Ruína Expandida - Beatriz Rodrigues; Gustavo Reginato (org.)

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Ruína expandida


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Beatriz Rodrigues; Gustavo Reginato (org.)

Ruína expandida 1ª ed.

Rio Grande / Florianópolis Editora Caseira 2021 3


. Concepção: Projeto Inventário (Beatriz Rodrigues e Gustavo Reginato) Organização: Beatriz Rodrigues e Gustavo Reginato Coordenação Editorial: Gustavo Reginato - Editora Caseira Pesquisa: Beatriz Rodrigues e Gustavo Reginato Projeto Gráfico: Beatriz Rodrigues e Gustavo Reginato Design: Gustavo Reginato Fotografia de Capa: Franchêscoli Golke. Detalhe da obra Casa tomada, da artista Beatriz Rodrigues. Exposição Individual Inventário. Curadoria de Gustavo Reginato. Fundação Cultural BADESC. Florianópolis/SC. Setembro de 2019. Produção: Murmúrios Azuis - Beatriz Rodrigues Produção Editorial: Editora Caseira - Gustavo Reginato Revisão e tratamento dos textos: Beatriz Rodrigues e Gustavo Reginato Distribuição: Projeto Inventário Impressão: Editora Caseira

Ficha Catalográfica R696r

Rodrigues, Beatriz Ruína expandida / Organizado por Beatriz Rodrigues, Gustavo Reginato. – Florianópolis; Rio Grande: Editora Caseira, 2021. 122 p. : il. color. ISBN: 978-65-88489-30-7 1. Artes Visuais. 2. Fotografia. I. Rodrigues, Beatriz. II. Reginato Gustavo. CDD 775 CDU 77.04(81) Catalogação na Fonte Bibliotecária Ellen M. Zorzetto CRB 14/1611



APRESENTAÇÃO

Os processos de caminhada remetem aos tempos em que os seres deixaram de se apoiar em seus braços e tornaram-se bípedes. O estilo de vida nômade desses seres primitivos caçadores e coletores, consistia no deslocamento para o encontro de alimento e abrigo. Com o advento da agricultura, o nomadismo se altera para o sedentarismo, embora muitos povos e culturas ainda se utilizam das caminhadas para o deslocamento entre locais geográficos. No livro Walkscapes: o caminhar como prática estética, Francesco Careri nos apresenta um histórico da caminhada no continente europeu. Mas não muito longe de nós, os nativos latino-americanos já possuíam caminhos do Peabiru que conectavam os andes ao litoral atlântico. O caminhar faz parte da nossa história ancestral, e nos configura como os seres contemporâneos que somos. O distanciamento deste padrão natural de deslocamento com os próprios membros, consequentemente nos distancia da nossa própria essência de humanos. Passamos a maior parte de nossos dias sentados, nos deslocamos de um local a outro nessa mesma posição (salvo quando nos equilibramos em corredores de ônibus e trens), e cada vez mais, no automatismo da vida no início do terceiro milênio, deixamos de experienciar uma vivência básica, a de movimentar as pernas e os pés, não em um movimento unicamente mecânico, mas consciente da liberdade que é poder caminhar por si só, por onde bem entender. 6


As reflexões sobre a caminhada, trazidos por Charles Baudelaire e Walter Benjamin, lidos e praticados pelos Dadaístas, Surrealistas e Situacionistas, nos levam aos conceitos de errância, deambulação e deriva, e trazem até nós esta urgência de pensarmos o deslocamento no espaço urbano não como algo automático, mas repleto de diversas camadas de significação, como na chamada psicogeografia de Guy Debord. Através destes olhares enxergamos os caminhos dos espaços urbanos e rurais, não como simples espaço para deslocamento de um ponto ao outro, mas como um campo repleto de possibilidades de criação. As coletas acompanham o ritmo das caminhadas, pois sempre que nos propomos ao deslocamento encontramos locais, objetos e coisas que nos chamam a atenção. Nosso instinto primitivo de caçadores e coletores é de mantermos a atenção naquilo que nos pode ser útil no futuro, e com isso levamos conosco pensamentos e fragmentos da fatia de realidade a qual nos submetemos. O pensamento de coleta surge por uma verdade inevitável, a matéria se esvai por nossos dedos. A entropia se faz ruína, e as paisagens constantemente vivem a transformar-se, em um instinto de fazer perdurar aquilo que nos identificamos, guardamos conosco um pouco de cada local que habitamos. Influenciados por decisões muitas das vezes inconscientes, as coletas refletem muito mais do nosso universo interior do que do próprio ambiente em si. Estes processos artísticos individuais, entre as caminhadas e as coletas recheadas de subjetividades, são a força motriz das atividades da oficina “Caminhar, Coletar, Publicar'', realizada na primeira quinzena de dezembro de 2020, de forma virtual, com participantes de todo o Brasil. A oficina “Caminhar, Coletar, Publicar" surgiu como um desdobramento do Projeto Inventário (www.projetoinventario.com), que teve o objetivo inicial fazer a circulação da Exposição Inventário, com obras da artista Riograndina Beatriz Rodrigues, na sua cidade natal. A exposição com curadoria de Gustavo Reginato, teve circulação em duas cidades de Santa Catarina, via editais públicos, nas cidades de Concórdia (Galeria Municipal de Artes) e Florianópolis (Fundação Cultural Badesc), esta última, tendo sido selecionada pela equipe curatorial do Polo SC para fazer parte da programação da XIV Bienal de Curitiba (2019). 7


A proposta inicial da oficina se deu a partir da obra Casa Tomada, homônima ao conto de Julio Cortázar e parte da Exposição Inventário de Beatriz Rodrigues. Esta obra nos inspirou na estruturação da oficina, junto às práticas caseiras de editoração do artista-etc. Gustavo Reginato. A oficina que inicialmente contava com práticas presenciais de caminhadas no centro histórico de Rio Grande, e seriam realizadas com os alunos dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Artes Visuais da Fundação Universidade de Rio Grande (FURG), precisou ser reestruturada. Devido ao cenário pandêmico instaurado no início do ano de 2020, houve o desafio de transformar o formato presencial para encontros virtuais, em um total de 14 horas de oficina, divididos entre 11 horas/aula em encontros virtuais e 3 horas de práticas artísticas individuais. Na edição contemplada pelo Procultura Rio Grande (05/2019), o Projeto Inventário agora expandido, conta com diversas atividades de contrapartida social além da exposição, como a oficina que realizamos, fomentando a cultura na região sul do Rio Grande do Sul, transbordando para outras partes do país, contando com o apoio da Diretoria de Arte e Cultura (DAC), do Instituto de Letras e Artes (ILA), dos Cursos Artes Visuais Licenciatura e Bacharelado, do Núcleo de Exposições e da Galeria Espaço Incomum, todas instituições ligadas à FURG. Contamos também com o apoio da Escola Estadual de Ensino Médio Silva Gama de Rio Grande. As experiências que tivemos, no compartilhar de conhecimentos e sensibilidades, nos permitiram um tempo de respiro em meio a pandemia, mesmo com restrições de mobilidade pelas recomendações sanitárias. Pudemos caminhar dentro de nós mesmos, em páginas de livros e arquivos pessoais, refletindo sobre o tempo, as ruínas, o caminhar, as coletas, os processos artísticos e a organização deste material em formato de publicação. Os resultados transbordaram todas as expectativas previstas, em uma partilha sensível os participantes caminharam virtualmente conosco, coletando e organizando em páginas os seus processos artísticos individuais. O livro, resultado destes processos, é somente uma fração da experiência em si. Assim como as coletas não representam plenamente os ambientes de onde foram coletados, mas criam 8


um novo espaço, as páginas construídas a partir das vivências da oficina instauram uma nova experiência, criada na coletividade a partir das visões individuais. Nós fizemos do livro uma casa, no qual cada ser habita seus espaços, em uma vizinhança que se comunica por afinidades ou diferenças, onde o que nos une é o desejo de fazer de nossas experiências, vivências estéticas e sensíveis, a partir das caminhadas e coletas, em formato de publicação. Agradecemos imensamente o apoio das instituições mencionadas, especialmente aos participantes da oficina, que se entregaram às propostas de criação, expandindo os conceitos de Ruínas, Caminhadas, Coletas e Publicações.

