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o racismo explicado aos meus filhos


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O racismo explicado aos meus filhos


Copyright © 2007 por Nei Lopes Direitos de edição da obra em língua portuguesa adquiridos pela Editora Nova Fronteira Participações S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite. Editora Nova Fronteira Participações S.A. Rua Nova Jerusalém, 345 – Bonsucesso – 21042-235 Rio de Janeiro – RJ – Brasil Tel.: (21) 3882-8200 – Fax: (21) 3882-8212/8313 projeto gráfico e capa Mariana Newlands assistente de design Amanda Newlands revisão Jorge Amaral produção editorial Felipe Schuery

CIP-Brasil. Catalogação na fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. L85r

Lopes, Nei, 1942O racismo explicado aos meus filhos / Nei Lopes. — Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. Inclui bibliografia ISBN 978-85-209-3090-8 1. Racismo 2. Negros — Brasil I. Título.

CDD: 30.5.8 CDU: 323.14


Sumário 1. Introdução ao racismo, 7 2. O racismo “científico”, 23 3. A “superioridade ariana”, 37 4. Antissemitismo e outros racismos, 45 5. Os povos indígenas, 61 6. Os negros, 81 7. Os negros africanos, 91 8. Escravidão, 99 9. Haiti, racismo e Independência nas Américas, 107 10. O racismo nos Estados Unidos, 115 11. A África do Sul e o apartheid, 127 12. “Brasil, meu mulato inzoneiro”, 137 13. Nossa “democracia racial”, 149


14. Racismo e criminalidade no Brasil, 157 15. A quest達o das cotas, 165 16. O racismo moderno, 173 Cronologia, 183 Bibliografia, 199 Biografia, 205


Capítulo 1

Introdução ao racismo


Paulinha chega da escola, esbaforida, como que assustada, desenganchando a mochila dos ombros e atirando-a de qualquer jeito sobre o sofá. A mãe, Lia, reclama, como de hábito, da desorganização da menina. O pai, excepcionalmente em casa naquele início de tarde, pergunta como foi a competição pela equipe do colégio, como foi o dia. — O motorista do ônibus ia brigando... — responde Paulinha. O pai pede detalhes, a menina relata: — Seu Jorge vinha dirigindo, calmo, aí um carro veio e “fechou” ele. Então, pra não bater, ele deu uma guinada pra direita. Vinha um carro “na toda”, não deu tempo de frear direito e ele bateu. Foi de leve, mas a motorista saiu do carro e xingou ele de “crioulo”. Disse que só podia ser mesmo um crioulo pra fazer uma burrice daquelas. Compreendendo a reação da filha, o professor Paulão, experiente no assunto, prepara-se para uma longa conversa, pois Paulinha, bastante abalada, já tem a pergunta pronta: — Por que é que sempre que acontece uma coisa dessas vem sempre esse tipo de xingamento, pai? Isso é muito triste... A família do professor Paulão — apelido pelo qual é conhecido por seus amigos e alunos de História — é mista. Ele é negro, sua mulher, Lia, tem ascendência judaica e é advo­


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gada; e o casal de filhos, mestiços obviamente, declara-se “afro-descendente”. O casal, apesar de suas heranças culturais diferentes, cria Paulinha e seu irmão Pedrinho sem impor predileções, nem de uma cultura nem de outra. E procura passar informações com o máximo de afetividade. Em casa, todos ouvem música negra, porque a mãe também gosta e não porque se sintam obrigados. Da mesma forma que ouvem clássicos europeus, bossa-nova, e os sucessos do momento. O importante é que a música seja boa! Religião, Lia segue a paterna. Mas respeita os orixás que seu marido cultua, pois acredita em sua força também. Assim, quando souberem, quiserem e puderem, os filhos farão a melhor opção. Comidas, Paulão, que é filho de baianos, trouxe para o casamento as preferências de sua tradição. Lia trouxe as suas também. E a mineira Dona Ernesta, que trabalha na casa, faz tudo com gosto, inclusive, acrescentando o que sabe. Isto é bom para Paulinha que come de tudo e faz combinações bastante interessantes e saudáveis, como moqueca de peixe com farfale, gefilte fish com feijão-de-leite... E para Pedrinho, que não é muito de comer mas belisca um faláfel aqui, um acarajé ali; e vai vivendo. Quanto à opção étnica, a escolha foi deles. Como, apesar da pele clara, os dois têm feições e cabelos negroides, entendem-se como negros. O pai lhes ensinou que quando uma pessoa de descendência mista se reivindica como afro-descendente, o que ela ressalta é a parte de sua herança que potencialmente a faz ser


