__MAIN_TEXT__

Page 1

[89]

9 788590 273936

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

1


2

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

3


UNIVERSIDADE REGIONAL DE BLUMENAU REITOR João Natel Pollonio Machado VICE-REITOR Udo Schroeder LOGOMARCA A logomarca da nova RDC foi desenvolvida pelos estudantes do Curso de Publicidade e Propaganda da FURB, sob a orientação da Profa. Fabrícia Durieux Zucco. A eles os nossos agradecimentos.

EDITORA DA FURB

A RDC é uma publicação semestral da Editora da FURB. As opiniões expressas nas matérias e nos artigos são de inteira responsabilidade dos seus respectivos autores.

CONSELHO EDITORIAL Edson Luiz Borges Elsa Cristine Bevian Moacir Marcolin Juliana de Mello Moraes Roberto Heinzle Marcia de Freitas Oliveira Maria José Ribeiro

INTERESSADO EM SE TORNAR COLABORADOR? Rua Antônio da Veiga, 140 Bairro Victor Konder 89012-900 – Blumenau – SC E-mail: rdc@furb.br Fone: (47) 3321-0329

EDITOR EXECUTIVO Maicon Tenfen ARTE Ilustração da capa: Gabriel Quinelo Foto da contracapa: Ruy Pratini Arte final: Fabrício Álex Bittencourt Diagramação: Fabrício Bittencourt e Vilmar Schuetze

PARA ASSINAR: E-mail: chris@furb.br Fone: (47) 3321-0366

MARKETING INSTITUCIONAL Coordenação de Comunicação e Marketing da FURB DISTRIBUIÇÃO Edifurb

www.furb.br/editora

COLABORADORES

Cezar Zillig. Médico. Escreveu Dear Mr. Darwin: “A intimidade da correspondência entre Fritz Müller e Charles Darwin”.

Dominique Santos. Professor de História da FURB e Coordenador do Laboratório de Estudos Antigos e Medievais.

Evandro Assis. Jornalista, pesquisador e professor universitário, é autor de O Jornalismo e a Mídia Social, publicado em 2009 pela Edifurb.

José Endoença Martins. Professor no Mestrado da UNIFACVEST e responsável pela linha de pesquisa Práticas Culturais e Sociais da Literatura.

Josué de Souza. Mestre em Desenvolvimento Regional. Professor da FURB e da Rede Estadual de Educação de Santa Catarina.

Júlia Schaefer. Acadêmica do Curso de Jornalismo da FURB (Fundação Universidade Regional de Blumenau).

Lucas Amorelli. Fotógrafo e mergulhador. Estudou Biodiversidade Marinha de Ambientes (USP). Ex-fotojornalista e blogueiro do Grupo RBS. Agora colaborador da Barcroft Media.

Marcos Mattedi. Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP). Professor titular do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional (FURB).

4

Maria José Ribeiro. Editora da Linguagens - Revista de Letras, Artes e Comunicação. Professora do Departamento de Letras da FURB e Doutora em Literatura (UFSC).

Gabriel Quinelo. Artista plástico curitibano. Estudou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Há 10 anos reside em Blumenau.

Giovana Pietrzacka. Jornalista, mestranda em Jornalismo na UFSC, com MBA em Marketing e Comunicação, e professora do Curso de Jornalismo da FURB.

Leonardo Brandão. Historiador e coordenador do Laboratório de Estudos Contemporâneos. É orientador no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da FURB.

Leo Laps. Jornalista, fotógrafo e blogueiro apaixonado por ecoturismo e aventuras, viagens, gastronomia e cultura.

Miguel Sanches Neto. Escritor e professor universitário. Um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea.

Sté Spengler. Formada em Letras, participou do Projeto Beta: antologia de contos universitários.Atualmente está cursando mestrado em literatura.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


SUMÁRIO Capa. Gabriel Quinelo Entrevista, 06.

Empresa Familiar

Como um ilustrador autodidata e uma produtora de TV criaram um dos maiores estúdios de animação do país

Literatura, 12.

Clarice Pop Star

A escritora que venceu as barreiras da linguagem e continua mais viva do que nunca

Saúde, 17.

Quem tem medo de faixa preta?

Mitos, crenças e preconceitos sobre os medicamentos que estão ajudando as pessoas a lidar com a depressão

Cultura, 24.

As epopeias e a cultura ocidental

O que épicos como a Ilíada e a Odisseia têm a ver com sagas populares do gênero Game of Thrones e O Senhor dos Anéis

História, 26.

Três décadas no mercado editorial A Editora da FURB completa 30 anos com expectativa de crescimento e inovação

Política, 31.

Crônica de uma democracia pouco democrática Um panorama da crise que destruiu o modelo de regulação política e escancarou as fragilidades institucionais de Brasília Ensaio, 39.

Os trabalhadores do mar

Um ensaio fotográfico sobre o maior terminal pesqueiro do país

Diversidade, 44.

Negrice, negritude, negritice... Uma tríade que nos ajuda a compreender a literatura afro-brasileira

Opinião, 48.

A virada à direita e a ofensiva “neocons”

Neoliberalimso x Estado de bem-estar social — e não capitalismo x comunismo — são os conceitos que realmente estão em jogo no debate político atual

EDITORIAL

NOVA FASE A Revista de Divulgação Cultural — ou simplesmente RDC — foi criada em meados de 1977. Circulou durante 29 anos, quase uma eternidade se considerarmos que o seu berço, a FURB, acaba de completar meio século de existência. Teve vários formatos e projetos editoriais, mas o objetivo era sempre o mesmo: compartilhar o conhecimento produzido na Universidade. A revista morreu em 2006, quando parecia absurdo manter uma publicação impressa, para ressurgir agora, uma década depois, através do exemplar que você tem em mãos. O que muda nesta nova fase da RDC? O tamanho físico é maior, a periodicidade é semestral e a distribuição é focada no público externo — e é neste item, “público externo”, que se encontra a mudança fundamental. Em vez de perguntarmos aos nossos colaboradores o que eles têm a dizer para os seus pares na Universidade, perguntamos o que eles têm a dizer para o mundo. A nova RDC, portanto, não é uma revista acadêmica, não no sentido estrito da expressão, embora continue com o velho propósito de “compartilhar o conhecimento produzido na Universidade”. Antes de tudo, a nova RDC pretende ser uma revista jornalístico-reflexiva. O “cultural” do título, por isso, deve ser entendido da forma mais ampla possível. O que um sociólogo pode compartilhar com pessoas que não são da sua área de conhecimento? E um matemático, o que ele pode fazer nesse sentido? E um médico, um crítico literário, um historiador, um artista plástico? As respostas estão nos artigos que você vai encontrar adiante. Política, saúde, literatura, comportamento, tudo que possa interessar ao leitor mais exigente interessa também à nossa linha editorial. É saudável e inevitável que autores das mais variadas tendências venham a colaborar conosco. Há espaço para todos, inclusive para os polêmicos. A RDC é política, embora não seja de esquerda, centro ou direita. É religiosa, embora não levante a bandeira de nenhuma denominação. E é também didática, ainda que não possua fórmulas para resolver os problemas da humanidade. Temos a preocupação de selecionar os temas mais pertinentes, aprofundá-los em textos que não encontrariam espaço na mídia comercial e oferecê-los a um leitor “crítico”, no melhor sentido da palavra, que deseja refletir sobre o mundo em que vivemos. Gratos pela sua companhia em nossa jornada. Maicon Tenfen

Jornalismo, 53.

Quem vai preencher o vácuo informativo local? A crise do jornalismo pode levar o setor a um beco sem saída ou a uma renascença revolucionária

Religião, 57.

O Estado laico é sagrado!

Como e por que a bancada evangélica se tornou decisiva no jogo político brasileiro

Ficção, 61.

O outro lado de Kafka

Conto inédito de Miguel Sanches Neto

Poesia, 66.

O poema das crianças traídas

Lindolf Bell mais atual do que em sua própria época

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

Projeto da última RDC, em 2006, que dava destaque ao trabalho do escritor Júlio de Queiroz. Devido à interrupção da revista, o número 89 jamais foi publicado.

5


ENTREVISTA

EMPRESA FAMILIAR COMO UM ILUSTRADOR AUTODIDATA E UMA PRODUTORA DE TV CRIARAM UM DOS MAIORES ESTÚDIOS DE ANIMAÇÃO DO PAÍS cabo Disney XD. Trata-se de um novo e grande momento para o estúdio, visto que agora investem na criação de conteúdo próprio, o topo da pirâmide do competitivo mercado audiovisual. A entrevista a seguir foi realizada nas dependências da Universidade Regional de Blumenau, mais precisamente na Livraria Universitária, e contou com a participação de Leo Laps, jornalista com larga experiência na área cultural, e Júlia Schaefer, acadêmica do Curso de Jornalismo da FURB. Aos entrevistados e entrevistadores, nossos mais sinceros agradecimentos. Maicon Tenfen

Daniel Zimmermann

Aline e Rubens Belli se conheceram quando eram funcionários da FURB. Ele trabalhava como designer gráfico, função que exerceria em diversos setores, e ela atuava na TV da Universidade, onde criou e produziu o Universo Pesquisa, programa exibido nacionalmente em parceria com a TV Brasil. Casaram-se em 1999, ano em que se inicia a história do Belli Studio Design Ltda. Com foco em duas frentes de trabalho — ilustração e animação — a empresa passou por várias fases em termos de prestação de serviços e inovação criativa. Pais de dois garotos — Renan (13) e Rafael (10) — Aline e Rubens lideram uma numerosa equipe na produção de Boris e Rufus, série original de animação que será veiculada pelo canal a

O casal Aline e Rubens Belli em momento de descontração durante o bate-papo que aconteceu nas dependências da Livraria Universitária da FURB.

6

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Leo: Fazer animação fora de um grande centro é uma iniciativa no mínimo inusitada. Quando vocês resolveram dar esse passo? Rubens: Eu sempre adorei animação. Mas até o princípio dos anos 1990, você tinha que trabalhar com câmeras de cinema. E câmeras de cinema, em Blumenau, era algo impensável naquela época. O equipamento era muito caro, havia o detalhe da revelação, do table top, que era uma estrutura para segurar a câmera, dos acetatos e tudo mais. Você tinha que fazer animação em acetato! Era algo tecnicamente impossível para a nossa realidade. Eu adorava, acompanhava os processos, mas estava conformado que, quanto à animação, era melhor deixar pra lá. Aline: Só que aí vieram os computadores. Rubens: Sim, o mundo digital proporcionou uma revolução de possibilidades. Através de um amigo chamado Anderson Torres, conseguimos uma placa de captura que permitia a gravação de fitas. Começamos a fazer algumas brincadeiras com animação. Aí surgiu uma demanda do Supermercado Vitória, que hoje não existe mais, mas era forte no período. Eles tinham um boneco baseado no logotipo da empresa, o Vitorinho. Era época de Copa do Mundo e chegou até nós a possibilidade de fazer uma vinheta do Vitorinho chutando uma bola. Foi a nossa primeira experiência. A animação foi veiculada na RBS TV, mas ainda não tínhamos o estúdio. Leo: E com o Belli Studio, quando vocês viram que era um caminho possível de trilhar? Rubens: Por volta do ano 2000, logo depois que registramos a empresa. Trabalhávamos com livros infantis, principalmente para a editora TodoLivro, mas havia esse desejo de fazer animação. Conhecemos a Yedda Goulart, autora de um livro bem legal chamado Aventuras na Ilha da Magia. Fizemos um contrato com ela e escrevemos um roteiro para um curta animado. Aline: Coincidentemente, abriu o primeiro Prêmio Cinemateca Catarinense. Concorremos com o projeto. Fizemos pesquisa de campo, batemos fotos de todos os cenários, que depois foram desenhados a mão. As personagens são fictícias, mas os cenários são baseados em localidades de Florianópolis. Rubens: Enquanto fazíamos esse projeto, descobri um curso em São Paulo com o Haroldo Guimarães, um curso de anima-

ção. Afinal, não havia muitos cursos do gênero naquela época. O Haroldo trabalhou na Disney em produções como Aladim e A Pequena Sereia. Aí voltou para o Brasil, abriu o próprio estúdio, fez diversos clipes musicais e episódios dos Ursinhos Gummi. Prestava serviços aqui do Brasil para os EUA. Foi quando eu descobri o curso dele. O problema é que durava oito meses, com aulas semanais... Júlia: Como é que você fez? Aline: Começou atazanando o Haroldo por telefone (risos). Rubens: Fiz um drama (risos). Disse que era de longe, que não podia ir para São Paulo toda semana. Perguntei se ele faria um intensivão e ele topou. O curso começou numa segunda e terminou na quarta-feira da semana seguinte. Fiz o módulo I e depois voltei para fazer o módulo II. Aprendi a técnica Disney, como eles trabalhavam nos Estados Unidos.

“De 2001 em diante, fizemos vários vídeos publicitários de 30 segundos. Mas havia a questão das séries, que eu gostava mais. Contar uma história é muito mais legal.”

Maicon: Isso foi durante a produção de Aventuras na Ilha da Magia? Rubens: Sim, durante o projeto. Maicon: Foram corajosos! Aprendiam ao mesmo tempo em que botavam a mão na massa. Aline: O Rubens trouxe o conhecimento para cá, fez oficinas para ensinar o pessoal. Rubens: É verdade, montamos uma oficina no estúdio e disponibilizamos vagas para quem era de fora. Aline: Aí aconteceu uma coisa engraçada porque a gente tinha que comprar mesas de luz. Mas onde comprar isso? Era tudo importado. E tudo muito caro. Então descobrimos que o pai de um rapaz que trabalhava conosco fazia trabalhos em madeira. Ele montou as mesas de luz para nós, várias delas, inclusive com regulagem. Depois descobrimos um lugar onde corta-

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

vam acrílico. Compramos algumas réguas com perfurações especiais e mandávamos perfurar o papel numa gráfica! Leo: Era praticamente um trabalho manual. Mas se ficassem esperando a tecnologia chegar... Rubens: Sim, desenvolvemos os nossos próprios recursos. Passávamos parafina no acrílico para deslizar melhor durante o trabalho. Foram vários anos usando aquilo. Maicon: E o estúdio se firmou no mundo da animação? Rubens: Aos poucos. De 2001 em diante, fizemos vários vídeos publicitários de 30 segundos. Mas havia a questão das séries, que eu gostava muito. Contar uma história é muito mais legal. O Beto Carrero World era um dos nossos clientes. Tínhamos contato com o próprio Beto Carrero, que era um cara de visão. Fiz uma animação bem curtinha do Betinho Carrero cavalgando o Faisquinha. Eu gostava muito do design do personagem, que não é meu, mas de um ilustrador paulista que desenvolveu um projeto nos anos 80. Mostrei a animação para o Beto Carrero, que ficou maravilhado. Isso foi em 2004, por aí. Falei que gostaríamos de produzir uma série com o Betinho Carrero, um personagem que possui todo um universo. Ele topou fazer um piloto pra ver como é que ficava. Aline: Foi muito legal quando a gente foi ao parque apresentar o piloto. O Beto Carrero veio de manhã cedo com cara de sono, colocou o episódio para passar na TV. Aí pegou o telefone, falou com a secretária e disse que era para reunir todos os funcionários de comunicação e marketing no teatro do parque. Montamos o equipamento e passamos o vídeo no telão. Todo mundo aplaudiu. Maicon: E quantos minutos tinha o episódio? Rubens: Aquele tinha 10 minutos. Maicon: Então seria uma daquelas séries comerciais, para vender os direitos de exibição? Rubens: A ideia era essa. O problema é que não tínhamos muita noção de um mercado que praticamente inexistia no Brasil. Produzimos 9 episódios de 10 minutos e outros 12 de 5 minutos, totalizando 21 episódios. Foi nossa grande escola em termos de série de animação. A dinâmica de uma série é totalmente diferente da di-

7


nâmica de um vídeo publicitário. É como um atleta que precisa correr 100 metros e um atleta que precisa correr uma maratona. Pois corremos essa maratona durante dois anos. E tudo no papel. A tecnologia só vinha no final para colorir e compor os cenários. Júlia: Quantas pessoas estavam envolvidas na produção? Rubens: Chegamos a ter 35 no estúdio. E hoje tem mais ou menos o mesmo número de pessoas. Aline: Mas com mais projetos. Rubens: A capacidade de produção aumentou devido ao uso dos softwares. Antigamente precisávamos de 30 pessoas para produzir 100 minutos, hoje bastam 5 pessoas para produzir a mesma quantidade de tempo. Maicon: Legal, mas por que as crianças não viram o Betinho Carrero na televisão? Aline: Nós entregamos todo o material no finzinho de 2007, mas o Beto Carrero morreu no início do ano seguinte. Além da perda, foi um susto muito grande. Houve todo um processo de inventário, toda uma reorganização do parque. Os novos dirigentes preferiram mudar o rumo. Então a série não chegou à TV. Foi lançada apenas no parque. Havia um cinema especial onde ocorria a exibição. Depois liberaram alguns episódios na internet, há um canal específico do Betinho Carrero no YouTube. É um material que ficou subaproveitado até hoje. Rubens: E o Beto Carrero era um cara da velha guarda. Centralizava as decisões, mas tinha muitos contatos. O Silvio Santos, por exemplo. Cada vez que o Beto falava comigo, dizia: o Silvio Santos está com o espaço lá, vamos colocar esse negócio no ar. Provavelmente a série passaria em 2008 no SBT. Seria a primeira série produzida no Brasil a passar em rede nacional neste formato. Leo: E depois de toda essa frustração, o que aconteceu? Aline: A gente estava com uma baita de uma estrutura, estava com uma segunda temporada prevista. O Beto Carrero havia dito que íamos adiante e então ficamos esperando. Ia sair a segunda temporada, mas tivemos que segurar um mês. Rubens: O que houve é que ficamos alguns meses no escuro, sem saber o que estava acontecendo, mesmo antes da morte dele. Não desejavam que fosse divulgado que ele não estava bem de saúde.

8

Aline: Mas continuamos produzindo. Entregamos a série e ficamos segurando a equipe, esperando a entrada da segunda temporada, esperando um ok que não vinha. Rubens: É que o parque não deu uma resposta definitiva para o cancelamento do projeto. Aline: E a questão é que não tínhamos um plano B naquele momento. Estávamos com todo mundo treinado. Então, ok, tínhamos outros trabalhos, mas na área de livros infantis, um mercado pequenino se comparado com a área de animação. E aí passou um mês, dois, três. Quando chegou o quarto mês, o contador ligou para nós e perguntou como estávamos pagando o pessoal.

“Se eu tivesse nascido 40 anos antes, por exemplo, talvez passasse a minha vida sem fazer animação. [...] Mas acho que o pilar fundamental é fazer aquilo que você gosta e viver feliz no dia de hoje.” Rubens: Vendemos dois carros, usamos a reserva. Ele disse para cancelarmos tudo, pois ele viria conversar pessoalmente com a gente porque as coisas estavam complicadas. Mas assim, sabe, aquela esperança, aquela paixão? Estávamos num momento muito emocional. Dizíamos a todo instante que ia dar certo, ia dar certo! O contador abriu os livros, mostrou tudo, conversou, fez cálculos. Aline: No fim da reunião, disse assim: estão vendo aquele degrauzinho? Ou vocês tomam uma atitude agora, ou vão sentar naquele degrauzinho para chorar. Se caírem em empréstimos para pagar a folha, não vão mais se levantar! Foi um ano muito difícil. Tivemos de mandar quase 20 pessoas embora. E depois fizemos empréstimos para pagar contas básicas. Maicon: Vocês chegaram a pensar em largar a animação e ficar somente com a ilustração? Rubens: Não. Leo: Então como foi a volta por cima? Aline: Foi bem lento. Primeiro entramos em curtas editoriais.

Leo: Foram atrás de outros clientes? Aline: Enxugamos a empresa, reduzimos a equipe para seis, sete pessoas. Fomos passo a passo. Entraram alguns curtas editorais e a gente continuou trabalhando com animação. Rubens: O curta editorial, só para explicar, é uma animação vendida junto com os livros infantis em um pacote. Era o produto que a gente conseguiu, só que ele não poderia ter o mesmo valor de produção dos materiais para TV. Encontramos um meio termo de animação econômica que coube no orçamento da editora. Alguns desses vídeos estão disponíveis no YouTube. Aline: Nessa época conhecemos a Associação Brasil Audiovisual Independente (BRAVI). Começamos a olhar para o mercado como um todo e observar o que estava acontecendo. Rubens: E outro evento importante foi o Anima TV, um consórcio entre a EBC e a TV Cultura de São Paulo. Foi o melhor programa de séries que já vimos, no sentido de ser um edital com capacitação. O objetivo era explicar o que é uma série de animação, algo voltado para o público de massa, que vai para a TV. Fizeram um grande programa, com oficinas em vários lugares do Brasil. Fomos para Curitiba. Lá estudamos o que é uma “bíblia” de animação, que é como chamam o projeto, e aprendemos não apenas a criar, mas também a vender o que criamos. Aline: Isso é muito importante. Você precisa ter alguns documentos para mostrar a um possível comprador, que é um executivo de um canal de TV, por exemplo. Esses documentos devem ter os conteúdos elementares do universo narrativo, características dos personagens, premissa. Não pode ser uma história com início, meio e fim. É preciso vender um conceito que possa gerar cinquenta, cem episódios. Aprendemos a fazer isso no Anima TV. Embora o nosso projeto não tenha sido classificado, estabelecemos contato com muita gente. Rubens: E fomos contratados para fazer a animação do Carrapatos e Catapultas, já que tínhamos essa experiência com o Betinho Carrero. Leo: Animar ideias de terceiros... Era o que queriam fazer? Aline: Sim. Quando prestamos serviços temos um respiro que nos permite uma programação de alguns meses.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Daniel Zimmermann

Sobre a mesa de leitura da Livraria da FURB, celulares gravam a conversa entre Leo Laps (esquerda), Julia Schaefer, Maicon Tenfen, Aline e Rubens Belli.

Rubens: Fizemos os episódios do Carrapatos, entregamos e uns anos depois a Cartoon comprou também. Júlia: Que ano foi isso? Rubens: 2012. Leo: Então foi a primeira vez que uma série de animação de vocês foi veiculada em um canal de televisão? Rubens: Na verdade, já tinha passado na TV Brasil e na TV Cultura, que são nacionais. Leo: Quando entrou na Cartoon, vocês viram que podiam alçar voos mais altos? Rubens: É, a gente já acreditava. Maicon: Depois disso veio o Peixonauta, certo? Rubens: Certo. Tudo porque participamos dos principais eventos da animação no Brasil e no exterior. Aline: Acabamos conhecendo muitos produtores, praticamente todo mundo que está no mercado interno. Nós fechamos várias séries por conta desses contatos.

Rubens: Em um evento o contato é mais intenso, por isso é importante participar. Foi assim que o pessoal da TV Pinguim conheceu a gente. Apresentamos o nosso portfólio no momento em que eles precisavam de ajuda com o Peixonauta, afinal estavam com um volume de trabalho enorme. Começamos a fazer alguns episódios, que ficaram bem legais, e seguimos em frente no projeto. Foi bom porque o personagem é internacionalmente conhecido. Agora chegamos lá fora, mostramos o nosso trabalho e eles já conhecem o Peixonauta. Do mesmo modo veio o Meu Amigãozão, que também é uma série internacional, de um pessoal do Rio de Janeiro, a 2DLab, em coprodução com uma empresa canadense. Leo: Legal. E o Boris e Rufus? O que esse projeto tem de diferente? Rubens: Um dos nossos desejos sempre foi ter personagens próprios, que fossem do estúdio. Afinal, também temos mensagens que achamos interessantes transmitir ao mundo. Mas eu tinha ciência de que primeiro precisava aprender mais. Os caras lá no estrangeiro estão fazendo isso há um século, enquanto nós começamos a meros três, quatro anos. O estúdio sempre adotou uma postura de participação criativa. Na medida do possível, estamos abertos

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

às ideias que nos trazem de fora. O Boris e Rufus, por exemplo, concebido pelo Filipe Cargnin e pela Elisa Baasch, chegou a nós através de um evento chamado Catarina Criativa, de Florianópolis. Assinamos com o Filipe e a Elisa e levamos a série para vários eventos internacionais. Apresentamos para a Disney e eles acharam que se encaixaria bem no Disney XD. Fechamos um contrato de exibição na América Latina para 26 episódios de 11 minutos. Júlia: Quando será a estreia? Aline: Ainda não sabemos. Mas já está em pré-produção, com o desenvolvimento de todos os roteiros e testes de animação dos personagens. Leo: Conta um pouquinho, então. Aline: É a história de um cachorro, um gato e um furão que pensa que é um cachorro. Leo: Mas tem um gato no meio? Rubens: Ele não está no meio, mas ao lado, pois é vizinho do cachorro e do furão. Leo: Quem é o Boris? Aline: É o cachorro.

9


Leo: E o Rufus é o furão que pensa que é cachorro? Aline: Isso. E o Leopoldo é o gato. Então é um cachorro, um gato e um furão que pensa que é um cachorro (risos). Quando os donos saem de casa, eles entram no mundo da tecnologia. Eles têm internet, redes sociais. Leo: Ah, eles têm tecnologia real que usam quando os donos saem de casa? Quem está escrevendo os roteiros? Aline: Montamos uma equipe com cinco roteiristas profissionais. Rubens: Uma das coisas que percebemos em produtoras estrangeiras é que os roteiros são escritos por várias pessoas. Não é mais aquele trabalho autoral que foi praxe durante muitos anos. Quando você usa todo o seu conhecimento em estruturação narrativa, colocando à prova de outros olhares, o normal é que a história fique muito mais engraçada e envolvente. Foi com esse conceito que construímos o nosso grupo de trabalho. Leo: Fazem reuniões pela internet? Aline: Começamos com uma sala de roteiristas aqui em Blumenau. Vieram cinco roteiristas, pegaram a “bíblia”, revisaram todos os detalhes, refizeram e reestudaram o perfil dos personagens, os detalhes de todo o universo. Aí montaram várias sinopses. Saíram daqui cada um com três sinopses. E as reuniões são semanais, agora por Skype. E a Disney participa desse processo. Rubens: Eles leem a versão semifinalizada para ficar dentro da linha editorial deles. A sede da Disney na América Latina fica em Buenos Aires. É pra lá que enviamos os roteiros.

Linha do Tempo Em quase duas décadas de existência, o Belli Studio se destacou por produzir com criatividade e inovação. Acompanhe a história da empresa através das suas realizações.

Fundação do Belli Studio com ênfase nos trabalhos de ilustração

Prêmio Cinemateca Catarinense com o projeto Aventuras na Ilha da Magia

Rubens: É um estúdio que possui toda essa parte técnica e documental, além da estrutura de gravação. O que acontece, e é importante salientar, é que existe uma diferença entre dublador e voz original. São funções diferentes, porque o dublador é geralmente um imitador, ou seja, ele recebe uma voz que já foi criada e a adapta para a sua realidade cultural. O que a gente está fazendo aqui é um personagem totalmente novo e original.

10

2001 Lançamento de Aventuras na Ilha da Magia. Ilustração do mapa do bondinho do Unipraias/SC

2003 Início dos trabalhos com a série Aventuras de Betinho Carrero

2005 2013 Vetorização do mapa do Beto Carrero World

2007 Produção do curta Viagem no Tempo em Blumenau

2008 Primeira temporada de Carrapatos e Catapultas, série exibida pela TV Brasil, Cultura e Cartoon Network

2010 Mapa do Bondinho do Pão de Açúcar

2011 Animação de 17 episódios da série Peixonauta

2012

Aline: Gravação de voz.

Aline: Fechamos com o pessoal da Ultrassom, de São Paulo.

Curso de animação em São Paulo. Rubens Belli tem a oportunidade de estudar o “Método Disney”

2000

Júlia: E qual é o próximo passo?

Leo: De onde vão vir essas vozes?

1999

Animação de 12 episódios da série Meu Amigãozão

2013 Animação das passagens dramatúrgicas da série Terra Prometida

2014 Contrato com a FURB TV para produção da série Tuca, o Mestre-cuca

2015 2016 2016

Assinatura com a Disney de um contrato de exibição internacional da série Boris e Rufus

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Daniel Zimmermann

Aline Belli: “Para fazer uma série, é preciso vender um conceito que possa gerar cinquenta, cem episódios. Aprendemos a fazer isso no AnimaTV.”

Leo: A que vocês atribuem essa escalada internacional? O que vocês acham que foi essencial para estarem vivendo isso? Rubens: Eu acho que o pilar fundamental disso é fazer o que você gosta. Eu amo trabalhar com animação. E aí existem os eventos que estão no entorno. Como já foi dito, eu adorava animação desde o princípio, mas era impossível fazer aqui. De repente aparece um utensílio chamado computador e muda o quadro das possibilidades. Se eu tivesse nascido 40 anos antes, por exemplo, talvez passasse a minha vida sem fazer animação. Talvez mudasse para um grande centro, onde pudesse arriscar esse sonho. Mas acho que o pilar fundamental é fazer aquilo que você gosta e viver feliz no dia de hoje. Júlia: Vocês têm vontade de produzir longas-metragens? Rubens: A vontade é grande e acho que logo engatilharemos alguns projetos, mas em termos de mercado, para ser realista, acredito que por enquanto as nossas chances estão mais nas séries de TV. Para lon-

ga-metragem, acho que não é muito simples, não. Os gringos estão muitos anos na nossa frente. Se fizermos um filme do Belli Studio e o colocarmos diante de uma criança, ela naturalmente vai comparar com as super-produções da Pixar, da Dreamworks e da Disney. Leo: O que eles possuem de diferente? A tecnologia? As melhores cabeças do mundo? Rubens: Eles dedicam um enorme tempo ao roteiro, trabalham com equipes experientes, contam com grandes estruturas tecnológicas e processos de produção já consolidados, possuem muito mais know-how do que nós. Em se tratando de longametragem, o 3D é a grande linguagem da atualidade. O Menino e o Mundo é um caso especial que não entra nessa categoria da Pixar e da Disney porque é um filme artístico e poético. Por isso concorreu ao Oscar. Se quisermos fazer grandes filmes comerciais que agradem às massas, teríamos que entrar numa linguagem de computação gráfica. Pode ser que a tecnologia avance e facilite as coisas, mas acho que ainda demora um pouco.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

Maicon: O 2D tem chances de competir com o 3D? Rubens: Depende. Grandes produções da Disney e da Dreamworks foram adaptadas para séries de TV em 2D. Vejam os exemplos do Turbo FAST e dos Croods. Hoje em dia, parece que o 3D está para o cinema na mesma medida em que o 2D está para a televisão. Maicon: Pra terminar, uma pergunta para todo o grupo. Qual a sua série de animação favorita? Aline: Boris e Rufus (risos). Maicon: Esse não vale por enquanto (risos). Aline: Então... Backyardigans, vai lá. Rubens: Gravity Falls. Júlia: Padrinhos Mágicos. Leo: Apenas um Show. Maicon: Taí. Apenas um Show é a minha também!