Beatriz Rodrigues e Gustavo Reginato, Março de 2021

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Sumário

16 24 32 38 46 52

Altemir Viana Ana Emídia Andréia Moll Andressa Argenta Angelica Neumaier Ariberto Filho Bianca de Zotti Carlos Nigro Darlene Sabany Fernando Rocha Gabriel Coelho Kathleen Oliveira Leda Zimmermann

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lucas lins

Marcia Rosenberger

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Marcia Flores Marciele Auler

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Sandra Favero Shayda Cazaubon

92

72

Mariana Medeiros

Rachel Hidalgo

84

64 80 88

Thiani Canabarro Pereira

Vivian Siqueira

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Mini Bio dos Participantes

Puxadinho da Ruína

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Sou nômade. Em carne, osso e alma. O desassossego me faz companhia desde os primórdios, ele é incansável. Faz de mim um ser errante, plástico, maleável, com infindáveis perguntas. Tanto desassossego exige descanso. E como refúgio busco um espaço sagrado, seguro, acolhedor. Meu templo particular. Um lar para minha alma cansada. A morada da alma. Minha casa-templo é onde calhar, já que é etéreo, 20


imaginado, visto com os olhos da alma - a mesma que não sossega. Sua planta baixa é um punhado de puras linhas, aquela infinidade de pontos, os vestígios de minhas andanças. Mobiliada com memórias, sentimentos, cheiros, cores, sabores, chegadas e partidas que parecem não ter fim, essa casa-templo me acompanha onde eu estiver. Meu templo nômade. Minha morada. 21


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Fazia tempo que não a visitava além da passagem rápida uma vez ou outra, desde que Dona Maria faleceu. Ela continua a mesma, com sutis mudanças de nova morada. As paredes eram mais azuis, mas dizem que a pintura continua a mesma, um verde bonito e acolhedor de uma paleta pastel. Os portões, as flores, a porta e a mesa de madeira do lado externo continuam ali. Entro na sala, tudo está na mesma posição. A fotografia ampliada e emoldurada de todos os netos permanece no mesmo lugar como se o tempo estivesse suspenso. Lembro daquele dia em que foi registrada. – Ei, estamos todos juntos, todos primos! Vamos fazer uma fotografia para dar para a vó? Sim, a ideia foi minha e fico feliz por termos feito. A fotografia está ali, intacta, mostrando que o tempo passou. – Estamos diferentes, ainda bem! Pelo menos é o que venho acreditando, envelhecer é um processo incrível à medida que desconstruo amarras que nem são minhas. O olhar passeia tentando disfarçar a observação atenta a cada passo adentro dos espaços. Passando a sala dá para avistar a casa inteira. O quarto da vó agora é dos meus tios, a tia só veio morar aqui após falecimento da vó, ele, o meu tio, foi o filho solteiro de 9 irmãos até então. O quarto do tio é o quarto de visitas. Eles mudaram as camas. A cozinha continua toda na mesma posição, a gaveta com os pratos e xícaras, os vários relógiosdespertadores parados, a mesa, a caixa de lenha. Passo pela cozinha e sinto falta delas, minha avó e sua casa antiga. Nela entrávamos pela cozinha, tinha uma área mais elevada com piso vermelho, a casa era de madeira com paredes rosas e azuis. A cozinha dava acesso a todos os cômodos, de fato era o coração da casa com o fogão a lenha e o cheiro indescritível da casa de vó. Guardanapos de crochê e flores nas mesas, várias de plástico. Era duas mesas, as duas abriam e juntas viravam uma coisa só, principalm eram azuis como as mesas. Na dispensa ficava todas as comidas que ainda restavam Não tinha nada melhor que correr para a dispensa e levantar os panos de prato! Bol estavam disponíveis para comer, não a qualquer hora como diziam os adultos. Dois d potes recheados de diversas composições. O Baú velho, alto e de madeira, tinha a div ficava a mesa para fazermos massa e moer carnes. Só então vem o banheiro! Lembr milhas de distância do quarto. Passar pela silenciosa dispensa, descer degraus com potes, tudo no escuro. Um grande portal para imaginações. O banheiro tinha duas po área. O chuveiro nunca foi quente, mas era água do mato. Os cabelos sempre ficavam tempo a casa existia, sabia que era antiga, mas chegou os dias que caminhar era um Foi assim que meu primo abriu uma vala na perna e na sala. Lembro de chegar na vó estrutura é parecida, no entanto, os percursos para percorrê-la não. Para usar o tele para casa da vó, era habitar a casa dos tios, como em um único pátio, sem grades ou longos, que para evitar a estrada sem sombra, tinha que passar por vários território um pedaço de estaca. Às vezes de tanto mato um choque ou outro acontecia. Era pre antiga casa da tia Iselda não desapareceu. Foi guinchada por um caminhão e colocad habitat de outras coisas que não sei o que é. Revisito essas terras vermelhas após se puída pela tinta da chuva com a terra vermelha. Encontrei o penico branco, a caixa que nasça a lua, estive à espera dela nas três tardes que estive ali. A primeira apariç na caça à lua, no último dia parei no meio do campo e esperei. Vi nascer as estrelas e pulando, era meu primo Éder pulando com sua muleta e tapando o buraco dos dente como quando saía para ver o rio ou colher os ovos. O medo da minha mãe sempre for chegou com um pacote de presente. – Pra mim? Sim, disse ela. – Eu não vi você cres observo! E vi como tu olhava para as coisas da tua vó. Eu chorei. O presente era uma


mente em dias de festa. As duas estantes m do almoço junto com as coisas de café. lachas, pão, cuca, queijo, batata, coisas que degraus abaixo, a galeria das compotas, texturas, cores, visão para farinha, açúcar e para sacolinhas plásticas. Ali ainda ro das noites, que ir ao banheiro era um caminho longo e assustador, parecia estar a zunidos de freezer, bichos e das árvores e as suas obras refletindo nos vidros dos ortas, às vezes poderia estar trancado por dentro porque alguém esqueceu e saiu pela m bonitos e a água tinha gosto bom e cheiro de mato. Não sei exatamente a quanto m desafio, se fosse uma pegada forte os móveis balançavam e um buraco podia se abrir. ó e outra casa estar ali. No mesmo lugar, era baixa de alvenaria, parecia escura, a efone ainda é preciso subir na árvore que era mais alta. É um convite a ficar offline. Ir u muros, passa a sanga, soja, milho, batatas ou pasto. Tinha alguns caminhos mais os, nem sempre os da família e muitas eram as terras dos vizinhos separadas só por eciso evitar que os bichos saíssem dos terrenos. Diferente da casa de Dona Maria, a da ali ao lado, abrindo espaço para a construção da casa nova. Virou um galpão. Virou ete anos sem experimentá-las. Ali está ela, continua ao lado na casa nova que já está de luz, as janelas que entravam o sol matinal. Observei as estrelas e onde pode ser ção foi surpresa, uma bola de fogo subindo ao céu, outro dia a tia Rosane me ajudou e seus movimentos dançantes no céu. Em um destes dias vi entre o mato uma cabeça es, me espiando pela estrada a mando de minha mãe. Senti ter poucos anos de idade ram as cobras. Não tem cobras assim, dizia minha tia. Na última noite, a tia Rosane scer, mas teu tio me contou o quanto gostava da tua vó e ela gostava muito de ti, eu te a xícara com pires que tomavamos café todos os dias.


