácio do governo. Uma escura massa de gente, na escuridão da antemanhã, está agrupada na rua. Calam-se os clarins e as caixas de guerra. Há um curto silêncio. E, logo, dos instrumentos de metal, estrompam, e dos tambores que se esfalfam rufando, como corações atacados de hipercinesia, rompe, alto e vibrante, o Hino Nacional. É uma banda militar, que toca à alvorada, em frente do palácio, para celebrar ainda uma vez a grande nova, transmitida ontem à nossa ansiedade pelo telégrafo. Todos os galos da vizinhança acordam, juntando o estridor de seu canto ao estridor das trompas da banda. Longe, um pedaço de céu, tocado de rosa e pérola, anuncia o dia. Como é bom despertar assim, em pleno júbilo, já com o coração livre daqueles sustos dos dias passados-quando a gente, abrindo os jornais, sentia o coração pressago, cheio de medo, remendo o horror de novas catástrofes, de novos morticínios, de novas derrotas! Enfim, assaltada e vencida a furna lôbrega, onde a ignorância, ao mando da ambição, se alapardava perversa! Enfim, desmantelada a cidadela-igreja, onde o Bom Jesus facínora, como um cura Sanra Cruz de nova espécie, oficiava, rendo sobre o espesso burel a coronha da pistola assassina!...

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CONTO Fernanda Tanizaki

Cabelinho de Fogo

Fernanda Tanizaki nasceu em São Paulo. Desde a publicação dos primeiros contos, optou por preservar sua vida pessoal. Não divulga fotos, não concede entrevistas e não faz aparições públicas. Sua principal obra é O Quarteirão Proibido (2015), publicado pela Gryphus Editora do Rio de Janeiro. No conto inédito Cabelinho de Fogo, Fernanda Tanizaki assume uma voz narrativa masculina para recriar os contos de fada no que possuem de mais primitivo e inesperado.

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epois de tudo que aconteceu, fui forçado a me esconder na cidade grande. Demorei a me adaptar porque no começo não encontrei nenhum passatempo capaz de me acalmar. Bares, danceterias, cinemas, tudo inútil. Já estava à beira do desespero quando, por puro acaso, descobri as infinitas possibilidades do metrô. Um vagão veloz e semideserto, após a meia-noite, pode nos oferecer muita surpresa e excitação. Na madrugada da última sexta-feira, por exemplo, encontrei a garota ideal. Ela tinha os cabelos pintados de vermelhofogo, os olhos verdes e a pele branquíssima por causa dos lábios roxos de batom. As botas de cano longo, a minissaia, a blusa coladinha e a jaqueta de couro eram rigorosamente pretas. Além dos braceletes, usava uma espécie de coleira de pitbull cheia de espigões que contrastavam com a delicadeza dos seus — quantos? — quatorze anos? Quinze, no máximo. Sozinha no vagão, levava uma mala velha que não combinava com o visual dark. Só percebi que havia chorado quando me sentei ao seu lado. Tive vontade de tocá-la no ombro, mas meu gesto se interrompeu e ficou congelado no ar. — Posso ajudar? — perguntei. Em vez de responder, ela começou a chorar de novo. Passou a mão no rosto para limpar as lágrimas e borrou um pouco a maquiagem. — Não precisa falar, se não quiser... Agora minha mão chegou ao seu ombro. Dali, devagar, foi subindo para os cabelos.

— Minha mãe — disse de repente. — Aconteceu alguma coisa com ela? — Comigo. — Vocês brigaram? — Acabei de ser expulsa de casa. Antes de dizer a pior das bobagens — “sinto muito” —, deixei que meus dedos explorassem seus cabelos e descessem até a nuca, onde ficaram por um tempo. O polegar, muito levemente, tocou a ponta diminuta do seu queixo. — O que pretende fazer? — Estou indo pra casa da minha vó. — Onde ela mora? Só então, como se tivesse acordado de um sonho triste, lembrou-se de levantar a cabeça e olhar para mim. — Por que quer saber? — Por nada, desculpe. Só perguntei por perguntar. Nossos olhos ficaram colados. Da ponta do queixo, o polegar deslizou pelo rosto, de onde removeu uma lágrima, e se fixou nas proximidades da boca. — O que está fazendo? — Você é bonita. Faz tempo que não consigo beijar uma mulher direito. Quando me dou conta estou mordiscando com força a língua e os lábios que se oferecem a mim. A garota ideal, porém, ao contrário de todas as outras, parecia não se importar com isso. Enquanto a mordiscava, minha outra mão massageou seus joelhos e fez com que abrisse as pernas. Subiu pelo interior de suas coxas, escondeu-se na minissaia e de lá, cuidadosamente, trouxe a calcinha ínfima que se enroscou um pouco nas botas de cano alto. Pensei que seria preta como o resto do vestuário, mas me en-