11


LITERATURA

CLARICE POP STAR

Maria José Ribeiro

A ESCRITORA QUE VENCEU AS BARREIRAS DA LINGUAGEM E CONTINUA MAIS VIVA DO QUE NUNCA

C

larice Lispector existe. É como Elvis — não morreu. Existe na internet, em seus poemas — que não são poemas! — em monólogos, peças de atores profissionais — ou colegiais — em suas frases de efeito, ou com defeito, alteradas, separadas do contexto, sem jeito. É de se arriscar alguma rima, diante da obra de alguém que desafiou gêneros, receitas, normas de escrever e de ser. Clarice existe na sua prosa fácil-difícil, em fartas teses acadêmicas em torno de seus escritos, em ensaios apaixonados que se erguem pelo mundo inteiro. Ela existe em seus livros recheados de adultos, crianças, bichos, minerais, rosas, galinhas, peixes, barata. Existe nos lugares onde morou, por onde passou, nas pontes do Recife — como escreveu Drummond. Existe no Curso de Direito que cursou no Rio de Janeiro, nos jornais onde trabalhou, em Berna, em Washington, na Itália — onde estava quando a Guerra chegou ao fim — nos lugares que a impactaram. Clarice existe, por exemplo, em Brasília. Quando se vai a Brasília depois de ler o que Clarice disse, Brasília é esplendor em suas “ruas sem esquina”, em sua “beleza assustadora” de “praia sem mar”. Clarice gostava de dizer que era simples: uma dona de casa que escrevia. Cena comum em sua vida era ela trabalhando com a máquina de escrever no colo — que

12

peso! — e com os dois filhos brincando em volta. As pessoas mais próximas da escritora, as que faziam parte do cotidiano de seu lar, deram testemunho de sua simplicidade, após sua morte, chamando-a de pessoa boa, patroa sem igual. Mas

Já no seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, publicado em 1944, quando Clarice tinha pouco mais de 20 anos, nota-se uma linguagem peculiar, um diferente uso da língua, com as palavras mais corriqueiras surgindo reinventadas. Lispector era, ao mesmo tempo, uma mulher sofisticada, considerada por vezes arredia, reservada. Bela, elegante e intensa, impactava seu interlocutor imediatamente. Tinha a língua presa e isso dava a ela um sotaque que imaginavam ser devido à sua origem russa — nascida que foi na pequena cidade de Tchetchelnick, durante a fuga da família para o Brasil. Sentia-se, acima de tudo, brasileira — e repetia isso em entrevistas e conversas.

Clarice Lispector assina uma grande e variada obra. Romancista, contista, jornalista, tradutora. Morreu de câncer aos 57 anos, na véspera de seu aniversário, em 1977. Era mística. É considerada, por muitos, um mito — uma escritora de estilo único, de brilho próprio, uma estrela. Jamais almejou sucesso ou fama literária. Não sonhou nada disso. Escrever era uma necessidade sua, uma maneira de respirar. Escrever era abençoar uma vida que não foi abençoada, afirmou.

A

primeira profissão de Clarice Lispector foi o jornalismo. Quando era estudante de Direito, pediu emprego na Agência Nacional. Entrou para ser tradutora e saiu redatora. Trabalhou em A Noite. Em outra oportunidade, atuou em O comício, onde assinou colunas femininas sob os pseudônimos de Teresa Quadros e Helen Palmer, assumindo diferentes personalidades. Também emprestou voz à bela atriz Ilka Soares, num outro trabalho em coluna feminina. Quando precisou especialmente de trabalho, em 1967, separada, de volta ao Rio com os dois filhos, recebeu convite para uma coluna de crônicas no Jornal do Brasil — e criou um novo tipo de crônica, num estilo todo seu. Trabalhou também na revista Manchete, publicando entrevistas. E essa sua múltipla atividade na imprensa a acompanhou até pouco antes da sua morte, seguiu junto com a Clarice escritora, com a Clarice famosa no mundo da literatura. Quanto à sua linguagem na ficção, o que ocorre é que Lispector conduz o leitor a partir de um vocabulário simples, como se observa no volume de contos Laços de Família. Mas o inesperado se dá a partir de algum detalhe que invade o cotidiano das personagens, seja o encontro delas com um cego, ou com um buquê de flores. Já

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


“Cena comum em sua vida era Clarice trabalhando com a máquina de escrever no colo — que peso! — e com os dois filhos brincando em volta.”

no seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, publicado em 1944, quando Clarice tinha pouco mais de 20 anos, nota-se uma linguagem peculiar, um diferente uso da língua, com as palavras mais corriqueiras surgindo reinventadas. Com o amadurecimento de sua produção escrita, observa-se que a obra de Clarice Lispector parte também em busca do que não pode ser grafado. Procura vencer a limitação imposta pela própria natureza do

signo que é, antes de tudo, convenção. Seu texto é marcado por rupturas, num processo de rearranjo permanente de toda a linguagem, num deslizamento de nomes, personagens, situações. É no jogo com a linguagem que os personagens de Clarice vão tomando corpo. Clarice almeja a entrelinha, o silêncio, como ocorre no volume A via crucis do corpo, que é uma obra sobre mulheres, sobre a morte, sobre os extremos da vida — meninice e velhice —

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

e sobre tudo o que faz parte da vida. De uma trivialidade intencional, escrito por encomenda, o volume de contos é uma de suas obras-primas. E o universo feminino que existe na obra da autora? Lispector é feminista? Não exatamente. É interessante a maneira como ela insere nos textos uma feminilidade que não é submissão, ou fragilidade — e isso vai contra uma forte tendência do pensamento feminista. Não trata a mulher

13


como vítima, não destaca a vulnerabilidade feminina vitimada pela agressão masculina. Ela destaca as múltiplas violências sofridas pela mulher, considerando aspectos psicológicos, sociais e biológicos da vida cotidiana. Fala também da violência latente no espaço do lar e nas diferentes relações humanas — com o professor, com o amado, com as flores, com os bichos. Ah, as flores, os bichos, os minerais na obra de Lispector! Entre os personagens e os elementos não humanos surgem revelações sobre o ser e sobre a sociedade. E essa faceta da escritura de Lispector é, para mim, fascinante, o que me levou a uma investigação sobre a presença das rosas em sua obra. O ponto de partida desse estudo foi o magnífico conto A

imitação da rosa. E o ponto de chegada desse olhar clariceano foi Macabea, de A Hora da Estrela, considerada como rosamulher vinda do agreste. Optou-se pela imagem da rosa, um dos símbolos do feminino, por Lispector colocar em cena a mulher, para falar daquilo que oprime todos os seres.

N

o conto que foi o epicentro desse estudo, Laura, a protagonista, é umas das personagens femininas de Lispector que levam o leitor a contrapor as perspectivas da ordem instituída — uma espécie de prisão domiciliar e emocional em que vivem as mulheres — a um anseio de completude e libertação. Personagens como essa, embora não des-

pertem para a autoconsciência, são uma forma de problematização do patriarcado e de suas mitologias. O conto Restos de carnaval, também contemplado nessa investigação, denuncia a incomunicabilidade entre os universos adulto e infantil, além de aludir à pobreza e à doença como elementos anuladores do sonho da criança. No conto, a transformação em rosa — uma rosa feita de restos de papel — é interrompida brutalmente pela realidade da menina com mãe enferma e família pobre. O desejo intenso de transformação em outrem, o desejo ardente de ser a rosa é fuga — impossível — de um quadro social angustiante. Há uma rosa desse universo de Lispector por mim mapeado que causa assombro, por sua luminosidade, em Flor

Um homem cego mascava chicles... Fragmento de Amor, um dos mais famosos contos de Clarice Lispector, publicado em 1960 no livro Laços de família O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher. O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto. A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego. O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles. Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse

14

teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam assustados. Incapaz de se mover para apanhar as compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgira-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho do jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida. Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

Clarice Lispector era bastante reservada e introspectiva.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


mal-assombrada e viva demais. Esse mesmo esplendor é atingido por Laura, de A imitação da rosa, que passa a habitar uma outra instância quando, transformada em

Estrela, a personagem principal, Macabea, é doce como o massapê, embora venha de um agreste de areias secas, ásperas. Ela se acomoda à miséria, acha tudo normal e

Em A Hora da Estrela, a personagem principal, Macabea, é doce como o massapê, embora venha de um agreste de areias secas, ásperas. rosa, volta à doença da qual fugira durante toda a narrativa. A rosa é desfolhada em Rosas silvestres e roubada em Cem anos de perdão. O mal e a violência são traços que surgem na linguagem de Lispector almejando — e conseguindo — um feito maior: abranger a realidade. Em A Hora da

até tem fé, esperança não se sabe de quê. Vinda do sertão trazida por uma tia beata, Macabea busca a água, guiada por uma série de circunstâncias. Há nela uma nostalgia do passado e do futuro. De Maceió é trazida para o Rio de Janeiro, onde passa a residir na horrenda Rua Acre, perto

do cais. Humana e úmida, Macabea se irmana ao cacto na mesma linguagem da falta, mas é, acima de tudo, flor. O tipo de flor que a vida lhe ofereceu como cenário do anúncio de uma futura vida de venturas, foram as flores de plástico da casa da cartomante. Para a moça pobre que acabara de descobrir que também tinha um destino, a casa da ex-prostituta e vidente era puro luxo! Mas Macabea não conhecia o mal. Em A Hora da Estrela o mal surge na figura do esperto Olímpico de Jesus, o quase namorado da protagonista, que roubava e que já matara. Havia ainda, na protagonista, o sonho de ser estrela. Macabea, cruelmente adjetivada na narrativa — pelo namorado, pela amiga, pelo narrador — encontra duplamente a

Chamava atenção pela beleza e pela profundidade de suas palavras. Independente, trabalhava como tradutora para garantir o sustento da casa e dos filhos.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

15


estrela, em sua morte. É atropelada por um automóvel Mercedes — representação móvel de status social cuja marca é simbolizada por uma estrela que se ergue, imponente, no capô — e vomita uma estrela de mil pontas, única, luminosa — ela que, ao longo da história, tanto tentou não vomitar, para não haver desperdício. Rodrigo S.M., o narrador, mantém uma relação marcada pela repulsa, pelo ódio e pelo extremo amor — passando pela piedade — com sua rosa-mulher Macabea. A partir desse encontro, revela-se uma sociedade delineada por seus contrastes, pela violência da exclusão, na qual os seres se conectam ao mundo, fragilmente, através da mercadoria. O encontro com a rosa é marcante para os personagens de Clarice Lispector. Entre cada um deles e a flor, a autora edifica a realidade de contornos sempre mutantes, em seu espaço ficcional. Lispector parece perguntar ao leitor, ao longo de sua obra, qual o sentido da existência de um animal, de uma pedra, de uma flor, de um ser humano. E ela responde essas questões com a verdade da sua ficção.

C

onsiderada por alguns como autora difícil, hermética, foi e é lida por muitas jovens como se Clarice dissesse tudo o que pensam, como se falasse diretamente aos seus corações. E hoje muitas jovens dizem que leram Clarice porque isso é cult, ou as faz parecerem mais cultas, numa roda social. Esse fenômeno talvez seja um dos indícios de que a autora possa estar virando uma pop star, uma celebridade. Algo que põe qualquer um no hoje, no agora, como Lispector disse sobre a Coca-Cola, citada em seus textos. No seu último romance, o narrador destaca: “Também esqueci de dizer, A hora da estrela é escrito sob o patrocínio do refrigerante mais popular do mundo. Essa bebida que tem coca é hoje”.

E hoje muitas jovens dizem que leram Clarice porque isso é cult, ou as faz parecerem mais cultas, numa roda social. Esse fenômeno talvez seja um dos indícios de que a autora possa estar virando uma pop star, uma celebridade.

Desde o seu primeiro livro, Clarice conheceu o sucesso. Mesmo achando suas ousadias quanto ao estilo algo um tanto juvenil, a crítica se perguntava quem era

16

aquela moça. Teria lido Joyce? Teria lido Virginia Woolf? Seria uma nova Virginia Woolf? Seria Clarice Lispector. Falecido no mesmo ano que Clarice, na música, Elvis foi alguém que também causou grande impacto assim que surgiu. Todos se perguntavam

Clarice e Elvis: belos, originais, selvagens — a escrita vertiginosa de Clarice e o rock and roll de Elvis — geniais, míticos.

quem era aquele moço, com aquela música nunca antes ouvida — That´s all right. De quem seria aquela voz? Quem seria aquele homem branco de voz negra e dan-

ça contagiante? Seria Elvis Presley. Clarice e Elvis: belos, originais, selvagens — a escrita vertiginosa de Clarice e o rock and roll de Elvis — geniais, míticos. Hoje as frases de Elvis na internet só perdem em acesso pelos fãs para as famosas frases de Clarice Lispector e seus supostos poemas. Lispector tem seus pensamentos publicados encimados por títulos como “as mais belas frases de Clarice Lispector sobre o amor” e com imagens de mãos fazendo com os dedos o formato de um coração, ou com um casal num pôr de sol, sobre cujas cabeças flutuam corações gordinhos de desenho animado. Quem estudou a obra e a vida de Clarice academicamente, durante anos, sabe que ela não é nada disso. E que provavelmente não gostaria disso. Ela não é clichê, lugar comum. Mas não faz mal. Hoje ela é também um pouco como Elvis e como Coca-Cola: Clarice pop star. E não morreu.

A Hora do Encontro Recordações de um primeiro contato que se estenderia à eternidade

Tudo, é claro, começou com um livro. Uma vizinha deu um livro a outra vizinha e assim nasceu a paixão por ela. Mas antes desse relato havia o relato do relato e havia os outros e havia ela. Sempre houve. Iniciar este texto parodiando as palavras dela é um grande atrevimento, sem dúvida alguma, mas não concebi um início melhor para falar de uma pessoa tão querida. Eu a conheci por volta dos meus quinze anos quando uma vizinha me deu um livro chamado A Hora da Estrela, um livrinho da José Olympio completamente surrado com as páginas amareladas e gastas. Ignorando os furinhos deixados pelas traças, conheci um tal de Rodrigo S.M., na verdade ela, que me veio com uma conversa sobre uma nordestina que não sabia que era infeliz — simplesmente porque essa moça acreditava. Acreditava em quê? Esse era o grande mistério. Confesso que, de primeira, não quis saber muito sobre aquela nordestina. Mal sabia eu que ela — sim, ela, por intermédio da nordestina — estaria presente num dos dias mais memoráveis da minha vida. Na formatura do Ensino Médio, nossa professora tomou a frente para dizer algumas palavras aos recém-formados. “Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam”. Ora, o que mais eu poderia desejar ouvir no encerramento de uma etapa fantástica que levaria ao início de outra mais fantástica ainda? Aquelas palavras ficaram entranhadas em mim, uma vez que me sussurravam todas as noites:

Sté Spengler

acredite nos seus sonhos e eles passarão a existir. E assim foi. No ano seguinte ingressei no curso de Letras. Como estudante de literatura é inevitável que você ouça falar a respeito dela. Muitos não simpatizam, mas é porque não a entendem — ou porque não querem entendê-la. Ela mesma já dizia que era tudo questão de sentir, de entrar em contato. Para mim era como provar um doce: uma mordida de cada vez, lenta e suave, para que o gosto permanecesse mais tempo na boca. A arte dos palcos me fez senti-la num domingo de novembro. Naquela noite eu a toquei por inteiro. Toquei e me deixei ser tocada. Beth Goulart vestia-se das roupas, dos objetos e das palavras dela. Estive ao lado da moça de Copacabana que não podia encarar um rato morto enquanto não encarasse sem lividez a própria alma. Foi então que deixei para trás tudo aquilo que limita o ser. Eu também perdoei Deus pelos meus ratos mortos. E como se não bastasse, ao final do evento fui presenteada com um livro. Adivinhe? A Hora da Estrela. Depois daquela noite não havia mais desculpas: era conto, crônica, romance, livro infantil, recortes, biografia. Valia até citação no Facebook (com cuidado!). Silêncio. Seu nome é Clarice. Não a Clarice judia. Não a Clarice naturalizada brasileira. Não a sua Clarice. Muito menos a minha Clarice. Mas simplesmente Clarice.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


SAÚDE

QUEM TEM MEDO DE “FAIXA PRETA”? Venda sob prescrição médica

Cezar Zillig

V

olta e meia se encontra no piso do abrigo lá em casa vomitados do gato onde se identificam diversas folhas de grama ou outro vegetal qualquer. É um conhecido costume dos gatos. Consta que os bichanos fazem isto para provocar uma regurgitação com a finalidade de promover uma catarse, uma faxina no estômago atulhado de seus próprios pêlos, ingeridos nas demoradas sessões de lambidas que é a forma deles fazerem suas abluções. Tal costume não deixa de ser uma forma instintiva de “farmacologia”. Este único exemplo desautoriza afirmar que o emprego de medicamentos seja uma atividade exclusiva dos humanos, aliás, como ocorre com tantas e tantas outras habilidades que, a priori e inadvertidamente, pensamos ser prerrogativas únicas do bicho homem. Entre tantos outros papéis que o homem desempenha desde tempos imemoriais, pode-se dizer, sem receio de errar, que um dos mais destacados está o de far-

MITOS, CRENÇAS E PRECONCEITOS SOBRE OS MEDICAMENTOS QUE ESTÃO AJUDANDO AS PESSOAS A LIDAR COM A DEPRESSÃO macêutico: procurar na natureza recursos que ajudem a mitigar a dor, a combater a inflamação, a debelar infecções, a insônia etc. Entretanto, na maior parte de sua história, que já se estende por mais de cento e vinte mil anos — por aí — o Homo sapiens tem praticado uma farmacologia e uma medicina mistificadas, misturadas à magia, a superstições, em geral envolvendo interferências de divindades, onde a eventual eficácia dependeria mais de mecanismos de auto-sugestão que da virtude do suposto fármaco. Em todas as sociedades primitivas, a arte de medicar, de curar, era exercida por algum tipo de curandeiro, feiticeiro ou sacerdote. Mesmo na Gré-

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

cia clássica, berço da filosofia, os doentes acorriam ao templo de Esculápio, o deus da medicina, em busca de milagroso alívio para seus males. A célebre Escola Hipocrática, que floresceu no século V antes de Cristo na Grécia, foi uma das primeiras tentativas de se desenvolver uma farmacologia e uma medicina desvinculadas da interferência sobrenatural. De fato, a medicina só passou a adotar uma postura progressivamente científica na segunda metade do século XIX — ontem, portanto — com a descoberta dos germes e da anestesia geral e com a invenção da anti-sepsia/assepsia, tudo acontecendo entre 1855 e 1865.

17


A

farmacologia hoje é altamente científica, emprega estudos prospectivos, duplo-cego, randomizados, para se convencer da eficácia — ou não — de determinada droga. Eficácia que tem que superar com grande vantagem eventuais efeitos colaterais. Apesar da apurada metodologia científica necessária para comprovar as propriedades terapêuticas de determinada substância, em muitos casos é a intuição do pesquisador o fator essencial na descoberta de novos medicamentos. Não são poucos os medicamentos lançados para tratar de um mal, mas que posteriormente se revelam ainda melhores para outras enfermidades. É fascinante a história de muitos medicamentos. Inclusive, o mais famoso refrigerante do mundo entra neste caso: inventada por um farmacêutico como tônico para os nervos, a Coca-Cola logo passou a ser apreciada e consumida como refrigerante. No entanto, publicações recentes reabilitam a Coca-Cola como remédio de primeira linha para dissolver fitobezoares, concreções de resíduos vegetais como fibras, cascas, sementes que eventualmente se acumulam e formam verdadeiras “pedras” no interior do estômago. Um dos episódios mais deliciosos da história da farmacologia foi a descoberta do primeiro anti-depressivo. Em 1951, pesquisava-se no sanatório Sea View Hospital, em Nova York, um novo medicamento destinado ao tratamento da tuberculose: a iproniazida. O experimento foi coroado de sucesso: a droga revertia a toxicidade sistêmica da tuberculose, a febre cedia e os pacientes principiavam a ganhar peso. Ocorre que também se observou um curioso efeito colateral: um inapropriado estado eufórico fazendo com que pessoas acometidas pela tuberculose, então uma doença fatal, dançassem pelos corredores. A partir daí passou-se a empregar com sucesso a iproniazida em casos de depressão crônica, uma doença para a qual só se dispunha de um único recurso eficaz: a eletro-convulso terapia, o temido “eletrochoque” (recurso até hoje utilizado com impressionante resultado para alguns casos bem selecionados). Por volta de 1958, o uso da iproniazida em psiquiatria já estava consagrado. Dizia-se que ela tinha o condão de dotar os doentes com um “sorriso de Mona Lisa”. Embora a iproniazida tenha sido retirada do mercado já em 1962 por se constatar que causava danos ao fígado, foi no aprimoramento de sua fórmula que outros antidepressivos foram sendo descobertos. Esse episódio do papel da “iproniazida versus depressão” é uma ilustração

18

perfeita do assim chamado fenômeno da “serendipidade”, que significa uma descoberta aparentemente por acaso, mas que em geral ocorre a um indivíduo observador e devidamente preparado. O sábio francês Louis Pasteur, profundamente envolvido na descoberta dos germes, que participou de inúmeros casos perfeitamente classificáveis como de serendipidade, costumava dizer que “o acaso só favorece a mente preparada.”

A célebre Escola Hipocrática, que floresceu no século V antes de Cristo na Grécia, foi uma das primeiras tentativas de se desenvolver uma farmacologia e uma medicina desvinculadas da interferência sobrenatural. Para complementar o argumento de que é recorrente na história da farmacologia o desvio ou a descoberta de novos usos para antigos medicamentos, é oportuno mencionar o ocorrido com o ácido acetilsalisílico, também conhecido como AAS ou aspirina. Trata-se de um remédio obtido da casca do salgueiro (mais conhecido por aqui como “chorão”) que já era usado na antiguidade para o tratamento da dor, da febre e da inflamação. O próprio “Pai da Medicina Científica”, Hipócrates, já empregava um chá feito com a casca do salgueiro para esta finalidade. Acontece que após milênios deste uso prosaico, o remedinho revela possuir mais uma essencial virtude: nas últimas décadas do século XX, descobriu-se que o AAS é um poderoso antiagregante plaquetário, muito útil na prevenção de obstruções arteriais como é o caso dos ataques cardíacos e da maioria dos derrames. Tal efeito passou a ser vulgarmente conhecido como “afinar o sangue”.

A

noção de que os tranquilizantes invariavelmente causam perda de memória “mais tarde” é bastante difundida entre o povo, incluindo a classe médica. Com mais de 40 anos de prática médica relacionada à neurologia, tenho sinceras dúvidas quanto a este tipo de afirmação ou “conhecimento”. Confesso minha ignorância quanto a eventuais pesquisas científicas que sirvam de base para tais conceitos, ou melhor, preconceitos. Receberia, agradecido, uma lição sobre a possível inconsistência desta noção que sustento. Não vale citar reportagens

sensacionalistas e inescrupulosas, artigos pseudocientíficos, juncados de preconceitos, existentes na internet ou em revistas de sala de espera de consultórios. Há que proceder de renomadas publicações médicas, atendendo ao rito científico completo. É comum encontrar idosos com importante comprometimento de memória, dementes, sem terem feito uso regular de ansiolíticos ou antidepressivos. Afinal, para se afirmar que o uso prolongado de calmantes cause evidente dano à memória, haveria que se fazer um estudo prospectivo praticamente impossível, algo do tipo: constituir dois grupos iguais de adultos jovens de ambos os sexos onde um grupo receberia doses usuais e regulares destes psicotrópicos e outro grupo se comprometeria em não fazer uso deste tipo de medicamento. Após um delongado período, 50 anos, por exemplo, se aplicariam testes de memória ao que restasse do conjunto de septuagenários para ver se de fato ocorre o tão apregoado prejuízo da memória. Inexequível, portanto. Ademais, quem necessita recorrer regularmente a psicotrópicos já padece de algum tipo de sofrimento que poderia eventualmente estar relacionado ao comprometimento da memória. É evidente que não se deve recomendar o uso indiscriminado, sem real necessidade, de medicamentos. Drogas podem sim causar todo tipo de efeito colateral, basta dar uma lida nas bulas de qualquer remédio. Drogas podem eventualmente causar danos à memória, mormente se usadas de maneira exagerada e por longo período. Há pessoas mais e pessoas menos suscetíveis. Não são apenas os tranquilizantes que podem afetar a memória em alguns casos. Há uma lista considerável de outros medicamentos com igual inconveniência, mas que não são tão alardeados e temidos como é o caso dos tranquilizantes: álcool, certos anestésicos, quimioterápicos, antidepressivos, anticolinérgicos, antiepilépticos, remédios para mal de Parkinson, beta bloqueadores, corticosteroides, drogas ilícitas, hipnóticos, meios de contraste, analgésicos, anti-inflamatórios e até produtos químicos industriais como o tolueno.

A

pesar de todo o avanço científico e tecnológico, responsável pelo conforto e por possibilitar a existência de uma brutal população de humanos de cerca de sete bilhões de indivíduos, boa parte, senão a maioria das pessoas, ainda se orienta mais por crenças e superstições que pela ciência. Inclusive acadêmicos, infelizmente. Quando o assunto é remédios, as crenças afloram. No consultório é divertido assistir ao contorcionismo verbal improvisado para sinalizar ao médico que não se deseja um

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


pixabay.com

Apesar do avanço científico e tecnológico da humanidade, uma boa parte da população ainda se orienta mais por crenças e superstições do que pela ciência.

medicamento “faixa preta”. Em geral insinuam que preferem remédios “naturais”. Mas por que natural? Porque o que vem da natureza é bom, saudável, inocente. Tanto a confiança nos medicamentos naturais quanto a ojeriza aos controlados são de natureza meramente emocional, sem qualquer base científica. Quem acha que a procedência natural é garantia de receber algo seguro, virtuoso, saudável, não fez uma reflexão mais cuidadosa, pois caso contrário concluiria que tabaco, álcool, maconha e heroína são todos “naturais”. Aliás, veneno de jararaca também! Ressalte-se que os “fitoterápicos”, medicamentos obtidos a partir de plantas, têm lá seus efeitos, mas em geral são demasiado suaves e não solucionam casos mais angustiantes, justamente aqueles que levam as pessoas ao médico. Pode-se dizer que são “medicamentos de brinquedo”. Boa parte de sua ação decorre mais do fenômeno placebo via auto-sugestão. Por outro lado, tais medicamentos podem ter efeitos colaterais nada desprezíveis; interagem com drogas sedativas e anestésicos, interferem com mecanismos de coagulação e podem interferir na estabilidade hemodinâmica, complicando anestesias e colocando em risco atos cirúrgicos. Alguns exemplos de efeitos deletérios dos inocentes medicamentos naturais: alho, camomila, ginkgo biloba e kava-kava podem causar sangramentos. A Erva de São João, o ginkgo biloba, a kava-kava e a candida valeriana interagem com

os anestésicos. Além disso, a Erva de São João, o ginkgo biloba e a kava-kava promovem alterações hemodinâmicas. A famosa babosa — popularmente usada até para tratar câncer — pode ser tóxica para os rins. A efedra, empregada no tratamento de resfriados, gripe, dor de cabeça e asma, pode causar danos ao fígado. Existem muitas outras plantas usadas como fitoterápicos que, ao lado de eventual efeito terapêutico, também possuem consideráveis efeitos colaterais. Portanto, os fitoterápicos não são somente remédios bonzinhos. Uma vez feito um comentário francamente desairoso em relação aos fitoterápicos, convém admitir que desde os tempos imemoriais plantas e medicamentos sempre estiveram irremediavelmente relacionados, continuando imprescindíveis na moderna indústria farmacêutica. Das 252 drogas consideradas essenciais pela Organização Mundial da Saúde, 11% dos medicamentos são integralmente obtidos de plantas e um significante número de medicamentos sintéticos são elaborados a partir de precursores naturais. Estimase que 60% dos medicamentos usados no combate ao câncer e como anti-inflamatórios sejam de origem natural.

Q

ual a razão de tanta ansiedade? Bem, são medicamentos cujo uso prolongado pode causar dependência, uma considerável inconveniência, portanto. Receá-los não está de todo destituído de razão. Agora, há que se considerar que eles existem para amenizar sofri-

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

mentos enfrentados por respeitável parte da população. São pessoas que já estão na dependência de angústias, ansiedades, insônias, estados depressivos, compulsivos e fobias, quando não em garras de francas doenças psiquiátricas que impedem em absoluto experimentar uma vida feliz. São casos onde as pessoas já estão em sofrimentos dos quais não estão conseguindo se livrar por seus próprios meios ou por outras tentativas terapêuticas. A vida moderna, em geral, submete as pessoas a pressões demasiadas e constantes que acabam por levar a manifestações psicossomáticas de toda ordem. Remédios são apenas mais um dos inúmeros recursos à disposição da humanidade visando tornar a vida mais confortável. Principalmente os psicotrópicos ajudam o homem a adaptar-se ao mutante e inédito cenário moderno. O ambiente ancestral, onde a humanidade viveu sua longa pré-história, permaneceu imutável por milênios; ia-se dormir sem saber se haveria desjejum na manhã seguinte. Seus dias eram uma interminável excursão em busca de alimentos e uma vigília perene ante possíveis predadores, muitas vezes representados pelos próprios semelhantes. No entanto, não deixavam de ser dias coloridos, singulares, marcados por intenso convívio tribal. Simplesmente não ocorria o sedentarismo e muito menos as atividades repetitivas, apenas para citar duas grandes características da sociedade civilizada e que estão na origem de preponderante número de patologias modernas, tanto físicas quanto mentais.