Ruínas do Circuito Internacional das Reduções Jesuíticas Podemos percorrer os mesmos passos que os jesuítas deram ao chegar no Rio Grande do Sul – Brasil, Argentina e Paraguai há mais de 300 anos para fundar as Reduções Jesuíticas. Percorremos este percurso primeiramente de carro e nos sítios fizemos as caminhas a pé, por várias horas. Encontramos alguns contratempos como as chuvas de verão no Sítio San Ignácio Mini, na Argentina. Os registros fotográficos foram feitos com câmera analógica, no total de 200 fotografias.

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ESPAÇO EXTERNO DA CATEDRAL DE SAN IGNÁCIO MINI NA ARGENTINA

RUÍNAS SÍTIO ARQUEOLÓGICO SÃO NICOLAU - RS


CATEDRAL SÃO MIGUEL ARCANJO - RS

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DETALHE DA CATEDRAL SÃO MIGUEL ARGANJO - RS


DETALHE DA CATEDRAL SÍTIO ARQUEOLÓGICO JESUS - PARAGUAI

VISTA GERAL DO SÍTIO ARQUEOLÓGICO TRINIDAD - PARAGUAI


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Somos Corpos em Ruína



A Casa Caiu - Darlene Sabany Então no meio de toda aquela confusão do dia-a-dia toca o telefone: - Alô! - Sim é ela mesma. Quem fala? - Desculpe...? - Ah sim! Lembro quem é, desculpe, estava ocupada com outra coisa e não reconheci sua voz. Como a Senhora está Dona Marina? Humm...sim...compreendo...darei um jeito de ir aí o mais rápido possível. Obrigada por avisar! A casa caiu!! Não literalmente, mas ter de ir a Pelotas ver a antiga casa da família que está ruindo é um problema que eu não esperava, não queria e não podia naquele momento. No entanto, a vizinha me ligou avisando que uma parte dela está prestes a ruir. Corro para resolver as coisas e tentar me liberar o mais rápido possível e logo seguir viagem rumo a Princesinha do Sul Falida. Saindo de Porto Alegre, com uma play list anos 80, começo a pensar o que era aquela casa para a nossa família. Foi a nossa primeira casa, antes vivíamos em casas alugadas, foi construída com a ajuda de todos. Lembro de quando criança ajudando a carregar muitos tijolos da calçada para o pátio dos fundos, dos churrascos no fim de semana em que todos se reuniam para fazer o piso, levantar uma parede, fazer a laje, rebocar e pintar. Assim ela foi erguida: a várias mãos! 42


Depois só foi nos dando alegrias, a lareira, a churrasqueira, o jardim, a horta, a decoração pensada detalhe por detalhe que ocorreu de forma lenta, conforme a condição financeira. Os Natais sempre são as festas mais lembradas por toda a família, era um momento especial de trégua, com uma decoração que encantava a todos os vizinhos. Tinha a famosa chegada do Papai Noel na noite de Natal, esta acabou virando uma festa de toda a vizinhança, com o passar dos anos. Muitas festas de quinze anos, muitas noivas saíram de lá, debutantes, muitos bebês entraram pela porta para conhecer a casa da vovó. Aniversários, churrascos de sexta-feira à noite, festas com os amigos. Todas estas lembranças voltam de repente durante a viagem, além dos cheiros. Cheiro da casa limpa, cada uma limpava um cômodo, cheiro do feijão, do doce de figo, do bife, do bolinho de batata. Sabores do mogango com leite, do pastel de carne, do bolinho de chuva. Que alegria. Chegando em Pelotas vou de táxi ver qual o tamanho do problema na casa. Quando chego na casa, que um dia foi minha casa, que choque. A cor da pintura quase não existe...rachaduras nas paredes, o mato alto escondeu o que um dia foi um jardim. O portão de ferro com marcas de arrombamento, o caminho de pedras, quase que se some com as rachaduras e capim sobre elas. Para entrar tenho que arrombar o cadeado, as janelas e portas estão desbotadas, com parte da madeira aparecendo, muito sujas e com teias de aranha. Com uma certa dificuldade 43


consigo abrir a porta, que susto um enorme formigueiro toma conta de parte da sala, um cheiro de mofo, de podre, de sujeita penetra o meu nariz, recuo uns passos com nojo e medo do que vejo. Com uma pasta que carregava, tento tirar as aranhas e teias da porta para conseguir entrar. Alguns móveis velhos e sujos ainda estão lá, as paredes estão com o reboco caindo o teto com rachaduras e marcas de mofo. As lembranças sumiram, agora é o medo que toma conta de mim, tento abrir uma janela e ela quase cai no chão, apodrecida. Vou entrando e abrindo portas e janelas para poder suportar o cheiro. Num canto do que seria o quarto dos meus pais encontro papeis rasgados, roídos, mostrando que havia ratos ali... continuo mais arrepiada e assustada. Abro a porta do banheiro uma quantidade enorme de baratas saem do mesmo, corro em direção a porta de entrada e fico um pouco tentando me recuperar. Neste momento percebo que minha mala ainda estava na calçada e o portão aberto, vou buscá-la e o Seu Zé, um vizinho do lado vem ao meu encontro, a esposa dele que havia me ligado. Nós cumprimentamos, fizemos uma rápida atualização de como estão as pessoas da minha família e da dele, então relato o horror que havia passado. Ele busca em sua casa um inseticida e entra na casa, depois me chama: - Pronto agora pode entrar acabei com todas! Pulo por cima do formigueiro e retomo a minha caminhada. Chego no cômodo em que o chão afundou e a parede está quase ruindo, Seu Zé conversa mais um pouco e depois sai. Eu pouco 44


ouço o que ele falou e comentou, meu único pensamento é: este era o meu quarto! Este era o lugar das brincadeiras da minha infância, lugar onde guardava as coisas mais importantes da minha vida, lugar onde me constitui como pessoa, como mulher. Agora ruindo. Quantos sonhos, quantos cartazes na parede, quantos segredos, quantas primeiras vezes, quanto idealismo, quantos planos eu fiz aqui para quando fosse adulta, quanta ingenuidade. Agora tudo ruiu. Uma tristeza toma conta do meu coração, em que curva da vida eu me perdi. Volto a fechar as portas e janelas e saio. Do lado de fora da casa ligo para uma das minhas irmãs que eu não falava há cinco anos. - Oi estou aqui em Pelotas, tudo bem? - A nossa casa está ruindo o que vamos fazer? Do outro lado eu ouço: -Vamos restaurar!

Ouça o texto pela voz da autora: https://soundcloud.com/projeto-inventario/a-casa-caiu

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A casa que precisa de afeto É composta de memórias cinzentas, de uma história que não é colorida. Sua construção abrigou uma dentre tantas histórias da constituição da sociedade brasileira. De uma jovem imigrante que casou-se muito cedo, constituiu uma família com um homem bons anos mais velho, de personalidade severa. De uma jovem que passou a vida sendo conhecida pejorativamente como mestiça, bugra, negrinha. Que não sabia escrever seu nome, mas sabia madrugar e por o café da manhã a mesa para seu marido e filhos. Que apesar de todo fardo que carregou, nunca tirou a mala que se encontrava pronta dentro do guarda roupa. Entrando pelos fundos, se passa por uma grande porta, de madeira marrom com tinta descascada. Estava quase sempre aberta, o que permitia ver de longe os ladrilhos cerâmicos vermelhos do assoalho, em um corredor estreito de paredes escuras. Logo que entra, dois passos a frente e pela esquerda já se encontra o banheiro. 52