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discriminada; e que portanto deve ser assumida em sua luta contra o racismo. E a mãe concorda, pois, para ela, a opção judaica é fundamentalmente religiosa e pode se dar mais tarde. Com relação a preconceito e racismo, há muito tempo que o professor vem adiando, mas agora vê que é o momento de ter uma conversa com os filhos. Uma conversa longa e aberta. E ele, que também muito já se questionou sobre o assunto, tem as respostas claras e organizadas. Começando “do começo”. O professor Paulão parte de uma definição: — Isso de achar que um grupo de pessoas da mesma cor ou da mesma origem tem sempre obrigatoriamente o mesmo tipo de comportamento, isso é uma ilusão. E essa ilusão, quando se dá em relação a alguém diferente de nós, parte de uma idealização que fazemos de nós mesmos. Nessa idealização, nós nos achamos superiores, melhores do que aquele que é diferente de nós na aparência, na origem ou nas duas coisas juntas. E isso tem um nome: racismo. Paulinha tem 14 anos e está na 8a série. E não entende bem. Mas neste momento chega Pedrinho, seu irmão, que já tem 17 e se prepara para o vestibular. Diante do interesse do filho, Paulão recomeça “do começo”. E conta uma história: — Antes de vocês nascerem, quando eu e sua mãe morávamos em Belo Horizonte, nós éramos sócios de um clube. Um dia, sem que ninguém entendesse bem, a secretaria do clube começou a fazer uma série de exigências a sócios que ainda estavam pagando as parcelas de seus títulos de propriedade, o que felizmente não era o nosso caso. Por incrível que pareça, até


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exames de sangue exigiam, alegando razões sanitárias ou preventivas de doenças. A menina ainda não entendeu aonde o pai quer chegar. Mas presta atenção. Pedrinho já conhece o episódio. O pai prossegue: — Até que uma associada, percebendo que a medida se dirigia especificamente a pretos e mulatos, denunciou o fato aos jornais. Foi quando o presidente do clube justificou a medida dizendo que o clube estava fazendo uma seleção entre seus associados, conservando apenas aqueles de posição social mais destacada, principalmente profissionais liberais, para evitar — conforme ele disse — “promiscuidade”. E, aí, a solução que a diretoria encontrou foi dificultar aos pretos e mulatos a quitação dos títulos, para que eles desistissem de frequentar o clube. Paulinha custa a acreditar. Mas o pai explica que, à época, praticar racismo não era crime, não era punido com severidade. — As leis brasileiras sobre o assunto eram muito brandas. — comenta Lia. — Mas, de qualquer forma, o caso repercutiu na imprensa e o clube foi de alguma forma penalizado. — completa o pai. Racismo é, então — raciocinemos juntamente com o professor Paulão e seus filhos —, aquele comportamento por meio do qual uma pessoa ou um grupo de pessoas manifesta uma ideia preconcebida — ou seja, um preconceito — contra um ou vários indivíduos pertencentes a um grupo de origem diferente e em geral considerada inferior. Observemos aqui que, em inglês, a palavra correspondente a “preconceito” é prejudice. E que o elemento “judice” presente nela significa “julgamento”. Então, o preconceito


