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3ª edição

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© Teresa Carla Watson Callado e Paulo Crisostomo Watson Callado

Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite. EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. Rua Bambina, 25 Botafogo – 22251-050 Rio de Janeiro – RJ – Brasil Tel.: (21) 2131-1111 Fax: (21) 2537-2659 http://www.novafronteira.com.br e-mail: sac@novafronteira.com.br

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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. C16p Callado, Antonio, 1917-1997 3.ed. Pedro Mico / Antonio Callado. – 3.ed. – Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2004 ISBN 85-209-1692-9 1. Teatro brasileiro (Literatura). I. Título. CDD 869.92 CDU 821.134.3(81)-2

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PERSONAGENS

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(malandro de morro, preto, vinte a trinta anos) APARECIDA

(mulher branca, mesma idade, maltratada) MELIZE

(meninota vizinha, mulata) ZEMÉLIO

(irmão de Melize, meninote, mulato claro) TRÊS INVESTIGADORES

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ATO

ÚNICO

(Representação externa e interna de um barracão no morro da Catacumba1, à beira da lagoa Rodrigo de Freitas. O barracão se ergue encravado no barro, reforçado por estacas, como uma casa lacustre. No primeiro plano e pela direita, um caminho de barro circunda a casa. No interior do barracão, único cômodo, naturalmente, todo o mobiliário de uma favela está acumulado: a lata de gasolina de carregar água, cama, fogão, mesa de pau com bancos. No canto do fogão, prateleiras com louça etc. Mas se sente que o dono da casa é um dandy2 1. Morro da Catacumba: morro que cerca parcialmente a Lagoa Rodrigo de Freitas, bairro elegante na zona sul do Rio de Janeiro. Na década de 1950 havia uma favela nesse morro, à qual alude a peça de Callado. Essa favela não existe mais hoje e, em seu lugar, instalou-se um parque, o parque da Catacumba, transformado estrategicamente em espaço cultural, com várias obras de arte. 2. Dandy: um homem que se veste com muito cuidado. Um almofadinha.

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e um grande leitor dos jornais. Os jornais estão por toda parte. Na parede há um grande espelho e numa prateleira ao pé do espelho há dois pentes, brilhantina, escova e pasta, água-de-colônia. Num armário feito de caixote penduram-se uma roupa de panamá3 branco, outra de brim claro, um terno de sarjão4 azul-marinho, e, num barbante que passa diante das roupas, muitas gravatas, todas de cetim lustroso e cores vivas. O armário não tem porta. No chão do armário estão três pares de sapatos, de bico exageradamente longo, um vermelho, um bicolor e um de couro de boi, marrom e branco. A porta da rua é na parede do fundo, mais para a direita. Na parede da esquerda, bem visível, há uma janela fechada com uma tranca de madeira. Quando o pano se ergue, o espectador vê toda a cena em silhueta contra um céu claro, de noite de lua e estrelas. Uma mulher e um homem vêm de braços dados pela esquerda, passam pela frente do palco e sobem o 3. Panamá: tecido macio e próprio para roupas de verão. 4. Sarjão: tecido grosso, de lã.

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caminho à direita. Ouve-se a porta de pau abrir, ilumina-se o barracão. A luz é de um lampião de querosene em cima da mesa. Melize está adormecida, sentada à mesa, um livro diante dela. Entram Aparecida e Pedro Mico.) APARECIDA

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— Você me disse que não morava com mulher. (fechando a porta) — Isto não é mulher. É uma franga aí da vizinha. Está doida para conhecer homem, mas não há de ser comigo não. — Tadinha, vai ver que ela gosta de ti mesmo. — Ah, que gosta, gosta. Mas isto não é vantagem não. — Ué... (que tira o paletó branco e comprido e fica de blusão e calça de cintura alta e boca estreita, PEDRO MICO

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exagerando mais ainda o comprimento do sapato de bico fino) — É isto mesmo, mulher. Tem vantagem não. Dona que chega aqui perto do degas perde logo a autonomia. Não digo isso de besta não. Até que dar sorte assim às vezes enche. Mulher muito apaixonada enche. Mas que é que a gente vai fazer!... — Pretensão e água benta... — Como é o negócio? — Minha mãe sempre dizia isto quando a gente ficava presumida: pretensão e água benta cada um toma a que quer. — Hum... Quer dizer que é só meter a mão na pia e enxaguar a cara. ANTONIO CALLADO

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— Não é o que você está fazendo, bem? (dando de ombros) — Fica nas minhas redondezas e você vai ver. É fêmea que parece mato. Eu estou neste morro da Catacumba não tem dois meses e umas seis cabrochas já fizeram ranger as tábuas daquela cama ali. (mostra com o beiço) (petulante) — Mas você parou na praia de Ipanema e veio me buscar. E já tinha muitos dias que você aparecia lá e ficava me manjando, não é mesmo? — É que eu ando mesmo com saudade da vida de casado e queria uma mulher para viver junto. Mas aqui neste morro tudo quanto é mulher é analfa PEDRO MICO

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de pai e mãe! Eu vi logo que tu tinha pinta de saber ler. (rindo) — Você me deu um espanto! Nunca ninguém me abarracou perguntando se eu sabia ler, ora veja. — Da primeira vez que eu vi você lá na praia, assobiando pros homens de automóvel, tive vontade de te trazer pra uma experiência. Mas mulher analfabeta comigo não vai, não. Você disse que sabia ler bem à beça. (pega um jornal em cima da mesa) Lê um troço aí. (lendo fluentemente mas sem parecer entender muito) — “Os radicais-socialistas, liderados pelo ex-premier MendèsFrance, uniram-se aos socialistas para pedir que o futuro goANTONIO CALLADO

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verno da França seja formado por elementos dos dois partidos que concorreram às recentes eleições gerais sob a legenda da Frente Republicana...” — Chega. (demasiado concentrada na leitura para ouvi-lo) — “Por sua parte Pierre Poujade, líder do movimento contra os impostos, declarou que procurará aumentar...” — Está muito chato. — “...o número de filiados à sua organização e que talvez até tenham candidato próprio. U.P.” (gritando) — Ô mulher, como é que a gente te desliga? Vote! — Ué...! Não estava direito, seu professor?... PEDRO MICO

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— Estava, estava. Mas esse lero aí não resolve. (vira páginas do jornal) Aqui é que tem as coisas que interessam. Mete lá uma lida. — “De estarrecer as declarações da esquartejadora.” — Vê lá se já tem notícia da cabeça. Cabra dos infernos esta Maria da Penha. — Deixa ver. “Não houve nada de mais! O que está feito está feito.” (para Pedro) Cruzes! Corta o cara em pedaços, depois ainda diz que não houve nada de mais... — Anda, vê lá a cabeça. — ... “O esquartejamento e o despacho”... “Esconderia alguém?”... Ah, está aqui: “Em seu primeiro relato Maria da Penha Pereira deu a versão de ANTONIO CALLADO

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