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De piso, forro e louças verdes, com um toque de musgos pelos cantos e aroma suave de mofo. Convidava-nos a apressar o passo quando cruzava sua porta de trinco de gancho. De parquet encerado, o próximo cômodo não tinha portas, somente uma janela de madeira com vidro rachado. Tinha um sofá xadrez laranja e um guarda roupa de madeira maciça com duas portas, que ficavam entreabertas e se chegasse perto era possível ver as malas fechadas, prontas para se despedir. A cozinha tinha um balcão com pia de pedra, ficava embaixo da janela quadriculada, com o radinho a pilha no canto de antena apontada para a rua. Um pequeno armário amarelo e em frente uma mesa vermelha redonda, com três cadeiras ao redor. Uma geladeira marrom, quase do tamanho da porta, que se comunicava alto toda vez que ficava ligada na tomada. A seguir tinha uma pequena sala somente com sofá comprido, uma porta e uma janela. Ambas gradeadas e sempre trancadas. Por suas frestas via-se o movimento das pessoas a passar pela calçada. Escutava-se o freio do ônibus a desviar dos buracos e pedras do meio da rua de paralelepípedo. Tinha um quarto, com duas janelas e fixo a parede um retrato com moldura de arabescos. A fotografia, pintada à mão, de um senhor de cabelos fartos e brancos, de olhar sisudo, de lábios apertados de quem se encontra desconfortável ou com desagrado. o retrato do meu avô, reflete o semblante que minha avó por anos carregou e na casa brotou. Hoje sem suas presença e com o passar do tempo, perdendo partes de sua estrutura e todo telhado. Me deparo com uma casa despida, que enfim se encontra pronta para reviver uma nova história. entrelaço a sua imagem, a partir da fotocosturafetiva, a linha de afeto a suturar qualquer memória ferida remanescente; da mesma maneira, a gaze e a fita microporosa cobrem as possíveis áreas abertas, como a acolher, e proteger aquele lugar. A ruína dessas paredes de tijolo, madeira e concreto consolida o fim de um período, mas também aponta os indícios de um novo florescer. 55


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O Andariho A fotografia, como meio de expressão artística. Andarilho, andanças pelas ruas, vilas, estradas e caminhos percorridos à procura de lugares, em uma forma pessoal de ver e registrar o mundo. As fotografias desta série são realizadas por mim em uma ilha na cidade de Porto Alegre. Após a captura da imagem elas são ressignificadas através de um programa de tratamento de imagem. São fotos de sucata ferrosa retorcidas de todos os tamanhos e formatos. Fazendo manipulações diversas, como recortes, sobreposições, camadas, desconstruindo e construindo uma nova imagem. Mostro a sucata como um bloco iluminado. A partir desta nova imagem faço uma nova combinação de imagens, com outras fotos já trabalhadas. Fazendo experimentações, misturando imagens, construindo novas imagens. O objetivo deste projeto é, através da história desses objetos, muitas vezes em um contexto de desordem que, recombinados refletem sobre a transformação que a própria linguagem fotográfica proporciona. Num primeiro olhar beiram o abstrato, mas ao penetrarmos na imagem começamos a perceber pequenos fragmentos reconhecíveis que nos levam a uma nova ordem das coisas... somos conduzidos a perceber como pode ser agradável e até contemplativa está desordem. Em uma das fotos quis passar um vitral iluminado. “Mundos” Novas visualidades. Mundo Imagético.

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Cá estou eu para reviver coisas que aconteceram há muito tempo, coisas que compõem meu repertório de lembranças, que às vezes me machucam, mas que também me fortalecem. Quando eu era pequena, todos os fins de semana meu pai nos levava para acampar em uma comunidade chamada Rancho Grande, no interior de Concórdia - SC. Tinha um lajeado tão lindo, refrescante e divertido. A parte funda era proibida, e de tanto medo, eu nem me aproximava. Quantas vezes vi meu pai correndo pra lá em busca de chinelos levados pela correnteza. Tinha uma correnteza que servia de escorregador, daqueles tipo tobogã cheio de curvas, e dava numa piscininha que sentada cobria minhas pernas e barriga. Tinha pedras, muita pedras. Para mim, pedras preciosas. Riqueza para os olhos e para o coração. O bom daquilo tudo, era o silêncio que eu enxergava mesmo em meio aos gritos de crianças. Era um rio tão baixinho e seguro, que eu podia atravessar sozinha, e isso me dava uma sensação de possibilidade! Margeando este rio, tinha floresta. E era numa parte mais limpa desta floresta, que meu pai construiu uma beliche de casal, utilizando como postes as árvores que ali já estavam. Dava certinho para abrigar o sono de suas seis crianças. A floresta era um local para desbravar, tinha tanto para se descobrir. Eu não gostava dos espinhos que arranhavam minha pele, mas era o preço para as experiências que estavam por vir. Tudo ia lindamente bem, até que... Tudo se transformou em RUÍNAS SUBMERSAS!!!

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Meu pai foi construtor, dos bons! Eu, que estava acostumada a vê-lo construir, passei a vê-lo destruir. É que com a construção da Usina Hidrelétrica de Itá, muita terra foi interditada e as pessoas que moravam ali, teriam que se mudar. Casas, chiqueiros, galinheiros, escolas, mercadinho, tudo foi derrubado. O que dava para aproveitar de material de construção, foi cuidadosamente retirado e levado, o resto ficou lá, para ser tomado pela água. A água já estava batendo nos joelhos. Eu estava achando aquilo uma péssima ideia. Mas tudo bem, era só a minha infância que estava indo por água abaixo. E não adiantava vir com discursos sobre geração de energia. Isso era coisa que no momento entrava por um ouvido e saía pelo outro. Era uma tristeza que os adultos não entendiam, exceto meu pai. Ah, meu pai. Era criança como eu. Meu velho sofreu vendo tudo isso. Para mim era um pedacinho da minha infância, para ele, era uma vida inteira. Meu pai sempre relatava experiências da sua breve vida escolar. Tudo para abrandar minhas várias reclamações. Era sempre a mesma história: caminhar quilômetros, os severos castigos dos professores e nada de moleza, apurar pra voltar pra casa porque o serviço na roça esperava. Estudou até a quarta série. Cresceu e aprendeu o ofício de construtor em casa, mesmo. Gostava tanto quando meu pai passava o fim de semana reformando escolinhas do interior e me levava junto. Enquanto ele trabalhava, eu folheava os livros didáticos que encontrava lá. Meu pai assentou muito tijolo e ergueu muita parede para que eu tivesse apenas o trabalho de carregar lápis e caderno. 73


RANCHO GRANDE não é mais meu refúgio. O ano era 2000, quando a Usina Hidroelétrica foi ativada. Também foi neste ano que meu pai faleceu num trágico acidente de trânsito. Foi velado na mesma comunidade que presenciou seu modo aventureiro de paternar. Minhas ruínas vão além da materialidade do cimento. Minhas ruínas impregnaram-se na natureza. O lago que se formou com a ativação da Usina, virou, sim, uma bela paisagem (não nego), mas como protesto pela perda da atividade rural que ali existia, muitas marrequinhas foram aparecendo, dando a impressão de nascer ali um grande e admirável tapete verde. Cá entre nós, hoje penso que o lago também chorou comigo a perda de um grande homem. 20 anos passaram-se (quase 21) e constato que o Rancho Grande submerso ainda existe em mim. Na verdade, nada do que passei na infância sumiu de mim. Neste momento em que escrevo as palavras para este livro estou em luto pelo irmão que perdi em 26/12/2020. Meu irmão mais novinho não conheceu esse paraíso que descrevo aqui, perdemos nosso pai quando ele era bebezinho. Perdeu o pai, ganhou uma paisagem ressignificada, mas desconfio que aquela perda encarada pelo nosso pai, tenha lhe ficado marcada. Após todo este tempo, e com o coração na mão, me pergunto se: além da materialidade, pessoas também podem virar ruínas dentro da gente? A resposta, sinceramente, não sei. Mas acredito que para meu irmão, a aventura está só começando.