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é um prejulgamento, ou seja: é um “juízo”, um julgamento que se faz antecipadamente, precipitado, pela aparência, sem que se conheça a essência de alguém, de um grupo ou mesmo de um objeto. E o filósofo francês Voltaire, no dicionário que publicou em 1764, ainda foi mais longe. Para ele, “o preconceito é uma opinião sem julgamento”. A origem de todo racismo é, então, o preconceito. Se, por exemplo, eu nunca comi quiabo e me enojo só com a aparência desse vegetal (que muita gente aprecia como alimento), eu não posso dizer que quiabo é ruim. Se eu disser isso, eu estarei sendo preconceituoso. Mas deixemos os quiabos de lado e voltemos ao racismo. O indivíduo racista parte de uma idealização de si mesmo para desvalorizar a pessoa ou grupo que ele considera inferior. Essa idealização resulta de uma impressão mental fixa, numa opinião preconcebida, derivada não de uma avaliação espontânea e sim de julgamentos repetidos rotineiramente. Aí, nesses julgamentos, o racista atribui, por suposição, características pessoais e de comportamento invariáveis a todos os membros de determinado grupo de pessoas. Foi por isso que, no caso contado por Paulinha, a motorista saiu do carro xingando Seu Jorge. Na cabeça dela, todos os negros são pouco inteligentes. E, na cabeça de outras pessoas, são vistos sempre como supersticiosos, subservientes, tristes, desconfiados e preguiçosos. E mesmo através de outros estereótipos. Pedrinho sabe o que é “subserviente”: é a pessoa submissa, que só obedece, de cabeça baixa, geralmente por medo. Mas não sabe bem o que é estereótipo. E o pai explica:


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— O estereótipo é uma espécie de fotografia que nossa imaginação faz. É uma ideia preconceituosa, uma suposição, que se cria, de um grupo de pessoas, a partir do comportamento de um ou mais indivíduos daquele grupo. Por exemplo, quando você vê, constantemente, nos livros de História, gravuras de negros escravos apanhando e chorando, você pode criar o estereótipo de que todo negro é covarde e medroso. Se você vê sempre, nas novelas de televisão, os negros servindo às mesas, limpando o chão, você pode criar o estereótipo de que todo negro é subserviente. Mas isso é uma impressão falsa. Como todo estereótipo. Numa pesquisa de opinião realizada em 1950 na Bahia entre funcionários públicos e estudantes de vários níveis (cf. Newton Freire-Maia), alguns grupos foram classificados pelos entrevistados da seguinte forma: Os alemães foram, de um modo geral, vistos como “materialistas, orgulhosos e cruéis, mas trabalhadores, disciplinados e empreendedores”; os argentinos foram tidos pelos pesquisados como “pretensiosos, orgulhosos e contadores de vantagens, porém progressistas, trabalhadores, organizados e alegres”; os indígenas foram conceituados como “desconfiados, supersticiosos, preguiçosos, vingativos e traiçoeiros, porém corajosos”; os japoneses foram igualmente vistos como “traiçoeiros, cruéis, vingativos e supersticiosos” sendo, contudo, “valentes e trabalhadores”; os judeus, por sua vez, levaram a pecha de “avarentos, gananciosos, astuciosos, desonestos e interesseiros”, sendo, entretanto, tidos como “inteligentes e econômicos”. Já os norte-americanos foram vistos na mesma pesquisa como “empreendedores, progressistas, alegres, inteligentes,