19


Pesarosamente, não existem estatísticas da incidência de doenças mentais entre sociedades pré-históricas; simplesmente não há como obtê-las. No entanto, é razoável supor que o homem primitivo, apesar de toda a sua vulnerabilidade, não tivesse uma fração dos males psíquicos que atribulam o homem moderno, simultaneamente beneficiário e vítima dos processos de massificação e ultra sub-divisão do trabalho. Os “tarjas pretas” têm o condão de dissolver a ansiedade e a angústia, devolvendo a tranquilidade, a serenidade, o sono. Os antidepressivos (controlados, porém “faixas vermelhas”) alteram a bioquímica cerebral e fazem com que a pessoa volte a enxergar a realidade com mais realismo, otimismo, dissolvendo as terríveis sensações que acompanham a depressão, onde a pessoa se julga desvalorizada, desprezada, feia, ignorante; eventuais problemas parecem insolúveis. Não convém tomar decisões graves quando em estado depressivo. No estado depressivo as dores são potencializadas, razão pela qual costuma-se associar um antidepressivo no tratamento de dores crônicas ou intratáveis. Bem considerado, o preconceito em relação aos psicotrópicos já começa na própria legislação reguladora da venda de tais medicamentos. São requeridas receitas especiais (dos tipos “A”, “B” e “C”), que ficam retidas na farmácia, só valem por trinta dias e só liberam quantidade de remédio suficiente para sessenta dias. É vedado ao médico fornecer receitas prédatadas ou sem data; o médico que assim o fizer comete uma infração. Portanto, é desejo e exigência do legislador que todas as pessoas necessitadas destes medicamentos sejam obrigadas a procurar o médico a cada dois meses. Um absurdo, mormente considerando que não são poucas as pessoas que moram retiradas e têm que se sujeitar aos perigos das péssimas estradas existentes no Brasil. Só a epilepsia, a Academia Brasileira de Neurologia estima acometer cerca de três milhões de indivíduos. É um equivocado excesso de zelo; tais prazos poderiam perfeitamente ser dilatados para seis meses, sem prejuízo algum. (Por outro lado, as bebidas alcoólicas, que representam uma real ameaça à saúde individual e coletiva, tanto direta quanto indiretamente, não apenas são vendidas livremente como o seu uso é instigado através de aliciante publicidade).

A

o se tratar de crenças relacionadas aos medicamentos, convém incluir aquelas relativas aos genéricos. Os medicamentos ditos “genéricos” foram criados em 1999 por iniciativa do então

20

Ministro da Saúde, José Serra. Foi uma louvável intenção de proporcionar medicamentos de baixo custo à população. Como são destituídos das caras apresentações e dos nomes fantasia, de grife, além de dispensarem as campanhas publicitárias na mídia e o corpo a corpo diretamente com o médico feito por uma legião de representantes, os genéricos, supunha-se, obrigatoriamente seriam remédios mais baratos. O lançamento dos genéricos por parte do governo federal foi feito em meio à profusa e competente campanha publicitária, mostrando ícones da mídia nacional exigindo medicamentos genéricos nos balcões das farmácias. A coisa funcionou bem e hoje é comum as pessoas pedirem aos seus médicos que lhes prescrevam genéricos quando possível. Supõem estarem economizando, adquirindo os medicamentos mais baratos. Qual nada! Isto aqui é Brasil, o país da esperteza. Agora, a maioria dos laboratórios farmacêuticos tem um genérico para oferecer ao lado do seu produto original. E o curioso é que os preços destes genéricos variam drasticamente e ultimamente há muito remédio “de marca” mais barato que os genéricos.

Quem necessita recorrer regularmente a psicotrópicos já padece de algum tipo de sofrimento que poderia eventualmente estar relacionado ao comprometimento da memória. Tenho em mãos um folder de propaganda de um laboratório apresentando as vantagens do preço de seu oxalato de escitalopram, um antidepressivo. Enquanto a caixa de 30 comprimidos de 20mg custa R$ 114,74 (o manipulado custa R$ 116,70), o do concorrente “A” custa R$ 135,62, o do “B” R$ 137,67, e o GENÉRICO a bagatela de R$ 247,74, só superado pelo de marca do laboratório que desenvolveu a droga, portanto supostamente a mais pura e legítima, com o preço de R$ 403, 59! Semelhante discrepância de preços mereceria uma sindicância por parte das autoridades sanitárias. De duas uma: ou se exorbita escandalosamente no preço num extremo, ou no outro ocorre uma adulteração na pureza da droga para aumentar sua quantidade — como quem coloca água no feijão para render mais — e assim vender mais barato, mas ainda com lucro.

Como foi possível perverter tão drasticamente uma virtuosa iniciativa sem qualquer reação por parte das autoridades? Pode-se dizer que hoje a grande procura pelos genéricos passou a ser mais um capítulo relacionado às crenças: a de que os genéricos são os remédios mais baratos de suas categorias. Ah, ah, ah! A propósito da adulteração de medicamentos, há o intrigante caso da carbamazepina. Diversos pacientes relatam que, ao usarem a carbamazepina fornecida pela rede pública, voltam a ter ataques epiléticos que vinham controlando há anos pelo remédio de marca. Ou seja: é lícito supor que a droga adquirida pelo setor público é mais barata porque é adulterada, “batizada”. Tais casos também fazem supor que o setor público não seja diligente e não realize testes sistemáticos de qualidade naquilo que adquire. Em se tratando de saúde, uma falha gravíssima.

A

lgumas empresas da indústria farmacêutica são por demais “criativas” nos seus métodos propagandísticos. Há uma lei determinando que toda amostra grátis venha com um mínimo de comprimidos correspondendo à metade do conteúdo da apresentação original. Assim, se um medicamento é vendido com 20 comprimidos, é obrigatório sua amostra ter ao menos 10 comprimidos. O interessante é que continua a existirem amostras com conteúdo exíguo. Há remédios que na farmácia só se encontram em apresentações com 30 unidades, mas a amostra entregue ao médico contém apenas dois comprimidos em vez dos 15 exigidos pela lei. O “esperto” laboratório fez o seguinte: registrou uma apresentação contendo quatro comprimidos, mas não a colocou no mercado! É triste assistir a esta incúria com que o governo zela pela saúde dos cidadãos. É triste ver autoridades sanitárias se deixarem enganar tão facilmente. Ingenuidade, negligência ou corrupção? Dos produtos farmacêuticos depende a saúde e muitas vezes a vida do paciente. É dever do governo ser diligente na fiscalização. Assim como o enganam com as amostras, podem estar enganando doentes quanto à pureza da substância. Na hora de prescrever, o médico deve prestigiar aqueles laboratórios que agem com lisura, inclusive nestes detalhes aparentemente secundários e aparentemente irrelevantes. As amostras grátis são de grande utilidade; o paciente que leva uma amostra pode descobrir que não tolera um determinado medicamento antes de fazer uma desnecessária despesa ao comprá-lo

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


pixabay.com

Não se pode negar que algumas empresas da indústria farmacêutica são por demais mercadológicas e “criativas” nos seus métodos propagandísticos.

na farmácia. Às vezes três caixas logo de cara, prescritas por um médico que não se preocupa muito com o bolso de quem veio buscar ajuda.

E

m seu livro A Teoria das Janelas Quebradas, o doutor Drauzio Varella afirma: “quanto padecimento poderia ser evitado se os médicos conhecessem melhor a farmacologia da morfina, analgésico de escolha para os quadros de maior intensidade, o único analgésico que pode ter sua dosagem aumentada sem limites”. Não raro, médicos em fim de carreira admitem que deveriam ter feito maior uso da morfina e dos demais psicotrópicos. As dores, importante sistema de alarme do organismo, assinalam quando alguma estrutura, um órgão, está sofrendo e necessita de cuidados; no entanto, uma vez inventariada, a dor deve ser combatida com analgésico competente para acabar com o martírio do doente. A medicina, além de ciência, é arte. Compete ao profissional da saúde manejar com habilidade os medicamentos a fim de proporcionar alívio e conforto aos enfermos sob seus cuidados. Não são incomuns relatos de pacientes que em meio à maior angústia, em meio à torturante ansiedade, recorreram ao Pronto Socorro e saíram de lá com uma prosaica receitinha de passiflora, um medicamento “natural”, feito com a flor do maracujá, com suave efeito sedativo que atende as necessidades de quem recorre ao pronto atendimento. O receio de apelar aos psicotrópicos é maior entre os médicos jovens, ainda sob a influência dos conceitos populares de

que os “faixas pretas” são medicamentos inconvenientes. Porém, há médicos que mesmo após muitos anos de vivência ainda revelam preconceitos contra alguns medicamentos. Há médicos que não “acreditam” no valor das vacinas e que não se deixam vacinar. Há alguns medicamentos verdadeiramente estigmatizados como suspeitos de causarem inconvenientes graves o suficiente para evitá-los logo de cara. O curioso é que boa parte deles são justamente medicamentos que adquiriram fama, boa e ruim, por serem muito usados, muito conhecidos. Não seria exagero aventar a possibilidade de que tais boatos sejam discretamente fomentados por concorrentes com possíveis financiamentos de pesquisas encomendadas para esta finalidade. Não há paranoia alguma em levantar tal hipótese. Há uma infinidade de remédios bons que já foram retirados do mercado por não terem mais correspondido aos lucros almejados. Em geral, quando vence o direito de patente, o fabricante perde o interesse em explorar o medicamento e deixa de propagá-lo e defendê-lo cientificamente com novas pesquisas; prefere lançar um novo produto no mercado, mesmo de qualidade inferior. Na história recente da medicina, uma das primeiras vítimas de semelhante tipo de preconceito é o famoso Gardenal, o mais antigo anticonvulsivante ainda em uso, justamente por suas virtudes. No entanto, ao prescrever o medicamento, há que se fazer um cuidadoso preâmbulo antes de mencionar seu nome, avisando que é um remédio “forte” e que não é destinado ao tratamento da loucura, os dois

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

maiores preconceitos quanto a este formidável remédio. Quem tem semelhante tipo de reservas, médicos inclusive, que simplesmente compare o conteúdo das bulas do Gardenal e dos modernos anticonvulsivantes, supostamente melhores, todos muito mais caros e exigindo mais de uma dose ao dia. (Tende-se a achar que tudo o que é mais caro é obrigatoriamente melhor, fenômeno bem explorado pelas grifes). O fenobarbital — Gardenal — até pelo prolongado tempo de uso, mais de um século, é um dos mais bem estudados de sua categoria, destacando-se pela comodidade de administração, altos índices de eficácia, baixa incidência de efeitos colaterais, pouquíssimas contra-indicações e baixo custo. A poderosa indústria farmacêutica tem conseguido alijar o fenobarbital de pesquisas e testes comparativos; congressos médicos praticamente não o mencionam e médicos novos já entram no mercado com embutido preconceito contra esta droga. Outro medicamento que vem adquirindo progressiva carga de preconceito é o Rivotril (clonazepam). Embora seja um anticonvulsivante, tem sido mais empregado no combate à ansiedade e à insônia do que no tratamento da epilepsia. Excelente fármaco, de preço acessível, eficaz. Como ocorre com todos os remédios, tem uma lista de efeitos colaterais e algumas contra-indicações. Quando usado com critério, é um grande recurso farmacológico que em muito contribui para o bem-estar de quem o necessita. Há um interessante remedinho cujo número de usuários cresce rapidamen-

21


pixabay.com

Há pessoas que são naturalmente animadas, otimistas, comunicativas, e há pessoas que são naturalmente negativas, isoladas, tendendo à depressão.

te no mundo todo e justamente por isto vem recebendo boa dose de preconceito. É o metilfenidato — Ritalina — empregado no tratamento dos casos de Transtorno de Déficit de Atenção — TDA — com ou sem hiperatividade. O que mais há, mesmo entre profissionais da saúde, é desinformação e falsos rumores em torno deste recurso farmacêutico; puro preconceito e ignorância das evidências demonstradas à exaustão por pesquisas científicas, comprovando ser este um medicamento seguro quando usado com critério e dentro das recomendações de uso. O metilfenidato facilita a vida de estudantes dispersivos, para quem estudar sempre se revelou uma tortura. Em geral é gratificante o retorno que o paciente, sua família e professores atestam. O medicamento geralmente é bem tolerado e raramente surgem inconvenientes que requeiram sua suspensão. É curioso como os efeitos negativos de um medicamento ou de um tipo de cirurgia são consagrados mais facilmente que as virtudes e os bons resultados de tais recursos médicos. Por exemplo: a preponderante maioria das pessoas operadas de hérnia de disco tem bom resultado. Elas costumam comentar o fato por alguns meses e depois aquilo cai no esque-

22

cimento. No entanto, os casos que não tiveram um resultado espetacular continuarão falando por anos a fio da cirurgia mal sucedida. Remédios são quase como políticos: seus males são mais divulgados que suas virtudes.

C

ada cérebro é único, não existem dois iguais. Há pessoas que são naturalmente animadas, otimistas, tipo Hebe Camargo, e há pessoas que são naturalmente negativas, macambúzias, tendendo à depressão, tipo bem caracterizado por Walt Disney com o personagem Zangado de Branca de Neve e os Sete Anões. Existem pessoas com grande handicap de um lado e genialidade de outro, como autistas gênios em matemática bem ilustrados no filme Rain Man, com Dustin Hoffmann. O comportamento das pessoas, e também dos animais ditos superiores, resulta de bioquímica cerebral. O mais curioso é que há dois mil e quinhentos anos, Hipócrates — de novo ele — levantou uma teoria para explicar os diversos tipos de “temperamentos” encontráveis que de certa forma se constituíam num arremedo do que a moderna neurobiologia ensina hoje. Segundo Hipócrates, o estado de espírito dos indivíduos

decorreria da interação de quatro líquidos corporais, quatro humores: o sangue, a bile clara, a bile escura e a fleuma. (Não se sabe que fluido seria a “fleuma”; uns supõem ser a linfa, outros o catarro). Caso predominasse o sangue, o indivíduo seria do “tipo sanguíneo”, um indivíduo rubicundo, irritável, impulsivo. Predominando a fleuma, a pessoa seria “fleumática”, impassível, pachorrenta, apática. A bílis clara, ao predominar, determinaria um temperamento ambicioso e explosivo. Finalmente, preponderando a bílis escura, resultaria numa pessoa “melancólica”, triste, depressiva, prostrada. O fato de ainda hoje estarem em uso palavras como temperamento, bom ou mau humor, melancolia, fleumático e sanguíneo demonstra o quanto a prosaica teoria dos humores de Hipócrates influenciou a cultura ocidental. Cérebros são sim temperados de maneira diferente um do outro como suspeitava Hipócrates, porém a natureza dos humores é bem outra. Cérebros são verdadeiras usinas que elaboram uma infinidade de substâncias de cuja interação resulta o estado de espírito do indivíduo. Os “temperos” são representados pelos neurotransmissores (dopamina, adrenalina, noradrenalina, serotonina etc.), pelos hormônios e

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


pelas endorfinas. Seguramente ainda há muito que se desvendar, mas supõe-se que os elementos essenciais já estejam devidamente mapeados. Felizmente, desde a década de cinquenta, com a descoberta da precursora iproniazida, inaugurou-se a era da psicofarmacologia. Graças à existência destes fabulosos remédios, há meios de se interferir e corrigir os inconvenientes desequilíbrios humorais, oferecendo uma vida mais feliz às pessoas.

N

ão convém ler bulas de remédios antes de tomá-los. Pessoas com preconceito ou medo de medicamentos (farmacofobia) encontram grande dificuldade em tomar comprimidos depois de lidas as suas bulas. É grande a chance de passarem a sentir sintomas como os mencionados nos efeitos colaterais, pois são as mais sugestionáveis. É curioso, mas há pessoas que fumam, bebem e são usuários contumazes de drogas ilícitas que demonstram histéricos receios em tomar um remédio, preocupados que estes venham a prejudicar suas saúdes já tão desrespeitadas pelos vícios que mantêm. Difícil entender semelhante lógica. Em se precisando de remédios, o melhor que se pode fazer é tomá-los à risca, como foi prescrito, e aguardar os resultados positivos ou negativos. Se negativos, então sim é hora de verificar na bula se tal efeito colateral é conhecido, parar com o remédio e entrar em contato com o médico. Um dado medicamento pode fazer um efeito espetacular para uma centena de pessoas, mas pode fazer mal ao centésimo primeiro. Por enquanto, não há como saber antecipadamente que efeitos um determinado medicamento fará, a não ser tomando-o. Por ora, pois num futuro não muito distante a genômica predirá com precisão qual a melhor droga, sua dosagem e horários mais indicados para tomá-la, cada caso é um caso. Por enquanto continua-se seguindo o método da tentativa e erro. Bulas são recheadas de precauções, de advertências, de efeitos colaterais, reações adversas, contra-indicações e interações. De fato, fica difícil engolir uma pílula depois de lidas detidamente estas informações. Percebe-se que as bulas, além de elaboradas por farmacêuticos e médicos, têm a participação de advogados — só pode — recomendando mencionar as mais remotas complicações, aquelas que ocorrem uma vez em um milhão. Com isso, os fabricantes de remédios intentam se proteger de eventuais processos, podendo alegar: “Eu bem que avisei!”

E o que dizer da vida que também apresenta caprichosos e incontáveis “efeitos colaterais” e não tem bula para alertar? Caso existisse, tal bula deveria mencionar riscos improváveis, extraordinários, porém reais, que se correm simplesmente por sair porta afora como, por exemplo, ser esmagado por um viaduto que desabou no meio da manhã. Ou por um avião que ultrapassou a pista de pouso. Ou de morrer eletrocutado ao encostar-se a um poste. Ou de ser esmagado por enormes bobinas de papel roladas de um caminhão que seguia à frente. Ou ser atingido por um raio, ou por uma bala perdida ou até por um meteoro. Aliás, raios, balas perdidas, aviões, meteoros podem matar pessoas dentro de casa, dormindo em suas camas. Já aconteceu. (Tenho três colegas médicos que morreram em decorrência de acidentes domésticos). Crianças correm riscos principalmente em cozinhas; idosos costumam se acidentar em banheiros, às vezes de maneira fatal. Se tal bula existisse, haveria pessoas com medo de viver, preocupadas com riscos fortuitos.

No consultório é divertido assistir ao contorcionismo verbal improvisado para sinalizar ao médico que não se deseja um medicamento “faixa preta”.

D

e médico e de louco todo mundo tem um pouco, é o que diz o ditado popular e como tal é uma grande verdade. É quase irresistível deixar de dar um palpite quando o assunto é saúde, operações e remédios. Mesmo os totalmente ignorantes não conseguem se abster de fazer comentários impróprios que só servem para aumentar a angústia de quem tem um medicamento prescrito, ou uma operação indicada. Dá trabalho convencer pacientes que Gardenal não é um “remédio forte” porque tem 100mg, quando o Lorax, que a tia toma, tem apenas um miligrama e ela dorme a noite toda e às vezes ainda acorda sonolenta. E o tal do Binotal, então, que tem 500 mg? Ocorre que quanto maior a miligramagem, menos poderosa é a droga em questão. Forte é um medicamento onde apenas um miligrama basta para se alcançar o efeito desejado, pois é cem vezes mais poderoso que o de 100 miligramas e quinhentas vezes mais potente que uma

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

droga que necessite de 500 miligramas para fazer seu efeito. É o mesmo que se diz dos perfumes: “é nos menores frascos que se encontram os melhores perfumes”. Isto sem falar que, em sua ignorância, confundem com a maior singeleza psicotrópicos, antibióticos, antiinflamatórios. Sabendo nada, confundem tudo, misturam em seus conceitos equivocados as mais diversas substâncias, mas são os primeiros a dar palpites sobre remédios e tratamentos médicos.

Q

uando o assunto é “dependência”, há que se refletir bem para não excluir dependências corriqueiras, mas sistematicamente ignoradas; em geral pensa-se que dependência só se refere às relacionadas às drogas, lícitas ou não. Quem recorre aos psicotrópicos (tranquilizantes, soníferos, antidepressivos etc.) já está num determinado tipo de dependência. Está à mercê de um distúrbio emocional, à mercê de algum sofrimento cujo medicamento representa a solução. Se a doença é crônica, o uso do medicamento será crônico. A decisão de instituir ou não um tratamento é uma questão de sopesar o custo/benefício. Antes de declinar teimosamente o uso de medicamentos com eventual potencial de criar dependência psíquica ou física, convém considerar as inúmeras dependências que o homem do século XXI já agregou inadvertidamente: dependência da eletricidade e suas infinitas comodidades, a recente — e feroz — dependência da internet e dos celulares e, sobretudo, a dependência vital que a sociedade moderna tem da “droga” chamada gasolina! Assim como se exagera na avaliação dos efeitos colaterais dos remédios a ponto de muita gente — médicos inclusive — repudiá-los cabalmente, exagera-se nos efeitos colaterais da dependência quase universal dos veículos automotores: imagine-se um cenário onde todos os deslocamentos feitos por meios de transporte fossem feitos a pé. Primeiro, o mundo teria bem outra feição; cidades do tamanho de São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba seriam inviáveis. Se os caminhos que levam as pessoas ao trabalho, à escola e ao lazer fossem palmilhados a pé, haveria menos sobrepeso, menos obesidade, menos pressão alta, menos diabetes, menos derrames, menos ataques cardíacos e até menos morte súbita. Estes são os efeitos colaterais do sedentarismo sobre o organismo, mas há também seus evidentes efeitos sobre o emocional; haveria bem menos ansiedade, angústia, insônia e, sobretudo, menos estados depressivos. “Bicicletas são movidas a gordura e economizam dinheiro; carros são movidos a dinheiro e deixam as pessoas gordas”.

23


CULTURA

AS EPOPEIAS E A CULTURA OCIDENTAL

Dominique Santos

O QUE POEMAS ÉPICOS COMO A ILÍADA E A ODISSEIA TÊM A VER COM SAGAS POPULARES DO GÊNERO GAME OF THRONES E O SENHOR DOS ANÉIS?

E

m jornais e revistas, programas de rádio ou televisão, documentários e filmes de ficção, ou até mesmo em diálogos cotidianos, o termo “épico” costuma aparecer com frequência quando o objetivo é designar algum evento de grandes proporções, de características incríveis, de natureza singular ou inigualável, ou seja, algo que não pode ser comparado. Apesar da ampla utilização em língua portuguesa, o termo é muito mais antigo. Trata-se de uma palavra que emprestamos do idioma grego. A princípio, “épico” era um adjetivo derivado do vocábulo epos, que significava “palavra”, “estória”, “algo dito”. Como havia na Grécia Antiga um tipo específico de poeta, o aedo, responsável por contar as narrativas tradicionais, o termo acabou passando a designar aquilo que era por ele recitado, por fim, significando algo que, justamente por estar relacionado com a poesia tradicional, deveria ser lembrado por causa de sua importância, por ser algo “grandioso”, “inigualável”, “majestoso”. Com estas conotações e significados, então, a palavra passou a ser utilizada em latim e, posteriormente, em nossa língua portuguesa.

24

Algumas destas narrativas poéticas, que antes eram declamadas, recitadas e/ou cantadas pelos aedos, passaram a ser escritas e, mais tarde, porque os estudiosos perceberam que todas elas tinham estas características “épicas” em comum, chamadas de “epopeias”.

As epopeias costumam misturar acontecimentos históricos e míticos, criando uma espécie de passado imaginado, inventado, fantástico, geralmente para explicar as origens de um povo. As epopeias costumam misturar acontecimentos históricos e míticos, criando uma espécie de passado imaginado, inventado, fantástico, geralmente para explicar as origens de um povo. Elas contam a história de deuses, semideuses e heróis, com suas proezas e feitos espetaculares, que demonstram coragem e astúcia e vivem suas vidas para resolver problemas

importantes, sempre em busca da excelência ou de alguma recompensa extraordinária, como, por exemplo, a imortalidade. As personagens e os feitos que aparecem nas epopeias costumam povoar a imaginação daqueles que entram em contato com este tipo de narrativa. Não é possível identificar com facilidade quem escreveu estas obras, pois, além de originadas em uma tradição poética oral, e só depois capturadas pela palavra escrita, muitas, mesmo no caso daquelas das quais julgávamos saber quem eram os autores, como as obras de Homero, são anônimas, ou sua suposta autoria é motivo de grande debate entre os pesquisadores. Assim, se, por um lado, não podemos saber muito sobre quem elaborou estes textos, como nossas exigências contemporâneas talvez solicitariam, por outro, a partir das epopeias é possível saber muita coisa sobre as mais diversas sociedades que as produziram. Lendo a Ilíada e a Odisseia, por exemplo, podemos conhecer diversos elementos da cultura grega: como os gregos guerreavam, amavam, morriam, quais eram seus medos e sonhos, de que maneira imaginavam os deuses e assim por diante.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


HBO/Divulgação

Mesmo quem nunca leu uma epopeia clássica pode encontrar suas características em séries de ação como Game of Thrones, exibida pela HBO.

Vários lugares e sociedades produziram suas epopeias, como a que conta as aventuras de Gilgameš; na Índia Antiga, como o MAHâBHâRATA e o RâMâYAöA; em Roma, como a Eneida, que imagina uma origem épica, relacionada com a Grécia, para os romanos, mostrados como descendentes de Enéias; o Shāhnāma, que é um épico persa de reis e heróis e conta vários feitos desta sociedade; o Táin Bó Cúailnge, que narra a história de um roubo de gado que acabou gerando uma das maiores batalhas descritas na literatura irlandesa; o Beowulf, uma das maiores epopeias do norte europeu; ou mesmo a (divina) Comédia, de Dante, na qual Virgílio desempenha papel importante. Estas narrativas, então, foram produzidas em vários idiomas e tiveram papel importante em muitas culturas. Por este motivo, elas foram e continuam sendo estudadas por historiadores, filósofos, antropólogos, literatos, cineastas e outros pesquisadores de diversas áreas.

A

s epopeias foram escritas durante os períodos que os livros de História costumam chamar de Antiguidade e Idade Média, há centenas de anos. Isto significa que textos assim não

são mais produzidos hoje em dia, pelo menos não com as mesmas características poéticas e métricas. No entanto, podemos presenciar em diversas narrativas contemporâneas algo que talvez possamos referenciar como “formas épicas” ou “elementos épicos”. São características encontradas em peças teatrais, nos romances, nas séries de TV, nos filmes e nos games.

Existem várias personagens e referências épicas bastante conhecidas, como as sereias, os ciclopes e o cavalo de Troia. O livro Ulisses, do escritor irlandês James Joyce, por exemplo, composto no início do século XX, que conta a história de Leopold Bloom no dia 16 de junho de 1904, é uma leitura, interpretação e ressignificação da Odisseia. A obra alterou a forma de composição dos romances em nossa época e passou a ser comemorada em várias partes do mundo todo dia 16 do mês que remete à criação de Joyce, que não teria sido a mesma caso deixasse de recorrer a este

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

ethos épico. As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis; várias das obras de Tolkien, dentre as quais podemos mencionar O Senhor dos Anéis; as Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, adaptadas para a TV como a série Game of Thrones; ou até mesmo o clássico de George Lucas, Star Wars, também são narrativas que podem ser consideradas como portadoras de alguns destes elementos épicos, sobretudo a Jornada do Herói. Ou seja, existem várias personagens e referências épicas bastante conhecidas, como as sereias, os ciclopes e o cavalo de Troia. Da mesma forma, fazemos referências a inúmeras expressões oriundas das Epopeias, utilizadas mesmo sem nos darmos conta. É o caso do adjetivo “dantesco”, que faz referência a já mencionada obra de Dante Alighieri, ou das expressões “presente de grego” e “calcanhar de Aquiles”, oriundas da tradição homérica, as quais também recorremos com frequência. As epopeias são narrativas importantes e suas manifestações podem, então, ser observadas em diversas ocasiões, pois, por meio delas, os seres humanos produzem orientação e sentido para suas experiências no tempo. As epopeias fazem parte de nossa cultura literária.

25


HISTÓRIA

Daniel Zimmermann

TRÊS DÉCADAS NO

Discurso do Reitor da FURB, João Natel Pollonio Machado, durante a esperada cerimônia de inauguração do novo espaço da Livraria Universitária, no

26

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


MERCADO EDITORIAL Giovana Pietrzacka

EDITORA DA FURB COMPLETA 30 ANOS COM EXPECTATIVA DE CRESCIMENTO E INOVAÇÃO

térreo do Bloco I, que aconteceu em abril de 2015.

O ano era 1986. O Brasil passava por grandes transformações. Em fevereiro, o então presidente da República, José Sarney, instituía o Plano Cruzado, que tinha como objetivo acabar com a inflação. Foram momentos difíceis para os brasileiros, pois além da falta de mercadorias nas gôndolas dos supermercados, havia a presença constante dos chamados “Fiscais do Sarney”. Também neste ano houve a explosão na usina de Chernobyl, que liberou uma enorme quantidade de radiação, 400 vezes mais que a explosão da bomba atômica de Hiroshima. Foi um ano de muita turbulência econômica e de muitas outras emoções, tanto em nível nacional quanto internacional. E as transformações também chegaram à Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB). Em fevereiro de 1986, uma boa notícia para a Instituição. O Ministério da Educação emite a tão esperada Portaria Ministerial Nº 11, reconhecendo a FURB, de fato, como uma Universidade. Era um sonho realizado! É neste bom momento para a Universidade que se intensifica o movimento para a criação de uma Editora própria da FURB. O projeto de criação foi encaminhado para o reitor da época, Arlindo Bernart. Como a ideia não era tão nova assim, não demorou muito tempo para sua devida aprovação. Seis meses após o reconhecimento da FURB como Universidade, nascia a Editora da FURB.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

Foi um prazo relativamente rápido, uma vez que o movimento já vinha sendo alinhado anos antes. Em 1972 foi criada a gráfica interna. Tinha uma impressora manual e 12 caixas de tipos alemães. Quem dirigia a gráfica era Helmuth Wandrey, e o tipógrafo era Jocy Ventura. Em 1974, algumas mentes da própria Instituição já sinalizavam a importância da criação de uma editora, ou melhor, a transformação da gráfica em editora. Até então, porém, os passos dados eram bastante tímidos. Uma das primeiras tentativas de marcar o início e demonstrar a importância de uma editora foi a primeira obra publicada, em 1979. Fruto de um concurso nacional, Os Contos da FURB era uma antologia de autores catarinenses que buscava satisfazer duas necessidades: suprir a área literária da região e servir de referencial aos vestibulandos. E tudo levava a crer na necessidade de uma editora própria. Todos os caminhos e discussões vislumbravam este horizonte. “É difícil imaginar uma Universidade sem uma editora, pelo mesmo princípio de independência que torna diferenciadas uma Fundação de uma Universidade, por exemplo, já que uma Universidade deve ser independente acima de tudo e capaz de drenar essa energia do pensamento e das ideias de uma forma efetiva, impressa em livros”, foi o que escreveu o escritor e jornalista Oldemar Olsen Jr., em novembro de 1985, no Informativo Vitrine, uma publicação interna da Universidade.