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Rua sem saída! Visão do alfalto que antes era o caminho que levava a Peritiba, Alto Bela Vista, Piratuba... Hoje, não leva a lugar nenhum.


Escolinha ABANDONADA de Alto Boa Esperança. Para mim, ver uma escola rural assim abandonada é como ver a educação indo por água abaixo. Se as escolas não estão sendo ocupadas, cadê as crianças/o futuro do nosso interior?

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“Algumas pessoas me parecem estranhas e outras tão parecidas comigo, mas não as conheço, nenhuma delas. Minha vó diz quem são, conta histórias sobre a nossa família, mas é estranho: ela disse que têm filmes nessas fitas tão grandes, minhas tias falando nessas fitinhas menores e essa fita marrom, têm fotos gravadas nela, eu consigo enxergar algumas, é verdade mesmo... Eu acho que a Tia Chel tinha a voz parecida comigo...aquela menina lá da foto, quem é? E aquele velho ali? Xi, morreu.

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Pergunto os nomes de um a um… essas pessoas têm o meu sobrenome, mas tem outros nomes também. Acho que esse menino de cabelo grande devia ser engraçado! O quê? É o tio Marco, não é engraçado não, é bravo, errei! Nossa família tem bastante gente diferente, né, vó?. Queria ver o que é isso, tia! - Não dá, nós não temos mais onde assistir ou ouvir, agora são só lembranças.

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A ruir A ruir

Sandra Correia Favero Sandra Correia Favero

Pontal da Daniela – Reserva ecológica Carijós Florianópolis Pontal da Daniela – Reserva ecológica Carijós Florianópolis

Quando encontro deixo marcas, -O que faz caminhar sãocaminho relíquias de sen�do e marcas, às vezes seus detritos, os restos inver�dos de ambições- Michel de Certeau piso sobre agrandes vida encoberta pela areia que forma a margem, borda.de sen�do e às vezes seus detritos, os restos inver�dos de -O que faz caminhar são arelíquias ambições- Michel de Certeau O mar traz, grandes o mar leva. O mar em movimento constante altera tudo o que toca, altera onde toca. A areia está ali, a areia já não está mais. As raízes salientam a ruína, a destruição, breve talvez, quando registrada guarda o instante. A paisagem alterada nos oferece reflexões e propicia sofrimento. Encontros com a destruição. A luz e a sombra, o desenho. O cheio e o vazio, o volume. O espaço e a liberdade, a imaginação.

Com a maré cheia a areia voltará novamente a encontrar seu lugar.

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Eram três casas em um mesmo terreno, a mais antiga tinha 110 anos, a segunda 71 anos e a terceira 29 anos, independe da idade, todas estavam em ruínas, tanto em sua materialidade quanto em sua memória afetiva... A paisagem desse terreno estava a todo instante se modificando e se deteriorando. Durante os longos anos que moramos ali, não havia um dia que não precisássemos remendar alguma coisa, sempre tentávamos tapar mais um buraco que insistia em aparecer... a cada instante, um novo vazio. A única casa que restou para contar essa história, foi a terceira casa, a mais jovem e que de certo modo, era a que unia e sustentava as outras. A entrada para o terreno continuou a mesma, por um portão de ferro, que hoje em dia precisa ser aberto com cuidado para não cair totalmente. Após a entrada, é preciso caminhar 15 metros de distância, passando por escombros, memórias e fantasmas daquelas duas casas mais velhas que não existem mais. No final da caminhada se chega à Casa-mato, a mais jovem. Logo se vê o chão e as paredes tomadas por mato... a natureza agora estava tomando conta de tudo como nunca antes visto, levando finalmente para a terra o que de lá saiu, como foi outrora com as outras casas mais velhas. A Casa-mato é composta por quatro cômodos: cozinha, closet, quarto/ateliê/sala e banheiro. Adentrando a casa pela porta principal, se vê uma cama de casal a frente, quadros e fotografias penduradas na parede, do lado da porta a direita uma mesa de computador e a esquerda um sofá de dois lugares. Caminhando em direção ao fundo do cômodo, a esquerda se vê um cavalete de pintura de pé com um quadro inacabado de paisagem, do lado dele há uma mesa grande com fotografias recortadas em preto e branco, tesoura, cola, pincéis e aquarelas. A esquerda desta mesa se vê uma porta de madeira de correr, nela há um pavão esculpido com massa corrida e que foi pintado por tinta acrílica. Atrás desta porta está o banheiro com um box, vaso sanitário e uma pia que volta e meia servia de cama para a gata da casa dormir. Retornando para a entrada principal, ao lado da cama tem uma porta que leva a um closet pequeno, cheio de araras improvisadas com roupas penduradas, e dali já se vê a porta que leva a cozinha. Neste cômodo tem um geladeira pequena, um fogão, uma pia, uma mesa de canto e armários de segunda mão, sem muita cor ou decoração, diferente do restante da casa. Saindo da casa pela porta da cozinha, caminhando alguns passos à frente, se encontra o pátio novamente, que antes era um pequeno espaço que dividia uma casa e outra... que antes servia de lugar de refúgio, de descanso, de segurança e inspiração para as criações da Criança/Adolescente-mato que ali vivia. Olhando para trás, para a Casamato, vejo quinze casas empilhadas sobre ela, quinze ruínas que foram colecionadas pela Criança-mato. Essa criança tinha a estranha mania de coletar coisas que ninguém mais queria ou sequer via em suas andanças, desde pedras até casas abandonadas, e eram tantas que ela via pelos caminhos! Escolhia a dedo qual trazer para casa e cuidar do resto que havia sobrado, tinha a estranha mania de ver beleza em ruínas. Sempre soube que coletar casas seria um fardo, por que em um certo dia iria precisar alçar voo daquela Casa, antes de virar ruína junto com todo o resto. Na bagagem infelizmente só couberam a coleção de pedras, precisou deixar todas as outras casas para trás junto com a Casa-mato. Ouvi dizer, que a Casa-mato ainda sustenta as outras, mesmo sem ninguém mais habitando ela. Hoje a casa é revisitada por olhos de amigos e parentes que ali passam, não sei sinceramente se todos conseguem enxergar ela como eu sempre vi... mas fica o convite, depois de saber dessa história passe lá e me conte o que vê... fica na Rua Conde de Porto Alegre, número 110, no bairro Porto em Pelotas, Rio Grande do Sul, quem sabe a Casa-mato se mostra tal como é pra você também!




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Fazia tudo da mesma forma, fechava as duas janelas da cozinha, encostava a portinha do fogão a lenha e passava o trinco nas portas. A vela iluminava os seus passos pelo chão de terra batida, ao passar pelo corredor os olhos paravam nas fotos amareladas da família. No banheiro desfazia as tranças e penteava seus longos cabelos em frente ao espelho rachado sobre a pia. Ao passar pelo quarto dos filhos, antes de fechar a janela


para diminuir o vazio do antigo cômodo, olhava para o jardim e lembrava das crianças correndo por ali. Já em seu espaçoso dormitório, deitava sobre a cama e deixava o tempo correr distraída na claridade da telha rachada no canto da parede, adormecia até despertar com o cantar do galo. Em um amanhecer não abriu os olhos. Os filhos nunca voltaram, e a soja tomou conta de todas as recordações que habitavam a velha casa.


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A casa é construída pela ruína. Minha casa, ainda que inteira e habitada, preserva a ruína em suas entranhas. Para construir uma casa precisamos ruir materiais naturais, misturá-los e petrificá-los novamente. Ruiu-se para construir. Ruína natural ou produto de algumas dinamites, temos escombros imobilizados em nossas paredes.

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Apesar da ruína contida no concreto, é impossível conter a intempérie. A inevitável destruição. Habitamos entre perdas e tentativas de não perder. Quantas áreas devastadas me fazem companhia em meu quarto?