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trabalhadores e artistas, mas interesseiros”; os portugueses foram classificados como “sujos e pouco inteligentes”, sendo, entretanto, avaliados como “trabalhadores, econômicos, religiosos, bondosos e simples”. Nessa mesma pesquisa, os negros foram brindados pelos estudantes e pelos funcionários públicos apenas com estereótipos desfavoráveis. Observemos, com o professor Paulão e seus filhos, que os estereótipos modificam-se no tempo e no espaço. Diante dos acontecimentos históricos posteriores à década de 1950, quando se envolveram em várias guerras, os norte-americanos, talvez recebessem, hoje, outros tipos de julgamento, como o de “belicosos”, por exemplo. E isto quando sabemos que a maioria da nação norte-americana quer é viver em paz; e que nem todos os cidadãos do país concordam com a política armamentista de seus governos. Vamos ver também que existem várias formas e manifestações de racismo, desde o preconceito, que é apenas um julgamento; passando pela discriminação, que é a forma de tratamento desigual, pela segregação, que é a separação física de grupos, baseada no racismo; passando também pelo molestamento, que é a agressão física por motivos “raciais”; e podendo chegar ao extremo do genocídio. E a partir dessa conversa, iniciada com o episódio de Seu Jorge, o professor Paulão, por sugestão de Lia, resolve realizar uma espécie de seminário, de mesa-redonda, um fórum de discussão sobre o assunto — como na televisão. Aí, duas ou três vezes por semana, durante o café da manhã, ele, os filhos e a mulher conversam sobre o assunto, cada um trazendo sua dúvida ou o seu


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esclarecimento. E Dona Ernesta, a funcionária da casa, de vez em quando também coloca suas questões. Hoje, por exemplo, o assunto recua até a Antiguidade, até muito antes de Cristo. O professor Paulão mostra aos filhos uma Bíblia, um livro sobre o Egito dos faraós e outro sobre o movimento cristão das Cruzadas, na Idade Média. E conta: — Mais ou menos entre os anos 1880 e 1840 a.C., reinava no Egito um faraó chamado Senusret ou Sesóstris III, que foi um dos maiores conquistadores do seu tempo. Nessa época, havia no sul do Egito, na fronteira com a Núbia, onde é hoje, vejam aqui — o professor mostra o mapa —, a República do Sudão; havia um conjunto de fortificações nunca antes vistas. Avançadíssimas para a época, elas foram construídas para evitar que os núbios (povo que ora era aliado ora era inimigo) ameaçassem, como já haviam feito algumas vezes, a tranquilidade e o poderio egípcio. Esses núbios, que eram guerreiros muito bem-treinados, mantinham laços culturais, religiosos e possivelmente de parentesco com os egípcios. Mas, naquele momento, eram seus inimigos. Vai daí que, no século XIX da nossa era, quando os europeus começaram a decifrar as inscrições feitas nos antigos monumentos egípcios, por uma tradução incorreta da palavra “núbios”, espalhou-se a lenda de que o faraó Sesóstris teria, nas fortificações, gravado um decreto segundo o qual “nenhum negro” poderia ultrapassar a fronteira sul do território egípcio, a não ser com propósitos comerciais, de comprar ou vender. Dando sequência ao seu raciocínio, o professor explica aos filhos que, segundo a mais moderna ciência, egípcios e núbios têm origem comum, sendo estes, ao que consta, mais antigos


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que aqueles. Em tempos ainda mais antigos, conta-se que os egípcios consideravam a Núbia como a terra de seus ancestrais; e o caudaloso rio Nilo, que, nascendo na atual Uganda, passa pela Núbia bem antes de chegar à região egípcia do Delta, onde reinaram os mais legendários faraós, pode ser uma das comprovações dessa afirmativa. Assim, podemos perceber que o conceito de “negro” ou mesmo qualquer referência à cor de pele talvez não fosse importante naquele contexto histórico. Paulão ainda explica aos filhos que, antes e depois desse faraó Sesóstris III, o Egito teve como governantes muitos faraós núbios e etíopes, negros portanto, sem falar de toda uma grande família, toda uma dinastia, a 25a, que reinou cerca de cem anos, entre, mais ou menos, 770 e 665 a.C. O professor agora folheia a Bíblia para mostrar, no Antigo Testamento, no livro do Gênesis, a passagem que ficou conhecida como a “maldição de Cam”, que durante muito tempo justificou tudo de ruim que ainda recai sobre africanos e descendentes. Filho de Noé, o sobrevivente do dilúvio universal, Cam é tido, segundo algumas interpretações do Gênesis, como o ancestral, o antepassado mais antigo do povo negro. Os povos da Arábia, do Líbano, da Palestina, do Egito e da Etiópia são, conforme essas interpretações, em grande parte os descendentes de Cam. Conforme a tradição do Gênesis, Cam foi pai de Cuxe, Mesraim ou Egito, Fut ou Líbia, e Canaã. Os filhos de Cuxe foram Saba ou Sebá, Hévila ou Havilá, Sabata ou Sabtá, Raamá ou Regma, e Sabataca ou Sabteca. Os de Raamá foram Sabá e Dedã. Todos esses nomes designaram, na Antiguidade, regiões da África Oriental e da Arábia, o que poderia indicar, em termos