27


Raimundo dos Santos.CMU/FURB

O

Raimundo dos Santos.CMU/FURB

Primeiro Conselho Editorial. Da esquerda para a direita: Oldemar Olsen Jr., Anamaria Kóvacs, Aloir Arno Spengler, Arlindo Bernart, Bráulio Schloegel, Sálvio Alexandre Müller e Olivo Pedron.

Raimundo dos Santos.CMU/FURB

A gráfica universitária em ação: impressão de um número do boletim informativo Vitrine, 1985.

Oldemar Olsen e Jocy Ventura conferindo os tipos móveis do maquinário de impressão da época.

28

primeiro passo após a confirmação de que a FURB teria uma Editora foi a instalação do Conselho Editorial. O ato ocorreu em 5 de agosto de 1986. O primeiro presidente, eleito por unanimidade, foi o professor Olivo Pedron, tendo como secretária a professora Ana Maria Kovács. Oldemar Olsen Jr. foi indicado para ser o diretor-executivo. A memória desta primeira reunião ainda pode ser acessada. É que o material — todo manuscrito — está sob os cuidados do Centro de Memória Universitária (CMU). O livreto reúne as atas das reuniões do Conselho Editorial do período de agosto de 1986 a fevereiro de 1996. Há uma riqueza imensurável de informações. As atas carregam boa parte — para não dizer toda — a história da Editora da FURB. Ali estão relatados os problemas pelos quais o setor passava e as possíveis soluções encaminhadas. É claro que, por diversos motivos, nem tudo era resolvido. Mas a história está toda registrada nestes arquivos. É neste documento que ficou o registro sobre como a editora seria implantada: de forma progressiva, atendendo inicialmente aos trabalhos internos da Universidade. Em 1986 foram publicadas as primeiras cinco obras que deram a arrancada definitiva para a consolidação da Editora. A cada nova gestão que assumia, uma nova conquista. Primeiro Oldemar Olsen Jr, depois Sálvio Alexandre Müller, seguido de Yolanda Soares Tridapalli. Entre 1994 a 1998, na gestão de Jorge Gustavo Barbosa de Oliveira, a Editora ganhou uma nova roupagem, passando a fazer o processo de edição dos livros na própria sede. Uma das marcas da gestão de Oliveira foi justamente a reorganização interna e a capacitação de recursos humanos. Foi ele quem solicitou a transferência de Vilmar Schuetze, que atuava na imprensa universitária, para se encarregar da editoração e diagramação do material. Desde então, Schuetze acompanha todos os passos da editora. Ele é o funcionário mais antigo em atividade no setor. Também foi neste período que teve início a participação efetiva na Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU), por meio do Programa Interuniversitário de Distribuição de Livros (PIDL). O diretor José Carlos Grando, que atuou entre 1998 e 2006, chegou a assumir o cargo de vice-presidente da ABEU em um determinado período, época em que foi possível ampliar os pontos de distribuição de livros da Edifurb. Foi nesta gestão que se procurou consolidar o nome da Editora, sobretudo no meio acadêmico, investindo também em autores internacionais. É a partir daí que surge a necessidade de

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Roberto Luiz Zen. CMU/FURB

Durante os anos 90, com a expansão do ensino superior no Vale do Itajaí, a Editora da FURB visitou feiras e eventos para divulgar o seu catálogo.

uma identificação mais profissional, com uma nova logomarca, usada até hoje, e a simplificação do nome para Edifurb.

U

ma das experiências mais fascinantes pela qual a Editora da FURB passou foi a criação da Revista de Divulgação Cultural (RDC). A professora do Departamento de Letras, Anamaria Kovács — hoje aposentada — foi uma das precursoras da iniciativa. Foi pensando em divulgar artigos dos professores do próprio Departamento que, segundo ela, surgiu a ideia de criar um periódico. “Pensávamos que a publicação poderia reunir as produções dos professores, como artigos, análise de contos e poemas”, relembrou. No início, o movimento era interno do próprio Departamento. O reitor da FURB na época, José Tafner, aprovou a ideia. O primeiro número, experimental, chamou-se Abertura. Era 1977 e, para evitar mal-entendidos com o regime militar, optou-se por um nome mais “neutro”. Surgia assim a Revista de Divulgação Cultural, que começou com as dificuldades triviais de qualquer publicação acadêmica. “Para conseguirmos publicar periodicamente”, diz Anamaria Kovács, “tínhamos que correr atrás dos artigos”. Em 1989, o professor José Endoença Martins assume a direção da revista e muda o seu visual. Na sequência, a revista passa a ser dirigida pela professora Maria José Ribeiro. Com o tempo, graças ao

material apresentado, a revista alcançou o respeito nos meios em que circulava. Com periodicidade trimestral, a Revista se tornou um periódico aberto à publicação de artigos de todas as áreas do conhecimento. Divulgou a produção científica cultural da FURB e também de outras universidades. Em junho de 2003 foi feita uma edição comemorativa para marcar os 25 anos da revista. A edição prestou homenagem à literatura portuguesa, em especial ao escritor José Saramago. A publicação foi suspensa em 2006. Está sendo retomada agora, através do exemplar que você tem em mãos.

E

ntre as publicações mais marcantes da editora está o livro História da Noruega – Século XX. Da independência ao estado de bem-estar social, do historiador e político norueguês Berge Furre. Foi um divisor de águas. Primeiro pela astúcia de publicar um livro internacional. Depois pelo princípio de um processo de aproximação com a embaixada da Noruega, algo que hoje é visto como fundamental para o projeto de internacionalização da Universidade. O livro foi lançado no princípio de 2007. O próprio Berge Furre esteve na FURB para acompanhar a cerimônia. “É um dos projetos gráficos mais ambiciosos da editora”, comenta Maicon Tenfen, atual diretor da Edifurb.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

O livro conta a história da Noruega – país com 4,5 milhões de habitantes – e apresenta os principais acontecimentos do século XX naquele país, relacionados especialmente à construção do Estado de bem-estar social. A publicação é usada como livro-base pelas universidades e escolas superiores norueguesas. Para quem não conhece a história de Furre, além de professor de História e Teologia na Universidade de Oslo, ele foi deputado do Parlamento Norueguês e membro do Comitê responsável pela indicação anual do Prêmio Nobel da Paz. Furre faleceu em janeiro deste ano.

Q

ualquer pessoa que queira publicar um livro pode procurar a Edifurb. A editora é responsável por editar obras de autores universitários (acadêmicos) e não universitários, nacionais e estrangeiros. Para que isso seja possível, é preciso enviar o texto completo do livro ao Conselho Editorial, responsável por analisar o material. Os critérios de aprovação vão desde a importância do assunto que a obra traz até o compromisso com a ampliação do conhecimento, além da perspectiva de colocação no mercado. O material, entregue à Editora, tem prazo de 120 dias para ser avaliado. Após o lançamento, a Editora inicia o processo de distribuição dos livros em

29


CMU/FURB

16 estados brasileiros por meio do Programa Interuniversitário de Distribuição de Livros. Nestes 30 anos de existência, são quase 350 títulos publicados. O recorde de publicações se deu em 2013, quando a Edifurb lançou 26 obras inéditas. Até então, o maior volume registrado era de 2012, com 18 publicações. O crescimento se deve basicamente à reestruturação da Editora e à visão de mercado, possibilitando maior divulgação dos trabalhos desenvolvidos nas áreas de ensino, pesquisa e extensão.

É CMU/FURB

Vista externa da Livraria da FURB quando estava situada no bloco principal da Universidade.

Ruy Pratini

Egon Schramm (reitor na época) inaugurando as antigas instalações da Edifurb. Agosto de 2001.

Momentos distintos da Revista de Divulgação Cultural, criada em 1977 pela Editora da FURB.

30

difícil conceber uma Universidade com uma produção intelectual tão intensa sem ter uma editora para dar vazão ao conhecimento produzido. O mesmo pensamento que se tinha há 30 anos é reeditado agora. As publicações feitas por uma editora universitária são a cara da própria Universidade. “Elas são os porta-vozes da academia”, comenta o diretor da Biblioteca da FURB, Darlan Jevaer Schmitt. É por este motivo que se defende que a Editora deva estar em um local nobre, principalmente porque ela consegue dar conhecimento ao público do que está sendo feito e pesquisado e, ao mesmo tempo, projetar o nome da Universidade para além de sua cidade-sede. Para Schmitt, há muito potencial na Editora que poderia ser explorado. “O que está faltando, talvez, seja o entendimento do real papel da editora na Universidade”, disse. O atual diretor da Edifurb, Maicon Tenfen, comenta que “o maior acontecimento é justamente ter chegado aos 30 anos e ter se consolidado como editora num mercado editorial tão instável como é o do Brasil”. É impossível mencionar os nomes de todas as pessoas que atuaram na Editora da FURB. Foram ilustradores, desenhistas, bolsistas, servidores, diretores, integrantes do Conselho Editorial. Todos, de alguma forma, deixaram seu legado. Fica aqui o registro do nosso agradecimento e profundo reconhecimento. Para o reitor da FURB, João Natel Pollonio Machado, a existência de uma Editora em uma Universidade tem uma função diferencial: “um papel importante das universidades é a divulgação do conhecimento que ela gera e a reflexão de temas de interesse da sociedade. A Edifurb, ao longo de três décadas, cumpre este papel de forma relevante. O compromisso é o de fortalecimento e a busca de novos meios que permitam que este papel irradiador tenha sua continuidade seja ampliado. Temos muito orgulho da trajetória da Edifurb que reflete a qualidade de nossa Universidade”, disse o reitor.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


POLÍTICA

CRÔNICA DE UMA DEMOCRACIA POUCO DEMOCRÁTICA Marcos Mattedi

Fábio Rodrigues - Agência Brasil

UM PANORAMA DA CRISE QUE DESTRUIU O MODELO DE REGULAÇÃO POLÍTICA E ESCANCAROU AS FRAGILIDADES INSTITUCIONAIS DE BRASÍLIA

Congresso Nacional: radiografia das elites dirigentes expostas em todas as suas fraturas, incompetência, egoísmo e fisiologismo pseudopartidário.

A

crise está em toda parte. Está nos carrinhos de supermercados: gastamos mais, mas compramos menos; está nos noticiários: os políticos nos enganam constantemente; está nos serviços públicos: ineficientes e às vezes inexistentes. Ao mesmo tempo, somos obrigados a trabalhar duro, participar de eleições e pagar impostos. Para todo lado que se olhe, a sensação é de descontrole, desconfiança e desesperança. Este pessimismo reflete o efeito combinado de três fenômenos: a) Frustração econômica: o fim da sensação de bem-estar econômico; b) Desencanto político: crise de representatividade das lideranças políticas; c) Corpora-

tivismo descontrolado: uma burocracia cara que entrega serviços públicos precários. Esta tempestade econômica, política e social indica que o horizonte de expectativas dos brasileiros foi sendo rebaixado. Portanto, estamos presenciando a cristalização de escolhas feitas no passado, uma realidade que nos leva a perguntar: que crise é essa? Essa crise exprime os limites do Modelo de Regulação Política — MRP do Social-desenvolvimentismo, que alinha interesses de lideranças políticas, burocracia e eleitores, e tentou ajustar a estrutura econômica do país à distribuição de renda. Esta agenda foi concebida no período

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

de abertura política e institucionalizada na Constituição de 1988. No final do Regime Militar, os fundamentos do nacionaldesenvolvimentismo surgido na década de 30 entram em crise devido ao colapso do Estado e a perda progressiva da capacidade estatal de alavancar o crescimento da atividade industrial (Convenção do Crescimento). Ao mesmo tempo, com a abertura política ampliou-se a agenda de demandas sociais, a quantidade de atores e os mecanismos de pressão, gerando uma nova autocompreensão do desenvolvimento com três características: a) a consolidação da democracia; b) a estabilidade econômica; c) a justiça social (Convenção da Redistribuição).

31


O social-desenvolvimentismo baseou-se num MRP que foi formado no período constituinte e se estabilizou após o impeachment de Collor em 1992. Trata-se da convergência programática dos partidos políticos em torno de uma dupla operação: obter dinheiro da elite (bancos, empreiteiras, grandes empresas) e votos da massa empobrecida (eleitores menos informados), prometendo diminuir as desigualdades sociais e garantir lucros através da mediação do Estado. Nesse sentido, é possível diferenciar duas variantes políticas de redistribuição: a) Variante Liberalizante: liderada pelo PSDB; b) Variante Estatizante: liderada pelo PT. Ambas as estratégias foram sustentadas politicamente por um centro conservador formado pelo PMDB. Este bloco conservador, também conhecido como Centrão, reproduz-se por meio do social-desenvolvimentismo, porque garante o controle do Estado de forma patrimonialista. As manifestações de junho de 2013 repolitizaram o pacto social-desenvolvimentista, pois questionaram a legitimidade do MRP. O primeiro questionamento diz respeito à crise financeira: a perda da capacidade do Estado de promover o crescimento econômico; o segundo se refere à crise de eficiência: o aumento das despesas públicas não possui correspondência com a qualidade dos serviços públicos; e o terceiro fator se refere à crise de legitimidade: o fechamento dos instrumentos tradicionais de organização política. Dito de outra forma, o pacto PSDB-PMDB-PT não captura o processo de individualização social que se coloca por fora dos governos, dos partidos e das outras instituições de representação de interesses. A partir de 2015, esta crise de governança e governabilidade transforma a perda de credibilidade e legitimidade dos governantes em raiva, rejeição e contestação. Em 2016, ela colapsa completamente com o lance desesperado de sobrevivência da Solução Temer. Por isso, a frustração com o governo e a queda de popularidade que presenciamos não é um problema exclusivo do PT, do governo Dilma II ou do governo atual. Trata-se de um processo mais amplo e profundo, que diz respeito à crise de legitimação do MRP, contemplando também o PSDB e o PMDB. Portanto, a crise que estamos atravessando não é uma crise de estratégia do PT ou do PSDB, mas da coalização formada por políticos, empresários, burocracia e trabalhadores. Por um lado, a globalização, a individualização e as redes reconfiguraram a sociedade brasileira que não se reconhece representada neste modelo. Por outro, com o progressivo processo de desarticulação do conjunto de forças, partidos políticos e movimentos sociais fazem com que o MPR comece a se desintegrar. Com isso, o conjunto de prá-

32

ticas políticas se torna incapaz de identificar e converter as demandas da sociedade em respostas adequadas. As crises de qualquer MRP possuem base econômica, embora as transições, no Brasil, sejam efetuadas por protagonistas políticos. O fim da escravidão, a crise do setor cafeeiro, a crise da dívida externa, tudo isso foi acompanhado pela atuação de atores-chave como, por exemplo, tenentes, generais ou movimentos sociais. A situação que atravessamos não é diferente: a crise fiscal do Estado fragmenta o MRP e tem como protagonista da mudança o poder judiciário. Como consequência, tivemos um enfraquecimento brutal do poder presidencial e da capacidade governamental de Dilma II. Nesse sentido, a ponte para o futuro reflete a tentativa de recompor um MRP desestabilizado pela fratura do sistema partidário estruturado em torno do eixo PSDB-PMDB-PT. Mais precisamente, o encontro de lideranças políticas (PT e PMDB) com interesses empresariais (Brasdesco, Itaú, FIESP e FIRJAN). A crise do MRP é a expressão da crise do neo-extrativismo.

A crise do PT precisa nos interessar porque ela representa a metamorfose completa da esperança em desilusão.

A

crise do MRP atinge também o PT. Não existe renovação de lideranças, a confiança no partido desapareceu, os movimentos sociais se distanciaram, a classe média se uniu a movimentos anti-PT. E, no entanto, o PT é um dos principais partidos brasileiros. Desempenhou um papel decisivo no processo de redemocratização e na institucionalização do social-desenvolvimentismo. Além disso, hegemonizou o controle da política nacional há treze anos. Por isso, cabe perguntar: por que o PT está em crise? O PT foi se construindo conforme transformava o contexto sociopolítico, mas, à medida que esse contexto mudava, o partido também foi sendo transformado por ele. É preciso recuar no tempo para entender melhor a conjuntura dessa crise. Como qualquer outro partido, o PT também tem um ciclo de vida. Nesse sentido, para poder responder essa questão, necessitamos diferenciar as principais fases de desenvolvimento organizacional do PT: 1) Fase de Formação; 2) Fase de Consolidação; 3) Fase de Expansão; 4) Fase de Declínio.

O PT VERMELHO (1980-1995). A Fase de Formação inicia com a fundação do partido em 1980 e se estende até a retomada da hegemonia pela articulação em 1995 e a formação do campo majoritário. O PT nasce como uma confederação de esquerda reunindo quatro tipos de militantes: a) trabalhadores ligados ao Novo Sindicalismo; b) ex-guerrilheiros dos movimentos de vanguarda; c) ativistas dos movimentos sociais; d) intelectuais de esquerda. A derrota do partido nas eleições de 1989 e, principalmente, o fracasso do Governo Erundina (1988-1992) desencadeiam intensos conflitos sobre a adequação das estratégias de ação para tornar o partido viável eleitoralmente. Por isso, esta fase é marcada por profundas divergências e disputas internas a respeito de como o socialismo devia ser implantado. Nessa fase, o PT era o partido da ética e da mudança e disputava com outros partidos o monopólio do espaço político de esquerda. É somente após o segundo turno das eleições de 1989 que o PT se torna um partido popular, embalado pelo Lula Lá. O PT ROSA (1995-2005). A Fase de Consolidação inicia com a conquista da hegemonia da articulação e pela reforma perpetrada nos estatutos, passa pelas eleições de 2002 e culmina com o Mensalão em 2005. Essa fase pode ser dividida em duas etapas principais: a) Etapa de Oposição, que se exprime no “Fora Collor” e no “Fora FHC” que se seguiram às duas derrotas de Lula para FHC; b) Etapa de Situação, que se segue à vitória de Lula em 2002. Esse processo se caracteriza politicamente por um progressivo deslocamento do partido para o centro. Mais precisamente, o abandono do radicalismo militante e o reconhecimento da legitimidade da estratégia eleitoral. Com isso, ganha força dentro do partido a construção de uma ampla política de alianças baseada no pragmatismo eleitoral imediato. Nesse sentido, a metamorfose da vida partidária e do debate ideológico interno do PT não podia ter expressão mais eloquente que a Carta aos Brasileiros. Com o aumento da viabilidade política, o partido troca o velho Projeto de Brasil da esquerda por um Projeto de Poder, embalado pelo ritmo de “Bote essa estrela no peito...” O PT AMARELO (2006-2013). A Fase de Expansão se caracteriza pelo surgimento do Lulismo depois da crise do Mensalão e vai até as Manifestações de 2013. A experiência do primeiro mandato de Lula desencadeia um novo processo de reacomodação das forças no PT conhecido como Construindo um Novo Brasil. Embalado pelos índices de crescimento econômico, o PT abraça uma estratégia de cooptação da oposição. Do ponto de vista político, essa estratégia significou a institucionalização do apoio político através da corrupção

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Fábio Rodrigues - Agência Brasil

Em cena anterior à Lava Jato, ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemora o seu aniversário entre militantes do Partido dos Trabalhadores.

com a perspectiva da tradicional impunidade. Esse processo de popularização do PT por meio do Lulismo provoca também um realinhamento populista do PT com as classes populares. À medida que o partido se torna mais popular eleitoralmente, o PT institucionaliza o Melhorismo por meio da expansão do consumo e assistência do bolsismo. Essa coalizão se alargou tanto que, quando começou a desaceleração cíclica, os aliados desembarcaram da carona. O PT MARROM (2013-2016). A Fase de Declínio do PT inicia com os Protestos de 2013 e se acentua com a operação Lava Jato, bem como a prisão de José Dirceu, e culmina com o impeachment de Dilma. Os protestos de 2015 e 2016 indicam uma profunda rejeição ao governo do PT. Pela primeira vez o PT vive uma mobilização popular contra ele e sofre uma grande derrota na Câmara e no Senado, que passam para o controle da oposição. Diante da crise, Dilma adota uma política econômica contrária às lideranças do PT. A popularidade do Governo Dilma II se deteriorou rapidamente, chegando a quase 70% de rejeição, e se paralisou pela perda de apoio político no congresso. Com o processo de impeachment, o PT perde espaço e o PMDB torna-se fiador do governo. Dos cardeais petistas fica o opróbrio da traição pelas denúncias de corrupção que autodesmentem o PT. Por um lado, verifica-se a debandada de prefeitos e vereadores e, por outro, um

movimento de refundação de onde surge um zumbi chamado PT do Bem. Pertence também à dialética do PT essa luta contínua que em cada fase opôs militantes e burocratas, mobilizações e calendários eleitorais, confrontos sociais e disputas institucionais. Essas contradições foram produzindo dissenções, como ilustram os casos dos deputados expulsos por não respeitarem o boicote ao Colégio Eleitoral em 1984; o banimento dos militantes da Convergência Socialista e da Causa Operária no início dos anos noventa; mas também de Paulo de Tarso Venceslau e Cesar Benjamin, expulsos após as denúncias de fraudes em licitações, extorsões e propinas ligadas às concessões de serviços públicos em 1995. Todas essas dissenções sempre foram rapidamente encobertas pelo poder da máquina partidária. As consequências foram que da estratégia de “consenso progressivo por baixo” o PT assumiu a “transição pelo alto”. Do conglomerado de tendências sobrou a polarização em torno do carisma de alguns líderes. De um partido de militantes em 1980, o PT se converteu num partido de funcionários em 2016. É que o PT carregou consigo uma esperança social de um Brasil que, afinal, não se deixa realizar politicamente. Como ocorre nos outros partidos, os dirigentes do PT formaram uma casta que controlou a estrutura decisória e imprimiu ao partido estratégias cada vez mais conservadoras, flexíveis e adaptáveis à lógica de

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

reprodução político-eleitoral. Por isso, o PT sucumbiu à Lei de Bronze dos partidos políticos: a formação de uma oligarquia no interior do partido que bloqueou a vontade popular e a renovação das lideranças. Nem os áulicos conseguem esquecer o antológico aperto de mãos entre Lula e Paulo Maluf pelos 1 minuto e 43 segundos do horário eleitoral nas Eleições Municipais de 2013. São nítidos os sinais de que o PT se tornou mais um partido que não tem nada a dizer à sociedade brasileira. Essa crise revela apenas que o PT não consegue governar para além dos limites programáticos e institucionais estabelecidos pela “peemedebização” da política. Faltou coragem para o PT adiantar o relógio político, sempre atrasado no Brasil. Olhando de perto, nota-se que o PT sempre esteve em crise. Ocorre que agora a sociedade brasileira assiste perplexa e até excitada à expiação moral e política do partido. Ao longo desse processo de desenvolvimento político e institucional, as lideranças, os militantes e os eleitores foram produzindo e reproduzindo diversos PTs. Esses PTs mantêm, ao mesmo tempo, uma relação simultânea de oposição e complementaridade numa luta que é interna e externa. O PT Vermelho não desapareceu, mas foi progressivamente eclipsado pelo PT Rosa. O PT Marrom começa a aparecer à medida que o PT Amarelo se enfraquece. Nesse processo o PT trocou sua base eleitoral: a classe média tradicional pelo subproletariado.

33


A crise do PT precisa nos interessar porque ela representa a metamorfose completa da esperança em desilusão. Para surpresa de muitos, implementou uma estratégia de dominação que quase produziu a desmoralização da luta histórica da esquerda contra os donos do poder, a concentração da riqueza, a herança escravocrata, o autoritarismo do Estado. Afinal, na dança dialética entre Oposição e Situação, os movimentos do PT e dos setores sociais a ele alinhados se acham amplamente fixados num jogo em que os críticos se fundem aos criticados. Por isso, se existe alguma importância no legado de quatro mandatos, ela vai sendo encoberta pela paralisia de um Estado altamente disfuncional guiado por interesses coorporativos de um projeto de hegemonia partidária, descompromissado com os deveres e com a transparência. Pois, atrás da encenação do Golpe, chamado poeticamente de Plano Lula, soçobra a irônica sensação de que o PT só poderá ser socorrido pelos “velhos movimentos”. Porém, não devemos esquecer que, se a porta se fecha para o PT, ainda permanece aberta para a esquerda. E por essa pequena fresta começa a aparecer uma esquerda desencantada. Afinal, depois de 1989 se dissolveram os antigos dogmas morais cronicamente dependentes do equipamento organizacional e suporte institucional do Estado. Essa esquerda sabe que quanto mais presente o Estado, maior a história de violência, corporativismo e corrupção. E que essa dependência do Estado resultada da combinação de dois tipos de crenças: 1) a crença de que detém uma solução mais racional para todos os problemas sociais; 2) a crença que essa solução deve ser estendida a toda a sociedade. A Idade de Bronze do PT é, afinal, ambivalente. Se, por um lado, o declínio do PT abre o espaço político de esquerda; por outro, isto implica também a perda da hegemonia da esquerda no discurso de mudança. A pergunta lançada pela Idade de Bronze do PT é: uma esquerda sem Estado é possível?

A

crise do MRP pôs o Campo Progressista em movimento. Este processo está associado ao Efeito PT: perda de centralidade política do PT na condução do MRP do social-desenvolvimentismo. Por um lado, desde o segundo turno das eleições presidenciais de 1989 o PT monopolizou o discurso progressista da denúncia da concentração de renda, da distribuição da terra, da herança escravocrata, do autoritarismo do Estado, ofuscando progressivamente as outras forças políticas de esquerda como o PCB, o PCdoB, o PDT, o PTB; por outro, no movimento político que leva o PT da oposição em 1980 até governo em 2016, os grupos

34

mais à esquerda vão sendo progressivamente excluídos, dando origem a uma série de novos partidos de esquerda como, por exemplo, o PSTU, O PSOL e a Rede Solidária. Portanto, o Efeito PT desencadeia um duplo desencanto político: na esquerda e com a esquerda. O campo progressista compreende o conjunto de grupos sociais que lutam para proteger os fracos dos fortes. Costuma ser relacionado a valores políticos de esquerda como, por exemplo, igualitarismo, solidariedade e emancipação. Isso inclui movimentos sociais que se autoproclamam sindicalistas, comunistas, anarquistas, socialistas, feministas e ambientalistas. Esses grupos distinguem-se, principalmente, pela forma como concebem e atacam a questão da desigualdade. Nesse sentido, a desigualdade pode ser considerada de forma política, econômica ou cultural. Por isso, as estratégias de atuação diferenciam-se, frequentemente, em função das formas de conceber o papel do Estado e da Sociedade nesse processo. Nesse sentido, para entender o Efeito PT sobre o campo progressista, é preciso considerar duas dimensões: a) o ciclo de vida do PT; b) as transformações da esquerda.

Uma das principais consequências do Efeito PT sobre o campo progressista foi a perda da hegemonia discursiva da esquerda.

Além disso, é preciso considerar também as metamorfoses da esquerda nesse período. Até a década de 60, um movimento social somente podia ser considerado de esquerda se visasse à superação do capitalismo; mas a partir da queda do Muro de Berlim passou a incluir também militantes que acreditam que seja possível controlar o desenvolvimento capitalista. Do ponto de vista teórico, isto significa que os movimentos de esquerda substituíram o Paradigma Econômico da Exploração (Marx) pelo Paradigma Cultural da Dominação (Foucault). Do ponto de vista prático substituem as lutas revolucionárias pela transformação, por movimentos reformistas de luta contra a marginalização social capitalista. Nessa mudança, a esquerda deslocou o eixo de atuação dos fatores econômicos associados à questão da Redistribuição da Riqueza, para fatores políticos culturais relacionados ao Reconhecimento da Identidade. Uma das principais consequências do Efeito PT sobre o campo progressista foi a perda da hegemonia discursiva da

esquerda. Durante décadas a esquerda monopolizou o debate sobre o sentido do desenvolvimento brasileiro com um discurso que misturava populismo e nacionalismo. Esse processo teve início durante a consolidação cultural, na década de 50, pela penetração do discurso de esquerda na classe média e pela guinada progressista da Igreja Católica efetuada pelo Concílio Vaticano II. Com o fim da Ditadura Militar, esse discurso se tornou dominante, não somente com relação aos costumes, mas também com relação à participação política e às questões sociais. Contudo, a experiência de treze anos de governo do PT, associada às denúncias de corrupção, enfraquecem a dominância do discurso de esquerda. Nesse contexto, emergem novas frentes discursivas sobre o sentido do desenvolvimento. A relação entre a perda do monopólio moral e a desmobilização social constitui um grande desafio para o campo progressista. Por um lado, freou a renovação de lideranças, a confiança na esquerda desapareceu, os movimentos sociais se distanciaram; por outro, os limites da integração pelo consumo deixam traços retrógrados na precarização das relações de trabalho, criminalização da juventude etc. As consequências desse processo são as tendências de fragmentação do campo progressista: a) Movimentos Identitários ligados às políticas de reconhecimento cultural: feminismo, movimento negro e direitos humanos em geral; b) Movimentos de Igualdade ligados ao processo de redistribuição econômica: sindicatos, movimentos urbanos, movimentos dos sem-terra. O Efeito PT inviabiliza as táticas da denúncia e a instrumentalização do Estado como meio nas lutas contra a marginalização e a privação. O Efeito PT impediu a esquerda de adiantar o relógio político do Brasil. Agora, por um lado, a esquerda se vê obrigada a engolir um acordo entre as “velhas elites”; por outro, vai vendo o discurso nacionalista e populista se esfarpelar pelo desencantamento esquerdista e a militância de direita. Isto significa que não consegue mais denunciar as “elites”, a “grande mídia”, os “latifundiários” e, ao mesmo tempo, se vê obrigada a suportar o peso de um “pacto conservador”. Do ponto de vista prático, significa engolir um ajuste fiscal que implica o desmonte das políticas sociais, mas também a implosão da capacidade de aglutinação governamental. A roupagem de esquerda pode ser usada apenas na denúncia de um golpe branco ou numa guinada desenvolvimentista. Num mesmo lance a esquerda perdeu o discurso da mudança e a estratégia de ação. Portanto, o Efeito PT deixou a esquerda sem saber o que dizer e o que fazer.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Antonio Cruz - Agência Brasil

Diante do “ordem e progresso” da bandeira nacional, adversários se tornaram aliados e vice-versa para a consolidação do impeachment de Dilma.