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Mini Bio dos Participantes

Altemir Viana - Fotógrafo. Jornalista repórter fotográfico CRP 18517/RS. Graduado licenciatura em Artes Plásticas e discente do do 5º semestre do curso de bacharel em artes visuais pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Coordena o NUFO- Núcleo de Fotografia Secom - FURG e os projetos CDOC-AV e Narrativas Urbanas do ILA - FURG. Interessado no estudo sobre imagens, educação, estética, meio ambiente e humanidades. Ana Emídia - Artista, artesã e arte/educadora. Vive e atua em Juazeiro, BA, e é natural de São Paulo/SP. Escreve sobre suas pesquisas em arte, em especial sobre pigmentos naturais, em coreseterras.blogspot.com e no instagram @jardim.da.ana1.Formada em Artes Visuais pela UNIVASF, em 2014, seu TCC foi sobre os pigmentos das terras juairienses. Participa do Coletivo Dois em Casa, com o qual participou de Salões de Artes Visuais na Bahia, com séries fotográficas realizadas na Ilha do Fogo. Andréia Moll - Com formação multidisciplinar, tem MBA em Marketing pela FGV-RS e especialização em Ensino de Inglês pela UFMG. A partir de 2003, foi orientada pelas artistas visuais Vera Wildner - Porto Alegre: Marina Saleme - Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, e Patrícia Leite - Escola Guignard, Belo Horizonte. Atualmente, é orientada em fotografia por Vilma Sonaglio e é parte do VW Atelier Coletivo, em Porto Alegre. Viveu em diferentes cidades no Brasil e em países como Finlândia, Holanda, México, Venezuela e Estados Unidos. Essas vivências a levam a abordar questões como vida urbana, família e religião, alguns dos elementos da construção das visões individuais de mundo. Andréia Moll (1969) vive e trabalha em Porto Alegre-RS, onde nasceu. 101


Andressa Argenta - Natural de Santa Maria - RS, Andressa Argenta é Artista Visual, professora e pesquisadora. Docente do Instituto Federal do Rio Grande do Sul - Campus Bento Gonçalves, atualmente é doutoranda do PPG em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina/SC. Mestre (2018) em Artes Visuais pelo PPGAV/UDESC. Bacharel (2014) e Licenciada (2011) em Artes Visuais - Desenho e Plástica, ambos pela Universidade Federal de Santa Maria/RS. Membro do Grupo de Pesquisa Entre Paisagens (UDESC) e Grupo de Estudos e Pesquisas em Arte, Educação e Cultura (GEPAEC); integra o Projeto Armazém e Coletivo Compor. Desenvolve pesquisas com ênfase no Ensino da Arte, Ações e Curadorias Educativas, Mediação Cultural, Gravura Contemporânea, Livro de Artista e Intervenções Urbanas. Angelica Neumaier - Natural de Santa Maria/RS. Artista visual, professora e pesquisadora. Possui mestrado em Educação pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Especialista em Design para Estamparia (UFSM), Ensino da Arte (UNESC) e Hipermídia em Design Gráfico com Ênfase em Design de Superfície (UFSC/SATC). Graduada em Bacharelado em Desenho e Plástica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É professora no Curso de Artes Visuais, Bacharelado e Licenciatura na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Criciúma/SC. Integrante do GRUPEHME – Grupo de pesquisa em História e Memória da Educação (UNESC/CNPQ) e GPA – Grupo de pesquisa em Arte (GPA/UNESC/CNPQ). Ariberto Filho - Artista/professor/design de Arte. Tem bacharelado em Design (FEEVALE, 2020) e licenciatura em Artes Visuais (UERGS, 2018). Participou em diversos projetos em conjunto dos cursos, entre eles o PIBID (UERGS) e SENSeBOOK - Livros Multissensoriais - FEEVALE. Possui mestrado em andamento pela UFRGS com pesquisa na errância em arte e educação. Atualmente é professor de Arte em escolas municipais de cidades do Vale do Rio dos Sinos/RS. Realizou exposições 102


na Galeria de Arte Loide Schwambach, Fundarte, no Museu de Arte de Montenegro, Entre Linhas, na Fibra Bienal Têxtil e Fundação Iberê Camargo. Bianca de Zotti - Cursa Licenciatura em Letras Português/Inglês na Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Desde 2020, trabalha como estagiária da Concha Editora. É técnica em Geoprocessamento formada pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul - IFRS, Campus Rio Grande. Em 2018 defendeu o TCC: "Poéticas Urbanas: Cartografia dos grafites do município de Rio Grande/RS", onde realizou um mapeamento afetivo da arte urbana de Rio Grande. Desde então, possui o olhar voltado à prática de cartografar a paisagem. Escreve poemas a partir dos atravessamentos de seu próprio corpo, cartografando-o enquanto lugar através da poesia como linguagem e como ferramenta de mapeamentos. Carlos Nigro - Um fotógrafo errante, arquiteto urbanista, professor, pesquisador e ensaísta que situa as suas imagens como um dispositivo de leitura e de apreensão da cidade, através da transcendência das relações ontológicas, sob narrativas intuídas. https:// www.carlosnigro.com/ Darlene Vilanova Sabany - Natural de Pelotas/RS com caminhadas por Curitiba e Porto Alegre. Aposentouse em 2017, resolveu voltar a estudar, fez o ENEM e ingressou na UFPel em 2018. Atualmente cursa Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis. Como as ruínas fazem parte do seu novo contexto, uniuse ao grupo desta oficina. Não tinha experiência com produções anteriormente, a fotografia é apenas um hobby que continua buscando aprimoramento. Fernando Rocha - Natural de Rio Grande- RS, é estudante de Graduação em Artes Visuais Bacharelado pela Universidade Federal do Rio grande, designer estagiário da Diretoria de Arte e Cultura - DAC / FURG e faz parte do Grupo de Pesquisa Arte Pública, Entorno e 103


Novos Gêneros. Sempre sentiu uma forte conexão com a paisagem e os atravessamentos que a mesma o proporciona. Há 2 anos vê a cartografia como linguagem para seus trabalhos poéticos, buscando a afetividade na paisagem local e dando visibilidade ao que denomina de "Não-lugares". Atualmente desenvolve um TCC chamado TERRITÓRIO DE MEMÓRIAS: Arte e Cartografia como linha de fuga para o sentimento de desterritorialidade, onde busca realizar uma cartografia afetiva e de memória do bairro Cidade Nova, onde viveu durante maior parte de sua vida. No Instagram, no perfil @cartogarfo Gabriel Coelho - Gabriel Coelho (Itajaí, 1989) vive em Barra Velha (SC). É artista visual e educador, mestre em Artes Visuais pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e licenciado em Artes Visuais pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali). Investiga a dispersão de textos como procedimento artístico e a representação visual da palavra, nos aspectos simbólico e tipográfico. Suas exposições mais recentes foram as coletivas Entre lobo e cão (2021) e Dissidências (Estúdio de Pintura Apotheke, 2020). Integrou a edição nº1 da revista [compor] e a nº2 da revista Fruta Bruta. Foi um dos editores participantes da edição virtual da Feira Miolo(s) (2020) e participou ainda da Residência Artística Nacasa (Nacasa Coletivo Artístico, 2021). Kathleen Oliveira - Natural de Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil Atualmente reside em Guarda do Embau, Santa Catarina, Brasil. Mestre em Artes Visuais na linha de Processos de Criação e Poéticas do Cotidiano (PPGAVI/ UFPel) e Graduada em Artes Visuais Licenciatura (UFPel). Integrante do Grupo de Pesquisa ARTƎECOS: núcleo de estudos e práticas artísticas ecosóficas (GPAES/CNPq). Colaboradora dos projetos de pesquisa: A produção de subjetividade em Félix Guattari: experiências com arte, ecologia e saúde & Arte e Natureza: proliferações. Sua pesquisa articula temas como o caminhar, a fotografia, a costura e a afetividade com as experiências estéticas vivenciadas em seu 104