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ganei. Era rosa, um rosa infantil e muito delicado, com um desenho e uma fitinha na frente. Enfiei a calcinha no bolso. Abri o zíper. — Tem camisinha? — disse ela. — Pra que camisinha? — Então não! — E voltou a fechar as pernas. — Sem camisinha, não. Agarrou a mala e caminhou para o outro lado do vagão. O metrô diminuiu a velocidade e parou. “É meu ponto”, disseme com as sobrancelhas. — Como faço pra te encontrar? Em vez de me dar um telefone ou um endereço de e-mail, optou pela pior das bobagens: — Sinto muito. E saiu. Também saí, pela outra porta, e me ocultei atrás de uma coluna. Ela olhou para trás e só viu os dois bêbados que entravam no vagão. O metrô voltou a rodar. Dei um tempo até ouvir os ruídos da catraca e das botas dela na escadaria. Depois foi fácil segui-la e descobrir onde morava a avó.

V

oltei para meu apartamento e dormi durante algumas horas. Tomei uma xícara de chá quando acordei. Estava com fome, mas resolvi esperar. Ao anoitecer do dia seguinte, vesti minha melhor roupa e caminhei até a casa da vó da garota ideal. Levei duas horas no trajeto, não utilizei ônibus nem metrô, não tinha pressa, precisava refletir, planejar. A casa era antiga e parecia sufocada pelos edifícios que dominavam a re-

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ção. Tentei ser simpático. Depois de me desculpar por incomodá-la num sábado à noite, inventei um nome qualquer e expliquei a razão da minha visita: — Vim por causa da sua filha. — Ela não sabe onde moro? Avise àquela ingrata que já inventaram o telefone. — Não se trata disso, minha senhora. O assunto é meio delicado e... bem... envolve valores. Dinheiro, entende? Posso entrar para conversarmos mais à vontade? — Por que o senhor não procura em outro lugar? — Como assim? — A menina. Não perca seu tempo que ela não está comigo. A velha mordeu a isca. E mais fácil do que imaginei. Agora era só manter a farsa e cuidar para não me contradizer: — Do que a senhora está falando? Não sei de menina nenhuma. — Então boa noite. — Não, não. Escute, por favor. A sua filha... na verdade... Olha, ela não pode saber que estive aqui. — Por quê? — Por causa da procuração. — Que procuração? — A que a senhora assinou em favor dela. Estou interessado em adquirir esse imóvel e... — O quê?! — explodiu a velha. — Eu nunca assinei nenhuma procuração em toda a minha vida. — Como não, minha senhora? Tenho os papéis aqui comigo. — São falsos. — Pois é. Foi disso que suspeitei. Vim esclarecer o que me parece... como

dizer?... uma falcatrua. — Aquela sem-vergonha! Não bastasse maltratar a pequena... E agora isso! Enfiei a mão no bolso e dele tirei as páginas da corrente milagrosa. — Podemos conversar? A velha recuou e desengatou a corrente. Eu estava dentro. Entreguei as folhas para ela, que se afastou irritada, à procura dos óculos. “Ela me paga”, dizia. “Não perde por esperar”. Tinha a face enrugada, era magra esquelética e vestia um roupão enorme, cor de chocolate. Talvez tenha sido uma mulher bonita, pois ainda lembrava a neta, mas agora não passava de um traste doente e deplorável. Tranquei a porta, discreto. — Ei! Isto aqui não é nenhuma procuração. O senhor... o senhor... — Nada de pânico, minha senhora. Por favor. Finalmente entendeu que estava em perigo. Tentaria correr? Gritaria? Seria louca o bastante para me enfrentar? — Olha, moço, eu não tenho dinheiro... não tenho nada de valor... mas o senhor pode levar o que quiser... eu não vou contar pra polícia... prometo... Eu precisava agir rápido, mesmo assim não resisti à chave de ouro: — Não se preocupe que não vou roubar nada. — Então exibi a calcinha. A calcinha cor-de-rosa com um desenho e uma fitinha na frente. — Só quero esperar até que a dona disto chegue. — Co-como? — gaguejou a velha, apavorada.