À medida que a porta política se fecha para o PT, permanece entreaberta para o campo progressista. Mas pela fresta só passa uma esquerda desencantada. Afinal, o Efeito PT dissolveu os dogmas cronicamente dependentes da vitimização e do equipamento do Estado. Essa esquerda sabe que, quanto mais presente o Estado, maior a história de violência, corporativismo e corrupção. Portanto, o Efeito PT é ambivalente. Por um lado, o declínio do PT abre o espaço político de esquerda; por outro, implica uma redução do perímetro de atuação da esquerda. A pergunta lançada pelo Efeito PT sobre o campo progressista é: uma esquerda sem denúncia e sem Estado é possível?

A

crise do MRP também dividiu a direita. A divisão da direita indica que, apesar de o Brasil começar a se aproximar de um discurso liberal e conservador sobre a condução do desenvolvimento, isso ainda é um tanto vago e confuso. Assim, a divisão da direita está relacionada ao jogo das crises e às estratégias de como conduzir a transição desse processo. Portanto, a instabilidade não diz respeito somente ao PT, mas também aos que lhe fazem oposição. Nesse sentido, é possível diferenciar dois grupos com interesses e procedimentos diferentes: a) Alta Oposição ao PT; b) Baixa Oposição ao PT. A Alta Oposição diz respeito à direita de gabinete. É formada pelos velhos Donos do Poder (FEBRABAN, FIESP, FIRJAN, CNI,

CNA, além da grande mídia). Seu interesse é preservar as condições de dominação fundadas na relação patrimonialista com o Estado. Esse grupo defende a adoção de profundos cortes de gastos públicos e aumento de impostos para garantir que as contas fechem e desse modo seja mantido o acesso privilegiado às receitas do Estado. Foi contra o impeachment por acreditar que o processo acrescentaria novas incertezas num cenário em que o mais importante é encontrar condições de governabilidade para garantir seus negócios. Além disso, a substituição de Dilma produziria um governo de transição muito enfraquecido e criaria condições políticas para o retorno de Lula em 2018. Portanto, a Alta Oposição é gradualista porque a instabilidade política é nociva a seus interesses. A Baixa Oposição abrange a direita militante. É formada pela Nova Direita e se articula nas redes sociais pela ação de grupos como Vem pra rua vem, Revoltados on-line, Movimento Brasil Livre, Instituto Mises, Instituto Liberal e Instituto Millenium. Tem como base social a Velha Classe Média e penetra cada vez mais na Nova Classe Média, assolada pela crise. Nesse sentido, combatia o PT e o Governo Dilma II, tanto pela excessiva presença do Estado na vida dos cidadãos, quanto pela precariedade dos serviços públicos. É uma direita que defende os valores mais conservadores ao mesmo tempo em que esbraveja pela diminuição dos impostos. Por isso apostou na deterioração econômica, pois viu na crise uma

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

oportunidade de efetuar mudanças estruturais. Foi a favor do impeachment e propõe efetuar uma cassada jurídica a Lula. A divisão entre o gradualismo por cima e o imediatismo por baixo se estabeleceu porque a oposição tem interesses divergentes. Esses interesses estão relacionados à posição econômica dos dois grupos socais. De um lado situa-se a grande burguesia nacional, de outro a classe média, e seus interesses nem sempre são compatíveis. Por exemplo: garantir o status fiscal da elite nacional significa ampliar a carga tributária da classe média. Essa posição é dinâmica e vai se transformando à medida que se intensifica a crise do MRP do desenvolvimento. Isto significa que o redemoinho de crises aumenta a instabilidade e os grupos de direita se diferenciam, não somente entre Alta e Baixa Oposição, mas mesmo dentro delas. Para entender as crises precisamos considerar não somente a disputa entre governo e oposição, mas também entre a própria oposição. À medida que a guinada da direita se dissemina junto à opinião pública, a disputa pelo controle e a hegemonia se intensifica. Ou seja, a divisão entre uma Fração Pragmática que teme a instabilidade, e uma Fração Programática que aposta no choque se evidencia. Isto significa que o enfraquecimento do poder presidencial de Dilma II não se transformou automaticamente no fortalecimento do polo de oposição. Na verdade, o agravamento da crise ampliou as divisões existentes na opo-

35


sição sobre como lidar com o espólio do Governo PT. O papel de cada um desses grupos na construção da nova ordem está em disputa e ainda não foi estabilizado, alternando passividade e agressividade. A tendência é a polarização de dois grupos à direita do espectro político nacionalista e populista que caracterizou o Modelo de Regulação Política do Desenvolvimento.

O

bloqueio definitivo do sistema político precipitou a disputa prevista para 2018. A questão que tenciona o Modelo de Regulação Política é como negociar a transição da crise. Duas alternativas políticas se cristalizaram: a) Solução Aberta (com consentimento eleitoral): participação da sociedade na escolha das alternativas por meio da realização de eleições para uma repactuação, o que implicaria, evidentemente, a renúncia de Dilma, a cassação da chapa pelo TSE ou talvez uma improvável PEC; b) Solução Fechada (sem consentimento eleitoral): pacto de elites dentro da tradicional cultura política de concertação brasileira, para criar condições para se proteger melhor da Operação Lava Jato e bloquear a participação social. Neste sentido, como a Solução Aberta era mais lenta e mais arriscada tanto para o governo como para a oposição, acabou se impondo a Solução Fechada, na qual é possível diferenciar duas variantes: a) o Plano Lula; b) a Solução Temer. O Plano Lula constituiria uma espécie de regência do Governo Dilma II. Foi ativado quando o sinal vermelho do Governo Dilma II acendeu pela temperatura do impeachment e Lula foi levado a depor por meio de condução coercitiva. Passava pela proteção de Lula contra a caçada jurídica aberta pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, visando consequentemente às eleições presidenciais de 2018 e a continuidade do ciclo de governos do PT. A estratégia era que, assumindo a Casa Civil, a capacidade de negociação de Lula possibilitaria a recomposição da base de apoio no congresso, recuperaria a confiança do mercado, controlaria também a Lava Jato e, portanto, salvaria o Governo Dilma II. Na prática, a estratégia constituía uma espécie de renúncia branca de Dilma. Porém, o dramático vazamento das conversas entre Dilma e Lula implodiu a viabilidade política do Plano Lula na medida em que tornou público o sentido da concertação. A Solução Temer passava pelo impeachment de Dilma. A estratégia baseava-se em substituir rapidamente Dilma para tentar restaurar as condições de funcionamento do Modelo de Regulação Política predominante nas últimas décadas. Estivéssemos num regime parlamentarista,

36

a manobra poderia ser descrita como um voto de desconfiança, porém nas atuais condições revelou-se apenas um lance de oportunismo. Concebida para controlar Getúlio Vargas e o varguismo, a Lei 1079/50, que tipifica e regulamenta os crimes de responsabilidade e o julgamento de impeachment, é tão ampla que dificilmente um presidente sem apoio do Congresso conseguiria escapar da cassação. Portanto, quanto menor ia se tornando a coalizão de apoio, mais ilegais foram se convertendo as pedaladas fiscais. Embora a Solução Temer tenha aglutinado mais forças que o Plano Lula, é muita ingenuidade esperar que um governo do PMDB possa ter um rumo preciso.

Compartilhamentos, comentários, discussões e debates no Facebook, nos grupos do WhatsApp e no Twitter constituem apenas o ponto mais evidente de uma luta discursiva feroz e generalizada. O predomínio da Solução Temer indica uma mudança na correlação de forças no Modelo de Controle Político. Assinala o fim do ciclo de governo do PT e o deslocamento do PSDB para a margem. Porém, se quiser chegar a 2018, o governo atual terá que enfrentar dois tipos de desafios. Por um lado, as tensões internas geradas pela divisão entre o Polo Serra no Ministério das Relações Exteriores e o Polo Meirelles no Ministério da Economia; por outro, as disputas externas com a ameaça da Lava Jato sobre as cabeças da cúpula do PMDB, mas também a crescente resistência social contra as dores do ajuste econômico. A crise política na montagem dos ministérios revela que não será nada fácil repetir as eleições de 1994, pois o governo atual enfrenta dois óbices principais. Por um lado, a Solução Temer depende dos efeitos do programa econômico. A questão é como aprovar o conjunto de medidas e distribuir a conta do ajuste num ambiente de contradições. Neste sentido, o governo atual deve enfrentar não somente a oposição de esquerda dos movimentos sociais e sindicalistas, mas de um grupo mais difuso de resistência que deve pressionar a base parlamentar. Os interessados na manutenção dos gastos federais fazem parte de um grupo social muito amplo. Afinal, a proposta de congelamento dos gastos federais afeta as áreas

da educação, assistência social e saúde, e, principalmente, a previdência. Além disso, a confusão tende a aumentar na medida em que as eleições municipais congestionem a agenda política. Apesar da força demonstrada na aprovação da meta fiscal, não parece que a sociedade aceitará pacificamente um “ajuste para baixo”. A viabilidade da Solução Temer depende da capacidade de conter ou mesmo neutralizar os efeitos da operação Lava Jato, que revelou as características distintivas e as formas de operação do Estado brasileiro. Mais precisamente, controlar os impactos políticos da revelação e da penalização do círculo de poder que caracteriza o “capitalismo de compadrio”. É que quanto mais perto as denúncias chegam do presidente atual, mais frágil se torna o apoio político. E como se tornou inviável “delimitar” a Lava Jato por cima através do Supremo Tribunal Federal, a estratégia passa por conter o efeito deletério causado pelas delações premiadas restringindo legalmente o “âmbito de incidência”. Por isto, as revelações do emaranhado de denúncias da Lava Jato diminuem ainda mais a legitimidade dos políticos. Não existe nada de novo em alternância traumática na política brasileira. Afinal, as crises nos Modelos de Regulação Política sempre são resolvidas com rupturas. Sarney, Itamar, Temer, Constituinte, impeachment de Collor, impeachment de Dilma, sempre o mesmo padrão de blindagem do sistema político contra a sociedade. Assim, se por um lado, as dificuldades nas quais a Solução Temer tem tropeçado indicam que o impeachment não é “uma ponte para o futuro” muito segura, por outro lado, as medidas anunciadas confirmam que a Travessia Social parece ser longa. O sentido da interrupção do ciclo de governos do PT pode ser ilustrado pelas revelações do ministro da Transparência, Fiscalização e Controle, pego falando demais sobre a Lava Jato. Tudo indica que a Lava Jato pode converter a Solução Temer num problema... Neste sentido, a única novidade é que o “acordo de governabilidade” tem um prazo de validade curto, para não dizer muito curto. Na confusão gerada pelo temor da Justiça, o que estava em jogo na substituição de Dilma por Temer era apenas uma busca desesperada por proteção. É que apesar destas manobras, a Operação Lava Jato continua viva, e revelando como as grandes empreiteiras pagavam propina para altos executivos da estatal indicados por partidos políticos. Neste sentido, os vazamentos ensinam didaticamente como o Plano Lula e a Solução Temer se assemelham. Cada uma ao seu próprio modo constitui uma estratégia para tentar abafar a operação e, portanto, livrar os políticos dos processos de cassação. Mais

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Wilson Dias - Agência Brasil

Atacada pelos inimigos, abandonada pela maioria dos aliados, ridicularizada pela mídia, Dilma Rousseff foi varrida da cena política brasileira.

do que isso, revelam ainda que PT, PMDB, PSDB e outros partidos convergem na tentativa de bloquear as investigações da Lava Jato. Na situação de pane total do Modelo de Regulação Política, somente as próximas eleições poderão conferir legitimidade política.

N

este sentido, o ódio sulfuroso que transborda das redes sociais encobre uma intensa disputa sobre o significado da crise do MRP. É que compartilhamentos, comentários, discussões e debates no Facebook, nos grupos do WhatsApp e no Twitter constituem apenas o ponto mais evidente de uma luta discursiva feroz e generalizada. Isso indica que a crise econômica, associada às investigações da operação Lava Jato e à instabilidade política do Governo Dilma II, reproblematizaram as conquistas do governo do PT. Entre acusações e defesas apaixonadas, começam a ser reexaminadas as interpretações hegemônicas e fixadas novas imagens da relação entre a diminuição das desigualdades e o processo de crescimento econômico. Nesse sentido, o que está em jogo é a interpretação de como o PT conduziu o MRP do socialdesenvolvimentismo. Mais precisamente, o reexame do legado petista instaura a “disputa pelo passado”. Em 2003, o PT entrou no Palácio da Alvorada denunciando a “herança maldita” deixada por FHC. Esta maldição seria consequência das políticas neoliberais adotas pelo governo do PSDB (1995-2002). A ênfase na disciplina fiscal, liberalização

financeira e privatizações teriam provocado a ruína do Brasil: dependência externa, crescimento medíocre, alto desemprego e taxas de juros absurdas. Pelo contrário, o governo PT (2003-2016) estava associado à ideia de justiça social, pela combinação de crescimento econômico e inclusão social numa política desenvolvimentista. Porém, as manifestações de 2013, a crise fiscal e a sucessão de escândalos modificaram as condições de legitimação dessa narrativa. Diante da ameaça de se completar um triênio de recessão, começa a ressurgir no Brasil um discurso sobre a importância da estabilidade econômica e os limites de intervenção do Estado. A disputa pelo passado se estabelece nos espaços de produção cognitiva. Estes espaços constituem esferas sociais nas quais se concebem, legitimam e difundem representações sobre o sentido e o significado do desenvolvimento. Estas organizações podem ser agrupadas em dois espaços principais: a) o Espaço Acadêmico, formado por universidades, institutos de pesquisa e think tanks; b) o Espaço Midiático, constituído por jornais, revistas, programas de rádio e TV, blogs etc. O que caracteriza estes dois espaços é, por um lado, a tendência à especialização da produção do conhecimento acadêmico e, por outro, a progressiva comercialização da cultura na mídia. Por muito tempo o processo de produção de informações foi monopolizado por essas duas esferas. O efeito do monopólio de universidade e de jornais foi limitar a disputa a dois grupos específicos de produtores de informação.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

A disputa pelo passado refere-se à capacidade de organização de informações em discursos sobre o verdadeiro e o justo do desenvolvimento. É efetuada por jornalistas, professores, cientistas, juristas, artistas e religiosos que ocupam postos acadêmicos, colunas de jornais, blogs, programas de TV, rádio etc. Neste contexto, diferenciam-se duas competências: a) a competência militante: produz ideias em nome de convicções; b) a competência especializada: produz ideias em nome da técnica. Pode-se, portanto, identificar dois tipos de produtores: a) Intelectuais: que se espalham pelas universidades e encontram-se ligados ao “campo progressista”; b) Mediadores: vinculados à grande mídia e próximos ao “campo conservador”. O que diferencia os dois grupos é a forma como são financiados: os Intelectuais são pagos para defender o Estado, enquanto os Mediadores são pagos para defender o Mercado. Ao mesmo tempo, a disputa pelo passado opõe também duas esferas distintas de difusão dos discursos sobre o desenvolvimento. Os Intelectuais se valem de postos nas universidades para a produção de informação e apostam na mobilização dos movimentos sociais. Já os Mediadores restringem-se aos jornais e às TVs e operam por contágio nas redes sociais. Assim, de um lado, os Intelectuais vão para a sala de aula e dizem que as críticas às políticas de desenvolvimento seriam uma reação à ordem econômica e simbólica trazida pela inclusão social; de outro, os Mediadores afirmam que as conquistas sociais

37


Valter Campanato - Agência Brasil

O cenário de descontentamento com o sistema político brasileiro é evidente nas manifestações populares que tomaram as grandes cidades do país.

foram “analgésicos sociais” baseados em “anabolizantes econômicos” que serviram apenas para encobrir um grande sistema de fraude ideológica. Duas questões estruturam o debate: a) as origens da crise; b) sua solução. O primeiro plano da disputa pelo passado diz respeito ao diagnóstico da crise: o que está acontecendo? Diante de um cenário que se caracteriza pelo aumento da inflação, desemprego, interrupção do crédito, endividamento da população e disparada do dólar, a controvérsia se intensifica. Os Mediadores atribuem a crise a causas internas: dizem que o Brasil está em crise porque o Estado não cabe dentro do orçamento e porque gasta mais do que arrecada, gerando déficits fiscais que seriam resultado do populismo; já para os Intelectuais a crise tem origem em causas externas: a conjuntura internacional ligada à contração da economia mundial e os limites das políticas anticíclicas para enfrentar a crise de 2008. Verifica-se, portanto, um deslocamento do eixo da questão da subjugação para a questão do gerenciamento. Portanto, discutir quais são as causas implica discriminar quem paga a conta da crise. O segundo plano de disputa está relacionado às estratégias de confrontação da crise: o que deve ser feito? Por um lado, aos Intelectuais a solução da crise passa

38

por garantir as “conquistas sociais” por meio do Estado Integral: fortalecer a capacidade do Estado de induzir o desenvolvimento econômico e mediar os conflitos sociais; por outro, os Mediadores difundem a crença de que o desenvolvimento seria mais dinâmico com um Estado Mínimo: a solução passa por diminuir o perímetro de atuação da justiça, segurança e moeda. Assim, a disputa pelo passado transborda para o plano político na medida em que se costuma associar o PT a uma maior intervenção na economia e na vida social, enquanto o PSDB vincula-se a um Estado mais enxuto e com perfil mais regulamentador. A confusão surge do curto-circuito cognitivo de determinar se o Estado cria mais problemas ou soluções. A disputa pelo passado é importante porque ela projeta o futuro. O barulho nas redes sociais encobre a forma como Intelectuais e Mediadores moldam os fatos. É que Intelectuais e Mediadores têm mais compromisso teórico que prático com os fatos. Por isso preferem seguir mentindo para si mesmos e enganar a sociedade a abrir mão do monopólio na produção de informação. Afinal, o que está em jogo é a opinião pública e a popularidade de governo e oposição. Por isso, a redução da crise do Modelo de Regulação Política do social-desenvolvimento a uma oposição entre perdedores e ganhadores só adul-

tera os fatos. Neste contexto de “silêncios convenientes”, não somente somos constrangidos a asseverar essa falsa oposição, mas, sobretudo, negar que sabemos que ela é falsa. Essa necessidade ininterrupta de mentir para nós mesmos revela por que temos tanta dificuldade de aprendermos com nossos erros. Crises sempre misturam as coisas. Portanto, quanto mais complexa a crise, mais confusas se tornam as coisas. É que mais instáveis se revelam as formas de operação do MRP. Por isto que é tão difícil perceber a complementaridade nos jogos de oposições entre os Sem Governo e os Com Governo. A explosão da crise em janeiro de 2016, que coloriu o Brasil de Vermelho e Amarelo e inundou as redes sociais com as narrativas do Golpe e da Corrupção, refletem apenas a disputa pelo controle do Condomínio Estatal. E é por isto também que as soluções se polarizam e a radicalidade política aumenta. É que, nas crises, as diferenças entre constatações e desejos se diluem. A confusão é inevitável. Afinal, o aumento do questionamento intensifica as incertezas, e o reducionismo cognitivo e a falta de transitividade política colonizam a opinião pública. Daqui para frente nada que se faça será suficiente. Por isso o encontro com a realidade parece ser tão assustador.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


ENSAIO

Devido a problemas de visão, Adilson Rosa, 55 anos, se aposentou como pescador e hoje trabalha fazendo “bicos” nos estaleiros de Navegantes, arrumando barcos.

OS TRABALHADORES DO MAR UM ENSAIO FOTOGRÁFICO SOBRE O MAIOR TERMINAL PESQUEIRO DO PAÍS

Lucas Amorelli Certos temas nascem para o visual, e não necessariamente para a escrita, um suporte que se torna impotente quando comparado a imagens que falam por si mesmas. É o caso do maior terminal pesqueiro do Brasil, no litoral de Santa Catarina, responsável pela captura de 180 mil toneladas de pescado por ano. Ao longo de três meses, o repórter fotográfico Lucas Amorelli acompanhou o dia a dia de pescadores que atuam na faixa litorânea demarcada entre o norte do Rio de Janeiro e a fronteira com o Uruguai. A última etapa da cobertura aconteceu

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

numa viagem a alto mar com 11 pescadores empenhados na pesca da sardinha, uma cultura importante para o polo pesqueiro catarinense se considerarmos que, no Brasil, 80% da produção de sardinha passa pelas mãos dos trabalhadores locais. O resultado da reportagem está nas páginas a seguir, um ensaio fotográfico que ultrapassou fronteiras e circulou pelo mundo. A foto acima, por exemplo, foi publicada no jornal britânico The Guardian.

39


Muitos dos estaleiros às margens do Rio Itajaí-açu são empresas familiares. Devido à crise, os pescadores consertam seus antigos barcos para economizar.

Os pescadores se organizam para guardar a rede do modo correto, já preparando o próximo lance.

40

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Pescadores enfrentam o mau tempo e o balanço do mar para recolher a rede para a pesca da sardinha, que mede mais de 1km de comprimento.

Pode-se dizer que Santa Catarina faz a pesca mais sustentável do país. As frotas passam a quilômetros das áreas com espécies ameaçadas de extinção.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

41


Depois de dias em alto mar, o trabalho duro dos pescadores ainda não acabou. Eles são responsáveis por descarregar o barco, trabalho que dura quase todo um dia.

A sardinha é o principal pescado de Santa Catarina, somando 80% da produção nacional e impulsionando a economia pesqueira do estado.

42

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


A mão de obra qualificada é um diferêncial de Santa Catarina. Os pescadores trabalham em equipes disciplinadas. Até o cozinheiro ajuda na pesca.

Itajaí conta com a maior empresa de enlatados do mundo, com capacidade de produzir 1,5 milhão de latas por dia.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

43


DIVERSIDADE

NEGRICE, NEGRITUDE, NEGRITICE...

José Endoença Martins

UMA TRÍADE QUE NOS AJUDA A COMPREENDER A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA AFRODESCENDENTE

A

o preferir o conceito de “literatura afro-brasileira” ao de “literatura negra”, o crítico literário brasileiro Eduardo de Assis Duarte informa que sua preferência se deve ao fato de o segundo termo admitir mescla cultural, hibridização étnica e linguística e sincretismo religioso. Chega, inclusive, a propor que, sob tal conceito, se incluiriam textos negros de autores brancos. Seriam os casos, só para ficar em dois, das peças de teatro Pedro Mico, de Antonio Callado, e Anjo Negro, de Nelson Rodrigues. O autor avança um pouco mais e enumera os cinco elementos de que se vale para avaliar a literatura afro-brasileira criticamente: temática, autoria, ponto de vista, linguagem e público. Aqui, estes breves comentários que, em seguida, pretendo desenvolver também se aliam ao olhar criolizado que o crítico lança sobre a escrita de autores negros, não para validar a postura de Duarte, mas para adicionar um elemento a mais aos cinco elencados por ele: Negritice. Primeiro, uma explicação sucinta sobre o termo. Da maneira como foi concebida para tratar da literatura afro-brasileira, Negritice é uma palavra composta por partes de outras duas, Negritude e Negrice (NEGRIT+ICE), que utilizo para examinar três atitudes distintas que personagens negros podem assumir na literatura afro-brasileira. São a busca de valores brancos, a afirmação de valores negros e a fusão de valores brancos e negros. Além de reducionistas em sua abrangência étnicocultural, as duas primeiras posturas atendem ao princípio maniqueísta de “ou nós ou eles”. Por seu valor plural, a terceira se

44

adequa, de maneira mais eficiente, à visão que Duarte adiciona ao termo “literatura afro-brasileira.” Da mesma maneira que Duarte abandona o reducionismo do termo “literatura negra”, me alio à pluralidade semântica do conceito “literatura afro-brasileira”. Pode-se medir a novidade da literatura afro-brasileira voltando-se o olhar para os três conceitos, negrice, negritude, negritice. A relevância conceitual dos termos diz respeito a três identidades e a três metáforas a eles associados. As identidades seriam assimilacionista, nacionalista e catalista. E as metáforas encampariam Ariel, Caliban e Exu. Ariel e Caliban são personagens da peça A Tempestade, de William Shakespeare. Os dois sujeitos colonizados — Ariel e Caliban — demonstram atitudes opostas em relação a Próspero, que chega ao Novo Mundo para se apropriar da ilha de Sycorax, mãe de Caliban. Ariel se coloca a serviço do colonizador europeu. Caliban se rebela contra o dominador, chegando a tentar matá-lo. Sobre o orixá Exu, veremos mais adiante. A relação entre os conceitos, as identidades e as metáforas funcionaria na forma de três tríades conceituais distintas: negrice-assimilação-Ariel, negritudenacionalismo-Caliban e negritice-catalismo-Exu. Imaginem uma narrativa ficcional negra — um conto — na qual três mulheres negras pautem suas vidas a partir de três identidades culturais distintas. As mulheres são Dee, Maggie e Mrs. Johnson, a mãe das duas jovens. Dee se comporta como a negra assimilacionista dos valores ocidentais da sociedade norte-americana.

Por isso pode ser analisada como representante da Negrice arielista. Maggie, ao contrário, se distingue da irmã Dee por sua determinação em referendar os valores negros associados a um par de colchas que permanece na família há algumas gerações. Assim, é possível caracterizar Maggie como a nacionalista negra que se apropria da Negritude calibanista. Por fim, a mãe, a senhora Johnson, logra desenvolver identidade plural, que contempla as identidades antagônicas das duas irmãs. A solução que apresenta ao conflito entre irmãs é dividir entre elas as colchas que existem na casa e, assim, manter as filhas por perto. Com essa atitude, simboliza a negritice exuísta. Dee, Maggie e Mrs. Johnson personificam a pluralidade da tripla tríade. Nessa condição de triplicidade, determinam o conto de Alice Walker como o espaço de Exu, como tentativa de diálogo entre Ariel e Caliban. Desta maneira inclusiva, o orixá empalma o presente, o passado e o que está por nascer. Ou seja, através do orixá, dois sempre pode conter três. Ou seja, Ariel e Caliban podem gerar um terceiro. Redimensionadas por Exu, as duas irmãs se replicam ou se multiplicam em textos de autores afrodescendentes por toda a diáspora negra. No Brasil, a literatura afro-brasileira ampara igualmente esta abordagem. À retomada da mesma modelagem analítica se ajusta a ideia de Signifyin(g) do crítico literário afro-americano Henry Louis Gates. Segundo o pensador, Signifyin(g) é vista como a metáfora através da qual um texto negro conversa, fala e dialoga com outro texto negro, escrito ante-

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Wikimedia Commons

Sinhazinha em liteira carregada por dois escravos trajando ternos e cartolas, um anacronismo já na segunda metade do século XIX, com as lutas políticas pela abolição.

riormente. Signifyin(g), assim, sugere que o primeiro texto negro em língua não-africana teve que se submeter ao peso do olhar branco ao recorrer a um texto ocidental para se firmar. Obteve-se, então, a primeira manifestação da Negrice, inevitável. Em seguida, livre da carga textual branca, o escritor negro conseguiu criar a textualidade negra que lhe interessava e a Negritude nasceu, então, como alternativa plausível à Negrice. O desempate ocorreu quando o escritor negro percebeu que a fusão das duas alternativas textuais podia redundar numa síntese produtiva e inclusiva. O resultado foi a Negritice.

N

egrice, Ariel e assimilação se beneficiam das energias intertextuais de Signifyin(g). Por isso, como primeira tríade conceitual, se volta à relação do personagem afro-brasileiro com o mundo branco. Trata-se de busca de valores ocidentais. A consulta a poema, teatro e ficção escritos por autores afro-brasileiros e euro-brasileiros procura dar conta dessa fixação do negro por valores brancos. Estes personagens reforçam o conceito Negrice, ao desenvolverem a identidade assimilacionista. Como Ariel, personagem de Shakespeare que auxilia o colonizador Próspero a dominar a ilha, provocando tempestades e colocando os inimigos do europeu a seus pés, o assimilacionista negro referendaria os valores ocidentais dos quais ele sente falta no mundo negro. Onde houver hegemonia ocidental é possível encontrar negros que, consciente ou inconscientemente, aderem à hegemonia branca e a assumem de forma generalizada.

A literatura afro-brasileira disponibiliza inúmeros casos de assimilação negra. Personagens e personae afrodescendentes brasileiros personificam o encontro com a branquidade. No romance Úrsula, a brasileira negra Maria Firmina dos Reis constrói o escravo Túlio de forma cristianizada que, ao salvar da morte certa um homem branco desconhecido, sente-se feliz e reconfortado pelas palavras de agradecimento do jovem branco. A narradora reflete este momento de realização cristã de Túlio: “era o primeiro branco que tão doces palavras lhe havia dirigido; e sua alma, ávida de uma outra alma que a compreendesse, transbordava agora de felicidade e de reconhecimento”. Na minha peça de teatro O Olho da Cor, a jovem afro-blumenauense Bertília também encontra seu modelo de branquidade germânica em Vera Fischer, a loura blumenauense que, em 1969, foi eleita Miss Brasil. Costureira nas tecelagens da cidade, Bertília vê a Miss representada em qualquer mulher galega da cidade e jura que “um dia seria igual a ela, teria olhos azuis. Iria fazer qualquer coisa para ter aqueles olhos azuis porque achava que a força, a coragem e a arrogância que ela mostrava, mas, especialmente, a beleza, vinham dos olhos e da cor deles”. No poema Uma Negra me Levou a Deus, do afro-brasileiro Solano Trindade, a persona poética assinala a investida do negro na religião dos brancos: De Bíblia na mão (...) Do rei Salomão Os cantares eu lia (...). Cheguei a Diácono Presbiteriano.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

A edificação literária da afrodescendência assimilacionista ou integracionista não é monopólio exclusivo de escritores afro-brasileiros, mas desperta interesses ficcionais, poéticos e dramatúrgicos entre autores eurodescendentes. A peça de teatro Anjo negro, de Nelson Rodrigues, projeta, por exemplo, o jovem negro Ismael como detentor de identidade assimilacionista. Médico, Ismael recorre ao casamento com a jovem branca Virgínia para catapultar sua ascensão social no mundo branco. Ismael adere à branquidade de Virgínia para dominá-la. A branquidade está circunscrita à mansão totalmente branca que constrói para o casal: Se eu quis viver aqui, se fiz estes muros; se juntei dinheiro, muito; se ninguém entra na minha casa (...) Se mandei abrir janelas muito altas, muito, foi para isso, para que você esquecesse, para que a memória morresse em você para sempre (...) Virgínia, olha para mim, assim! Eu fiz tudo isso para que só existisse eu. Compreende, agora? Não existe rosto nenhum, nenhum rosto branco! — só o meu, que é preto. Em arremate ligeiro, nos termos da abrangência teórica de Signifyin(g), o texto Anjo Negro dialoga com o poema Uma Negra me Levou a Deus, que conversa com O Olho da Cor, que significa sobre Úrsula. O deslocamento identitário permite que os textos construam uma rede sob a égide racial de negrice.