cotidiano. Também tece a sua poética conceitos como a ecosofia e a cartografia. Atualmente trabalha a partir da mestiçagem técnica no desenvolvendo do conceito da fotocosturafetiva, que propõe tramar encontros da memória e a criação artística, com os diálogos do cotidiano e a arte contemporânea. Leda Zimmermann -, brasileira, natural de Porto Alegre- RS, é artista visual e empresária. Estudou História da Arte na PUCRS, em 1998. Iniciou estudos artísticos 1996, onde vem desenvolvendo aprendizado deste então em vários segmentos artísticos, pintura a óleo s/tela, acrílica, desenho, gravura em metal. Frequentou vários cursos do atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre em 2000 e 2002. Estudou com Fernando Baril/ Britto Velho/ Vera Wildner/ Plinio Bernhard/ Regina Ohlweiler/ Elizethe Borghette. Em 2018 ingressa na Escola de Fotografia artística cursando dois semestres, nos cursos Alfa, ministrado Prof°Me.Danny Bittencourt e o Beta com Prof°Isadora Heimig. Em 2019 e 2020 continua estudando fotografia artística com Prof° Vilma Sonaglio. Hoje participa do VW Atelier Coletivo, grupo de artistas oriundo do Atelier Estággio, onde desenvolve seu trabalho artístico. lucas lins - oceanógrafe em formação pela universidade federal do rio grande (FURG), um corpo-territóriomapa fazendo a ponte salvador-são paulo-rio grande. nessa casa-trânsito, tem tentado (re)pensar prosas entre as ditas ciências naturais e humanas, sociedade e meio ambiente, naufragando ruínas nesse/desse mundo que possam ser habitadas por outras possibilidades/vidas, caminhos de outras embarcações, procurando, através da linguagem poética, transformar idéias em poesia, e então em ação, para além da m/água. instagram: @carneebatatas | escritos: carneebatatas.blogspot.com | e-mail: carneebatatas@hotmail.com Marcia Rosenberger - Artista visual, editora e arteeducadora. Desenvolve as linguagens da aquarela, fotocolagem e livro de artista. Em sua poética pessoal 105


investiga os atravessamentos que perpassam o espaço urbano, a partir de suas relações entre diáspora e ocupação – quem o habita e por onde transita, pelo viés da memória e do tempo. Formada em Artes Plásticas e Pós Graduada em Estética e História da Arte / Fatea-SP. Durante o isolamento social, participou da ArtsLibris Barcelona e Lisboa no formato virtual. Em 2019 participou da residência artística na Casa SETE, São Bernardo do Campo-SP e do Laboratório de Artes Visuais, na OMA Galeria-SBC, em 2018. No ano de 2016, vivenciou a residência no projeto Arte @o Centro, em Torres Vedras, Portugal; onde também orientou oficinas de livro de artista. No mesmo ano lançou o selo editorial independente Loreley Books. Marcia Flores, natural de Porto Alegre/RS, onde reside. Artista visual, com licenciatura em FísicaUFRGS. Desde a adolescência teve contato com a arte através Atelier Livre Xico Stockinger (Atelier Livre da Prefeitura municipal de Porto Alegre). A partir de 2014, retorno as artes através da fotografia analógica, procuro na cidade, cursos e oficinas onde possa aprender e dominar as técnicas e dos processos históricos fotográficos. Faz um curso de restauro e conservação em suportes como papéis e madeira, iniciando pesquisas neste campo da fotografia. Em meio a esse percurso, começa a participar de grupos de estudos aqui e fora de cidade, pois não só a técnica, mas o pensar a imagem torna-se necessário. A trajetória fascina e deixo me levar por ela. Aperfeiçoo o meu olhar, para poder me manifestar. Em 2019, me senti mais à vontade em participar de exposições coletivas, como: Interconnected- Setembro 2020- A Smith Gallery in Johnson City, Texas. Arquivo Arquipélago dezembro 2019 - Exposição integra a programação do Pólvora Circuito dos Espaços Autônomos de Arte. Atenção, Fotografia -julho de 2019- coletivo Atelier Livre Xico Stockinger. Instagram @marciahflores Marciele Auler é de Concórdia – SC, mãe, encadernadora, formada em Tecnologia em Alimentos 106


pelo Instituto Federal Catarinense – Campus Concórdia, é artista em construção. Apesar de não ter formação na área artística, é autodidata e utiliza-se de técnicas de artesanato, fotografia e design gráfico em sua profissão, e na maternidade, alia várias manifestações artísticas como literatura, movimento e manualidades através da apreciação da natureza. Cresceu na cidade mas com o coração voltado ao rural, há 12 anos escolheu o campo como moradia e estilo de vida. Mariana Medeiros (1993, Rio de Janeiro), reside na cidade de Pelotas (RS) desde 2013. Estudante do Programa de Pós Graduação (Mestrado) em Artes Visuais (PPGAV) na Universidade Federal de Pelotas na linha de Processos de criação e Poéticas do cotidiano. É graduada no curso de Artes Visuais Bacharelado da Universidade Federal de Pelotas (UFPel-2019). Sua produção relaciona-se à memórias vividas como desencadeadoras de trabalhos que tocam o campo da fotografia e da gravura em diferentes dimensões e delineia aproximações com o tempo, o corpo, a natureza e com a paisagem. É integrante e colaboradora do Projeto de pesquisa Arte e Natureza: proliferações (CA/ UFPel) desde janeiro de 2017, tendo atuado como bolsista de Iniciação Científica CNPq de agosto de 2018 a janeiro de 2020. Atualmente, investiga o campo da fotografia expandida, produzindo séries que abordam a casa e a paisagem para tratar relações de tempo e memória por meio de processos fotográficos alternativos e fotografias de longa exposição. Rachel Hidalgo é jornalista, licencianda em Artes Visuais e doutoranda em Educação Ambiental pela Universidade Federal do Rio Grande-PPGEA/FURG. Desenvolve trabalhos acadêmicos e autorais por meio do suporte audiovisual e fotográfico, utilizando-se do conceito de Educomunicação. Integra o Grupo de Pesquisa Ribombo e o grupo de produção audiovisual independente da Baixada Santistas, Noise Coletivo.

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Sandra Favero - Formação Doutorado em Poéticas Visuais, USP,2015. Mestrado Gestão do Design - UFSC, Fpolis, SC,2003. Pintura - EMBAP, PR, 1979. Atua como professora de graduação e pós-graduação em Artes Visuais, UDESC, Florianópolis. Exposições individuais: UNESC, Criciúma, SC; Numinoso, GMPPV, Fpolis, 2017; Estuário, Fundação Cultural de Itajaí, SC, 2019; Mostras coletivas: Fotografia: seus sistemas híbridos e fronteiriços, 13ª Bienal Internacional de Curitiba, Polo SC, Fundação Cultural BADESC, Fpolis; Abalo, Jardim do MHCS, Fpolis; Entre ser eu e ser muitas, MASC, Fpolis, 2017; Múltiplo, MVM, Fpolis; Irrupções Geográficas – transbordamentos possíveis, coletiva, Fundação Cultural BADESC, Fpolis, SC; Armazém, MASC – Sala Lindolfo Bell, Fpolis; Substrato, J. Botânico, Fpolis, 2018; Ciranda: entre ser eu e ser muitas, Espaço Cultural Armazém, Fpolis; Rudis Matéria, 14ª Bienal Internacional de Curitiba – Polo SC, MESC, Fpolis; Tipografia – Substantivo feminino, 19º Edição Projeto Armazém, Choque Cultural, SP, 2019. Tudo aquilo que não foi dito, curadoria Elisa Queiroz, MESC, Fpolis, SC, 2020; Rede Choque apresenta Sandra Correia Favero, curadoria de Juliana Crispe, Galeria Choque Cultural e Projeto Armazém, São Paulo, SP, 2020. Shayda Cazaubon é artista visual, arte-educadora, designer gráfico, mestranda em Artes Visuais na linha de Ensino (PPGAV/UDESC) e integrante do Coletivo [compor] (UDESC). Licenciada em Artes Visuais (UFPel), com período de mobilidade acadêmica em Portugal (UA). Técnica em Comunicação Visual (IFSul). Investiga o caminhar como prática poética e pedagógica, parte da noção do caminhar como meio sendo ele compreendido como um dispositivo criativo suspenso. Participou de exposições coletivas nacionais e internacionais e em 2020 teve sua primeira exposição individual. Thiani Canabarro Pereira - Estudante do ensino médio, natural de Santa Vitória do Palmar, apaixonada pela arte de fotografar e expressa seus sentimentos 108