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históricos, a existência real desses personagens e seu papel de heróis fundadores. Segundo a tradição hebraica, Cam — em algumas versões, Canaã — foi amaldiçoado e condenado a ser escravo por ter visto o corpo nu do pai, que dormia embriagado. Essa passagem bíblica serviu, durante anos, como justificativa para a escravização dos negros, tidos como portadores da “maldição de Cam”. Entretanto, segundo modernas interpretações, a associação de Cam ao povo negro é uma falsificação histórica, usada apenas como uma justificativa para a escravidão e a inferiorização dos africanos. Tudo isso o professor Paulão, com a ajuda de Lia, explica aos filhos para mostrar que, muitas vezes, o racismo é usado como estratégia. Muitas vezes, até hoje, quando se quer dominar um povo, utilizam-se preconceitos e estereótipos negativos: — É mesmo! — observa Pedrinho — Depois daquele episódio do 11 de Setembro, nos Estados Unidos, com a explosão das “torres gêmeas”, muitos árabes e muçulmanos, sem terem nada com aquilo, passaram a ser vistos como terroristas. — Perfeito! E assim, muitos povos da Antiguidade — continua Paulão — se achavam os melhores. E qualquer estrangeiro era “bárbaro”, “inferior”, “selvagem”. Bastava ser... diferente. O racismo, desde os tempos antigos, é basicamente uma rejeição daquela pessoa que é diferente de nós. Segundo o historiador grego Heródoto, os antigos egípcios evitavam a companhia de pessoas de rosto claro e cabelos ruivos, como alguns gregos, por considerá-las maléficas; os persas, por sua vez, consideravam-se


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absolutamente superiores ao resto da Humanidade; e, mesmo na África, as concepções filosóficas e religiosas dos iorubanos (povo do sudoeste na Nigéria que trouxe o candomblé e seus orixás para o Brasil) acreditaram que essa mesma Humanidade teria se originado em Ilê Ifé, onde a divindade Obatalá criou a Terra. — Obatalá é coisa de macumba! — observa Paulinha, ao que a mãe corrige. — “Macumba” é um termo preconceituoso, minha filha. A religião dos orixás iorubanos é importante e tem uma filosofia... — Mas o professor Paulão já está mostrando outro livro. — Na época das Cruzadas, na Idade Média — diz ele — os europeus tomaram contato próximo com os mouros, que são aqueles povos do noroeste da África, de Marrocos e da Mauritânia principalmente, portadores de cultura e de aparência árabe. Aí, criaram-se mitos e lendas sobre mulheres mouras de beleza fantástica, perturbadora. E isso teria gerado a necessidade de se falar de mouras feias também, para neutralizar: então, criou-se a lenda da “Moura Torta”, bruxa, feiticeira, aleijada, horrenda... — Eu conheço essa história! — Paulinha interrompe; mas o pai continua. — ...e em contraposição a ela, começou-se a idealizar o tipo de cabelos louros e olhos azuis, com que até hoje se representam os anjos e as criaturas santificadas. O professor Paulão faz toda essa explanação a seus filhos para lhes mostrar que o preconceito não é um sentimento provocado pela experiência, porque vem antes dela. E que o racismo é uma ilusão de superioridade. O racista se acha superior àquele a quem