N

egritude, Nacionalismo e Caliban, igualmente, vão beber nas águas dialógicas da Signifyin(g). A segunda tríade conceitual se opõe à primei-

45


ra onde se encontram negrice, assimilação e Ariel. A oposição coloca a literatura afro-brasileira numa situação maniqueísta. De um lado, ficariam os assimilacionistas e sua adesão aos valores culturais ocidentais; do outro, se posicionariam os nacionalistas e sua afirmação dos valores de matriz africana. Negritude desafiaria negrice, o nacionalismo rechaçaria a assimilação e Caliban, diferente de Ariel, combateria Próspero em lugar de apoiá-lo, como faz o espírito que voa. O entusiasmo pela, a adesão à e a afirmação da cultura negra encontram-se no texto teatral do afro-brasileiro Abdias Nascimento. Em Sortilégio II, o advogado negro Emanuel se reconcilia com a Negritude, depois de anos de experiência de assimilação de valores brancos. Durante a conversão à Negritude, Emanuel anuncia que “sou um negro liberto da bondade. Liberto do medo. Liberto da caridade e da compaixão de vocês. Levem todos esses molambos civilizados brancos”. O poema Outra Negra me Levou à Macumba, de Solano Trindade, mais um afro-brasileiro, reafirma a ligação do negro com o mundo cultural da Negritude. No poema, a persona canta esta aproximação: Outra linda negra me levou à macumba no Xangô da Baiana da Praia da Pina.

Nos Cadernos Negros, importante aglutinador do movimento negro literário desde 1978, encontramos o poema Ressurgir das Cinzas, de Esmeralda Ribeiro, que, em seus versos, estabelece a filiação africanizada da persona da poeta. Ela enumera sua ancestralidade guerreira, marcada pela presença de mulheres negras que, em algum momento da história brasileira, deixaram suas marcas de luta em favor de afro-brasileiros. Por isso, o canto da guerreira é energia que se fortalece na ratificação da própria força: Sou guerreira como Luiza Malin, Sou inteligente como Lélia Gonzáles, Sou entusiasta como Carolina Maria de Jesus, Sou contemporânea como Firmina dos Reis. Sou herança de tantas outras ancestrais.

A identificação com valores negros também se encontra no romance Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Em dado momento da trama, a narradora realça a identificação racial entre a menina Ponciá e o avô com quem a neta viveu por pouco tempo. Quando começa a andar, a menina imita o caminhar do avô. “Ele andava encurvadinho com o rosto quase no chão”, conta a narradora para, logo a seguir, estabelecer comparação entre o andar da neta e o do velho avô:

46

Surpresa maior não foi pelo fato de a menina ter andado tão repentinamente, mas pelo modo. Andava com um dos braços escondido às costas e tinha a mãozinha fechada como se fosse cotó (...) Todos se assustavam. A mãe e a madrinha benziam-se (...) Só o pai aceitava. Só ele não espantou ao ver o braço quase cotó da menina. Só ele tomou como natural a parecença dela com o pai dele.

Onde houver hegemonia ocidental é possível encontrar negros que, consciente ou inconscientemente, aderem à hegemonia branca e a assumem de forma generalizada. Se admitimos, anteriormente, que a Negrice não seria uma prioridade exclusiva de personagens negros desenvolvidos por escritores afro-brasileiros, podemos, agora, recorrer também à contribuição de escritores brasileiros brancos para a exemplificação da Negritude de personagens negros. Na peça de teatro Pedro Mico, Antonio Callado associa a identidade nacionalista de Pedro Mico, personagem negro e protagonista, ao grande revolucionário negro Zumbi. A mulher e companheira explicita a identificação do personagem com o herói nacional, dizendo que “o troço do Zumbi foi lá em Alagoas. Só um cara que tem partes com o céu fazia o que você fez, bem. Eu garanto que você... Não sei não, Pedro. Acho que você é o Zumbi”. Em novo arremate ligeiro, podese realçar que Signifyin(g) deixa visível a rede dialógica que se estabelece a partir de Pedro Mico em conversa com Ponciá Vicêncio, deste em fala com Ressurgir das Cinzas, deste dialogando com Outra Negra me Levou à Macumba. Finalmente, este conversando com Sortilégio II.

P

or fim, negritice, catalismo e Exu também se solidificam através das postulações multitextuais de Signifyin(g). A terceira tríade conceitual procuraria conter a dicotomia que se estabelece entre as duas primeiras. Em algum momento, na tentativa de controlar os antagonismos culturais que os separam, assimilacionistas e nacionalistas teriam que estabelecer maneiras de desafiar suas diferenças culturais, raciais e identitárias. A oportunidade do encontro é patrocinada pelo orixá Exu, a deidade dos encontros, que abre as portas à comunicação. Diferentemente dos colonizados Ariel e Cali-

ban, produtos literários do bardo inglês, a Exu cabe a missão de aproximar o que está separado. Com ele, dois vai sempre redundar em três, para quebrar o binarismo redutor e antagônico. Agora, ao catalismo na literatura afro-brasileira. Antes, porém, é necessário dizer que todos nós, brancos e negros, carregamos Exu dentro de nós e, por isso, somos potencialmente capazes de ativar nossas identidades catalistas e, através delas, aproximar as pessoas, não distanciá-las. O catalismo é sempre reciprocidade consensual, negociada, nunca impositiva, entre brancos e negros. Na exemplificação que segue, vamos, inicialmente, perceber a reciprocidade catalista no romance A Cor da Ternura, de Geni Guimarães. Geni, personagem negra do romance, recém-formada professora, vai exercitar sua identidade catalista com a aluna branca que, no primeiro dia de aula, lhe diz que tem medo da professora negra. A negociação das duas personagens dura dias e chega à solução catalista pelo entendimento recíproco que vão construindo aos poucos. O diálogo harmônico entre a professora negra e a aluna branca sugere que o Exu catalista orienta as suas decisões de aproximação. A professora elogia o desenho da aluna, dizendo “Seu cachorro é uma graça”. A aluna branca reage, confidenciando: “amanhã eu vou trazer de lanche pão com manteiga de avião, a senhora gosta de lanche com manteiga de avião?” A minha peça de teatro O olho da cor hibridiza a Bertília negra com a Bertília branca numa única mulher. A ela cabe personificar a fusão das duas raças, fundindo as culturas alemã e negra em Blumenau, representadas pelo olho azul e negro. Suas palavras são claras neste sentido: “será que vou saber conviver comigo mesma? Com o meu olho azul sem furá-lo, quando for negra? Com meu olho negro sem desprezá-lo, quando for branca? Com os dois, quando as duas cores me cobrirem? Será que vou conseguir? Será que vou conseguir aceitar outras pessoas em iguais, ambíguas e múltiplas situações?” Vimos, quando da análise das identidades assimilacionistas e nacionalistas, que escritores brancos também patrocinam Negrice, como é o caso do negro Ismael de Nelson Rodrigues, e Negritude, como acontece com o Pedro Mico de Antônio Callado. No romance Brazil, John Updike realça as identidades catalistas do negro Tristão ao lado da jovem branca Isabel. O amor dos amantes é tão sublime e altruísta que permite que cada um se sacrifique pelo outro. Presos por indígenas no interior do Brasil, Tristão se deixa escravizar para que Isabel se mantenha viva. Tristão, “seu altivo amante”, vivia “acorrentado à interminável tarefa de escavar a frota de canoas de fundo chato com golpes

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Angela Radulescu/Divulgação

Prêmio Nobel de Literatura em 1993, a escritora norte-americana Toni Morrison é uma das vozes afrodescendentes mais expressivas do cenário atual.

de enxó cega” e era açoitado “para apressar o trabalho”. Por outro lado, enquanto o amante negro padece os horrores da escravidão, Isabel passa por sacrifício semelhante para livrá-lo do cativeiro indígena. Durante sete dias, sob a orientação de um Pagé e com o auxílio da magia indígena, ela passa pelo processo de ver seu corpo coberto com a cor negra de Tristão e transferir sua cor branca ao amante negro. O Pagé explica-lhe, então, que a troca de cor é um jogo de perda e ganho, dizendo que “a magia só pode transpor e substituir, como acontece com os adversários de um jogo. Quando uma coisa daqui é posta ali, alguma coisa dali deve ser posta aqui. Para todo ganho, há um sacrifício, em outra parte”. Neste derradeiro arremate ligeiro, sob os auspícios da negritice Signifyin(g), Brazil dialoga com O Olho da Cor que, por sua vez, conversa com A Cor da Ternura, tecendo os textos uma rede intertextual de repetição e diferença.

E

m forma de conclusão aos comentários até aqui desenvolvidos, gostaria de realçar que a instabilidade da significação identitária entre negros arielistas, calibanistas e exuístas marca, de maneira significativa, a mobilidade das identidades na afrodescendência brasileira. Os inúmeros personagens e personae negros assimilacionistas, nacionalistas e catalistas presentes na análise, a partir de vários textos poéticos, ficcionais e teatrais de autores brasileiros negros e brancos, atestam

tanto a multiplicidade complexa da experiência literária afro-brasileira quanto sua inclusão no campo teórico e prático da pós-colonialidade através da mobilidade identitária entre assimilação, nacionalismo e catalismo. Detentora de semelhante energia móvel, a afro-brasilidade literária se aproxima da visão de Homi Bhabha de que “os discursos pós-coloniais contemporâneos estão enraizados em histórias específicas de deslocamento cultural”. E racial, igualmente. A experiência pós-colonial negra brasileira embute também um fator inerente à dispersão intercultural e à tradução, algo que Bhabha descreve, sugerindo que “a cultura é tradutória porque essas histórias espaciais de deslocamento — agora acompanhadas pelas ambições territoriais das tecnologias ‘globais’ de mídia — tornam a questão de como a cultura significa, ou o que é significado por cultura, um assunto bastante complexo”. A perspectiva pós-colonial da junção entre mobilidade identitária e tradução questiona e desafia as limitações binárias dos antagonismos entre o mundo cultural do negro e o do branco para aí introduzir um terceiro elemento que tende a superar as restrições impostas pelo binarismo. Nos textos analisados, vimos, de um lado, como arielistas se opuseram a calibanistas, como assimilacionistas se distanciaram de nacionalistas. Do outro, percebemos as maneiras como exuístas negros e brancos compartilharam experiências, descortinamos os modos como

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

catalistas afro-descendentes e euro-descendentes hibridizaram posturas. No caso dos catalistas exuístas, a tradução se fez presente. A tradução ocorreu porque os negros e os brancos que se juntaram para resolver um problema comum — Geni e a menina branca, Bertília branca e Bertília negra, Tristão e Isabel — descobriram seus Exus. Henry Louis Gates esclarece que ações compartilhadas acontecem porque os personagens envolvidos percebem a presença de seus Exus. “Exu é a soma das partes, tanto quanto é aquilo que conecta as partes”, explica o crítico. Quando negros e brancos se separam, como fica demonstrado entre arielistas (Ariel, Túlio, Bertília, Ismael) e calibanistas (Caliban, Emanuel, Ponciá, Pedro Mico), a dicotomia revela a ausência de Exu na vida daqueles sujeitos negros e brancos. Henry Louis Gates explica a inexistência da tradução entre eles, dizendo que “uma pessoa que não tem um Exu em seu corpo não pode existir, nem sabe que está vivo”. Entre Ariel, Caliban e Exu — os significados étnico-raciais que contemplam — o negro brasileiro não precisa optar, mas crer que viver como afrodescendente é vida vária, que se arieliza, se calibaniza e se exuíza, sempre e alternadamente, na imitação, revisão, repetição e diferença. “A noção de diferença”, nos ensina Janet Paterson, “é fundamental para nossos processos cognitivos” e “nos permite construir o sentido do mundo” e de nós mesmos.

47


OPINIÃO

A VIRADA OFENSIVA D

urante mais de uma década, a narrativa de que o Brasil havia consolidado sua democracia através de um projeto político pautado na inclusão social e na eliminação da extrema pobreza ajudou a dar um norte e um sentido societal para o país. Até bem pouco tempo atrás, por exemplo, o sociólogo italiano Domenico de Masi escrevia que o Brasil era um lugar de “miscigenação, sincretismo, alegria, sensualidade, simpatia, acolhimento, solidariedade, esperança e beleza”. Estamos chegando ao fim de 2016 e parte desse Brasil reconhecido e elogiado por Domenico de Masi parece ter ficado no passado. No tocante à política nacional, um dos primeiros sinais públicos de que o bom humor estava mudando foi dado já na abertura da Copa do Mundo de 2014, em São Paulo, quando pela primeira vez se ouviram gritos de baixo calão contra a presidenta em exercício. O episódio serviu como estopim para uma série de outros acontecimentos futuros, que foram de xingamentos a artistas da MPB, como Chico Buarque, à perseguição de pessoas vestidas de vermelho pelas ruas dos grandes centros urbanos ou nas redes sociais virtuais, muitas acusadas — estranhamente — de “comunistas”. O fato é que, num intervalo relativamente curto de tempo, inúmeras pessoas no Brasil mergulharam num movimento de indignação, ódio e intolerância que deixou muita gente perplexa, revivendo no debate público um vocabulário pertencente à época da Guerra Fria. O desfecho desse clima de tensão, como todos sabem, ficou bem caracterizado pelo muro do impeachment, uma longa cerca de metal com dois metros de altura instalada no grama-

48

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


À DIREITA E A A “NEOCONS” Leonardo Brandão

NEOLIBERALISMO X ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL — E NÃO CAPITALISMO X COMUNISMO — SÃO OS CONCEITOS QUE REALMENTE ESTÃO EM JOGO NO DEBATE POLÍTICO ATUAL do em frente ao Congresso Nacional. O vergonhoso muro serviu para dividir os manifestantes favoráveis dos contrários ao impedimento da presidenta da República. Mas retornemos, por ora, ao início dos acontecimentos que acabaram por desestabilizar o governo. A questão é que, se os gritos contra a presidenta na abertura da Copa do Mundo foram emblemáticos, talvez não seja errado detectarmos certa movimentação já antes disso, com as manifestações de junho de 2013. Embora as chamadas “Jornadas de Junho” representem um movimento inicialmente protagonizado por uma maioria de jovens estudantes e trabalhadores de baixa renda, a princípio contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, não tardou para que as ruas fossem descobertas também por outros atores sociais, os quais passaram a agir sob outras demandas. De fato, o que presenciamos foi uma rápida e eficiente manipulação pela direita dessas manifestações, oferecendo às ruas um novo formato, novas pautas e, sobretudo, organizando a cena para que posteriormente outros setores da sociedade, em especial a classe média e média alta, ganhassem protagonismo e voz. Como escreveu o professor de História Contemporânea da Universidade Federal

Fluminense, Demian Melo, “a direita se misturou à massa popular e disputou a direção do processo com a ajuda preciosa da mídia, que elevou à enésima potência a histeria contra partidos de esquerda”.

A

pós a evidente polarização entre PT x PSDB que marcou as eleições presidenciais de 2014 (expressa também numa polarização entre esquerda x direita), e com a quarta vitória consecutiva de um mesmo projeto político, houve o crescimento de uma sensação de terceiro turno infindável motivada por aqueles que perderam as eleições. Isso ficou claro no inusitado pedido de recontagem dos votos e também na afirmação metaforicamente agressiva do senador Aloysio Nunes (PSDB), quando pronunciou que o que queria mesmo era ver a presidenta Dilma “sangrar”. Aos poucos, aparecia uma direita que se assumia enquanto tal. Antes mesmo das eleições presidenciais de 2014, por exemplo, a revista Caros Amigos (edição n. 215) já apresentava como manchete de capa os dizeres: “A direita sai do armário”. Na capa dessa edição, havia fotografias de alguns de seus maiores protagonistas: Reinaldo Azevedo (Veja), Rachel Sheherazade (Jornal do SBT),

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

Lobão (músico), Jair Bolsonaro (Deputado Federal à época pelo PP e militar de reserva), Marco Feliciano (Deputado Federal pelo PSC e pastor de uma igreja neopentecostal ligada à Assembleia de Deus) e Rodrigo Constantino (presidente do Instituto Liberal e na ocasião na revista Veja). Na reportagem de Caros Amigos também apareciam fotografias do Deputado Estadual Coronel Telhada (PSDB) e do escritor Olavo de Carvalho (que, através de vídeos postados na Internet, também havia declarado seu voto em Aécio Neves). Com o desenrolar das manifestações de rua (em especial a partir das de março/ abril de 2015), passou a ser relativamente fácil identificarmos reivindicações já bem distintas das que pautaram “junho de 2013”. Esse fato aponta para a assunção de outra série de pleitos no cenário político, mas agora não mais centrados na ampliação de direitos sociais ou em reivindicações progressistas como aquelas expressas na gratuidade ou na melhoria do transporte público. O que estava em jogo era o apoio — bastante seletivo — à Operação Lava-Jato e, em casos mais recentes, ao impeachment da presidenta reeleita nas urnas, muitas vezes acompanhados de pedidos de Intervenção Militar e até mesmo pela volta da Monarquia.

49


José Cruz - Agência Brasil

O começo do fim: na cerimônia de abertura da Copa do Mundo de 2014, vaias a Dilma Rousseff prenunciam mudanças no clima político do país.

Para além dos protestos anticorrupção, houve de tudo nessas manifestações contra o governo, desde vendedores de bandeiras do Brasil até discursos de torturadores da época da Ditadura Militar. Entretanto, uma coisa é certa, elas ficaram conhecidas como manifestações de direita. Pois em paralelo às manifestações desses que se vestiam de verde-amarelo, houve também numerosas manifestações dos setores que, apesar da crise econômica e do corte de gastos, eram favoráveis à manutenção da democracia e defendiam a soberania do voto popular.

Um dos primeiros sinais públicos de que o bom humor estava mudando foi dado já na abertura da Copa do Mundo de 2014, em São Paulo, quando pela primeira vez se ouviram gritos de baixo calão contra a presidenta em exercício.

É

importante destacarmos que essa escalada da direita não é um fenômeno apenas brasileiro. Ela vem aumentando seu protagonismo em diversas partes do mundo, em especial nos EUA (vide o movimento Tea Party ou a ascensão do candidato Donald Trump) e em alguns países da Europa. A questão que levantamos é que esse protagonismo pode representar, de um modo geral, aquilo que o geógrafo norte-americano David Harvey

50

compreendeu como a ofensiva “neocons”, isto é, a entrada em cena dos neoconservadores em sintonia com os neoliberais, o que resultaria num misto de conservadorismo nos costumes com a crença política na liberdade de mercado, no individualismo e na livre iniciativa. De acordo com Harvey, os “neocons” representam aqueles que, em geral, não se mobilizam por projetos de intervenção estatal que visam à diminuição das desigualdades sociais, sendo mais “favoráveis ao poder corporativo, à iniciativa privada e à restauração do poder de classe”. Deste modo, é interessante verificarmos que a postura “neocons” é compatível com o programa neoliberal, pois em ambos existe a preocupação com uma suposta “ordem” e também com uma suposta “moralidade”. Nas palavras desse autor, os “neocons” defendem “os valores morais centrados no nacionalismo, na retidão moral, no cristianismo, nos valores familiares e em questões de direito à vida”; mas, deste modo, ele assinala que há em muitos “neocons” um evidente “antagonismo a novos movimentos sociais como o feminismo, os direitos homossexuais, a ação afirmativa e o ambientalismo”. Assim, não é difícil percebermos que essa onda neoconservadora não visa ao aprofundamento da democracia e nem colabora com a luta dos menos favorecidos por justiça social. Adepta ao receituário neoliberal, a estratégia “neocons” está implicada com medidas que, pela redução do papel do Estado, podem prejudicar os direitos dos trabalhadores, das minorias, ou mesmo o avanço das políticas públicas que objetivam maior igualdade social e de gênero.

Os adeptos do pensamento neoliberal, de um modo geral, tendem a não ver o Estado como solução dos problemas, mas sim como seu causador. Em linhas gerais, o neoliberalismo é uma ideologia política que defende a mão invisível do mercado e critica o excesso de burocracia e a cobrança de altos impostos para manter serviços públicos. Como escreveu Alexandre de Freitas Barbosa, professor e pesquisador da área de História Econômica do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB – USP), para os neoliberais “as empresas estatais seriam, por natureza, ineficientes, e os serviços públicos, de baixa qualidade. Os neoliberais encaram a desigualdade como algo positivo, pois a concorrência deve selecionar os melhores e os mais capazes, deixando para trás os ‘incapazes’, numa espécie de darwinismo social”. Historicamente, o neoliberalismo surgiu como uma reação teórica e política à implementação do Estado de Bem-Estar Social na Europa (ver box na pág. 51) e, de modo mais brando, nos Estados Unidos (lugar onde, diferentemente de muitos países europeus, o Estado de Bem-Estar Social nunca chegou a existir em sua plenitude). Seu livro fundador foi escrito em 1944 por Friedrich Hayek, intitulado O Caminho da Servidão. Hayek o concebeu como uma crítica à planificação centralizada da economia e à intervenção política de um modo geral, pois acreditava que a Social-Democracia levaria os indivíduos a um estado de servidão. Assim, quando em 1947 são lançadas as bases do Estado de Bem-Estar Social na Europa, Hayek organizou, neste mesmo ano, uma reunião na estação de Mont Pèlerin, na Suíça. Surgia assim a chamada Sociedade de Mont

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Rovena Rosa - Agência Brasil

Diante do Pato da FIESP, que simboliza o peso dos impostos, multidões tomaram a Avenida Paulista para exigir a prisão de Lula e o impeachment de Dilma.

Pèlerin, composta por Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwig von Mises, Walter Eucken, Walter Lippmann, Michael Polanyi, Salvador de Madariaga, entre outros. Muitos de seus membros passaram a se reunir a cada dois anos, tendo por propósito maior, apesar de suas diferenças, pensar e projetar outro tipo de capitalismo que acreditavam possível, ligado basicamente ao livre-mercado, ao individualismo e à não-interferência estatal.

A direita se misturou à massa popular e disputou a direção do processo com a ajuda preciosa da mídia, que elevou à enésima potência a histeria contra partidos de esquerda. Na prática, essa ideologia política neoliberal foi um fenômeno que ficou evidente a partir do início da década de 1980, sobretudo com os governos de Margareth Thatcher na Grã-Bretanha (1979–1990) e de Ronald Reagan nos Estados Unidos (1981–1989). Tal aliança anglo-americana foi uma peça fundamental para o desmonte das políticas públicas orientadas em nome do Estado de Bem-Estar Social, marcando uma onda de direitização que percorreu grande parte do mundo, mas com raras exceções nos países escandinavos. Como escreveu o cientista político Andrew Heywood, o neoliberalismo fez parte de um projeto ideológico mais am-

plo de direita, que visou unir a economia do laissez-faire a uma filosofia social essencialmente conservadora.

N

o Brasil, o neoliberalismo foi acolhido primeiramente pelo presidente Fernando Collor de Mello (então no PRN), mas foi com os dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso que seu receituário foi aplicado de forma mais efetiva, o qual foi expresso, por exemplo, na privatização de um grande número de empresas públicas. Não obstante os méritos que alguns podem reconhecer na gestão de Cardoso, principalmente no que diz respeito ao controle da inflação, as privatizações que levou a cabo não representam um consenso, pois receberam inúmeras críticas de setores da academia, da esquerda, dos movimentos sociais etc. Na avaliação do filósofo Guilherme Boulos, por exemplo, a privatização “da Vale, da Telebrás e do setor elétrico foi um crime de lesa-pátria e levou a perdas financeiras inestimáveis”. Como sabemos, apesar das graves denúncias que envolveram alguns de seus membros, os governos do PT que se seguiram aos governos do PSDB trilharam um caminho um tanto quanto distinto do neoliberalismo (embora não tenham se oposto totalmente a ele), pois evidenciaram o papel do Estado como vetor do desenvolvimento, apostando em políticas educacionais e habitacionais, aumento real do salário mínimo, novas parcerias internacionais (Brics), expansão do crédito, economia solidária e ações afirmativas, como a Lei das Cotas (lei nº 12.711, de agosto de 2012). Sob os governos de Lula e Dilma, o país finalmente saiu do mapa da fome,

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

cumprindo com os objetivos do milênio fixados pela ONU e reduzindo o número de pessoas desnutridas em mais de 80%. Inúmeras Universidades e Institutos Federais foram criados (18 universidades públicas, 173 novos campi universitários e 422 IFES),

Estado de Bem-Estar Social? Denominamos Estado de Bem-Estar Social um tipo de organização econômica, social e política que se desenvolveu na Europa Ocidental nos trinta anos posteriores ao término da Segunda Guerra Mundial. O Estado de Bem-Estar Social pode ser caracterizado como um modelo de seguridade social que gerava inclusão através do desenvolvimento de políticas públicas, serviços e proteção à população. Sua base teórica foi formulada pelo economista britânico John Maynard Keynes, que defendia o estímulo à demanda e o aumento da produção e do emprego, aliados a maior intervenção estatal. Embora tal modelo de Estado não eliminasse por completo as contradições do capitalismo, ele ajudou a combater suas tensões, aumentando a qualidade de vida e integrando os trabalhadores como cidadãos, com direitos civis e políticos. O Estado de Bem-Estar Social demonstrou também uma propensão para a distribuição da riqueza e promoveu segurança social num contexto de industrialização e democracia de massas. Ainda hoje este modelo de Estado Social pode ser observado na maioria dos países escandinavos.

51


Junius/Divulgação

A Petrobras e o pré-sal: novo governo viabiliza projeto de lei que mudará as regras do jogo para a exploração do petróleo em território brasileiro.

além de muitos programas sociais que visaram levar melhores condições de vida aos mais pobres e necessitados, sendo o mais expressivo deles o Bolsa Família. No entanto, por erros de gestão e atingido pela crise do capitalismo que se iniciou nos Estados Unidos em 2008, pela queda no preço das commodities, sobretudo do petróleo, e pela desaceleração da China, esse projeto desenvolvimentista teve sua primeira grave crise logo após as eleições de 2014, o que influenciou, em parte, o rumo dos acontecimentos seguintes.

anticomunismo é estratégia extremada — ancorado no arcaico liberalismo conservador brasileiro, com fumos de fidalguia, as famosas raízes do Brasil, de origem ibérica e escravocrata — de resgatar o governo de compromissos populares quaisquer, mesmo quando estes compromissos, como no caso dos governos Lula e Dilma, sejam de fato os da inserção de massas no mercado de consumo e de trabalho, evidentemente pró-mercado, capitalista”.

tualmente vive-se no Brasil uma imensa crise política que vem acompanhada de uma esquizofrenia no debate público. Grande parte do debate feito nas ruas e nas redes sociais não se fundamenta, pois a disputa não está, em absoluto, entre os defensores do capitalismo e os defensores do comunismo, mas sim entre aqueles que defendem um estado mínimo capitalista e aqueles que defendem um estado de bem-estar social também capitalista. Deste modo, chamar agressivamente de “comunistas” aqueles que lutam pela manutenção da democracia, do bem-viver coletivo e do patrimônio público não faz o menor sentido, pois o século XXI não pode ser debatido nos moldes da Guerra Fria, e quem o faz nesses termos apenas demonstra anacronismo e falta de compreensão do que está em jogo. A esse respeito, por exemplo, o professor Tales Ab’Saber é taxativo: “o

No Brasil, o neoliberalismo foi acolhido primeiramente pelo presidente Collor, mas foi com os dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso que seu receituário foi aplicado de forma mais efetiva.

A

52

Para finalizar, é bom lembrar que entramos num período de incertezas e de muita angústia acerca dos rumos do país. Haverá um retorno ao neoliberalismo tal como experimentamos durante a década de 1990? Essa ofensiva neoconservadora resultará no futuro em sucesso eleitoral para além da chamada “bancada BBB” (Boi, Bíblia e Bala), chegando também ao

executivo? Por outro lado, se superada a crise econômica, será possível um novo pacto social para que o Brasil continue no rumo de uma modernização inclusiva e em busca de seu Estado de Bem-Estar Social? O futuro é incerto, as perguntas são muitas e as respostas poucas. Todavia, a interrupção do processo democrático em curso — que seus promotores classificam como impeachment, mas seus antagonistas percebem e denunciam como golpe — oferece um cenário dramático para o país. Recentemente, a editora Boitempo lançou o livro Por que gritamos Golpe?, uma coletânea com 30 autores que se posicionaram contra os ataques à democracia no Brasil. Cabe saber até que ponto essa virada à direita (feita sem a legitimidade das urnas) irá resistir à pressão dos movimentos sociais organizados, dos setores progressistas da intelectualidade, da classe artística e também de uma já propalada renovação das esquerdas. Com apreensão observamos as primeiras ações do governo Temer, sobretudo as que apontam para um desmonte do Estado (flexibilização da CLT, corte nos investimentos em saúde e educação, entre outros), para a promessa de um retorno explícito das privatizações e também para a possibilidade do projeto de lei que retira da Petrobras a exclusividade sobre a exploração do pré-sal — PL 4567/16. Tudo isso pode significar um ataque à soberania brasileira.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


QUEM VAI

PREENCHER O VÁCUO INFORMATIVO LOCAL?

Evandro de Assis

A CRISE DO JORNALISMO PODE LEVAR O SETOR A UM BECO SEM SAÍDA OU A UMA RENASCENÇA REVOLUCIONÁRIA

“Acidente complexo na curva da Praça do Estudante. Muito movimento de bombeiros, que estão tendo de cortar as ferragens. Parece ser apenas um carro que avançou e capotou, mas pela quantidade de ambulâncias deve ter envolvido mais pessoas”.