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gião. Muito provável que as imobiliárias estivessem de olho no terreno, talvez com propostas milionárias. As grades nas janelas indicavam que o local já não era apropriado para residências do tipo. De onde montei guarda — uma confeitaria no outro lado da rua —, pude ver quando a garota saiu, trancou a porta por fora e enfiou uma cópia da chave na bolsa. Estava vestida do mesmo jeito que no metrô. “Tá indo pra farra”, pensei. As luzes se apagaram lá dentro, mas ainda avistei uma claridade na janela. A velha vendo TV, só pode. Resolvi dar mais um tempo. A moça da confeitaria perguntou se eu queria comer alguma coisa. Apesar da fome, pedi apenas um cafezinho com leite. Alguém havia deixado algumas fotocópias sobre a mesa em que eu estava. Eram mensagens de uma certa corrente milagrosa. Quem as lesse deveria tirar sete cópias e passá-las adiante, para sete pessoas de sorte, e assim receber sete graças de Nossa Senhora Aparecida. Caso contrário, se permitisse que a corrente se quebrasse, o responsável seria castigado com sete anos de azar. Guardei as páginas no bolso do paletó. Logo a confeitaria fechou. Esperei mais uma hora, de pé, encostado num poste de luz. Às onze, quando a rua estava praticamente deserta, aproximei-me da casa e toquei a campainha. Uma fresta se fez na porta, presa por uma correntinha, e o rosto da avó apareceu para mim. Em vez de falar, moveu a cabeça e exibiu uma careta de interroga-

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O

uvi a chave girar no interior da fechadura. Pouco demorou para que ela entrasse, aos tropeços. Bateu a porta, tornou a trancá-la. Ainda que visivelmente bêbada, lembrou-se de engatar a correntinha e certificar-se de que tudo estava corretamente fechado. Já acostumados com o escuro, meus olhos enxergavam mais que os dela. Tentou acender a luz, mas não conseguiu. Tateou até chegar ao outro lado da sala e testar todos os interruptores que encontrou pelo caminho. Besteira. Enquanto esperava, tomei o cuidado de inutilizar as lâmpadas da sala, do corredor, da cozinha, dos quartos e do banheiro. — Ô merda! — disse ao esbarrar na estante. — Por que as luzes não funcionam, vó? Acabou a energia? Onde é que tem uma vela, pô? Sua voz era de mando. Provavelmente exercia poderes sobre a velha. — Caralho! — resmungou, confirmando minhas expectativas. Fiquei ainda mais excitado. Ao caminhar para a janela, trombou com o vaso e a mesinha de centro. Em meio a palavrões que não combinavam com sua beleza, chutou o cesto de revistas, por querer, avacalhada, até se ajoelhar sobre o sofá e abrir as cortinas. Um vestígio da iluminação pública chegou até nós, mas ela ainda não me viu. — Cadê você, vó? Não tem nada pra comer? Um pouco sentada, um pouco em pé, exausta, começou a tirar a roupa. Tudo aconteceu lentamente, com todas as dificuldades impostas pela embriaguez. Pri-