através da música e do desenhos. É administradora do perfil @lentesdegaia nas redes sociais onde compartilha suas fotografias. Vivian Siqueira - Procurando relacionar as ruínas naturais com o corpo feminino, Vivian utiliza os resíduos encontrados em sua casa para tratar da transformação constante da matéria. A artista considera o trabalho doméstico em meio a um paradoxo de reparo e degradação. Entre tentativas de apreender as ruínas e lidar com a inevitável intempérie. Além disso, trata o desgaste como uma nova existência da matéria, e não como fim. Vivian Siqueira, 22, estuda Artes Visuais pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa o trabalho doméstico como operação de montagem em videoarte. É artista multidisciplinar, transita entre a fotografia, a videoarte, a escultura, a pintura, o desenho e a performance. Participou de diversas exposições coletivas, como as mais recentes Continuidades na Galeria de Arte e Pesquisa - GAP, online, 2020 e Mulheres Visíveis, online, 2020.

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Puxadinho da Ruína Expandida Conhecemos Irani na viagem entre Concórdia e Florianópolis, após nossa temporada na cidade com a Exposição Inventário. Em Concórdia, fomos carinhosamente recebidos na Galeria Municipal de Arte, cuja memória nos traz a imagem de uma galeria em que seu espaço se tornou ruína em uma reformulação paisagística do centro da cidade, meses após Inventário ter passado por lá. A galeria, uma estrutura de aço e vidro, inspirado na ópera de arame, foi substituída por containers. Assim são os processos de arruinamento na contemporaneidade, substituições constantes na paisagem, apagamentos que dilaceram. Em Tupi, Irani significa Rio de mel. Passamos pela geografia do vale do Contestado, enfrentando o sobe e desce das montanhas. Nas margens da BR-153, os resquícios de mais apagamento cultural: as heranças indígenas da população local eram invalidadas, como se ser descendente indígena fosse algo a ser escondido. Não apenas como falta de reconhecimento da ancestralidade, mas como negação. Isto é o resultado de séculos de violência cultural, de uma ocupação de empresas colonizadoras, que espantavam os nativos a tiros de espingarda. Nossa passagem pela região foi de muita escuta: um representante do município, trabalhador geral, que media os conhecimentos históricos, não lembramos de seu nome, pôde nos contar um pouco da história local. Desde o primeiro momento, nos deparamos com relatos do massacre ocorrido na região: a guerra conhecida historicamente como Contestado. "Contestado", porque os indígenas Guaranis da região de Concórdia e Irani contestaram a imposição do governo da República de saírem de suas terras, que seriam beneficiadas à Companhia de São Paulo, na criação da ferrovia São Paulo - Rio Grande, além de outras questões relacionadas à exploração da ma110


deira e da erva-mate. Uma pessoa responsável pela conservação da memória da versão indígena do conflito foi Vicente Telles (1931- 2017), que projetou o Anfiteatro de Imagem, Luz e Som, uma arquitetura monumental que seria um enorme palco a céu aberto, uma cúpula com fechamento automático, uma ilha artificial, uma arquibancada na encosta do morro de frente para o lago e a ilha. O projeto era audacioso, e previa a construção de uma cidade santa, um memorial, e um amplo estacionamento. O que hoje temos é um palco em ruínas, uma estrutura metálica enferrujada, a vegetação tomando conta, e uma potência arruinada. As ruínas contemporâneas, que nem chegaram a ser concluídas e já entraram em processo de desconstrução e desfazimento. No mesmo parque temático seria construída uma cúpula para abrigar o cemitério dos monges que lideraram as revoltas populares, aos quais jazem sob pedras. Não muito distante do local da batalha histórica há uma remanescente testemunha de uma densa floresta repleta de árvores com madeira de alto valor comercial. Uma imbuia centenária ainda resiste em meio a vegetação, às margens da BR-282, no município de Vargem Bonita, nas proximidades do Trevo de Irani. Esta imbuia, uma senhora árvore com seu tronco imponente e vastos galhos, é testemunha remanescente dos acontecimentos trágicos que banharam o planalto do meio oeste catarinense com sangue indígena, na segunda década do século XX. Nos troncos e galhos da imbuia, cem anéis abaixo de sua casca, talvez seja possível encontrar o carbono dos gases emitidos pela pólvora dos militares, que atacaram sem piedade os moradores da região, que reivindicavam seus direitos civis. As disputas de terras reuniam diversos fatores de contestação, que por muitos anos sofre tentativas de apagamento, embora os esforços sejam muitos para manter a memória viva, daqueles que enfrentaram as forças armadas, com facões e espingardas. 111


, por Beatriz Rodrigues; Páginas 114-117

Artista visual, fotógrafa, produtora cultural e arte-educadora. Reside e atua profissionalmente em Rio Grande/RS. Especialista em Fotografia, práxis e discurso pela UEL/PR, Bacharel em História pela FURG/RS e Licenciada em Filosofia pela UFPEL/RS. Desenvolve pesquisas em poéticas visuais, cartografando ruínas através da fotografia, em suas diversas possibilidades técnicas como meio de expressão. Sua pesquisa também se dá nas interfaces com outras linguagens, como a pintura, através de colorização manual de fotografias, e nas relações entre imagem e palavra, em obras-instalações e na criação de narrativas, através do livro de artista “Modos de habitar – diário de percurso”, publicado pela Editora Caseira em 2019. Atualmente, coordena o Projeto Inventário, financiado pelo Procultura Rio Grande/19, com ações culturais no campo das Artes Visuais, da Fotografia e do Livro de artista, com feira gráfica virtual, oficinas e intensa programação cultural. O projeto partiu da circulação da Exposição Inventário, em que a artista apresenta suas últimas obras sobre a temática da ruína, em vídeo, instalações e fotografias, com imagens de ruínas das cidades do Rio Grande do Sul em paralelo às ruínas de Salvador/BA.

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, por Gustavo Reginato; Páginas 118-121

Mestre em Artes Visuais, linha de pesquisa Processos Artísticos Contemporâneos – PPGAV/UDESC, com a dissertação “Viagens à Ilha de Santa Catharina: devaneios em arte impressa” sob orientação da Prof. Dr. Sandra Maria Correia Favero. Licenciado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Investigador do universo gráfico e suas tecnologias, coletor de ideias e de imaginários. Fundador, editor e impressor da Editora Caseira (www.editoracaseira.com), que fabrica e distribui publicações artesanais acreditando no poder dos livros como transformadores de micro-políticas. Desde 2011 é pesquisador no PhotoGraphein: Núcleo de pesquisa em Fotografia e Educação (UFPel/CNPq) coordenado por Cláudia Mariza Mattos Brandão. A partir de 2018 iniciou suas pesquisas no grupo Articulações Poéticas (UDESC/CNPq), coordenado por Silvana Barbosa Macedo e Sandra Maria Correia Favero, investigando processos de impressão, caminhadas, coletas e criação de narrativas.

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