E

ra uma hora da madrugada quando o professor e consultor Marco Alan Rotta publicou esse texto on-line no Facebook acompanhado de quatro fotografias. As imagens mostravam ambulâncias, bombeiros e curiosos em torno dos destroços de um carro que capotara 20 minutos antes. Rotta saberia, no decorrer daquela sexta-feira, que o acidente seria o principal assunto do dia em Blumenau, cidade catarinense de 330 mil habitantes. A violência no trânsito mata mais de 40 mil pessoas por ano no Brasil, mas apesar da carnificina já banalizada, mortes causadas por colisões continuam sendo notícia em cidades pequenas e médias. Quando os passageiros do carro acidentado são jovens de 19 anos e o cenário é uma área central e conhecida da cidade, apinhada de universitários divertindo-se em bares e baladas, o caso em si transcende

à tragédia familiar para despertar discussões de relevância social. Natural, portanto, que o acidente chamasse a atenção da imprensa. Informações começaram a circular cedo nas rádios que mantêm programas jornalísticos. Pelo boletim diário da Guarda Municipal de Trânsito soube-se que a batida na Praça do Estudante matara a jovem motorista. Um rapaz fora levado ao hospital em estado delicado e duas garotas escaparam sem ferimentos graves. O automóvel havia batido num poste e numa árvore antes de capotar e parar num barranco. Entre 8h e 8h30min, cinco websites locais publicaram a notícia com exatamente as mesmas informações oficiais e imagens de baixa qualidade fornecidas pelo Corpo de Bombeiros, dentre eles o do Jornal de Santa Catarina, que mantém a maior equipe de jornalistas da cidade, e a Rádio Nereu Ramos AM, única emissora com programação majoritariamente jornalística e local. Os telejornais locais abordaram o tema ao meio-dia, sem grandes avanços na apuração. À noite, o mesmo Jornal de

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

Santa Catarina trouxe um breve perfil da vítima baseado em informações de uma professora e de uma amiga. Mesmo material publicado na versão impressa do dia seguinte. E foi só. Ao longo do fim de semana as conversas nas ruas desconectaram-se daquilo que a imprensa podia oferecer ao público. Os superficiais textos jornalísticos tratavam as causas do acidente como mistério, lacuna que os cidadãos se encarregaram de preencher com interpretações das mais variadas e imprecisas nas caixas de comentários dos sites e nas redes sociais. Havia outro veículo envolvido? Como o carro se perdeu na curva? De onde os jovens vinham e para onde iam? Era possível observar algum indício de imprudência? A Guarda produziu laudo da batida? As imagens das câmeras da Polícia Militar registraram o que ocorreu? As sobreviventes podiam fornecer alguma pista? Não houve resposta para nenhuma destas questões. O que ensaiava ser um relevante debate sobre a combinação perigosa entre juventude e trânsito na comunidade de Blumenau transformou-se em bate-boca improdutivo nas redes sociais.

53


Ruy Pratini

A sobreposição de telas transforma a maneira como interagimos com o mundo e exerce influência decisiva sobre o comportamento das novas gerações.

Ao jornalismo coube o papel mínimo, coadjuvante, de retransmitir informações oficiais. Nem é de se surpreender. Na redação do Jornal de Santa Catarina trabalham hoje metade dos 50 profissionais que davam expediente cinco anos atrás. As rádios locais preenchem a programação retransmitindo conteúdos de redes nacionais ou música, porque custa caro produzir jornalismo. As duas emissoras de TV transmitem pouco mais de uma hora cada de conteúdo local, e também vêm cortando custos. Até o canal educativo ligado à universidade desmobilizou o programa diário de notícias. Do outro lado, as iniciativas digitais em desenvolvimento ainda estão longe de compensar a cobertura jornalística reduzida.

U

m dos primeiros pesquisadores da internet, Nicholas Negroponte esteve no Rio Grande do Sul no início da década de 1990 para uma palestra aos executivos da RBS, maior rede de comunicação do sul do Brasil. O conselho que deu à família Sirotsky, proprietária da empresa, seria repetido em tom de piada pelos 20 anos seguintes em reuniões internas: — Vendam tudo! Negroponte disse aos gaúchos que o modelo das mídias de massa desapareceria, que internet e TV por assinatura transformariam o modo como as pessoas consomem informação e que jornais impressos deixariam de existir. A RBS não apenas manteve os títulos que possuía à época como comprou e criou novos em cidades catarinenses e gaúchas, decisões em parte estimuladas pelo ânimo econômico da década passada. Em 2014, quando o humor na indústria de jornais já era outro, o conselho de Negroponte ainda integrava o anedotário corporativo — a ponto de ser citado nas comemorações dos 50 anos de Zero Hora, maior diário da rede. Em defesa dos Sirotsky é preciso reconhecer que do lado de fora a análise não era diferente. Quem no mercado sugerisse que a RBS venderia parte da enorme estrutura de comunicação que construiu em

54

quase 60 anos passaria por desconectado da realidade. Mas foi o que aconteceu em março de 2016. A empresa desfez-se dos quatro jornais catarinenses e das emissoras de rádio e televisão espalhadas pelo Estado, movimento que ilustra a situação dos mercados regionais de comunicação. Se a família Sirotsky está redirecionando investimentos é porque o negócio de fato se tornou pouco interessante. Afinal, sua ligação com o setor é histórica e afetiva, bem diferente dos novos donos da RBS Santa Catarina, homens de fármacos (Carlos Sanchez) e bolsa de valores (Lírio Parisotto). Dentre os efeitos colaterais do processo de transformação estrutural do jornalismo ao modelo “pós-industrial” — conceito amplificado por um relatório de 2012 da Columbia Journalism Review sobre a crise na imprensa norte-americana — o vácuo informativo que começam a viver comunidades locais é um dos mais devastadores. Jornais, rádios e TVs locais enfrentam o derretimento das receitas com publicidade e classificados (drama estrutural agravado pela recessão econômica nacional) e têm menor margem para cortar custos sem reduzir seu jornalismo. Do outro lado, no mundo digital, veículos locais reúnem audiências de baixa escala, com limitado potencial de monetização via publicidade ou cobrança pelo conteúdo. Também faltam recursos para investir em tecnologia e testar novos modelos. Na prática, as empresas diminuem drasticamente de tamanho afetando qualidade e abrangência da cobertura jornalística, quando não fecham as portas. Encaixam-se neste contexto os veículos da RBS em Santa Catarina, vendidos por algo em torno de R$ 700 milhões — especulação não confirmada oficialmente, mas que dá ideia da perda de valor dos negócios em comunicação tradicional. Como base de comparação, em outubro de 2015 a instituição de ensino Uniasselvi foi vendida pela Kroton por R$ 1,1 bilhão. Nos Estados Unidos, 126 jornais deixaram de circular entre 2004 e 2014, a maioria deles de abrangência local e regional. Após um breve período de estabiliza-

ção no início desta década, 2015 foi o pior ano para a indústria de jornais desde a grande recessão de 1929, segundo o anuário State of the Media, do Pew Research Center. Televisões locais registraram queda de audiência e de receita. O mesmo relatório conta 20 mil empregos cortados em duas décadas nas redações do país. No Reino Unido, em longa análise sobre o estado da mídia local, o livro Local Journalism – The decline of newspapers and the rise of digital media, lançado em 2015, conclui não ser possível garantir que empresas jornalísticas de pequeno porte, online ou offline, continuarão existindo nos próximos anos. Tampouco há indícios de horizonte promissor para o imaturo mercado leitor brasileiro. Poucas cidades detém o luxo de jornais concorrendo em condições similares. Mesmo em metrópoles como Porto Alegre, o mercado está se concentrando de modo a inviabilizar a existência de uma segunda folha diária para concorrer com a líder Zero Hora — à parte os populares, como Diário Gaúcho, também da RBS. Em 2014, O Sul abandonou a versão impressa, enquanto o tradicionalíssimo Correio do Povo encolhe a olhos vistos. No Rio de Janeiro, desde a derrocada do Jornal do Brasil não há quem faça frente a O Globo. Interior adentro o cenário se dramatiza. Mossoró (RN), por exemplo, perdeu em janeiro deste ano dois dos três impressos que circulavam na cidade de 240 mil habitantes: O Mossoroense e Gazeta do Oeste. Inevitável questionar por quanto tempo o sobrevivente Jornal de Fato conseguirá permanecer em atividade. É iminente a possibilidade de cidades médias importantes não contarem com o trabalho regular de um jornal diário — ou de uma redação com ao menos uma dúzia de jornalistas para observar e discutir o cotidiano. A imprensa local declina silenciosamente e o espaço que deixa aberto nem de longe é ocupado pelas ainda incipientes iniciativas nativas digitais, cuja estrutura limita a quantidade de temas abordados e a profundidade das coberturas jornalísticas.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


O

campos brancos na Serra e informaram que Florianópolis amanheceu gelada. Sobre Blumenau, nada. Muito mais nocivo, porém, é o vácuo de informação que não se consegue perceber. Se é nítida a falta de energia nas redações para cobrir temas cotidianos como trânsito e clima, o que esperar, por exemplo, do conteúdo jornalístico sobre a CPI em andamento na Câmara de Vereadores de Blumenau para investigar o vice-prefeito? Há jornalistas em bom número prestando atenção ao assunto? A comunidade está suficientemente informada sobre as denúncias e suas motivações? Os interesses envolvidos estão esclarecidos? Há cada vez menos jornalistas para fiscalizar o trabalho das mais de 5 mil prefeituras e câmaras de vereadores brasileiras, acompanhar processos e julgamentos das comarcas locais, observar as atividades das forças de segurança, apontar bons e maus exemplos de atuação empresarial; isso sem falar do engajamento comunitário, dos vínculos culturais e afetivos. Em outras palavras, há menor fiscalização sobre os atos do poder público, menos gente para denunciar injustiças e reduzidas iniciativas de coesão social.

P

esquisadores de áreas diversas das ciências sociais reconhecem os meios de comunicação como protagonistas do ambiente democrático, ainda que expostos a interesses pouco republicanos de atores políticos e econômicos. Se concordarmos que o jornalismo local — mesmo reconhecidas as imperfeições, distorções, influências indevidas e erros observados por pesquisadores, críticos e público — é um serviço essencial, de interesse social, a

sociedade brasileira tem um tema urgente a discutir. Há evidências empíricas de cidades americanas que registraram maior abstenção eleitoral e menor participação dos cidadãos em conselhos comunitários e associações escolares após o fechamento dos jornais locais. O que fica em seu lugar, até o momento, demonstra ser insuficiente para substituir veículos jornalísticos no papel que desempenharam até aqui. Por mais atrativo que seja o discurso em torno do potencial democratizante das mídias sociais, que permitiram a qualquer cidadão criar e divulgar as próprias narrativas, sozinhas elas não têm sido eficazes na tarefa de fortalecer as comunidades e promover debates consistentes. Bolhas informativas geradas por algoritmos editores, que entregam ao usuário somente aquilo que já faz parte do seu círculo de interesses, mais têm afastado do que aproximado indivíduos. Comum no início deste século, a previsão de que qualquer um poderia ser jornalista, inviabilizando a profissão, nem de perto se concretizou. Jornalistas continuam produzindo a maior parte do conteúdo que gera audiência e debates nas mídias sociais e pesquisas recentes insistem em demonstrar que o público escolhe o que vai ler com base na credibilidade de quem originou as informações. Nunca tivemos tanta informação disponível, inclusive sobre as comunidades em que vivemos, e nunca o vácuo informativo se mostrou tão contundente. Sem contexto, significação, hierarquia e organização, informações são agulhas no palheiro, de pouco valor para as pessoas e nenhum potencial de melhorar a vida nas comunidades. Rodrigo Ramirez

exemplo do acidente em Blumenau fornece pistas do impacto imposto pelo vácuo informativo aos leitores, o principal deles a gritante dependência de fontes oficiais que gera superficialidade e desinformação. Numa rotina em que têm tarefas demais e tempo de menos para executá-las, jornalistas satisfazem-se com o que recebem de autoridades (como a Guarda de Trânsito), restringem a apuração ao caminho mais fácil e rápido (publicações em redes sociais) e abandonam a pauta tão logo uma demanda nova surge. O jornalista, assim, resigna-se numa função notarial das notícias, um cartorário que carimba informações de baixo valor ou já conhecidas do público. No episódio específico, a imprensa engavetou o acidente já no sábado, quando espalhouse o boato de que o garoto hospitalizado também havia morrido — ele faleceria na quarta-feira seguinte, fato que mereceria registros sucintos. Há outros efeitos visíveis do enfraquecimento do jornalismo regional, como releases de assessorias de imprensa publicados na íntegra, reportagens declaratórias baseadas em frases de autoridades, relatórios policiais transformados em notícia, lacunas de apuração óbvias mesmo para leigos, redução quantitativa de material local entregue aos leitores e aumento do volume de conteúdo oferecido por redes e agências de notícias para preencher páginas ou grades de programação. Nem a previsão do tempo escapa ao vácuo informativo. Procure na internet qual foi a temperatura mínima registrada em Blumenau no dia 12 de junho, quando Santa Catarina vivia uma onda de frio recorde. Veículos locais repercutiram imagens dos

A venda das operações da RBS em Santa Catarina é um sintoma de que a forma tradicional de fazer e vender jornalismo está se exaurindo.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

55


Wikimedia Commons

“Vendam tudo!” Foi o conselho que o teórico da comunicação Nicholas Negroponte deu aos proprietários do Grupo RBS no principio dos anos 90.

M

arco Alan Rota publicou primeiro a notícia do acidente em Blumenau, fez boas fotos e percebeu antes a gravidade da batida. Não poderia ir muito além disso, porém. Em primeiro lugar, porque não é remunerado para fazer jornalismo e tem os próprios compromissos a cuidar ao invés de prosseguir numa apuração. Segundo, porque não foi treinado para lidar com dilemas éticos e editoriais, que fatalmente surgiriam caso a investigação continuasse. Terceiro, porque a distribuição do conteúdo produzido ficou restrita ao círculo de contatos do autor no Facebook, reduzindo as chances de colaboração com jornalistas profissionais ou outras testemunhas do acidente. Imaginemos por um instante que ao menos outras cinco testemunhas do acidente em Blumenau seguissem o exemplo do professor e relatassem o que presenciaram. E se, diferentemente do que ocorreu, jornalistas conquistassem acesso direto a estas fontes em potencial e recolhessem pontos de vista cujo conteúdo pudesse ser comparado, confrontado e contextualizado com as informações oficiais da Guarda de Trânsito? Há uma energia informativa em franco desenvolvimento em redes sociais da internet como Facebook, Twitter, Instagram, YouTube e Snapchat. Falta quem modere, organize, hierarquize, ponha em contexto e ajude a disseminar as informações compartilhadas. Nos Estados Unidos, há pelo menos 10 anos jornais recorrem a parcerias com cidadãos para produzir jornalismo mais autêntico, ainda que cortem custos nas redações. Alguns, como The Rapidian, da cidade de Grand Rapids, Michigan, têm programas específicos de treinamento de leitores-repórteres e permitem até mesmo

56

a publicação direta, sem edição. Iniciativas de jornalistas como Andy Carvin, que cobriu à distância e via Twitter os eventos da Primavera Árabe, apontam caminhos para um esforço de colaboração entre profissionais e amadores.

N

um debate em São Paulo quatro anos atrás, o veterano Bill Kovach, co-autor do célebre Os Elementos do Jornalismo, provocou executivos de mídia e editores a criar novas maneiras de interagir com o público e permitir que participe ativamente da produção de conteúdo jornalístico. Kovach esteve diretamente envolvido no projeto Public Insight Network, da rede pública de rádios norte-americana NPR, que cadastrou 224 mil cidadãos dos Estados Unidos interessados em contribuir como fontes para reportagens jornalísticas e se transformou num marco de sucesso da colaboração entre jornalistas e cidadãos. Com os dados de todas estas pessoas devidamente organizados, os jornalistas têm à mão um banco de fontes enorme, e que é provocado diariamente com questões num ambiente semelhante a uma rede social digital. O projeto deu tão certo que dezenas de organizações jornalísticas tradicionais se tornaram parceiras, tendo acesso ao banco de dados para consultar a inteligência da multidão. No Brasil, Carlos Castilho, editor do Observatório da Imprensa e pesquisador do jornalismo feito em parceria com os leitores, defende a proximidade de veículos locais com o que chama de “comunidades de informantes”, uma estratégia para tornar o conteúdo mais autêntico e conectado à realidade das pessoas. A estratégia tem uma série de vantagens. Do ponto de vista da democracia,

mais cidadãos se engajariam em questões de interesse público e encontrariam campo aberto para participar das decisões coletivas. Numa visão empresarial, a colaboração reduz custos com a produção de informações, especialmente com aquilo que é commodity e não depende do envolvimento direto de um profissional. Maus empresários e maus jornalistas podem enxergar nesse debate apenas uma maneira de explorar mão de obra barata (ou gratuita), mas há uma boa parte do trabalho jornalístico que pode, sim, ser feita sem jornalistas profissionais. Se a Era Industrial massificou o jornalismo e o transformou em quarto poder, também dispersou sua função central. Jornais dedicaram-se ao entretenimento, à educação e ao serviço, conteúdos sem conexão direta com a função de arena pública e guardião da democracia que elevou o jornalismo a elemento basilar das sociedades modernas. No momento em que a plataforma econômica que sustenta a indústria jornalística se desfaz, uma volta aos básicos se impõe para preservar aquilo que é mais caro à profissão e à sociedade. O ecossistema de mídia pós-industrializado reaviva aspectos que historicamente legitimaram a atividade desde o Iluminismo. Talvez esteja aí a solução para viabilizar economicamente pequenas redações em cidades como Blumenau ou Mossoró, mesmo com receitas muito menores do que no passado. Há um jornalismo novo a ser construído para se reverter o crescimento do vácuo informativo em âmbito local. Provavelmente mais complexo, imerso em mais e maiores dilemas éticos e, pelo menos até agora, sem garantia de viabilidade econômica. Se os jornalistas não se ocuparem dele, alguém o fará.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


RELIGIÃO

O Estado Laico é Sagrado! Josué de Souza

Valter Campanato - Agência Brasil

COMO E POR QUE A BANCADA EVANGÉLICA SE TORNOU DECISIVA NO JOGO POLÍTICO BRASILEIRO

Um dos mais poderosos líderes religiosos do Brasil, Silas Malafaia tornou-se famoso por suas declarações contra o aborto e os homossexuais.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

57


A

se deputado estadual paulista pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Apesar de ter um representante no MDB durante o período da ditadura militar (1964-1985), o posicionamento dos evangélicos, em especial dos pentecostais, foi de silêncio quando não de completa subserviência. Porém, nesse período, há dois fenômenos de participação política entre os evangélicos: (1) a participação dos assembleianos e batistas nas Ligas Camponesas em Pernambuco e (2) a participação dos irmãos presbiterianos Paulo e Jaime Wright na organização de trabalhadores metalúrgicos e da cooperativa de pescadores em Santa Catarina.

O fundador da Igreja O Brasil para Cristo (IBC), Manoel de Melo, aproximou-se da política paulista, sobretudo do governador Ademar de Barros, hoje lembrado pelo lema “rouba mas faz”. É apenas no cenário da Constituição de 1988 que os pentecostais se inserem definitivamente na esfera política com a “bancada evangélica”. Uma bancada que tinha como características a crença de uma predisposição divina para seus atos e discursos, a independência frente aos partidos políticos e o voto coeso conforme a orientação da “bancada”. Ainda nesse período, especificamente durante o governo Sarney, a bancada evangélica trocava apoio ao governo por concessões de rádios.

Na eleição de 1994, os pentecostais apoiaram a candidatura de Fernando Henrique Cardoso para a presidência. Segundo a professora Beatriz Muniz de Souza, membro do grupo de pesquisadores do CEBRAP, o candidato do PSDB ouvia os conselhos de Manoel de Melo a respeito de como deveria pedir votos aos “crentes”. Segundo a professora, “era possível o voto dos crentes, desde que as propostas não tangenciassem as ideias dos comunistas”. A militância contou até com o engajamento pessoal do presidente da Assembleia de Deus no Brasil, José Wellington Bezerra da Costa. Nos cultos da Assembleia de Deus em Belenzinho (SP), Costa alertava que fiéis deveriam estar atentos para saber a diferença entre esquerda e direita.

M

as foi só em 2002 que os evangélicos foram ter, pela primeira vez, um candidato a presidente, Anthony Garotinho. Ele foi o terceiro colocado da disputa eleitoral, com cerca de 17,86% dos votos, ficando atrás apenas de José Serra e Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o sociólogo Ricardo Mariano, Garotinho recebeu 51% dos votos dos evangélicos. Somente 6% dos católicos votaram nele. Naquele ano, porém, Lula contou com o apoio de José Alencar, que era garantia de aliança com setores do empresariado nacional e com a Igreja Universal do Reino de Deus. Outro aliado na eleição de Lula em 2002 foi o controverso pastor Silas Malafaia. Apesar de parte das direções das igrejas evangélicas apoiar José Serra, muitos pastores optaram pelo candida-

Fabio Rodrigues Pozzebom - Agência Brasil

atuação da bancada evangélica durante a sessão de admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff mostra que os evangélicos se transformaram numa força política efetiva e com capacidade real de interferência nos rumos nacionais. Compreender o caminho histórico percorrido por esse grupo, no que se refere a sua inserção na esfera política nacional, é, cada vez mais, caminho de passagem para compreender a cultura política contemporânea do Brasil. O protagonismo evangélico chama atenção sobretudo porque esse grupo já foi marcado por um ethos de verdadeiro afastamento de qualquer comportamento político partidário, sendo isso, inclusive, fator de orgulho para seus fundadores. Aos poucos, os evangélicos foram mudando de perfil até se tornarem uma força importante na arena política nacional. O fundador da Igreja Evangélica Assembleia de Deus (IEAD), o sueco Gunnar Vigren, orgulhava-se de ter pedido demissão de um emprego, ainda quando residia nos Estados Unidos, pelo fato de que fora obrigado a sindicalizar-se. Nesse sentido, a atitude de sectarismo em relação ao mundo irá produzir o efeito de alheamento político dos pentecostais dos primeiros anos. Esta atitude começou a modificar-se, ainda que timidamente, na década de 50. Neste período, o fundador da Igreja O Brasil para Cristo (IBC), Manoel de Melo, aproximou-se da política paulista, sobretudo do governador Ademar de Barros, hoje lembrado pelo lema “rouba mas faz”. O cientista social Oneide Bobsin aponta que o objetivo dessa aproximação era buscar financiamento para a construção de um templo. Vale destacar que, mais tarde, Manoel de Melo elegeu-

O pastor evangélico Marco Feliciano, deputado federal por São Paulo, não parece ver problemas em mudar de lado e se aliar a políticos de tendências opostas.

58

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Renato Araujo - Agência Brasil

As bancadas evangélicas costumam atuar com unidade e veemência, manifestando receituários liberais em economia e conservadores em costumes.

to do Partido dos Trabalhadores. Depois de Lula eleito, Silas Malafaia fez parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico do primeiro governo petista.

A

eleição presidencial de 2010 foi marcada pela presença das questões religiosas na campanha. A agenda religiosa tornou-se primazia nos debates, interferindo nos discursos dos candidatos e no rumo da campanha presidencial. Os dois principais candidatos — José Serra e Dilma Rousseff — pautaramse pela opinião dos líderes evangélicos, muitas vezes voltando atrás em posicionamentos historicamente assumidos por seus partidos. A evangélica Marina Silva, do Partido Verde, foi candidata a presidente e conseguiu 20% dos votos. Durante a campanha eleitoral, ela evitou usar o fato de ser integrante da Assembleia de Deus. Tal postura provocou críticas por parte de algumas lideranças evangélicas. Um exemplo disso foi o Pastor Silas Malafaia, que retirou o apoio à candidata após ela hesitar diante da agenda pentecostal contra o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a regulamentação do uso da maconha. Durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, a interferência de religiosos em temas políticos tornou-se moeda de troca nas esferas do governo. O sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira, na época, afirmou que o governo Dilma deixou-se enredar pelas lideranças religiosas, que usaram a “chantagem” para imobilizar o governo. Esse comportamento ficou evidente em diversos momentos nos quais a bancada evangélica uniu-se à bancada ruralista para pressionar o Governo Federal. Exemplos disso foram as mudanças do código

florestal e a erradicação da distribuição do material pedagógico criado pelo Ministério da Educação em combate à homofobia — material que ficou conhecido como “Kit Gay”. No primeiro governo Dilma, as duas bancadas na Câmara representavam 170 votos, cerca de 33% do parlamento, exatamente o dobro que a bancada do PT possuía.

A presença do ativismo político religioso acontece em um cenário de enfraquecimento dos partidos políticos e dos mecanismos tradicionais de participação. Outro fato político que colocou a bancada evangélica em evidência foi a escolha do deputado e pastor da Assembleia de Deus, Marcos Feliciano, do Partido Social Cristão, de São Paulo, para a Presidência da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Feliciano é uma figura controversa, seja na política ou na carreira ministerial. O pastor é uma espécie de pop-star dos sermões, dentro da esfera religiosa pentecostal, caracterizado por pregações eloquentes e polêmicas. Em 2008, organizou sua própria igreja, a Assembleia de Deus do Avivamento. Elegeu-se deputado federal em 2010 com 211.855 votos, sendo o segundo mais votado do Estado de São Paulo. Ficou atrás apenas do fenômeno Tiririca, que se candidatou pelo PR. Até a sua eleição para a Comissão de Direitos Humanos, Feliciano exercia o seu mandato sem chamar atenção. Mas a

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

ascensão à presidência da comissão colocou o deputado em rota de choque com os movimentos sociais. A própria Anistia Internacional solicitou a saída do deputado da presidência da comissão. A oposição ao Deputado se deu por uma série de declarações de cunho racista e homofóbico proferidas por ele e publicadas pela mídia. A bandeira de Feliciano na Câmara dos Deputados, entre outras, é a limitação de um divórcio por pessoa. A medida seria uma forma de garantir a sobrevivência do modelo tradicional de família.

N

a corrida eleitoral de 2014, os evangélicos tiveram dois candidatos a presidente: Marina Silva, que novamente buscou manter distância da agenda religiosa, e o Pastor Everaldo, do PSC, que assumiu postura como representante dos evangélicos. Marina Silva praticamente repetiu a votação de 2010, agora com 21%, enquanto o Pastor Everaldo teve menos de 1% dos votos. O resultado de 2014 demonstra que, se nas eleições para o legislativo o crescimento da presença de parlamentares identificados com a militância religiosa é evidente, na eleição para o executivo parece que o mecanismo não tem sido eficaz para eleger sozinho um candidato. Segundo Ricardo Mariano, o “curral eleitoral” religioso não consegue eleger um presidente evangélico porque as divisões denominacionais transformam-se em divisões políticas durante o período eleitoral. O segundo turno das eleições presidenciais de 2014 dividiu não só o país, mas também os evangélicos. Em São Paulo, Marcos Feliciano, que apoiou Dilma em 2010, estava buscando votos para Aécio Neves. No Rio de Janeiro, Eduardo Cunha, do PMDB, não só apoiava como “apresentava” Dilma nos cultos evangélicos.

59


Reprodução de Vídeo/Youtube

Historicamente fora da política institucional, os evangélicos chegaram a Brasília pelas mãos dos clientelismo religioso — e é lá que pretendem ficar.

O

aprofundamento da crise política e a Operação Lava Jato chegaram não somente ao Palácio do Planalto como também à bancada evangélica. O processo de impeachment de Dilma Rousseff foi conduzido por ninguém menos que Eduardo Cunha, ex-aliado do governo e acusado de usar uma Igreja Evangélica para receber propina. Mais recentemente, a bancada evangélica teve um papel central na arena política, não apenas pela articulação do processo de impeachment como pelas “bênçãos” dadas ao novo governo. Não por acaso, Michel Temer recebeu o Pastor Silas Malafaia e uma comissão de pastores e deputados evangélicos na semana em que a admissibilidade do processo de impeachment seria votada na Câmara dos Deputados. Semanas antes, Temer já havia aparecido em um vídeo gravado ao lado de Marcos Feliciano e exibido em um Congresso Pentecostal em Camboriú (SC). No vídeo, Temer identifica-se como religioso e pede orações pelo Brasil. Logo nos primeiros dias de governo, Temer tentou entregar o Ministério de Ciências e Tecnologia a um bispo licenciado da Igreja Universal, fato que despertou a oposição da comunidade científica brasileira. No ministério, Temer ainda conta com a evangélica Fátima Pelaes, secretária de Políticas para Mulheres, ex-deputada federal que possui um perfil conservador em relação ao direitos das mulheres, sobretudo em relação à regulamentação do aborto.

60

D

e olho nas eleições de 2018, o Partido Social Cristão, que é presidido pelo Pastor Everaldo, já filiou o deputado de extrema direita Jair Bolsonaro, do Rio de Janeiro. Como estratégia de marketing, Bolsonaro foi batizar-se na fé evangélica em Israel, um lugar cheio de simbolismo na teologia pentecostal.