meiro as botas de cano alto, depois a jaqueta de couro, a blusa (não usava sutiã) e a minissaia. Ficou apenas de meias, coleira e braceletes. E calcinha, que dessa vez era preta. Coçou a axila e a virilha, espreguiçou-se. E assim, seminua, livre da fantasia que se obrigava a ter, mostrou-me toda a sua doçura e fragilidade. Pelo que entendi, dormiria no sofá. Ao se deitar, entretanto, sentiu que havia outra pessoa na sala. Talvez tenha ouvido minha respiração ou sentido meu cheiro, não sei. Sei que foi bom. Ela se pôs alerta, levantou-se e procurou aguçar os sentidos. — Vó? É você que está aí? — Hu-hum — balbuciei das sombras. Seria a minha imitação boa o suficiente para enganá-la? Afirmativo. Ela voltou a vestir a jaqueta, agora com um tom de voz mais respeitoso, e caminhou na minha direção. — Puxa, vó, por que não disse que estava aí? Liguei a televisão e a sala se iluminou de azul. Ela me viu e ficou paralisada. Pensei que fosse gritar, ou desmaiar, mas me reconheceu a tempo. — O que está fazendo aqui? — Adivinha. — A minha vó — sussurrou ela, recuando. — O que você fez com a minha vó? — Não se preocupe que a velha não vai atrapalhar a gente. Levantei-me. Ela recuou mais um pouco, confundiu os passos e caiu no meio da sala. — Não se aproxime — ameaçou. —

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Eu vou gritar, eu vou gritar! — Não vai, não. — Exibi a faca de cortar carne que encontrei na cozinha. — Não acha que tenho olhos bonitos? Ela ficou muda. — Responde, porra! — Acho... sim... eu... eu acho... — Mais alto! — Acho! — gritou ela, com lágrimas. — E meu corpo? É sarado? — O que você quer de mim? — É ou não é? — É... — E minha boca? Gosta da minha boca? — Gosto... — Então diga: nossa, que boca gostosa você tem. — Por favor... eu não quero morrer... não quero... — Diga! — Nossa... que... boca... gostosa... você... tem... — Você parece cansada, deve estar com a goela seca. Por que não toma um gole de vinho? Apanhei a taça sobre o televisor e ofereci a ela. — Não se faça de rogada, menina. Vamos, beba. Ela segurou a taça e, sem tirar os olhos de mim, sorveu o líquido espumante. Engasgou no primeiro gole: — Meu Deus! — gritou horrorizada. — Isso não é... não é... Saltei sobre ela e comecei a beijá-la (e mordiscá-la) na boca. Tentou reagir. Então agarrei seu pescoço, forte, e arranquei, com os dentes, o primeiro pedaço. O beicinho inferior, suculento.

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POESIA

Reflexos de uma Vida Cezar Zillig

MEU FILHO

BARCOS

VILA

agora que sabes que a rocha em que pisas já era antes de existir tua própria espécie, tens consciência dos limites de tua existência

Maria José Tutimés Biguá Obrigado Senhor Stela Maris nomes de barcos, recolhidos ao mar.

Debaixo deste asfalto quente, meus campos de menino.

E, quando em noites de presépio as estrelas te fascinam bem sabes que são universos reduzidos a pontos cintilantes em inconcebíveis lonjuras. Um lembrete de tua verdadeira estatura: uma enorme pequenez no tempo e no espaço! Apesar de tudo meu filho estátuas e monumentos há de homens que se julgaram grandes e importantes. Desgraçadamente o homem não costuma olhar ao seu redor costuma não refletir sobre o que é e o que faz.

Meus bosques, hoje, uma trama de fios, placas, postes, esgoto.

Solitárias inspirações. Inocente, incauta arte! Nomes de barcos. Surpresas, de natureza tão diversa, de brilho, beleza e sabor tão vários, como os peixes que presos às redes vêm. Nomes de barcos, lacônicos poemas, pílulas de literatura, entre vagas, sol e sal.

Meus amigos de então, ainda devem perambular por aí, velhos e sem graça sérios, irreconhecíveis; metidos em seus negócios, um pouco cúmplices, um pouco responsáveis por este Caos.

FESTA, A VIDA Um se despede outro parte outro ainda simplesmente não é mais visto

Porém não importa ser pequeno e efêmero neste mundo relativo.

Vão-se os rostos amigos A festa esmorece e por fim acaba Os retardatários sentem a solidão crescer e já sem mais razão para ficar acabam desejando partir também

Sê como um meteoro, meu filho. Apenas brilha. Brilha e encanta!

Cezar Zillig. Médico. Escreveu Dear Mr. Darwin: “A intimidade da correspondência entre Fritz Müller e Charles Darwin”.

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