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se compara: ele nasceu para mandar e o outro, visto como inferior a ele, para obedecer. O racismo, então, é antes de tudo a expressão de desprezo por uma pessoa. Às vezes não por causa de suas características, mas por aquela pessoa pertencer a um grupo. Como, por exemplo, quando se diz: “eu não gosto desse índio porque todos os índios são preguiçosos!”. Explica, ainda, o professor que o termo “racista”, que é relativamente recente, vem de “raça”, que é bem mais antigo mas não existia no latim. De início, o termo, originado no italiano razza, tinha o sentido de índole ou característica. Por exemplo: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir à cólera vindoura?” — como na passagem bíblica. Depois é que passou a se referir a cada uma das variedades da espécie humana ou de qualquer espécie de animais: raça branca, raça amarela, raça negra, etc. Por esse tempo, achava-se que a espécie humana era composta de grupos bem distintos, de características biológicas diferentes. Esses grupos eram as “raças”; e essas “raças” podiam ser colocadas em ordem hierárquica, segundo uma escala em que umas valiam mais do que outras. — Depois — Lia ajuda — passou-se a definir raça como todo grupo de pessoas com as mesmas características físicas, mesmas origens geográficas e mesmos hábitos culturais. Mas ainda faltava alguma coisa. As características físicas, em que se baseava a noção de raça e que se achava que sempre eram passadas de pais para filhos, eram a cor da pele, o formato da cabeça, o tipo de cabelo, etc. Mas hoje está provado que não é bem assim; que o fator “cultura” (conjunto


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de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos e costumes) é muito mais importante na diferenciação entre os grupos humanos; e que certos povos de origens biológicas diferentes estão mais próximos entre si do que outros da mesma origem. Existem, sim, diferenças biológicas entre indivíduos de origens diferentes. Mas a cor da pele, a tessitura do cabelo, nada disso explica, por exemplo, que um povo seja mais desenvolvido do que outro. A História, e não a natureza, é que determina o desenvolvimento desigual dos povos. Durante o seu período de adaptação aos diversos ambientes que ia encontrando em sua caminhada pelo mundo, a partir do continente africano, há milhões de anos, a espécie humana foi se transformando. Mas a partir do momento que tomou as diversas formas que ostenta hoje, ela se desenvolveu sem que seu corpo sofresse mudanças importantes. Transformações houve, sim, mas todos os seres humanos têm, basicamente, as mesmas características em sua anatomia. Aqui, Pedrinho pede ao pai e à mãe que falem mais um pouco sobre essa origem africana da Humanidade. E é isto o que ouve: — Os primeiros hominídeos, ancestrais do moderno ser humano, surgiram e evoluíram há mais de 4 milhões de anos — Paulão mostra no mapa —, aqui nesta parte oriental do continente africano. Daqui, a partir de mais ou menos 100.000 a.C., os representantes da espécie Homo sapiens, expressão que significa “homem que pensa”, “que tem inteligência”, os representantes dessa espécie já moderna, que é a nossa, se dispersaram em várias direções, aos poucos, até alcançarem todos os outros continentes. Em 2001, uma equipe de pesquisadores norte-americanos apresentou, num congresso da Organização do Genoma Humano,


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uma conclusão de pesquisa segundo a qual os europeus modernos descendem de um grupo de africanos que, há cerca de 25 mil anos, migrou de seu local de origem em direção ao norte. E essa conclusão da equipe derrubou definitivamente a ideia de que os humanos teriam evoluído, em grupos de origem distinta, simultaneamente na África, na Ásia e na Europa, como antigamente se pensava. Paulinha e Pedrinho estão entendendo tudo e bastante interessados. Mas Paulão e Lia têm outros compromissos, e encerram a conversa para continuarem outra hora.

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