O governo Dilma deixou-se enredar pelas lideranças religiosas, que usaram a “chantagem” para imobilizar o governo. A presença do ativismo político religioso acontece em um cenário de enfraquecimento dos partidos políticos e dos mecanismos tradicionais de participação. Nesse cenário, algumas lideranças evangélicas têm instrumentalizado a prática política, um fenômeno que despolitiza a atuação de seus agentes políticos, transformando-os em meros “despachantes” das instituições religiosas, além de abrir espaço para o envolvimento de parlamentares e lideranças evangélicas em casos de corrupção. Essa instrumentalização da política se dá de forma mútua, tanto por parte dos candidatos que veem nesse segmento uma forma fácil de conseguir votos, como dos pentecostais que buscam nesses aliados uma forma de imposição de seus valores

e interesses. Por outro lado, o enfraquecimento dos partidos políticos facilita a ascensão dos líderes evangélicos, que, num cenário de baixa mobilização política, transformam seus capitais religiosos em capital político. Com isso, reeditam o fenômeno do coronelismo eleitoral no Brasil. Outra característica que difere a bancada evangélica das expressões políticas tradicionais é a demonstração de que não são monopólio das forças que representam os partidos de esquerda ou de direita. Em sua bancada existem políticos de praticamente todas as agremiações partidárias, e o apoio desses grupos tornou-se objeto de desejo de todos os candidatos. É preciso lembrar que a atuação política instrumentalista e clientelista dos evangélicos não é uma invenção desse grupo, mas uma reedição de velhas práticas institucionais na história política brasileira. Por outro lado, segundo o censo de 2010, pentecostais são os brasileiros com o menor tempo de estudo e a menor renda: 64% residem nas periferias urbanas e são de famílias que ganham até um salário mínimo, 28% recebem entre um e três salários mínimos, 42% têm ensino fundamental incompleto. Em outros termos, formam um grupo social que historicamente esteve fora do jogo político institucional e que agora aparece pelas mãos do clientelismo religioso. A reação à participação desse grupo na vida política pode esconder, entre outras coisas, preconceito de classe, uma vez que, nesse momento, são os mais pobres do país. Mesmo que por vias tortas, manifestam o direito de se fazer ouvir.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


FICÇÃO

Miguel Sanches Neto

O Outro

Lado de

Kafka Miguel Sanches Neto é um dos nomes mais destacados da contemporaníssima literatura brasileira. Professor universitário e autor de vasta obra literária, acaba de publicar um novo romance, A Bíblia do Che, pela Companhia das Letras. “Ao Lado de Kafka” é um conto inédito em que Sanches Neto retrabalha os limites da biografia, da homenagem e da ficção.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

61


C

omeço esta palestra com uma confissão: não entendo nada de internet, mas meu assistente me disse que se eu colocar o nome do lugar de onde vim, Kierling, na cidade de Klosterneuberg, na Áustria, e pedir as imagens, só aparecem coisas relacionadas a Franz Kafka. Por favor, vocês, que são bem mais jovens do que eu, façam este teste e vejam se não estou equivocado. Kafka viveu em Kierling, se é que podemos usar o verbo viver, um curto período de tempo, entre 19 de abril e 2 de junho de 1924, e é hoje a maior referência local. Não é estranho isso? A presença de alguém durante pouco mais de um mês no povoado, sem andar pelas ruas nem pelos campos, foi suficiente para colocar minha terra natal no mapa. Quando esteve lá, ninguém sabia nada sobre ele, e Kafka não era ainda Kafka, ele foi se tornando ele próprio depois de morto, porque o que ele era estava nos seus escritos, e seus escritos não tinham sido totalmente publicados e os que haviam sido não contavam com muitos leitores. São os leitores que inventam o escritor, um escritor é uma criação do público. Assim, podemos chegar a uma primeira conclusão: quem esteve em meu povoado não foi Kafka, mas um antepassado literário seu. O homem que antecede um grande nome literário é sempre um parente remoto. Foi com ele que convivi, e foi ele que me inventou. Explico. Estou aqui hoje não porque vocês têm interesse em meus estudos sobre literatura sionista, e é bem provável que na plateia poucos sejam judeus. Estou aqui porque conheci Franz Kafka. No começo, fiquei com ciúmes dele, pois eu tinha uma obra crítica, muitos anos estudando e lecionando literatura, mas depois de falar a uma revista universitária obscura, dessas que a editora distribui em departamentos de Letras e ficam jogadas sobre as mesas das salas dos professores, passei a contar com alguma celebridade. É que na entrevista eu revelava meu encontro com Kafka. Comecei então a ser convidado para dar palestras. Na primeira de que participei, tentei situar meu autor dentro da moderna literatura sionista, e quando foi o momento da intervenção do público, só me perguntavam sobre o homem Franz Kafka: como estava a saúde dele, se eu achava sua última amada, Dora Diamant, atraente, o que ele comia, essas coisas. Percebi que meu papel era o de ligar os leitores de agora àquele mês fatídico. Faz mais de 20 anos que vivo de explorar aqueles poucos dias de convivência com o meu amigo tuberculoso. No final de minhas palestras, e aqui, nesta manhã, sei que acontecerá a mesma coisa, as pessoas me trazem livros dele e pedem para eu au-

62

tografar. Escrevo sempre, e já aviso para que não haja decepções: “com o abraço de K.”, abreviando dessa maneira o meu sobrenome, o que permite uma confusão mental no leitor. Vocês irão para casa hoje pensando que possuem um autógrafo autêntico de Kafka. E de certa maneira isso é verdade, pois seu corpo se mantém vivo em mim, em minha memória. Isso como que me dá uma procuração para assinar por ele. Desde que descobri que eu não era o professor de literatura sionista, apenas um duto humano entre as pessoas de hoje e o grande escritor, passei a sofrer menos. Meus livros nunca foram reeditados, ninguém pede autógrafos neles, porque estou aqui para dizer para vocês que, sim, EU-CONVIVI-COM-FRANZ-KAFKA.

O Sanatório tinha um elevador que precisava de uma quantidade absurda de energia para a época, exigindo um consumo exagerado que comprometia toda a distribuição no povoado. (Neste momento, a palestra do professor K. é interrompida por uma salva de palmas. As pessoas que estão no auditório se levantam e continuam aplaudindo por uns minutos. Depois, ouve-se aos poucos a sua voz, baixa, própria de um homem de 94 anos. Ficaram perdidas as primeiras palavras). ... sobre como soube dele pela primeira vez. Naquela época, em Kierling, a energia elétrica era muito precária. Usávamos quase só para a iluminação, e não havia os aparelhos domésticos. Isto é algo impensável hoje, mas sou de uma geração que dispensava as máquinas. Na noite de 19 de abril, líamos na sala de casa, e a lâmpada começou a piscar, ameaçando uma queda. Isso fez com que meus pais e eu parássemos a leitura, para esperar que a transmissão de energia se regularizasse. – Mais um tuberculoso chegando para morrer no Sanatório Hoffmann – disse meu pai. O Sanatório tinha um elevador que precisava de uma quantidade absurda de energia para a época, exigindo um consumo exagerado que comprometia toda a distribuição no povoado. Por um acordo qualquer, ou apenas para pagar menos, o Sanatório quase nunca usava este meio de acesso, apenas quando os

seus pacientes estavam num grau muito avançado da doença, sem forças para vencer os lances de escada até o seu apartamento num dos andares superiores. Soubemos depois que Kafka foi instalado no segundo andar, e que se encontrava mesmo muito enfraquecido. Quando faltava energia, todos em Kierling intuíam que um futuro cadáver se hospedava entre nós. Só não sabíamos que seria ele que nos daria renome internacional. O Sanatório Hoffmann não era um hospital de referência, havia outros muito melhores, e Kafka já passara por alguns. Por que então, num último lance, ele e Dora o escolheram? Acho que foi apenas para sofrer menos com os tratamentos, naquela crença — totalmente falsa — de que a vida em um povoado faria com que ele se recuperasse, mas na verdade só queriam viver em paz os últimos momentos. Estavam ali como em lua de mel. Demorou uns minutos, naquela noite, para a energia firmar novamente. Ainda hoje, todas as vezes que há quedas de energia, penso “Olha aí, Kafka está se hospedando no sanatório”. Esta ficou sendo a principal imagem dele para mim. E a literatura de Kafka continua produzindo essas quedas no consumo de energia, pois é isto que faz uma obra tão visceral. (Novas palmas para o professor K., que espera o total silêncio para voltar a falar.)

A

aprovação de vocês muito me lisonjeia, pois demonstra que uma metáfora crítica, nascida de meu conhecimento do homem Franz Kafka, pode explicar minimamente a sua obra. Outras raras vezes, naquele mês, as luzes piscariam, mas seria de dia, pois nosso hóspede talvez usasse o elevador para descer e depois subir ao quarto, quando tentava algum contato com a região. Isso nos incomodaria menos, poucos precisavam da eletricidade neste horário. Primeiro conheci Dora Diamant. Não era uma mulher bela, tinha algo de colona, e isso a ajustava muito bem ao nosso povoado. Kafka se voltava para o campo e na companhia de uma mulher com traços mais sólidos. A cabeleira, o rosto, o corpo com uma ossatura maior, pronto para ser preenchido pelas carnes. Era mais masculina do que ele, como eu constataria depois. Meu pai tinha uma carroça e eu fazia pequenos serviços no povoado, levar pessoas a certos lugares, passeios pelo campo, buscar um doente em alguma propriedade rural. No dia 20 de abril, não me esqueci da data porque era um domingo de Páscoa, apareceu em casa uma mulher morena, desconhecida. Ela não se apre-

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Dora Diamant, última namorada de Kafka.

sentou, foi logo falando: — Disseram que vocês têm uma carroça de aluguel. Ela era dez anos mais velha do que eu, e me perdoem a confidência, mas me senti atraído. Pelo menos penso hoje que me senti atraído por ela, porque quem, sabendo do sofrimento de Kafka, e como Dora cuidou dele, não se apaixonaria retroativamente por aquela mulher? Mas aquele meu primeiro interesse, eu quero crer, não tinha nada a ver com Kafka, porque Kafka ainda não existia, e devia ser fruto de um entusiasmo sexual adolescente; nesta idade, nos fascinamos por qualquer mulher desconhecida. — Sim, temos — falei, completando: — E está disponível. — Podemos fazer um passeio pelo campo hoje à tarde? — Sim — respondi com a boca seca. Vagar com ela pelas estradas, em contato com a natureza, era uma imagem doce ao extremo. Eu não sabia que teríamos mais um companheiro, e que a viagem seria para o casal, eu apenas conduziria o veículo. Combinamos o preço e o horário em que eu deveria estar na frente do Sanatório. Quando entrei, minha mãe estava preparando o almoço. — Acho que conheci a doente que chegou ontem — contei para ela. — Está muito debilitada? — Não — respondi, mas queria ter dito que ela era linda. Fui ao estábulo no fundo do quintal para arrumar a carroça, verificar os arreios. Logo depois do almoço, sairíamos. Tive que soltar as cintas que prendem o varal ao cavalo, pois havia apertado muito, numa tensão nascida da iminência de passear com uma mulher de fora, mesmo sabendo que ela talvez sofresse de tuberculose.

V

ocês podem imaginar a minha decepção quando ela chegou à porta do Sanatório na companhia de um fantasma, um homem muito magro, cabeça e orelhas grandes, enrolado em um cobertor. Não tive tempo para sofrer, pois na hora de subir à carroça, eu ainda no assento, ele quase caiu por lhe faltarem forças. Pulei para o chão, logo atrás dele, para socorrê-lo, mas ele dispensou minha ajuda com um movimento elegante de cabeça e, na segunda tentativa, conseguiu embarcar, não sem correr o risco de um tombo. Pude apoiar, cavalheirescamente, a minha contratante no momento em que ela se juntou ao seu parceiro. Não sabia nem seu nome ainda. Depois que me coloquei no meu lugar, rédeas na mão, vireime para eles, para me informar do destino do passeio. — Como o senhor se chama? — perguntei. Eu queria perguntar o que ele era daquela mulher, mas não tive coragem. — Kauka — ele respondeu, com muita dificuldade. Só depois eu saberia que a tuberculose havia tomado toda a sua laringe, e que ele não conseguia mais falar, pronunciando umas poucas palavras, com dificuldade. Tomava injeções nos nervos da laringe para diminuir o inchaço. — Eu sou a senhorita Dora Diamant. E este é meu noivo. Ela fingiu não perceber que seu noivo sequer conseguia dizer o próprio nome. Se ele tivesse conseguido isso, não mudaria muita coisa, pois poucos sabiam quem era Kafka. Para mim, existem dois, o Kauka, o homem magro de meia idade com quem convivi naquele período, e o Kafka, o autor dos livros que mudaram a literatura. — Para onde vamos? — Para onde o senhor quiser. Esco-

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

lha os lugares mais bonitos do campo. Ao me chamar de senhor, um menino de 14 anos, ela estava me dando uma importância que era também sexual. Ela me emancipava, deixando-me no mesmo nível de experiência deles. Bati com força no cavalo, que começou a andar. Percorremos primeiro o nosso povoado, e de vez em quando eu olhava para trás. Kauka e Dora fitavam sempre a mesma paisagem. E isso me revelou tudo. Eles se amavam. Eu era um intruso. Ao nos aproximarmos de um bosque, Dora pediu para eu parar. Ajudei-os a descer, e Kauka foi até uma árvore. Ele fazia um esforço muito grande para respirar. O cheiro de resina, de folhas, de matéria em decomposição, de flores silvestres, toda esta mistura devia atormentar profundamente o tuberculoso. Ele queria se afogar nos odores, mas não conseguia respirar direito. Pouco ar entrava em seus pulmões e este fluxo exigia muito esforço, eu vi seus olhos vermelhos, prontos para chorar, pois a garganta devia doer, mas ao mesmo tempo eles contemplavam amorosamente as árvores, os campos, e sentiam um enorme prazer. Kauka rezava com os olhos, respirava por eles, já que não podia fazê-lo pela laringe obstruída.

E

ntão tocou carinhosamente a árvore, como se ela pudesse se assustar e sair correndo pelo campo. Como ela não se moveu, e sentindo-se mais seguro, ele a abraçou. Era um abraço erótico e religioso. Como se ele precisasse da força daquela árvore de raízes profundas e tronco alto, querendo se prender a ela para que o vento ou uma enchente não o levasse. Ficou ali uns minutos, completamente entregue àquele abraço, o rosto contra o tronco áspero. Era a primeira árvore do bosque. Depois andamos um pouco em meio a outras, e na hora de ir embora, passando pela mesma árvore, ele parou e olhou para ela. Entendi tudo. Estava se despedindo da natureza. Nunca havia estado em Kierling, mas era como se tudo lhe fosse íntimo e ele estivesse sofrendo para se desprender daquela paisagem recém-visitada. Ele amava de maneira primitiva o bosque. Agora, tive que ajudá-lo. Praticamente o coloquei na carroça. Gastara as suas últimas energias naquele passeio. Dora subiu sozinha e o abraçou. Continuei andando por mais de uma hora, mas não paramos em nenhum outro lugar. Kauka passava longos períodos de olhos fechados, mas quando a paisagem tinha alguma beleza maior ele automaticamente erguia as pupilas e entrava em comunhão com ela. Devia identificar pelo olfato que havia bosques por perto. E, então, seu corpo ficava ereto, como se ele se envergonhasse da postura curva diante de espécimes tão verticais.

63


Voltamos no final da tarde e aquele seria o primeiro e o único passeio dele no povoado. Não sairia mais do sanatório. Muitos anos depois, quando fui visitar o túmulo de meus pais, e já sabendo da existência do verdadeiro Kafka, e não daquele doente que transportei, saí em busca do bosque e daquela árvore. O povoado não mudou muito e foi fácil achar o lugar que os pés de Kafka tocaram. Mas faltava a árvore, restando dela apenas um tronco calcinado. O que teria se passado? Procurei o vizinho mais próximo, que morava numa casa a poucas centenas de metros, e perguntei o que tinha acontecido com uma árvore imensa ao lado da estrada. Era um senhor idoso, e não tive dificuldades para explicar de que árvore eu falava. — Só sobrou um tronco dela. — Eu vi. Mas o que aconteceu? — Um raio atingiu a árvore solitária e ela se incendiou toda. Era no outono, as folhas estavam secas e fez uma fogueira que dava para ver aqui de casa. Ardeu durante um dia e uma noite. — Quando foi isso? — Um pouco antes de Hitler — ele falou. E eu não quis perguntar o ano exato. Havia um calendário trágico que suspendia todas as marcações temporais. Antes e depois de Hitler. Kauka talvez pressentisse, pensei, naquela árvore o fim terrível e não estava ali se despedindo da vida, mas consolando-a. Claro, isso são interpretações de um professor de literatura, e não há como garantir o que significou aquele gesto, mas é próprio da crítica criar estruturas simbólicas. Para mim, Kauka sabia que aquela árvore seria sacrificada. Então se comoveu com seu destino. Eram dois condenados que se abraçavam, um amparando o outro. (Nova salva de palmas interrompe a fala do professor K. O seu tom de voz na gravação nesta última passagem está muito embargado, é quase possível perceber na voz os olhos úmidos do palestrante). Vocês podem me perguntar (ele volta a falar com um novo alento) como foram as minhas conversas com o hóspede, e quero deixar claro que não houve nenhuma conversa. Só ouvi a sua voz uma única vez, quando, num grande esforço, ele pronunciou, deformando, o próprio nome. Então talvez vocês imaginem que eu não tenha mais me encontrado com ele, e devo dizer que nos encontramos sim, e várias vezes, e passamos muitas horas juntos. Mas Kafka já não falava. Ou falava em situações de extrema importância, e o jovem desconhecido de 14 anos não tinha o que discutir com ele.

64

N

o dia seguinte, Dora me procurou e pediu para eu providenciar algumas provisões extras. Além do cardápio do Sanatório, ou para evitá-lo, nunca soube, ela preparava as refeições no quarto. Fui incumbido de conseguir os alimentos, pois Dora não queria se afastar do seu paciente. Eu levava pequenas quantidades de carne fresca pela manhã, aves que minha mãe abatia para nosso consumo, reservando parte para o casal. Vocês que conhecem a biografia de Kafka sabem que durante muitos anos, e como uma revolta contra o pai, que fora um açougueiro com hábitos alimentares onívoros, ele não comera carne. Mas agora, na tentativa de sobreviver, uma tentativa que pertencia mais à sua noiva do que a ele, estava ingerindo grandes quantidades de carne, ovos, leite e frutas. A garganta talvez doesse tanto por causa do regime de alimentação intenso, o que a tornava imprestável para a fala.

São os leitores que inventam o escritor, um escritor é uma criação do público. Duas vezes por dia, eu subia pelas escadas até o segundo andar. Batia na porta e era Dora quem me recebia, pois ele estava no terraço, numa espreguiçadeira, protegido por um cobertor, olhando a paisagem, vendo e ouvindo os passarinhos. É sempre mais difícil morrer ao som dos pássaros. Seria melhor ficar no quarto com as cortinas fechadas, pois a beleza do mundo não nos faria uma falta antecipada. Eu deixava os alimentos com Dora, que já seguia para um fogão improvisado, e ganhava o terraço. Kauka abria os olhos e sorria. Na primeira vez, perguntei o que ele tinha achado de Kierling. Ele tirou as mãos de debaixo da manta, ergueu o tronco e pegou um lápis e uma caderneta que ficava ao lado, em uma mesinha. Então escreveu: “Revigorante, de uma beleza acolhedora”. Arrancou a folha e me deu. Foi assim a nossa comunicação em todo o tempo que estive com ele. Se eu encontrava alguns de seus amigos fazendo uma visita, só entregava a comida e saía, geralmente com a tarefa de providenciar algo, de resolver alguma coisa. Quando o doutor Robert Klopstock chegou à cidade para cuidar dele, um cuidado que era mais afetivo do que técnico, pois ele estava fora das possibilidades de cura, eu quase não conversei com meu amigo.

N

estas sete semanas em que ele esteve em Kierling, fiquei sabendo quem de fato era, e li um de seus livros, A Metamorfose, e um conto, que Dora me passou antes de ser publicado, “O artista da fome”. Quando terminei a leitura deste, chorei. Kafka não tinha fome, mas comia grandes porções de alimento, comia até aquilo que sempre evitara, a carne, tudo para contentar Dora, para dar a ela a alegria de poder fazer algo por ele. Por isso tinha procurado um sanatório menos aparelhado. Era tudo um teatro: as refeições, os banhos de sol, as injeções, os remédios. Ele fazia isso apenas para confortar a amada e os amigos. Só muito depois é que entendi tudo; durante a leitura do conto apenas pensei que ele dizia, metaforicamente, que nunca gostara de comer. Mas comia. Uma das perguntas que sempre me fazem, e aproveito para antecipá-la, é se guardei alguns desses bilhetes. Não, não guardei. Dora e Klopstock guardaram, como vocês sabem, mas eu não, porque eu não tinha a dimensão de meu interlocutor. Não me lembro da maioria das frases, mas diziam coisas como “compre uns cadernos pequenos para mim”. Apenas uns poucos bilhetes ficaram marcados em minha memória. Sem que eu falasse nada, pois agora apenas ficava ao seu lado, vendo-o ler ou enquanto ele descansava, ele retirou a caderneta e escreveu, não talvez com estas palavras, mas o sentido geral era este: “Cada vez que você e Dora levam a escarradeira cheia de sangue para limpar, estão se desfazendo de meu corpo. Não sobrará muita coisa para enterrar”. Ele me entregou este bilhete rindo, pois estava fazendo piada com a própria morte. Eu tive que rir também. Assim que comecei a frequentar o apartamento de Kafka, vi a enorme escarradeira de louça que ficava ao lado de sua cama. Ele usava uma pequena, portátil, também de louça, na sacada. Depois de suas crises frequentes de tosse, ele cuspia uma parte de si. Era o seu enterro, vertia-se aos poucos. As atendentes do sanatório passavam ao final do dia para limpar, mas antes Dora ou eu já tínhamos livrado o recipiente de uma parte do corpo do doutor Kafka. Éramos como esses presos que cavam um túnel aos poucos para fugir. Kafka cavava, a nossa função era dar fim ao material, e trocar o ácido fênico usado para matar o bacilo da doença. O quarto tinha sempre um cheiro forte, por causa principalmente do ácido, mas também pela decomposição do corpo de Kauka.

O

outro bilhete que ele me escreveu foi uma resposta a uma pergunta impertinente. Todas as perguntas a um doente

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


Pergunta 3: O senhor não era judeu, por que se converteu ao judaísmo? Só depois do holocausto senti necessidade de deixar o catolicismo e assumir uma nova religião. Fiz isso como uma forma profunda de me integrar ao sofrimento de um povo. Não sou um judeu de grandes crenças, mas meus sentimentos são autênticos. Com isso, também me senti um pouco mais perto de Kafka, que no final da vida tinha se voltado para o estudo do sionismo. Interessei-me mais pelos escritores judeus do que pelos textos religiosos. O contato com uma pessoa especial nos dá um bastão que devemos levar adiante. É este bastão que tentei passar para vocês hoje. Sanatório Hoffmann, onde Kafka passou os últimos dias de sua vida.

terminal são impertinentes, mas aquela era particularmente inadequada. Para que Deus você reza, perguntei, quando o vi olhando para o nada, os lábios movendose sem produzir nenhum som. Devia estar conversando consigo mesmo, já que não podia conversar com as pessoas. Ele parou aquela falação silenciosa e escreveu: “rezo para o deus da asfixia”, e riu novamente. Não queria me assustar, mas uma pessoa que não consegue respirar direito, não consegue nem se deitar totalmente, tendo que ficar a maior parte do tempo sentada, só podia ter este deus como companhia. Quando ele morreu, numa segunda feira, à meia-noite, eu não estava lá. Só soube no outro dia, na hora em que fui levar uma coalhada que minha mãe fizera, coalhada com mel, que ele sempre fingia comer com grande gula. Deixei a tigela no balcão da recepção, desci correndo os degraus de entrada e saí como um louco pelo povoado. Eu queria gritar que tinha morrido o grande escritor Franz Kafka, mas ninguém sabia que ele era um grande escritor. Nem eu. Levei a vida inteira para ir descobrindo a dimensão de sua obra. E muitas gerações ainda terão que passar sobre a terra para descobri-lo minimamente. (Muitos aplausos ao final da palestra. O professor K. agradece com um obrigado tímido. Depois começam as perguntas. Transcrevemos apenas as mais interessantes). Pergunta 1: O senhor guardou algum objeto de Kafka? Poucas coisas que suas mãos tocaram sobreviveram? Não, não guardei nenhum objeto. Mas eu guardei em mim a sensação daqueles dias. Aos 14 anos, o mundo é ainda muito misterioso, principalmente

para quem morava em um povoado. Conviver com Kafka fez com que eu me comunicasse com algo maior do que meus dias, maior do que minha vida. E olha que tenho vivido um bocado. Muitas vezes pensei que gostaria de ter alguma coisa dele, ao menos um autógrafo, mas não tenho nada. E este vazio talvez seja a sua principal lembrança. Como eu disse, Kafka foi se esvaindo, se esvaziando. Ele está inteiro neste vazio. Pergunta 2: O que Kafka significa para Kierling? A localidade que sempre temia os tuberculosos hoje o cultua? Essas cidades com sanatórios atraíam gente de várias partes do mundo, geralmente pessoas com alguma condição financeira. Mesmo os demais doentes, os anônimos, ajudaram a cidade. Mas Kafka refundou Kierling, ela passou a ser o equivalente à sua cidade natal, não pelo fato de ele ter morrido lá, mas por ele ter sido feliz, na medida em que um condenado à morte pode ser feliz, naquela região. Hoje, quando tudo se transformou em turismo, Kafka continua ajudando a economia de Kierling, pois muitos a visitam para conhecer as derradeiras paisagens que o autor de A metamorfose viu. Há uma placa no prédio do antigo Sanatório Hoffmann, e um busto dele em uma pedra. Por falar em pedra, lembro-me de algo que está em seus diários. Para ele, Sísifo é solteiro. O trabalho repetido e inócuo é de alguém que não tem alguém. Em Kierling, nós éramos a sua pequena família, feita só de amigos, eu talvez no papel de filho. Ele não deixou que seus pais nem irmãs o visitassem ali, para proteger-se contra a vida de Sísifo que levara até então, a vida de solteiro na casa dos pais.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

Pergunta 4: O senhor não chegou mais a ver Kafka? Não, não o vi. Não tive coragem de entrar no quarto onde restava apenas a carcaça. Mesmo doente, havia muita vida em seu corpo, havia luz em seus olhos fracos, e eu não queria vê-los fechados. Mas, na rua, numa plateia, eu encontrava uma cabeça com o formato anguloso da dele. Em outro lugar, as orelhas. Também reconheci a maneira de andar em mais de uma pessoa. Alguns escritores nascidos depois tinham um ou outro traço da escrita dele. Mas a natureza demorará muitos séculos para reunir em uma única pessoa aquelas partes de um homem com o dom de se fazer abismo. Pergunta 5: Como foi o seu convívio posterior com Dora Diamant? Nunca mais a vi. Não quis vê-la. Soube notícias dela, acompanhei toda a descoberta de textos inéditos de Kafka. Mas reencontrá-la seria destruir aquele período em que estivemos próximos. Distantes, continuamos sendo o rapaz de 14 anos e a jovem de 20 e poucos. E Kafka ainda está vivo entre nós, é só fechar os olhos que todos estamos naquele aposento, posso até sentir o cheiro do ácido fênico. (O professor K. neste momento fechou os olhos, como que anulando a plateia. Alguém anunciou no microfone o fim da palestra. Naquela manhã ele não autografou os livros de Kafka1).

1. Alguns meses depois, o professor K. morreria dormindo. O seu testamento revelou seu derradeiro desejo, cumprido pelos amigos, pois não deixara filhos. Ele se encontra enterrado no Cemitério Straschnitz, em Praga, a poucos metros do túmulo de Kafka.

65


POESIA

O POEMA DAS CRIANÇAS TRAÍDAS Lindolf Bell Eu vim da geração das crianças traídas Eu vim de um montão de coisas destroçadas Eu tentei unir células e nervos mas o rebanho morreu. Eu fui à tarefa num tempo de drama. Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado. Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos. Eu caminhei no caos com uma mensagem. Eu fui lírico de granadas presas à respiração. Eu visualizei as perspectivas de cada catacumba. Eu não levei serragem aos corações dos ditadores. Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra. Eu tive a função de porta-estandarte nas revoluções. Eu amei uma menina virgem. Eu arranquei das pocilgas um brado. Eu amei os amigos de pés no chão. Eu fui a criança sem ciranda. Eu acreditei numa igualdade total. Eu não fui canção mas grito de dor. Eu tive por linguagem materna, roçar de bombas, baionetas. Eu fechei-me numa redoma para abrir meu coração triste. Eu fui a metamorfose de Deus. Eu vasculhei nos lixos para redescobrir a pureza. Eu desci ao centro da terra para colher o girassol que morava no eixo. Eu descobri que são incontáveis os grãos do fundo do mar Mas tão raros os que sabem o caminho da pérola. Eu tentei persistir para além e para aquém do contexto humano, O que foi errado. Eu procurei um avião liquidado para fazer a casa. Eu inventei um brinquedo das molas de um tanque enferrujado. Eu construí uma flor de arame farpado para levar na solidão. Eu desci um balde no poço para salvar o rosto do mundo. Eu nasci conflito para ser amálgama. II Eu sou a geração das crianças traídas. Eu tenho várias psicoses que não me invalidam. Eu sou do automóvel a duzentos quilômetros por hora Com o vento a bater-me na cara Na disputa da última loucura que adolesceu. Eu sou o anti-mundo à medida que se procura o não-existir. Eu faço de tudo a fonte para alimentar a não-limitação. Eu sei que não posso afastar o corpo que não transcende Mas sei que posso fazer dele a catapulta para sublimar-me.

Meu coração é um prisma. Eu sou o que constrói porque é mais difícil. Eu sou o que não é contra mas o que impõe. Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura E quando arranca, arranca até a raiz E põe a semente no lugar. Eu sou o grande delta dos antros Os amigos mais autênticos são as águas que me acorrem. Eu sou o que está com você, solitário. Quando evito a entrega, restrinjo-me. Quando laboro a superfície é para exaurir-me. Quando exploro o profundo é para encontrar-me. Quando estribo braços e pernas na praça sobre o não alterável É para andar a galope sobre a não-liberdade. III Sem bandeira que indique morte qualquer, Avanço das caliças. Sem porto fixo à espera, nem lar de maternas mãos Ou rua de reencontro. Ostento meus adeuses. Sem credo a não ser à humanidade dos que me amam e desamam, Anuncio a catarse numa sintaxe de construção. Eu escreverei para um universo de concessões. Eu saberei que a morte não é esterco, Mas infinda capacidade de colher no chão menor adubado, Que poderei sorvê-la como à laranja que esqueceu de madurar, Que serei alimento para o verme primeiro da madrugada, Que a vida é a faca que se incorpora em forma de espasmo, Que tudo será diferente, que tudo será diferente, tão diferente... Eu quero um plano de vida para conviver. Eu ostentarei minha loucura erudita. Eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos. Eu manterei meu ódio a toda arrogante mediocridade dos covardes. Eu manterei meu ódio à hecatombe de pseudo-amor entre os homens. Eu manterei meu ódio aos fabricantes das neuroses de paz. Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova. Eu denunciarei todas as fraudes de nossa sobrevivência. Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores. Eu me abastardarei da espécie humana. Eu farei exceções a todos os que souberam amar.

OS CICLOS - 1964

Lindolf Bell (1938-1998) foi um dos poetas brasileiros mais atuantes na segunda metade do século XX. Autor de clássicos como As Annamárias (1971) e O Código das Águas (1984), liderou a Catequese Poética, uma ação cultural que levava a poesia para as praças públicas, os portões das escolas e os centros esportivos. Acesse a Casa do Poeta em www.lindolfbell.com.br

66

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL


REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

67


68

REVISTA DE DIVULGAÇÃO CULTURAL

Profile for editora.furb

Revista de Divulgação Cultural (RDC) nº 89  

Revista de Divulgação Cultural (RDC) nº 89  

Advertisement